A viajante do tempo



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40 – ABSOLVIÇÃO
Não me lembro de ter encontrado o caminho para a minha cama, mas devo tê-lo feito porque acordei ali. Anselmo estava sentado junto à janela, lendo. Sentei-me na cama com um salto.

- Jamie? - perguntei com a voz rouca.

- Dormindo - ele disse, deixando o livro de lado. Olhou para a vela de marcar horas sobre a mesa. - Como você. Esteve com os anjos nas últimas trinta e seis horas, ma belle. — Encheu uma caneca de uma jarra de cerâmica e segurou-a junto aos meus lábios.

Em outra época, eu teria considerado o fato de beber vinho na cama antes de escovar os dentes como a última palavra em decadência. Quando realizado num mosteiro, na companhia de um franciscano em seu hábito, o ato parecia menos degenerado. E o vinho realmente cortou a sensação musgosa em minha boca.

Lancei os pés para fora da cama e fiquei sentada, oscilando. Anselmo segurou-me pelo braço e me ajudou a deitar outra vez. De repente, ele parecia ter quatro olhos e mais narizes e bocas do que o estritamente necessário.

- Estou um pouco tonta — eu disse, fechando os olhos. Abri um deles. Um pouco melhor. Pelo menos, havia apenas um Anselmo, ainda que um pouco embaçado nos contornos.

Anselmo inclinou-se sobre mim, preocupado.

- Quer que eu vá buscar o irmão Ambrose ou o irmão Polydore, madame? Tenho pouca habilidade em medicina, infelizmente.

- Não, não preciso de nada. É que me levantei rápido demais. - Tentei novamente, mais devagar. Desta vez, o quarto e tudo que havia nele permaneceram relativamente imóveis. Notei inúmeras manchas roxas e contusões antes submersas na minha tontura. Tentei limpar a garganta e senti que doía. Fiz uma careta de dor.

- Realmente, ma chère, acho que talvez... - Anselmo estava parado junto à porta, pronto para sair em busca de ajuda. Parecia bastante assustado. Estendi a mão para o espelho sobre a mesa e depois mudei de idéia. Não estava realmente pronta para o que veria. Em vez disso, agarrei a jarra de vinho.

Anselmo voltou devagar para dentro do quarto e ficou observando-me. Uma vez convencido de que afinal eu não ia desmaiar, sentou-se outra vez. Tomei o vinho em pequenos goles enquanto minha mente clareava, tentando livrar-me dos efeitos colaterais dos sonhos induzidos pelo ópio. Então, estávamos vivos, afinal. Nós dois.

Meus sonhos foram caóticos, repletos de violência e sangue. Sonhei inúmeras vezes que Jamie estava morto ou morrendo. E em algum lugar na neblina havia a imagem do garoto na neve, seu rosto redondo e surpreso sobrepondo-se à imagem do rosto ferido e espancado de Jamie. Às vezes, a penugem patética do bigode parecia surgir no rosto de Frank. Lembrei-me distintamente de ter matado todos os três. Sentia como se tivesse passado a noite num massacre e todos os meus músculos doíam com uma espécie de depressão apática.

Anselmo ainda estava ali, observando-me pacientemente, as mãos nos joelhos.

- Há uma coisa que poderia fazer por mim, padre - eu disse.

Ele levantou-se imediatamente, ansioso para ajudar, estendendo a mão para a jarra.

- Claro. Mais vinho? Sorri debilmente.

- Sim, porém mais tarde. No momento, quero que ouça minha confissão.

Ele ficou surpreso, mas rapidamente recompôs o ar profissional como se fosse o hábito que vestia.

- Mas, é claro, chère madame, se assim o deseja. Mas não seria melhor se eu fosse buscar o padre Gerard? Ele é famoso como confessor, ao passo que eu — encolheu os ombros do jeito gaulês — tenho permissão para ouvir confissões, é claro, mas na verdade raramente o faço, sendo apenas um pobre estudioso.

- Eu quero o senhor - eu disse com firmeza. - E quero fazer isso agora.

Ele suspirou, resignado, e saiu para pegar sua estola. Arrumando-a em volta do pescoço de modo que a seda roxa ficasse reta e lustrosa sobre a frente preta do hábito, sentou-se no banco, abençoou-me rapidamente e recostou-se, aguardando.

E eu lhe contei. Tudo. Quem eu era e como fora parar ali. Sobre Frank e sobre Jamie. E sobre o jovem soldado inglês dos dragões com o rosto pálido, cheio de espinhas, morrendo sobre a neve.

Ele não mostrou nenhuma mudança de expressão enquanto eu falava, exceto que os olhos castanhos e arredondados ficaram ainda mais redondos. Quando terminei, ele piscou uma ou duas vezes, abriu a boca para falar, fechou-a outra vez e sacudiu a cabeça como se quisesse desanuviá-la.

- Não - eu disse, pacientemente. Limpei minha garganta outra vez; grasnei como um sapo grande. - Não esteve ouvindo coisas. E não as está imaginando, tampouco. Entende agora por que eu queria que ouvisse sob o sigilo da confissão?

Assentiu, um pouco distraído.

- Sim. Sim, claro. Se... mas, sim. Claro, não queria que eu contasse a ninguém. Além disso, como falou comigo sob o sigilo do sacramento, espera que eu acredite. Mas... - Coçou a cabeça, depois ergueu os olhos para mim. Um amplo sorriso espalhou-se lentamente pelo seu semblante.

- Mas que maravilha! — exclamou em voz baixa. — Que extraordinário! Maravilhoso!

- "Maravilhoso" não é exatamente a palavra que eu teria escolhido -eu disse secamente —, mas "extraordinário" certamente. - Tossi e peguei a caneca para tomar mais um gole de vinho.

- Mas é... é um milagre - ele disse, como se falasse consigo mesmo.

- Se prefere assim — eu disse, com um suspiro. — Mas o que eu quero saber é o que devo fazer. Sou culpada de assassinato? Ou de adultério? Não que haja muita coisa a ser feita em nenhum dos dois casos, mas eu gostaria de saber. E já que estou aqui, como devo agir? Posso... quero dizer, devo... usar o que sei para... mudar os acontecimentos? Nem sei se isso é possível. Mas se for, tenho esse direito?

Ele balançou-se no banco, para a frente e para trás, pensando. Lentamente, ergueu os dois dedos indicadores, uniu suas pontas e fitou-os por um longo tempo. Finalmente, sacudiu a cabeça e sorriu para mim.

- Não sei, ma bonne amie. Não é, deve compreender, uma situação que uma pessoa esteja preparada para encontrar em um confessionário. Vou ter que pensar e rezar. Sim, certamente rezar. Esta noite meditarei sobre sua situação quando fizer minha vigília junto ao Santíssimo Sacramento. E talvez amanhã eu possa aconselhá-la.

Indicou-me gentilmente que ajoelhasse.

- Mas por enquanto, minha filha, eu a absolvo. Quaisquer que tenham sido seus pecados, tenha fé que serão perdoados.

Ergueu uma das mãos para a bênção, colocando a outra sobre minha cabeça.

- Te absolvo, in nomine Patri, et Filii... Erguendo-se, ajudou-me a levantar.

- Obrigada, padre — eu disse. Não sendo uma crente, usei a confissão apenas para forçá-lo a me levar a sério e fiquei um pouco surpresa ao sentir que o fardo em meu espírito tornara-se mais leve. Talvez fosse apenas o alívio de contar a verdade a alguém.

Ele fez um aceno com a mão, em despedida.

- Eu a verei amanhã, chère madame. Por enquanto, devia descansar mais, se puder.

Dirigiu-se para a porta, dobrando sua estola cuidadosamente. Na soleira, parou um instante, voltando-se para sorrir para mim. Uma animação infantil iluminava seus olhos.

- E talvez amanhã... - disse - talvez possa... contar-me como foi essa experiência?

Devolvi o sorriso.

- Sim, padre. Eu lhe contarei.

Depois que ele saiu, fui arrastando-me com dificuldade até o quarto de Jamie. Eu já vira inúmeros cadáveres em condições muito melhores, mas seu peito levantava-se e abaixava-se regularmente e o sinistro tom esver-deado havia desaparecido de sua pele.

- Eu o acordo a um intervalo de algumas horas, apenas o suficiente para ele engolir algumas colheradas de sopa. - O irmão Roger estava junto a mim, falando em voz baixa. Seu olhar moveu-se do paciente para mim e horrorizou-se perceptivelmente com a minha aparência. Eu deveria ter penteado o cabelo. - Ha, talvez a senhora aceitasse... um pouco?

- Não, obrigada. Acho... acho que vou dormir mais um pouco. -Já não me sentia sobrecarregada de culpa e depressão, mas uma sensação de tranqüilidade e sonolência espalhava-se pelo meu corpo, deixando minhas pernas e braços pesados. Se eram os efeitos da confissão ou do vinho, descobri, para minha surpresa, que estava ansiando pela cama e pelo esquecimento.

Inclinei-me para tocar em Jamie. Sua temperatura era tépida, mas sem nenhum resquício de febre. Acariciei sua cabeça suavemente, alisando os cabelos ruivos desgrenhados. O canto de sua boca moveu-se ligeiramente e voltou ao normal. Mas ele esboçara um sorriso. Eu tinha certeza.

O céu estava frio e úmido, enchendo o horizonte com um vazio cinzento que se misturava à névoa cinza das colinas e à neve enlameada da semana anterior, de tal modo que o mosteiro parecia envolto em uma bola de algodão sujo. Mesmo no interior do claustro, o silêncio do inverno pesava sobre os habitantes. Os cânticos das Horas de Louvor na capela quase não eram ouvidos e as grossas paredes de pedra pareciam absorver todos os sons, abafando a agitação da atividade diária.

Jamie dormiu durante quase dois dias, acordando apenas para tomar um pouco de sopa ou de vinho. Uma vez acordado, começou a se recuperar à maneira normal de um homem jovem e saudável, repentinamente privado da força e da independência a que está acostumado. Em outras palavras, ele aproveitou os mimos e excessos de atenção por aproximadamente vinte e quatro horas e depois passou a ficar alternadamente nervoso, irrequieto, impaciente, irritado, irascível, rebelde e extremamente mal-humorado.

Os cortes nos ombros doíam. As cicatrizes nas pernas coçavam. Estava cansado de deitar de bruços. O quarto estava quente demais. Sua mão doía. A fumaça do braseiro fazia seus olhos arderem tanto que não conseguia ler. Não agüentava mais sopas, mingaus e leite. Queria carne.

