A viajante do tempo



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27 - A DERRADEIRA RAZÃO
Comemos como lobos famintos ao jantar, retiramo-nos para um quarto amplo e arejado e dormimos como uma pedra. O sol já estaria alto quando acordamos no dia seguinte, se o céu não estivesse encoberto de nuvens. Sabia que já era tarde pela movimentação na casa, conforme as pessoas iam e vinham em seus afazeres, e pelos aromas tentadores que vinham pelas escadas.

Após o desjejum, os homens prepararam-se para sair, visitando arrendatários, inspecionando cercas, consertando carroças e de um modo geral divertindo-se. Quando pararam no vestíbulo para vestir seus casacos, Ian viu o cesto grande de Jenny sob a mesa diante de um grande espelho.

- Quer que eu traga algumas maçãs do pomar, Jenny? Pouparia você de uma caminhada tão grande.

- Boa idéia - Jamie disse, lançando um olhar avaliador para a enorme barriga de sua irmã. - Não vamos querer que o deixe cair no meio da estrada.

- Eu vou deixar você cair neste mesmo lugar onde está, Jamie Fraser — ela retorquiu calmamente, segurando o casaco para Ian vestir. — Seja útil ao menos uma vez e leve este diabinho com você. A sra. Crook está na lavanderia; pode deixá-lo lá. - Arrastou os pés, deslocando o pequeno Jamie, que se agarrava às suas saias, entoando "colo, colo" indefinidamente.

Seu tio obedientemente segurou o diabinho pela cintura e levou-o pela porta afora, de cabeça para baixo e dando gritinhos de satisfação.

- Ah - Jenny suspirou, feliz, inclinando-se para inspecionar sua aparência no espelho de moldura dourada. Molhou o dedo na língua e passou nas sobrancelhas, depois terminou de fechar os botões na gola de sua blusa. - Que bom terminar de se vestir sem alguém se agarrando às suas saias ou enrolado em seus joelhos. Às vezes, mal consigo ir ao banheiro sozinha ou pronunciar uma única frase sem ser interrompida.

Seu rosto estava ligeiramente afogueado e seus cabelos escuros brilhavam contra a seda azul de seu vestido. Ian sorriu para ela, os meigos olhos castanhos brilhando diante da figura florescente que ela exibia.

- Bem, talvez tenha tempo de conversar com Claire - ele sugeriu. Arqueou uma sobrancelha em minha direção. - Imagino que ela seja suficientemente educada para ouvir, mas, pelo amor de Deus, não declame um de seus poemas para ela ou ela vai pegar a primeira carruagem para Londres antes de Jamie e eu estarmos de volta.

Jenny estalou os dedos embaixo do nariz dele, sem se perturbar com a chacota.

- Não estou nem um pouco preocupada. Não há nenhuma carruagem para lá antes de abril e imagino que já terá se acostumado conosco a essa altura. Vá andando, Jamie está esperando por você.

Enquanto os homens cuidavam de seus afazeres, eu e Jenny passamos o dia numa sala de estar, ela costurando, eu enrolando fios de linha soltos e separando fios de seda pelas cores.

Aparentemente amistosas, rodeávamos uma à outra cautelosamente na conversa, entreolhando-nos pelo canto dos olhos. A irmã de Jamie, a mulher de Jamie. Jamie era o ponto central, tácito, em torno do qual nossos pensamentos giravam.

A infância compartilhada os unia para sempre, como as tramas de um tecido, mas as malhas do tecido estavam frouxas, pela ausência e pela suspeita, depois pelo casamento. O fio de Ian estivera presente em sua trama desde o começo, o meu era novo. Como as tensões iriam agir nesta nova urdidura, um fio contra o outro?

Nossa conversa versava sobre assuntos banais, porém com as palavras não pronunciadas claramente audíveis por baixo.

- Você administra esta casa sozinha desde que sua mãe morreu?

- Ah, sim. Desde que eu tinha dez anos.

Eu o alimentava e lhe dava amor desde que ele era um menino. O que você vai fazer com o homem que ajudei a criar?

-Jamie disse que você tem excelentes conhecimentos médicos.

- Cuidei do ombro dele quando nos conhecemos. Sim, sou capaz e gentil. Cuidarei dele.

- Soube que se casaram às pressas.

Casou-se com meu irmão por suas terras e dinheiro?

- Sim, foi tudo muito rápido. Eu nem sabia o verdadeiro sobrenome de Jamie até a hora da cerimônia.

Não sabia que ele era o senhor desta propriedade; só posso ter casado com ele por ele mesmo.

E assim a conversa prosseguiu durante toda a manhã, um almoço leve e até a tarde, sobre assuntos gerais, trocando pequenas informações, opiniões, piadas ligeiras e hesitantes, avaliando-nos mutuamente. Uma mulher que mantém uma mansão desde os dez anos, que administra uma propriedade desde a morte do pai e do desaparecimento do irmão, não era uma pessoa para ser avaliada de modo leviano e superficial. Eu me perguntava o que ela estaria pensando de mim, mas ela parecia tão capaz quanto seu irmão de ocultar seus pensamentos quando assim decidia.

Quando o relógio sobre o consolo da lareira começou a bater as cinco horas, Jenny bocejou e espreguiçou-se. A roupa que ela estava consertando deslizou pela elevação redonda de seu ventre e caiu no chão.

Ela começou a dobrar-se desajeitadamente para pegá-la, mas abaixei-me sobre os joelhos ao seu lado.

- Deixe que eu apanho.

- Obrigada... Claire. - A primeira vez que usava meu nome foi acompanhada de um sorriso tímido e eu o devolvi.

Antes que pudéssemos voltar à nossa conversa, fomos interrompidas pela chegada da sra. Crook, a governanta, que enfiou o longo nariz na sala e perguntou, preocupada, se havíamos visto o pequeno Jamie.

Jenny colocou sua costura de lado com um suspiro.

- Fugiu de novo, não foi? Não se preocupe, Lizzie, deve ter ido com o pai ou com o tio. Vamos ver, Claire. Eu gostaria de respirar um pouco de ar fresco antes do jantar.

Ela levantou-se com dificuldade e pressionou as mãos na parte baixa das costas. Gemeu e deu um sorriso enviesado.

- Mais ou menos três semanas. Mal posso esperar.

Caminhamos devagar pelo terreno, Jenny mostrando a cervejaria e a capela, explicando a história da propriedade e quando as diferentes partes haviam sido construídas.

Quando nos aproximamos de um dos cantos do pombal, ouvimos vozes no caramanchão.

- Lá está ele, o patife! - Jenny exclamou. - Espere até eu colocar as mãos nele!

