A viajante do tempo



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PARTE V

LAUYBROCH


26 - A VOLTA DO SENHOR DAS TERRAS
No começo, estávamos tão felizes só de estarmos juntos e longe de Leoch que não falávamos muito. Para atravessar a superfície plana da charneca, Donas podia carregar nós dois sem grande esforço e cavalguei com os braços em torno da cintura de Jamie, regozijando-me na sensação dos músculos aquecidos pelo sol remexendo-se sob minha face. Quaisquer que fossem os problemas que pudéssemos enfrentar — e eu sabia que havia muitos - estávamos juntos. Para sempre. E isso era o suficiente.

Quando o primeiro impacto de felicidade amadureceu no esplendor do companheirismo, começamos a conversar outra vez. No começo, sobre a região que estávamos atravessando. Depois, cautelosamente, sobre mim e do lugar de onde eu viera. Ele ficava fascinado com as minhas descrições da vida moderna, embora eu pudesse ver que a maioria das minhas histórias parecia contos de fadas para ele. Adorava especialmente as descrições de automóveis, tanques e aviões e me fez descrevê-los inúmeras vezes, o mais detalhadamente possível. Por um acordo tácito, evitávamos qualquer menção a Frank.

Conforme a distância percorrida aumentava, nossa conversa voltou-se mais para o tempo presente: Colum, o castelo, depois a caça ao veado e o duque.

- Ele parece um bom sujeito — Jamie observou. Quando o caminho tornou-se mais difícil, ele desmontou e passou a caminhar ao lado, o que facilitava a conversa.

- Também achei - disse. - Mas...

- Ah, sim, não se pode confiar muito no que um homem parece ser atualmente - concordou. - Ainda assim, nos demos bem, ele e eu. Sentávamos juntos e passávamos a noite conversando em volta do fogo na cabana de caça. Aliás, ele é bem mais inteligente do que parece; ele sabe a impressão que aquela voz dele causa e acho que a usa para se fazer passar um pouco por tolo, enquanto o tempo todo sua astúcia está lá, trabalhando por trás do olhar.

- Mmm. É disso que eu tenho medo. Você... contou a ele? Encolheu os ombros.

- Um pouco. Ele sabia meu nome, é claro, daquela outra vez, no castelo.

Ri ao me lembrar do relato que ele fizera daquela época.

- Vocês, hã, ficaram recordando os velhos tempos?

Ele riu, as pontas dos cabelos flutuando pelo rosto na brisa de outono.

- Ah, só um pouco. Perguntou-me uma vez se eu ainda tinha problemas intestinais. Mantive o ar sério e respondi que normalmente não, mas que talvez estivesse começando a sentir um pouco de dor de barriga agora. Ele riu e disse que esperava que isso não incomodasse minha bela esposa.

Ri também. No momento, o que o duque fizesse ou deixasse de fazer não parecia de decisiva importância. Ainda assim, um dia ele poderia ser útil.

- Contei-lhe também que eu era procurado, mas não culpado da acusação, embora houvesse pouca probabilidade de prová-lo. Ele pareceu compreensivo, mas tive o cuidado de não lhe contar as circunstâncias, quanto mais o fato de que há um prêmio por minha cabeça. Eu ainda não chegara a uma conclusão se podia confiar nele quando... bem, quando o Velho Alec irrompeu no acampamento como se o próprio diabo estivesse em seu encalço e Murtagh e eu partimos no mesmo dia.

Isso me fez lembrar.

- E onde está Murtagh? - perguntei. — Ele voltou com você para Leoch? - Esperava que o pequeno membro do clã não tivesse se metido em confusão nem com Colum nem com os habitantes de Cranesmuir.

- Ele começou a voltar comigo, mas o animal que cavalgava não era páreo para Donas. Sim, você é um valoroso rapazinho, Donas, mo buidheag. — Deu um tapinha no reluzente pescoço do alazão e Donas relinchou e sacudiu a crina. Jamie ergueu os olhos para mim e sorriu.

- Não se preocupe com Murtagh. Eis um passarinho alegre que sabe cuidar de si mesmo.

- Alegre? Murtagh? — Alegre quer dizer contente, bem-humorado, o que parecia incoerente em se tratando de Murtagh. — Acho que nunca o vi sorrir. E você?

- Ah, sim. Pelo menos duas vezes.

- Há quanto tempo o conhece?

- Vinte e três anos. Ele é meu padrinho.

- Ah, bem, isso explica muita coisa. Não achei que ele fosse se preocupar por minha causa.

Jamie deu um tapinha na minha perna.

- Claro que se preocuparia. Ele gosta de você.

- Vou acreditar na sua palavra.

Tendo voltado a tocar nos últimos acontecimentos, respirei fundo e perguntei algo que desejava ardentemente saber.

- Jamie?


- Sim?

- Geillis Duncan. Eles vão... vão realmente queimá-la?

Ergueu os olhos para mim, franzindo ligeiramente a testa, e balançou a cabeça, confirmando.

- Creio que sim. Mas só depois que a criança tiver nascido. É isso o que a está perturbando?

- Uma das coisas. Jamie, olhe para isto. — Tentei levantar a volumosa manga, não consegui, e contentei-me em puxar a gola da minha blusa do meu ombro para mostrar minha cicatriz de vacinação.

- Deus do céu — ele disse devagar, depois que lhe expliquei. Olhou-me incisivamente. - Então é por isso... então, ela é de sua época?

Encolhi os ombros, desarvorada.

- Não sei. Tudo que posso dizer é que ela provavelmente nasceu depois de 1920; foi quando a vacinação em massa foi iniciada. — Olhei por cima do ombro, mas nuvens baixas escondiam os penhascos que agora nos separavam de Leoch. — Acho que nunca mais saberei... agora.

Jamie tomou as rédeas de Donas e conduziu-o para o lado, para um pequeno bosque de pinheiros, às margens de um riacho. Agarrou-me pela cintura, levantou-me e me colocou no chão.

- Não lamente por ela — disse com firmeza, abraçando-me. — É uma mulher má, uma assassina, se não uma bruxa. Ela realmente matou o marido, não?

- Sim - respondi com um estremecimento, lembrando-me dos olhos vidrados de Arthur Duncan.

- Mas ainda não compreendo por que ela tinha que matá-lo - ele disse, sacudindo a cabeça, estarrecido. - Ele tinha dinheiro, uma boa posição. E duvido que a maltratasse.

Olhei-o com exasperada surpresa.

- E essa é a sua definição de um bom marido?