Reconheci os sintomas da recuperação da saúde e fiquei contente com eles, mas só estava preparada para aturar uma fração de tudo aquilo. Abri a janela, troquei os lençóis, apliquei pomada de cravo-da-índia em suas costas e esfreguei suas pernas com seiva de babosa. Depois, chamei um irmão e pedi mais sopa.

- Não quero mais este caldo ralo! Quero comida! - empurrou a bandeja com irritação, fazendo a sopa derramar-se no guardanapo junto à tigela.

Cruzei os braços e o fitei. Olhos azuis arrogantes encararam-me sem pestanejar. Estava magro como um palito, os contornos do maxilar e das maçãs do rosto sobressaindo-se na pele. Embora estivesse se recuperando bem, os nervos sensíveis de seu estômago levariam um pouco mais para ficarem curados. Às vezes, ainda não conseguia manter no estômago a sopa e o leite.

- Vai ter comida quando eu disser que pode — informei-o - e não antes.

- Vou comer agora! Acha que pode me dizer o que vou comer?

- Sim, pode apostar que sim! Sou a médica aqui, caso já tenha esquecido.

Ele jogou as pernas para fora da cama, obviamente pretendendo sair andando. Coloquei a mão em seu peito e o empurrei de volta.

- Seu dever é ficar nessa cama e fazer o que mandam, ao menos uma vez na vida — disse rispidamente. - Não está em condições de sair da cama e não está pronto para alimentos sólidos ainda. O irmão Roger disse que vomitou outra vez hoje de manhã.

- O irmão Roger tem que cuidar da vida dele e você também - falou entre os dentes, esforçando-se para ficar em pé outra vez. Estendeu o braço e agarrou a borda da mesa. Com considerável esforço, pôs-se de pé e ficou ali parado, cambaleando.

- Volte para a cama! Você vai cair! - Estava assustadoramente pálido e mesmo o pequeno esforço de ficar em pé fez com que começasse a suar frio.

- Não, não vou - disse. - E se cair, é problema meu. Dessa vez, fiquei realmente furiosa.

- Ah, é mesmo? E quem você acha que salvou sua maldita vida para você? Fez tudo sozinho, hein? - Agarrei-o pelo braço para fazê-lo voltar para a cama, mas ele desvencilhou-se com um safanão.

- Eu não lhe pedi isso, pedi? Disse que me deixasse, não foi? E, aliás, não sei por que se deu ao trabalho de salvar minha vida, se é para me matar de fome, a menos que goste de ficar olhando!

Aquilo já era demais.

- Seu ingrato desgraçado!

- Víbora!

Empertiguei-me o mais que pude e apontei ameaçadoramente para a cama. Com toda a autoridade adquirida em anos de prática de enfermagem, eu disse:

- Volte para a cama agora mesmo, seu teimoso, cabeçudo, maldito...

- Escocês - ele concluiu para mim, sucintamente. Deu um passo em direção à porta e teria caído se não tivesse se apoiado num banco. Desmoronou pesadamente sobre ele e ficou sentado, oscilando, os olhos um pouco desfocados de tontura. Cerrei os punhos e fitei-o com raiva.

- Tudo bem - disse. - Parabéns! Vou pedir pão e carne para você e, depois que vomitar no chão, pode ficar de quatro e limpar o chão você mesmo! Eu não vou limpar e se o irmão Roger fizer isso, eu o esfolo vivo!

Saí intempestivamente para o corredor e bati a porta atrás de mim, no exato instante em que a bacia de porcelana espatifou-se no lado de dentro. Virei-me e me deparei com uma platéia curiosa parada no corredor, sem dúvida atraída pela algazarra. O irmão Roger e Murtagh estavam lado a lado, fitando meu rosto afogueado e peito arquejante. Roger parecia desconcertado, mas um leve sorriso espalhou-se pelo semblante enrugado de Murtagh quando ouviu a série de obscenidades em gaélico proferidas do outro lado da porta.

- Ele já está melhor - disse com satisfação. Recostei-me na parede do corredor e senti um sorriso espalhar-se lentamente pelo meu próprio rosto.

- Bem, sim - eu disse. - Ele está.

No caminho de volta ao prédio principal depois de uma manhã inteira passada no canteiro de ervas medicinais, encontrei-me com Anselmo, vindo do claustro ao lado da biblioteca. Seu rosto se iluminou ao me ver e apressou-se ao meu encontro no pátio. Caminhamos juntos pelas instalações do mosteiro, conversando.

- O seu problema é muito interessante, sem dúvida - ele disse, quebrando um galho fino de um arbusto junto à parede. Examinou os botões ainda bem fechados com ar crítico, depois atirou o galho fora e ergueu os olhos para o céu, onde um sol fraco procurava infiltrar-se pela leve camada de nuvens.

- Está mais quente, mas ainda falta muito para a primavera - observou. Ainda assim, as carpas devem estar alegres hoje. Vamos descer até os lagos de peixes.

Longe de serem as delicadas estruturas ornamentais que eu imaginara, os lagos de peixes eram uma espécie de reservatórios utilitários, forrados de pedra, convenientemente localizados junto às cozinhas. Recheados de carpas, forneciam o alimento necessário para as sextas-feiras e os dias de jejum, quando as condições do tempo eram ruins demais para a pesca no mar de hadoques, arenques e linguados, mais comuns à mesa.

Confirmando as palavras de Anselmo, as carpas estavam alegres e cheias de vida, os corpos gordos e afunilados deslizando uns pelos outros, as escamas brancas refletindo as nuvens acima, o vigor de seus movimentos ocasionalmente agitando pequenas ondas que espirravam nas bordas de sua prisão de pedras. Quando nossas sombras recaíram sobre a água, as carpas viraram-se para nós como agulhas de bússola atraídas para o norte.

- Esperam ser alimentadas quando vêem pessoas - Anselmo explicou. - Seria uma vergonha decepcioná-las. Um momento, chère madame.

Lançou-se em direção às cozinhas, retornando logo depois com dois pães dormidos. Ficamos parados na beira do lago, jogando migalhas de pão para as bocas insaciavelmente famintas abaixo.

- Sabe, há dois aspectos curiosos em sua situação — ele disse, absorto em cortar migalhas do pão. Olhou-me de relance, um sorriso súbito iluminando seu rosto. Sacudiu a cabeça, admirado. - Eu ainda mal posso acreditar, sabe. Que maravilha! É verdade, Deus foi muito bom em me mostrar tudo isso.

- Bem, isso é bom — eu disse, um pouco secamente. — Não sei se Ele foi tão bom assim comigo.

- É mesmo? Eu acho que foi. - Anselmo agachou-se, esfarelando pão entre os dedos. — É bem verdade que a situação não lhe causou poucas inconveniências pessoais...

- Essa é uma das maneiras de colocar a questão - murmurei.

- Mas também pode ser encarada como um sinal da graça de Deus — continuou, indiferente à minha interrupção. Os brilhantes olhos castanhos olharam-me especulativamente.

- Eu rezei para que Deus me iluminasse, de joelhos diante do Santíssimo Sacramento e, enquanto estava ali no silêncio da capela, eu parecia vê-la como uma sobrevivente de um naufrágio. E me parece que este é um bom paralelo para a sua situação atual, não acha? Imagine uma alma de repente atirada numa terra estranha, sem amigos ou familiares, sem nenhum recurso, a não ser os que a nova terra possam oferecer. Tal acontecimento é um desastre, sem dúvida, e no entanto pode significar a abertura para grandes oportunidades e bênçãos. E se a nova terra for rica? Novos amigos a conquistar e uma nova vida a iniciar.

- Sim, mas... - comecei a protestar.

- Portanto - continuou com autoridade, erguendo um dedo para que eu me calasse —, se você foi privada de sua vida anterior, talvez Deus tenha achado melhor abençoá-la com outra, que pode ser mais rica e mais completa.

- Ah, é mais completa, sem dúvida — concordei. — Mas...

- Agora, do ponto de vista da lei canônica - disse, franzindo a testa -, não há nenhum problema em relação a seus casamentos. Ambos foram válidos, consagrados pela Igreja. E estritamente falando, seu casamento com o jovem cavalheiro que está lá dentro antecedeu seu casamento com monsieur Randall.

- Sim, "estritamente falando" — concordei, pretendendo desta vez terminar ao menos uma frase. - Mas não na minha época. Não creio que a lei canônica tenha sido criada com tais contingências em mente.

Anselmo riu, a barba pontuda agitando-se na brisa leve.

- É bem verdade, ma chère, é bem verdade. Tudo que quis dizer foi que, do ponto de vista estritamente legal, você não cometeu nem pecado nem crime naquilo que fez com respeito a esses dois homens. Esses eram os dois aspectos de sua situação que mencionei antes: o que você fez e o que você fará. - Tomou minha mão nas suas, puxando-me para que me sentasse ao seu lado, de modo que nossos olhos estivessem no mesmo nível.

- Foi isso que me perguntou quando ouvi sua confissão, não foi? O que eu fiz? E o que devo fazer?

- Sim, foi. E está me dizendo que não fiz nada de errado? Mas eu... Ele era, pensei, quase tão propenso a interromper a fala dos outros quanto Dougal MacKenzie.

- Não, não fez - disse com firmeza. - É possível agir em absoluto acordo com as leis de Deus e com a própria consciência, e ainda assim deparar-se com dificuldades e tragédia. É a dolorosa verdade que nós ainda não sabemos por que le bon Dieu permite que o mal exista, mas temos a Sua palavra de que isso é verdade. "Eu criei o bem", Ele diz na Bíblia, "e Eu criei o mal". Conseqüentemente, até mesmo pessoas boas, eu acho, especialmente as boas - acrescentou pensativamente —, podem deparar-se com grande confusão e dificuldades em suas vidas. Por exemplo, veja o rapaz que você teve que matar. Não - disse, erguendo a mão para que eu não o interrompesse -, não se engane. Você foi obrigada a matá-lo, por exigência de sua situação. Até a Santa Igreja, que prega a santidade da vida, reconhece a necessidade de uma pessoa defender a si e à sua família. E tendo visto a condição em que seu marido estava - lançou um olhar na direção da ala dos hóspedes -, não tenho dúvidas de que foi obrigada a tomar o caminho da violência. Assim sendo, não tem nada com que se reprovar. Certamente, sente pena e lamenta o ato extremo, porque é, madame, uma pessoa de grande compaixão e sentimentos. - Bateu delicadamente na minha mão, pousada sobre meus joelhos.