- Espere um minuto. - Coloquei a mão em seu braço, reconhecendo a voz mais grave que sublinhava a do garoto.

- Não se preocupe, rapaz - disse a voz de Jamie. - Você vai aprender. É um pouco difícil, não é, quando seu pau não vai além do seu umbigo?

Estiquei a cabeça pela quina do pombal e o vi sentado em um bloco de cortar lenha, engajado em uma conversa com seu xará, que lutava bravamente com as pregas da sua roupa.

- O que está fazendo com a criança? - perguntei cautelosamente.

- Estou ensinando ao pequeno Jamie a arte de não mijar nos próprios pés - explicou. - Parece o mínimo que seu tio poderia fazer por ele.

Ergui uma das sobrancelhas.

- Falar é fácil. Parece que o mínimo que seu tio poderia fazer é mostrar-lhe.

Ele riu.

- Bem, já tivemos algumas demonstrações práticas. Mas tivemos um pequeno acidente da última vez. — Trocou um olhar acusatório com o sobrinho. - Não olhe para mim — disse para o garoto. — Foi tudo culpa sua. Eu disse a você para ficar parado.

- Ahã — Jenny pigarreou, secamente, com um olhar para o irmão e outro igual para o filho. O pequeno Jamie respondeu puxando a parte da frente de sua roupa larga acima da cabeça, mas o Jamie maior, sem se deixar envergonhar, riu alegremente e levantou-se, batendo a poeira de suas calças. Colocou a mão na cabeça do sobrinho, coberta com a própria roupa, e virou o menino na direção da casa.

- Para tudo há uma hora certa - citou - e uma hora certa para todo propósito sob o céu. Primeiro o trabalho, pequeno Jamie, depois o banho. E depois, graças a Deus, será hora do jantar.

Uma vez resolvidas as tarefas mais urgentes, Jamie aproveitou a tarde seguinte para me mostrar a casa. Construída em 1702, era realmente moderna para a sua época, com inovações como fogões de porcelana para aquecimento e um grande forno de tijolos construído na parede da cozinha, de modo que o pão já não era assado nas cinzas da lareira. As paredes do corredor, da escadaria e da sala de estar eram cobertas de quadros. Aqui e ali, via-se uma paisagem pastoral ou o estudo de um animal, mas a maioria era da família e suas ligações.

Parei diante de um quadro de Jenny quando menina. Estava sentada no muro do jardim, uma trepadeira de folhas vermelhas por trás. Alinhada diante dela em cima do muro, via-se uma fileira de pássaros; andorinhas, um tordo, uma cotovia e até mesmo um faisão, todos se acotovelando e empurrando para achar uma posição ao lado de sua dona, que ria. Era bem diferente dos retratos formalmente posados, em que um ancestral ou outro olhavam fixamente de sua moldura como se o colarinho os sufocasse.

- Minha mãe pintou este aqui - Jamie disse, notando meu interesse. -Ela pintou vários dos que podem ser vistos no vão da escada, mas há apenas dois pintados por ela aqui. Ela mesma preferia este. — O dedo grande e rombudo tocou a superfície da tela delicadamente, percorrendo a linha da trepadeira de folhas vermelhas. — Estes eram os pássaros adestrados de Jenny. Sempre que um pássaro era encontrado mancando ou com a asa quebrada, quem o encontrasse trazia para ela e em poucos dias ela o teria curado e ele estaria comendo na sua mão. Este sempre me fez lembrar Lan. — O dedo tamborilou em cima de um faisão, as asas abertas para manter o equilíbrio, fitando sua dona com olhos escuros e amorosos.

- Você é terrível, Jamie - eu disse, rindo. - Há um de você?

- Ah, sim. - Conduziu-me para o outro lado da sala, perto da janela-Dois meninos ruivos, vestidos com seus tartãs, fitavam-nos solenemente de sua moldura, sentados com um enorme cão veadeiro. Deviam ser Nairn, o avô de Bran, Jamie e seu irmão mais velho, Willie, que morrera de varíola aos onze anos. Jamie não devia ter mais de dois anos quando aquele quadro fora pintado, pensei; estava de pé entre os joelhos de seu irmão mais velho, com uma das mãos sobre a cabeça do cão de caça.

Jamie me falara de Willie durante nossa viagem de Leoch, em uma noite junto à fogueira no fundo de uma ravina solitária. Lembrei-me da pequena cobra, esculpida em cerejeira, que ele tirara da bolsa em sua cintura para me mostrar. "Willie a deu para mim quando fiz cinco anos", dissera, o dedo acariciando suavemente as linhas sinuosas. Era uma cobrinha engraçada, o corpo artisticamente retorcido e a cabeça virada para trás para espreitar por cima do que teria sido seu ombro, se cobras tivessem ombros.

Jamie entregou-me o pequeno objeto de madeira e eu o revirei nas mãos, com curiosidade.

- O que está gravado na parte de baixo? S-a-w-n-y. Sawny?

- Sou eu — Jamie disse, abaixando a cabeça como se estivesse ligeiramente envergonhado. — É um apelido, uma brincadeira com meu segundo nome, Alexander. É como Willie costumava me chamar.

Os rostos no quadro eram muito semelhantes; todas as crianças Fraser tinham aquele olhar franco que o desafiava a considerá-los menos do que a avaliação que faziam de si mesmos. No entanto, neste retrato, as faces de Jamie eram rechonchudas e seu nariz ainda era pequeno como o de um bebê, enquanto os ossos fortes de seu irmão começavam a demonstrar a promessa do homem que poderia vir a ser, uma promessa jamais cumprida.

- Você gostava muito dele? — perguntei suavemente, colocando a mão em seu braço. Ele balançou a cabeça, desviando o olhar para as chamas na lareira.

- Ah, sim — disse com um fraco sorriso. — Ele era cinco anos mais velho do que eu e para mim era Deus, ou ao menos Cristo. Costumava segui-lo por toda parte; ao menos, a todo lugar onde ele deixava eu ir.

Virou-se e dirigiu-se às prateleiras de livros. Desejando lhe dar um momento consigo mesmo, permaneci onde estava, olhando pela janela.

Deste lado da casa, podia ver vagamente através da chuva o contorno de uma colina rochosa, com uma vegetação no cume, à distância. Fazia-me lembrar do monte das fadas onde eu atravessara uma rocha e emergira de uma toca de coelho. Apenas seis meses. Mas parecia há muito tempo.

Jamie viera ficar ao meu lado à janela. Fitando distraidamente a chuva forte, disse:

- Houve uma outra razão. A principal.

- Razão? - perguntei, tolamente.

- Para eu ter me casado com você.

