A viajante do tempo



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Quando se apresentou, uma mulher magra, curvada, com um xale amarelo, compreendi que estávamos em sérios apuros. Ela não era uma moradora da vila; jamais a vira antes. Tinha os pés descalços, encardidos da poeira da estrada por onde viera para chegar ali.

- Tem uma acusação a fazer contra uma dessas mulheres? - perguntou o juiz magro e alto.

A mulher estava com medo; não levantava os olhos para olhar para os juizes. Entretanto, balançou a cabeça levemente e a multidão fez silêncio para ouvi-la.

Sua voz era baixa e Mutt teve que lhe pedir para repetir.

Ela e o marido tinham um filho doente, que nasceu saudável, mas que ficou fraco e começou a definhar. Concluindo finalmente que a criança era uma troca das fadas, colocaram-na na colina das fadas Croich Gorm. Mantendo a vigilância para recuperarem seu próprio filho quando as fadas o devolvessem, viram as duas acusadas irem até a colina, pegarem a criança e declamarem estranhos feitiços sobre ela.

A mulher torcia as mãos magras, por baixo de seu avental.

- Nós ficamos de vigília até a noite, senhores. E logo depois que escureceu, surgiu um grande demônio, um enorme vulto negro que saiu das sombras sem nenhum ruído, e se inclinou sobre o local onde havíamos colocado o bebê.

Um murmúrio de assombro percorreu a multidão e senti os cabelos da minha nuca se arrepiarem ligeiramente, mesmo sabendo, como sabia, que o "grande demônio" era Jamie, que fora ver se a criança ainda estava viva. Preparei-me, sabendo o que vinha em seguida.

- E quando o sol nasceu, eu e meu marido fomos ver. E encontramos o bebê trocado, morto na colina, e nenhum sinal de nosso próprio bebezinho. - Com isso, ela irrompeu em prantos e atirou o avental sobre o rosto para esconder o choro.

Como se a mãe da criança encantada fosse uma espécie de sinal, a multidão apartou-se e a figura de Peter, o carroceiro, adiantou-se. Gemi por dentro quando o vi. Eu sentira as emoções da multidão voltarem-se contra mim quando a mulher falou; tudo que eu precisava agora era que esse homem contasse ao tribunal sobre o monstro do lago.

Desfrutando seu momento de glória, o carroceiro subiu no tablado e apontou dramaticamente para mim.

- É verdade que podem chamá-la de bruxa, meus senhores! Com meus próprios olhos eu vi esta mulher chamar um monstro das águas do Lago do Mal, para cumprir suas ordens! Uma criatura enorme e terrível, senhores, da altura de um pinheiro, com um pescoço igual ao de uma grande cobra azul e olhos do tamanho de maçãs, com um olhar capaz de roubar a alma de um homem.

Os juizes pareceram impressionados com seu testemunho e cochicharam entre si durante vários minutos, enquanto Peter fitava-me desafiador, com um olhar que dizia: "Agora você vai ver!"

Finalmente, o juiz gordo afastou-se da reunião e, com um gesto imperioso, chamou John MacRae, que se posicionara em um dos lados, atento a qualquer problema.

- Carcereiro! — disse. Virou-se e apontou para o carroceiro.

- Leve esse homem daqui e prenda-o no pelourinho por bebedeira em público. Este é um tribunal sério; não vamos desperdiçar o tempo dos inquisidores com acusações frívolas de um beberrão que vê monstros depois de tomar uísque demais!

Peter, o carroceiro, ficou tão perplexo que nem sequer resistiu quando o carcereiro caminhou a passos largos em sua direção e tomou-o pelo braço. De boca aberta, virou a cabeça para trás, lançando-me um olhar furioso, enquanto era levado dali. Não resisti e ergui meus dedos para dar-lhe um adeusinho.

No entanto, após essa ligeira quebra de tensão nos procedimentos legais, a situação deteriorou-se rapidamente. Houve uma procissão de jovens e mulheres para jurar que haviam comprado sortilégios e amuletos de Geillis Duncan, para fins como provocar doenças, livrar-se de uma gravidez indesejada ou lançar feitiços de amor em algum homem. Todas, sem exceção, juraram que os encantamentos haviam funcionado — um recorde invejável para um clínico geral, pensei com cinismo. Embora ninguém me atribuísse resultados assim, houve várias que afirmaram — com razão — terem me visto muitas vezes no herbanário da sra. Duncan, preparando remédios e triturando ervas.

Ainda assim, talvez isso não fosse fatal; havia um número igual de pessoas para alegar que eu as havia curado, usando nada além de remédios comuns, sem nenhuma menção a feitiços, encantamentos ou truques mágicos. Considerando-se a força da opinião pública, essas pessoas precisaram de uma certa dose de coragem para se apresentarem e testemunharem a meu favor, e fiquei-lhes agradecida.

Meus pés doíam de estar em pé por tanto tempo; enquanto os juizes ficavam sentados com relativo conforto, não havia bancos para os prisioneiros. No entanto, quando a próxima testemunha apareceu, esqueci completamente dos meus pés.

Com um instinto para o drama que se equiparava ao de Colum, padre Bain abriu de par em par a porta da igreja e surgiu na praça, mancando pesadamente com uma muleta de carvalho. Avançou lentamente até o centro da praça, inclinou a cabeça para os juizes, depois se virou e inspecionou a multidão, até que seu olhar fixo reduzisse o barulho a um murmúrio baixo e nervoso. Quando falou, sua voz fustigou como uma chicotada.

- Quem está em julgamento são vocês, povo de Cranesmuir! "Com ele veio a peste e carvões em brasa vieram com seus pés." Sim, vocês se deixaram seduzir e se afastar dos caminhos da retidão! Vocês semearam o vento e a tempestade está entre vocês agora!

Olhei-o espantada, um pouco desconcertada por aquele insuspeito dom da retórica. Ou talvez ele fosse capaz de tais vôos de oratória somente sob o estímulo de uma crise. A voz ostentosa continuou estrondando.

- A peste se abaterá sobre vocês e morrerão por seus pecados, a menos que sejam purificados! Aceitaram a meretriz da Babilônia em seu meio. — Essa era eu, imaginei, pelo olhar irado que me lançou. — Vocês venderam a alma ao inimigo, acolheram a víbora inglesa no seu seio e agora a vingança de Nosso Senhor Todo-poderoso cairá sobre vocês. "Livrem-se da mulher estrangeira, mesmo aquela que cumula com palavras. Porque sua casa se inclina para a morte e seus caminhos para os mortos!" Arrependa-se, povo de Cranesmuir, antes que seja tarde demais! Digo-lhes que caiam de joelhos e implorem perdão! Expulsem a meretriz inglesa e renunciem à sua barganha com a filha de Satanás! — Arrancou o rosário do cinto e brandiu o grande crucifixo de madeira na minha direção.

Por mais interessante que fosse tudo aquilo, pude notar que Mutt estava ficando um pouco inquieto. Inveja profissional, talvez.

- Hã, reverendo — disse o juiz, com uma ligeira mesura para o padre Bain -, o senhor tem provas a apresentar à acusação contra essas mulheres?

- Tenho, sim. - Passada a primeira explosão de oratória, o pequeno padre agora estava calmo. Apontou um dedo ameaçador em minha direção e tive que me controlar para não dar um passo para trás.

- Em uma terça-feira à tarde, há duas semanas, encontrei esta mulher nos jardins do Castelo Leoch. Usando poderes sobrenaturais, ela lançou um bando de cães de caça sobre mim, de tal forma que caí e fiquei sob grave risco de vida. Seriamente ferido na perna, levantei-me para sair de sua presença. A mulher tentou me seduzir com sua pecaminosidade, queria que eu a acompanhasse a um lugar privado e, quando resisti às suas manobras, lançou uma maldição sobre mim.

- Que grande besteira! - exclamei, indignada. — É o exagero mais ridículo que já ouvi!

Os olhos do padre Bain, escuros e cintilando como se estivessem febris, desprenderam-se dos inquisidores e fixaram-se em mim.

- Você nega, mulher, que me disse estas palavras? "Venha comigo agora, padre, ou seu ferimento putrefará"?

- Bem, reduza um pouco a veemência, mas algo parecido, talvez -admiti.

Com o maxilar cerrado em triunfo, o padre abriu bruscamente para o lado a saia de sua batina. Uma atadura manchada com sangue seco e úmida de pus amarelo envolvia sua coxa. A carne pálida da perna inchava-se acima e abaixo da atadura, com horríveis vergões vermelhos subindo do ferimento oculto.

— Meu Deus, homem! - exclamei, chocada com a visão do estado do ferimento. - Está com o sangue envenenado. Tem que cuidar disso, e imediatamente, ou vai morrer!

Ouviu-se um profundo murmúrio de choque da multidão. Até Mutt ejeff pareciam estupefatos.

O padre Bain sacudiu a cabeça lentamente.

— Ouviram? — perguntou. — A ousadia dessa mulher não conhece nenhum limite. Ela me amaldiçoa com a morte, um homem de Deus, diante do tribunal da própria Igreja!

O burburinho agitado da multidão tornou-se mais alto. O padre Bain falou outra vez, erguendo um pouco a voz, para ser ouvido acima do barulho.

— Deixo-os, senhores, com seu próprio julgamento e a injunção do Senhor: "Não permitirás que uma bruxa viva."

A prova dramática do padre Bain pôs fim aos testemunhos. Provavelmente, ninguém estava preparado para superar aquele desempenho. Os juizes determinaram um pequeno recesso e um lanche lhes foi trazido da hospedaria. Nenhuma dessas conveniências foi oferecida às acusadas.

Tentei puxar minhas amarras. O couro das tiras rangeu um pouco, mas não cederam nem um centímetro. Este, pensei cinicamente para aplacar o pânico, é o momento exato em que o arrojado herói deveria surgir cavalgando em meio à multidão, açoitando a população que se encolhia de medo e arrebatando a heroína quase desmaiada para a sua sela.

Mas o meu belo e destemido herói estava em algum lugar lá longe na floresta, tomando muita cerveja com um velho efeminado de sangue nobre e massacrando veados inocentes. Era pouco provável, pensei, rangendo os dentes, que Jamie voltasse a tempo sequer de juntar minhas cinzas para uma cerimônia fúnebre, antes de eu ser espalhada pelos quatro ventos.

Preocupada com meu medo crescente, no começo não ouvi o barulho dos cascos. Somente quando os fracos murmúrios e o girar de cabeças na multidão atraíram minha atenção foi que notei os golpes ritmados, ressoando nas pedras da rua principal.