- Às vezes, nossas melhores ações resultam em acontecimentos lamentáveis. No entanto, você não poderia ter agido de outra forma. Não sabemos qual era o plano de Deus para o rapaz, talvez fosse Sua vontade que o rapaz se juntasse a Ele no céu naquela ocasião. Mas você não é Deus e há limites para o que pode esperar de si mesma.

Estremeci ligeiramente quando um vento frio nos envolveu e me enrolei mais no meu xale. Anselmo viu e fez um gesto indicando o lago.

- A água está morna, madame. Talvez queira mergulhar os pés?

- Morna? — Fiquei boquiaberta, olhando incrédula para a água. Eu não havia notado, mas não havia camadas de gelo quebradas nos cantos dos reservatórios, como havia nas fontes de água benta do lado de fora da igreja. Além disso, pequenas plantas verdes flutuavam na água, brotando das fendas entre as rochas que forravam o lago.

Como ilustração, Anselmo retirou suas próprias sandálias de couro. Apesar do rosto e da voz cultos, possuía mãos e pés robustos, vigorosos, de um camponês da Normandia. Erguendo a saia de seu hábito até os joelhos, enfiou os pés no lago. As carpas bateram em retirada, voltando quase em seguida para investigar com curiosidade aquela nova intrusão.

- Não mordem, não é? - perguntei, vendo a miríade de bocas vorazes com desconfiança.

- Não, carne, não — assegurou-me. — Não têm dentes para isso. Tirei minhas próprias sandálias e cuidadosamente enfiei os pés na água.

Para minha surpresa, estava agradavelmente morna. Não quente, mas um delicioso contraste com o ar úmido e frio.

- Ah, que bom! - Retorci os dedos com satisfação, causando grande consternação entre as carpas.

- Há várias fontes de água mineral perto do mosteiro - Anselmo explicou. - As águas saem quentes e borbulhantes da terra, e têm grandes poderes curativos. - Apontou para a outra extremidade do lago, onde se podia ver uma pequena abertura nas pedras, parcialmente obscurecida pelas plantas aquáticas em movimento.

- Uma pequena quantidade da água mineral quente é canalizada para cáda fonte mais próxima. É isso que permite ao cozinheiro manter peixes vivos para a mesa em todas as estações; normalmente, o inverno seria frio demais para eles.

Patinhamos nossos pés na água por algum tempo num agradável silêncio, os corpos pesados dos peixes passando de raspão, às vezes batendo em nossas pernas com um impacto surpreendentemente forte. O sol saiu outra vez, banhando-nos com um calor fraco, mas perceptível. Anselmo fechou os olhos, deixando que a luz lavasse seu rosto. Falou novamente, sem abri-los.

- Seu primeiro marido... O nome dele era Frank, não? Ele também, eu acho, deve ser recomendado a Deus como uma das coisas lamentáveis sobre a qual você nada pode fazer.

- Mas eu podia ter feito alguma coisa — argumentei. - Eu poderia ter voltado... talvez.

Ele abriu um dos olhos e olhou-me com ceticismo.

- Sim, "talvez" - concordou. — E talvez não. Não deve se censurar por hesitar em arriscar sua vida.

- Não foi o risco — eu disse, agitando meus dedos para uma enorme carpa pintada de branco e preto. - Ou ao menos não inteiramente. Foi... bem, em parte foi medo, mas principalmente foi porque eu... eu não pude abandonar Jamie. — Encolhi os ombros, desamparada. — Eu... simplesmente não pude.

Anselmo sorriu, arregalando os olhos.

- Um bom casamento é uma das dádivas mais preciosas de Deus -observou. - Se teve o bom senso de reconhecer e aceitar a dádiva, não pode se condenar por isso. E pense bem... - Inclinou a cabeça para o lado, como um pardal marrom.

- Está longe de sua época há quase um ano. Seu primeiro marido já deve ter começado a aceitar sua perda. Por mais que a tenha amado, a perda é comum a todos os seres humanos e temos meios de superá-la para nosso próprio bem. Talvez ele tenha começado uma nova vida. Seria bom para você deixar o homem que precisa tanto de você e a quem você ama, a quem está ligada pelos laços do sagrado matrimônio, para retornar e perturbar essa nova vida? E, em particular, se voltasse por um sentimento de dever, mas sentindo que seu coração ficara em outra parte... não. - Sacudiu a cabeça decididamente.

- Nenhum homem pode servir a dois patrões, assim como uma mulher também não. Agora, se aquele fosse seu único casamento válido e este - sacudiu a cabeça novamente em direção à ala dos hóspedes — um simples arranjo irregular, então seu dever poderia estar longe daqui. Mas vocês foram unidos por Deus e acho que pode honrar seu compromisso com o chevalier.

- Agora, quanto ao outro aspecto: o que deve fazer. Isso requer alguma discussão. — Tirou os pés da água e secou-os no seu hábito.

- Vamos transferir esta conversa para a cozinha do mosteiro, onde talvez o irmão Eulogius possa ser persuadido a nos fornecer uma bebida quente.

Achando um pedacinho de pão no chão, atirei-o às carpas e parei para calçar as minhas sandálias.

- Nem sei lhe dizer o alívio que representa para mim poder conversar com alguém sobre isso — eu disse. - E ainda não consigo me convencer do fato de que realmente acredita em mim.

Ele encolheu os ombros, oferecendo-me educadamente o braço para eu me segurar, enquanto passava as tiras das minhas sandálias por cima do peito do pé.

- Ma chère, sirvo a um homem que multiplicou os pães e peixes - sorriu, balançando a cabeça para o lago, onde os redemoinhos causados pelos movimentos das carpas se alimentando ainda se diluíam -, que curou o doente e ergueu o morto. Devo ficar espantado que o mestre da eternidade tenha trazido uma jovem mulher pelas pedras da terra para cumprir Sua vontade?

Bem, refleti, era melhor do que ser denunciada como a meretriz da Babilônia.

As cozinhas do mosteiro eram quentes e assemelhavam-se a cavernas, o teto abobadado enegrecido por séculos de fumaça engordurada. O irmão Eulogius, até os cotovelos num tonel de massa de pão, balançou a cabeça em forma de cumprimento para Anselmo e chamou, em francês, um dos irmãos laicos para vir nos servir. Encontramos um lugar longe da azáfama e nos sentamos com duas canecas de cerveja e uma travessa com uma espécie de bolinhos quentes. Empurrei a travessa para Anselmo, preocupada demais para me interessar por comida.

- Deixe-me colocar a questão da seguinte forma - eu disse, escolhendo cuidadosamente as palavras. - Se eu soubesse que algum mal seria causado a um grupo de pessoas, deveria me sentir obrigada a tentar evitar isso?

Anselmo esfregou o nariz na manga do hábito, refletindo; o calor da cozinha estava começando a fazer seu nariz escorrer.

- Em princípio, sim - concordou. - Mas iria depender também de inúmeros outros fatores: qual o risco para si mesma e quais são suas outras obrigações? E quais as chances de ser bem-sucedida?

- Não faço a menor idéia. De nada disso. Exceto obrigação, é claro. Quero dizer, há Jamie. Mas ele pertence ao grupo que deverá sofrer reveses.

Ele partiu um pedaço de um bolinho e passou-o para mim, fumegan-do. Eu o ignorei, estudando a superfície da minha cerveja. - Os dois homens que matei - eu disse - deveriam, cada um deles, ter tido filhos, se eu não os tivesse matado. Poderiam ter feito... - fiz um gesto de impotência com a caneca -, quem sabe o que poderiam ter feito? Eu posso ter afetado o futuro... não, eu realmente afetei o futuro. E não sei de que maneira e isso é o que tanto me assusta.

- Hum. — Anselmo grunhiu pensativamente e fez sinal para um irmão laico que passava, o qual se apressou a trazer mais bolinhos e cerveja. Ele encheu novamente as duas canecas antes de prosseguir.

- Se você tirou a vida, por outro lado também a preservou. Quantos dos doentes de quem tratou teriam morrido sem a sua intervenção? Eles também afetarão o futuro. E se uma das pessoas a quem salvou cometer um ato de extrema crueldade? Seria culpa sua? Deveria, por causa disso, deixar essa pessoa morrer? Claro que não. — Bateu com a caneca de cerveja na mesa para dar mais ênfase.

- Você diz que tem medo de realizar uma ação aqui por medo de afetar o futuro. Isso é ilógico. Todas as ações afetam o futuro. Se tivesse permanecido em seu próprio lugar e época, suas ações, ainda assim, afetariam o que viesse a acontecer, exatamente como agora. Ainda tem as mesmas responsabilidades que teria lá, que qualquer ser humano tem em qualquer época. A única diferença é que pode estar em condições de ver mais exatamente as conseqüências dos seus atos. E, novamente, talvez não. -Sacudiu a cabeça, olhando diretamente para mim por cima da mesa.

- Nós desconhecemos os desígnios do Senhor e sem dúvida por um bom motivo. Tem razão, ma chère; as leis da Igreja não foram formuladas com situações como a sua em mente, e portanto você dispõe de pouca orientação, além de sua própria consciência e da mão divina. Não posso lhe dizer o que deve ou o que não deve fazer.

- Você tem livre-arbítrio, assim como todas as outras pessoas neste mundo. E a história, acredito, é a soma de todas essas ações. Alguns indivíduos são escolhidos por Deus para afetar os destinos de muitas pessoas. Talvez você seja uma delas. Talvez não. Não sei por que você está aqui. Você não sabe. Provavelmente nenhum de nós jamais saberá. - Revirou os olhos, de maneira cômica. - Às vezes, nem eu mesmo sei por que estou aqui! - Eu ri e ele devolveu um sorriso. Inclinou-se para mim por cima das tábuas rústicas da mesa, fitando-me intensamente.

- O seu conhecimento do futuro é um instrumento que lhe foi concedido, como um náufrago de posse de uma faca ou de uma linha de pescar. Não é imoral usá-lo, desde que o faça de acordo com os ditames da lei de Deus, da melhor forma possível.

Parou, respirou fundo, e soltou o ar num explosivo suspiro que agitou o bigode sedoso. Sorriu.

- E isso, ma chère madame, é tudo que posso lhe dizer. Não mais do que posso dizer a qualquer alma transtornada que vem a mim em busca de conselho: confie em Deus e reze para que Ele a oriente.

