A viajante do tempo


- NÃO PERMITIRÁS QUE UMA BRUXA VIVA



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25 - NÃO PERMITIRÁS QUE UMA BRUXA VIVA
Os ombros vestidos de cinza afastaram-se de mim na escuridão. Meu cotovelo bateu na madeira com uma pancada de deixar os ossos dor-mentes quando fui violentamente empurrada para uma espécie de soleira e caí de cabeça em um lugar escuro e fétdo, vivo e se remexendo com formas invisíveis. Dei um grito agudo e me debati, tentando me livrar do emaranhado de incontáveis patinhas, minúsculas e alvoroçadas, e do ataque de algo maior, que guinchou e me atingiu com uma forte pancada na coxa.

Consegui me afastar rolando, mas apenas por uns sessenta centímetros, antes de atingir uma parede de barro que lançou uma cascata de poeira sobre minha cabeça. Encolhi-me o máximo que pude junto a ela, tentando sufocar minha própria respiração arquejante para poder ouvir o que quer que estivesse preso comigo naquele buraco pútrido. O que quer que fosse, era grande e respirava ruidosamente. Um porco, talvez?

- Quem está aí? — soou uma voz da escuridão lúgubre, parecendo assustada, mas desafiadoramente alta. - Claire, é você?

- Geilie! - Tateando e mal conseguindo respirar, aproximei-me dela, encontrando suas mãos que também me buscavam. Abraçamo-nos com força, balançando-nos ligeiramente para frente e para trás na escuridão.

- Tem mais alguma coisa aqui além de nós? - perguntei, olhando à minha volta cautelosamente. Mesmo com meus olhos agora acostumados a escuridão, havia bem pouco a ser visto. Havia alguns fracos feixes de luz provenientes de algum lugar acima, mas as tenebrosas sombras chegavam à altura dos ombros ali embaixo; eu mal podia divisar o semblante de Geilie, na altura do meu e a apenas alguns centímetros de distância.

Ela riu, um pouco trêmula.

- Vários ratos, eu acho, e outros animais daninhos. E um cheiro capaz de derrubar uma doninha.

- Senti o cheiro. Onde estamos, em nome de Deus? -- No buraco dos ladrões. Para trás!

Houve um rangido acima de nossas cabeças e um súbito raio de luz. Corri de encontro à parede, bem a tempo de evitar uma chuva de lama e lixo, lançados por uma pequena abertura no teto de nossa prisão. Um outro barulho frouxo seguiu-se ao dilúvio. Geilie inclinou-se e pegou a* coisa do chão. A abertura no teto permaneceu e pude ver que o que ela segurava era um pequeno pão, velho e lambuzado de toda sorte de sujeira. Limpou-o cuidadosamente com uma dobra da saia.

— Jantar — disse. — Está com fome?

O buraco no teto continuou aberto, e vazio, a não ser por uma ou outra imundície atirada por um transeunte. A chuva fina começou, seguida de um vento penetrante. Estava frio, úmido e completamente deprimente. Próprio, suponho, para os malfeitores que se destinavam a abrigar. Ladrões, vagabundos, blasfemos, adúlteros... e possíveis bruxas.

Geilie e eu aconchegamo-nos junto a uma parede para nos aquecer, sem falar muito. Havia pouco a dizer e menos ainda que pudéssemos fazer por nós mesmas, além de controlar nosso espírito com paciência.

O buraco acima de nós ficava cada vez mais escuro à medida que a noite caía, até diluir-se no breu que nos cercava.

- Por quanto tempo você acha que pretendem nos manter aqui? Geilie remexeu-se, esticando as pernas para que a luz da manhã que atravessava a pequena abertura incidisse sobre o linho listrado de sua saia. Originalmente rosa-claro e branco, tinha agora uma aparência imprópria para vestir.

- Não muito tempo - disse. - Eles vão esperar pelos investigadores eclesiásticos. Arthur recebeu cartas no mês passado, preparando a vinda deles. Era na segunda semana de outubro. Devem chegar a qualquer momento.

Esfregou as mãos para aquecê-las, depois as colocou sobre os joelhos, no pequeno quadrado de luz.

- Fale-me sobre os investigadores — eu disse. — O que acontecerá, exatamente?