Os murmúrios de surpresa intensificaram-se e as beiradas da multidão começaram a se afastar para admitir o cavaleiro, ainda fora do alcance da minha visão. Apesar do meu desespero anterior, comecei a sentir uma débil centelha de esperança irracional. E se Jamie tivesse voltado mais cedo? Talvez os avanços do duque tenham sido muito insistentes ou os veados muito escassos e esparsos. O que quer que fosse, fiquei na ponta dos pés para ver o rosto do cavaleiro que se aproximava.

As fileiras de pessoas afastaram-se relutantemente quando o cavalo, um baio vigoroso, enfiou o longo focinho entre os ombros de dois espectadores.

Diante dos olhos atônitos de todos - inclusive meus - a figura empertigada de Ned Gowan desmontou lepidamente.

JefF inspecionou o sujeito esbelto e bem-arrumado à sua frente com certo espanto.

- E o senhor, quem é? - Sem dúvida, seu tom de relutante cortesia era conseqüência das fivelas de prata dos sapatos e do casaco de veludo do visitante: ser empregado do senhor do clã MacKenzie tinha suas compensações.

- Meu nome é Edward Gowan, Excelência — disse com clareza. -Advogado.

Mutt arqueou os ombros e encolheu-se um pouco; o banco que lhe fora dado não tinha encosto e suas cosras estavam sem dúvida ressentindo-se do esforço. Fitei-o duramente, desejando-lhe uma hérnia de disco. Se estava prestes a ser queimada por mau-olhado, pensei, que servisse para alguma coisa.

- Advogado? - rosnou. - E o que o traz aqui?

A peruca cinza de Ned Gowan inclinou-se na mais perfeita reverência formal.

- Vim oferecer meus humildes serviços em defesa da sra. Fraser, Excelências - disse. — Uma dama muito respeitosa, que eu conheço pessoalmente como sendo tão bondosa e benéfica na administração das artes da cura como detentora de grande conhecimento em suas aplicações.

Muito bem, pensei com aprovação. Desta vez, uma aparição inesperada a nosso favor. Olhando para o outro lado da praça, pude ver a boca de Geilie torcer-se para cima em um meio-sorriso ao mesmo tempo desdenhoso e admirador. Embora Ned Gowan não fosse a escolha de Príncipe Encantado de todo mundo, eu não estava inclinada a ser exigente num momento como esse. Qualquer defensor seria bem-vindo.

Com uma reverência para os juizes e outra, não menos formal, para mim, o sr. Gowan empertigou-se ainda mais em sua postura normalmente ereta, prendeu os dois polegares na cintura de suas calças e preparou-se com todo o romantismo de seu coração envelhecido e galante para travar uma batalha, lutando com a arma preferida da lei - o tédio atroz.

Tedioso sem dúvida ele foi. Com a precisão mortal de uma trituradora automática, arrumou cada acusação do inquérito na lousa do seu escrutínio e picotou-a impiedosamente com a lâmina do estatuto e o cutelo do precedente.

Foi uma performance notável. Ele falou. E ele falou. E ele falou mais, parecendo parar respeitosamente de vez em quando para seguir as instruções dos juizes, mas na realidade apenas recuperando o fôlego para novo massacre de verbosidade.

Com a minha vida por um fio e meu futuro inteiramente na dependência da eloqüência daquele homenzinho franzino, eu devia ter me prendido atentamente a cada uma de suas palavras. No entanto, ao invés disso, vi-me bocejando de maneira espantosa, incapaz de cobrir minha boca aberta e alternando os meus pés doloridos para apoiar-me, desejando fervorosamente que me queimassem logo e terminassem aquela tortura.

A multidão parecia sentir-se da mesma forma e, depois que a alta comoção da manhã reduziu-se ao tédio, a voz fina e pausada do sr. Gowan continuou indefinidamente. As pessoas começaram a se dispersar, lembrando-se repentinamente de animais que precisavam ser ordenhados e assoalhos que precisavam ser varridos, certos de que nada de interesse poderia surgir enquanto aquela voz fatal continuasse em seu tom monótono.

Quando Ned Gowan finalmente terminou sua defesa inicial, a noite já caíra; e o juiz atarracado que eu apelidara de Jeff anunciou que o tribunal voltaria a se reunir pela manhã.

Após uma curta e sussurrada conferência entre Ned Gowan, Jeff e John MacRae o carrasco, fui conduzida à hospedaria entre dois cidadãos mus-culosos. Lançando um olhar por cima do ombro, vi Geilie sendo levada na direção oposta, as costas eretas, recusando-se a ser empurrada ou, na verdade, a atentar para o ambiente à sua volta.

No quarto escuro nos fundos da hospedaria, minhas amarras foram finalmente retiradas e uma vela foi trazida. Em seguida, Ned Gowan chegou, com uma garrafa de cerveja e um prato de carne e pão.

— Só disponho de alguns minutos com você, minha querida, assim mesmo conseguidos a muito custo, portanto ouça-me com atenção. - O homenzinho inclinou-se para mais perto, numa atitude conspiratória à luz bruxuleante da vela. Seus olhos brilhavam e, fora um ligeiro desarranjo em sua peruca, não dava nenhum sinal de esforço ou fadiga.

- Sr. Gowan, estou tão feliz de vê-lo - eu disse, sinceramente.

- Sim, sim, minha querida, mas não há tempo para isso agora. - Deu uns tapinhas na minha mão, de uma maneira afetuosa, mas perfunctória.

— Consegui fazer com que considerem seu caso separado da sra. Duncan e isso pode ser de grande ajuda. Parece que não havia nenhuma intenção original de prendê-la, mas que você foi levada por causa de sua associação com a sra. Duncan.

— Ainda assim - continuou apressadamente -, você corre perigo e eu não vou esconder isso de você. O clima das opiniões na vila não é nada favorável a você no momento. O que deu em você — perguntou, com num tom acalorado que não lhe era típico - para tocar naquela criança?

Abri a boca para responder, mas ele fez um aceno descartando a pergunta com impaciência.

- Ah, bem, isso não interessa agora. O que temos que fazer é jogar com o fato de você ser inglesa, e daí sua ignorância, sabe, não sua esquisitice, e prolongar a questão até onde pudermos. O tempo está a nosso favor, porque a maioria desses julgamentos ocorre em um clima de histeria, quando a veracidade das provas pode ser negligenciada para satisfazer a sede de sangue.

Sede de sangue. A expressão simbolizava perfeitamente o sentimento da emoção que eu vira emanar dos rostos do populacho. Aqui e ali, vi alguns traços de dúvida ou solidariedade, mas somente uma alma extraordinária se levantaria contra uma multidão, e Cranesmuir estava carente de pessoas dessa envergadura. Ou não, corrigi a mim mesma. Houve um -este ressequido e franzino advogado de Edimburgo, embora fosse tão feio.

- Quanto mais nos alongarmos - continuou o sr. Gowan de modo pragmático —, menos inclinados ficarão a tomar uma decisão apressada. Assim - disse, as mãos nos joelhos —, sua parte amanhã será apenas de manter-se em silêncio. Eu falarei em sua defesa e Deus queira que surta algum efeito.

- Parece um bom plano — eu disse, com um cansado esboço de sorriso. Olhei para a porta que dava para a frente da hospedaria, onde vozes se erguiam. Captando o meu olhar, o sr. Gowan balançou a cabeça.

- Sim, vou ter que deixá-la agora. Consegui que você passe a noite aqui. - Olhou à sua volta, em dúvida. Um pequeno barracão anexo à hospedaria e usado para guardar quinquilharias e suprimentos extras. Era frio e escuro, mas infinitamente melhor do que o buraco dos ladrões.

A porta do barracão abriu-se, desenhando em silhueta a figura da proprietária da hospedaria, espreitando na escuridão, por trás da chama pálida e bruxuleante de uma vela. O sr. Gowan levantou-se para sair, mas segurei-o pela manga. Havia algo que eu precisava saber.

- Sr. Gowan... foi Colum quem o mandou aqui para me ajudar? - Ele hesitou em sua resposta, mas dentro dos limites de sua profissão, era um homem de honestidade impecável.

- Não - respondeu sem rodeios. Um olhar quase de constrangimento passou por suas feições ressequidas e ele acrescentou: - Eu vim... por conta própria. - Colocou o chapéu na cabeça e virou-se para a porta, desejando-me um breve "boa-noite" antes de desaparecer na luz e na agitação da hospedaria.

Houve pouca preparação para me acomodar, mas uma pequena jarra de vinho e um pão - limpo desta vez - foram colocados sobre um dos barris. Havia ainda um velho cobertor dobrado no chão ao seu lado.

Enrolei-me no cobertor e sentei-me em um dos barris menores para jantar, meditando enquanto mastigava a refeição frugal.

Então, Colum não enviara o advogado. Ele saberia, ao menos, que o sr. Gowan pretendia vir? O mais provável é que Colum tenha proibido qualquer um de ir à vila, por medo de serem pegos na caça às bruxas. As ondas de medo e histeria que varriam a vila eram palpáveis; podia senti-las batendo contra as paredes do meu precário abrigo.

Uma explosão barulhenta da taverna ao lado distraiu meus pensamentos. Talvez fosse apenas a vigília na noite que antecede a execução do condenado, como um velório. Mas à beira da destruição, até mesmo uma hora a mais era motivo de agradecimento. Enrolei-me no cobertor, puxei-o sobre minha cabeça para abafar o barulho da hospedaria e tentei com todas as forças não sentir nada além de gratidão.

Após uma noite extremamente inquieta, fui acordada logo após o alvorecer e levada de volta à praça, embora os juizes só tenham chegado uma hora mais tarde.

Arrumados, gordos e saciados com o desjejum, debruçaram-se imediatamente sobre os trabalhos. Jeff virou-se para John MacRae, que voltara ao seu posto atrás das acusadas.

— Sentimo-nos incapazes de determinar a culpa com base unicamente nas evidências apresentadas. — Houve uma explosão de indignação da multidão novamente reunida, que fizera seu próprio julgamento. No entanto, o tumulto foi apaziguado por Mutt, que voltou um par de olhos penetrantes como brocas sobre os jovens trabalhadores na primeira fila, calando-os como cachorros que recebem um banho de água fria. Restaurada a ordem, voltou seu rosto anguloso novamente para o carrasco.

— Conduza as prisioneiras para a beira do lago, por favor. - Ouviu-se um murmúrio de satisfação e expectativa que levantou minhas piores suspeitas. John MacRae tomou-me por um braço e Geilie pelo outro, para nos conduzir, mas teve muita ajuda. Mãos cruéis rasgavam meu vestido, beliscavam e empurravam conforme eu era levada aos trambolhões. Algum idiota tinha um tambor e fazia alarde com uma esfarrapada marcha militar. A multidão cantava, destoada e sem ritmo, procurando seguir o toque do tambor. Não conseguia distinguir o que diziam entre os gritos e berros aleatórios. Acho que eu não queria saber o que estavam dizendo.