Empurrou os bolinhos quentes em minha direção.

- Mas o que quer que resolva fazer, vai precisar de forças para isso. Portanto, aceite um último conselho: quando em dúvida, coma.

Quando entrei no quarto de Jamie à noite, ele dormia, a cabeça sobre os antebraços. A tigela de sopa vazia cuidadosamente colocada na bandeja, o prato de pão e carne intocado ao lado. Olhei do rosto sonhador e inocente para o prato e novamente para ele. Toquei o pão. Meu dedo deixou uma depressão na superfície úmida. Fresco.

Deixei-o dormindo e saí à procura do irmão Roger, que encontrei na despensa.

- Ele comeu o pão e a carne? - perguntei, sem preliminares.

O irmão Roger sorriu em sua barba fofa.

- Sim.

- Manteve no estômago?



- Não.

Eu o fitei com os olhos apertados.

- Você não limpou o quarto depois, espero.

Ele divertia-se, as bochechas rechonchudas e rosadas acima da barba.

- E eu ousaria? Não, ele tomou a precaução de deixar a bacia à mão.

- Maldito escocês astuto - eu disse, rindo mesmo contra a minha vontade. Voltei ao seu quarto e o beijei de leve na testa. Ele se mexeu, mas não acordou. Seguindo o conselho do padre Anselmo, levei o prato de carne e pão fresco para o meu próprio quarto para o meu jantar.

Pensando em dar a Jamie tempo para se recuperar, tanto do mau humor quando da indigestão, permaneci em meu próprio quarto a maior parte do dia seguinte, lendo um livro sobre ervas que o irmão Ambrose me emprestara. Depois do almoço, fui verificar como estava meu recalcitrante paciente. Ao invés de Jamie, entretanto, encontrei Murtagh, sentado em um banco inclinado contra a parede e com uma expressão divertida no rosto.

— Onde ele está? — perguntei, olhando à minha volta.

Murtagh sacudiu o polegar indicando a janela. Era um dia frio e cinzento e as lamparinas estavam acesas. A janela estava descoberta e a corrente de ar frio fazia a pequena chama bruxulear em seu recipiente.

- Ele saiu, — perguntei, incrédula. - Para onde? Por quê? E o que está vestindo? -Jamie passara a maior parte do tempo despido nos últimos dias, já que o aposento estava aquecido e qualquer pressão sobre seus ferimentos era dolorosa. Usava a túnica externa de um monge quando deixava o quarto em curtas incursões necessárias, com o apoio do padre Roger, mas a túnica ainda estava ali, cuidadosamente dobrada aos pés da cama.

Murtagh balançou seu banco para a frente e olhou-me com ar grave.

- Quantas perguntas são essas? Quatro? — Ergueu uma das mãos, o dedo indicador apontando para cima.

— Uma: sim, ele saiu. - O dedo médio se levantou. - Duas: para onde? Quisera saber. - O dedo anular juntou-se aos outros dois. — Três: por quê? Ele disse que estava cansado de ficar preso aqui dentro. - O dedo mínimo mexeu-se brevemente. - Quatro: também quisera saber. Não estava usando nada da última vez que eu o vi.

Murtagh dobrou os quatro dedos e esticou o polegar.

— Você não me perguntou, mas ele ja saiu há mais de uma hora. Fiquei furiosa, sem saber o que deveria fazer. Já que o criminoso não estava presente, voltei minha raiva contra Murtagh.

- Não sabe que está quase congelando lá fora e já começa a nevar? Por que não o impediu? E como ele não está vestindo nada?

O homenzinho não se abalou.

- Sim, eu sei. Acho que ele sabe também, já que não é cego. Quanto a impedi-lo, eu tentei. - Indicou a túnica sobre a cama com um sinal da cabeça.

- Quando disse que ia sair, eu falei que ele não estava em condições de fazer isso e que você iria cortar minha cabeça, se eu o deixasse ir. Peguei sua túnica, barrei a porta e lhe disse que ele não ia sair, a menos que passasse por cima de mim.

Murtagh parou, depois disse aleatoriamente:

- Ellen MacKenzie tinha o sorriso mais doce que já vi; aquecia um homem até a medula só de ver.

- Assim, deixou o filho cabeçudo dela sair e morrer congelado — eu disse com impaciência. - O que tem o sorriso da mãe dele a ver com tudo isso?

Murtagh esfregou o nariz, pensativamente.

- Bem, quando eu disse que não o deixaria passar, Jamie apenas olhou para mim por um instante. Depois, me deu um sorriso igual ao de sua mãe e saiu pela janela completamente pelado. Quando cheguei à janela, já havia desaparecido.

Revirei os olhos para cima.

- Imagino que devia lhe dizer para onde ele foi — Murtagh continuou — para que não ficasse preocupada com ele.

- Para que não ficasse preocupada com ele! — murmurei entre dentes enquanto caminhava a passos largos para a estrebaria. — É melhor que ele fique preocupado quando eu o pegar!

Havia apenas a estrada principal saindo da costa para o interior. Cavalguei ao longo dela a uma boa velocidade, perscrutando os campos que atravessava. Aquela parte da França era uma rica área cultivada e felizmente a maior parte da floresta fora abatida; lobos e ursos não deviam representar um grande perigo, já que deviam ter se refugiado mais para o interior.

Acabei encontrando-o a quase dois quilômetros além dos portões do mosteiro, sentado em um dos antigos marcos romanos de distância que pontilhavam as estradas.

Estava descalço, mas vestia um casaco curto e calças finas, de propriedade de um dos cavalariços, a julgar pelas manchas nos tecidos.

Freei o cavalo e fitei-o por um instante, apoiando-me no arção da sela.

- Seu nariz está azul - observei em tom casual. Olhei para baixo. — E seus pés também.

Ele riu e limpou o nariz nas costas da mão.

- Minhas bolas também. Quer aquecê-las para mim? - Com ou sem frio, ele obviamente estava de bom humor. Desci do cavalo e parei diante dele, sacudindo a cabeça.

— Não adianta nada, não é? - perguntei.

— O quê? - Esfregou a mão nas calças rasgadas.

— Ficar zangada com você. Não se importa nem um pouco se pegar pneumonia ou for devorado por ursos ou me matar de preocupação, não é?

— Bem, não estou muito preocupado com ursos. Eles dormem no inverno, sabe.

Perdi o controle e ergui minha mão para ele, pretendendo dar um tapa em sua orelha. Ele agarrou meu pulso e segurou-o sem dificuldade, rindo de mim. Após um instante de luta inútil, desisti e ri também.

— Vai voltar agora? — perguntei. - Ou tem mais alguma coisa a provar? Indicou a estrada com o queixo.

— Leve o cavalo de volta até aquele carvalho grande e espere por mim lá. Vou andar até lá. Sozinho.

Mordi a língua para reprimir os diversos comentários que efervesciam à superfície e montei. Junto ao carvalho, apeei e olhei para a estrada. Após um instante, entretanto, vi que não suportava observar seu difícil avanço. Quando caiu da primeira vez, segurei as rédeas com força em minhas mãos enluvadas, depois virei as costas resolutamente e esperei.

Mal conseguimos retornar à ala dos hóspedes, arrastando-nos pelo corredor, seu braço por cima do meu ombro para se apoiar. Avistei o irmão Roger, espreitando ansiosamente o corredor, e o mandei ir correndo buscar uma panela de água quente, enquanto eu conduzia meu desajeitado fardo para o quarto e o largava na cama. Ele gemeu com o impacto, mas permaneceu imóvel, os olhos cerrados, enquanto eu retirava as roupas imundas e esfarrapadas.

— Muito bem; entre debaixo das cobertas.

Ele rolou obedientemente para baixo dos cobertores que eu segurava para ele. Enfiei a panela de água quente apressadamente entre as cobertas ao pé da cama e empurrei-a de um lado para o outro. Quando a retirei, ele esticou as longas pernas e relaxou com um suspiro de felicidade quando seus pés alcançaram o bolsão quente.

Andei silenciosamente pelo quarto, pegando as roupas sujas, arrumando os pequenos objetos sobre a mesa, colocando mais carvão no braseiro, acrescentando uma pitada de ênula para adocicar a fumaça. Achei que ele adormecera e surpreendi-me quando ouvi sua voz atrás de mim.

— Claire?

- Sim?


— Eu a amo.

— Ah. - Fiquei ligeiramente surpreendida, mas inegavelmente satisfeita. — Eu também o amo.

Ele suspirou e abriu parcialmente os olhos.

— Randall — ele disse. — Quase no final. Era isso que ele queria. — Fiquei ainda mais surpresa com aquilo e retruquei cautelosamente:

- Ah, é?

- Sim. - Seus olhos estavam fixos na janela aberta, onde as nuvens de neve preenchiam o espaço com um cinza uniforme e escuro.

- Eu estava deitado no chão e ele estava deitado ao meu lado. A essa altura, ele também estava nu e nós dois estávamos sujos de sangue... e de outras coisas. Lembro-me de tentar erguer a cabeça e sentir meu rosto grudado na pedra do chão com sangue seco. - Franziu a testa, um olhar distante enquanto evocava a imagem.

- Eu estava quase inconsciente a essa altura; a ponto de quase nem sentir mais dor. Estava apenas terrivelmente cansado e tudo parecia muito distante e não muito real.

- Ainda bem - eu disse, com alguma aspereza, e ele deu um breve sorriso.

- Sim, ainda bem. Eu estava quase sem sentidos, meio inconsciente, eu acho, de modo que não sei por quanto tempo ficamos deitados ali, mas acordei com ele me abraçando e aconchegando-se contra mim. — Hesitou, como se a parte seguinte fosse difícil de expressar em palavras.

- Eu não lutara contra ele até então. Mas estava tão cansado e achei que não conseguiria suportar mais nada... De qualquer modo, comecei a me esquivar, a me arrastar para longe dele, não lutando realmente, mas tentando me afastar. Seus braços envolviam meu pescoço e ele me puxava, enterrando o rosto em meu ombro. Pude sentir que ele chorava. Por alguns instantes, não consegui entender o que ele dizia, mas depois entendi. Ele dizia: "Eu o amo, eu o amo", sem cessar, com suas lágrimas e saliva escorrendo pelo meu peito. — Jamie estremeceu ligeiramente, com o frio e a lembrança. Soltou um longo suspiro, perturbando a nuvem de fumaça aromática que volteava junto ao teto.