- E qual foi? — Não sei o que eu esperava que ele dissesse, talvez alguma nova revelação sobre os assuntos emaranhados de sua família. A seu modo, o que ele disse foi um choque.

- Porque eu a queria. - Virou-se da janela para encarar-me. — Mais do que eu jamais desejara alguém na vida — acrescentou em voz baixa.

Continuei fitando-o, abismada. O que quer que eu esperasse, não era isso. Vendo minha expressão boquiaberta, continuou despreocupadamente:

- Quando perguntei ao meu pai como se sabia quem era a mulher certa, ele disse que quando chegasse a hora, eu não teria nenhuma dúvida. E não tive. Quando acordei no escuro debaixo daquele carvalho na estrada para Leoch, com você sentada no meu peito, xingando-me por estar esvaindo-me em sangue, disse a mim mesmo: Jamie Fraser, por menos que saiba a respeito dela e por mais que pese tanto quanto um bom cavalo, esta é a mulher."

Parti em sua direção e ele recuou, falando rapidamente:

- Disse a mim mesmo: "Ela o consertou duas vezes em poucas horas, rapaz; a vida entre os MacKenzie sendo o que é, parece uma boa medida se casar com uma mulher que sabe curar um ferimento e arrumar ossos quebrados." Então, disse a mim mesmo: "Jamie, meu rapaz, se o toque da mão dela é tão suave em sua clavícula, imagine como deve ser mais embaixo..."

Desviou-se de mim contornando uma cadeira.

- Claro, achei que podia ser o efeito de ter passado quatro meses em um mosteiro, sem o benefício de companhia feminina, mas depois daquela viagem no escuro juntos - parou para suspirar teatralmente, esquivando-se da minha tentativa de agarrá-lo pela manga da camisa —, com aquele traseiro grande e adorável encaixado entre minhas coxas — agachou-se evitando um golpe na orelha esquerda e tirou o corpo fora, colocando uma mesinha entre nós - e aquela cabeça dura como uma pedra batendo no meu peito - um pequeno ornamento de metal balançou-se e caiu no chão com estardalhaço -, disse a mim mesmo...

Ele ria tanto a essa altura que tinha que parar para respirar entre uma frase e outra.

- Jamie... eu disse... embora seja uma maldita Sassenach... com a língua de uma víbora... com uma bunda daquelas... que importa se ela tem uma cara de c-c-carneiro?

Eu o fiz tropeçar e aterrissei sobre seu estômago com os dois joelhos quando ele se estatelou no chão com um barulho que sacudiu a casa.

- Está querendo me dizer que se casou comigo por amor? - perguntei. Ele ergueu as sobrancelhas, lutando para conseguir respirar.

- E não foi... exatamente isso... que acabei de dizer? Agarrando-me pelos ombros com um dos braços, enfiou a outra por baixo da minha saia e começou a me infligir uma série de beliscões implacáveis naquela parte da minha anatomia que ele acabara de louvar.

Voltando para pegar sua cesta de bordados, Jenny entrou nesse momento e ficou olhando seu irmão, achando a situação engraçada.

- E o que você está fazendo, Jamie, meu rapaz? - perguntou, uma das sobrancelhas erguidas.

- Estou fazendo amor com minha mulher - respondeu, arfando, sem conseguir respirar entre o riso e a luta.

- Bem, podia achar um lugar mais adequado para isso - ela disse, erguendo a outra sobrancelha. - Este assoalho vai deixar farpas no seu traseiro.

Se Lallybroch era um lugar tranqüilo, também era atarefado. Todos pareciam voltar imediatamente à vida com os primeiros raios do sol e, então, a fazenda inteira girava e zumbia como um complexo mecanismo de relógio até depois do pôr-do-sol. Então, um a um, os dentes e rodas da engrenagem que faziam a propriedade funcionar começavam a se dispersar na escuridão, em busca de jantar e sumir, apenas para reaparecerem como mágica, cada qual em seu lugar, pela manhã.

Tão essencial cada homem, mulher e criança pareciam ser para o funcionamento do lugar que eu não podia imaginar como se sustentara nos últimos anos, sem seu mestre. Agora, não só as mãos de Jamie, como as minhas também eram forçadas ao trabalho em tempo integral. Pela primeira vez, compreendi as severas restrições escocesas contra a indolência que antes — ou depois, dependendo do ponto de vista - me pareceram apenas uma esquisitice. A ociosidade teria parecido não só um sinal de degradação moral, mas uma afronta à ordem natural das coisas.

Havia momentos, é claro. Aquelas pequenas brechas no tempo, logo desaparecidas, em que tudo parece ficar imóvel e a existência equilibra-se em um ponto perfeito, como o momento de passagem entre escuridão e luz, quando ambas e nenhuma nos envolve.

Desfrutava de tal momento na tarde do segundo ou terceiro dia desde a nossa chegada à fazenda. Sentada na cerca atrás da casa, podia ver campos marrom-dourados até a beira do penhasco depois da torre, com a malha de árvores no extremo oposto do desfiladeiro, turvando-se até ficar negra diante do brilho perolado do céu. Objetos próximos e distantes pareciam estar à mesma distância, uma vez que suas longas sombras confundiam-se com a penumbra.

O ar estava frio com o prenúncio de uma geada e pensei que devia entrar logo, embora relutasse em deixar a plácida beleza do lugar. Não percebi Jamie aproximar-se, até ele colocar as dobras pesadas de um manto sobre meus ombros. Não percebera o quanto estava frio até sentir o calor contrastante da lã grossa.

Os braços de Jamie envolveram-me junto com o manto e aninhei-me nele, estremecendo ligeiramente.

— Pude vê-la tremendo lá da casa — disse, segurando minhas mãos. — Pode pegar um resfriado, se não tomar cuidado.

- E quanto a você? — Virei-me para olhá-lo. Apesar do frio crescente, ele parecia completamente à vontade em nada além de sua camisa e kilt, sem nada mais do que um nariz levemente vermelho para mostrar que não se tratava de uma das mais amenas noites de primavera.

- Ah, bem, já estou acostumado. Os escoceses não têm o sangue fino como vocês sulistas puritanos.

Levantou meu queixo e beijou meu nariz, sorrindo. Segurei-o pelas orelhas e ajeitei seu alvo um pouco mais abaixo.

Durou o suficiente para nossas temperaturas terem se igualado quando ele me soltou e o sangue quente zumbia em meus ouvidos quando me inclinei para trás, equilibrando-me no parapeito da cerca. A brisa soprava por trás de mim, lançando alguns fios de cabelo no meu rosto. Ele os ajeitou para trás dos meus ombros, espalhando os cachos desordenados com os dedos para que a luz do sol poente atravessasse as mechas.