A procissão prosseguiu pela campina até a beira do lago, onde um pequeno cais de madeira projetava-se pela água. Fomos empurradas para a ponta do desembarcadouro, onde os dois juizes haviam tomado posição, cada um de um lado do cais. Jeff voltou-se para a multidão que aguardava na margem do lago.

— Tragam as cordas! — Houve um murmúrio geral e um olhar de expectativa entre eles, até alguém correr apressadamente com um pedaço de corda fina. MacRae pegou-a e aproximou-se de mim com certa hesitação. Mas lançou um olhar rápido aos inquisidores, o que reforçou sua determinação.

— Por favor, tenha a gentileza de tirar seus sapatos, madame - ordenou.

— O que diabo... para quê? — perguntei, cruzando os braços.

Ele piscou, obviamente despreparado para qualquer resistência, mas um dos juizes antecipou sua resposta.

- É o procedimento regular em julgamentos pela água. A suspeita de bruxaria deve ter o polegar direito amarrado com uma corda de cânhamo ao dedo grande do pé esquerdo. Da mesma forma, o polegar esquerdo deve ser amarrado ao dedo grande do pé direito. Depois... - Lançou um olhar eloqüente às águas do lago. Dois pescadores estavam parados, descalços, na lama da beira do lago, as calças enroladas até acima dos joelhos e amarradas com corda. Rindo de maneira insinuante para mim, um deles pegou uma pequena pedra e atirou-a na superfície metálica. Ela resvalou uma vez e afundou. -

- Ao entrar na água — o juiz baixo acrescentou —, uma bruxa culpada flutuará, quando a pureza da água rejeitar sua pessoa maculada. Uma mulher inocente afundará.

- Então, posso escolher ser condenada como uma bruxa ou ser inocentada, mas afogada, não é? - retorqui. - Não, obrigada! - Abracei meus cotovelos com mais força ainda, tentando acalmar o tremor que parecia ter se tornado parte integrante da minha carne.

O juiz baixo estufou-se como um sapo ameaçado.

- Não fale diante desta corte sem permissão, mulher! Ousa recusar um exame legal?

- Se eu me recuso a ser afogada? Pode ter certeza que sim! - Tarde demais, vi Geilie sacudindo a cabeça freneticamente, de modo que seus cabelos louros balançavam-se em torno de seu rosto.

O juiz voltou-se para MacRae.

- Dispa-a e aplique-lhe uma surra - disse laconicamente.

Através de uma névoa de descrença, ouvi uma inalação coletiva, provavelmente de choque e horror - na verdade, de prazer antecipado. E compreendi o que o ódio realmente significava. Não o deles, mas o meu.

Não se deram ao trabalho de me levar de volta à praça da vila. No que me dizia respeito agora, eu tinha pouco a perder e não facilitei o trabalho deles.

Mãos brutais empurraram-me em frente, dando puxões na minha blusa e no corpete.

- Soltem-me, malditos ignorantes! — gritei e dei um chute em um dos homens que me empurravam bem no lugar em que surtiria mais efeito. Ele dobrou-se com um gemido, mas sua figura encolhida sumiu rapidamente numa erupção efervescente de gritos, cusparadas, olhares fulminantes. Outras mãos agarravam meus braços e me faziam avançar aos tropeções, levantando-me por cima de corpos caídos na confusão, fazendo meu corpo passar por brechas impossíveis de atravessar.

Alguém me golpeou no estômago e eu perdi a respiração. Meu corpete estava literalmente em frangalhos a essa altura, de modo que foi sem grande dificuldade que o remanescente foi arrancado. Nunca sofri de extremo recato, mas ficar de pé semi-nua diante da zombaria daquela turba rancorosa, com a marca de mãos suadas em meus seios nus, encheu-me de um ódio e humilhação que eu nem conseguia imaginar.

John MacRae amarrou minhas mãos à frente, passando uma corda trançada pelos meus pulsos, deixando um pedaço de mais de um metro. Teve a bondade de parecer envergonhado ao fazê-lo, mas recusava-se a erguer seus olhos para os meus e era claro que eu não podia esperar nem ajuda nem complacência de sua parte; ele estava tão à mercê da multidão quanto eu.

Geilie estava lá, sem dúvida recebendo o mesmo tratamento; vi de relance seus cabelos platinados, voando em uma brisa repentina. Meus braços foram esticados bem acima de minha cabeça quando a corda foi atirada por cima do galho de um enorme carvalho e firmemente esticada. Rangi os dentes e apeguei-me à minha fúria. Era a única coisa que eu possuía para combater o medo. Havia um ar de tensa expectativa, pontuada pelos murmúrios e gritos excitados da multidão de espectadores.

- Vamos, John! - gritou um deles. - Ande logo com isso!

John MacRae, sensível às responsabilidades teatrais de sua profissão, parou, o chicote mantido à altura da cintura, e inspecionou a multidão. Deu um passo à frente e delicadamente ajeitou minha posição, de modo que eu ficasse de frente para o tronco da árvore, quase tocando a casca áspera. Em seguida, recuou dois passos, ergueu o açoite e deixou-o cair.

O choque da pancada foi pior do que a dor. Na realidade, foi somente após vários golpes que percebi que o carrasco estava fazendo o que podia para me poupar o máximo possível. Ainda assim, um ou dois golpes foram suficientemente fortes para rasgar a pele; senti a ardência aguda no rastro do impacto.

Eu mantinha os olhos fechados com força, a face pressionada contra o tronco, tentando com todas as forças me distanciar da situação. Mas, de repente, ouvi algo que me trouxe imediatamente de volta para o aqui e agora.

- Claire!

Houve um pequeno afrouxamento da corda que prendia meus pulsos; o suficiente para me permitir dar uma investida que me fez dar uma meia-volta, deixando-me de frente para a multidão. Minha repentina escapada desconcertou o carrasco, que vergastou seu chicote no ar vazio, perdeu o equilíbrio e tropeçou para a frente, batendo a cabeça contra a árvore. Isso teve um ótimo efeito sobre a multidão, que urrou insultos e começou a zombar dele.

Meus cabelos cobriam meus olhos, grudavam-se no meu rosto com o suor, lágrimas e a sujeira do confinamento na prisão. Sacudi a cabeça para soltá-los e consegui ao menos um olhar de esguelha que confirmou o que os meus ouvidos haviam escutado.

Jamie abria caminho pela multidão que bloqueava sua passagem, o rosto irado, aproveitando-se sem piedade do seu tamanho e de seus músculos.

Senti-me exatamente como o general MacAuliffe em Bastogne, ao ver o III Exército de Patton despontar no horizonte. Apesar do terrível perigo para Geilie, para mim e agora para o próprio Jamie, nunca fiquei tão feliz de ver alguém.

"O marido da bruxa!", "O maldito Fraser! O defensor da Coroa!" e epítetos similares começaram a ser ouvidos entre os insultos mais gerais destinados a mim e a Geilie. "Peguem ele também!", "Queimem todos eles!" A histeria da multidão, temporariamente dispersada pelo acidente do carrasco, elevava-se mais uma vez a um grau de febre coletiva.

Impedido de avançar pelas figuras grudadas umas às outras dos assistentes do carrasco, que tentavam detê-lo, Jamie ficara encurralado. Com um homem pendurado em cada braço, esforçava-se para levar a mão ao cinto. Achando que ele tentava pegar uma faca, um dos homens deu-lhe um forte soco na barriga.

Jamie dobrou-se ligeiramente, em seguida ergueu-se, batendo um cotovelo com toda a força no nariz do homem que o atacara. Com um dos braços temporariamente livre, ignorou as frenéticas e desajeitadas tentativas de agarrá-lo do homem que estava do outro lado. Enfiou a mão na bolsa na cintura, ergueu o braço e atirou. Seu grito atingiu-me quando o objeto saiu de sua mão.

- Claire! Fique parada!

Eu não tinha muito para onde ir, pensei desnorteada. Uma mancha escura veio direto na direção do meu rosto e comecei a encolher-me para trás, mas parei a tempo. A mancha chocou-se com estardalhaço contra meu rosto e as contas negras caíram sobre meus ombros quando o rosário de azeviche, lançado como uma boleadeira, acomodou-se perfeitamente em volta do meu pescoço. Ou talvez não tão perfeitamente; o fio de contas prendeu-se na minha orelha direita. Sacudi a cabeça, os olhos lacrimejando com a dor aguda causada pelo impacto do rosário no meu rosto, e a argola acomodou-se no lugar, o crucifixo balançando vistosamente entre meus seios nus.

Os rostos na primeira fila olhavam-no fixamente, numa espécie de bestificação horrorizada. Seu repentino silêncio afetou os que estavam mais Para trás e o ruído estrondoso da fervilhante turbulência arrefeceu. A voz de Jamie, normalmente baixa e suave, mesmo quando estava com raiva, retiniu no silêncio. Não havia nada de suave naquela voz agora.

- Cortem suas amarras!

Os que o perseguiam bateram em retirada e as ondas de populacho abriam-se diante dele à medida que avançava ameaçadoramente. O carrasco via-o se aproximar, paralisado e de boca aberta.

- Eu disse para tirá-la daí! Agora! - O carrasco, libertado do seu transe pela visão apocalíptica da morte ruiva abatendo-se sobre ele, remexeu-se e tateou apressadamente em busca de sua adaga. A corda, cortada com dificuldade, finalmente cedeu com um estalido trêmulo e meus braços caíram pesadamente, doendo com a tensão liberada. Cambaleei e teria caído, se a mão forte e familiar de Jamie não tivesse agarrado meu cotovelo e me erguido. Apoiei meu rosto no peito de Jamie e nada mais importava para mim.

Devo ter perdido a consciência por alguns instantes, ou devo ter me sentido tão dominada pelo alívio que assim me pareceu. O braço de Jamie segurava-me com força pela cintura, mantendo-me em pé, e seu xale fora jogado sobre os meus ombros, protegendo-me finalmente dos olhos dos aldeões. Havia um tumulto de vozes por toda parte, mas já não era a ânsia de sangue, ensandecida e jubilosa, da multidão.

A voz de Mutt — ou seria a de Jeff— despontou na confusão.

- Quem é você? Como ousa interferir nas investigações do tribunal?