- Não posso imaginar por que fiz aquilo. Mas eu passei os braços em torno dele e apenas ficamos ali deitados por uns instantes. Finalmente, ele parou de chorar, me beijou e me acariciou. Depois, sussurrou: "Diga que me ama". — Parou no meio da narração, sorrindo debilmente.

- Eu me recusei. Não sei por quê. Mas, por outro lado, eu teria lambido suas botas e o chamado de rei da Escócia, se ele quisesse. Mas isso eu não podia dizer. Nem me lembro de ter pensado no assunto; eu simplesmente não diria. — Suspirou e a mão sã contorceu-se, agarrando a coberta.

- Ele me usou outra vez... violentamente. E repetia sem parar: "Diga que me ama, Alex. Diga que me ama."

- Ele o chamou de Alex? - interrompi, sem conseguir me conter.

- Sim. Lembro-me de ter ficado intrigado com o fato de ele saber meu segundo nome. Não me ocorreu imaginar por que o usara, ainda que sabendo. — Deu de ombros.

- De qualquer modo, não me mexi nem disse uma palavra e, quando ele terminou, pôs-se de pé, como se tivesse enlouquecido, e começou a me bater com alguma coisa, não sei o quê, xingando e gritando comigo, dizendo:"Você sabe que me ama! Diga que me ama! Eu sei que é verdade!" Ergui os braços acima da cabeça para proteger-me e depois de uns instantes devo ter desmaiado outra vez, porque a dor em meus ombros foi a última coisa de que me lembrava, exceto por uma espécie de pesadelo com gado urrando. Então, acordei por alguns instantes, oscilando de barriga para baixo sobre a sela de um cavalo, e perdi a consciência outra vez, até despertar junto à lareira em Eldridge, com você me olhando. - Cerrou os olhos novamente. Seu tom de voz era sonhador, quase apático.

- Eu acho... que se eu tivesse dito a ele o que ele queria... ele teria me matado.

Algumas pessoas têm pesadelos povoados por monstros. Eu sonhava com árvores genealógicas, ramos finos e negros, carregando pencas de datas em cada haste. As linhas semelhantes a cobras, com morte entre as mandíbulas. Ouvi a voz de Frank mais uma vez, dizendo: Ele se tornou um soldado, uma boa escolha para um segundo filho. Houve um terceiro irmão que se tornou padre, mas não sei muita coisa a seu respeito... Eu também não sabia muito a seu respeito. Apenas seu nome. Lá estavam os três filhos registrados na árvore, os filhos de Joseph e Mary Randall. Eu os vira inúmeras vezes; o mais velho, William; o segundo, Jonathan; e o terceiro, Alexander.

Jamie voltou a falar, arrancando-me de meus pensamentos.

- Sassenach?

- Sim?


- Lembra-se da fortaleza de que lhe falei, a que tenho dentro de mim?

- Lembro.

Sorriu sem abrir os olhos e estendeu a mão para mim.

- Bem, ao menos tenho uma estrutura na qual me apoiar. E um teto para me guardar da chuva.

Fui para a cama cansada, mas em paz, e pensando. Jamie se recuperaria. Quando isso estava em dúvida, eu não pensava além da próxima hora, da próxima refeição, da próxima administração de remédio. Mas agora eu precisava olhar mais para a frente.

O mosteiro era um santuário, mas apenas temporário. Não podíamos ficar ali indefinidamente, por mais hospitaleiros que fossem os monges. A Escócia e a Inglaterra eram perigosas demais; a menos que lorde Lovat pudesse ajudar — uma contingência remota, nas circunstâncias. Nosso futuro devia estar naquele lado do canal. Sabendo o que eu sabia agora sobre o enjôo de Jamie no mar, compreendi sua relutância em considerar uma imigração para a América — três meses de náusea era uma perspectiva assustadora para qualquer um. Então, o que restava?

A França era o mais provável. Nós dois falávamos francês fluentemente. Enquanto Jamie podia sair-se igualmente bem em espanhol, alemão ou italiano, eu não era tão abençoada em termos de idiomas. Além disso, a família Fraser tinha muitas conexões na França; talvez pudéssemos encontrar um lugar na propriedade de um parente ou amigo. A idéia parecia bastante atraente.

Mas restava, como sempre, a questão do tempo. Era começo de 1744

— o Ano Novo fora há apenas duas semanas. E em 1745, o príncipe Carlos Eduardo partiria da França para a Escócia, o Jovem Pretendente iria reivindicar o trono de seu pai. Com ele, viria o desastre; guerra e massacres, a eliminação dos clãs das Higlands, o extermínio de tudo que Jamie - e eu - amávamos.

E entre agora e esse momento, restava um ano. Um ano, quando tudo deveria acontecer. Quando os passos certos deveriam ser dados para evitar o desastre. Como? E por que meios? Eu não fazia a menor idéia, mas também não tinha a menor dúvida sobre as conseqüências da inércia.

Os acontecimentos poderiam ser alterados? Talvez. Meus dedos buscaram minha mão esquerda e acariciaram lentamente a aliança de ouro no dedo anular. Pensei no que eu disse a Jonathan Randall, fervendo de ódio e pavor nas masmorras da prisão de Wentworth.

"Eu o amaldiçôo com a hora de sua morte." E lhe contara quando ele iria morrer. Disse-lhe a data inscrita no mapa genealógico, na caligrafia preta e elegante de Frank - 16 de abril de 1745. Jonathan Randall deveria morrer na batalha de Culloden, envolvido no massacre que os ingleses iriam causar. Mas, não. Em vez disso, morreu algumas horas mais tarde, pisoteado, sob os cascos da minha vingança.

E morreu solteiro e sem filhos. Ou ao menos, assim eu acreditava. O mapa - o maldito mapa! - dava a data de seu casamento, em algum momento de 1744. E o nascimento de seu filho, o ascendente de Frank, pouco depois. Se Jack Randall estava morto e sem filhos, como Frank nasceria? E, no entanto, sua aliança ainda estava em meu dedo. Ele existia, iria existir. Reconfortei-me com o pensamento, esfregando sua aliança no escuro, como se contivesse um gênio que pudesse me aconselhar.

Acordei de um sono pesado algum tempo depois, com um pequeno grito.

- Sssh. Sou eu. - A mão enorme ergueu-se de minha boca. Com a vela apagada, o quarto estava escuro como breu. Tateei às cegas, até minha mão bater em algo sólido.

- Não devia estar fora da cama! - exclamei, ainda sonolenta. Meus dedos deslizaram por uma pele lisa e fria. — Está gelado!

- Bem, claro que estou - disse, um tanto irritado. — Estou sem roupas e está terrivelmente frio no corredor. Posso entrar aí com você?

Esgueirei-me o mais que pude no catre estreito e ele deitou-se ao meu lado, nu, agarrando-se a mim para se esquentar. Sua respiração era irregular e achei que seu tremor era tanto de fraqueza quanto de frio.

- Meu Deus, como você está quente. - Aconchegou-se ainda mais, suspirando. - Ah, é bom abraçá-la assim, Sassenach.

Não me dei ao trabalho de perguntar o que ele estava fazendo ali; isso estava ficando perfeitamente claro. Nem perguntei se ele tinha certeza. Eu tinha minhas próprias dúvidas, mas não iria proclamá-las, por medo de fazer profecias que acabavam se cumprindo. Virei-me de frente para ele, tomando cuidado com a mão ferida.

Houve aquele repentino e surpreendente momento de união, aquela rápida e escorregadia estranheza que imediatamente se torna familiar. Jamie suspirou profundamente, com satisfação e, talvez, alívio. Permanecemos imóveis por um instante, como se tivéssemos medo de perturbar nossa frágil ligação. A mão esquerda de Jamie acariciou-me devagar, tateando seu caminho no escuro, os dedos abertos como o bigode de um gato, sensíveis à vibração. Investiu uma vez, como se fizesse uma pergunta, e eu respondi na mesma linguagem.

Começamos o delicado jogo de movimentos lentos, um ato de equilíbrio entre seu desejo e sua fraqueza, entre a dor e o prazer crescente do corpo. Em algum lugar na escuridão, pensei comigo mesma que eu devia contar a Anselmo que havia outra maneira de fazer o tempo parar, mas depois achei melhor não contar, já que não era um caminho aberto a um sacerdote.

Segurei Jamie, apoiando-o com a mão pousada de leve em suas costas marcadas. Ele estabeleceu o nosso ritmo, mas deixou que eu carregasse a força de nosso movimento. Ficamos ambos em silêncio, a não ser pela nossa respiração, até o fim. Sentindo que ele se cansava, agarrei-o com firmeza e puxei-o para mim, mexendo meus quadris para recebê-lo ainda mais fundo, forçando-o ao clímax.

- Agora — eu disse suavemente -, goze comigo. Agora! - Ele apoiou sua testa com força na minha e rendeu-se a mim com um suspiro trêmulo.

Os vitorianos chamavam a isso de "pequena morte", e não sem razão. Ele deixou-se ficar, tão relaxado e pesado, que teria achado que estava morto, se não fosse pelas batidas surdas de seu coração contra as minhas costelas. Pareceu que um longo tempo havia se passado até ele se mexer e murmurar alguma coisa contra meu ombro.

- O que foi que disse?

Ele virou a cabeça de modo que sua boca ficasse logo abaixo de minha orelha. Senti seu hálito quente em meu pescoço.

- Eu disse - respondeu baixinho - que minha mão não dói nem um pouco agora.

A mão intacta explorou ternamente meu rosto, limpando o suor das minhas faces.

- Você temeu por mim? - perguntou.

- Sim — respondi. — Achei que era cedo demais. Ele riu baixinho na escuridão.

- E era; quase morri. Sim, eu também tive medo. Mas acordei com a mão doendo e não conseguia voltar a dormir. Fiquei virando de um lado para o outro na cama, sentindo sua falta. Quanto mais eu pensava em você, mais a desejava e já estava no meio do corredor antes de me preocupar com o que eu iria fazer quando chegasse aqui. E quando pensei... - parou, acariciando meu rosto. - Bem, não sou grande coisa, Sassenach, mas talvez não seja um covarde, afinal de contas.

Virei a cabeça para ir ao encontro de seu beijo. Seu estômago roncou alto.

- Não ria - resmungou. - A culpa é sua, por me deixar faminto. É de se admirar que eu tenha tido forças, sem nada além de caldo de carne e cerveja.