- Parece que você tem uma auréola, com a luz assim por trás de você — disse, ternamente. — Um anjo coroado de ouro.

- E de você - retruquei baixinho, delineando o contorno de seu maxilar onde a luz cor de âmbar cintilava nos pêlos de sua barba. - Por que não me disse antes?

Ele sabia o que eu queria dizer. Uma sobrancelha elevou-se e ele sorriu, metade do rosto iluminado pelo sol dourado, a outra imersa na sombra.

- Bem, eu sabia que você não queria se casar comigo. Não quis colocar um peso em você ou fazer papel de tolo dizendo-lhe na ocasião, quando era evidente que você iria mentir apenas para honrar os votos que preferia não ter feito. — Riu, os dentes brancos na penumbra, antecipando meu protesto. — A primeira vez, pelo menos. Tenho meu orgulho, mulher.

Estendi os braços e o puxei para mim, de modo que ele ficou entre minhas pernas enquanto eu estava sentada na cerca. Sentindo sua pele ligeiramente fria, envolvi seus quadris com as minhas pernas e o cobri com as abas do meu manto. Sob o abrigo do tecido de lã, seus braços abraçaram-me com força, pressionando meu rosto contra a cambraia de sua camisa.

- Meu amor - ele sussurrou. — Ah, meu amor. Eu a quero tanto.

- Não é a mesma coisa, não? — eu disse. - Amar e desejar, quero dizer. Ele riu, um pouco rouco.

- Quase a mesma coisa, Sassenach, para mim, pelo menos. - Eu podia sentir a firmeza de seu desejo, rígido e premente. Deu um passo para trás repentinamente e, inclinando-se, levantou-me da cerca.

- Onde estamos indo? - Afastávamo-nos da casa, em direção ao aglomerado de palhoças à sombra do bosque de olmos.

- Encontrar um monte de feno.




28 - BEIJOS E CEROULAS
Gradualmente, encontrei meu próprio lugar na engrenagem da propriedade. Como Jenny já não conseguia fazer as longas caminhadas até as cabanas dos colonos, eu mesma comecei a visitá-los, às vezes acompanhada por um cavalariço, às vezes por Jamie ou Ian. Levava alimentos e remédios, tratava os doentes da melhor forma que me era possível e fazia sugestões para a melhoria da saúde e da higiene, que eram recebidas com graus variados de boa vontade.

Na própria Lallybroch, eu bisbilhotava pela casa e adjacências, tornando-me útil onde fosse possível, em geral nas hortas e jardins. Além do pequeno e adorável jardim ornamental, a mansão possuía um pequeno jardim de ervas medicinais e uma enorme horta, que fornecia nabos, repolhos e abóboras.

Jamie estava em toda parte; no gabinete com os livros de contabilidade, nos campos com os arrendatários, na estrebaria com Ian, compensando o tempo perdido. Havia mais do que dever ou interesse nisso também, eu achava. Logo teríamos que partir; ele queria deixar tudo funcionando de tal forma que continuaria a funcionar enquanto ele estivesse fora, até que ele - até que nós — pudéssemos voltar definitivamente.

Eu sabia que teríamos que partir, mas cercada pela casa e pelos arredores tranqüilos de Lallybroch e da companhia alegre de Jenny, Ian e do pequeno Jamie, sentia como se tivesse finalmente chegado em casa.

Após o desjejum em uma manhã, Jamie ergueu-se da mesa, anunciando que pensava em ir até o vale, para ver um cavalo que Martin Mack queria vender.

Jenny virou-se do aparador, a testa franzida.

- Acha seguro, Jamie? Tem havido patrulhas inglesas em toda a região nos últimos meses.

Ele encolheu os ombros, pegando o casaco da cadeira onde o deixara.

- Terei cuidado.

- Ah, Jamie - Ian disse, entrando com uma braçada de lenha para a lareira. - Queria lhe perguntar: você pode ir até o moinho hoje de manhã? Jock esteve lá ontem e disse que alguma coisa estava errada com a roda. Eu dei uma olhada rápida, mas nós dois juntos não conseguimos movê-la. Acho que há alguma sujeira presa nas engrenagens do lado de fora, mas fica bem dentro da água.

Bateu levemente com a perna de pau no chão, sorrindo para mim.

- Ainda posso andar, graças a Deus, e também montar, mas não consigo nadar. Fico me debatendo e girando em círculos como um inseto.

Jamie colocou o casaco sobre a cadeira de novo com um sorriso diante da descrição de seu cunhado.

- Não é tão ruim assim, Ian, se isso impede que você tenha que passar a manhã em um açude quase congelado. Sim, eu vou. - Voltou-se para mim

- Quer ir comigo, Sassenach? Está uma linda manhã e você pode trazer sua cestinha. — Lançou um olhar irônico à enorme cesta de vime que eu usava para colher plantas. - Vou trocar minha camisa. Já volto. - Dirigiu-se às escadas e subiu as escadas atleticamente, três degraus de cada vez.

Ian e eu trocamos um sorriso. Se havia algum pesar por tais façanhas estarem agora fora do seu alcance, ele o ocultava sob o prazer de ver a exuberância de Jamie.

- É bom tê-lo de volta - ele disse.

- Quem dera pudéssemos ficar - eu disse, pesarosa. Os meigos olhos castanhos alarmaram-se.

- Não estão pensando em ir embora já, não é? Sacudi a cabeça.

- Não, não imediatamente. Mas teremos que partir bem antes de a neve chegar. - Jamie decidira que nosso melhor roteiro seria ir para Beauly, lugar de origem do clã Fraser. Talvez seu avô, lorde Lovat, pudesse ajudá-los; se não, ele poderia pelo menos arranjar nossa entrada na França.

Lan balançou a cabeça, mais tranqüilo.

- Ah, sim. Mas ainda têm algumas semanas.

Era um belo e luminoso dia de outono, o ar pungente como a cidra e um céu tão azul que seria possível afogar-se nele. Caminhávamos devagar, para que eu pudesse ficar atenta a alguns pés de madressilvas silvestres e cardos temporãos, conversando descontraidamente.

- Semana que vem teremos o Dia do Trimestre - Jamie observou. -Seu vestido novo vai ficar pronto até lá?

- Acho que sim. Por quê, é uma ocasião especial?

Ele sorriu para mim, segurando a cesta enquanto eu me inclinava para colher um talo de tanásia.

- Ah, de certa forma, sim. Nada como os grandiosos eventos de Colum, sem dúvida, mas todos os arrendatários de Lallybroch virão pagar seus aluguéis... e prestar suas homenagens à nova senhora de Lallybroch.

