A viajante do tempo



Baixar 3.14 Mb.
Página24/37
Encontro02.07.2019
Tamanho3.14 Mb.
1   ...   20   21   22   23   24   25   26   27   ...   37

— Bem, não é uma questão sobre a qual você tenha muito a dizer, não é? - a voz de Dougal tinha um desagradável tom de escárnio.

— Não. - A resposta de Colum foi cortante. - E embora eu raramente tenha encontrado motivos para agradecer a Deus, talvez ele tenha feito mais por mim do que eu imaginava. Sempre ouvi falar que o cérebro de um homem pára de funcionar quando seu pau está em pé e agora acho que acredito nisso. — Houve um sonoro barulho de pernas de cadeira arrastadas Para trás no assoalho de pedras. — Se os irmãos MacKenzie só têm um pau e um cérebro para os dois, então fico feliz com a minha parte da barganha!

Concluí que um terceiro participante nessa conversa em particular certamente não seria bem-vindo e afastei-me silenciosamente da porta, preparando-me para descer as escadas.

O ruído de saias farfalhando no primeiro patamar me fez parar onde estava. Não queria que me descobrissem ouvindo por trás da porta dos aposentos do chefe do clã e virei-me novamente em direção à porta. O patamar era largo e uma tapeçaria cobria uma das paredes quase do teto ao chão. Meus pés ficariam à mostra, mas não havia nada que eu pudesse fazer Escondendo-me como um rato atrás do tapete de parede, ouvi os passos que vinham de baixo diminuírem ao se aproximarem da porta. Parara na ponta mais distante do patamar, quando o visitante que eu não podia ver percebeu, como eu havia percebido, a natureza particular da conversa entre os irmãos.

- Não — Colum dizia, agora mais calmo. - Não, claro que não. A mulher é uma bruxa ou algo parecido.

- Sim, mas...- A resposta de Dougal foi interrompida pelo tom impaciente do irmão.

-Já disse que vou cuidar disso, Dougal. Não se preocupe, irmãozinho; providenciarei para que ela seja tratada convenientemente. - Um tom de ressentido afeto insinuara-se na voz de Colum.

- Vou lhe dizer uma coisa, Dougal. Escrevi ao duque, já que ele talvez pretenda caçar nas terras acima de Erlick, ele gosta de matar veados por lá. Pretendo enviar Jamie com ele; talvez como ele ainda tem uma queda pelo rapaz....

Dougal interrompeu com alguma coisa em gaélico, evidentemente uma observação grosseira, porque Colum riu e disse:

- Não, acho que Jamie já é suficientemente grande para cuidar de si mesmo. Mas se o duque tiver a intenção de interceder por ele junto a Sua Majestade Real, é a melhor chance de o rapaz obter um perdão. Se quiser, direi a Sua Excelência que você também irá. Pode ajudar Jamie como quiser e estará fora do caminho enquanto eu acerto as coisas por aqui.

Ouviu-se uma pancada abafada na ponta mais distante do patamar e arrisquei uma olhadela. Era a jovem Laoghaire, pálida como a parede branca atrás dela. Segurava uma bandeja com uma jarra de vinho; uma caneca de metal caíra da bandeja no chão acarpetado, produzindo o som que eu ouvira.

- O que foi isso? — a voz de Colum, repentinamente aguda, ecoou de dentro do aposento. Laoghaire deixou a bandeja na mesa junto à porta, quase derrubando a jarra de vinho em sua pressa e, virando-se, fugiu precipitadamente.

Podia ouvir os passos de Dougal aproximando-se da porta e compreendi que jamais conseguiria descer as escadas sem ser descoberta. Mal tive tempo de esgueirar-me do meu esconderijo e pegar a caneca que caíra, antes de a porta abrir-se.

- Ah, é você. — Dougal pareceu ligeiramente surpreso. — É o que a sra. Fitz mandou para a garganta irritada de Colum?

- Sim — respondi com desembaraço. — Ela disse que estima sua rápida melhora.

- Obrigado. - Movendo-se mais devagar, Colum surgiu na porta aberta. Sorriu para mim. - Agradeça a sra. Fitz por mim. E obrigado a você também, minha querida, por trazê-lo. Quer se sentar por um instante enquanto eu o bebo?

A conversa que ouvira por acaso na verdade me fizera esquecer meu propósito original, mas agora me lembrava da minha intenção de pedir um livro emprestado. Dougal pediu licença e eu segui Colum lentamente para a biblioteca, onde ele me ofereceu todas as suas prateleiras.

Colum ainda estava avermelhado, a discussão com o irmão continuava fresca em sua mente, mas respondeu minhas perguntas sobre os livros com uma boa aproximação de seu equilíbrio habitual. Somente o brilho em seus olhos e uma certa tensão na postura traíam seus pensamentos.

Encontrei um ou dois livros sobre ervas que pareciam interessantes e separei-os enquanto folheava um romance.

Colum atravessou o aposento até a gaiola de pássaros, sem dúvida pretendendo acalmar-se por meio de seu costume de observar as belas criaturinhas absortas em si mesmas saltando de um galho ao outro, cada qual um mundo em si mesmo.

O barulho de gritos lá fora atraiu minha atenção. Desse local elevado, os campos de trás do castelo eram visíveis por toda a extensão até o lago. Um pequeno grupo de cavaleiros dobrava a curva na ponta do lago, gritando de entusiasmo, enquanto a chuva os açoitava.