- Bem... sim - ele disse, franzindo a testa. - O que mais ela podia querer?

- O que mais - Fiquei tão desconcertada que apenas olhei para ele por um instante, depois me deixei cair na grama e comecei a rir.

- O que é engraçado? Acho que foi um assassinato. — No entanto, ele sorriu e passou o braço ao meu redor.

- Eu só estava pensando - disse, ainda rindo - se a sua definição de um bom marido é alguém com dinheiro e boa posição que não bate na mulher... o que isso faz de você?

- Ah - exclamou. Riu. — Bem, Sassenach, eu nunca disse que era um bom marido. Nem você. "Sádico", acho que foi assim que me xingou e algumas outras coisas que eu não repetiria para bem da decência. Mas não um bom marido.

- Ótimo. Então, não me sentirei obrigada a envenená-lo com cianeto.

- Cianeto? - Olhou-me com curiosidade. - O que é isso?

- O que matou Arthur Duncan. É um veneno rápido e muito poderoso. Bastante comum na minha época, mas não aqui. - Umedeci os lábios pensativamente.

- Eu senti o gosto de cianeto nos lábios dele e apenas isso foi o suficiente para fazer todo o meu rosto ficar dormente. Age quase instantaneamente, como você viu. Eu devia ter adivinhado naquela ocasião... a respeito de Geilie, quero dizer. Imagino que ela o tenha obtido a partir de caroços de pêssego ou de cereja triturados, embora deva ter dado um trabalho incrível.

- Ela lhe contou por que fez isso?

Suspirei e esfreguei os pés. Meus sapatos haviam se perdido na confusão junto ao lago e eu estava sempre pegando farpas e carrapichos, não tendo os pés endurecidos como os de Jamie.

- Isso e muito mais. Se há alguma coisa de comer no seu alforje, por que não vai buscar e lhe contarei tudo sobre isso.

Entramos no vale de Broch Tuarach no dia seguinte. Quando saímos dos contrafortes, avistei um cavaleiro solitário, a uma certa distância, vindo mais ou menos em nossa direção. Era a primeira pessoa que eu via desde que deixáramos Cranesmuir.

O homem que se aproximava era vigoroso e de aparência abastada, com um lenço de pescoço muito branco aparecendo na gola de um resistente casaco de sarja cinza, as longas pontas deixando à mostra apenas uns cinco centímetros de suas calças amarradas abaixo dos joelhos.

Estávamos viajando há quase uma semana, dormindo ao relento, lavando-nos nas águas frias e limpas dos córregos e vivendo bem de coelhos e peixes que Jamie conseguia pegar e de plantas e frutas comestíveis que eu conseguia encontrar. Com nossos esforços conjuntos, nossa dieta era melhor do que a do castelo, mais fresca e certamente mais variada, ainda que um pouco imprevisível.

No entanto, se a nutrição estava mais do que a contento na vida ao ar livre, a aparência era diferente e eu fiz uma rápida avaliação de nosso estado quando o cavalheiro montado hesitou, franzindo o cenho, depois mudou de direção e veio trotando lentamente em nossa direção para investigar.

Jamie, que insistira em caminhar a maior parte da viagem para poupar o cavalo, tinha realmente uma aparência nada respeitável, as meias manchadas até os joelhos de poeira vermelha, a camisa sobressalente rasgada pelos arbustos e a barba de uma semana eriçando-se furiosamente das faces e dos maxilares.

Seus cabelos haviam crescido bastante nos últimos meses para alcançar os ombros. Em geral, presos num rabicho ou amarrados na nuca com uma fita, agora estavam soltos, espessos e desgrenhados, com pequenos pedaços de folhas e galhos presos nas desalinhadas mechas cor de cobre. Com o rosto queimado de sol num tom de bronze avermelhado, as botas rachadas, espada e adaga enfiadas no cinto, ele realmente parecia um bárbaro das Highlands.

Eu não estava muito melhor. Suficientemente coberta nas dobras da camisa de Jamie e nos remanescentes do meu vestido, descalça, enrolada no seu xale de xadrez, parecia uma maltrapilha. Encorajada pela névoa úmida e não sofrendo nenhuma restrição em forma de pente ou escova, meus cabelos rebelaram-se em toda a minha cabeça. Também haviam crescido durante minha estada no castelo e flutuam em nuvens e cachos pelos meus ombros, entrando nos meus olhos sempre que o vento vinha de trás, como agora.

Afastando dos olhos os cachos revoltos, observei a aproximação cautelosa do cavalheiro de cinza. Jamie, vendo-o, parou nosso próprio cavalo e esperou que ele se aproximasse o suficiente para poderem conversar.

- É Jock Graham — disse-me -, lá de Murch Nardagh.

O homem freou a alguns metros de distância e ficou nos examinando cuidadosamente. Seus olhos, com grandes bolsas de gordura, estreitaram-se e pousaram com desconfiança em Jamie. Em seguida, arregalaram-se repentinamente.

- Lallybroch? - perguntou, incrédulo.

Jamie balançou a cabeça, amavelmente. Com um ar completamente ilógico de orgulho de proprietário, colocou a mão em minha coxa e disse:

- E minha senhora Lallybroch.

A boca de Jock Graham abriu-se alguns centímetros, depois se recompôs rapidamente em uma expressão de agitado respeito.

- Ah... minha... senhora - disse, tirando o chapéu com atraso e fazendo uma mesura em minha direção. - Vocês estão indo para casa, então? -perguntou, tentando manter o olhar fascinado longe de minha perna, nua até os joelhos por causa de um rasgão na minha roupa, e manchada com o suco das bagas do sabugueiro.

- Sim. - Jamie olhou por cima do ombro dele, em direção à fenda no monte que ele me dissera ser a entrada para Broch Tuarach.

- Esteve lá recentemente, Jock?

Graham afastou os olhos de mim e olhou para Jamie.

- Hein? Ah, sim. Sim, estive lá. Todos estão bem. Ficarão contentes de vê-lo, imagino. Boa viagem, então, Fraser. — E com uma cutucada apressada nas costelas do cavalo, virou-se e começou a subir o vale.

Ficamos observando-o partir. De repente, a uns cem metros de distância, ele parou. Virando-se na sela, ergueu-se nos estribos, colocou as mãos em volta da boca e gritou. O som, trazido pelo vento, chegou a nós fraco, mas distinto.

— Bem-vindo ao lar!

E desapareceu atrás de uma elevação.

