A viajante do tempo



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3 - O HOMEM NO BOSQUE
Os homens estavam a alguma distância quando os avistei. Dois ou três, trajando kilts, corriam como demônios por uma pequena clareira. Ouviam-se uns estampidos distantes que eu, meio aturdida, identifiquei como tiros.

Eu tinha absoluta certeza de que ainda estava tendo alucinações quando ao barulho de tiros seguiu-se o aparecimento de cinco ou seis soldados ingleses, vestindo antigos casacos vermelhos e calças na altura dos joelhos, brandindo mosquetes. Pisquei os olhos e fiquei olhando, paralisada. Ergui a mão e estendi dois dedos diante do rosto. Eu via dois dedos, correta e distintamente. Nenhuma perturbação visual. Cautelosamente, inspirei, sentindo o cheiro do ar. O aroma pungente de árvores na primavera e uma leve fragrância de trevos de um punhado junto aos meus pés. Nenhuma ilusão olfativa.

Apalpei minha cabeça. Nenhum ponto dolorido. Portanto, uma concussão cerebral era improvável. Pulso um pouco acelerado, mas regular.

O som de gritos distantes mudou bruscamente. Ouviu-se um trovão de cascos e vários cavalos surgiram, lançando-se em minha direção, montados por escoceses de kilts, entoando canções em gaélico. Esquivei-me rapidamente do caminho, com uma agilidade que pareceu provar que não estava fisicamente ferida, qualquer que fosse meu estado mental.

Então, me ocorreu, quando um dos homens de casaco vermelho, derrubado por um escocês em disparada, levantou-se e brandiu o punho cerrado teatralmente na direção dos cavalos. É claro. Um filme! Sacudi a cabeça diante da minha própria lentidão mental. Estavam filmando alguma história, vestidos a caráter, apenas isso. Um daqueles filmes românticos sobre o príncipe escocês Carlos Eduardo, sem dúvida.

Muito bem. Independente do mérito artístico, a produção do filme não iria me agradecer por introduzir um tom de inautenticidade histórica em suas cenas. Voltei para dentro do bosque, pretendendo fazer um amplo círculo em torno da clareira e sair na estrada onde eu havia deixado o carro. Entretanto, a ida foi mais difícil do que eu esperava. O bosque era jovem, denso de mato rasteiro que se agarrava em minhas roupas. Tinha que avançar cuidadosamente pelo meio das árvores novas e espigadas, desenredando minha saia das amoreiras selvagens conforme prosseguia.

Se fosse uma cobra, eu teria pisado nele. Estava parado tão silenciosamente entre as árvores novas que parecia uma delas e eu não o vi até sua mão surgir de repente e me agarrar pelo braço.

A outra mão tapou minha boca enquanto eu era arrastada para trás, para dentro do bosque de carvalhos, debatendo-me ferozmente em pânico. Meu captor, quem quer que fosse, não parecia muito mais alto do que eu, mas era extremamente forte nos braços. Senti um leve perfume floral, como de colônia de alfazema, e de algo mais picante, misturados ao cheiro mais forte de suor masculino. No entanto, enquanto as folhagens chicoteavam de volta à posição inicial ao longo de nossa passagem, notei algo familiar a respeito da mão e do antebraço agarrados em torno da minha cintura.

Sacudi a cabeça livrando-me da restrição sobre a minha boca.

- Frank! - exclamei. - Que brincadeira é essa, pelo amor de Deus? — Estava dividida entre o alívio de encontrá-lo ali e a irritação com o gracejo. Perturbada como estava pela minha experiência nas pedras, não sentia disposição para brincadeiras de mau gosto.

As mãos me soltaram, mas no momento em que me voltei para ele pressenti que alguma coisa estava errada. Não se tratava apenas da colônia desconhecida, mas de algo mais sutil. Fiquei parada, imóvel, sentindo os cabelos da minha nuca se arrepiarem.

- Você não é Frank — disse, num sussurro.

- Não, não sou — ele concordou, examinando-me com grande interesse. — Embora tenha um primo com este nome. Duvido, no entanto, que seja com ele que você tenha me confundido, madame. Nós não somos muito parecidos.

Com quem quer que seu primo se parecesse, ele próprio poderia ser irmão de Frank. Havia a mesma constituição física ágil, esbelta, e boa ossatura; os mesmos contornos bem delineados do rosto; as sobrancelhas uniformes e os grandes olhos castanho-claros; e os mesmos cabelos escuros, lisos e macios, penteados para o lado, sobre a fronte.

Mas os cabelos deste homem eram compridos, amarrados na nuca com uma tira de couro. E a pele curtida e bronzeada evidenciava os meses, não, anos de exposição ao tempo, muito diferente da cor dourado-clara que Frank adquirira em nossas férias na Escócia.

- Quem é você? - perguntei, sentindo-me extremamente confusa. Embora Frank tivesse muitos parentes e conexões, eu achava que conhecia todo o ramo britânico de sua família. Certamente, não havia ninguém que se parecesse com este homem. E certamente Frank teria mencionado qualquer parente próximo que vivesse nas Highlands. Não só o teria mencionado, como teria insistido que o visitássemos, armado com a costumeira coleção de mapas genealógicos e cadernos de notas, ansioso por qualquer migalha de história familiar sobre o famoso Black Jack Randall.

O estranho ergueu as sobrancelhas diante da minha pergunta.

- Quem sou eu? Devo lhe fazer a mesma pergunta, madame, e com uma justificativa consideravelmente maior. - Seus olhos vasculharam-me lentamente da cabeça aos pés, viajando com uma aprovação insolente pelo fino vestido de algodão estampado de peônias que eu estava usando e demorando-se com um estranho olhar divertido em minhas pernas. Não compreendi o motivo daquele olhar, mas deixou-me extremamente nervosa e eu recuei um ou dois passos, até bater bruscamente em uma árvore.

O homem finalmente desviou o olhar e virou-se. Foi como se tivesse tirado as mãos de cima de mim e eu deixei escapar um suspiro de alívio, sem ter percebido que até então estivera prendendo a respiração.

Ele se virara para pegar seu casaco, atirado no galho mais baixo de um dos carvalhos novos. Sacudiu algumas folhas esparsas do casaco e começou a vesti-lo.

Devo ter arfado, porque ele ergueu os olhos para mim outra vez. O casaco era vermelho-escuro, com uma longa cauda e sem lapelas, com galões na frente. O forro cor de camurça dos punhos virados para cima estendia-se por uns quinze centímetros da manga e um pequeno cadarço dourado, retorcido, brilhava de uma das dragonas. Era um casaco dos dragões, o casaco de um oficial da cavalaria. Então, ocorreu-me: claro, ele era um ator, da companhia que eu vira do outro lado do bosque. Embora a espada curta que ele amarrava à cintura parecesse muito mais real do que qualquer artefato cenográfico que eu já vira.

Encostei-me com mais força contra o tronco da árvore às minhas costas. A solidez do tronco era real e isso me animou outra vez. Cruzei os braços defensivamente.

- Quem é você afinal? — perguntei novamente. A pergunta desta vez saiu como um grasnido que soou assustador até para os meus ouvidos.

Como se não me ouvisse, ele ignorou a pergunta, amarrando sem pressa os galões da frente do seu casaco. Somente quando terminou é que voltou sua atenção para mim outra vez. Fez uma mesura cínica, a mão sobre o coração.

- Eu sou Jonathan Randall, capitão da Oitava Companhia dos Dragões de Sua Majestade. A seu serviço, madame.

Desatei a correr. Minha respiração roncava no peito à medida que eu abria caminho entre a cortina de carvalhos e amieiros, ignorando amoreiras selvagens, urtigas, pedras, troncos caídos, tudo que estivesse em meu caminho. Ouvi um grito às minhas costas, mas estava apavorada demais para verificar de onde vinha.

Corri às cegas, os galhos das árvores arranhando meu rosto e meus braços, os tornozelos torcendo-se conforme eu pisava em buracos e tropeçava em pedras. Não havia lugar em minha mente para qualquer forma de pensamento racional; eu só queria fugir daquele homem.

Algo pesado atingiu com força os meus quadris e eu fui lançada para a frente, caindo estirada, com um baque surdo, que tirou o ar dos meus pulmões. Mãos rudes me viraram de frente e o capitão Jonathan Randall ergueu-se sobre os joelhos acima de mim. Respirava pesadamente e perdera sua espada na corrida. Parecia desalinhado, sujo e bastante contrariado.