Ao se aproximarem, pude ver que não eram homens afinal de contas, mas garotos, a maioria adolescentes, mas com um garoto menor aqui e ali montado num pônei, esforçando-se para acompanhar os mais velhos. Imaginei se Hamish estaria com eles e logo descobri o revelador ponto de cabelos reluzentes, brilhando loucamente no dorso de Cobhar no meio do grupo.

O bando vinha a toda velocidade na direção do castelo, visando um dos inúmeros muros baixos de pedra que separavam um campo do outro. Um, dois, três, quatro, os garotos mais velhos em suas montarias saltaram o muro com a descuidada facilidade nascida da experiência.

Sem dúvida foi minha imaginação que fez o cavalo baio parecer demorar-se um instante, pois Cobhar seguia os outros cavalos com aparente entusiasmo. Partiu em direção ao muro, preparou-se e saltou.

Pareceu fazê-lo exatamente como os outros haviam feito, mas alguma coisa aconteceu. Talvez uma hesitação do seu cavaleiro, um puxão muito forte nas rédeas ou uma sela não muito firme. Porque os cascos dianteiros bateram no muro por uma diferença de alguns centímetros e cavalo, cavaleiro e tudo deram uma cambalhota por cima do obstáculo na mais espetacular parábola da fatalidade que eu já vi.

- Ah!


Atraído por minha exclamação, Colum virou a cabeça para a janela a tempo de ver Cobhar cair pesadamente de lado, a pequena figura de Hamish presa embaixo dele. Apesar de sua dificuldade, Colum moveu-se depressa. Estava a meu lado, debruçado à janela, antes de o cavalo sequer começar a lutar para ficar em pé.

O vento e a chuva fustigavam pela janela, ensopando o veludo do casaco de Colum. Espreitando ansiosamente por cima de seu ombro, vi um grupo de garotos empurrando e afastando uns aos outros, na ânsia de ajudar. Pareceu que um longo tempo havia transcorrido até o grupo apartar-se e eu ver a pequena e robusta figura cambalear para fora do ajuntamento, segurando o estômago. Sacudiu a cabeça para as inúmeras ofertas de auxílio e saiu meio tonto, mas pisando com determinação até o muro, onde se debruçou e vomitou profusamente. Em seguida, deslizou pela parede e ficou sentado na grama molhada, as pernas abertas, o rosto virado para a chuva. Quando o vi esticar a língua para fora para pegar as gotas de chuva, coloquei a mão no ombro de Colum.

- Ele está bem - eu disse. - Só ficou sem ar por uns instantes. Colum cerrou os olhos e expirou ruidosamente, o corpo subitamente frouxo com a liberação da tensão. Olhei-o com simpatia.

- Importa-se com ele como se fosse seu próprio filho, não é? - perguntei.

Os olhos cinza flamejaram repentinamente, penetrando os meus com a mais extraordinária expressão de sobressalto. Por um instante, não se ouviu outro som no aposento que não o tique-taque do relógio de vidro na prateleira. Então, uma gota d'água rolou pelo nariz de Colum, parando na ponta, reluzente. Estendi a mão involuntariamente para enxugá-la com meu lenço e a tensão em seu rosto dissipou-se.

- Sim - respondeu simplesmente.

Por fim, contei a Jamie apenas sobre o plano de Colum de enviá-lo para caçar com o duque. Agora eu estava convencida de que seus sentimentos por Laoghaire eram apenas de uma amizade cavalheiresca, mas eu não sabia o que ele poderia fazer se soubesse que seu tio havia seduzido a garota e a engravidado. Aparentemente, Colum não pretendia solicitar os serviços de Geilie Duncan na emergência; imaginei se a jovem seria obrigada a se casar com Dougal ou se Colum encontraria um outro marido para ela antes que a gravidez começasse a aparecer. De qualquer forma, Jamie e Dougal iam ficar confinados numa hospedaria de caça durante um longo tempo, achei que seria melhor que a sombra de Laoghaire não fizesse parte do grupo.

- Hum - ele disse pensativamente. - Vale a pena tentar. Fica-se amigo quando se caça junto com alguém o dia todo e volta-se à noite para tomar um uísque junto à lareira. - Ele acabou de amarrar meu vestido nas costas e inclinou-se para me beijar de leve no ombro.

- Vou lamentar ter que deixá-la, Sassenach, mas pode ser o melhor a fazer.

- Não se preocupe comigo — eu disse. Eu não havia percebido antes que sua partida necessariamente me deixaria sozinha no castelo e a idéia deixou-me mais do que ligeiramente nervosa. Ainda assim, estava decidida a me arranjar, se isso era o melhor para ele.

- Está pronto para o jantar? — perguntei. Sua mão demorou-se na minha cintura e eu me virei para ele.

- Hum - ele disse um instante depois,. -- Não me importaria de ficar com fome.

- Bem, eu me importaria - retruquei. — O senhor vai ter que esperar.

Olhei ao longo da mesa de jantar e pelo salão. Agora eu já conhecia a maioria dos rostos, alguns intimamente. E que bando diversificado eles formavam, refleti. Frank teria ficado fascinado - tantos tipos faciais diferentes.

Pensar em Frank era como tocar em um dente dolorido; minha tendência era afastar o pensamento. Mas chegaria a hora em que não poderia mais adiar e forcei minha mente outra vez, desenhando-o cuidadosamente, delineando os arcos longos e bem arqueados de suas sobrancelhas com meus pensamentos como um dia eu os delineara com meus dedos. Não me importa que meus dedos formigassem repentinamente com a lembrança de sobrancelhas mais ásperas e grossas e do azul profundo dos olhos sob elas.