Broch Tuarach significa "torre voltada para o norte". Da encosta da montanha acima de nós, a torre que dava seu nome à pequena propriedade não passava de mais um aglomerado de rochas, bem semelhante àqueles que ficavam nos sopés dos montes que havíamos atravessado.

Descemos por uma fenda rochosa e estreita entre dois penhascos, guiando o cavalo entre as pedras. Depois, o trajeto ficou mais fácil, a terra ondeando mais suavemente através dos campos e de cabanas esparsas, até finalmente chegarmos a uma estrada pequena e sinuosa que levava à casa.

Era maior do que eu esperava; uma bela mansão de três andares de pedra branca rebocada com cal, as janelas delineadas com a pedra cinza ao natural, um teto alto de ardósia, com múltiplas chaminés, e diversos prédios menores pintados de branco amontoados ao redor, como pintinhos em volta de uma galinha. A velha torre de pedra, situada numa pequena elevação na parte posterior da casa, erguia-se a quase vinte metros de altura, com um telhado em cone, como o chapéu de uma bruxa, rodeado com três fileiras de minúsculas seteiras.

Quando nos aproximávamos, ouviu-se uma repentina e terrível algazarra vinda das construções anexas e Donas assustou-se e empinou. Não sendo uma exímia amazona, fui imediatamente lançada ao chão, aterrissando de forma humilhante na estrada de terra. Com uma rápida apreciação da importância relativa dos fatos, Jamie saltou e agarrou o cabresto do cavalo, deixando-me entregue à própria sorte.

Os cachorros já estavam quase em cima de mim, rosnando e latindo, quando consegui me levantar. Aos meus olhos apavorados, parecia haver uma dúzia deles, todos com os dentes arreganhados e perigosos. Ouvi um grito de Jamie.

- Bran! Luke! Sheasl

Os cachorros patinaram até parar completamente, a alguns passos de mim, confusos. Correram de um lado para o outro, resmungando com hesitação, até ele falar outra vez.

- Sheas, mo maise! De pé, seus malvados! - Eles obedeceram e a cauda do cachorro maior começou a balançar gradualmente, uma vez, depois duas vezes, em dúvida.

- Claire. Segure o cavalo. Ele não deixará que eles se aproximem e sou eu quem eles querem. Ande devagar, não vão atacá-la. — Falava descontraidamente, para não alarmar ainda mais o cavalo e os cachorros. Eu mão tinha tanto sangue-frio, mas fui aproximando-me dele cuidadosamente. Donas sacudiu a cabeça e revirou os olhos quando segurei a brida, mas eu não estava disposta a aturar explosões de mau humor - dei um puxão firme nas rédeas e agarrei o cabresto.

Os grossos lábios aveludados retorceram-se mostrando os dentes, mas eu dei outro puxão ainda mais forte. Coloquei o rosto bem perto do grande olho dourado e penetrante e devolvi o olhar furioso.

- Não ouse! - adverti. - Ou vai acabar virando carne de cachorro e eu não vou levantar um dedo para salvá-lo!

Enquanto isso, Jamie caminhava devagar em direção aos cães, um dos braços estendidos para eles com o punho cerrado. O que parecera um bando resumia-se a quatro cachorros; um pequeno terrier amarronzado, dois pastores peludos e malhados e um enorme monstro preto e cor de canela que poderia se passar pelo animal enorme e feroz de O cão dos Barskersvilles sem levantar nenhuma suspeita.

Essa ameaçadora criatura esticou um pescoço mais grosso que minha cintura e cheirou delicadamente os nós dos dedos que lhe eram oferecidos. Uma cauda semelhante a um cabo de navio começou a bater de um lado para o outro com crescente fervor. Em seguida, atirou para trás sua enorme cabeça, ganindo de alegria, e pulou em cima de seu dono, derrubando-o estatelado no chão.

- "E assim Ulisses retorna da Guerra de Tróia e é reconhecido pelo seu cão fiel" - recitei para Donas, que relinchou levemente, dando sua opinião sobre Homero ou sobre a indigna manifestação de emoção que acontecia na estrada.

Jamie, rindo, agitava o pêlo e puxava as orelhas dos cachorros, que tentavam lamber seu rosto, todos ao mesmo tempo. Finalmente, conseguiu afastá-los o suficiente para se levantar, mantendo-se de pé com dificuldade diante de suas empolgadas demonstrações.

- Bem, ao menos alguém está contente em me ver - disse, rindo, enquanto afagava a cabeça do animal. - Este é Luke - disse, apontando para o terrier. — E estes são Elphin e Mars. São irmãos e excelentes cães pastores. E este — colocou a mão carinhosamente na enorme cabeça negra, que babou de satisfação - é Bran.

- Vou confiar em você - eu disse, cautelosamente estendendo o nó de um dedo para ser cheirado. - O que ele é?

- Um staghound, um cão veadeiro. - Coçou as orelhas empinadas, declamando:


Assim Fingal escolheu seus cães de caça:

Olhos como ameixas silvestres, orelhas como folhas,

Peito de cavalo, pernas como foicinhas

E a junta da cauda distante da cabeça.


- Se essas são qualidades, então você tem razão - eu disse, inspecionando Bran. - Se a junta da cauda fosse mais distante de sua cabeça, você poderia montá-lo.

- Eu costumava fazer isso quando era criança. Não com Bran, mas com seu avô, Nairn.

Deu um último tapinha carinhoso em Bran e empertigou-se, olhando na direção da casa. Pegou a brida do irrequieto Donas e conduziu-o pela descida.

- "E assim Ulisses retorna para casa, disfarçado de indigente,..." — ele citou em grego, tendo ouvido minha observação anterior. - E agora -disse, arrumando o colarinho com certa amargura - acho que é hora de ir lidar com Penélope e seus pretendentes.

Quando chegamos às portas duplas, os cachorros arfando em nossos calcanhares, Jamie hesitou.

- Deveríamos bater? — perguntei, um pouco nervosa. Olhou para mim, estupefato.

- É a minha casa - disse, abrindo a porta.

Conduziu-me pela casa, ignorando os poucos criados surpresos pelos quais passamos, atravessando o vestíbulo e uma pequena sala de armas, até uma sala de estar. A sala ostentava uma enorme lareira com um consolo bem polido, objetos de prata e vidro brilhavam aqui e ali, refletindo o sol do fim de tarde. Por um instante, achei que a sala estivesse vazia. Então, vi um ligeiro movimento em um canto, próximo à lareira.