- Que diabos pretende fugindo desse jeito? — indagou. Uma grossa mecha de cabelos castanho-escuros soltara-se e ondulava em sua testa, aumentando de forma desconcertante sua semelhança com Frank.

Inclinou-se para a frente e agarrou-me pelos braços. Ainda tentando recuperar o fôlego, debati-me para me libertar, mas tudo que consegui foi arrastá-lo para cima de mim.

Ele perdeu o equilíbrio e caiu com todo o peso do seu corpo sobre o meu, achatando-me outra vez. Para minha surpresa, isso fez sua contrariedade desaparecer por completo.

- Ah, então é assim, hein? - disse, com um risinho. - Bem, gostaria muito de servi-la, benzinho, mas acontece que você escolheu um momento um tanto inoportuno. - Seu peso pressionava meus quadris contra o solo. E uma pequena pedra cravava-se dolorosamente na base da minha coluna. Retorci-me para desalojá-la. Ele apertou os quadris com mais força contra os meus e suas mãos prenderam meus ombros no chão. Abri a boca, indignada.

- O que você... - comecei a dizer, mas ele abaixou a cabeça e beijou-me, interrompendo os meus protestos. Enfiou a língua na minha boca e explorou-a com uma ousada familiaridade, girando e mergulhando, recolhendo-se e arremessando-se outra vez. Em seguida, da mesma forma repentina como iniciara, afastou-se.

Deu uns tapinhas na minha bochecha.

- Muito bom, benzinho. Talvez mais tarde, quando eu tiver tempo de folga para cuidar de você.

A essa altura, eu já havia recuperado o fôlego e usei-o. Gritei diretamente dentro do seu ouvido e ele deu um salto para trás como se eu tivesse lhe dado um choque elétrico. Aproveitei o movimento para erguer o joelho e cravá-lo na lateral do seu corpo, fazendo-o se esparramar na camada de folhas.

Consegui levantar-me com dificuldade. Ele rolou sobre si mesmo agilmente e surgiu ao meu lado. Olhei desesperadamente à minha volta, procurando uma saída, mas havíamos sido levados para a base de um desses elevados penhascos de granito que se erguem bruscamente do solo nas Highlands escocesas. Ele me encurralara num lugar em que uma reentrância na superfície rochosa formava uma caixa de pedra de pouca profundidade.

Ele bloqueou a entrada para o declive, os braços abertos e firmemente apoiados nas paredes da rocha, uma mistura de raiva e curiosidade na expressão do belo rosto moreno.

- Com quem você estava? - perguntou. - Um tal de Frank? Não tenho nenhum homem com este nome na minha companhia. Ou é alguém que vive aqui perto? — Sorriu com escárnio. — Sua pele não cheira a estrume, portanto não estava com um camponês. Aliás, você parece mais cara do que um fazendeiro local poderia pagar.

Cerrei os punhos e o queixo. O que quer que aquele palhaço tivesse em mente, eu não iria aturar.

- Não faço a menor idéia do que você está falando e agradeço se me deixar passar agora mesmo! - eu disse, adotando meu melhor tom de enfermeira-chefe. Geralmente, surtia um bom efeito em ordenanças recalcitrantes e estudantes de medicina, mas pareceu apenas divertir o capitão Randall. Eu reprimia resolutamente os sentimentos de medo e desorientação que batiam sob as minhas costelas como um bando de galinhas em pânico.

Ele sacudiu a cabeça lentamente, examinando-me minuciosamente mais uma vez.

- Não neste momento, benzinho. Estou perguntando a mim mesmo -disse, em tom casual -, por que uma vagabunda fora da sua terra, em roupas de baixo, estaria usando sapatos? Aliás, sapatos muito bons - acrescentou, olhando para os meus simples mocassins marrons.

- Uma o quê! - exclamei.

Ignorou-me completamente. Seu olhar retornou ao meu rosto e, repentinamente, deu um passo para a frente e agarrou meu queixo com uma das mãos. Agarrei seu pulso e dei um puxão.

- Solte-me! - Ele tinha dedos de aço. Indiferente aos meus esforços para me libertar, virou meu rosto de um lado para o outro, de modo que a luz mortiça da tarde incidisse sobre ele.

- A pele de uma dama, posso jurar - murmurou para si mesmo. Inclinou-se para a frente e cheirou. — E um aroma francês nos cabelos. — Soltou-me e eu esfreguei meu queixo, indignada, como se quisesse apagar o toque de sua mão que ainda sentia em minha pele.

- O resto deve ter conseguido com dinheiro do seu benfeitor — resmungou para si mesmo —, mas também fala como uma dama.

- Muito obrigada! - retorqui. - Saia da minha frente. Meu marido está à minha espera; se eu não voltar em dez minutos, ele virá à minha procura.

- Ah, seu marido? - A expressão de admiração e escárnio retrocedeu um pouco, mas não desapareceu inteiramente. - E qual é o nome de seu marido, pode me dizer? Onde está ele? E por que permite que sua mulher ande sozinha pelos bosques desertos quase despida?

Eu continuava a pressionar aquela parte do meu cérebro que estava se debatendo para dar algum sentido àquela tarde. Consegui um momento de lucidez suficientemente longo para me dizer que, por mais absurdas que eu considerasse suas conjecturas, dar a esse homem o nome de Frank, o mesmo nome dele, só iria levar a mais confusões. Assim, sem responder-lhe, fiz menção de passar por ele. Bloqueou minha passagem com um braço musculoso e agarrou-me com a outra mão.

Ouviu-se um chiado repentino acima de nossas cabeças, seguido imediatamente por uma figura indistinta diante dos meus olhos e um baque surdo. O capitão Randall estava no chão aos meus pés, sob uma massa arquejante que parecia uma trouxa de farrapos velhos de tecido xadrez. Um punho moreno e maciço como uma rocha ergueu-se da massa e abateu-se com força considerável, chocando-se resolutamente com alguma protuberância óssea, pelo barulho resultante. As pernas agitadas do capitão, em botas marrons longas e brilhantes, relaxaram imediatamente.

Vi-me diante de um par de penetrantes olhos negros. A mão robusta que temporariamente distraíra as indesejadas atenções do capitão prendeu-se como um molusco no meu antebraço.

- E quem diabos é você? - perguntei, estarrecida. Meu salvador, se podia chamá-lo assim, era alguns centímetros mais baixo do que eu e de constituição pequena, mas os braços nus que se projetavam da camisa rasgada eram musculosos e toda a sua estrutura dava a impressão de ser feita de algum material elástico, como molas de cama. Também não possuía nenhuma beleza - pele com marcas de varíola, fronte baixa e maxilar estreito.

- Por aqui. - Deu um puxão em meu braço e eu, estupefata com a sucessão dos últimos acontecimentos, segui obedientemente.

Meu novo companheiro abriu caminho rapidamente através de uma cortina de amieiros, deu a volta bruscamente em uma grande rocha e de repente estávamos em um caminho. Tomado por urzes e tojos, e ziguezagueando de forma que nunca fosse visível a mais de dois metros à frente, ainda assim era indubitavelmente um caminho, um aclive íngreme que levava ao topo da colina.

Foi somente quando avançávamos cautelosamente pelo outro lado da colina que consegui reunir fôlego e presença de espírito suficientes para perguntar onde estávamos indo. Não recebendo nenhuma resposta do meu companheiro, repeti num tom mais alto:

- Para onde afinal estamos indo?

Para minha considerável surpresa, virou-se para mim, o rosto contorcido, e arrastou-me para fora do caminho. Quando abria minha boca para protestar, ele espalmou a mão sobre ela e derrubou-me no chão, rolando o corpo para cima do meu.

Ah, outra vez, não!, pensei, e contorcia-me desesperadamente para me libertar quando ouvi o que ele ouvira e, de repente, fiquei imóvel. Vozes iam e vinham, acompanhadas pelo barulho de passos pesados. Eram, sem dúvida, vozes inglesas. Lutei violentamente para liberar minha boca. Enfiei os dentes em sua mão e só tive tempo de registrar o fato de que ele andara comendo arenque em conserva com as mãos, antes de alguma coisa se abater contra a parte de trás de minha cabeça e tudo ficar escuro.