- Está bem - eu disse, ainda rindo. - Você venceu. Pode comer um ovo no desjejum amanhã.

- Ah! - exclamou, em tom de profunda satisfação. - Sabia que você iria me alimentar se eu lhe oferecesse um incentivo adequado.

Adormecemos nos braços um do outro, os rostos colados.
41 - NO VENTRE DA TERRA
Nas duas semanas seguintes, Jamie continuou sua recuperação e eu continuei a pensar. Em alguns dias, eu sentia que devíamos ir para Roma, onde a corte do Pretendente imperava, e fazer... o quê? Em outras ocasiões, desejava de todo o coração simplesmente encontrar um lugar seguro e isolado, para vivermos nossas vidas em paz.

Era um dia quente e luminoso e os pingentes de gelo que pendiam dos narizes das gárgulas não cessavam de pingar, cavando buracos na neve sob as calhas. A porta do quarto de Jamie fora deixada aberta de par em par e a janela descoberta, para arejar o aposento e livrá-lo dos resquícios de fumaça e doença.

Enfiei a cabeça cautelosamente pelo umbral da porta, não querendo acordá-lo caso estivesse dormindo, mas o catre estreito estava vazio. Ele estava sentado junto à janela aberta, parcialmente de costas para a porta, de modo que seu rosto estava praticamente escondido.

Ele ainda estava extremamente magro, mas os ombros eram largos e retos sob o tecido rústico do hábito de noviço. Além disso, o encanto de sua força aos poucos retornava; estava firmemente sentado, sem nenhum tremor, as costas empertigadas e as pernas dobradas para trás embaixo do banco, os contornos de seu corpo firmes e harmoniosos. Segurava o pulso direito com a mão esquerda, girando a mão direita devagar ao sol.

Havia uma pequena pilha de tiras de pano sobre a mesa. Ele removera as ataduras da mão machucada e examinava-a detidamente. Fiquei parada na entrada do quarto, imóvel. Dali, podia ver a mão com clareza, conforme ele a movia para a frente e para trás, sondando atentamente.

A marca do ferimento do prego na palma da mão era bem pequena e a ferida, fiquei feliz de ver, estava bem cicatrizada; não passava de um pequeno ponto rosado de tecido de cicatriz que desapareceria gradualmente. Nas costas da mão, a situação não era tão favorável. Corroído pela infecção, o ferimento ali cobria uma área do tamanho de uma moeda, ainda recoberto com uma crosta e a pele fina de uma nova cicatrização.

O dedo médio também exibia uma cicatriz alta e irregular de tecido rosado, estendendo-se da primeira junta até quase o nó do dedo. Libertados de suas talas, o polegar e o dedo indicador estavam retos, mas o dedo mínimo estava bastante torto. Ele sofrera três fraturas distintas, eu me lembrava, e aparentemente eu não conseguira encaixar todas elas adequadamente.

O dedo anular estava estranho, já que se projetava levemente para cima quando ele espalmava a mão aberta sobre a mesa, como fazia agora.

Virando a palma da mão para cima, ele começou a manipular os dedos delicadamente. Nenhum deles dobrava-se mais do que três ou quatro centímetros; o dedo anular não se dobrava de jeito nenhum. como eu temia, era provável que a segunda articulação ficasse irremediavelmente paralisada.

Ele virou a mão de um lado para o outro, erguendo-a diante do rosto, observando os dedos rígidos e tortos, as horríveis cicatrizes, cruelmente vívidas à luz do sol. Então, abaixou a cabeça repentinamente, agarrando a mão ferida junto ao peito, cobrindo-a protetoramente com a mão perfeita. Não emitiu nenhum som.Apenas seus ombros largos sacudiram-se ligeiramente.

- Jamie. - Atravessei o quarto rapidamente e ajoelhei-me ao lado dele, colocando a mão de leve em seu joelho.

- Jamie, sinto muito - eu disse. - Fiz o melhor que pude.

Ele olhou para mim, surpreso. As pestanas, espessas e ruivas, cintilavam de lágrimas à luz do sol e ele as limpou apressadamente com as costas da mão.

- O quê? — exclamou, engolindo em seco, claramente desconcertado com a minha súbita aparição. - Sente muito? Por quê, Sassenach?

- Sua mão. - Tomei-a nas minhas, traçando de leve as linhas tortas de seus dedos, tocando a cicatriz funda nas costas da mão.

- Vai melhorar - assegurei-lhe ansiosamente. - É verdade. Sei que parece rígida e inútil agora, mas é só porque ficou imobilizada tanto tempo e os ossos ainda não se emendaram completamente. Posso lhe mostrar como se exercitar e massagear. Você vai conseguir a maior parte de seus movimentos com ela, sinceramente...

Ele me fez calar deslizando a mão esquerda pelo meu rosto.

- Você quis dizer...? - começou, depois parou, sacudindo a cabeça sem poder acreditar. - Você pensou...? — parou outra vez e começou de novo.

- Sassenach, você não pensou que eu estava me lamentando por causa de um dedo paralisado e mais algumas cicatrizes, não é? - Sorriu, meio de viés. — Sou vaidoso, talvez, mas não tanto assim, espero.

- Mas você... — comecei. Ele segurou minhas mãos nas suas e levantou-se, fazendo-me ficar de pé também. Estendi o braço e limpei a única lágrima que rolara pelo seu rosto. Senti o calor da minúscula gota em meu polegar.

- Eu estava chorando de alegria, Sassenach - disse suavemente. Estendeu os braços devagar e segurou meu rosto entre as mãos. - E agradecendo a Deus por ter duas mãos. Por ter duas mãos para segurar você. Para acariciá-la, para amá-la. Agradecendo a Deus por ainda ser um homem completo, por você.

Ergui minhas próprias mãos, colocando-as sobre as dele.

- Mas por que não seria? - perguntei. E então me lembrei da parafernália de açougueiro, entre serras e facas, que eu vira entre os instrumentos de Beaton em Leoch, e compreendi. Compreendi o que eu havia esquecido diante da emergência. Que antes dos antibióticos, a cura comum — a única - para um membro infeccionado era a amputação.

- Ah, Jamie - exclamei. Meus joelhos ficaram fracos diante da idéia e me sentei no banco repentinamente. — Nunca pensei nisso - eu disse, ainda perplexa. - Sinceramente, nunca pensei nisso. - Ergui os olhos para ele. - Jamie. Se eu tivesse pensado nisso, provavelmente o teria feito. Para salvar sua vida.

- Não é assim... eles não fazem isso desse modo, então, na... sua época? Sacudi a cabeça.

- Não. Há remédios para combater a infecção. Então, eu nem considerei essa possibilidade - disse, admirada. Ergui os olhos de repente. - E você? Considerou?

Ele balançou a cabeça, confirmando.

- Eu esperava por isso. Foi por isso que lhe pedi que me deixasse morrer, naquela vez. Estava pensando nisso, entre os acessos de confusão mental, e naquele único momento eu achei que não seria capaz de suportar viver assim. É o que aconteceu com Ian, sabe.

- Não, foi mesmo? — Estava chocada. Ele disse-me que a havia perdido com um tiro de canhão, mas não pensei em perguntar os detalhes.

- Sim, o ferimento em sua perna piorou. Os médicos a cortaram para evitar que envenenasse seu sangue. - Fez uma pausa.

- Ian se sai muito bem, no geral. Mas — hesitou, puxando o dedo anular paralisado - eu o conheci antes. Ele só está tão bem como o vimos por causa da Jenny. Ela... o mantém inteiro. - Sorriu timidamente para mim. -Como você fez por mim. Não consigo imaginar por que as mulheres se dão ao trabalho.

- Bem - eu disse suavemente -, as mulheres gostam de fazer isso. Ele riu baixinho e me puxou para junto de si.

- Sim. Só Deus sabe por quê.

Permanecemos abraçados por algum tempo, sem nos mover. Minha cabeça descansava em seu peito, meus braços em volta de suas costas e eu podia ouvir seu coração batendo, devagar e com força. Finalmente, ele se mexeu e me soltou.

- Tenho algo para lhe mostrar - disse. Virou-se e abriu a pequena gaveta da mesa, retirando dali uma carta dobrada que me entregou.

Era uma carta de apresentação, do abade Alexander, recomendando seu sobrinho, James Fraser, à atenção do Chevalier-St. George - também conhecido como Sua Majestade o rei Jaime da Escócia — como um lingüista e tradutor muito apto.

- É um lugar — Jamie disse, observando-me enquanto eu dobrava a carta. — E logo vamos precisar de um lugar para onde ir. Mas o que você me disse na colina de Craigh na Dun era verdade, não?

Respirei fundo e balancei a cabeça.

- É verdade.

Ele pegou a carta da minha mão e bateu-a de leve no joelho, pensativamente.

- Então isto — agitou a carta - implica algum risco.

— Pode ser.

Atirou o pergaminho na gaveta e ficou sentado fitando-o por alguns instantes. Em seguida, levantou a cabeça e os olhos azuis encontraram-se com os meus. Passou a mão em meu rosto.

- Falo sério, Claire - disse serenamente. - Minha vida lhe pertence. E você pode decidir o que devemos fazer, para onde devemos ir. Para a França, para a Itália, até mesmo de volta à Escócia. Meu coração é seu desde a primeira vez em que a vi e você teve a minha alma e meu corpo em suas mãos aqui e os salvou. Faremos o que você disser.

Ouviu-se uma leve batida na porta e nos afastamos como amantes culpados. Ajeitei meus cabelos apressadamente, pensando que um mosteiro, embora um excelente lugar de convalescença, não era um retiro romântico apropriado.

Um irmão laico entrou ao comando de Jamie e colocou um pesado alforje sobre a mesa.

— De MacRannoch da Mansão Eldridge — disse com um largo sorriso. - Para a senhora de Broch Tuarach. — Fez uma reverência e saiu, deixando para trás um leve sopro de maresia e ar gelado.

Desatei as fivelas das tiras de couro, curiosa para ver o que MacRannoch teria mandado. Dentro, havia três coisas: um bilhete, sem endereço e sem assinatura, um pequeno pacote endereçado a Jamie e a pele curtida de um lobo, com um cheiro forte dos produtos usados pelo curtidor.

O bilhete dizia: "Porque uma mulher virtuosa é uma pérola de alto preço e seu valor é maior do que o de rubis."

Jamie abrira o outro pacote. Segurava um objeto pequeno e brilhante em uma das mãos e olhava, intrigado, para o couro de lobo.