Ela era menor do que eu esperava. Com um irmão como Jamie, eu a imaginara ao menos do meu tamanho, ou até mais alta, mas a mulher junto ao fogo tinha pouco mais de um metro e meio. Estava de costas para nós, pegando alguma coisa na prateleira de um armário de louças e as pontas da faixa na cintura de seu vestido quase tocavam o chão.

Jamie parou quando a viu.

- Jenny - disse.

A mulher virou-se e vi de relance sobrancelhas negras como tinta de escrever e grandes olhos azuis em um rosto branco, antes de se lançar sobre seu irmão.

-Jamie!

Apesar de pequena, deslocou seu irmão com o impacto de seu abraço. Como um reflexo, seus braços envolveram os ombros dela e ficaram abraçados por um instante, o rosto de Jenny apertado com força contra a frente da camisa dele, a mão de Jamie segurando sua nuca com ternura. No rosto de Jamie havia uma expressão mista de incerteza e ansiosa alegria, tão forte que me senti quase uma intrusa.



Em seguida, ela pressionou-se com mais força contra ele, murmurando alguma coisa em gaélico, e a expressão do rosto dele dissolveu-se em absoluto choque. Segurou-a pelos braços e afastou-a, fitando-a.

Os rostos eram muito semelhantes; os mesmos olhos azul-escuros estranhamente rasgados e as largas maçãs do rosto. O mesmo nariz fino, cinzelado, apenas um pouquinho longo demais. Mas ela era morena, enquanto Jamie era claro, com cascatas de cabelos negros e anelados, amarrados para trás com uma fita verde.

Era linda, com feições bem delineadas e pele de alabastro. Também estava obviamente em adiantado estado de gravidez.

Jamie ficara com os lábios lívidos.

- Jenny - murmurou, sacudindo a cabeça. - Ah, Jenny. Mo cridh. Nesse momento, sua atenção foi atraída pela aparição de uma criança no vão da porta e ela afastou-se de seu irmão sem notar seu transtorno. Pegou o menino pela mão e conduziu-o para dentro da sala, murmurando palavras de encorajamento. Ele deixou-se ficar um pouco para trás, o polegar na boca para maior tranqüilidade, olhando para cima, para os estranhos, de trás das saias de sua mãe.

Porque obviamente ela era sua mãe. Ele possuía a sua cabeleira negra, espessa e encaracolada, e os mesmos ombros retos, embora o rosto não fosse o seu.

- Este é o pequeno Jamie - ela disse, olhando com orgulho para o menino. — E este é o seu tio Jamie, mo cridh, de quem você recebeu seu nome.

- Meu nome? Você o batizou com o meu nome? - Jamie parecia um lutador que acabava de levar um soco no estômago. Recuou, afastando-se da mãe e do filho, até tropeçar em uma cadeira e cair sentado nela como se suas pernas tivessem perdido a força. Enterrou o rosto nas mãos.

Sua irmã, a essa altura, percebeu que havia alguma coisa errada. Tocou-o cautelosamente no ombro.

-Jamie? O que foi, meu querido? Está doente?

Ele ergueu os olhos para ela e pude ver que seus olhos estavam rasos de lágrimas.

- Tinha que fazer isso, Jenny? Não acha que já sofri o bastante pelo que aconteceu... pelo que eu deixei acontecer... para dar o meu nome ao filho bastardo de Randall, para ser uma acusação contra mim enquanto eu viver?

O rosto de Jenny, normalmente pálido, perdeu todos os vestígios de cor.

- Filho bastardo de Randall? - repetiu, atônita. - Quer dizer, John Randall? O capitão inglês?

- Sim, o capitão Randall. De quem mais eu estaria falando, pelo amor de Deus? Você se lembra dele, eu suponho? - Jamie recuperava o suficiente de sua habitual reação sarcástica.

Jenny analisou seu irmão atentamente, uma das sobrancelhas erguidas, desconfiada.

- Ficou maluco, homem? - perguntou. — Ou andou bebendo muito pelo caminho?

- Nunca deveria ter voltado — ele murmurou. Levantou-se, cambaleando ligeiramente, e tentou passar sem tocá-la. Entretanto, ela permaneceu onde estava e segurou-o pelo braço.

- Corrija-me, irmão, se eu estiver errada — Jenny disse devagar -, mas tenho a forte impressão de que está dizendo que eu banquei a vagabunda com o capitão Randall e o que estou perguntando é que minhocas você tem na cabeça para dizer uma coisa dessas?

- Minhocas, hein? - Jamie voltou-se para ela, a boca retorcida de amargura. — Quisera que assim fosse; preferia estar morto e no túmulo a ver minha irmã levada a essa situação. - Agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a levemente, gritando: - Por que, Jenny, por quê? Vê-la arruinar-se por minha causa foi vergonha suficiente para me matar. Mas isto... - Deixou os braços caírem, com um gesto de desespero que abrangia o ventre volumoso, projetando-se acusadoramente sob o vestido largo e fino.

Virou-se bruscamente em direção à porta e uma mulher idosa, que ouvia ansiosamente com a criança agarrada às suas saias, recuou, amedrontada.

- Não deveria ter vindo. Vou embora.

- Não faça isso, Jamie Fraser - sua irmã disse, de forma contundente. — Não antes de me ouvir. Então, sente-se e eu lhe contarei sobre o capitão Randall, já que quer saber.

- Eu não quero saber! Não quero ouvir! — Quando ela avançou em sua direção, ele virou-se bruscamente para a janela que dava para o pátio. Ela o seguiu:

— Jamie... — disse, mas ele a repeliu com um gesto violento.

- Não! Não fale comigo! Já disse que não vou agüentar ouvir!

- Ah, é mesmo? - Observou seu irmão, parado à janela, com as pernas afastadas, as mãos no peitoril e as costas teimosamente voltadas para ela. Ela mordeu o lábio e uma expressão calculada surgiu em seu rosto. Rápida como um raio, ela inclinou-se e enfiou a mão embaixo do seu kilt como o bote de uma cobra.

Jamie soltou um rugido de pura indignação e empertigou-se de choque. Tentou virar-se, depois parou, imóvel, quando ela aparentemente redobrou o aperto.

- Os homens são sensíveis - disse para mim, com um sorriso malicioso — e os animais podem ser subjugados e obrigados a obedecer. Com outros não se pode fazer nada, a não ser que os segure pelo saco. Agora, pode me ouvir de maneira civilizada — disse a seu irmão - ou vou ter que torcer um pouco? Hein?

Ele permaneceu imóvel, o rosto vermelho, respirando ruidosamente através dos dentes cerrados.

- Vou ouvir — disse — e depois vou torcer seu pescoço, Janet! Solte-me! Tão logo ela obedeceu, ele girou nos calcanhares.