- Imagino que ficarão surpresos por você ter se casado com uma inglesa.

- Acredito que alguns pais ficarão desapontados com isso; namorei uma garota ou duas pelas redondezas antes de ser preso e levado para Fort.

- Lamenta não ter se casado com uma garota do local? - perguntei, afetadamente.

- Se acha que vou responder "sim" com você aí parada, segurando uma faca de poda - observou -, tem uma opinião menos lisonjeira sobre o meu bom senso do que eu imaginava.

Larguei a faca de poda, com a qual começara a escavar, estendi meus braços e fiquei esperando. Quando ele finalmente me soltou, inclinei-me para pegar a faca outra vez e disse, provocando-o.

- Sempre me perguntei por que você permaneceu virgem por tanto tempo. Todas as garotas de Lallybroch são feias, então?

- Não - ele disse, estreitando os olhos para o sol da manhã. - Foi principalmente culpa do meu pai. Nós caminhávamos pelos campos no final da tarde, às vezes, ele e eu, e conversávamos sobre muitas coisas. E quando cheguei à idade de que isso fosse uma possibilidade, ele me disse que um homem tem que ser responsável por qualquer semente que plantar, porque é seu dever cuidar e proteger uma mulher. E se eu não estivesse preparado para fazer isso, não tinha o direito de sobrecarregar uma mulher com as conseqüências dos meus próprios atos.

Olhou para trás, para a casa. E em direção ao pequeno cemitério da família perto da torre, onde seus pais estavam enterrados.

- Ele disse que a melhor coisa na vida de um homem é se deitar com a mulher que ama - disse, em voz baixa. Sorriu para mim, os olhos tão azuis quanto o céu acima de nós. - Ele estava certo.

Toquei seu rosto delicadamente, traçando a larga elevação da face para o maxilar.

- No entanto, um pouco difícil para você, se ele esperava que levasse tanto tempo para se casar - eu disse.

Jamie riu, o kilt batendo em seus joelhos com a brisa enérgica do outono.

- Bem, a Igreja nos ensina que a masturbação é um pecado, mas meu pai disse que achava que se fosse preciso escolher entre masturbar-se ou abusar de uma mulher, um homem honrado deveria escolher fazer o sacrifício.

Quando parei de rir, sacudi a cabeça e disse:

- Não. Não, não vou perguntar. Mas você realmente se manteve virgem.

- Estritamente pela graça de Deus e de meu pai, Sassenach. Eu não pensava em mais nada a não ser garotas quando fiz quatorze anos. Mas foi nessa época que fui enviado para morar com Dougal, em Beannachd.

- Não havia garotas lá? - perguntei. - Pensei que Dougal tivesse filhas.

- Sim, tem. Quatro. As duas mais novas não são muito atraentes, mas a mais velha era muito bonita. Molly era um ou dois anos mais velha do que eu. E não muito interessada nas minhas atenções, eu acho. Eu costumava ficar olhando fixamente para ela à mesa do jantar e ela me olhava com desdém e perguntava se eu estava com catarro. Porque se estivesse, deveria ir para a cama, e se não, ela ficaria muito grata se eu fechasse a boca, porque não queria ficar olhando para as minhas amídalas enquanto comia.

- Estou começando a ver como você continuou virgem - eu disse, erguendo minhas saias para atravessar um mata-burro. — Mas não é possível que todas fossem iguais a ela.

- Não — ele disse pensativamente, segurando minha mão para me ajudar a atravessar o mata-burro. — Não eram. A irmã mais nova de Molly, Tabitha, era mais amistosa. - Sorriu, recordando-se.

- Tibby foi a primeira garota que beijei. Ou talvez devesse dizer a primeira garota que me beijou. Eu estava carregando dois baldes de leite para ela, do curral para a leiteria, maquinando o tempo todo como eu iria pegá-la atrás da porta, onde não havia espaço para fuga, e beijá-la. Mas minhas mãos estavam ocupadas e ela teve que abrir a porta para eu atravessar. Portanto, eu é que acabei atrás da porta e foi Tib que se aproximou de mim, me pegou pelas orelhas e me beijou. O leite também derramou -acrescentou.

- Parece ter sido uma primeira experiência memorável - eu disse, rindo.

- Duvido que tivesse sido a primeira dela — disse, rindo. — Ela sabia muito mais do assunto do que eu. Mas não chegamos a praticar muito; um ou dois dias depois, a mãe dela nos pegou na despensa. Ela não fez mais do que me lançar um olhar penetrante e dizer a Tibby para ir pôr a mesa do jantar, mas deve ter contado a Dougal.

Se Dougal MacKenzie fora rápido em se sentir insultado pela honra da irmã, eu podia imaginar o que deveria ter feito em defesa da honra de sua filha.

- Tremo só de pensar - eu disse, rindo.

- Eu também - Jamie disse, estremecendo. Lançou-me um olhar de esguelha, encabulado.

- Você sabe que os rapazes pela manhã, às vezes acordam com... bem, com... — Ficou ruborizado.

- Sim, eu sei - eu disse. - Também os homens mais velhos de vinte e três. Acha que não notei? Você já me fez observar isso várias vezes.

- Mmmmhum. Bem, na manhã seguinte, depois que a mãe de Tibby nos pegou, acordei assim. Eu estivera sonhando com ela, com a Tib, quero dizer, não com a mãe dela, e não fiquei surpreso de sentir a mão no meu pau. O que me surpreendeu é que a mão não era minha.

- Certamente não era de Tibby?

- Bem, não, não era. Era do pai dela.

- Dougal?! O quê?

- Bem, arregalei os olhos e ele sorriu para mim, muito satisfeito. Então, sentou-se na cama e tivemos uma boa conversa, tio e sobrinho, pai adotivo e filho adotivo. Disse o quanto estava satisfeito com a minha estada lá, ele próprio não tendo um filho, e tudo o mais. E como toda a sua família gostava muito de mim e tal. E como ele detestaria pensar que se pudesse tirar vantagem de sentimentos tão belos e inocentes quanto suas filhas deveriam ter por mim, mas como, é claro, ele estava tão contente por poder confiar em mim como confiaria em seu próprio filho.

- E durante o tempo todo em que ele falava e eu estava lá deitado, ele mantinha uma das mãos na adaga e a outra pousada nas minhas jovens bolas. Então, eu dizia "Sim, tio" e "Não, tio" e, quando ele saiu, enrolei-me na colcha e sonhei com porcos castrados. E não beijei uma garota de novo até os dezesseis anos, quando fui para Leoch.