— É um pouco estranho. Sir Marcus enviou-lhe uma pele de lobo, Sassenach, e para mim uma pulseira de pérolas. Será que ele trocou as etiquetas?

A pulseira era uma bela jóia, uma única fileira de grandes pérolas barrocas, unidas por elos de ouro.

— Não — eu disse, admirada. - Está certo. A pulseira combina com o colar que você me deu quando nos casamos. Foi ele quem deu o colar de pérolas à sua mãe, sabia?

- Não, não sabia — ele respondeu em voz baixa, tocando as pérolas. — Meu pai o deu para mim para que eu desse à minha esposa, quem ela viesse a ser — e um rápido sorriso torceu seus lábios —, mas ele não me disse de onde elas vieram.

Lembrei-me da ajuda de sir Marcus na noite em que irrompemos tão bruscamente em sua casa e a expressão em seu rosto quando o deixamos no dia seguinte. Eu podia ver pelo rosto de Jamie que ele também estava se lembrando do baronete que poderia ter sido seu pai. Estendeu o braço e segurou minha mão, prendendo a pulseira em torno do meu pulso.

- Mas não é para mim! — protestei.

- É, sim — ele disse com firmeza. - Não é adequado que um homem envie uma jóia para uma respeitável mulher casada, então ele a deu para mim. Mas é claro que é para você. - Olhou para mim e sorriu. — Para começar, não dá no meu pulso, mesmo magro como estou.

Virou-se para a pele de lobo embolada sobre a mesa e sacudiu-a.

- Mas por que MacRannoch lhe enviou isto? - Envolveu os ombros com o couro peludo do animal e eu me encolhi com um grito agudo. A cabeça, também cuidadosamente raspada e curtida, bem como dotada com um par de olhos de vidro amarelos, olhava desagradavelmente para mim com os olhos arregalados de sua posição no ombro esquerdo de Jamie.

- Ugh! — exclamei. — Tem a mesma aparência de quando estava vivo!

Jamie, seguindo a direção do meu olhar, virou a cabeça e viu-se de repente cara a cara com a fera de dentes arreganhados. Com uma exclamação de espanto, deu um puxão na pele de lobo e atirou-a do outro lado do quarto.

- Meu Deus - exclamou, fazendo o sinal-da-cruz. A pele ficou esparramada no chão, brilhando ameaçadoramente à luz da vela.

- O que quer dizer com "quando estava vivo", Sassenach? Era um amigo pessoal? —Jamie perguntou, olhando de viés a cara do animal.

Contei-lhe, então, tudo que não tivera a chance de lhe contar; sobre o lobo e os outros lobos, sobre Hector, a neve, a cabana com o urso e a discussão com sir Marcus, a entrada de Murtagh, o gado e a longa espera na encosta do monte em meio à neblina rosada do crepúsculo varrido pela neve, esperando para saber se ele estava vivo ou morto.

Mesmo magro, seu peito era largo e seus braços quentes e fortes. Apertou meu rosto contra seu ombro e embalou-me enquanto eu soluçava. Tentei me controlar, mas ele apenas abraçou-me com mais força, dizendo palavras ternas e amorosas em meus cabelos. Finalmente, eu não resisti e chorei com o completo abandono de uma criança, até chegar à completa exaustão, fraca e soluçante.

- Por falar nisso, eu também tenho um presentinho para você, Sassenach — ele disse, alisando meus cabelos. Limpei meu nariz na saia, não tendo mais nada à mão.

- Desculpe não ter nada para lhe dar - eu disse, olhando-o enquanto se levantava e começava a procurar alguma coisa embaixo das cobertas desfeitas. Provavelmente, procurando um lenço, pensei, fungando um pouco mais.

- Fora alguns presentinhos como minha vida, minha masculinidade e minha mão direita? - perguntou secamente. - Basta isso, não, mo duinne? - Endireitou-se com a túnica de um noviço na mão.

- Dispa-se.

Fiquei boquiaberta.

- O quê?

- Dispa-se, Sassenach, e vista isso. - Entregou-me a túnica, rindo. - Ou quer que eu vire de costas primeiro?

Apertando a túnica de pano rústico ao redor do corpo, segui Jamie por mais um lance de escadas escuras. Era o terceiro e o mais estreito; o lampião que ele segurava iluminava as paredes de pedra distantes uma da outra não mais do que quarenta centímetros. Parecia que estávamos sendo engolidos para dentro da Terra, à medida que penetrávamos cada vez mais fundo no poço escuro das escadas.

- Tem certeza de que sabe aonde está indo? — perguntei. Minha voz ecoou no vão da escada, mas com um curioso som abafado, como se falássemos embaixo d'água.

- Bem, não há muita chance de pegar o caminho errado, não é? Alcançáramos outro patamar, mas, de fato, o caminho à frente seguia em uma única direção — para baixo.

Entretanto, no pé desse lance de escadas, chegamos a uma porta. Havia um pequeno patamar, escavado na própria rocha da encosta de uma montanha, ao que parecia, e uma porta larga e baixa, feita de tábuas de carvalho e dobradiças de latão. As tábuas de carvalho eram cinzentas de tão antigas, mas sólidas, e o patamar estava limpo e varrido. Obviamente, aquela parte do monastério ainda era usada. Seria a adega?

Havia um candeeiro preso à parede junto à porta servindo de suporte a uma tocha, parcialmente consumida pelo uso anterior. Jamie parou para acendê-la com um pedaço de papel torcido da pilha já pronta embaixo do candeeiro, em seguida empurrou a porta, que não estava trancada, e agachou-se para passar por baixo do umbral, sinalizando para que o seguisse.

No começo, não conseguia ver nada além da claridade do lampião de Jamie. Tudo estava às escuras. O lampião balançava-se, afastando-se de mim. Fiquei parada, seguindo a bolha de luz com os olhos. A intervalos de alguns passos, ele parava, depois continuava, e uma pequena chama erguia-se em seu rastro, queimando com um pequeno clarão vermelho. À medida que meus olhos se acostumavam, as chamas tornavam-se uma fileira de lamparinas, instaladas em pilastras de pedra, brilhando no escuro como faróis.

Era uma caverna. A princípio, pensei que fosse uma caverna de cristais, por causa da estranha cintilação negra além das lamparinas. Mas avancei até a primeira pilastra e olhei mais à frente, então eu vi.

Um lago límpido e escuro. Água transparente, brilhando como vidro sobre areia vulcânica, negra e fina, lançando reflexos vermelhos à luz das lamparinas. O ar era úmido e quente, pesado com o vapor que se condensava nas paredes frias da caverna, escorrendo pelas ásperas colunas de pedra.

Uma fonte de água quente. O leve cheiro de enxofre penetrou em minhas narinas. Portanto, uma fonte de água mineral quente. Lembrei-me de ter ouvido Anselmo mencionar as fontes que borbulhavam do chão perto do mosteiro, famosas por seus poderes curativos.

Jamie ficou parado atrás de mim, admirando o lago de rubis e azeviches de onde se elevava um leve vapor.

— Um banho quente - ele disse orgulhosamente. - Gostou?

- Jesus Cristo! - exclamei.

— Ah, então gostou - ele disse, rindo diante do sucesso da surpresa. — Vamos entrar, então.

Tirou sua própria túnica e ficou parado, reluzindo indistintamente no escuro, malhado de vermelho nos reflexos cintilantes da água. O teto abo-badado da caverna parecia engolir a luz das lamparinas, de modo que a claridade atingia apenas uma certa altura, antes de ser engolfada pela escuridão.

Com uma certa hesitação, deixei a túnica escorregar dos meus ombros.

— É quente demais? - perguntei.

— O suficiente - respondeu. — Não se preocupe, não vai queimá-la. Mas se ficar mais ou menos uma hora, ela vai cozinhar sua carne até soltar-se dos ossos como num ensopado.

— Que idéia agradável — eu disse, livrando-me totalmente da túnica. Seguindo sua figura esbelta e empertigada, entrei cautelosamente na água. Havia degraus escavados na pedra, levando ao fundo do lago, com uma corda com nós presa ao longo da parede para servir de apoio.

A água atingiu meus quadris e a carne em minha barriga estremeceu de prazer quando o calor me envolveu. No final dos degraus, fiquei de pé em areia fina e escura, a água pouco abaixo dos meus ombros, meus seios flutuando como bóias de vidro de pescadores. Minha pele ficou avermelhada com o calor e gotículas de suor começaram a surgir na minha nuca, sob os cabelos pesados. Era pura felicidade.

A superfície da fonte era lisa e sem ondas, mas a água não era parada; eu podia sentir pequenas agitações, correntes percorrendo a massa d'água como impulsos nervosos. Foi isso, suponho, acrescentado do calor incrivelmente relaxante, que me deu a ilusão momentânea de que a fonte estivesse viva — uma entidade calorosa e receptiva que abria os braços para tranqüilizar e consolar. Anselmo dissera que as fontes tinham poderes curativos e eu não podia duvidar.

Jamie surgiu atrás de mim, ondulações mínimas marcando sua passagem pela água. Segurou meus seios por trás, delicadamente banhando as elevações superiores com a água quente.

- Gosta, mo duinne? - Inclinou-se e beijou meu ombro. Deixei meus pés flutuarem, apoiando-me nele.

- É maravilhoso! É a primeira vez que me sinto inteiramente aquecida desde agosto. - Ele começou a me puxar, recuando lentamente pela água; minhas pernas estendiam-se no rastro de nossa passagem, o surpreendente calor correndo pelos membros do meu corpo como mãos acariciadoras.

Ele parou, virou-me de frente e colocou-me delicadamente sobre uma madeira rígida. Parcialmente visíveis à luz turva, sob a água, pude ver pranchas assentadas em um nicho da rocha. Sentou-se no banco ao meu lado, estendendo os braços para a saliência da rocha atrás de nós.

- O irmão Ambrose me trouxe aqui no outro dia para mergulhar na água - ele disse. - Para amaciar um pouco as cicatrizes. Dá uma ótima sensação, não é?

- Mais do que ótima. — A água fluía tão agradavelmente que eu senti que poderia sair flutuando se soltasse a mão com que me segurava ao banco. Olhei para cima, para a escuridão do teto.

- Alguma coisa vive nesta caverna? Morcegos, por exemplo? Ou peixes? Ele sacudiu a cabeça.