- Não sei dizer com precisão. Nunca vi o julgamento de uma bruxa, embora já tenha ouvido falar, é claro. - Parou por um instante, considerando. - Não estarão esperando um julgamento de bruxa, já que vêm para resolver umas disputas de terras. Então, ao menos não terão um espetador de bruxas.

- Um o quê?

- As bruxas não podem sentir dor - Geilie explicou. - Nem sangram quando são espetadas. — O espetador de bruxa, equipado com uma grande variedade de alfinetes, bisturis e outros implementos pontiagudos, era encarregado de testar essa condição. Recordava-me de algo parecido de um dos livros de Frank, mas acreditava ser uma prática comum no século XVII, não neste. Por outro lado, pensei amargamente, Cranesmuir não era exatamente o berço da civilização.

- Neste caso, é uma pena que não tenham um — eu disse, embora me encolhendo um pouco diante da idéia de ser espetada repetidamente. - Poderíamos passar nesse teste sem nenhuma dificuldade. Ou ao menos eu poderia - acrescentei causticamente. - Imagino que obteriam água gelada, nenhum sangue, se experimentassem em você.

- Não teria tanta certeza - disse, pensativamente, ignorando o insulto. - Já ouvi falar de espetadores de bruxas com alfinetes especiais, feitos para desarmarem quando pressionados contra a pele, de modo a parecer que não conseguem penetrar.

- Mas por quê? Por que tentar provar à força que alguém é uma bruxa?

O sol inclinava-se agora, mas a luz da tarde era suficiente para difundir-se pela nossa ratoeira com uma claridade turva. O belo rosto oval de Geilie demonstrava apenas pena pela minha ingenuidade.

- Você ainda não compreende, não é? - disse. — Eles pretendem nos matar. E não importa muito qual seja a acusação ou o que as evidências provam. Vamos para a fogueira, de qualquer modo.

Na noite anterior, eu ficara em estado de choque com o ataque da multidão e com as terríveis condições de nosso ambiente para fazer mais do que me encolher contra Geilie e esperar o raiar do dia. Com a luz, no entanto, o que restava do meu espírito começava a acordar.

- Por quê, Geilie? - perguntei, sentindo-me um pouco asfixiada. -Você sabe? - A atmosfera no local estava densa com o mau cheiro de podridão, umidade e dejetos. Parecia que as impenetráveis paredes de barro estavam prestes a ceder e se fechar sobre mim, como os lados de uma sepultura mal escavada.

Eu senti, mais do que vi, que ela encolhia os ombros; o feixe de luz que vinha de cima deslocara-se com o sol e agora atingia a parede de nossa prisão, deixando-nos na fria escuridão abaixo.

- Se serve de consolo para você - disse secamente —, eu duvido que pretendessem prender você. É uma questão entre mim e Colum, você teve a má sorte de estar comigo quando o pessoal da vila veio me pegar. Se você estivesse com Colum, estaria completamente a salvo, Sassenach ou não.

O termo Sassenach, dito em seu tom normalmente depreciativo, deixou-me de repente com uma saudade desesperadora do homem que me chamava assim afetuosamente. Passei os braços em volta do meu corpo, abraçando-me para conter o pânico solitário que ameaçava apoderar-se de mim.

- Por que veio à minha casa? - Geilie perguntou com curiosidade.

- Pensei que tivesse mandado me chamar. Uma das garotas do castelo me deu um recado... seu.

- Ah - disse, pensativamente. - Laoghaire, não?

Sentei-me e apoiei as costas contra a parede de terra, apesar do nojo da Superfície fétida e enlameada. Percebendo meu movimento, Geilie moveu-se para mais perto. Amigas ou inimigas, éramos a única fonte de calor uma da outra naquele buraco; aconchegávamo-nos por força das circunstâncias.

- Como sabe que foi Laoghaire? — perguntei, tremendo.

- Foi ela quem deixou o mau agouro em sua cama - Geilie respondeu. - Eu lhe disse desde o começo que havia aquelas que não gostaram de você ter-lhes tirado o rapaz ruivo. Suponho que ela pensou que se você saísse do caminho, ela teria uma chance com ele outra vez.

Fiquei muda de espanto diante disso e foi preciso algum tempo para recuperar a voz.

- Mas ela não poderia!

A risada de Geilie soou rouca de frio e sede, mas ainda tinha aquela ironia cortante.

- Qualquer um que visse o modo como ele olha para você saberia disso. Mas não creio que ela conheça o suficiente do mundo para saber tais coisas. Deixe-a dormir com um homem uma ou duas vezes e ela saberá, mas não agora.