Olhou para mim, sorrindo. Seus cabelos estavam amarrados na nuca com uma tira de couro, mas as mechas mais curtas estavam espetadas para cima no alto da cabeça como de costume, com reflexos vermelhos e dourados no ar límpido e frio. Sua pele bronzeada adquirira um tom dourado durante nossa viagem de Leoch e Craigh na Dun, e ele parecia uma folha de outono, voando alegremente ao vento.

- E quanto a você, minha linda Sassenach? - perguntou, rindo. - Os rapazes ficavam arfando nos seus calcanhares ou você era tímida e recatada?

- Um pouco menos do que você - eu disse, com ar sério. - Eu tinha oito anos.

- Por Jezebel! Quem foi o felizardo?

- O filho do intérprete. Foi no Egito. Ele tinha nove anos.

- Ah, bem, então você não teve culpa. Desencaminhada por um homem mais velho. E um maldito pagão, ainda por cima.

O moinho surgiu lá embaixo, belo como num quadro, com uma trepadeira vermelho-escura subindo, resplandecente, na lateral da parede de argamassa amarela, com persianas abertas para a luz do dia, bem arrumadas, apesar da pintura verde desbotada. A água jorrava alegremente pela barragem sob a roda-d'água parada no açude do moinho. Havia até patos no açude, marrecos e patos selvagens fazendo uma pausa para descanso em sua rota para o sul.

- Olhe - eu disse, parando no topo da colina, colocando a mão no braço de Jamie para fazê-lo parar. - Não é lindo?

- Seria bem mais bonito se a roda-d'água estivesse funcionando -disse, de modo prático. Depois, olhou para mim e sorriu.

- Sim, Sassenach. É um lindo lugar. Eu costumava nadar aqui quando era garoto. Há um lago depois da curva do riacho.

Um pouco mais abaixo na colina, o lago tornou-se visível em meio aos salgueiros. Os garotos também. Havia quatro, brincando, espalhando água e gritando, todos nus em pêlo.

- Brrr — disse, vendo-os. O tempo estava bom para o outono, mas havia uma friagem no ar e fiquei satisfeita por ter trazido um xale. — Fico gelada, só de vê-los.

- Ah, é? - Jamie disse. - Bem, deixe-me esquentá-la.

Com um olhar para os garotos no riacho, ele recuou para a sombra de uma enorme castanheira. Passou as mãos pela minha cintura e puxou-me para junto dele na meia-luz.

- Você não foi a primeira garota que beijei - disse docemente. — Mas juro que será a última. - E inclinou a cabeça para o meu rosto voltado para cima.

Depois que o moleiro saiu de sua toca e apresentações rápidas foram feitas, retirei-me para a margem do açude, enquanto Jamie passava vários minutos ouvindo uma explicação do problema. Quando o moleiro voltou para a moenda, para tentar girar a grande moenda de pedra pelo lado de dentro, Jamie parou por um instante, fitando as águas fundas e cheias de ervas daninhas da barragem. Finalmente, com uma contração dos ombros em resignação, começou a tirar as roupas.

— Não tem jeito — observou. — Ian tem razão; há alguma coisa presa na roda embaixo da represa. Vou ter que descer e... — Interrompido pela minha exclamação de surpresa, virou-se para onde eu estava sentada na margem com minha cesta.

— E o que há de errado com você? - perguntou. - Nunca viu um homem de ceroulas antes?

— Não... não iguais... a estas. - consegui dizer entre acessos de riso. Precavendo-se contra a necessidade de mergulhar nas águas frias, vestira por baixo do kilt uma espécie de calção incrivelmente antiquado, originalmente de flanela vermelha, agora manchado com uma surpreendente variedade de cores e matizes. Obviamente, aquele par de ceroulas pertencera a alguém com muitos centímetros a mais na cintura do que Jamie. Pendiam precariamente de seus quadris, formando bolsas sobre sua barriga plana.

— Do seu avô? — arrisquei, fazendo um esforço extremamente mal-sucedido de reprimir o riso. - Ou de sua avó?

— Do meu pai - disse, friamente, olhando-me com desdém. - Não espera que eu nade pelado como um ovo diante de minha mulher e dos meus inquilinos, não é?

Com considerável dignidade, ele recolheu o excesso de pano com uma das- mãos e foi entrando no açude. Caminhando na água apenas com a cabeça para fora, ele tomou posição e, em seguida, com uma respiração funda, aprumou-se e submergiu, a última visão que tive dele usando os fundilhos inflados das ceroulas de flanela vermelha. O moleiro, debruçado à janela da casa do moinho, gritava palavras de encorajamento e instruções, sempre que a cabeça molhada e lustrosa irrompia na superfície para respirar.

As margens do reservatório eram cobertas de plantas aquáticas e eu fiquei remexendo com minha vara de escavar, à cata de raízes de malva e das folhas finas da filipêndula. Já tinha a cesta cheia pela metade quando ouvi um pigarro educado às minhas costas

Era uma senhora muito idosa, ou aomenos assim parecia. Apoiava-se numa vara de pilriteiro, enrolada em roupas que devia usar há vinte anos, atualmente volumosas demais para a figura encarquilhada e encolhida que a habitava agora.

- Bom dia — ela disse, balançando a cabeça sem parar. Usava uma espécie de touca branca e engomada que escondia a maior parte de seus cabelos, mas alguns fios grisalhos projetavam-se para fora, ao lado das faces encarquilhadas como maçãs secas.

- Bom dia — respondi, procurando me empertigar, mas ela avançou alguns passos e deixou-se cair ao meu lado com uma graciosidade surpreendente. Esperava que ela conseguisse se levantar de novo.

- Eu sou... - comecei, porém mal ameaçara abrir a boca quando ela me interrompeu.

- Deve ser a nova senhora, é claro. Sou a sra. MacNab, Vovó MacNab, como me chamam, sendo todas as minhas noras sras. MacNab também. -Estendeu a mão escarnada e puxou minha cesta para perto dela, espreitando o seu conteúdo.

- Raiz de malva... ah, essa é boa para tosse. Mas não vai querer usar esta, dona. - Cutucou um pequeno bulbo marrom. - Parece raiz de lírio, mas não é.

- O que é? — perguntei.

- Ofioglosso. Coma um desses, dona, e estará rolando pelo chão, se contorcendo de dor. - Tirou o tubérculo da cesta e atirou-o no reservatório, fazendo a água respingar com o impacto. Colocou a cesta no colo e examinou habilmente as demais plantas, enquanto eu observava com um misto de diversão e irritação. Finalmente, satisfeita, devolveu-a.