- Nada além do espírito da fonte, Sassenach. As bolhas de água saem da terra através de uma pequena fenda lá atrás - indicou a escuridão inviolável do fundo da caverna com um movimento da cabeça - e escorre para fora através de uma dezena de pequenas aberturas na rocha. Mas não há nenhuma abertura verdadeira para o lado de fora, a não ser a porta que dá para o mosteiro.

- O espírito da fonte? - perguntei, achando graça. - Soa um pouco pagão, esconder-se sob um mosteiro.

Ele espreguiçou-se com vontade, as longas pernas oscilando sob a superfície vítrea como os caules de plantas aquáticas.

- Bem, seja como for que você queira chamá-lo, está aqui há muito mais tempo do que o mosteiro.

- Sim, compreendo.

As paredes da caverna eram de rocha vulcânica lisa e escura, quase como vidro preto, escorregadias com a umidade da fonte. A câmara inteira parecia uma bolha gigantesca, parcialmente cheia daquela água curiosamente viva, mas estéril. Senti-me como se estivéssemos embalados no ventre da Terra e que, se encostasse meu ouvido na rocha, ouviria o batimento infinitamente vagaroso de um grande coração não muito longe dali.

Ficamos em silêncio por um longo tempo, em parte flutuando, em parte sonhando, esbarrando de vez em quando um no outro, conforme éramos levados pelas correntes invisíveis da caverna.

Quando finalmente falei, minha voz parecia lenta e arrastada.

- Já decidi.

- Ah. Vai ser Roma, então? - A voz de Jamie parecia vir de uma grande distância.

- Sim. Uma vez lá, não sei...

- Não importa. Faremos o que for possível. - Estendeu a mão para mim, com movimentos tão lentos que pensei que nunca me tocaria.

Puxou-me para junto dele, até que as pontas sensíveis dos meus seios roçassem o seu peito. A água não era apenas quente, mas também pesada, quase oleosa ao tato, e suas mãos flutuaram pelas minhas costas, seguraram-me pelas nádegas e me ergueram.

A penetração foi surpreendente. Quente e escorregadia como nossa pele estava, deslizamos por cima um do outro apenas com uma leve sensação de toque ou pressão, mas sua presença em mim era sólida e íntima, um ponto fixo num mundo aquático, como um cordão umbilical aleatoriamente levado pelos líquidos no útero. Emiti um pequeno som de surpresa com o pequeno influxo de água quente que acompanhou sua entrada, depois me agarrei com firmeza ao meu ponto fixo de referência com um pequeno gemido de prazer.

- Ah, gostei desse - ele disse, de modo apreciativo.

- Gostou de quê?

- Desse som que você acabou de fazer. Esse gritinho.

Não era possível ficar ruborizada; minha pele já estava tão vermelha quanto era possível. Deixei meus cabelos ondularem para a frente para encobrir meu rosto, os cachos relaxando-se ao arrastarem a superfície da água.

- Desculpe; não pretendia fazer barulho.

Ele riu, o som profundo ecoando suavemente nas colunas do teto.

- Eu disse que gostei. E é verdade. E uma das coisas que eu mais gosto em me deitar com você, Sassenach, os pequenos ruídos que você faz.

Puxou-me para mais perto, para que minha fronte descansasse em seu pescoço. Nossos corpos deslizaram um contra o outro, escorregadios como a água carregada de enxofre. Ele fez um ligeiro movimento com os quadris e eu prendi a respiração, arquejando.

- Assim... — ele disse num sussurro. - Ou... assim?

- Hum - exclamei. Ele riu outra vez, mas não parou.

- Isso era tudo em que eu pensava - ele disse, acariciando minhas costas, apalpando, traçando as curvas dos meus quadris. - Na prisão à noite, acorrentado em uma cela com uma dezena de outros homens, ouvindo os roncos, as ventosidades, os gemidos. Pensava nesses pequenos e meigos sons que você faz quando eu faço amor com você e podia senti-la ali comigo no escuro, respirando devagar e depois mais depressa, e o pequeno gemido que você dá assim que eu a possuo, como se estivesse preparando-se para fazer sua parte.

Minha respiração estava definitivamente se acelerando. Sustentada pela água densa, saturada de minerais, boiava como uma pena oleosa, que só não era levada pela corrente porque se agarrava nos músculos curvilíneos de seus ombros e por estarmos firmemente presos mais embaixo.

— E ainda melhor — sua voz murmurava quente em meu ouvido — quando eu a procuro com sofreguidão e ardor e você choraminga sob mim, e luta como se quisesse escapar e eu sei que está apenas lutando para ficar mais perto, e eu também estou travando a mesma batalha.

— Jamie - eu disse em voz rouca, seu nome ecoando da água. - Jamie, por favor.

— Ainda não, mo duinne. — Suas mãos agarraram-me com força pela cintura, movendo-me devagar, pressionando-me para baixo, até eu realmente gemer.

— Ainda não. Temos tempo. E pretendo ouvi-la gemer assim outra vez. E gemer e soluçar, mesmo que não queira, porque não pode se conter. Quero fazê-la suspirar como se seu coração fosse se despedaçar e gritar de desejo e finalmente berrar em meus braços e eu saberei que realmente lhe dei muito prazer.

A precipitação começou entre minhas coxas, disparando como um dardo nas profundezas do meu ventre, fazendo minhas articulações amolecerem, minhas mãos afrouxaram-se e languidamente abandonaram seus ombros. Minhas costas se arquearam e meus seios firmes e escorregadios pressionaram-se com força contra seu peito. Estremeci na escuridão quente, as mãos firmes de Jamie eram tudo que me impedia de submergir.

Descansando em seu peito, sentia-me mole como uma água-viva. Não me importava com os ruídos que andei fazendo, mas sentia-me incapaz de dizer uma frase coerente. Até ele começar a se mexer outra vez, com a força de um tubarão sob as águas escuras.

— Não — eu disse. — Jamie, não. Não vou agüentar desta forma outra vez. - O sangue ainda latejava nas pontas dos meus dedos e seu movimento dentro de mim era uma deliciosa tortura.

— Agüenta, sim, porque eu a amo. — Sua voz chegava até mim abafada pelos meus cabelos encharcados. - E agüentará, porque eu a desejo. Mas desta vez, eu vou com você.

Segurou meus quadris firmemente contra ele, arrastando-me com a força de uma contracorrente. Meu corpo amorfo bateu de encontro ao dele, como as ondas da arrebentação em um rochedo, e ele me recebeu com a força brutal do granito, minha âncora no caos das águas agitadas.

Lânguida e mole como as águas ao nosso redor, contida apenas pelo apoio de suas mãos, eu gritei, o grito engasgado, borbulhante, fraco, de um marinheiro tragado pelas ondas. Então, ouvi seu próprio grito, em resposta, e vi que havia lhe dado muito prazer.

Lutamos para subir à superfície, para sair do ventre da Terra, molhados e fumegantes, com as pernas frouxas de vinho e calor. Caí de joelhos no primeiro patamar e Jamie, ao tentar me ajudar, caiu ao meu lado num amontoado de túnicas e pernas nuas. Rindo baixinho, sem conseguir parar, mais embriagados de amor do que de vinho, subimos lado a lado o segundo lance de escadas, mutuamente nos atrapalhando mais do que ajudando, empurrando-nos e tropeçando no espaço estreito, até desmoronarmos finalmente nos braços um do outro no segundo patamar.

Ali, uma antiga janela envidraçada abria-se, sem vidraças, para o céu e o clarão da lua cheia banhou-nos de prata. Ficamos deitados, abraçados, a pele úmida esfriando-se ao ar de inverno, à espera de que nossos corações acelerados voltassem ao normal e o fôlego retornasse aos nossos corpos arfantes.

A lua sobre nós era uma lua de Natal, tão grande que quase preenchia o vão da janela. Não era de admirar que as marés do oceano e as mulheres fossem sujeitas à influência daquela esfera majestosa, tão próxima e tão dominante.

As minhas próprias marés, entretanto, já não se moviam segundo aqueles comandos estéreis e castos e o conhecimento da minha liberdade corria perigosamente pelas minhas veias.

- Eu também tenho um presente para você - disse repentinamente a Jamie. Voltou-se para mim e sua mão deslizou, grande e firme, sobre meu ventre ainda plano.

- É mesmo? — ele disse.

E o mundo nos envolveu, pleno de novas possibilidades.




AGRADECIMENTOS
A autora gostaria de agradecer a:

Jackie Cantor, editor por excelência, cujo permanente entusiasmo contribuiu para a concretização deste projeto. Perry Knowlton, agente literário de discernimento impecável, que disse: "Vá em frente e conte a história do jeito que deve ser contada; nós nos preocuparemos em editá-la depois." Meu marido, Doug Watkins, que apesar de ocasionalmente ficar por trás da minha cadeira, dizendo: "Se é ambientada na Escócia, por que ninguém diz “Hoot monv”, também passou boa parte do tempo correndo atrás das crianças e dizendo: "Mamãe está trabalhando! Deixem-na em paz!". Minha filha Laura, por informar com orgulho a uma amiga: "Minha mãe escreve livros". Meu filho Samuel que, ao ser perguntado em que sua mãe trabalhava, respondeu cautelosamente: "Bem, ela passa um bocado de tempo olhando para o computador." Minha filha Jennifer, que diz: "Chegue pra lá, mamãe; é a minha vez de digitar!" Jerry O'Neill, o leitor-mor e chefe de torcida, e o resto da minha gangue fiel de amigos - Janet McConnaughey, Margaret J. Campbell e John L. Myers — que lêem tudo que escrevo e, assim, me mantêm escrevendo. Dr. Gary Hoff, por verificar os detalhes médicos e gentilmente explicar a maneira correta de recolocar um ombro deslocado. T. Lawrence Tuohy, pelos detalhes sobre figurinos e história militar. Robert Rifrle, por explicar a diferença entre betônica e briônia, por listar todos os tipos de miosotis conhecidos pelo homem e por constatar que alamos realmente crescem na Escócia. Virginia Kidd, por ler os primeiros capítulos do manuscrito e encorajar-me a continuar. Alex Krislov, por hospedar, juntamente com outros operadores de sistemas, a mais extraordinária incubadora eletrônica de escritores literários do mundo, o CompuServe Literary Fórum; e aos numerosos membros do LitForum -John Stith, John Simpson, John L. Myers, Judsonjerome, Angelia Dorman, Zilgia Quafay e outros - pelas canções folclóricas escocesas, poesia romântica em latim e por rirem (e chorarem) nas passagens certas.





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