Apressadamente, me virei na direção do rosto mais próximo, como um antídoto para pensamentos tão perturbadores. Por acaso, era o de Murtagh. Bem, ao menos ele não se parecia com nenhum dos dois homens que assombravam meus pensamentos.

Baixo, franzino, mas vigoroso como um macaco, com braços longos que reforçavam a aparência simiesca, tinha sobrancelhas baixas e maxilar estreito que, por alguma razão, me faziam pensar em habitantes das cavernas e desenhos do Homem Primitivo, exibidos em alguns dos artigos de Frank. Mas não um Neanderthal. Um picto. Era isso. Havia algo de muito estável a respeito do pequeno escocês que me lembrava as pedras desenhadas, castigadas pelo tempo, antigas mesmo agora, que mantinham sua guarda implacável nas encruzilhadas e nos cemitérios.

Distraída com a idéia, examinei os outros comensais com um olho clínico para identificar tipos étnicos. Aquele homem perto da lareira, por exemplo, John Cameron, era seu nome, era um normando se eu já tivesse Visto um — não que tivesse — com maçãs do rosto altas e a testa alta e estreita, lábio superior longo e a pele escura de um gaulês.

Um ou outro saxão louro aqui e ali... ah, Laoghaire, o exemplar perfeito. Pele clara, olhos azuis e só um pouquinho rechonchuda... reprimi a observação maldosa. Ela evitava cuidadosamente olhar para mim ou para Jamie, conversando animadamente com as amigas em uma das mesas mais para o final do salão.

Olhei na direção oposta, para a mesa seguinte, onde Dougal MacKenzie estava sentado, desta vez separado de Colum. Um maldito viking, é o que ele era. Com sua altura imponente e aquelas maçãs do rosto planas e largas, eu podia facilmente imaginá-lo no comando de um navio de dragões, os olhos encovados brilhando de cobiça e ganância, enquanto espreitava através da neblina para uma vila litorânea numa encosta rochosa.

A mão grande, o pulso coberto de uma penugem cor de cobre, passou por mim para pegar um pãozinho de aveia da bandeja. Outro nórdico, Jamie. Ele me fazia lembrar das lendas da sra. Baird sobre a raça de gigantes que um dia vagou pela Escócia e fincou seus ossos longos nas terras do norte.

A conversa girava em torno de temas gerais, como sempre, pequenos grupos cochichando entre uma mordida e outra. Meus ouvidos, porém, captaram um nome familiar, pronunciado numa mesa próxima. Sandringham. Pensei que a voz fosse de Murtagh e me virei para ver. Ele estava sentado ao lado de Ned Gowan, mastigando laboriosamente.

- Sandringham? Ah, o velho Willie, o terror dos traseiros - disse Ned, pensativamente.

- O quê?! - exclamou um dos soldados mais jovens, engasgando com sua cerveja.

- Nosso reverenciado duque gosta de rapazes, ou assim ouvi dizer -explicou Ned.

- Mmm - concordou Rupert, a boca cheia. Engolindo, acrescentou: -Tinha uma queda pelo jovem Jamie, da última vez que visitou estas paragens, se me lembro bem. Quando foi, Dougal? Trinta e oito? Trinta e nove?

- Trinta e sete - Dougal respondeu da mesa seguinte. Estreitou os olhos para seu sobrinho. - Você era um rapaz muito bonito aos dezesseis anos, Jamie.

Jamie balançou a cabeça, mastigando.

- Sim. E rápido, também.

Quando as risadas acalmaram-se, Dougal começou a provocar Jamie.

- Não sabia que você era um favorito, Jamie. Diz-se por aí que o duque andou trocando um traseiro dolorido por terras e cargos.

- Deve ter percebido que não tenho nem um nem outro — Jamie respondeu com um sorriso, seguido de novas gargalhadas.

- O quê? Nem chegou perto? - disse Rupert, mastigando ruidosamente.

- Bem mais perto do que eu gostaria, verdade seja dita.

- Ah, mas até onde teria gostado que ele chegasse, hein, rapaz? - A voz estrondosa veio de um ponto mais distante da mesa, de um homem alto, de barba castanha, que eu não reconheci, e foi saudado com mais gargalhadas e comentários obscenos. Jamie sorriu tranqüilamente e pegou outro pão, sem se deixar perturbar com os gracejos.

- Foi por isso que deixou o castelo tão de repente e voltou para o seu pai? - Rupert perguntou.

- Foi.

- Ora, devia me ter dito que estava tendo problemas nessa área, Jamie - Dougal disse, fingindo-se preocupado. Jamie produziu um ruído escocês baixo, no fundo da garganta.



- E se eu tivesse lhe falado sobre isso, seu velho patife, você teria colocado um pouco de sumo de papoula na minha cerveja uma noite e me deixado na cama de Sua Excelência como um pequeno presente.

A mesa veio abaixo de risadas e Jamie esquivou-se quando Dougal atirou uma cebola nele.

Rupert estreitou os olhos para Jamie.

- Parece-me, rapaz, que eu o vi, pouco antes de partir, entrando nos aposentos do duque no começo da noite. Tem certeza de que não está escondendo alguma coisa da gente? - Jamie pegou outra cebola e atirou nele. Não o atingiu e ela saiu rolando pelo chão.