- Não foi isso que quis dizer! - exclamei. - Não é Jamie que ela quer. A garota está esperando um filho de Dougal MacKenzie.

- O quê?! — Ela ficou genuinamente chocada por um instante e seus dedos cravaram-se na carne do meu braço. — Por que tirou essa conclusão?

Contei-lhe ter visto Laoghaire na escada para os aposentos de Colum e as conclusões a que eu chegara. Geilie soltou o ar ruidosamente.

- Pah! Ela ouviu Colum e Dougal falando de mim; foi isso que a fez fugir com medo. Ela achou que Colum ficaria sabendo que ela viera me procurar para o mau agouro. Ele a teria mandado chicotear até sangrar; ele não permite nenhum envolvimento com bruxaria.

- Você deu o mau agouro para ela? - perguntei, perplexa. Geilie afastou-se bruscamente diante dessa acusação.

- Não, eu não o dei para ela. Eu o vendi para ela.

Fitei-a, tentando olhá-la nos olhos através da escuridão cada vez mais impenetrável.

- Há uma diferença?

- Claro que sim. — Falava com impaciência. — Foi um negócio, apenas isso. E eu não revelo os segredos dos meus clientes. Além disso, ela não disse a quem se destinava. E você deve se lembrar que eu tentei avisá-la-

- Obrigada - disse com algum sarcasmo. - Mas... — Meu cérebro fervilhava, tentando rearrumar as idéias à luz dessa nova informação. — Mas se ela colocou o mau agouro na minha cama, era Jamie quem ela queria. Isso explicaria o fato de ela ter me mandado à sua casa. Mas e quanto a Dougal-

Geilie hesitou por um instante, depois pareceu chegar a uma conclusão.

- A garota está tão grávida de Dougal MacKenzie quanto você.

— Como pode ter tanta certeza?

Tateou no escuro à procura da minha mão. Encontrando-a, puxou-a e colocou-a com a palma aberta sobre o ventre volumoso por baixo do vestido.

- Porque eu estou - disse simplesmente.

- Então, não era Laoghaire - eu disse. — Você.

- Eu. - Falou de maneira muito simples, sem nenhum sinal de sua costumeira afetação. - Como foi que Colum disse mesmo: "Providenciarei para que ela seja tratada convenientemente"? Bem, suponho que esta seja sua idéia de uma solução adequada para o problema.

Fiquei um longo tempo em silêncio, remoendo meus pensamentos.

- Geilie — disse finalmente -, esse problema de estômago do seu marido...

Ela suspirou.

- Arsênico branco — disse. - Achei que acabaria com ele antes de a criança começar a aparecer muito, mas ele resistiu mais tempo do que eu julgava possível.

Lembrei-me do olhar horrorizado de Arthur Duncan quando saiu abruptamente do quarto de vestir de sua mulher no seu último dia de vida.

- Compreendo — eu disse. — Ele não sabia que você estava grávida até vê-la semidespida, no dia do banquete do duque. E quando ele descobriu... Suponho que ele tivesse boas razões para saber que não era dele.

Ouviu-se uma risada fraca do outro canto.

- O nitrato de potássio custava caro, mas valia cada peido. Estremeci levemente, encolhida junto à parede.

- Mas foi por isso que você teve que correr o risco de matá-lo em público, no banquete. Ele a teria denunciado como adúltera... e envene-nadora. Você acha que ele sabia sobre o arsênico?

- Ah, Arthur sabia - ela disse. — Certamente, não admitiria, nem para si mesmo. Mas ele sabia. Sentávamo-nos um em frente ao outro à mesa de jantar e eu lhe perguntava: "Quer mais um pouco de sopa, querido?" ou um gole de cerveja, meu bem? Ele ficava me olhando com aqueles olhos parecendo ovos cozidos, e dizia que não, estava sem apetite no momento. Empurrava o prato e mais tarde eu o ouvia na cozinha, às escondidas, devorando sua comida de pé junto ao armário, achando-se seguro, porque ele não comia nenhuma comida que viesse das minhas mãos. Sua voz era leve e descontraída, como se contasse algum mexerico interessante. Estremeci novamente, afastando-me daquela que compartilhava a escuridão comigo.