- O que pensa que está fazendo? — perguntou, furioso. — Tentando me envergonhar na frente da minha própria mulher? - Jenny não se deixou intimidar com a sua fúria. Ficou balançando-se nos calcanhares, olhando para o irmão e para mim com ironia.

- Bem, se ela é sua mulher, imagino que esteja mais familiarizada com suas bolas do que eu. Não as vejo desde que ficou com idade suficiente para tomar banho sozinho. Cresceram um pouco, não?

O rosto de Jamie passava por várias transformações alarmantes, conforme os ditames do comportamento civilizado lutavam com o impulso primitivo de um irmão mais novo de dar um cascudo na irmã. Por fim, a civilização venceu e ele disse entre dentes, com a pouca dignidade que conseguiu reunir:

- Deixe minhas bolas fora disso. Então, já que não vai sossegar enquanto não me fizer ouvir, conte-me a respeito de Randall. Conte-me por que desobedeceu às minhas ordens e escolheu desonrar-se e à sua família.

Jenny colocou as mãos nas cadeiras e empertigou-se, pronta para o combate. Menos pronta a perder a calma; ainda assim era geniosa, não restava a menor dúvida.

- Ah, desobedecer a suas ordens, hein? É isso que o está incomodando, Jamie, é? Sabe muito bem que se seguirmos suas ordens vamos nos arruinar, sem dúvida. — Movia-se impacientemente de um lado para o outro, furiosa. - E se eu tivesse feito o que você mandou, naquele dia, você teria sido morto no pátio de entrada, papai teria sido enforcado ou estaria na prisão por assassinar Randall e as terras teriam sido confiscadas pela Coroa. Para não dizer nada de mim, sem lar e sem família, precisando mendigar nas vielas para viver.

Jamie já não estava pálido, mas vermelho de raiva.

- Sim, então você preferiu se vender ao invés de mendigar! Eu preferia ter morrido no meu próprio sangue e visto papai e as terras no inferno comigo e você sabe muito bem disso!

- Sim, eu sei! Você é um tolo, Jamie, e sempre foi! - sua irmã rebateu, exasperada.

- Veja só quem está falando! Não contente em arruinar seu bom nome e o meu próprio, você tem que continuar com o escândalo e expor sua desonra para toda a vizinhança!

- Você não vai falar assim comigo, James Fraser, irmão ou não! O que quer dizer com minha "desonra"? Seu grande idiota, você...

- O que eu quero dizer? Quando você anda por aí inflada até aqui como um sapo maluco. - Imitou sua barriga com um gesto desdenhoso da mão.

Ela recuou um passo, levou a mão para trás e esbofeteou-o com toda a força que conseguiu reunir. O impacto lançou a cabeça de Jamie para trás e deixou a marca branca de seus dedos impressa no rosto dele. Ele levou a mão lentamente até o rosto, olhando fixamente para sua irmã. Os olhos de Jenny cintilavam perigosamente e seu peito arfava. As palavras jorraram numa torrente entre os dentes cerrados.

- Sapo, não é? Maldito covarde, não tem mais coragem do que me deixar aqui, pensando que está morto ou preso, sem nenhuma notícia dia após dia e, de repente, chega calmamente num belo dia, e ainda com uma mulher, senta-se na minha sala de visitas chamando-me de sapo e de meretriz e...

- Não a chamei de meretriz, mas devia ter chamado! Como pôde... Apesar das diferenças de altura, irmão e irmã estavam quase cara a cara, sibilando um para o outro num esforço para impedir que as vozes alteradas ressoassem pela velha mansão. O esforço foi em vão, a julgar pelos olhares que percebi de vários rostos interessados espreitando discretamente da cozinha, do vestíbulo e da janela. O senhor de Broch Tuarach estava tendo uma interessante recepção de boas-vindas, sem dúvida.

Achei melhor deixar que acertassem as contas sem a minha presença e, assim, caminhei silenciosamente até o vestíbulo, com um desajeitado aceno de cabeça para a mulher idosa, e continuei até o pátio. Havia um caramanchão com um banco, onde me sentei, olhando ao redor com interesse.

Ao lado, havia um pequeno jardim cercado, florido com as últimas rosas do verão. Depois dele, estava o que Jamie chamava de pombal, ou assim presumi, pelos inúmeros pombos que entravam e saíam das aberturas no topo da construção.

Eu sabia que havia um celeiro e um barracão para a silagem; deviam ficar do outro lado da casa, com o depósito de provisões, o galinheiro, a horta e a capela abandonada da fazenda. O que ainda deixava sem explicação uma pequena construção de pedra deste lado. O vento leve do outono vinha daquela direção; inspirei fundo e fui recompensada com o rico aroma de lúpulo e levedo de cerveja. Era a cervejaria, onde a bebida da propriedade era produzida.

A estrada que seguia depois do portão levava para cima e além de um pequeno monte. Enquanto olhava, um pequeno grupo de homens surgiu no topo, em silhueta contra a luz do pôr-do-sol. Pareceram vacilar por um instante, como se estivessem se despedindo uns dos outros. Provavelmente era isso, porque apenas um deles desceu a colina em direção à casa, os outros partindo pelos campos em direção a um aglomerado de cabanas distantes.

Quando o homem solitário descia a colina, pude notar que ele mancava bastante. Quando atravessou o portão, a razão ficou evidente. Ele não tinha a perna direita abaixo do joelho e usava uma estaca de madeira no lugar.

Apesar da dificuldade, ele deslocava-se com jovialidade. Na verdade, quando se aproximou do caramanchão, pude ver que devia ter apenas vinte e poucos anos. Era alto, quase tão alto quanto Jamie, porém de ombros muito mais estreitos; na verdade, era magro, quase pele e osso.

Parou na entrada para o caramanchão, apoiando-se na treliça e olhou para dentro, para mim, com interesse. Cabelos fartos, castanhos e lisos, caíam sobre a fronte alta. Os olhos castanhos e profundos tinham um ar de paciente bom humor.

As vozes de Jamie e de sua irmã haviam se elevado enquanto eu esperava do lado de fora. As janelas estavam abertas para o ar quente e os querelantes eram perfeitamente audíveis do caramanchão, embora nem todas as palavras fossem inteligíveis.

- Interferindo, megera desgraçada! - ouviu-se a voz de Jamie, alta no ar suave do fim do dia.

- Não tem a decência de... - a resposta de sua irmã perdeu-se numa brisa repentina.