Pude sentir, mais do que ver, a multidão acotovelando-se para a frente. Jamie era grande, e estava armado, mas era apenas um homem. Encolhi-me contra seu peito sob as dobras do xale. Seu braço direito apertou-me com mais força, mas a mão esquerda aproximou-se do porta-espada em seu quadril. A lâmina azul-prateada sibilou ameaçadoramente quando saiu parcialmente de sua bainha e os que estavam à frente da multidão pararam de repente.

Os juizes eram mais difíceis de intimidar. Espreitando do meu esconderijo, podia ver Jeff fitando Jamie furiosamente. Mutt parecia mais confuso do que contrariado com a repentina intrusão.

- Ousa puxar uma arma contra a justiça de Deus? — admoestou o juiz pequeno e troncudo.

Jamie retirou a espada por inteiro, com um lampejo de aço, em seguida atirou-a de ponta no chão, deixando o punho da espada tremendo com a força do golpe.

- Tiro a arma em defesa desta mulher e da verdade - disse. - Se alguém aqui for contra essas duas, responderão a mim e depois a Deus, nessa ordem.

O juiz piscou uma ou duas vezes, como se fosse incapaz de acreditar naquele comportamento, depois retomou o ataque.

- Você não tem lugar nos trabalhos deste tribunal, senhor! Exijo que entregue a prisioneira imediatamente. O seu próprio comportamento será tratado em breve!

Jamie examinou friamente os juizes. Podia sentir seu coração batendo com toda força sob meu rosto conforme me agarrava a ele, mas suas mãos estavam firmes como rochas, uma descansando no cabo da espada e a outra na adaga em seu cinto.

- Quanto a isso, senhor, fiz um juramento diante do altar de Deus de proteger esta mulher. Se o senhor está me dizendo que considera sua própria autoridade maior do que a de Deus Todo-poderoso, então devo informar-lhe que não compartilho dessa opinião.

O silêncio que se seguiu foi quebrado por risinhos contidos e nervosos, ecoando aqui e ali. Embora as simpatias do povo não tivessem mudado para o nosso lado, ainda assim a atmosfera que nos levava à desgraça fora quebrada.

Jamie me virou com a mão no meu ombro. Eu não podia suportar encarar a multidão, mas sabia que precisava. Mantive o queixo o mais alto possível e meus olhos focalizaram-se além daqueles rostos, em um pequeno barco no centro do lago. Fixei meus olhos nele até lacrimejarem.

Jamie virou o xale, segurando-o ao meu redor, mas deixando-o cair o suficiente para mostrar meu pescoço e meus ombros. Tocou o rosário negro e deixou-o balançando levemente de um lado para o outro.

- O azeviche queima a pele das bruxas, não é? - perguntou aos juizes. - Mais ainda, eu imaginaria, o crucifixo de Nosso Senhor. Mas, olhem. -Enfiou um dedo sob as contas e levantou o crucifixo. Minha pele por baixo era absolutamente branca, sem nenhuma marca, a não ser pelas manchas de sujeira do cativeiro. Ouviu-se uma arfada e um murmúrio da multidão.

Uma coragem brutal, uma presença de espírito glacial e aquele instinto para o espetáculo. Colum MacKenzie tinha razão em ficar apreensivo com as ambições de Jamie. E considerando seu medo de que eu pudesse revelar a paternidade de Hamish, ou o que ele achava que eu sabia a respeito, o que fizera comigo também era compreensível. Compreensível, não perdoável.

O humor da multidão ia de um lado ao outro, indeciso. A sede de sangue que os impulsionara antes se dissipava, mas ainda podia levantar-se como uma onda e nos esmagar. Mutt e Jeff entreolharam-se, sem saber o que fazer; desconcertados com os últimos desdobramentos, os juizes haviam perdido controle da situação momentaneamente.

Geillis Duncan deu um passo à frente na clareira que se formara. Não sei se havia esperança para ela naquele ponto ou não. De qualquer modo, ela atirou os cabelos louros desafiadoramente para trás de um dos ombros e jogou fora sua vida.

- Esta mulher não é nenhuma bruxa — disse simplesmente. — Mas eu sou.

O espetáculo encenado por Jamie, por melhor que tivesse sido, não se comparava a este. A comoção resultante abafou completamente as vozes dos juizes, que questionavam e exclamavam.

Não havia nenhuma pista quanto ao que ela pensava ou sentia, como nunca houve antes; sua fronte branca e alta estava límpida, os grandes olhos verdes brilhavam parecendo se divertir. Permaneceu ereta em seus trajes rasgados e imundos, fitando seus acusadores. Quando o tumulto amainou um pouco, ela começou a falar, sem se dignar a elevar a voz, mas obrigando-os a silenciarem para ouvi-la.

- Eu, Geillis Duncan, confesso que sou uma bruxa e amante de Satanás. — A declaração causou um novo clamor e ela esperou com absoluta paciência que se calassem.

- Em obediência ao meu Mestre, confesso que matei meu marido, Arthur Duncan, por meio de bruxaria. - Com isso, olhou para o lado, encontrando meus olhos, e um leve sorriso tocou seus lábios. Seus olhos se detiveram sobre a mulher de xale amarelo, mas não se enterneceram. - Por maldade, coloquei um feitiço na criança trocada, para que morresse, e que a criança humana que ela substituía permanecesse com as fadas. — Virou-se e fez um gesto em minha direção.

- Aproveitei-me da ignorância de Claire Fraser, usando-a para meus propósitos. Mas ela não tomou parte nem teve conhecimento dos meus atos, nem ela serve ao meu Mestre.

A multidão sussurrava outra vez, as pessoas acotovelando-se para ver melhor, empurrando-se para se aproximar. Ela estendeu os dois braços para eles, as palmas das mãos voltadas para fora.

- Para trás! - A voz límpida estalou como um chicote, com o mesmo efeito. Inclinou a cabeça para os céus e ficou imóvel, como se ouvisse.

- Ouçam! — disse. — Ouçam o vento de sua chegada! Cuidado, povo de Cranesmuir! Porque meu Mestre vem nas asas do vento! - Abaixou a cabeça e gritou, um som agudo e assustador de triunfo. Os grandes olhos verdes estavam fixos e arregalados, como se estivesse em transe.

O vento estava aumentando. Pude ver as nuvens de tempestade atravessando o outro extremo do lago. As pessoas começaram a olhar à volta com nervosismo. Algumas se afastaram da multidão.

Geilie começou a girar, rodopiando sem parar, os cabelos agitando-se ao vento, a mão graciosamente acima da cabeça como uma dançarina. Eu a observava numa incredulidade perplexa.

Enquanto girava, os cabelos ocultaram seu rosto. Na última volta, entretanto, sacudiu a cabeça para jogar a cabeleira loura para o lado e vi seu rosto com absoluta clareza, olhando para mim. A máscara de transe havia desaparecido momentaneamente e sua boca formou uma única palavra. Depois girou novamente e ficou de frente para a multidão recomeçando sua aterradora gritaria.

A palavra fôra "Fujam!"

Parou de rodopiar repentinamente e com um olhar de êxtase alucinado, agarrou os remanescentes de seu corpete com as duas mãos e rasgou-o na frente. Rasgou-o o suficiente para mostrar à multidão o segredo que eu descobrira, aconchegada a ela na imundície do buraco dos ladrões. O segredo que Arthur Duncan descobrira pouco antes de sua morte. O segredo pelo qual ele havia morrido. Os farrapos de sua camisola de baixo afastaram-se, revelando o volume de sua gravidez de seis meses.

Continuei imóvel como uma pedra, olhando-a sem desviar os olhos. Jamie não teve a mesma hesitação. Agarrando-me com uma das mãos e com a espada na outra, atirou-se na multidão, derrubando as pessoas em sua passagem com cotovelos, joelhos e o cabo da espada, abrindo caminho em direção à beira do lago. Soltou um assovio agudo pelo meio dos dentes.

Atentos ao espetáculo sob o carvalho, poucas pessoas perceberam inicialmente o que estava acontecendo. Em seguida, quando alguns indivíduos começaram a gritar e a tentar nos agarrar, ouviu-se o barulho de cascos a galope na terra batida acima da margem.

Donas continuava a não gostar muito de gente e estava mais do que disposto a demonstrá-lo. Mordeu a primeira mão que tentou segurar suas rédeas e um homem caiu para trás, gritando e sangrando. O cavalo empinava-se, relinchando e agitando as patas no ar, e os poucos ousados que ainda tentavam segurá-lo logo perderam o interesse.

Jamie jogou-me em cima da sela como uma saca de cereais e ele próprio montou com um único movimento ágil. Varrendo o caminho com violentos golpes de espada, conduziu Donas pela confusa massa formada pela multidão. Conforme as pessoas caíam sob o massacre de dentes, cascos e lâmina, ganhamos velocidade, deixando o lago, a vila e Leoch para trás. Sem conseguir respirar com o impacto, esforçava-me para falar, para gritar para Jamie.

Porque eu não havia ficado paralisada com a revelação da gravidez de Geilie. Foi outra coisa que eu vi que me enregelou até a medula dos ossos. Enquanto Geilie girava, os braços estendidos para cima, vi o que ela vira quando minhas próprias roupas foram arrancadas. Uma marca em um dos braços igual à que eu carregava. Ali, naquela época, a marca da feitiçaria, a marca de um mago. A cicatriz pequena e feia de uma vacina contra varíola.

A chuva açoitava a água, acalmando meu rosto inchado e os arranhões da corda nos meus pulsos. Enfiei as mãos em concha no córrego e bebi a água devagar, sentindo o líquido frio gotejar pela minha garganta com um sentimento de gratidão.

Jamie desapareceu por alguns minutos. Voltou com um punhado de folhas verde-escuras, achatadas nas pontas, mastigando alguma coisa. Cuspiu um bolo de folhas verdes maceradas na palma da mão, enfiou outro punhado de folhas na boca e virou-me de costas para ele. Esfregou as folhas mastigadas delicadamente em minhas costas e as aguilhoadas diminuíram consideravelmente.

- O que é isso? — perguntei, fazendo um esforço para me controlar. Ainda estava trêmula e chorosa, mas as lágrimas involuntárias começavam a recuar.

- Agrião - respondeu, a voz ligeiramente abafada pelas folhas na boca. Cuspiu-as e aplicou-as nas minhas costas. — Você não é a única que sabe um pouco de cura com ervas, Sassenach — ele disse, com mais clareza.

- Que... que gosto tem? — perguntei, engolindo os soluços.

- Bem ruim — respondeu laconicamente. Terminou sua aplicação e colocou o xale suavemente de volta nos meus ombros.

- Não vai... — começou, depois hesitou. - Quero dizer, os cortes não são profundos. Eu... eu acho que você não ficará... marcada. - Falava com a voz rouca, mas o toque de suas mãos era muito suave, reduzindo-me às lágrimas outra vez.