A cabana de pedra surgiu de repente em meio à neblina noturna. As janelas estavam trancadas, mostrando apenas um fio de luz. Sem a menor idéia de quanto tempo ficara desacordada, não sabia a que distância ficava esse lugar da colina de Craigh na Dun ou da cidade de Inverness. Estávamos a cavalo, eu na frente do meu captor, as mãos amarradas ao arção da sela. Entretanto, não havia nenhuma estrada, de modo que avançávamos muito lentamente.

Calculei que não ficara inconsciente muito tempo; não demonstrava nenhum sintoma de concussão ou outros efeitos colaterais da pancada, a não ser uma região dolorida na base do crânio. Meu captor, um homem de poucas palavras, respondia às minhas perguntas, reclamações e observações de mau humor, com o mesmo ruído escocês que servia para todas as ocasiões e que melhor pode ser representado foneticamente como "Mmmmhum". Se eu tivesse alguma dúvida quanto à sua nacionalidade, esse som seria suficiente para afastá-la.

Meus olhos haviam se adaptado gradualmente à penumbra do anoitecer conforme o cavalo tropeçava pelas pedras e pelas tojeiras, de modo que foi um choque sair da semi-escuridão para o que parecia uma luz incandescente no interior da cabana. A medida que a visão ficou menos ofuscada, pude ver que de fato o único aposento era iluminado apenas pelo fogo na lareira, várias velas e um lampião perigosamente antigo.

- O que tem aí, Murtagh?

O homem com cara de fuinha agarrou-me pelo braço e empurrou-me para a luz do fogo.

- Uma vagabunda Sassenach, Dougal, pelo modo de falar.

Havia vários homens no aposento, todos me olhando fixamente, alguns com curiosidade, outros com inegável malícia. Meu vestido rasgara-se em vários lugares durante as atividades da tarde e eu avaliei apressadamente os danos. Olhando para baixo, podia ver claramente a curva de um dos seios através de um rasgão e tinha certeza que o grupo de homens também. Decidi que fazer uma tentativa de juntar os pedaços rasgados só iria chamar mais ainda a atenção; ao invés disso, escolhi um rosto qualquer e fitei-o corajosamente, na esperança de desviar os olhares.

- Ei, bonita, Sassenach ou não - disse o homem, um tipo gordo, seboso, sentado junto ao fogo. Segurava um pedaço de pão e não se deu ao trabalho de largá-lo quando se levantou e caminhou na minha direção. Ergueu meu queixo com as costas da mão, afastando os cabelos do meu rosto. Alguns farelos de pão caíram pela gola do meu vestido. Os outros homens amontoaram-se ao redor, um bando em tecido quadriculado escocês e costeletas, com o forte odor de suor e álcool. Foi somente então que eu vi que todos eles usavam kilt - estranho, mesmo para aquela parte das Highlands. Eu teria me deparado com a reunião de uma associação de clãs ou talvez com uma reunião política?

- Venha cá, dona. - Um homem corpulento, de barba preta, permaneceu sentado a uma mesa junto à janela enquanto me chamava. Pelo ar de comando, devia ser o chefe do bando. Os homens abriram caminho relutantemente quando Murtagh empurrou-me para a frente, aparentemente respeitando seus direitos de captor.

O homem moreno analisou-me cuidadosamente, o rosto sem expressão. Era bem-apessoado, pensei, e não parecia inamistoso. No entanto, havia rugas de tensão entre suas sobrancelhas e não era um rosto que alguém gostaria de contrariar.

- Qual é o seu nome, dona? — Sua voz era fina para um homem do seu tamanho, não a voz grave e profunda que eu esperaria de um tórax tão volumoso.

- Claire... Claire Beauchamp - eu disse, resolvendo de improviso usar meu nome de solteira. Se era resgate o que tinham em mente, não queria ajudá-los dando um nome que pudesse levar a Frank. E não tinha certeza se queria que aqueles homens de aparência grosseira soubessem quem eu era, antes de descobrir quem eram eles. — E exatamente o que você acha que está... - O homem moreno ignorou-me, estabelecendo um padrão do qual eu iria me cansar muito em breve.

- Beauchamp? - As grossas sobrancelhas ergueram-se e todo o grupo agitou-se de surpresa. — Um nome francês, não é? - Ele de fato havia pronunciado o nome corretamente em francês, embora eu o tivesse dito na pronúncia inglesa comum de "Beecham".

Sim, isso mesmo — respondi, um pouco surpresa.

- Onde encontrou essa moça? — Dougal indagou, virando-se para Murtagh, que se revigorava bebendo de um frasco de couro.

O homenzinho moreno encolheu os ombros.

- Ao sopé da Craigh na Dun. Estava discutindo com um certo capitão dos dragões que por acaso eu conhecia - acrescentou, erguendo significativamente uma das sobrancelhas. - Parecia haver uma dúvida se a madame era ou não uma prostituta.

Dougal examinou-me de cima a baixo mais uma vez, atentando para cada detalhe do meu vestido de algodão estampado e meus sapatos de caminhada.

- Sei. E qual era a posição da madame nessa discussão? - perguntou, com uma ênfase sarcástica na palavra "madame" que não me agradou. Observei que, embora seu escocês fosse menos carregado do que o do homem chamado Murtagh, seu sotaque ainda era bastante pronunciado, dando à palavra um som aberto.

Murtagh pareceu achar graça; ao menos, um dos cantos de sua boca fina curvou-se para cima.

- Ela disse que não era. O próprio capitão parecia não ter certeza, mas estava disposto a fazer um teste.

- Poderíamos fazer o mesmo, por falar nisso. — O homem gordo, de barba preta, deu um passo em minha direção, rindo, as mãos puxando o cinto. Recuei depressa o mais que pude, o que não era muito longe, dadas as dimensões da cabana.

- Chega, Rupert. - Dougal ainda me olhava preocupado, mas sua voz tinha o tom da autoridade e Rupert parou onde estava, fazendo uma careta engraçada de decepção.

- Eu não admito estupros e não temos tempo para isso de qualquer forma. - Fiquei contente de ouvir essa declaração de política, por mais duvidosa que sua base moral pudesse ser, mas continuei um pouco nervosa diante dos olhares abertamente lascivos em alguns dos outros rostos. Tinha a sensação absurda de estar em público vestida com minhas roupas de baixo. E embora eu não fizesse a menor idéia de quem ou o quê esses bandidos das Highlands estavam perseguindo ou tramando, eles pareciam bastante perigosos. Mordi a língua, reprimindo algumas observações mais ou menos imprudentes que afloravam à minha boca.

- O que acha, Murtagh? - Dougal perguntou ao meu captor. — Pelo menos, ela não parece gostar de Rupert.

- Isso não prova nada - objetou um homem baixo, meio careca. - Ele não lhe ofereceu nenhum dinheiro. Não pode esperar que uma mulher aceite alguém como Rupert sem um pagamento substancial, antecipado — acrescentou, para grande hilaridade de seus companheiros. Dougal, no entanto, calou a barulheira com um gesto brusco e fez um sinal com a cabeça indicando a porta. O sujeito careca, ainda rindo, saiu obedientemente para a escuridão.

Murtagh, que não se juntara à risada geral, franzia o cenho enquanto me examinava. Sacudiu a cabeça, fazendo a franja lisa balançar-se na testa.

- Não — disse definitivamente. - Não faço a menor idéia do que ela possa ser, ou quem, mas aposto a minha melhor camisa que não é uma prostituta. - Torci, nesse caso, para que sua melhor camisa não fosse a que ele estava vestindo, que mal parecia valer a aposta.

- Bem, você deve saber, Murtagh, você conheceu muitas — debochou Rupert, mas foi bruscamente silenciado por Dougal.

- Resolveremos isso mais tarde - disse asperamente. — Temos uma boa distância para percorrer esta noite e temos que fazer alguma coisa por Jamie primeiro; ele não pode viajar assim.

Encolhi-me nas sombras junto à lareira, esperando não ser mais notada. O homem chamado Murtagh desamarrara minhas mãos antes de me conduzir para dentro da cabana. Talvez eu conseguisse fugir enquanto estivessem ocupados em algum outro lugar. A atenção dos homens voltara-se para um jovem agachado em um banco no canto. Ele mal erguera os olhos durante o meu aparecimento e interrogatório, mas manteve a cabeça abaixada, a mão segurando o ombro oposto, balançando-se levemente para a frente e para trás de dor.