- Não —Jamie disse, rindo —, ainda sou virgem, ao menos dessa forma. Mas se precisa saber tudo sobre isso para poder dormir, Rupert, eu lhe conto, com prazer.

Entre gritos de "Conta! Conta!", ele deliberadamente encheu uma caneca de cerveja e recostou-se no banco, na pose clássica do contador de histórias. Pude ver Colum na mesa principal, a cabeça inclinada para a frente para ouvir, tão atento quanto os cavalariços e os soldados em nossa mesa.

- Bem - começou -, é bem verdade o que Ned diz. Sua Excelência tinha uma queda por mim, embora eu fosse um garoto inocente aos dezesseis... - Nesse ponto foi interrompido por uma série de comentários debochados e elevou a voz para continuar. — Sendo, como eu disse, inocente quanto a esses assuntos, não fazia a menor idéia do que ele pretendia, embora me parecesse um pouco estranho o modo como Sua Excelência estava sempre me dando tapinhas como num cachorrinho e estivesse tão interessado no que eu pudesse ter na minha bolsa na cintura. ("Ou abaixo dela!", gritou uma voz bêbada.)

- Achei mais estranho ainda quando ele me encontrou me lavando no rio e quis esfregar minhas costas para mim. Quando terminou minhas costas e continuou com o resto, comecei a ficar um pouco nervoso e quando colocou a mão embaixo do meu kilt, comecei a compreender o que ele queria. Eu podia ser inocente, mas não era idiota, sabe.

- Saí dessa situação em particular mergulhando na água, com kilt e tudo, e nadando para o outro lado. Sua Excelência não tinha a intenção de arriscar suas roupas caras na lama e na água. De qualquer modo, depois disso eu tomava muito cuidado para não ficar sozinho com ele. Ele me pegou uma ou duas vezes no jardim ou no pátio, mas tive chance de escapar sem maiores danos do que ele beijando minha orelha. O outro único momento difícil foi quando ele se deparou comigo sozinho na estrebaria.

- Na minha estrebaria? - O Velho Alec pareceu horrorizado. Levantou-se parcialmente e gritou para a mesa principal do outro lado do salão. — Colum, faça com que esse homem fique longe da minha estrebaria! Não vou querer que assuste meus cavalos, duque ou não! Nem que incomode os rapazes! - acrescentou, numa óbvia reflexão posterior.

Jamie continuou com sua história, sem se deixar perturbar pela interrupção. As duas filhas adolescentes de Dougal ouviam extasiadas, a boca ligeiramente aberta.

- Eu estava numa baia, sabe, e ali não havia muito espaço de manobra. Eu estava debruçado sobre (mais observações obscenas)... sobre a manjedoura, como dizia, retirando as cascas do fundo, quando ouvi um barulho atrás de mim e, antes que pudesse me endireitar, meu kilt foi jogado para cima, na minha cintura, e algo duro pressionava o meu traseiro.

Abanou a mão para acalmar o tumulto antes de continuar.

- Bem, não gostei da idéia de ser importunado em uma baia, mas também não via saída àquela altura. Já estava trincando os dentes e desejando que não doesse muito, quando o cavalo - aquele cavalo preto, grande, Ned, que você comprou em Brocklebury - sabe, aquele que Colum vendeu a Breadalbin - bem o cavalo não gostou do barulho que Sua Excelência estava fazendo. A maioria dos cavalos gosta que você converse com eles, e aquele também, mas ele tinha uma aversão peculiar a vozes muito agudas. Eu não podia levá-lo ao pátio quando havia crianças pequenas por perto, porque ele ficava nervoso com seus berros e começava a escarvar o chão e dar pinotes.

- Sua Excelência, como devem se recordar, tem uma voz bastante aguda e estava ainda mais aguda do que o normal nessa ocasião, já que ele estava um pouco excitado. Bem, como ia dizendo, o cavalo não gostou — nem eu, devo dizer - e começou a bater os cascos e resfolegar, girou o corpo e imprensou Sua Excelência contra a parede da baia. Assim que o duque me soltou, pulei dentro da manjedoura e passei para o outro lado do cavalo, deixando Sua Excelência para se livrar do cavalo como pudesse.

Jamie parou para tomar fôlego e um gole de cerveja. A essa altura, detinha a atenção de todos no salão, os rostos voltados para ele, brilhando à luz dos tocheiros. Aqui e ali, podia-se perceber um cenho franzido diante dessas revelações a respeito de um poderoso nobre da Coroa Inglesa, mas a reação geral era de um prazer irrestrito com o escândalo. Compreendi que o duque não era um personagem muito popular no Castelo Leoch.

- Tendo conseguido chegar tão perto, por assim dizer, Sua Excelência colocou na cabeça que iria me possuir de qualquer jeito. Assim, no dia seguinte, ele diz ao MacKenzie que seu criado pessoal adoeceu e pede-lhe que me empreste a ele para ajudá-lo a se banhar e vestir. - Colum cobriu o rosto fingindo-se horrorizado, para regozijo geral. Jamie balançou a cabeça para Rupert.

- Foi por isso que você me viu entrando no quarto de Sua Excelência à noite. Foram ordens, pode-se dizer.

- Podia ter-me dito, Jamie. Eu não o obrigaria a ir — Colum disse, com um olhar de reprovação.

Jamie encolheu os ombros e riu.

- Fui impedido pela minha timidez natural, tio. Além disso, eu sabia que você estava tentando negociar com o sujeito; achei que poderia atrapalhar as negociações se fosse forçado a dizer a Sua Excelência que mantivesse as mãos longe do traseiro de seu sobrinho.