- Ele não desconfiou que era no tônico que tomava. Ele não tomava nenhum remédio feito por mim; encomendava um tônico vendido em Londres. Custava caríssimo. - Sua voz demonstrava ressentimento com a extravagância. - O remédio já tinha arsênico em sua composição, para começar; ele não notava nenhuma diferença no sabor quando eu acrescentava mais um pouco.

Sempre ouvira dizer que a vaidade era o ponto fraco dos assassinos; parecia ser verdade, porque ela continuou, ignorando nossa situação no orgulho de recontar seus feitos.

- Era um pouco arriscado, matá-lo diante de todo mundo assim, mas eu tinha que pensar depressa em alguma coisa.

Também não foi arsênico, para matar daquele jeito. Lembrei-me dos lábios endurecidos e azuis do fiscal e a dormência dos meus próprios lábios onde o tocaram. Um veneno rápido e mortal.

E eu pensando que Dougal havia confessado um caso amoroso com Laoghaire. Mas nesse caso, embora Colum pudesse desaprovar, não teria havido nada que impedisse Dougal de se casar com a garota. Ele era viúvo, livre.

Mas um envolvimento adúltero, com a mulher do fiscal? Era um problema diferente para todos os envolvidos. Eu me lembrava que as punições para o adultério eram severas. Colum não poderia colocar panos quentes em um caso dessa magnitude, mas não conseguia vê-lo condenando o irmão ao açoite público ou ao exílio. E Geilie poderia muito bem considerar o assassinato como uma alternativa razoável a ser queimada no rosto com ferro em brasa e trancafiada por muitos anos em uma prisão, socando cânhamo doze horas por dia.

Assim, ela tomara suas precauções e Colum tomara as dele. E ali estava eu, pega no meio.

- Mas, e a criança? - perguntei. — Certamente... Ouviu-se uma risadinha assustadora na escuridão.

- Acidentes acontecem, minha amiga. Nas melhores famílias. E uma vez acontecido... — Eu senti que ela encolhia os ombros. — Eu pretendia me livrar dela, mas depois achei que podia ser uma maneira de fazê-lo casar comigo, depois que Arthur morresse.

Uma terrível suspeita acometeu-me.

- Mas a mulher de Dougal ainda estava viva. Geillis, você...?

Seu vestido farfalhou quando sacudiu a cabeça e percebi um leve reflexo dos seus cabelos.

- Eu pretendia - disse. - Mas Deus me poupou o trabalho. Achei até que isso fosse um sinal, sabe. E tudo poderia ter dado certo, se não fosse por Colum MacKenzie.

Abracei-me, agarrando os cotovelos para me proteger do frio. Eu continuava falando apenas para me distrair.

- Era Dougal que você queria ou apenas sua posição e dinheiro?

- Ah, eu tinha bastante dinheiro - ela disse, com um tom de satisfação. - Eu sabia onde Arthur guardava a chave para todos os seus documentos e anotações. E ele tinha uma bela caligrafia, devo reconhecer. Era bastante simples falsificar sua assinatura. Eu conseguira desviar perto de dez mil libras nos últimos dois anos.

- Mas para quê? - perguntei, completamente perplexa.

- Pela Escócia.

- O quê? - Por um instante, pensei ter ouvido errado. Então, concluí que uma de nós podia estar ligeiramente desequilibrada. E pelas evidências disponíveis, não era eu.

- O que quer dizer com Escócia? -- perguntei cautelosamente, afastando-me um pouco. Não sabia ao certo o quanto ela estava desequilibrada; talvez a gravidez a tivesse enlouquecido.

- Não precisa ter medo; não estou maluca. - O cínico tom de deboche em sua voz me fez ruborizar. Agradeci por estar escuro.

- Ah, não? — eu disse, provocada. — Segundo você mesma, você cometeu fraude, roubo e assassinato. Seria uma caridade considerá-la louca, porque se não for...

- Nem louca nem depravada - ela disse, com decisão. - Sou uma patriota.

Fez-se a luz. Deixei escapar um suspiro que estivera prendendo, na expectativa de um ataque de loucura.

- Uma jacobita - eu disse. — Santo Deus, você é uma maldita jacobita! E era. O que explicava muita coisa. Por que Dougal, geralmente o espelho das opiniões do irmão, envolvera-se na iniciativa de levantar fundos para a Casa dos Stuart. E por que Geillis Duncan, tão bem dotada para levar qualquer homem que quisesse ao altar, havia escolhido dois espécimes tão diferentes como Arthur Duncan e Dougal MacKenzie. Um pelo dinheiro e posição, o outro por seu poder de influência na opinião pública.