- Desculpe-me - balbuciei, enxugando o nariz numa ponta do xale. -Eu... eu não sei o que há de errado comigo. Não sei por que não consigo parar de chorar.

Ele encolheu os ombros.

- Suponho que ninguém tentou feri-la de propósito antes, Sassenach -ele disse. - Provavelmente é o choque disto, tanto quanto a dor. — Parou, pegando uma ponta do xale.

- Aconteceu o mesmo comigo, moça - disse com franqueza. -Vomitava e gritava enquanto limpavam os cortes. Depois, comecei a tremer. - Limpou meu rosto cuidadosamente com o xale, depois colocou a mão sob meu queixo e ergueu meu rosto para o dele.

- E quando parei de tremer, Sassenach - disse serenamente -, agradeci a Deus pela dor, porque significava que eu estava vivo. - Soltou-me, balançando a cabeça para mim. - Quando chegar a esse ponto, menina, diga-me; porque eu tenho uma ou duas coisas a lhe dizer.

Levantou-se e desceu para a beira do córrego, para lavar o lenço manchado de sangue na água fria.

- O que o trouxe de volta? - perguntei, quando ele retornou. Conseguira parar de chorar, mas ainda tremia e encolhi-me ainda mais nas dobras do xale.

- Alec MacMahon - ele disse, sorrindo. - Eu disse a ele para ficar de olho em você enquanto eu estivesse fora. Quando o pessoal da vila prendeu você e a sra. Duncan, ele cavalgou a noite inteira e todo o dia seguinte para me encontrar. E então eu cavalguei como o próprio diabo de volta. Meu Deus, este é um ótimo cavalo. - Olhou com aprovação para Donas em cima do barranco, amarrado a uma árvore na beira elevada da margem, seu pêlo molhado brilhando como cobre.

- Tenho que levá-lo para outro lugar - disse, pensativamente. -Duvido que alguém venha atrás de nós, mas não estamos muito longe de Cranesmuir. Já consegue andar?

Segui-o pelo barranco íngreme com alguma dificuldade, pequenos cascalhos rolando sob meus pés e samambaias e arbustos espinhosos agarrando-se às minhas saias. Perto do topo da encosta havia um bosque de amieiros novos, crescidos tão juntos que os galhos mais baixos entrelaçavam-se, formando um teto verde acima das samambaias no solo. Jamie afastou os galhos para cima o suficiente para que eu pudesse me arrastar para dentro do pequeno espaço, depois rearranjou cuidadosamente as samambaias quebradas na entrada. Deu um passo para trás e examinou o esconderijo com ar crítico, balançando a cabeça com satisfação.

- Sim, assim está bem. Ninguém a encontrará aí. — Virou-se para ir, depois voltou. — Tente dormir, se puder, e não se preocupe se eu não voltar logo. Vou caçar um pouco na volta; não temos nenhuma comida e não quero atrair atenção parando em uma fazenda. Puxe o xale por cima da cabeça e certifique-se de que ele cubra sua camisola; o branco chama atenção a uma grande distância.

Comida parecia irrelevante; sentia como se nunca mais fosse querer comer outra vez. Dormir era diferente. Minhas costas e braços ainda doíam, as esfoladuras da corda nos meus pulsos estavam em carne viva e sentia-me dolorida e machucada por todo o corpo; mas esgotada de medo, dor e simples exaustão, adormeci quase imediatamente, o cheiro penetrante das samambaias erguendo-se ao meu redor como incenso.

Acordei com alguma coisa agarrando meu pé. Assustada, sentei-me num salto, batendo com a cabeça nos galhos flexíveis acima. Folhas e pequenos galhos derramaram-se sobre mim e agitei os braços freneticamente, tentando desembaraçar meus cabelos dos galhinhos pontudos. Arranhada, descabelada e irritada, arrastei-me para fora do meu santuário para deparar-me com Jamie, agachado ali perto, divertindo-se com o meu surgimento. Estava quase anoitecendo, o sol já descera abaixo da faixa do córrego, deixando o pedregoso desfiladeiro às escuras. O cheiro de carne na brasa erguia-se de uma pequena fogueira ardendo entre as pedras perto do córrego, onde dois coelhos eram assados em um espeto improvisado, feito de varas verdes afiadas.

Jamie estendeu a mão para me ajudar a descer o barranco. Arrogantemente, declinei a oferta e deslizei sozinha para baixo, tropeçando apenas uma vez nas pontas esvoaçantes do xale. Minha náusea anterior desaparecera e devorei a carne avidamente.

- Vamos subir mais para dentro da floresta depois do jantar, Sassenach -- Jamie disse, arrancando uma perna da carcaça do coelho. - Não quero dormir perto do córrego; não posso ouvir ninguém se aproximando acima do barulho da água.

Não houve muita conversa enquanto comíamos. O horror da manhã e a idéia do que havíamos deixado para trás nos oprimiam. E para mim havia um profundo sentimento de luto. Eu havia perdido não só a chance de descobrir o porquê da minha presença ali, mas uma amiga também. Minha única amiga. Eu sempre tivera dúvidas sobre as intenções de Geilie, mas não tinha a menor dúvida de que ela salvara a minha vida hoje de manhã. Sabendo que estava fadada à condenação, fizera o melhor possível para me dar uma oportunidade de fugir. O fogo, quase invisível à luz do dia, ficava mais brilhante agora, conforme a escuridão tomava conta do córrego. Fitei as chamas, vendo a pele tostada e os ossos marrons dos coelhos em seus espetos. Uma gota de sangue de um osso quebrado caiu nas chamas, chiando e desaparecendo. De repente, a carne parou na minha garganta. Coloquei-a apressadamente junto ao fogo e me virei, com ânsias de vômito.

Ainda sem falar muito, afastamo-nos do riacho e encontramos um lugar confortável à margem de uma clareira na floresta. Colinas erguiam-se em montes ondulantes à nossa volta, mas Jamie escolhera um lugar elevado, com uma boa visão da estrada que vinha da vila. A penumbra realçou momentaneamente todas as cores do campo, iluminando a terra com jóias; uma brilhante esmeralda no vale, uma ametista adoravelmente matizada entre as moitas de urzes e rubis escarlates nos frutos vermelhos das sorveiras que coroavam as colinas. Frutos da sorveira, um remédio específico contra feitiçaria. Ao longe, os contornos do Castelo Leoch ainda eram visíveis ao sopé de Ben Aden. Desfizeram-se rapidamente enquanto a luz se extinguia.

Jamie fez uma fogueira em um local protegido e sentou-se ao lado. A chuva reduzira-se a uma garoa fina que deixava uma neblina no ar e decorava minhas pestanas com arco-íris quando olhava para as chamas.

Ficou sentado fitando o fogo por um longo tempo. Finalmente, ergueu os olhos para mim, as mãos unidas em volta dos joelhos.

- Eu disse antes que não lhe perguntaria nada que não quisesse me contar. E não lhe perguntaria agora, mas tenho que saber, para a sua segurança, assim como para a minha. — Parou, hesitante.

- Claire, se nunca foi honesta comigo, seja agora, porque tenho que saber a verdade. Claire, você é uma bruxa?

Fiquei boquiaberta.

- Uma bruxa? Você... você não pode realmente estar fazendo esta pergunta. - Achei que devia estar brincando. Não estava.

Segurou-me pelos ombros e agarrou-me com força, olhando dentro dos meus olhos como se quisesse me obrigar a responder.

- Eu tenho que perguntar, Claire! E você precisa me dizer!

- E se eu fosse? - perguntei entre os lábios secos. - Se achasse que eu fosse uma bruxa, ainda assim teria lutado por mim?

- Teria ido para a fogueira com você! — disse, com violência. - E até para o inferno, se necessário. Mas que Jesus Cristo tenha piedade da minha alma e da sua, diga-me a verdade!

A tensão de tudo aquilo me atingiu. Livrei-me de suas mãos e corri pela clareira. Não muito longe, somente até o limite das árvores; não podia expor-me em local aberto. Agarrei-me a uma árvore; envolvi-a com meus braços e finquei as unhas com força em seu tronco, pressionei o rosto contra ela e desatei numa tagarelice fina e histérica.

O rosto de Jamie, pálido e chocado, surgiu do outro lado da árvore. Com a vaga percepção de que o que eu estava fazendo devia soar como uma risada assustadora, fiz um incrível esforço e parei. Arquejando, fitei-o por um instante.

- Sim - eu disse, recuando, ainda arfando com acessos de riso incontido. - Sim, sou uma bruxa! Para você, devo ser. Nunca tive varíola, mas posso caminhar por um salão cheio de moribundos e não pegar a doença. Posso cuidar dos doentes e respirar o mesmo ar que eles e tocar em seus corpos e, ainda assim, a doença não pode me atingir. Também não pego cólera, ou tétano ou uma inflamação mórbida da garganta. E você deve achar que é um encantamento, porque nunca ouviu falar de vacinas e não existe nenhuma outra forma de você explicar isso.

- O que eu sei... - Parei de recuar e permaneci imóvel, respirando pesadamente, tentando me controlar. - Sei a respeito de John Randall porque me falaram dele. Sei quando ele nasceu e quando vai morrer, sei sobre o que ele fez e o que fará, sei a respeito de Sandringham porque... porque Frank me contou. Ele sabia a respeito de Randall porque ele... ele... ah, meu Deus! — Senti-me como se fosse desmaiar e cerrei os olhos para que as estrelas acima de minha cabeça parassem de girar.

- E Colum... ele acha que sou uma bruxa porque eu sei que Hamish não é seu filho. Eu sei... que ele não pode gerar filhos. Mas ele achou que eu sabia quem é o pai de Hamish... Achei que talvez fosse você, mas depois soube que não podia ser e... - Eu falava cada vez mais rápido, tentando controlar a vertigem com o som da minha própria voz.

- Tudo que já lhe disse a meu respeito é verdade - disse, balançando a cabeça loucamente como se quisesse me acalmar. — Tudo. Eu não tenho família, não tenho ninguém, não tenho nenhuma história, porque eu ainda não aconteci.

- Sabe quando eu nasci? — perguntei, erguendo os olhos. Sabia que meus cabelos estavam desgrenhados e meus olhos estatelados, mas não me importava. - No dia 20 de outubro, do ano da Graça de 1918. Você me ouviu? - perguntei, porque ele piscava para mim, paralisado, como se não prestasse atenção a nenhuma palavra do que eu dizia. - Eu disse mil novecentos e dezoito! Quase daqui a duzentos anos! Está me ouvindo? Eu gritava agora e ele balançou a cabeça devagar.

- Estou ouvindo - respondeu brandamente.