- Muito atencioso de sua parte, Jamie — Colum disse, secamente. — Então, você se sacrificou pelos meus interesses, não foi?

Jamie ergueu a caneca de cerveja em um pretenso brinde.

- Seus interesses estão sempre em primeiro lugar em minha mente, tio - disse e achei que, apesar do tom zombeteiro, havia uma distinta verdade subjacente no que ele dizia, que Colum, assim como eu, também percebeu.

Esvaziou a caneca e colocou-a na mesa.

- Mas, não — disse, limpando a boca. — Neste caso, eu não achei que o dever de família exigisse tanto assim de mim. Fui aos aposentos do duque, porque você mandou que eu fosse, mas foi apenas isso.

- E você saiu de lá outra vez com o eu intacto? - Rupert parecia cético. Jamie riu.

- Sim, saí. Veja, assim que recebi a ordem, procurei a sra. Fitz e disse-lhe que eu precisava desesperadamente de uma dose de xarope de figos. Quando ela o deu para mim, vi onde ela guardou a garrafa e voltei silenciosamente um pouco mais tarde e tomei a garrafa toda.

O salão explodiu em gargalhadas, inclusive a sra. Fitz, que ficou tão ruborizada que pensei que fosse ter um ataque. Levantou-se cerimoniosamente de seu lugar, deu a volta à mesa com sua ginga e desfechou um peteleco bem-humorado na orelha de Jamie.

- Ah, então foi isso que aconteceu com o meu remédio, seu desgraçado! - Com as mãos nos quadris, sacudiu a cabeça, fazendo os brincos verdes adejarem como libélulas. - O melhor que eu já fiz!

- Ah, foi muito eficaz - ele assegurou-lhe, rindo da avantajada senhora

- Ah, imagino que sim! Quando penso o que aquela quantidade de remédio deve ter feito às suas entranhas, rapaz, espero que tenha valido a pena para você. Deve ter ficado imprestável dias seguidos.

Ele sacudiu a cabeça, ainda rindo.

- É verdade, mas também fiquei imprestável para o que Sua Excelência tinha em mente. Ele não pareceu se importar nem um pouco quando pedi licença para ir embora. Mas eu sabia que não poderia fazer isso duas vezes assim tão logo as dores de barriga melhoraram, peguei um cavalo da estrebaria e fui embora. Levei muito tempo para chegar em casa, já que tinha que parar a cada dez minutos, mas cheguei na hora do jantar no dia seguinte.

Dougal fez sinal para que trouxessem mais uma jarra de cerveja, que ele passou de mão em mão pela mesa para Jamie.

- Sim, seu pai mandou dizer que achava que talvez você já tivesse aprendido o suficiente da vida no castelo por enquanto - disse, sorrindo melancolicamente. — Achei que havia um tom em sua carta que eu não compreendi bem na época.

- Bem, espero que tenha preparado um novo lote de xarope de figo, sra. Fitz - Rupert interrompeu, cutucando-a com familiaridade nas costelas. - Sua Excelência deve chegar aqui em um ou dois dias. Ou está contando com sua mulher para protegê-lo desta vez, Jamie? - Lançou-me um olhar malicioso. - Pelo que ouvi dizer, você vai ter que proteger ela. Disseram que o criado do duque não compartilha as preferências de Sua Excelência, embora seja muito ativo.

Jamie empurrou o banco para trás e levantou-se da mesa, dando-me a mão para me ajudar. Passou o braço pelos meus ombros e sorriu de volta para Rupert.

- Bem, então suponho que nós dois vamos ter que enfrentá-los juntos, costa a costa.

Os olhos de Rupert arregalaram-se de assombro.

- Costa a costa?! — exclamou. — Sabia que havíamos esquecido de lhe dizer alguma coisa antes de seu casamento, rapaz! Não é de admirar que ainda não a tenha engravidado!

A mão de Jamie segurou meu ombro com força, virando-me em direção à arcada, e escapamos do salão, sob uma chuva de risadas e conselhos obscenos.

No corredor escuro do lado de fora do salão, Jamie apoiou-se nas pedras da parede e dobrou-se de rir. Sem conseguir ficar em pé, deixei-o cair no chão aos seus pés, incapaz de conter o riso.

- Você não contou a ele, contou? -Jamie disse, arquejante, por fim.

Sacudi a cabeça.

- Não, claro que não. — Ainda respirando com dificuldade, tateei em busca de sua mão e ele me ajudou a ficar de pé. Deixei-me cair sobre seu peito.

- Deixe-me ver se entendi agora. - Segurou meu rosto com as duas mãos e pressionou a testa contra a minha, o rosto tão perto que seus olhos transformaram-se numa grande órbita azul e seu hálito soprava quente no meu queixo.

- Frente a frente. É assim? - A efervescência de riso estava arrefecendo em meu sangue, substituída por outra coisa igualmente potente. Toquei seus lábios com minha língua, enquanto minhas mãos ocupavam-se mais embaixo.

- Os rostos não são as partes essenciais. Mas você está aprendendo.

No dia seguinte, eu estava no consultório, ouvindo pacientemente uma senhora idosa da vila, parente do cozinheiro de sopas, que detalhava um tanto loquazmente a crise de garganta inflamada de sua nora, que teoricamente tinha alguma coisa a ver com sua atual queixa de angina, embora no momento eu não conseguisse ver a ligação. Uma sombra atravessou a porta, interrompendo a lista de sintomas da velha senhora.