O recém-chegado balançou a cabeça na direção da casa.

- Ah, então Jamie chegou.

Confirmei com um aceno da cabeça, sem saber ao certo se deveria me apresentar. Não teve importância, porque o jovem sorriu e inclinou a cabeça para mim.

- Sou Ian Murray, o marido de Jenny. E imagino que você seja... ah...

- A Sassenach com quem Jamie se casou — concluí por ele. — Meu nome é Claire. Então já sabia? - perguntei e ele riu. Minha mente girava. Marido de Jenny?

- Ah, sim. Soubemos por Joe Orr, que soube através de um funileiro de Ardraigh. Já não se pode guardar mais nenhum segredo nas Highlands. Deve saber disso, embora esteja casada há apenas um mês. Há semanas que Jenny se pergunta como você seria.

- Vagabunda! - Jamie berrou de dentro da casa. O marido de Jenny não moveu um fio de cabelo, mas continuou a me examinar com uma curiosidade amistosa.

- É uma bela moça - disse, olhando-me de cima a baixo sem reservas. - Gosta de Jamie?

- Bem... sim. Sim, gosto - respondi, um pouco desconcertada. Estava começando a me acostumar à franqueza que caracterizava a maioria dos habitantes das Highlands, mas às vezes ainda era pega de surpresa.

Franziu os lábios e balançou a cabeça, dando-se por satisfeito. Em seguida, sentou-se a meu lado no banco.

- É melhor deixá-los a sós mais uns minutos — disse, com um aceno em direção à casa, onde a gritaria agora prosseguia em gaélico. Ele parecia totalmente desinteressado na causa da discussão. - Os Fraser não dão ouvidos a ninguém quando estão com raiva. Quando acabam de gritar um com o outro, às vezes conseguimos fazê-los ver a razão, mas não antes.

- Sim, percebi - eu disse laconicamente e ele riu.

- Então, está casada há bastante tempo para ter notado, hein? Soubemos como Dougal fez Jamie casar-se com você - disse, ignorando a contenda e concentrando sua atenção em mim. - Mas Jenny disse que era preciso mais do que Dougal MacKenzie para Jamie fazer algo que não quisesse. Agora que a conheço, naturalmente vejo por que ele se casou. -Ergueu as sobrancelhas, à espera de maiores explicações, mas educadamente sem forçá-las.

- Imagino que ele tinha seus motivos — eu disse, minha atenção dividida entre meu companheiro e a casa, onde as vozes altercadas continuavam.

- Não quero... Quero dizer, espero... - Ian interpretou corretamente minhas hesitações e meus olhares em direção às janelas da sala de estar.

- Ah, imagino que você tenha algo a ver com isso. Mas ela discutiria com ele quer você estivesse aqui ou não. Ela ama Jamie ardentemente, sabe, e preocupou-se muito enquanto ele estava desaparecido, especialmente tendo seu pai partido tão repentinamente. Sabe disso? - Os olhos castanhos eram perspicazes e observadores, como se medisse o grau de confiança existente entre Jamie e mim.

- Sim, Jamie me contou.

- Ah. - Balançou a cabeça em direção à casa. - E depois, é claro, ela está grávida.

- Sim, percebi isso também.

- Difícil não notar, não é? - Ian disse com um largo sorriso e nós dois rimos. - Isso deixa seus nervos à flor da pele. Não que eu a culpe por isso. Mas seria preciso um homem mais corajoso do que eu para discutir com uma mulher no nono mês de gravidez. — Recostou-se, esticando a perna de pau à sua frente.

- Eu a perdi em Daumier com Fergus nic Leodhas - explicou. -Metralha de canhão. Dói um pouco ao final do dia. - Esfregou a perna logo acima da bainha de couro que prendia a estaca de pau ao toco de perna.

-Já experimentou esfregar Bálsamo de Gilead? - perguntei. - Pimenta d'água ou arruda cozida também podem ajudar.

- Não experimentei a pimenta d'água - disse, interessado. - Vou perguntar a Jenny se ela sabe preparar.

- Ah, terei prazer em prepará-la para você — eu disse, achando-o simpático. Olhei na direção da casa outra vez. — Se ficarmos aqui o tempo suficiente — acrescentei, em dúvida. Conversamos sobre assuntos sem importância durante algum tempo, ambos com um ouvido atento ao confronto que continuava do outro lado da janela, até que Ian deslocou-se para a frente, posicionando sua perna artificial cuidadosamente antes de se levantar.

- Acho que devemos entrar agora. Se um deles parar o tempo suficiente para ouvir o outro, vão ferir os sentimentos um do outro.

- Espero que esse seja o único ferimento. Ian deu um risinho.

- Ah, acho que Jamie não bateria nela. Está acostumado a se controlar diante de provocação. Quanto a Jenny, ela pode esbofeteá-lo, mas é só isso.

- Ela já fez isso.

- Bem, as armas estão trancadas. Todas as facas estão na cozinha, exceto a que Jamie está usando. E não acho que ele vá deixá-la se aproximar o suficiente para tirar a adaga dele. Não, eles estão seguros. - Parou à porta. -Agora, quanto a você e eu... — Piscou solenemente. - Isso é outra questão.

Dentro da casa, as criadas sobressaltaram-se e bateram em retirada nervosamente com a aproximação de Ian. A governanta, no entanto, ainda pairava junto à porta da sala, fascinada, absorvendo a cena que se desenrolava lá dentro, o homônimo de Jamie aconchegado em seu peito farto. Sua concentração era tal que quando Ian falou com ela, deu um salto como se ele tivesse lhe espetado um alfinete e colocou a mão sobre o coração descompassado.

Ian cumprimentou-a educadamente com um aceno de cabeça, pegou o menino nos braços e entramos na sala de estar, ele à frente. Paramos logo depois da soleira para inspecionar a cena. Irmão e irmã haviam feito uma pausa para recuperar o fôlego, ambos ainda arrepiados e fitando-se com raiva como dois gatos furiosos.

O pequeno Jamie, vendo a mãe, debateu-se e esperneou para descer dos braços de Ian e, uma vez no chão, partiu na direção de Jenny como um pombo-correio.

- Mamãe! — gritou. - Colo! Jamie, colo!

Virando-se, ela pegou o menino e segurou-o como uma arma contra o ombro.

- Quer dizer ao seu tio quantos anos você tem, querido? - perguntou-lhe, reduzindo a voz a um arrulho, sob o qual um tom metálico ainda estava bem evidente. O menino percebeu-o; virou-se e enterrou o rosto no pescoço da mãe. Ela afagou suas costas mecanicamente, ainda fitando seu irmão.