Dougal retirou delicadamente a mão agarrada ao ombro. Um dos homens puxou para trás o xale quadriculado do jovem, revelando uma camisa de linho suja de terra e manchada de sangue. Um homem pequeno, com um grande bigode, surgiu por trás do rapaz com uma faca e, segurando a camisa pelo colarinho, cortou-a na frente e ao longo da manga, de modo que a camisa abriu-se e caiu do ombro ferido.

Soltei uma arfada, como vários dos homens. O ombro estava ferido; havia um sulco profundo e dilacerado na parte superior e o sangue escorria livremente pelo peito do rapaz. Porém mais chocante era a própria junta do ombro. Um terrível calombo erguia-se na articulação e o braço estava pendurado num ângulo impossível.

Dougal grunhiu.

- Hummm. Desconjuntado, pobre diabo.

O jovem ergueu os olhos pela primeira vez. Embora contorcido de dor e com uma barba ruiva por fazer, era um rosto forte e bem-humorado.

- Caí em cima da mão, quando a bala do mosquete me arrancou da sela. Caí com todo o peso do corpo sobre a mão e craque!, desconjuntou-se.

- Desconjuntou mesmo. — O homem de bigode, um escocês, e educado, a julgar pelo seu sotaque, examinava o ombro, levando o rapaz a fazer uma careta de dor. - O ferimento não é problema. A bala atravessou direto e está limpo, o sangue está escorrendo livremente. - O homem pegou um chumaço de pano sujo da mesa e usou-o para estancar o sangue. -- Mas não sei bem o que fazer com o deslocamento. Precisamos de um cirurgião para colocar o braço de volta no lugar certo. Você não pode cavalgar assim, não é, Jamie?

Bala de mosquete?, pensei, aturdida. O jovem sacudiu a cabeça, pálido.

-- Já dói muito aqui sentado. Não poderia conduzir um cavalo. — Apertou os olhos e cravou os dentes com força no lábio inferior.

Murtagh falou com impaciência.

- Bem, não podemos deixá-lo para trás, não é? Os soldados ingleses não são grande coisa para rastrear no escuro, mas vão encontrar este lugar mais cedo ou mais tarde, com ou sem janelas fechadas. E Jamie não consegue se fazer passar por um camponês inocente, com esse enorme ferimento.

- Não se preocupe - Dougal disse, interrompendo-o. — Não pretendo deixá-lo para trás.

O homem de bigode suspirou.

- Então, não há outro jeito. Vamos ter que tentar recolocar o braço no lugar. Murtagh, você e Rupert segurem-no; eu vou tentar.

Fiquei observando com pena do jovem enquanto o homem de bigode pegava o braço do rapaz pelo pulso e pelo cotovelo e começava a forçá-lo para cima. O ângulo estava totalmente errado; devia estar causando uma dor excruciante. O suor escorria pelo rosto do jovem, mas ele não emitiu nenhum som além de um gemido baixo. De repente, ele desabou com todo o peso para a frente e só não caiu no chão por causa dos homens que o seguravam.

Um dos homens abriu um frasco de couro e pressionou-o contra seus lábios. O cheiro penetrante da bebida forte e pouco refinada chegou até onde eu estava. O jovem tossiu e engasgou, mas assim mesmo engoliu, deixando o líquido cor de âmbar escorrer da boca sobre o que restava de sua camisa.

- Pronto para outra tentativa, rapaz? - o careca perguntou. - Ou talvez Rupert devesse tentar - sugeriu, voltando-se para o rufião atarracado, de barba preta.

Rupert, assim convidado, flexionou as mãos como se fosse praticar arremesso de mastro e pegou o pulso do rapaz, obviamente pretendendo colocar a junta no lugar pela força bruta; uma operação, era óbvio, capaz de arrancar o braço do rapaz como o cabo de uma vassoura.

- Não se atreva a fazer isso! - Qualquer pensamento de fuga desapareceu diante da indignação profissional. Lancei-me para a frente, sem me importar com os olhares espantados dos homens à minha volta.

- O que quer dizer? — retorquiu o careca, claramente irritado com a minha intromissão.

- Quero dizer que vai quebrar o braço dele se fizer desse modo - retruquei. — Saiam do caminho, por favor. — Afastei Rupert com o cotovelo e eu mesma segurei o pulso do paciente. O paciente parecia tão surpreso quanto os outros, mas não resistiu. Sua pele estava muito quente, mas não febril, considerei.

- É preciso colocar o osso da parte superior do braço no ângulo certo antes de encaixá-lo na junta outra vez — eu disse, grunhindo enquanto puxava o pulso para cima e o cotovelo para dentro. O rapaz era alto e forte; seu braço pesava como chumbo.

- Essa é a pior parte - avisei o paciente. Encaixei minha mão no seu cotovelo, pronta para dar um tranco para cima.

Sua boca contorceu-se, no que não parecia um sorriso.

- Não pode doer muito mais do que está doendo. Vá em frente.

O suor porejava no meu próprio rosto a essa altura. Recolocar um ombro no lugar é uma tarefa árdua mesmo nas melhores condições. Em um homem grande que passara horas com o deslocamento, os músculos agora inchados e cobrindo a junta, a tarefa iria requerer todas as minhas forças. O fogo estava perigosamente perto; esperava que nós dois não caíssemos nele, se a junta voltasse ao lugar com um tranco.

De repente, o ombro fez um suave pop! e a articulação voltou ao lugar. O paciente ficou admirado. Colocou a mão no ombro, incrédulo, para explorá-lo.

- Não dói mais! — Um amplo sorriso de alívio e satisfação espalhou-se por seu rosto e os homens irromperam em exclamações de admiração e aplausos.

- Vai doer. — Eu suava do esforço, mas fiquei satisfeita e orgulhosa com o resultado. — Ficará dolorido por vários dias. Não deve de modo algum estender a junta nos próximos dois ou três dias; quando voltar a usar o braço, comece bem devagar. Pare imediatamente se começar a doer e use compressas quentes diariamente.

Percebi, no meio dessas recomendações, que enquanto o paciente ouvia respeitosamente, os outros homens olhavam-me com expressões que iam da absoluta admiração à óbvia suspeita.

- Sou enfermeira - expliquei, sentindo-me um pouco na defensiva. Os olhos de Dougal, assim como os de Rupert, recaíram sobre meu colo e lá permaneceram com uma espécie de horrorizado fascínio. Trocaram olhares, depois Dougal olhou de novo para o meu rosto.

- Que assim seja - disse, erguendo as sobrancelhas para mim. - Para uma ama, você parece ter alguma habilidade de cura. Pode estancar o ferimento do rapaz o suficiente para ele montar um cavalo?

- Posso fazer um curativo no ferimento, sim - eu disse com considerável rispidez. - Desde que tenha alguma coisa para cobri-lo. Mas o que quer dizer com "ama"? E por que acha que eu iria querer ajudá-lo?

Fui ignorada enquanto Dougal virava-se e falava para uma mulher agachada no canto em uma língua que eu indistintamente reconheci como sendo o gaélico. Cercada pelo bando de homens, eu não havia notado a sua presença. Vestia-se de modo estranho, pensei, numa saia longa e esfarrapada e uma blusa de mangas compridas semi-coberta por uma espécie de corpete ou colete. Tudo parecia meio encardido, inclusive seu rosto.

Entretanto, olhando à minha volta, pude notar que a cabana não só não tinha eletricidade como também não possuía água encanada; talvez houvesse uma desculpa para a sujeira.

A mulher fez uma rápida mesura e, passando rapidamente por Rupert e Murtagh, começou a remexer num baú de madeira pintada que estava junto à lareira, finalmente surgindo com uma pilha de trapos.

- Não, isso não serve - eu disse, manipulando-os com cuidado. -Primeiro, o ferimento tem que ser desinfetado, depois coberto com um pano limpo, se não houver ataduras esterilizadas.

As sobrancelhas ergueram-se por todo o aposento.

- Desinfetado? - disse o homenzinho, cautelosamente.

- Sim, isso mesmo — eu disse com firmeza, achando-o um pouco simplório, apesar do seu sotaque educado. — Toda a sujeira tem que ser removida do ferimento e ele tem que ser tratado com um composto que desencoraje a proliferação de germes e promova a cura.