Ergui os olhos, surpresa, e vi Jamie entrar apressado, seguido do Velho Alec, os dois parecendo preocupados e ansiosos. Jamie removeu sem nenhuma cerimônia o depressor de língua improvisado que eu estava segurando e me colocou de pé, segurando minhas mãos entre as suas.

- O que... comecei a dizer, mas fui interrompida por Alec, espreitando por cima do ombro de Jamie para as minhas mãos, que ele lhe mostrava.

- Sim, as mãos servem, mas e os braços, homem? Ela tem braços para isso?

- Olhe. —Jamie agarrou uma das minhas mãos e estendeu meu braço para a frente, medindo-o contra um dos seus próprios braços.

- Bem - Alec disse, examinando-o em dúvida -, pode ser. Sim, acho que servem.

- Poderiam me dizer o que acham que estão fazendo? - perguntei, mas antes de poder terminar, já estava sendo arrastada pelas escadas entre os dois homens, deixando minha paciente idosa de boca aberta atrás de nós, perplexa.

Alguns instantes depois, eu olhava com desconfiança a parte traseira grande, marrom e brilhante de uma égua, a uns quinze centímetros do meu rosto. O problema fora esclarecido no caminho para a estrebaria, com Jamie explicando e o Velho Alec fazendo coro com observações, imprecações e interjeições.

Losgann, em geral, uma boa parideira, e um valioso animal da estrebaria de Colum, estava com dificuldades. Isso eu mesma podia constatar; a égua estava deitada de lado e periodicamente os flancos brilhantes elevavam-se e o corpo enorme parecia estremecer. De quatro atrás do cavalo eu podia ver os lábios da vagina abrirem-se ligeiramente a cada contração porém nada mais acontecia; nenhum sinal de um minúsculo casco ou de um delicado focinho úmido aparecia na abertura. O potro, um temporão estava evidentemente de lado ou completamente virado. Alec achava que estava de lado, Jamie achava que estava virado e eles pararam para argumentar sobre isso por um instante, até que eu impacientemente coloquei ordem na reunião perguntando o que esperavam que eu fizesse, qualquer que fosse o caso.

Jamie olhou-me como se eu fosse um pouco tola.

- Virar a cria, é claro - disse pacientemente. — Girar as patas da frente para ela poder sair.

- Ah, só isso? - Olhei para a égua. Losgann, cujo belo nome na verdade significava "Rã", tinha a ossatura delicada para um cavalo, mas ainda assim extremamente grande.

- Hã, quer dizer, enfiar a mão lá dentro? - Olhei minha mão disfarçadamente. Provavelmente daria — a abertura era bastante grande -, mas e depois?

As mãos de ambos os homens eram grandes demais para a tarefa. E Roderick, o cavalariço que geralmente era pressionado a cuidar de situações delicadas como esta, estava, é claro, imobilizado com uma tala e uma tipóia que eu lhe arranjara, no braço direito - quebrara o braço há dois dias. Willie, o outro rapaz da estrebaria, entretanto, fora buscar Roderick, para dar conselhos e apoio moral. Nesse ponto, ele chegou, vestido apenas com um par de calças esfarrapadas, o peito magro brilhando com sua alvura na penumbra da estrebaria.

- Vai ser difícil — disse, em dúvida, avisado da situação e da sugestão de que eu o substituísse. - É complicado. Há um jeito especial, mas é preciso um pouco de força também.

- Não se preocupe -Jamie disse com confiança. - Claire é muito mais forte do que você, seu imprestável. Basta lhe dizer o que procurar no tato e o que fazer, e ela vai virá-lo rapidamente.

Apreciei o voto de confiança, mas não tinha de modo algum tanto sangue-frio. Dizendo a mim mesma com firmeza que aquilo não era pior do que dar assistência a uma cirurgia abdominal, recolhi-me a uma baia para trocar meu vestido por calças e um guarda-pó rústico de aniagem. Lavei a mão e o braço até a altura do ombro com sabão de sebo.

- Bem, ao ataque — murmurei baixinho e deslizei minha mão para dentro.

Havia bem pouco espaço de manobra e, no começo, não sabia dizer o que eu estava tateando. Fechei os olhos para me concentrar melhor e ir buscando cautelosamente. Havia áreas lisas e lugares pontudos. As partes lisas seriam o corpo e as pontudas as patas ou a cabeça. Eram as patas que eu queria - as patas dianteiras, para ser específica. Gradualmente, aCostumei-me à sensação do tato e à necessidade de ficar imóvel quando vinha uma contração; os músculos surpreendentemente fortes do útero contraíam-se sobre minha mão e braço como uma braçadeira, esmagando meus próprios ossos muito dolorosamente até a contração começar a abrandar e eu poder retomar minha busca.

Finalmente, meus dedos, tateando desajeitadamente, encontraram algo que eu sabia o que era.

- Coloquei a mão no focinho dele! -gritei, triunfante. - Encontrei a cabeça! *

- Ótimo, menina, ótimo! Não solte! - Alec agachou-se ansiosamente ao meu lado, dando uns tapinhas reconfortantes na égua quando uma nova contração começou. Cerrei os dentes e apoiei a cabeça contra o traseiro brilhante enquanto meu pulso era esmigalhado pela força da contração. No entanto, ela cessou e eu não larguei o focinho do potro. Levando a mão cautelosamente para cima, encontrei a curva da órbita ocular e a testa, em seguida a pequena elevação da orelha dobrada. Esperando atravessar mais uma contração, segui a curva do pescoço para baixo, até a omoplata.