-Já que ele não quer lhe dizer, eu o farei. Ele tem dois anos, completados em agosto. E se você é suficientemente inteligente para fazer as contas, o que me permito duvidar, verá que ele foi concebido seis meses depois da última vez que vi Randall, o que foi em nosso próprio pátio, tirando sangue do meu irmão com um sabre.

— Então é assim, hein? - Jamie olhou com raiva para sua irmã. - Ouvi uma história um pouco diferente. Todo mundo sabe que você levou o sujeito para a sua cama; não só daquela vez, mas como seu amante. Essa criança é dele. - Balançou a cabeça desdenhosamente na direção de seu xará, que se voltara para espreitar, por baixo do queixo de sua mãe, aquele estranho grande e barulhento. — Acredito em você quando diz que o novo bastardo que está carregando não é dele; Randall esteve na França até março. Então, você não só é uma prostituta, mas ainda por cima pouco exigente. Quem é o pai deste último descendente do diabo que você tem aí?

O jovem alto e magro ao meu lado tossiu educadamente, quebrando a tensão no aposento.

— Sou eu — disse, pacificamente. - Esse também. - Avançando rigidamente em sua perna de pau, pegou o menino dos braços de sua mãe enfurecida e colocou-o na dobra do seu braço. — Parece-se um pouco comigo, dizem.

De fato, vistos lado a lado, os rostos do homem e do menino eram praticamente idênticos, sem contar as bochechas rechonchudas de um e o nariz adunco do outro. A mesma testa alta e lábios finos. As mesmas sobrancelhas espessas arqueadas sobre os mesmos olhos fundos, castanhos e translúcidos. Jamie, olhando-os, parecia ter sido atingido nas costas por um saco de areia. Fechou a boca e engoliu em seco, obviamente sem saber o que fazer em seguida.

— Ian - disse, fracamente. - Estão casados, então?

— Ah, sim — seu cunhado disse alegremente. - Não podia ser de outra forma, não é?

— Compreendo - Jamie murmurou. Limpou a garganta e sacudiu a cabeça para seu recém-descoberto cunhado. - É, hã, é muita bondade sua, Ian. Aceitá-la, quero dizer. Muita gentileza.

Sentindo que ele devia estar precisando de apoio moral a essa altura, passei para o seu lado e toquei em seu braço. Os olhos de sua irmã demoraram-se sobre mim especulativamente, mas não disse nada. Jamie olhou ao redor e pareceu surpreso de me ver ali, como se tivesse se esquecido da minha existência. E não era de admirar se tivesse, pensei. Mas ele pareceu aliviado com a interrupção, ao menos, e estendeu o braço para me empurrar um pouco à frente.

— Minha mulher - disse, um pouco bruscamente. Balançou a cabeça em direção a Jenny e Ian. — Minha irmã e seu, hã... — sua voz definhou, enquanto Ian e eu trocávamos sorrisos amáveis.

Jenny não se deixou distrair com sutilezas sociais.

- O que quer dizer com "é gentileza dele me aceitar"? - perguntou, ignorando as apresentações. - Como se eu não soubesse! - Ian olhou interrogativamente para ela, que sacudiu a mão num gesto de menosprezo em direção a Jamie. - Ele quer dizer que foi bondade sua casar-se comigo em minha condição, com a honra maculada! - Resfolegou com tal força que faria jus a uma pessoa com o dobro do seu tamanho. - Só fala bobagem!

- Honra maculada? - Ian parecia perplexo e Jamie de repente inclinou-se para a frente e agarrou sua irmã pelo braço, apertando-o com força.

- Você não contou a ele a respeito de Randall? — Parecia realmente chocado. - Jenny, como pôde fazer isso?

Somente a mão de Ian no outro Braço de Jenny impediu-a de voar na garganta do irmão. Ian puxou-a com firmeza para trás dele e, virando-se, colocou o pequeno Jamie nos seus braços, de modo a forçá-la a segurar a criança para que ela não caísse. Em seguida, Ian passou o braço pelos ombros de Jamie e diplomaticamente conduziu-o a uma distância segura.

- Isso não é assunto para a sala de visitas — disse, a voz baixa e reprovadora -, mas talvez esteja interessado em saber que sua irmã era virgem na noite de núpcias. Afinal, estou em posição de afirmar isso.

A raiva de Jenny agora estava mais ou menos dividida igualmente entre irmão e marido.

- Como ousa dizer tais coisas em minha presença, Ian Murray? - disparou. — Ou mesmo na minha ausência! Minha noite de núpcias não é da conta de ninguém mas apenas minha e sua, certamente não é da conta dele. Só falta você lhe mostrar os lençóis de nosso leito matrimonial!

- Bem, se eu o fizesse agora, ia calar a boca de seu irmão, não? - Ian disse apaziguadoramente. — Vamos, mi ahu, não devia se aborrecer, é ruim para o bebê. E a gritaria também perturba o pequeno Jamie. - Estendeu os braços para seu filho, que choramingava, ainda sem saber ao certo se a situação requeria lágrimas. Ian sacudiu a cabeça para mim e revirou os olhos na direção de Jamie.

Captando a deixa, agarrei Jamie pelo braço e arrastei-o para uma poltrona em um canto neutro. Ian, igualmente, instalou Jenny num sofá para duas pessoas, um braço firme em torno de seus ombros para mantê-la segura no lugar.

- Pronto, chega. — Apesar de seus modos despretensiosos, Ian Murray possuía uma autoridade inegável. Eu mantive a mão no ombro de Jamie e pude sentir a tensão começar a se esvair.

Achei que o aposento parecia-se um pouco a um ringue de boxe, com os contendores retorcendo-se, inquietos, nos cantos, à espera do sinal de ataque e sob a mão calma do treinador.

Ian balançou a cabeça em direção a seu cunhado, sorrindo.

- Jamie. É um prazer vê-lo, rapaz. Estamos felizes por você estar em casa e com sua mulher. Não é, mi àhu. - perguntou a Jenny, seus dedos apertando-se perceptivelmente em seu ombro.

Ela não era pessoa de se deixar forçar a nada. Seus lábios comprimiram-se em uma linha fina, como se formassem um lacre, depois se abriram relutantemente para deixar uma única palavra escapar.

- Depende — disse, fechando-os com força outra vez.

Jamie esfregou a mão no rosto, depois ergueu a cabeça, pronto para um novo round.

- Eu vi você entrar na casa com Randall - disse teimosamente. - E pelo que ele me disse depois... Como ele pode saber que você tem uma verruga no seio?