- Sim, você está ouvindo! — gritei, enfurecida. — E acha que estou completamente louca. Não é? Admita! É o que está pensando. Você tem que pensar assim, não existe nenhuma outra maneira de poder explicar quem sou para si mesmo. Você não pode acreditar em mim, não pode ousar acreditar em mim. Ah, Jamie... - Senti meu rosto se desmoronar. Todo esse tempo tentando esconder a verdade, compreendendo que jamais poderia contar a ninguém, e agora eu percebia que podia ter contado a Jamie, meu amado marido, o homem em quem eu confiava acima de todas as pessoas, e ele também não iria - não poderia acreditar em mim.

- Foram as pedras, na colina das fadas. No círculo de pedras. As pedras de Merlin. Foi por lá que passei. — Eu arquejava, entre soluços, cada vez mais incoerente. - Houve um tempo em que..., mas na verdade são duzentos anos. São sempre duzentos anos nas histórias... Mas nas histórias, as pessoas sempre voltam. Eu não pude voltar. - Virei-me, cambaleando, procurando onde me apoiar. Deixei-me cair sobre uma pedra, os ombros arqueados, e enterrei a cabeça nas mãos. Houve um longo silêncio na floresta. Continuou o suficiente para que as pequenas aves noturnas recobrassem a coragem e começassem seus ruídos outra vez, chamando umas às outras com um piado agudo e frágil, conforme caçavam os últimos insetos do verão.

Ergui os olhos finalmente, pensando que talvez ele simplesmente se levantara e fora embora, acabrunhado com minhas revelações. Mas ele continuava lá, ainda sentado, as mãos abraçando os joelhos, a cabeça baixa como se meditasse.

Os cabelos em seus braços brilhavam, rígidos como fios de cobre à luz do fogo e compreendi que estavam arrepiados, como os pêlos de um cachorro. Ele estava com medo de mim.

- Jamie - eu disse, sentindo meu coração sucumbir com uma solidão absoluta. - Ah, Jamie.

Sentei-me e encolhi-me numa bola, tentando envolver o núcleo da minha dor. Nada mais importava e solucei incontrolavelmente.

Suas mãos em meus ombros me levantaram, o suficiente para eu ver seu rosto. Através da névoa de lágrimas, vi o olhar que ele ostentava em combate, de luta que ultrapassara o ponto de tensão e se tornara uma tranqüila certeza.

- Eu acredito em você — disse com firmeza. — Não entendo nada, ainda não, mas acredito em você. Claire, eu acredito em você! Ouça-me.

Existe a verdade entre nós, você e eu, e o que quer que você me diga, eu acreditarei. - Deu-me uma leve sacudidela.

- Não importa o que seja. Você me contou. É o suficiente por enquanto. Fique calma, mo duinne. Deite-se e descanse. Você me contará o resto depois. E eu vou acreditar em você.

Eu ainda soluçava, incapaz de entender o que ele me dizia. Debati-me, tentando me desvencilhar, mas ele me ergueu e abraçou-me com força contra seu peito, pressionando minha cabeça nas dobras de seu xale e repetindo incessantemente:

- Eu acredito em você.

Finalmente, por pura exaustão, acalmei-me o suficiente para erguer os olhos e dizer:

- Mas você não pode acreditar em mim.

Sorriu para mim. Sua boca estremeceu ligeiramente, mas ele sorriu.

- Não me diga o que eu posso ou não posso fazer, Sassenach. — Parou por um instante. - Quantos anos você tem? - perguntou, curioso. - Nunca pensei em perguntar.

A pergunta parecia tão absurda que precisei de um instante para pensar.

- Tenho vinte e sete... ou talvez vinte e oito — acrescentei. Isso o abalou por um instante. Aos vinte e oito, as mulheres na época dele geralmente estavam às portas da meia-idade.

- Ah - exclamou. Respirou fundo. - Pensei que fosse mais ou menos da minha idade... ou mesmo mais nova.

Ele não se moveu por um segundo. Entretanto, em seguida, olhou para mim e esboçou um sorriso. - Feliz aniversário, Sassenach — disse.

Aquilo me pegou inteiramente de surpresa e apenas fitei-o apalermada por um instante.

- O quê? - consegui finalmente dizer.

- Eu disse "Feliz Aniversário". Hoje é dia 20 de outubro.

- É mesmo? - exclamei estupidamente. - Perdi a conta. - Tremia novamente, do frio, do choque e da força do meu discurso. Ele puxou-me novamente contra si e me abraçou, passando as mãos grandes pelos meus cabelos, aconchegando minha cabeça contra seu peito. Comecei a chorar outra vez, mas agora de alívio. No meu estado de perturbação, parecia lógico que se ele sabia a minha idade verdadeira e ainda me queria, tudo iria ficar bem.

Jamie pegou-me no colo e segurando-me cuidadosamente nos braços, carregou-me até a beira do fogo, onde colocara a sela do cavalo. Sentou-se, recostando-se contra a sela, e ficou segurando-me, de leve e bem junto ao seu corpo.

Muito tempo depois, falou.

- Muito bem. Agora, me conte.

Contei-lhe toda a história. Contei-lhe tudo, parando de vez em quando, mas de forma coerente. Sentia-me dormente de exaustão, mas contente, como um coelho que conseguiu fugir de uma raposa e encontra abrigo temporário debaixo de um tronco. Não é um santuário, mas ao menos é uma trégua. E contei-lhe a respeito de Frank.

- Frank — ele disse brandamente. — Então, ele não está morto, afinal.

- Ele ainda não nasceu. — Senti uma nova onda de histeria quebrar-se contra minhas costelas, mas consegui manter o controle. - Nem eu.

Ele me acariciou e alisou, até eu voltar à calma, murmurando docemente pequenas palavras em gaélico.

- Quando a resgatei das garras de Randall em Fort William — disse de repente — você estava tentando voltar. Voltar ao círculo de pedras. E... Frank. Foi por isso que abandonou o bosque.

- Sim.


- E eu a surrei por isso. - Sua voz era baixa de arrependimento.

- Você não tinha como saber. Eu não podia lhe contar. — Estava começando a me sentir muito sonolenta.

- Não, imagino que não. - Ajeitou o xale mais junto de mim, prendendo as pontas delicadamente em volta dos meus ombros. — Durma agora, mo duinne. Ninguém vai lhe causar mal, eu estou aqui.

Aconcheguei-me na curva cálida de seu ombro, deixando que minha mente exausta deslizasse pelas camadas do esquecimento. Forcei-me à superfície o tempo suficiente para perguntar:

- Você realmente acredita em mim, Jamie? Ele suspirou e sorriu melancolicamente.

- Sim, acredito em você, Sassenach. Mas teria sido muito mais fácil se você fosse apenas uma bruxa.

Dormi como um morto, acordando algum tempo depois do alvorecer com uma terrível dor de cabeça, com todos os músculos rígidos. Jamie tinha alguns punhados de aveia em um saquinho dentro da bolsa em sua cintura e me forçou a comer um mingau de aveia com água. Ficou preso em minha garganta, mas forcei-me a engolir.

Ele foi lento e delicado comigo, mas falou muito pouco. Depois do desjejum, rapidamente reuniu os apetrechos do pequeno acampamento e colocou a sela em Donas.

Entorpecida com o choque dos últimos acontecimentos, nem perguntei aonde estávamos indo. Montada atrás dele, estava satisfeita em encostar meu rosto em suas costas largas, sentindo o movimento do cavalo embalar-me a um estado de transe desmemoriado.

Descemos as escarpas próximas ao lago Madoch, avançando pela gélida névoa matinal até a borda da superfície cinza e imóvel. Patos selvagens começaram a se erguer dos juncos em bandos irregulares que voavam ao redor dos pântanos, grasnindo e chamando para acordar os dorminhocos embaixo. Em contraste, um bem disciplinado bando de gansos voando numa formação em cunha passou acima de nós, com gritos de desolação e tristeza.

A névoa cinza dispersou-se por volta de meio-dia no segundo dia e um sol fraco iluminou as campinas repletas de tojos amarelos e giestas. Alguns quilômetros depois do lago, saímos numa estrada estreita e viramos para noroeste. O caminho nos levou para o alto outra vez, a colinas baixas e suaves que gradualmente deram lugar a rochedos e picos de granito. Encontramos poucos viajantes na estrada e prudentemente entrávamos no mato toda vez que ouvíamos barulho de cascos de cavalos à frente.

A vegetação transformou-se em floresta de pinheiros. Respirei fundo, apreciando o ar límpido e resinoso, embora esfriasse ao anoitecer. Paramos para passar a noite em uma pequena clareira a certa distância do caminho. Ajuntamos um amontoado de agulhas de pinheiro, como um ninho, cobrimos com cobertores e nos aconchegamos para nos aquecer, cobertos pelo xale de Jamie e um cobertor.

Acordou-me durante a noite e fez amor comigo, devagar e ternamente, sem falar. Vi as estrelas cintilando através da trama de galhos negros acima de nossas cabeças e adormeci novamente com o peso reconfortante de seu corpo ainda quente sobre o meu.

Pela manhã, Jamie parecia mais alegre, ou ao menos mais tranqüilo, como se uma decisão difícil tivesse sido alcançada. Prometeu-me chá quente para o jantar, que era um pequeno conforto no ar gelado. Sonolentamente, segui-o de volta à trilha, limpando agulhas dos pinheiros e pequenas aranhas das minhas saias. O caminho estreito diminuiu durante a manhã, dando numa trilha indistinta entre ásperas touceiras de festuca, ziguezagueando em torno de rochas mais proeminentes.

Eu prestava pouca atenção às cercanias, pois sonhadoramente aproveitava o calor crescente do sol, mas de repente meus olhos depararam-se com uma formação rochosa familiar e acordei do meu torpor. Sabia onde estávamos. E por quê.

— Jamie!


Virou-se com a minha exclamação.

— Não sabia? — perguntou com curiosidade.

— Que estávamos vindo para cá? Não, claro que não. — Senti-me levemente nauseada. A colina de Craig na Dun estava a pouco mais de um quilômetro de distância; podia ver sua forma corcunda através dos últimos fragmentos da neblina da manhã.

Engoli em seco. Tentava há seis meses chegar a este lugar. Agora que finalmente estava ali, queria estar em qualquer outro lugar. As pedras eretas no topo da colina eram invisíveis de baixo, mas parecia emanar um terror sutil que me alcançava.

Bem abaixo do cume, o solo ficou acidentado demais para Donas. Desmontamos e o amarramos a um pinheiro pequeno, continuando a pé.