- Como o quê, por exemplo?

- Como iodo - respondi. Não vendo nenhum sinal de compreensão nos rostos à minha frente, tentei de novo. - Mertiolate? Ácido carbólico diluído? - sugeri. - Ou talvez apenas álcool? — Olhares de alívio. Finalmente, eu encontrara uma palavra que pareciam reconhecer. Murtagh enfiou o frasco de couro em minhas mãos. Suspirei com impaciência. Sabia que as Highlands eram primitivas, mas aquilo era quase inacreditável.

- Olhe — eu disse, com toda a paciência que pude reunir. - Por que vocês simplesmente não o levam até à cidade? Não deve ficar muito longe e tenho certeza que haverá um médico lá que poderá cuidar dele.

A mulher me olhou boquiaberta.

- Que cidade?

O homem grandalhão chamado Dougal ignorava a discussão, espreitando cautelosamente a escuridão lá fora pela borda da cortina. Deixou-a cair de volta no lugar e caminhou silenciosamente para a porta. Os homens fizeram silêncio quando ele desapareceu na noite.

Em poucos instantes, estava de volta. Trazendo o careca e o aroma pungente e frio dos pinheiros escuros com ele. Sacudiu a cabeça em resposta aos olhares interrogativos dos homens.

- Não, nada por perto. Vamos imediatamente, enquanto é seguro. Vendo-me, parou por um instante, pensando. De repente, indicou-me

com um movimento da cabeça, a decisão tomada.

- Ela virá conosco. - Remexeu na pilha de panos sobre a mesa e escolheu uma tira esfarrapada; parecia um lenço de pescoço que já vira dias melhores.

O homem de bigode não pareceu inclinado a concordar com que me levassem, onde quer que estivessem indo.

- Por que nós simplesmente não a deixamos aqui?

Dougal lançou-lhe um olhar impaciente, mas deixou a explicação a cargo de Murdoch.

- Onde quer que os soldados ingleses estejam agora, estarão aqui ao amanhecer, o que não falta muito, se pensarmos bem. Se esta mulher for uma espiã inglesa, não podemos nos arriscar a deixá-la aqui para lhes dizer para onde fomos. E se ela não estiver em bons termos com eles - olhou para mim em dúvida -, certamente não podemos deixar uma mulher sozinha aqui em suas roupas de baixo. - Animou-se um pouco, manuseando o tecido da minha saia. - Ela deve valer um bocado para um resgate; apesar da pouca roupa, é coisa fina.

- Além do mais — Dougal acrescentou, interrompendo -, ela pode ser útil no caminho; ela parece saber um pouco de cuidados médicos. Mas não temos tempo para isso agora. Receio que você tenha que passar sem ser "desinfetado", Jamie - disse, dando um tapa de leve nas costas do jovem. — Pode cavalgar com uma das mãos?

- Posso.

- Bom rapaz. Tome - disse, atirando o pano ensebado para mim. — Enfaixe o ferimento dele, depressa. Vamos partir imediatamente. Vocês dois, peguem os cavalos — disse, virando-se para o cara de fuinha e o gordo chamado Rupert.

Revirei o farrapo nas mãos com repugnância.

- Não posso usar isto - reclamei. - Está imundo.

Sem vê-lo se mover, deparei-me com o grandalhão agarrando-me pelo ombro, os olhos escuros a poucos centímetros dos meus.

- Ande logo — disse.

Libertando-me com um empurrão, caminhou a passos largos em direção à porta e desapareceu atrás de seus dois capangas. Bastante abalada, voltei-me para a tarefa de enfaixar o ferimento à bala da melhor forma possível. A idéia de usar o imundo lenço de pescoço era algo que minha formação de enfermeira não me deixava considerar. Tentei esconder minha confusão e pavor na tarefa de tentar encontrar algo mais adequado e, após uma busca rápida e inútil na pilha de farrapos, finalmente decidi-me por tiras de rayon rasgadas da bainha da minha combinação. Embora estivessem longe de estarem esterilizadas, era sem dúvida o material mais limpo à mão.

O linho da camisa do meu paciente era velho e gasto, mas ainda assim surpreendentemente forte. Com um certo esforço, rasguei o resto da manga e usei-a para improvisar uma tipóia. Dei um passo atrás para analisar o resultado do curativo improvisado e esbarrei no grandalhão, que entrara silenciosamente para observar.

Olhou com ar de aprovação para a minha obra.

— Bom trabalho, dona. Vamos, estamos prontos.

Dougal entregou uma moeda para a mulher e conduziu-me apressadamente para fora da cabana, seguido mais lentamente de Jamie, ainda um pouco pálido. Tendo se levantado do banquinho baixo, meu paciente mostrou ser bastante alto; ultrapassava Dougal em vários centímetros, ele próprio um homem bem alto.

Rupert, o sujeito de barba preta, e Murtagh seguravam seis cavalos, sussurrando-lhes palavras carinhosas em gaélico no escuro. Era uma noite sem lua, mas a luz das estrelas refletia-se nas tachas de metal das selas em lampejos prateados. Ergui os olhos e quase perdi a respiração, maravilhada; o céu noturno estava esplendorosamente coberto de estrelas de uma forma que eu jamais vira. Olhando para a floresta à minha volta, compreendi. Sem nenhuma cidade nas proximidades para velar o céu com sua luz, as estrelas dominavam a noite sem concorrência.

Então, parei de repente, sentindo muito mais frio do que o frescor da noite justificava. Nenhuma luz de cidades. "Que cidade?", a mulher lá dentro perguntara. Acostumada como eu estava a blecautes e ataques aéreos dos anos de guerra, a ausência de luz não me perturbara no começo. Mas estávamos em tempos de paz e as luzes de Inverness deveriam ser visíveis por vários quilômetros.

Os homens eram figuras indistintas na escuridão. Pensei em tentar escapar silenciosamente para o meio das árvores, mas Dougal, aparentemente adivinhando meus pensamentos, agarrou-me pelo cotovelo e empurrou-me em direção aos cavalos.

-Jamie, suba - disse. - A moça vai cavalgar com você. - Apertou meu cotovelo. - Pode segurar as rédeas, se Jamie não conseguir apenas com uma das mãos, mas tenha cuidado de se manter sempre perto de nós. Se tentar alguma outra coisa, cortarei sua garganta. Compreendeu?

Balancei a cabeça, a garganta seca demais para responder. Sua voz não era particularmente ameaçadora, mas eu acreditava em cada palavra. Eu era a menos inclinada a "tentar alguma coisa", já que não fazia a menor idéia do que eu poderia tentar. Não sabia onde estava, quem eram meus acompanhantes, por que estávamos partindo com tanta pressa ou para onde nos dirigíamos, mas não tinha nenhuma alternativa razoável a não ser acompanhá-los. Estava preocupada com Frank, que há muito tempo já devia ter começado a me procurar, mas aquele não parecia o momento mais adequado para mencioná-lo.

Dougal deve ter pressentido o meu movimento de cabeça, porque largou meu braço e abaixou-se ao meu lado. Fiquei parada, olhando estupidamente para ele, até ele dizer entre dentes:

- O pé, dona! Me dê o seu pé! Seu pé esquerdo. — acrescentou, contrariado. Rapidamente, tirei meu pé direito de sua mão e ergui o esquerdo.

Resmungando baixinho, ele me ergueu para a sela, na frente de Jamie, que me apertou contra si com o braço bom.

Apesar da estranheza geral da minha situação, senti-me grata pelo calor do jovem escocês. Cheirava fortemente a lenha queimada, sangue e odor masculino, mas o frio da noite atravessava meu vestido fino e fiquei contente em poder recostar-me contra ele.

Sem mais do que um leve tinir dos freios, partimos na noite estrelada. Não havia conversa entre os homens, somente uma cautelosa vigilância geral. Os cavalos começaram a trotar assim que chegamos à estrada e eu mesma sacolejava desconfortavelmente demais para querer falar, mesmo supondo que alguém estivesse disposto a me ouvir.

Meu companheiro parecia não estar tendo muita dificuldade, apesar de não poder usar a mão direita. Eu podia sentir suas coxas atrás das minhas, às vezes mexendo-se e pressionando para guiar o cavalo. Agarrei-me à borda da pequena sela para me manter sentada; eu já montara antes, mas não era nem de longe o cavaleiro que esse Jamie era.