Ela resfolegou violentamente.

- Lembra-se de tudo que aconteceu naquele dia ou o capitão o fez esquecer com seu sabre?

- Claro que me lembro! Não é provável que eu esqueça!

- Então, talvez se lembre que eu dei um bom golpe em sua virilha com meu joelho em determinado momento dos acontecimentos?

Jamie arqueou os ombros, desconfiado.

- Sim, me lembro.

Jenny sorriu com um ar de superioridade.

- Bem, então, se a sua mulher aqui... podia ao menos me dizer o nome dela, Jamie, juro que você não tem mesmo boas maneiras. De qualquer modo, se ela lhe desse tratamento similar, e você sem dúvida merece, devo acrescentar, acha que seria capaz de desempenhar seus deveres de marido alguns minutos depois?

Jamie, que começara a abrir a boca para falar, fechou-a repentinamente. Fitou sua irmã por um longo instante, em seguida um canto de sua boca contorceu-se um pouco.

- Depende - disse. A boca torceu-se outra vez. Ele estivera sentado curvado para a frente em sua poltrona, mas agora recostou-se, olhando-a com a expressão um tanto cética de um irmão mais novo ouvindo os contos de fadas de uma irmã, achando-se adulto demais para ficar impressionado, mas ainda assim acreditando um pouco, a despeito de si mesmo.

- É mesmo? — disse. Jenny voltou-se para Ian.

- Vá buscar os lençóis, Ian - ordenou. Jamie ergueu as duas mãos, rendendo-se.

- Não. Não, acredito em você. É que, o modo como ele agiu depois— Jenny recostou-se, relaxando na curva do braço de Ian, o filho aconchegado em seu colo o máximo que sua barriga permitia, feliz com a vitória.

- Bem, depois de tudo que ele disse lá fora, não poderia admitir ser incapaz perante seus próprios homens, não é mesmo? Tinha que fazer parecer que fizera o que prometera, não? E - admitiu — devo dizer que o sujeito foi muito desagradável em toda a situação; ele realmente me bateu e rasgou meu vestido. Na verdade, ele quase me deixou sem sentidos tentando e quando voltei a mim e consegui me cobrir decentemente, o inglês já havia partido, levando você com eles.

Jamie soltou um longo suspiro e fechou os olhos por um instante. Suas mãos grandes descansavam nos joelhos e eu cobri uma delas com um delicado aperto. Ele tomou minha mão e abriu os olhos, esboçando um leve sorriso de agradecimento para mim antes"de voltar-se para a irmã.

- Está bem — disse. — Mas eu quero saber, Jenny; você sabia quando entrou com ele que ele não poderia fazer-lhe mal?

Ela ficou em silêncio por um instante, mas seu olhar continuou firme no rosto do irmão. Finalmente, sacudiu a cabeça, um ligeiro sorriso nos lábios.

Estendeu a mão para impedir os protestos de Jamie e as sobrancelhas como as asas da gaivota ergueram-se em um gracioso arco interrogativo.

- E se pode dar sua vida em troca da minha honra, diga-me por que não posso dar minha honra em troca de sua vida? — As sobrancelhas uniram-se num ar de censura, como as que adornavam o rosto de seu irmão. - Ou está me dizendo que talvez eu não o ame tanto quanto você me ama? Porque se estiver, Jamie Fraser, digo-lhe agora mesmo, não é verdade!

Abrindo a boca para retrucar antes de Jenny terminar, Jamie de repente ficou desconcertado diante desta conclusão. Fechou a boca bruscamente, enquanto sua irmã tentava aumentar sua vantagem.

- Porque eu realmente o amo, apesar de você ser um cabeça-dura, um desmiolado, um turrão idiota. E não vou deixar você cair morto na estrada aos meus pés só porque é teimoso demais para manter a boca fechada uma vez na vida!

Os olhos azuis digladiavam-se, lançando chispas em todas as direções. Engolindo os insultos com dificuldade, Jamie buscava uma resposta racional. Parecia estar chegando a alguma conclusão. Finalmente, empertigou os ombros, resignado.

- Está bem, então, desculpe-me - disse. - Eu estava errado e peço-lhe perdão.

Ele e a irmã fitaram-se por um longo instante, mas qualquer perdão que estivesse esperando dela não estava a caminho. Ela examinou-o cuidadosamente, mordendo o lábio, mas não disse nada. Finalmente, ele ficou impaciente.

-Já disse que sinto muito! O que mais quer de mim? - perguntou. -Quer que eu fique de joelhos? Farei isso se for preciso, mas diga-me!

Ela sacudiu a cabeça devagar, o lábio ainda preso nos dentes.

- Não - disse, finalmente. - Não vou pedir que fique de joelhos em sua própria casa. No entanto, fique de pé.

Jamie levantou-se. Ela colocou a criança sentada no sofá e atravessou a sala, parando diante dele.

- Tire a camisa - ordenou.

-Não!

Ela puxou as pontas da camisa de dentro do kilt e estendeu as mãos para os botões. Sem conseguir impor uma resistência enérgica, ele claramente iria obedecer ou submeter-se a ser despido. Com o máximo de dignidade possível, afastou-se dela e, com os lábios cerrados, removeu a peça de roupa em questão.



Ela deu a volta para trás dele e examinou suas costas, o rosto exibindo a mesma expressão cuidadosamente indecifrável que eu vira Jamie adotar quando escondia alguma emoção forte. Ela balançou a cabeça, como se confirmasse algo há muito suspeitado.

- Bem, se você foi um tolo, Jamie, parece que pagou caro por isso. -Pousou a mão delicadamente em suas costas, cobrindo as piores cicatrizes.

- Pela aparência, deve ter doído.

- Doeu.


- Você chorou?

Os punhos cerraram-se involuntariamente ao lado do corpo.

- Sim!

Jenny deu a volta outra vez para ficar diante dele, o queixo erguido, os olhos rasgados abertos e brilhantes.



- Eu também - ela disse, brandamente. — Todos os dias desde que o levaram.

As faces largas mais uma vez espelhavam uma à outra, mas a expressão que ostentavam era tal que eu me levantei e saí silenciosamente pela porta da cozinha para deixá-los sozinhos. Quando a porta fechava-se atrás de mim, vi Jamie segurar as mãos de sua irmã e dizer alguma coisa em gaélico, com a voz rouca. Ela aconchegou-se em seu abraço e a cabeça brilhante e desgrenhada abaixou-se para os cabelos castanhos.




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