- Bem, você não é nada boba para uma Sassenach — observou. - Pelo menos, sabe diferenciar betônica de fedegoso. - Lançou um olhar para o açude, onde a cabeça de Jamie apareceu por um instante, lisa e lustrosa como uma foca, antes de desaparecer outra vez sob a casa do moinho. — Vejo que o senhor de Lallybroch não se casou com você apenas pelo seu rosto.

- Obrigada - disse, preferindo interpretar a frase como um elogio. Os olhos da velha senhora, penetrantes como agulhas, estavam presos ao meu ventre.

- Ainda não está grávida? - perguntou. — Folhas de framboesa. Macere um punhado com frutos da roseira brava e beba na lua crescente, antes de ficar cheia. Depois, quando ela começar a minguar, tome um pouco de uva-espim para purificar seu útero.

- Ah - exclamei -, bem...

- Eu tinha um pequeno favor a pedir ao senhor - continuou a velha senhora. - Mas como vejo que ele está um pouco ocupado no momento, vou falar com você sobre isso.

- Está bem - concordei frouxamente, não vendo como poderia impedi-la, de qualquer forma.

- É o meu neto - ela disse, olhando-me fixamente com pequenos olhos cinzas do tamanho e brilho de bolas de gude. - Meu neto Rabbie; ao todo, tenho dezesseis netos e três deles de nome Robert, mas um é Bob, o outro é Rob e o pequeno é Rabbie.

- Parabéns - eu disse educadamente.

- Queria que o senhor empregasse o rapaz como cavalariço — continuou.

- Bem, não sei se...

- É o pai dele, sabe — ela disse, inclinando-se para a frente em tom confidencial. - Não que eu não ache que um pouco de firmeza seja errado; poupe a vara e estragará a criança, tenho dito muitas vezes e o bom Deus sabe muito bem que os garotos foram feitos para apanhar ou não os teria criado com tanta parte do diabo. Mas quando se trata de empurrar uma criança na lareira e ela ficar com uma mancha roxa no rosto do tamanho da minha mão, e por nada além de pegar mais um bolinho no prato, então...

- O pai de Rabbie bate nele, quer dizer? — interrompi.

A velha senhora balançou a cabeça, satisfeita com minha inteligência ágil.

— Isso mesmo. E não é isso que eu estava dizendo? — Ergueu uma das mãos. - Bem, normalmente, é claro que eu não interferiria. Um homem faz com seu filho o que achar melhor, mas... bem, Rabbie de certa forma é meu neto favorito. E não é culpa do garoto se seu pai é um beberrão, por mais vergonhoso que seja sua própria mãe ter que dizer isso.

Apontou um dedo admonitório como uma vara.

- Não que o pai de Ronald não tomasse uns goles a mais uma vez ou outra. Mas nunca encostou a mão em mim ou nas crianças, ao menos não depois da primeira vez — acrescentou, pensativamente. Piscou os olhos subitamente para mim, as pequenas bochechas lisas e rosadas como maçãs no verão, de modo que pude imaginar a jovem atraente e cheia de vivacidade que ela deve ter sido.

- Ele me bateu uma vez - ela confidenciou - e eu peguei o ferro da lareira e acertei a cabeça dele. - Balançou-se para a frente e para trás, rindo. - Achei que o tinha matado e fiquei chorando e segurando a cabeça dele no colo, pensando o que eu iria fazer, uma viúva com dois filhos para alimentar? Mas ele se recuperou — ela disse, candidamente - e nunca mais encostou a mão em mim ou nas crianças outra vez. Eu pari treze, sabe -disse com orgulho. - E criei dez.

- Parabéns - eu disse, sinceramente.

- Folhas de framboesa — disse, colocando a mão em meu joelho como se me contasse um segredo. - Ouça o que eu digo, dona, folhas de framboesa darão um jeito. E se não, venha me ver e eu lhe prepararei uma bebida grossa feita de margaridas-amarelas e sementes de abóbora, com um ovo cru batido. Vão levar a semente do seu homem diretamente para seu útero, sabe, e estará redonda como uma abóbora quando a Páscoa chegar.

Tossi, ficando um pouco ruborizada.

- Mmmmhum. E quer que Jamie, hã, o senhor, quero dizer, contrate seu neto como cavalariço para afastá-lo do pai?

- Sim, isso mesmo. Rabbie é muito trabalhador e o senhor não...

O rosto enrugado da velha senhora ficou paralisado no meio de sua animada conversa. Virei-me para olhar por cima do ombro e também fiquei paralisada. Soldados ingleses. Dragões, seis deles, a cavalo, descendo cuidadosamente a colina em direção ao moinho.

Com admirável presença de espírito, a sra. MacNab levantou-se e sentou-se outra vez em cima das roupas de Jamie, suas saias rodadas ocultando tudo.

Ouviu-se barulho de água e uma respiração explosiva no açude atrás de mim, quando Jamie veio à superfície outra vez. Tive medo de gritar ou me mover, atraindo a atenção dos dragões para o lago, mas o repentino silêncio atrás de mim disse-me que ele os avistara. O silêncio foi quebrado por uma única palavra que ressoou pela água, baixinho, mas intensa em sua sinceridade:

- Merde - ele disse.

A velha senhora e eu ficamos sentadas, imóveis, o rosto impenetrável, observando os soldados descerem a colina. No derradeiro instante, quando fizeram a última volta no caminho do moinho, ela virou-se rapidamente para mim e colocou um dedo sobre os lábios ressequidos. Eu não devia falar para que não soubessem que era inglesa. Não tive tempo sequer de balançar a cabeça, em sinal de que havia compreendido, quando os cascos enlameados pararam a alguns passos de distância.

- Bom dia, senhoras - disse o líder. Era um cabo, mas não, fiquei feliz em constatar, o cabo Hawkins. Um olhar rápido mostrou-me que nenhum daqueles homens estava entre os que eu vira em Fort William e relaxei um pouco a mão que segurava a alça da cesta.

- Vimos o moinho lá de cima - disse o líder - e pensei em talvez comprar uma saca de farinha? - Dividiu uma mesura entre nós duas, sem saber a quem se dirigir.

A sra. MacNab foi fria, mas educada.

- Bom dia — disse, inclinando a cabeça. — Mas se veio à procura de farinha, receio que ficará desapontado. A roda do moinho não está funcionando no momento. Talvez da próxima vez que passe por aqui.

- Ah, é mesmo? O que há de errado? - O cabo, um homem jovem e baixo, com uma compleição jovial, pareceu interessado. Caminhou até a beira do lago para olhar atentamente para a roda-d'água. O moleiro, aparecendo na moenda para relatar os últimos progressos com a moenda, viu-o e rapidamente recuou e desapareceu de vista.