Eu arfava e suava quando alcançamos a saliência do rochedo; Jamie não demonstrava nenhum sinal de cansaço, a não ser um ligeiro rubor junto à gola de sua camisa. Estava silencioso ali acima dos pinheiros, mas com um vento regular zumbindo fracamente nas fendas da rocha. Andorinhas passaram zunindo, erguendo-se bruscamente nas correntes de ar à cata de insetos, mergulhando como bombardeiros, as asas delgadas estendidas.

Jamie segurou minha mão para me puxar para o último degrau da saliência larga e plana de granito na base da rocha. Não a soltou, mas puxou-me para junto dele, olhando-me cuidadosamente, como se quisesse memorizar minhas feições.

- Por que...? - comecei a dizer, tentando recuperar o fôlego.

- É o seu lugar - disse duramente. - Não é?

- Sim. - Eu olhava hipnotizada para o círculo de pedras. - Parece exatamente igual.

Jamie seguiu-me ao centro do círculo. Segurando-me pelo braço, caminhou com firmeza até a pedra dividida em duas.

- É esta aqui? - perguntou.

- Sim. - Tentei afastar-me. - Cuidado! Não se aproxime! — Olhou de mim para a pedra, obviamente cético. Talvez tivesse razão. De repente, senti-me em dúvida da veracidade de minha própria história.

- Eu... eu não sei nada sobre ela. Talvez a... o que quer que fosse... tenha se fechado atrás de mim. Talvez só funcione em determinadas épocas do ano. Estava próximo do Beltane quando a atravessei.

Jamie olhou para o sol por cima do ombro, um disco plano pendurado no meio do céu por trás de uma fina cortina de nuvens.

- Já é quase Samhain, o início do inverno - ele disse. - Ali Hallows. Parece adequado, não? - Estremeceu involuntariamente, apesar da piada. -Quando você... atravessou. O que fez?

Tentei me lembrar. Sentia-me congelada e prendi as mãos debaixo dos braços.

- Andei em volta do círculo, olhando tudo. Mas aleatoriamente, não havia nenhuma forma especial. Então, cheguei perto da pedra fendida e ouvi um zumbido, como o de abelhas.

Ainda era como abelhas. Recuei como se fosse o chocalho de uma cobra.

- Ainda está aqui! — Recuei em pânico, atirando os braços em volta de Jamie, mas ele me segurou firmemente longe dele, o rosto lívido, e virou-me outra vez em direção à pedra.

- E depois? - O vento uivante penetrava em meus ouvidos, mas sua voz era ainda mais contundente.

- Coloquei a mão sobre a rocha.

- Faça isto, então. - Empurrou-me para mais perto e quando eu não reagi, ele segurou meu pulso e plantou minha mão com firmeza contra a superfície listrada.

Fez-se o caos e ele apoderou-se de mim.

Finalmente, o sol parou de girar atrás dos meus olhos e os gritos agudos desapareceram dos meus ouvidos. Havia um outro barulho persistente, Jamie chamando meu nome.

Sentia-me fraca demais para me erguer ou abrir os olhos, mas sacudi a mão fracamente, para que ele soubesse que eu ainda estava viva.

- Estou bem - disse.

- Está mesmo? Ah, meu Deus, Claire! — Apertou-me contra o peito, abraçando-me com força. — Meu Deus, Claire. Pensei que estivesse morta. Você... você começou a... ir embora, de certa forma. Tinha a expressão mais terrível no rosto, como se estivesse apavorada. Eu... eu a puxei de volta da pedra. Eu a impedi. Não devia ter feito isso. Sinto muito, Sassenach.

Meus olhos estavam suficientemente abertos agora para ver seu rosto acima do meu, aturdido e assustado.

- Está tudo bem. — Ainda tinha dificuldade para falar e sentia-me pesada e desorientada, mas voltava gradativamente ao normal. Tentei sorrir, mas meus lábios apenas se contorceram.

- Ao menos... sabemos... que ainda funciona.

- Ah, meu Deus. Sim, funciona. — Lançou um olhar fulminante, de ódio e temor, à pedra.

Deixou-me pelo tempo de ir molhar um lenço em uma poça de água da chuva em uma depressão nas rochas. Umedeceu meu rosto, ainda murmurando palavras de conforto e desculpas. Por fim, senti-me bem o suficiente para me sentar.

- Você não acreditava em mim, não é mesmo? - Apesar de sentir-me tonta e vacilante, sentia-me de certa forma vingada. — Mas é verdade.

- Sim, é verdade. — Sentou-se ao meu lado, fitando a pedra por vários minutos. Esfreguei o lenço molhado no rosto, ainda fraca e zonza. De repente, pôs-se de pé num salto, caminhou até a rocha e espalmou a mão sobre ela.

Nada aconteceu e, após um minuto, seus ombros baixaram e ele voltou para mim.

- Talvez só funcione com mulheres - eu disse, confusa. - As lendas sempre falam de mulheres. Ou talvez seja apenas eu.

- Bem, não funciona comigo - disse. - Mas é melhor me certificar.

- Jamie! Cuidado! - gritei, em vão. Ele marchou para a pedra, colocou a mão espalmada sobre ela outra vez, atirou-se contra ela, passou pela fenda e voltou por ela outra vez, mas a pedra continuou sendo apenas um monólito maciço. Quanto a mim, estremeci diante da idéia de sequer me aproximar daquela porta para a loucura novamente.

Mesmo assim. Mesmo assim, quando comecei a passar para o reino do caos desta vez, eu estava pensando em Frank. E eu o senti, tinha certeza. Em algum lugar no vácuo havia um pontinho de luz e ele estava lá. Eu soube. Também soube que havia um outro ponto de luz, que ainda estava sentado ao meu lado, fitando a pedra, o rosto brilhando de suor, apesar do frio do dia.

Finalmente, ele voltou-se para mim e segurou minhas duas mãos. Levou-as aos lábios e beijou cada uma formalmente.

- Minha mulher - disse docemente. - Minha... Claire. Não adianta esperar. Tenho que deixá-la agora.

Meus lábios estavam rígidos demais para que eu pudesse falar, mas a expressão do meu rosto devia ser facilmente legível como sempre.

- Claire - disse, ansiosamente -, é a sua própria época do outro lado da... desta coisa. Você tem um lar, um lugar lá. Tudo com que está acostumada. E... Frank.

- Sim — eu disse. — Frank está lá.

Jamie segurou-me pelos ombros, colocando-me de pé e sacudindo-me delicadamente numa súplica.

- Não há nada para você deste lado, menina! Nada, a não ser violência e perigo. Vá! — Empurrou-me levemente, virando-me na direção do círculo de pedras. Virei-me para ele novamente, segurando suas mãos.

- Não há realmente nada para mim aqui, Jamie? - Fitei-o nos olhos, não permitindo que se desviasse de mim.

Ele livrou-se delicadamente de minhas mãos sem responder e ficou parado, de repente uma figura de outra época, vista em alto-relevo sobre um fundo de colinas nebulosas, a vida em seu rosto apenas um truque da rocha sombreada, como que aplainada sob camadas de tinta, a reminiscência de um pintor de lugares e paixões esquecidas que viraram pó.

Olhei dentro de seus olhos, cheios de dor e anseio, e ele se tornou de carne e osso outra vez, real e imediato, amante, marido, homem.

A angústia que eu sentia devia estar refletida em meu rosto, porque ele hesitou, depois se virou para leste e apontou para baixo do declive.

- Está vendo atrás do pequeno grupo de carvalhos lá embaixo? ou menos a meio caminho.

Vi o grupo de árvores e vi o que ele estava apontando, a cabana de lavrador, parcialmente em ruínas, abandonada na colina assombrada.

- Vou descer para aquela casa e ficar lá até o anoitecer. Para ter certeza... para ter certeza de que você está segura. - Olhou para mim, mas não fez nenhum gesto para me tocar. Cerrou os olhos, como se não suportasse mais olhar para mim.

- Adeus - disse, virando-se e partindo.

Fiquei observando-o, paralisada, e então me lembrei. Havia algo que eu precisava dizer-lhe. Chamei-o.

- Jamie!

Ele parou e ficou imóvel por um instante, lutando para controlar seu rosto. Estava lívido e extenuado e seus lábios estavam exangues quando se voltou de novo para mim.

-Sim?

- Há uma coisa... quero dizer, tenho que lhe dizer uma coisa antes... antes de partir.



Ele fechou os olhos por um instante e acho que oscilou, mas deve ter sido apenas o vento agitando seu kilt.

- Não é preciso — ele disse. — Não. Vá, menina. Não devia se demorar. Vá. - Fez menção de virar-se, mas segurei-o pela manga da camisa.

- Jamie, ouça-me! Você precisa me ouvir! - Ele sacudiu a cabeça, desarvorado, erguendo uma das mãos como se quisesse me afastar.

- Claire... não. Não posso. - O vento fazia seus olhos lacrimejarem.

- É a Conspiração Jacobita — eu disse, ansiosamente, sacudindo seu braço. -Jamie, ouça. O príncipe Carlos, seu exército. Colum está certo! Está me ouvindo, Jamie! Colum está certo, não Dougal.

- Hein? O que quer dizer? - Eu tinha sua atenção agora. Passou a manga da camisa pelo rosto e os olhos que se detiveram em mim estavam desanuviados e atentos. O vento uivava em meus ouvidos.

- Príncipe Carlos. Haverá uma rebelião, Dougal tem razão sobre isso, mas não será vitoriosa. O exército de Carlos Eduardo vai se sair bem por algum tempo, mas tudo terminará num grande massacre. Em Culloden, é lá que vai terminar. Os... os clãs... - Mentalmente, via as lápides dos clãs, as pedras cinzas que ficariam espalhadas pelo campo, cada uma ostentando apenas o nome do clã dos homens massacrados que jaziam sob ela. Respirei fundo e agarrei sua mão para me equilibrar. Estava fria como a de um cadáver. Estremeci e fechei os olhos para me concentrar no que estava dizendo.

- Os homens das Highlands, todos os clãs aliados de Carlos, serão destruídos. Centenas e centenas morrerão em Culloden; os que sobrarem serão perseguidos e assassinados. Os clãs serão massacrados... e não se levantarão mais. Não em sua época, nem na minha.

Abri os olhos e me deparei com ele fitando-me, sem expressão. -Jamie, fique fora disso! — supliquei-lhe. — Mantenha sua família fora disso se puder, mas pelo amor de Deus... Jamie, se você... — Parei de repente.

Eu ia dizer "Jamie, se você me ama". Mas não pude. Eu ia perdê-lo para sempre e se pude não falar de amor com ele antes, não podia fazê-lo agora.

- Não vá para a França - eu disse, em voz baixa. - Vá para América, para a Espanha, para a Itália. Mas pelo amor daqueles que o amam, Jamie, não ponha os pés em Culloden.