- Está com a cabeça virada sobre o ombro - relatei. - Pelo menos, a cabeça está voltada na direção certa.

- Ótimo. - Jamie, junto à cabeça da égua, deslizava a mão pelo pescoço castanho suado para acalmá-la. - É provável que as patas estejam dobradas embaixo do peito. Veja se consegue colocar a mão em um dos joelhos.

Assim, continuei, tateando, apalpando, com o braço enterrado até o ombro na escuridão morna do animal, sentindo a terrível força das contrações do parto e seu ansiado arrefecimento, lutando cegamente para alcançar meu objetivo. Senti-me como se eu mesma estivesse dando à luz e certamente era uma tarefa árdua.

Finalmente, minha mão segurou um casco; podia sentir a superfície arredondada e a borda aguçada da curva ainda não utilizada. Seguindo as mstruções ansiosas, em geral contraditórias, de meus guias da melhor forma possível, eu alternadamente puxava e empurrava, aos poucos girando o pesado volume da cria, trazendo uma pata para a frente, empurrando outra para trás, suando e gemendo com a égua.

E então, de repente, tudo funcionou. Uma contração amainou e subitamente tudo deslizou sem percalços para o lugar certo. Esperei, sem me mover, pela próxima contração. Ela veio e um pequeno focinho úmido surgiu repentinamente, empurrando minha mão para fora com ele. As Minúsculas narinas alargaram-se brevemente, como se estivessem interessadas nessa nova sensação, depois desapareceram novamente.

- A próxima vai resolver! - Alec estava quase dançando de contentamento, seu corpo deformado pela artrite saltando de um lado para o outro no feno. - Vamos, Losgann. Vamos, minha rãzinha!

Como se atendendo ao pedido, a égua emitiu um relinchar convulsivo Suas ancas flexionaram-se pronunciadamente e o potro deslizou suavemente para o feno limpo, numa enxurrada de patas ossudas e orelhas enormes.

Sentei-me no feno, rindo tolamente. Eu estava coberta de secreções e sangue, exausta e dolorida, e cheirando fortemente aos aspectos menos agradáveis de um cavalo. Eu estava eufórica.

Fiquei sentada observando enquanto Willy e Roderick, com apenas uma das mãos, cuidavam do recém-chegado, limpando-o com punhados de feno. E comemorei com o resto quando Losgann virou-se e lambeu-o, cutucando-o gentilmente e empurrando-o com o focinho para que ele ficasse de pé em suas patas enormes e trôpegas.

- Um belo trabalho, dona! Belíssimo! — Alec exultava, sacudindo minha mão gosmenta em congratulações. Percebendo repentinamente que eu estava oscilando no lugar onde estava empoleirada e num estado deplorável, voltou-se e gritou para um dos rapazes que trouxesse água. Em seguida, deu a volta para trás de mim e colocou as mãos velhas e calejadas nos meus ombros. Com uma surpreendente destreza e um toque suave, pressionou e massageou, desfazendo a tensão nos músculos dos meus ombros e relaxando os nós no meu pescoço.

- Pronto, dona - disse, finalmente. - Trabalho duro, hein? - Sorriu para mim, depois olhou radiante, com verdadeira adoração, para o potro.

- Belo rapaz - sussurrou. - Então, quem é o meu lindo rapazinho? Jamie ajudou-me a me lavar e trocar de roupa. Meus dedos estavam enrijecidos demais para conseguir fechar os botões do corpete e eu sabia que meu braço inteiro estaria coberto de manchas roxas pela manhã, mas sentia uma grande paz e satisfação.

A chuva parecia durar para sempre, de modo que, quando finalmente um dia amanheceu ensolarado e luminoso, estreitei os olhos na luz do dia como uma toupeira recém-saída de sua toca.

— Sua pele é tão fina que posso ver o sangue movendo-se sob ela " Jamie disse, traçando o caminho de um raio de sol pela minha barriga nua-— Posso seguir as veias de sua mão ao coração. — Deslizou o dedo suavemente do meu pulso para a curva do cotovelo, pelo lado interno da parte superior do meu braço e pela inclinação abaixo da minha clavícula.

- Esta é a veia subclavicular - observei, olhando para baixo do meu nariz para o caminho que seu dedo percorria.

- Ah, é? Ah, sim, porque está abaixo da clavícula. Conte-me mais. -O dedo deslizou mais para baixo. - Gosto de saber os nomes originados do latim; nunca pensei que seria tão agradável fazer amor com uma médica.

- Isso - eu disse, com precisão - é uma auréola, e você sabe, porque eu lhe disse na semana passada.

- É verdade - murmurou. — E olhe só, há uma outra. — A cabeça brilhante afundou para deixar que sua língua substituísse o dedo, depois viajou mais para baixo.

- Umbilicus — eu disse com a respiração entrecortada.

- Hum - murmurou, os lábios abafados abrindo-se num sorriso contra minha pele transparente. - E então, o que é isso?

- Diga-me você - respondi, agarrando sua cabeça com força. Mas ele não conseguiu responder.

Mais tarde, fiquei passando o tempo preguiçosamente na minha cadeira no consultório, deleitando-me sonhadoramente com as lembranças de acordar em uma cama de raios de sol, os lençóis desalinhados em ofuscantes bancos de areia branca, como as dunas de uma praia. Uma das minhas mãos descansava em meu seio e eu brinquei indolentemente com o mami-lo, apreciando a sensação de avolumar-se sob a palma da minha mão, sob o algodão fino do meu corpete.