- Colum teria sido melhor - continuou. - Uma pena. Seu infortúnio é o meu também. Era a ele que eu deveria ter me unido. O único homem que conheci que estaria à minha altura. Juntos, poderíamos... bem, não adianta mais. O único homem que eu queria e o único que eu não podia conseguir com as armas de que dispunha.

- Então, você ficou com Dougal em vez disso.

- Ah, sim - ela disse, imersa em seus próprios pensamentos. - Um homem forte e com certo poder. Uma boa propriedade. Os ouvidos do povo. Mas, na verdade, ele não passa das pernas... e do pau — riu debilmente — de Colum MacKenzie. É Colum quem tem força. Quase tanto quanto eu.

Seu tom presunçoso aborrecia-me.

- Colum, pelo que sei, tem algumas coisas que você não tem. Tal como sentimento de compaixão.

- Ah, sim. "Entranhas de compaixão e caridade", hein? - disse com ironia. - Grande proveito isso vai lhe dar. A morte está pousada em seus ombros; basta olhar para ele. O sujeito não passa de uns dois anos depois do Hogmanay, não muito mais do que isso.

- E quanto mais tempo você vai viver? - perguntei.

A ironia retrocedeu, mas a voz de aço permaneceu firme.

- Um pouco menos do que isso, eu acho. Nada de grande importância. Consegui fazer muito no tempo que tive; dez mil libras desviadas para a França e a região que apoia o príncipe Carlos. Quando houver a Revolução, saberei que dei minha contribuição. Se eu viver até lá.

Ela parou quase embaixo do buraco no teto. Meus olhos estavam suficientemente acostumados à escuridão para vê-la como uma forma pálida nas trevas, um fantasma prematuro e inacabado. Voltou-se subitamente para mim.

- O que quer que aconteça com os investigadores, não tenho nenhum arrependimento, Claire.

- Lamento apenas ter só uma vida para dar pelo meu país? - perguntei ironicamente.

- Muito bem colocado — observou.

- E não é exatamente isso?

Ficamos em silêncio enquanto a escuridão se tornava ainda mais densa. O vão negro do buraco no teto parecia uma força tangível, pressionando meu peito, fria e pesada. Obstruindo meus pulmões com o cheiro da morte. Finalmente, encolhi-me o máximo que pude numa bola, apoiei a cabeça nos joelhos e desisti de lutar, resvalando em uma sonolência nervosa, à beira do frio e do pânico.

- Então, você ama o sujeito? — Geilie perguntou repentinamente. Ergui a cabeça dos joelhos, espantada. Não fazia a menor idéia das horas; uma estrela fraca brilhava acima de nossas cabeças, mas não lançava nenhuma luz no buraco.

- Quem, Jamie?

- Quem mais? - perguntou secamente. - É o nome dele que você chama quando está dormindo.

- Não sabia que eu fazia isso.

- Então, você o ama? — O frio encorajava uma espécie de torpor mortal, mas a voz instigante de Geilie arrastou-me um pouco mais para fora do meu entorpecimento.

Abracei os joelhos, balançando-me ligeiramente para frente e para trás. A luz do buraco no teto esmaecera para a leve penumbra do começo da noite. Os investigadores chegariam no dia seguinte ou depois. Estava ficando um pouco tarde demais para subterfúgios, para mim mesma ou qualquer outra pessoa. Embora eu ainda tivesse dificuldade em admitir que pudesse estar correndo um sério risco de vida, estava começando a compreender o instinto que fazia com que os prisioneiros condenados à morte buscassem a confissão e a absolvição na véspera do cumprimento da pena de morte.

- Amar de verdade, quero dizer - Geilie insistia. - Não apenas querer ir para a cama com ele; sei que deseja isso e ele também. Todos querem. Mas você o ama?

Eu o amaria? Além dos anseios da carne? Nossa cela possuía a anonimidade escura do confessionário e uma alma à beira da morte não tinha tempo para mentiras.

- Sim — respondi e deitei a cabeça nos joelhos outra vez.

Fiquei em silêncio por algum tempo e pairei mais uma vez à beira do sono, quando a ouvi falar outra vez, como se falasse consigo mesma.