Após algum tempo, chegamos a uma encruzilhada, onde paramos por um instante enquanto o careca e o líder confabulavam em voz baixa. Jamie largou as rédeas sobre o pescoço do cavalo, deixando que se afastasse para a margem da estrada para pastar, e começou a remexer-se e contorcer-se atrás de mim.

- Cuidado! - eu disse. - Não se remexa assim ou a atadura sairá! O que está tentando fazer?

- Soltar meu xale para cobri-la - respondeu. - Você está tremendo de frio. Mas não consigo fazer isso só com uma das mãos. Pode alcançar o prendedor do meu broche para mim?

Depois de muitos esforços desajeitados, conseguimos soltar o xale. Com uma destreza surpreendente, ele fez o tecido girar e recair, como uma manta, em torno dos seus ombros. Em seguida, puxou as pontas por cima dos meus ombros e prendeu-as cuidadosamente embaixo das bordas da sela, de modo que nós dois ficamos confortavelmente cobertos.

- Pronto! - disse. - Não vamos querer que você congele antes de chegarmos lá.

- Obrigada - eu disse, agradecida pela proteção. - Mas para onde estamos indo?

Eu não podia ver seu rosto, atrás e acima de mim, mas ele fez uma pausa antes de responder.

Finalmente, deu uma pequena risada.

- Para lhe dizer a verdade, dona, eu não sei. Acho que vamos descobrir quando chegarmos, não é?

Algo parecia ligeiramente familiar naquela região rural que estávamos atravessando. Eu não conhecia aquela grande formação rochosa à nossa frente, a que se parecia com um rabo de galo?

- Cocknammon Rock! - exclamei.

- Sim, acho que sim - disse meu acompanhante, pouco interessado naquela revelação.

- Os ingleses não a usavam para emboscadas? - perguntei, tentando me lembrar dos detalhes sombrios da história local com que Frank passara horas me regalando na semana passada. - Se houver uma patrulha inglesa na vizinhança... - hesitei. Se houvesse uma patrulha inglesa na vizinhança, talvez fosse um erro eu chamar atenção para isso. No entanto, no caso de uma emboscada, eu não seria distinguida de meu companheiro, cobertos como estávamos com um único xale. Além do mais, pensei novamente no capitão Jonathan Randall e estremeci involuntariamente. Tudo que eu vira desde que entrara na fenda da pedra apontava para a conclusão inteiramente irracional de que o homem que eu encontrara no bosque era na verdade o antepassado de Frank. Lutei obstinadamente contra essa conclusão, mas não era capaz de formular nenhuma outra que combinasse com os fatos.

No início, imaginei que estivesse apenas sonhando mais vividamente do que o normal, mas o beijo de Randall, rudemente familiar e imediatamente físico, dissipara essa impressão. Nem eu imaginava que tivesse sonhado que fora acertada com um golpe na cabeça por Murtagh; o ponto dolorido no meu couro cabeludo igualava a parte interna das minhas coxas roçando contra a sela, o que não tinha nada de fantasioso. E o sangue; sim, estava suficientemente familiarizada com sangue para já ter sonhado com ele. Mas nunca sonhei com o cheiro do sangue; aquele cheiro forte, penetrante, morno, que eu ainda sentia no homem atrás de mim.

Ele estalou a língua para tocar o cavalo e emparelhou com o líder, entabulando uma tranqüila conversa em gaélico com a sombra corpulenta. Os cavalos reduziram a marcha.

A um sinal do líder, Jamie, Murtagh e o homem pequeno e careca deixaram-se ficar para trás, enquanto os outros dois incitaram os cavalos com as esporas e galoparam em direção à rocha, a uns quatrocentos metros à nossa direita. Uma lua crescente surgira no céu e a claridade era suficiente para distinguir as folhas de malva que cresciam nas margens da estrada, mas as sombras nas reentrâncias da rocha poderiam esconder qualquer coisa.

No exato instante em que as figuras a galope passaram diante da enorme pedra, o lampejo do disparo de um mosquete brilhou de uma cavidade na parede da rocha. Um grito de gelar o sangue nas veias partiu de trás de mim e o cavalo deu um salto para a frente como se tivesse sido espetado com uma vara pontuda. De repente, estávamos correndo desabalados em direção à rocha, através das urzes, Murtagh e os outros homens ao lado, berros horripilantes cortando o ar da noite.

Agarrei-me com todas as forças no arção da sela. De repente, puxando as rédeas e freando perto de um grande arbusto de tojo, Jamie agarrou-me pela cintura e sem nenhuma cerimônia descarregou-me sobre ele. O cavalo girou bruscamente e disparou outra vez, dando a volta na rocha para vir pelo lado sul. Pude ver o cavaleiro agachar-se bem baixo na sela enquanto o cavalo desaparecia nas sombras da rocha. Quando surgiu novamente, ainda galopando, a sela estava vazia.

As superfícies da rocha eram cravejadas de sombras; podia ouvir gritos e um ou outro tiro de mosquete, mas, não conseguia saber se os movimentos que via eram dos homens ou apenas as sombras dos carvalhos atrofiados que brotavam nas fendas da rocha.

Desembaracei-me do arbusto com alguma dificuldade, tirando fragmentos espinhosos de tojo da minha saia e dos meus cabelos. Lambi um arranhão em minha mão, perguntando-me o que deveria fazer agora. Poderia esperar que a batalha na rocha fosse decidida. Se os escoceses vencessem, ou ao menos sobrevivessem, imaginei que poderiam voltar à minha procura. Caso contrário, eu poderia aproximar-me dos ingleses, que poderiam presumir que, se eu estava viajando com os escoceses, deveria estar mancomunada com eles. Mancomunada para fazer o quê eu não fazia a menor idéia, mas era óbvio pelo comportamento dos homens na cabana que estavam empenhados em alguma coisa que os ingleses deveriam desaprovar inteiramente.

Talvez fosse melhor evitar os dois lados do conflito. Afinal, agora que eu sabia onde estava, tinha alguma chance de voltar a uma cidade ou vila que eu conhecesse, ainda que tivesse que percorrer todo o trajeto a pé. Parti decididamente em direção à estrada, tropeçando em incontáveis pedaços de granito, os filhotes bastardos de Cocknammon Rock.

O luar tornava a caminhada enganadora; embora pudesse ver cada detalhe do solo, não tinha percepção de profundidade; plantas rasteiras e pedras pontiagudas pareciam ter a mesma altura, fazendo com que eu levantasse meus pés absurdamente alto sobre obstáculos inexistentes e desse topada com os dedos nas pedras protuberantes. Andava o mais rápido que conseguia, atenta aos sons de perseguição atrás de mim.

Os ruídos da batalha haviam desaparecido quando cheguei à estrada. Percebi que ficaria muito visível na estrada, mas precisava segui-la, se quisesse encontrar meu caminho para uma cidade. Não tinha nenhuma noção de direção no escuro e nunca aprendera com Frank sua habilidade de se orientar pelas estrelas. Pensar em Frank me deu vontade de chorar, então tentei distrair-me procurando compreender os acontecimentos daquela tarde.

Parecia inconcebível, mas todas as evidências indicavam que eu estava em um lugar onde os costumes e a política do final do século XVIII ainda vigoravam. Eu teria imaginado que tudo não passava de algum tipo de espetáculo à fantasia, se não fosse pelos ferimentos do jovem a quem chamam de Jamie. Aquele ferimento fora realmente provocado por algo muito semelhante a um tiro de mosquete, a julgar pelos estragos que deixara. O comportamento dos homens na cabana também não era consistente com nenhum tipo de representação teatral. Eram homens sérios e as adagas e espadas eram reais.

Poderia ser algum enclave isolado do resto do mundo, talvez, onde os aldeões reencenavam parte de sua história periodicamente? Ouvi falar de coisas semelhantes na Alemanha, embora nunca na Escócia. Você também nunca ouviu falar dos atores atirarem uns contra os outros com mosquetes, ouviu? Escarnecia a parte incomodamente racional da minha mente.

Olhei para trás, para a rocha, a fim de verificar a minha posição, depois para a frente, para o horizonte, e meu sangue congelou nas veias. Não havia nada lá senão os galhos pontiagudos dos pinheiros, impenetravelmente negros contra a vastidão de estrelas. Onde estavam as luzes de Inverness? Se esta era Cocknammon Rock atrás de mim, como eu sabia que era, então Inverness deveria estar a menos de cinco quilômetros a sudoeste. A essa distância, eu deveria poder ver o clarão da cidade contra o céu. Se ela estivesse lá.