Ele continuava me fitando. Perguntava-me se estaria me ouvindo.

- Jamie? Você me ouviu? Você compreende?

Após um instante, ele balançou a cabeça, anestesiado.

- Sim - disse, serenamente, a voz tão baixa que mal pude ouvi-lo sob o gemido do vento. - Sim, ouvi. - Soltou a minha mão.

- Vá com Deus... mo duinne.

Saiu da saliência do rochedo e continuou sua descida pelo declive íngreme, firmando os pés em tufos de capim, segurando em galhos para manter o equilíbrio, sem olhar para trás. Fiquei observando-o até ele desaparecer no bosque de carvalhos, caminhando lentamente, como um homem ferido que sabe que tem que continuar andando, mas sente que sua vida se esvai lentamente entre os dedos que aperta contra o ferimento.

Meus joelhos tremiam. Devagar, abaixei-me e sentei com as pernas cruzadas, observando as andorinhas. Abaixo, eu podia apenas ver o telhado da cabana que agora abrigava meu passado. Às minhas costas assomava a pedra fendida. E meu futuro.

Fiquei sentada sem me mover durante toda a tarde. Tentei arrancar à força todas as emoções da minha mente e usar a razão. Jamie certamente tinha a lógica a seu favor quando argumentava que eu devia voltar; lar, segurança, Frank; até mesmo os pequenos confortos da vida de que eu tanto sentia falta de vez em quando, como banhos quentes e água encanada, para não falar de considerações maiores como tratamento médico adequado e condições de viagem adequadas.

Ainda assim, enquanto eu sem dúvida admitia as inconveniências e óbvios perigos daquele lugar, também tinha que admitir que apreciava muitos dos seus aspectos. Se viajar era incômodo, não havia enormes extensões de concreto cobrindo os campos, nem qualquer barulho, nem carros com seus escapamentos fedorentos - invenções com seus próprios perigos, lembrei a mim mesma. A vida era muito mais simples e as pessoas também. Não menos inteligentes, porém muito mais francas - com algumas autênticas exceções, como Colum ban Campbell MacKenzie, pensei implacavelmente.

Por causa do trabalho do tio Lamb, eu vivera em muitos lugares diferentes, alguns até mesmo mais inóspitos e com menos conveniências do que este. Eu me adaptava com bastante facilidade a condições adversas e não sentia realmente falta da "civilização" quando longe dela, embora me adaptasse com a mesma facilidade à presença de máquinas e do maior conforto que proporcionavam, como aquecedores de água e aparelhos eletrodomésticos. Estremeci no vento frio, abraçando-me com força enquanto fitava a rocha.

A racionalidade não parecia estar ajudando muito. Voltei-me para a emoção e comecei, encolhendo-me diante da tarefa, a reconstruir os detalhes das minhas vidas de casada — primeiro com Frank, depois com Jamie. O único resultado disso foi deixar-me arrasada e chorando, as lágrimas formando trilhas congeladas em meu rosto.

Bem, se nem a razão nem a emoção, que tal o dever? Eu fizera votos matrimoniais a Frank e o fiz de todo o coração. Fizera o mesmo a Jamie, e o traí logo que pude. E qual deles eu irei trair agora? Continuei sentada, enquanto o sol descia cada vez mais no horizonte e as andorinhas desapareciam para os seus ninhos.

Quando a estrela vespertina começou a brilhar entre os galhos dos pinheiros negros, concluí que nesta situação a razão tinha pouca utilidade. Iria ter que confiar em alguma outra coisa; exatamente o quê, eu não sabia. Voltei-me para a pedra fendida e dei um passo em sua direção, depois outro, depois outro. Parando, virei-me e tentei na direção oposta. Um passo, depois outro, depois outro e, antes que sequer soubesse o que havia decidido, já estava na metade da encosta, lutando desvairadamente com o mato, escorregando e caindo nas áreas de cascalho.

Quando cheguei à cabana, ofegante de medo de que ele já pudesse ter ido embora, tranqüilizei-me ao ver Donas amarrado ali perto, pastando. O cavalo ergueu a cabeça e olhou-me de forma pouco amistosa. Caminhando silenciosamente, empurrei a porta.

Ele estava no aposento da frente, dormindo em um estreito banco de carvalho. Dormia de costas, como sempre fazia, as mãos cruzadas sobre o estômago, a boca ligeiramente aberta. Os últimos raios de luz do dia que entravam pela janela às minhas costas recortavam seu rosto como uma máscara de metal; os caminhos prateados das lágrimas secas cintilavam na pele dourada e o acobreado da barba espetada brilhava foscamente.

Fiquei parada, observando-o por um instante, transbordante de uma ternura indescritível. Movendo-me o mais silenciosamente possível, deitei-me ao lado dele no banco estreito e aconcheguei-me ao seu corpo. Virou-se para mim no seu sono como sempre fazia, aninhando-me contra o seu peito e recostando o rosto nos meus cabelos. Semi-consciente, alisou meus cabelos para afastá-los do seu nariz; senti o violento solavanco quando ele acordou e percebeu que eu estava ali e, então, perdemos o equilíbrio e caímos no chão, Jamie sobre mim.

Eu não tinha a menor dúvida de que ele era de carne e osso. Empurrei o joelho de cima de mim, grunhindo.

- Saia! Não consigo respirar!

Ao invés disso, ele agravou minha falta de ar beijando-me apaixonadamente. Ignorei a falta de oxigênio temporariamente, a fim de me concentrar em coisas mais importantes.

Abraçamo-nos durante muito tempo sem falar. Finalmente, ele murmurou, a boca abafada em meus cabelos:

- Por quê?

Beijei seu rosto, úmido e salgado. Podia sentir seu coração batendo contra as minhas costelas e não desejava mais nada além de ficar ali para sempre, sem me mover, sem fazer amor, apenas respirando o mesmo ar.

- Tive que fazê-lo - respondi. Ri, um pouco trêmula. - Não sabe como estive por um fio. Os banhos quentes quase venceram. — Então, chorei, estremecendo, porque a escolha era tão recente e porque minha alegria pelo homem que tinha nos braços misturava-se a um dor dilacerante pelo homem que eu jamais veria novamente.

Jamie abraçou-me com força, pressionando-me com seu peso, como se quisesse me proteger, para impedir que eu fosse levada pela atração esmagadora do círculo de pedras. Por fim, minhas lágrimas cessaram e fiquei deitada, exausta, a cabeça apoiada em seu peito reconfortante. Já escurecera completamente, mas ele continuava a me abraçar, murmurando baixinho, como se eu fosse uma criança com medo do escuro. Presos um ao outro, não nos afastamos nem mesmo para acender um fogo ou uma vela.

Finalmente, Jamie levantou-se e, pegando-me no colo, carregou-me para o banco, onde se sentou, aconchegando-me em seu colo. A porta da cabana continuava aberta e podíamos ver as estrelas começando a cintilar sobre o vale lá fora.

- Sabe - eu disse, sonolentamente — que são precisos milhares e milhares de anos para a luz daquelas estrelas nos alcançar? Na verdade, algumas estrelas que vemos podem já estar mortas, mas nós não sabemos, porque ainda vemos a luz.

- É mesmo? - disse, acariciando minhas costas. - Não sabia.

Devo ter adormecido, a cabeça em seus ombros, mas acordei por um instante, quando ele me colocou delicadamente no chão, numa cama improvisada com os cobertores que carregava na sela. Deitou-se ao meu lado e puxou-me para junto de seu corpo outra vez.

- Descanse, Sassenach — sussurrou. — Amanhã vou levá-la para casa.

Acordamos pouco antes do amanhecer e estávamos no caminho de descida quando o sol se levantou, ansiosos para deixar Craig na Dun.

- Para onde vamos, Jamie? — perguntei, alegrando-me com a perspectiva de um futuro que o incluía, ainda que deixasse para trás a última chance de retornar para o homem que havia - que iria? - me amar um dia.

Jamie freou o cavalo, parando para olhar por cima do ombro por um instante. O círculo ameaçador de pedras verticais era invisível daquele ponto, mas a encosta rochosa parecia erguer-se intransponível às nossas costas, coberta de pedregulhos e moitas de tojo. De onde estávamos, a cabana em ruínas parecia mais uma rocha proeminente, como uma articulação óssea projetando-se do punho cerrado de granito da colina.

- Quisera ter lutado por você — ele disse repentinamente, olhando para mim novamente. Seus olhos azuis estavam escuros e ansiosos.

Sorri para ele, emocionada.

- Não era sua luta, era minha. Mas você venceu, de qualquer modo. -Estendi a mão e ele apertou-a.

- Sim, mas não foi isso que eu quis dizer. Se eu tivesse lutado com ele homem a homem por você e vencido, você não precisaria sentir nenhum arrependimento. - Hesitou. - Se um dia...

- Não há mais nenhum "se" — eu disse com firmeza. - Pensei em cada um deles ontem e ainda assim estou aqui.

- Graças a Deus — ele disse, sorrindo. — E que Deus a proteja. — Em seguida, acrescentou: — Embora eu jamais vá entender por quê.

Passei os braços em torno de sua cintura e abracei-o, conforme o cavalo resvalava pela última encosta íngreme.

- Porque — eu disse - eu certamente não consigo viver sem você, Jamie Fraser, e isso é tudo. Agora, para onde está me levando?

Jamie virou-se na sela, para olhar a subida da colina.

- Rezei durante todo o caminho ladeira acima ontem - ele disse baixinho. - Não para que você ficasse, não achava isso certo. Rezei para ser forte o suficiente para deixá-la ir embora. - Sacudiu a cabeça, ainda fitando a colina, uma expressão sonhadora nos olhos.

- Eu disse: "Senhor, se nunca tive coragem em minha vida antes, que eu a tenha agora. Permita que eu seja corajoso o suficiente para não cair de joelhos e implorar-lhe que fique." - Afastou os olhos da cabana e sorriu brevemente para mim.

- A coisa mais difícil que eu já fiz, Sassenach. — Virou-se na sela e direcionou o cavalo para o leste. Era uma rara manhã luminosa e o sol matutino fazia tudo reluzir, desenhando uma fina linha de fogo ao longo das rédeas, da curva do pescoço do cavalo e nas faces e nos ombros largos de Jamie.

Ele respirou fundo e balançou a cabeça em direção à charneca, indicando uma passagem estreita e distante, entre dois penhascos.

- Agora, acho que posso fazer a segunda coisa mais difícil. - Esporeou o cavalo delicadamente, estalando a língua. - Estamos indo para casa, Sassenach. Para Lallybroch.





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