- Então é possível — ela disse pensativamente.

Os investigadores chegaram um dia depois. Da umidade do buraco dos ladrões, podíamos ouvir a agitação de sua chegada; os gritos dos habitantes da vila e o tropel dos cavalos nas pedras da rua principal. O alvoroço enfraqueceu à medida que a procissão desceu a rua em direção à praça distante.

- Chegaram - Geilie disse, ouvindo a turbulência acima. Apertamos as mãos, num reflexo, os antagonismos submersos no medo.

- Bem - eu disse, fingindo-me corajosa —, imagino que ser queimada seja melhor do que morrer congelada.

No caso, continuamos a congelar. Somente à tarde do dia seguinte é que a porta de nossa prisão girou bruscamente para trás e fomos arrancadas do buraco para sermos levadas a julgamento.

Para poder acomodar a multidão de espectadores, a sessão foi realizada na praça, diante da casa dos Duncan. Vi Geilie erguer os olhos rapidamente para as janelas com vidros em losango de sua sala de estar, em seguida desviar o olhar, sem expressão.

Havia dois investigadores eclesiásticos, sentados em bancos com almofadas atrás de uma mesa erguida na praça. Um dos juizes era extraordinariamente alto e magro, o outro, baixo e robusto. Faziam-me lembrar irre-sistivelmente de uma revista em quadrinhos americana que eu vira uma vez; sem saber seus nomes, batizei o alto de Mutt e o outro de Jeff.

A maioria dos aldeões estava lá. Olhando ao redor, pude ver muitos dos meus antigos pacientes. Mas os habitantes do castelo estavam notoriamente ausentes.

Foi John MacRae, o policial, carcereiro e carrasco da vila de Cranesir, quem leu a indiciação, ou acusação, contra as pessoas de Geillis Duncan e Claire Fraser, ambas acusadas perante o tribunal da Igreja de crime de bruxaria.

- Diante das evidências comprova-se que a acusada realmente causou a morte de Arthur Duncan, por meio de bruxaria — MacRae leu, em voz firme e regular. - Também ocasionou a morte pré-natal do filho de Janet Robinson, fez afundar o barco de Thomas MacKenzie, lançou sobre a vila de Cranesmuir uma dizimadora doença dos intestinos...

Assim continuou por algum tempo. Colum fora minucioso em seus preparativos.

Após a leitura da indiciação, as testemunhas foram chamadas. A maioria era de aldeões que eu não conhecia; nenhum dos meus pacientes estava entre elas, um fato pelo qual senti-me grata.

Enquanto o testemunho de muitos dos acusadores foi simplesmente absurdo e alguns evidentemente haviam sido pagos por seus serviços, outros tinham um evidente toque de verdade em suas palavras. Janet Robinson, por exemplo, que foi arrastada para a frente do tribunal por seu pai, pálida e trêmula, com uma mancha roxa na face, para confessar que havia concebido um filho de um homem casado e procurou os serviços de Geillis Duncan para se livrar da criança.

- Ela me deu um preparado para beber e umas palavras mágicas para dizer três vezes, quando a lua surgisse - a jovem balbuciou, olhando temerosamente de Geillis para seu pai, sem saber quem constituía uma ameaça maior. - Ela disse que isso faria minha menstruação voltar.

- E voltou? — Jeff perguntou com interesse.

- Não no começo, Excelência - a jovem respondeu, sacudindo a cabeça nervosamente. - Mas tomei a bebida outra vez, na lua minguante, e então voltou.

- Voltou?! A menina quase se esvaiu em sangue até a morte! — Uma mulher idosa, obviamente a mãe da jovem, interrompeu. - Foi somente porque ela achou que ia morrer que me contou toda a verdade. - Mais do que desejosa de acrescentar detalhes sangrentos, a sra. Robinson foi silenciada com alguma dificuldade, a fim de dar lugar às testemunhas seguintes.

Parecia não haver ninguém para dizer alguma coisa contra mim, fora a vaga acusação de que desde que eu estava presente na morte de Arthur Duncan, e colocara as mãos nele antes de morrer, obviamente devo ter tido alguma coisa a ver com seu assassinato. Comecei a achar que Geilie tinha razão; não fora eu o alvo de Colum. Assim sendo, talvez eu conseguisse escapar. Ou ao menos assim pensei até a mulher da colina aparecer.




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