Sacudi a cabeça com irritação, abraçando meus cotovelos contra o frio. Mesmo admitindo por um instante a idéia completamente implausível de que eu estivesse em outro tempo que não o meu, Inverness já existia no lugar atual há cerca de seiscentos anos. Ela estava lá. Mas, tudo indicava, não tinha luz. Nas circunstâncias atuais, isso indicava que não havia luz elétrica. Mais uma prova, se eu precisava. Mas prova de quê, exatamente?

Uma figura saiu da escuridão tão perto de mim que eu quase esbarrei nela. Contendo um grito, virei-me para correr, mas a mão grande e forte agarrou meu braço, impedindo-me de fugir.

— Não se preocupe, dona. Sou eu.

— Era o que eu temia — disse asperamente, embora na realidade ficasse aliviada por ser Jamie. Eu não sentia tanto medo dele quanto dos outros homens, embora parecesse igualmente perigoso. Ainda assim, ele era jovem, até mais novo do que eu, concluí. Era difícil para mim sentir medo de alguém a quem há tão pouco tempo eu havia tratado como meu paciente.

— Espero que não tenha usado esse ombro - eu disse, num tom de censura de uma enfermeira-chefe de hospital. Se eu pudesse estabelecer um certo tom de autoridade, talvez pudesse convencê-lo a me deixar partir.

— Aquele confronto não ajudou muito - admitiu, massageando o ombro com a mão livre.

Nesse momento, ele entrou numa faixa de luar e eu pude ver a enorme mancha de sangue na frente de sua camisa. Sangramento arterial, pensei imediatamente; mas, então, como ele ainda está de pé?

- Você está ferido! - exclamei. - Você abriu o ferimento do ombro ou é um ferimento novo? Sente-se, deixe-me ver! - Empurrei-o para uma pilha de pedras, repensando rapidamente os procedimentos para tratamento emergencial em campo. Nenhum recurso à mão, a não ser o que eu estava usando. Estava pegando o que restava da minha combinação, pretendendo usá-la para estancar o sangramento, quando ele riu.

- Não, não se preocupe, dona. Esse não é meu sangue. Pelo menos, grande parte dele - acrescentou, cuidadosamente afastando o tecido encharcado do seu corpo.

Engoli em seco, sentindo-me um pouco tonta.

- Ah - balbuciei.

- Dougal e os outros estão esperando na estrada. Vamos. - Segurou-me pelo braço, menos um gesto cavalheiresco do que uma forma de me forçar a acompanhá-lo. Resolvi arriscar e finquei os calcanhares no chão.

- Não! Eu não vou com vocês!

Ele parou, surpreso com a minha resistência.

- Vai, sim.

Não parecia contrariado com a minha recusa; na verdade, parecia achar engraçado que eu me recusasse a ser seqüestrada outra vez.

- E se eu não for? Vai cortar minha garganta? - perguntei, forçando a discussão. Ele considerou as alternativas e respondeu calmamente.

- Ora, não. Você não parece pesada. Se não andar, vou pegá-la e carregá-la no ombro. Quer que eu faça isso? - Deu um passo em minha direção e eu recuei apressadamente. Não tinha a menor dúvida de que ele faria exatamente isso, ferido ou não.

- Não! Não pode fazer isso; vai prejudicar o ombro outra vez.

Não era possível distinguir suas feições com clareza, mas o luar fez seus dentes brilharem quando ele riu.

- Bem, então, já que não deseja que eu me machuque, suponho que isso signifique que vai me acompanhar?

Busquei desesperadamente uma resposta, mas não consegui encontrar uma a tempo. Tomou meu braço outra vez, com firmeza, e partimos em direção à estrada.

Jamie segurava meu braço com força, erguendo-me e equilibrando-me quando eu tropeçava em pedras e plantas. Ele próprio caminhava como se a charneca cheia de tocos e buracos fosse uma estrada pavimentada em plena luz do dia. Ele tem sangue de gato, refleti amargamente, sem dúvida foi assim que conseguiu se aproximar tão silenciosamente de mim no escuro.

Os outros homens estavam, como anunciado, esperando com os cavalos a pouca distância; aparentemente, não houve perdas ou feridos, pois estavam todos presentes. Erguendo-me com dificuldade e de modo vexatório, deixei-me cair na sela outra vez. Minha cabeça deu uma pancada involuntária no ombro ferido de Jamie e ele prendeu a respiração com um chiado.

Tentei disfarçar meu ressentimento por ter sido recapturada e meu remorso por tê-lo machucado com um ar de ameaçadora impertinência.

- Bem feito, brigando por aí e correndo atrás dos outros no meio do mato e das pedras. Eu lhe disse para não mexer a articulação; agora, provavelmente tem músculos distendidos, além de contusões.

Ele parecia divertir-se com minha repreensão.

- Bem, não tive muita escolha. Se não movesse meu ombro, nunca mais ia mover nada. Posso dar conta de um soldado inglês com uma das mãos, talvez até mesmo de dois - disse, gabando-se um pouco -, mas não de três.

- Além do mais - disse, puxando-me para junto de sua camisa coberta de sangue —, você pode cuidar dele para mim quando chegarmos onde estamos indo.

- É o que você pensa - eu disse friamente, afastando-me do tecido pegajoso. Ele estalou a língua para o cavalo e partimos outra vez. Os homens estavam exaltados e bem-humorados após a luta e havia muito riso e brincadeiras. Minha pequena participação em abortar a emboscada foi muito elogiada e brindes foram feitos em minha honra com os frascos que vários dos homens carregavam.

Ofereceram-me um pouco do conteúdo, mas logo declinei com a justificativa de que já achava bastante difícil me manter na sela estando sóbria. Da discussão dos homens, compreendi que se tratara de uma pequena patrulha de cerca de dez soldados ingleses, armados com mosquetes e sabres.

Alguém passou um frasco para Jamie e pude sentir o cheiro da bebida forte enquanto ele bebia. Eu não estava com sede, mas o leve aroma de mel me fez lembrar que estava faminta e já há algum tempo. Meu estômago roncou com um barulho alto e constrangedor, protestando contra a minha negligência.

- Ei, Jamie, meu rapaz! Com fome, hein? Ou tem uma gaita de foles aí com você? — gritou Rupert, confundindo a origem do ruído.

- Com fome suficiente para comer um monte de gaitas de foles, eu acho - Jamie gritou, elegantemente assumindo a culpa. Um instante depois, sua mão surgiu à minha frente com um frasco.

- É melhor tomar um pequeno gole - sussurrou para mim. - Não vai encher sua barriga, mas vai fazer você esquecer que está com fome.

E muitas outras coisas também, esperava. Inclinei o frasco e engoli.

Meu acompanhante tinha razão; o uísque criou um leve e agradável calor que queimou confortavelmente no meu estômago, encobrindo a fome aguda. Prosseguimos sem outros incidentes por vários quilômetros, revezando tanto com as rédeas quanto com o frasco de uísque. Entretanto, perto de uma cabana em ruínas, a respiração regular do meu acompanhante mudou gradativamente para uma respiração arquejante e entrecortada. Nosso precário equilíbrio, até aqui controlado num balanço sóbrio, tornou-se muito mais errático. Fiquei confusa; se eu não estava bêbada, parecia improvável que ele estivesse.

- Parem! Ajudem! - gritei. — Ele vai cair! - Lembrei-me da minha última descida repentina e não estava inclinada a repeti-la.

Vultos escuros fizeram a volta e aglomeraram-se à nossa volta, num sussurro confuso de vozes. Jamie deslizou de cima do cavalo de cabeça, como um saco de pedras, felizmente aterrissando nos braços de alguém. Quando finalmente consegui desmontar, o resto dos homens já descera dos cavalos e o deitara no chão.

- Está respirando - alguém disse.

- Bem, grande ajuda - retruquei, buscando freneticamente sentir seu pulso na escuridão. Encontrei-o finalmente, rápido, mas bastante forte. Colocando a mão em seu peito e o ouvido junto à sua boca, pude sentir uma subida e uma descida regular, menos arquejante. Ergui-me.