O cabo chamou um de seus homens. Subindo o barranco, ele gesticulou para o outro soldado, que obedientemente agachou-se para que o cabo pudesse subir em suas costas. Esticando-se, conseguiu agarrar-se à beira do telhado com as duas mãos e com um impulso subiu no teto de sapê. De pé, ele mal conseguia tocar a borda da enorme roda. Esticou-se e balançou-a com as duas mãos. Inclinando-se para baixo, gritou para o moleiro, através da janela, para tentar girar a moenda à mão.

Obriguei-me a manter os olhos afastados do fundo do açude. Eu não estava suficientemente familiarizada com o funcionamento de rodas-d'água para ter certeza, mas temia que se a roda cedesse repentinamente, qualquer coisa próxima às engrenagens submersas poderia ser esmagada. Aparentemente, esse não era um temor infundado, porque a sra. MacNab falou rispidamente para um dos soldados que estava perto de nós.

- Você devia mandar seu chefe descer, rapaz. Não vai adiantar nada para ele nem para o moinho. Não deviam se meter com o que não entendem.

- Ah, não precisa se preocupar, senhora — disse o soldado descontraidamente. - O pai do cabo Silver possui um moinho de trigo em Hamp-shire. O que o cabo não entende de rodas-d'água caberia no meu sapato.

A sra. MacNab e eu trocamos olhares de espanto. O cabo, depois de mais algumas idas e vindas ao telhado e tentativas exploratórias remexendo e cutucando, desceu para onde estávamos sentadas. Suava copiosamente e limpou o rosto vermelho com um lenço grande e sujo antes de se dirigir a nós.

- Não posso movê-la de cima e esse moleiro idiota parece não falar nem uma palavra de inglês. - Olhou para a vara firme da sra. MacNab e suas pernas tortas, depois para mim. - Talvez a jovem pudesse vir e falar com ele para mim?

A sra. MacNab estendeu a mão num gesto protetor, agarrando-me pela manga.

— Vai ter que desculpar minha nora, senhor. Ela ficou meio perturbada da cabeça desde que seu último bebê nasceu morto. Não diz uma palavra há mais de um ano, a pobre menina. E não posso deixá-la sozinha um só instante, com medo de que ela se atire na água em sua tristeza.

Fiz o melhor possível para parecer abobalhada, o que não foi nenhum esforço no meu estado de espírito atual. O cabo pareceu desconcertado.

- Ah - exclamou. - Bem... - Andou de um lado para o outro pela borda do açude, ainda franzindo a testa e olhando para a água. Olhava exatamente como Jamie o fizera há uma hora e aparentemente pela mesma razão.

— Não adianta, Collins — disse ao velho soldado. — Vou ter que mergulhar e ver o que está prendendo a roda. - Tirou o casaco vermelho dos dragões da cavalaria e começou a desabotoar os punhos da camisa. Troquei um olhar horrorizado com a sra. MacNab. Embora pudesse haver ar suficiente embaixo da casa do moinho para sobreviver, certamente não havia espaço para se esconder adequadamente.

Estava considerando, sem muito otimismo, as chances de dar início a um convincente ataque epilético, quando a enorme roda rangeu repentinamente acima de nossa cabeça. Com o som de uma árvore sendo abatida, o grande arco fez uma súbita meia-volta, parou por um instante, depois começou a girar regularmente, as pás vertendo alegremente brilhantes riozinhos dentro do açude.

O cabo parou no meio do ato de se despir, olhando admirado para o arco da roda.

- Veja só, Collins! O que será que estava preso na roda?

Como em resposta, algo apareceu no topo da roda. Ficou pendurado em uma das pás, as dobras vermelhas e encharcadas escorrendo água. A pá bateu na corrente de água e submergiu com estardalhaço no açude, o objeto se desprendeu e as antigas ceroulas do pai de Jamie flutuaram majestosamente pelas águas do açude do moinho.

O soldado mais velho pescou-as com uma vareta, entregando-as cuidadosamente ao seu comandante, que as pegou da vara como um homem obrigado a pegar um peixe morto.

- Hum - resmungou, erguendo a peça do vestuário com ar crítico. -De onde será que saiu? Deve ter ficado preso no eixo. É engraçado como algo assim pudesse causar tanto problema, não é, Collins?

— Sim, senhor. — O soldado obviamente não considerava as engrenagens internas da roda de um moinho escocês algo de grande interesse, mas respondeu educadamente.

Depois de revirar o pano uma ou duas vezes, o cabo deu de ombros e usou-o para limpar as mãos.

- Um bom pedaço de flanela - disse, torcendo o pano encharcado. -Vai servir para polir tachas, ao menos. Uma espécie de souvenir, não é, Collins? - Em seguida, com uma mesura cortês para nós duas, voltou-se para seu cavalo.

Mal os dragões haviam desaparecido de vista por cima da colina quando um barulho de água espadanada vindo do lago do moinho anunciou a subida das profundezas do duende das águas.

Ele estava completamente sem sangue, azulado, parecendo mármore de Carrara, e seus dentes batiam de tal forma que eu mal consegui entender suas primeiras palavras, que, de qualquer forma, eram em gaélico.

A sra. MacNab não teve dificuldade em entendê-las e seu velho maxilar caiu. Entretanto, fechou-o imediatamente e fez uma grande reverência ao senhor saído das águas. Vendo-a, ele parou seu avanço em direção à margem, a água ainda batendo recatadamente à altura de sua cintura. Respirou fundo, cerrando os dentes para impedir que chocalhassem, e tirou uma fita de lentilha-d'água do ombro.

- Sra. MacNab - disse, cumprimentando sua velha locatária com um movimento da cabeça.

- Senhor - ela disse, inclinando-se outra vez. - Um belo dia, não é?

- Um p-pouco revigorante — disse, lançando-me um olhar. Encolhi os ombros, desarvorada.

- Estamos felizes por vê-lo de volta à sua casa, senhor, e esperamos, os meninos e eu mesma, que logo volte definitivamente.

- Eu também, sra. MacNab - Jamie disse educadamente. Fez um sinal com a cabeça para mim, olhando-me de modo incisivo. Sorri brandamente.

A senhora, ignorando esse jogo paralelo, dobrou as mãos nodosas no colo e tentou empertigar-se com dignidade.

- Tenho um pequeno favor a pedir a Vossa Senhoria - começou - a respeito...

- Vovó MacNab - Jamie interrompeu, avançando mais um passo ameaçador na água —, o que quer que seja, eu farei. Desde que me devolva minha camisa antes que minhas partes caiam congeladas de frio.




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