- Acho que ele apenas desmaiou - eu disse. - Coloque um alforje sob seus pés e, se houver água, tragam um pouco. — Fiquei surpresa de ver que minhas ordens foram imediatamente obedecidas. Aparentemente, o jovem era importante para eles. Ele resmungou e abriu os olhos, as olheiras negras sob a luz das estrelas. Na luz fraca, seu rosto parecia uma caveira, a pele branca estendida sobre os ossos proeminentes em torno das órbitas.

- Estou bem - disse, tentando se sentar. - Só um pouco tonto. -Coloquei a mão em seu peito e obriguei-o a deitar-se outra vez.

- Deite-se quieto — ordenei. Fiz um rápido exame com as mãos, ergui-me sobre os joelhos e me virei para uma figura que assomava acima de mim e que deduzi, pelo tamanho, que deveria ser o líder, Dougal.

- O ferimento de bala está sangrando outra vez e o idiota foi esfaqueado também. Acho que não é grave, mas ele perdeu muito sangue. Sua camisa está ensopada, mas não sei quanto desse sangue é dele. Precisa repousar e ficar quieto; deveríamos acampar aqui pelo menos até amanhecer.

A figura fez um movimento negativo.

- Não. Estamos mais longe do que a guarnição se aventuraria, mas ainda temos que nos preocupar com a patrulha. Ainda temos mais de trinta quilômetros de viagem. - A cabeça sem feições inclinou-se para trás, estimando o movimento das estrelas.

- Cinco horas, pelo menos, e mais provável sete. Podemos ficar o tempo suficiente para você estancar o sangramento e fazer um novo curativo; não muito mais do que isso.

Comecei a trabalhar, resmungando comigo mesma, enquanto Dougal, com um sussurro, despachou uma das outras sombras para montar guarda junto aos cavalos perto da estrada. Os outros homens relaxaram, bebendo de seus frascos e conversando em voz baixa. Murtagh, com seu rosto de fuinha, ajudava-me, rasgando tiras de linho, buscando mais água e erguendo o paciente para que a atadura fosse colocada, já que Jamie estava terminantemente proibido de se mexer, apesar de reclamar que estava perfeitamente bem.

- Você não está bem e não é de admirar — retruquei, dando vazão ao meu medo e irritação. - Que tipo de idiota é esfaqueado e não pára nem para cuidar do ferimento? Não podia ter dito que estava sangrando? Tem sorte de não estar morto, andando por aí a noite toda, brigando, lutando e se atirando de cima de cavalos... fique quieto, seu tolo desgraçado. - As tiras de linho e de rayon com que eu trabalhava eram irritantemente enganosas no escuro. Escorregavam, escapando da minha mão, como peixes arremessando-se para águas profundas com um lampejo zombeteiro de barrigas brancas. Apesar do frio, o suor escorria pelo meu pescoço. Finalmente, consegui amarrar uma das pontas e tentei alcançar a outra, que insistia em deslizar para trás do meu paciente.

- Volte aqui, seu... ah, seu desgraçado maldito filho-da-mãe! -Jamie mexera-se e a ponta que já estava amarrada se soltou.

Fez-se um momento de silêncio chocado.

- Nossa! — exclamou o gordo de nome Rupert. - Nunca ouvi uma mulher usar essa linguagem em toda a minha vida.

- Então você não conheceu minha tia Grisel - disse outra voz, seguida de uma risada geral.

- Seu marido devia lhe ensinar, dona - retorquiu uma voz austera saída da escuridão sob uma árvore. - São Paulo disse "Que uma mulher fique em silêncio e..."

- Meta-se com sua vida - falei entre dentes, o suor escorrendo por trás de minhas orelhas - e São Paulo também. - Limpei a testa com a manga do meu vestido. - Vire-o para a esquerda. E se você - dirigindo-me a meu paciente - mover um músculo sequer enquanto eu estiver amarrando essa atadura, vou esganá-lo.

- Ah, está bem - respondeu docemente.

Puxei com muita força a última atadura e todo o curativo se soltou.

- Maldito, que vá para o inferno! - berrei, batendo a mão no chão, frustrada. Fez-se outro momento de silêncio escandalizado e, em seguida, enquanto eu tateava no escuro procurando as pontas soltas da atadura, ouviram-se novos comentários a respeito da minha linguagem nada feminina.

- Talvez devêssemos enviá-la para St. Anne, Dougal - sugeriu uma das figuras sem rosto agachada junto à estrada. - Não ouvi Jamie praguejar nem uma vez desde que deixamos a costa e ele costumava ter uma boca de deixar qualquer marinheiro envergonhado. Quatro meses em um mosteiro devem ter surtido algum efeito. Você já nem usa o nome de Deus em vão, não é, rapaz?

- Você também não usaria se tivesse que pagar penitência por isso deitado por três horas no meio da noite no chão de pedra de uma capela, em fevereiro, vestindo apenas a sua camisa - respondeu meu paciente.

Todos os homens riram, enquanto ele continuava.

- A penitência foi apenas de duas horas, mas foi preciso mais uma para conseguir me levantar do chão; eu achei que meu... hã, eu achei que tinha congelado até os ossos, mas só estava emperrado.

Aparentemente, sentia-se melhor. Sorri involuntariamente, mas ainda assim falei com firmeza:

- Você fique quieto aí ou vou machucá-lo.

Tocou com cuidado no curativo e eu afastei sua mão com um tapa.

- Ah, ameaças, hein? — perguntou com insolência. — E mesmo depois de eu ter compartilhado minha bebida com você!

O frasco terminou de percorrer a roda de homens. Ajoelhando-se ao meu lado, Dougal inclinou-o cuidadosamente para que o paciente bebesse. O cheiro penetrante, queimado, do uísque nada refinado elevou-se no ar e eu coloquei a mão no frasco, retendo-o.

- Nada mais de bebida alcoólica — eu disse. — Ele precisa de chá ou, na pior das hipóteses, água. Não de álcool.

Dougal puxou o frasco da minha mão, ignorando-me completamente, e despejou um grande gole da aguardente pela garganta do meu paciente, fazendo-o tossir. Esperando apenas o suficiente para que o homem deitado no chão recuperasse o fôlego, repetiu a dose.

- Pare com isso! - Tentei pegar o uísque outra vez. - Quer que ele fique tão bêbado que não consiga ficar em pé?

Fui rudemente afastada com uma cotovelada.

- Uma bruxa mal-humorada, não é? - disse meu paciente, achando graça.

- Cuide de sua vida, dona - Dougal ordenou. - Ainda temos um bom caminho para percorrer esta noite e ele vai precisar de todas as forças que a bebida puder lhe dar.

Assim que as ataduras foram bem amarradas, meu paciente tentou sentar-se. Empurrei-o de costas outra vez e finquei o joelho no seu peito para mantê-lo na posição.

- Você não vai se mexer — eu disse, furiosa. Agarrei a bainha do kilt de Dougal e puxei-a rudemente, fazendo com que se ajoelhasse novamente ao meu lado.

— Olhe isso — ordenei, no melhor tom de enfermeira-chefe. Enfiei em sua mão a trouxa encharcada da camisa descartada. Ele deixou-a cair no chão com uma exclamação de nojo.

Peguei sua mão e coloquei-a no ombro do paciente.

- E olhe aqui. Algum tipo de lâmina atravessou o músculo trapézio.

— Uma baioneta - acrescentou o paciente, solícito.

— Uma baioneta! - exclamei. — E por que não me disse? Encolheu os ombros e reprimiu um leve grunhido de dor.

— Senti quando entrou, mas não sabia se o ferimento fora grande. Não doeu muito.

- Está doendo agora?

- Está - respondeu laconicamente.

- Ótimo — retruquei, completamente irritada. - Você merece. Talvez isso lhe ensine a não sair por aí correndo, seqüestrando mulheres e matando pessoas e... - senti-me ridiculamente à beira das lágrimas e parei, lutando para me controlar.

Dougal estava ficando impaciente com aquela conversa.

— Bem, você consegue manter um pé de cada lado do cavalo, rapaz?

- Ele não pode ir a lugar algum! - protestei, indignada. - Ele devia estar no hospital! Certamente não pode...

Meus protestos, como sempre, foram completamente ignorados.

— Pode montar? — Dougal repetiu.

- Sim, se você tirar a moça de cima do meu peito e me arranjar uma camisa limpa.




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