- Divertindo-se?

A voz sarcástica vinda da porta me fez levantar tão rapidamente que bati com a cabeça em uma prateleira.

- Oh - exclamei, um pouco irritada. - Geilie. Quem mais? O que está fazendo aqui?

Ela deslizou para dentro do consultório, movendo-se como se andasse sobre rodas. Eu sabia que ela possuía pés; eu os vira. O que eu não conseguia imaginar é onde ela os colocava quando andava.

- Vim trazer um pouco de açafrão da Espanha para a sra. Fitz; ela estava precisando para a chegada do duque.

- Mais especiarias? - perguntei, começando a recuperar meu bom humor. - Se o sujeito comer metade do que ela está preparando para ele, vão ter que levá-lo rolando para casa.

-- Podiam fazer isso agora mesmo. Ouvi dizer que ele é roliço como uma bola. - Descartando o assunto do duque e seu físico, perguntou-me se eu gostaria de juntar-me a ela numa expedição pelos contrafortes mais Próximos.

-- Estou precisando de um pouco de musgo - explicou. Sacudiu graciosamente as mãos longas e desprovidas de ossos. - Dá uma excelente loção para as mãos, fervido em leite com um pouco de lã de carneiro.

Lancei um olhar à abertura da minha janela, onde as partículas de poeira pareciam enlouquecidas na luz dourada. Um leve cheiro de fruta madura e de feno recém-cortado flutuava na brisa.

- Por que não?

Esperando enquanto eu reunia meus cestos e garrafas, Geilie caminhou pelo meu consultório, mexendo nas peças e largando-as a esmo. Parou junto a uma mesinha e pegou o objeto que estava ali, franzindo a testa.

- O que é isto?

Parei o que estava fazendo e aproximei-me dela. Ela segurava um pequeno feixe de plantas secas, presas com três fios enrolados; preto, branco e vermelho.

—Jamie disse que é mau agouro.

- Ele tem razão. Onde você achou isso?

Contei-lhe que o pequeno maço de plantas estava sob o meu travesseiro.

- Fui procurá-lo e o encontrei embaixo da minha janela no dia seguinte, onde Jamie o atirara. Eu pretendia levá-lo até sua casa e perguntar-lhe se sabia alguma coisa a respeito, mas me esqueci.

Ela ficou tamborilando um dedo pensativamente contra os dentes da frente, sacudindo a cabeça.

- Não, não posso dizer que saiba. Mas pode haver um modo de descobrir quem o deixou para você.

- É mesmo?

- Sim. Venha à minha casa amanhã de manhã e eu lhe direi. Recusando-se a falar mais sobre o assunto, girou num floreio de manto verde, deixando-me para segui-la se quisesse.

Levou-me até bem alto nos contrafortes, galopando quando havia estrada para isso, caminhando quando não havia. Depois de uma hora de viagem da vila, ela parou perto de um riacho, coberto pelos galhos pendentes de salgueiros-chorões.

Ladeamos o riacho e seguimos a esmo pelos contrafortes, colhendo as plantas tardias de verão que ainda sobreviviam, frutas silvestres, em amadurecimento, do começo do outono, e os grossos e amarelos cogumelos que brotavam dos troncos das árvores nas pequenas e sombreadas ravinas.

A figura de Geilie desapareceu nas samambaias acima de mim, quando parei para raspar um pouco de casca de álamo no meu cesto. Os glóbulos de seiva seca na casca papirácea pareciam gotas congeladas de sangue, o vermelho-escuro resplandecente da luz do sol preso em seu interior.

Um barulho despertou-me do meu devaneio e olhei para cima da colina, na direção de onde parecia ter vindo.

Ouvi o mesmo som outra vez; um choro agudo, como um miado. Parecia vir de cima, de uma fenda na rocha, perto do cume do monte. Larguei o cesto no chão e comecei a correr para cima.

- Geilie! - gritei. - Venha até aqui! Alguém abandonou um bebê!

O barulho de alguém abrindo caminho apressadamente pelo mato e murmurando imprecações precedeu-a morro acima, conforme ela se debatia em meio aos arbustos emaranhados na encosta. Seu rosto claro estava afogueado e contrariado e tinha galhos e folhas pelos cabelos.

- O que em nome de Deus... - começou a dizer e, em seguida, veio correndo. — Pelo sangue de Cristo! Coloque-o no chão! — Apressadamente tirou o bebê dos meus braços, colocou-o no lugar onde eu o encontrara, numa pequena depressão na rocha. O buraco raso e liso, na forma de uma bacia, tinha menos de um metro de largura. Em um dos lados do buraco havia uma tigela rasa de madeira, cheia até a metade com leite fresco e, aos pés do bebê, via-se um pequeno buquê de flores silvestres, amarrado com um pedaço de cordão vermelho.

- Mas ele está doente! – protestei, inclinando-me para a criança outra vez. - Quem iria deixar uma criança doente aqui em cima sozinha?

A criança estava claramente muito doente; o rostinho contraído estava esverdeado, com profundas olheiras sob os olhos, e os pequenos punhos sacudiam-se fracamente sob o cobertor. A criança deixara-se cair frouxamente quando a peguei nos braços; admirava-me que tivesse tido forças para choramingar.

- Os pais dela - Geilie disse laconicamente, segurando-me pelo braço para me impedir de pegar a criança novamente. - Deixe-a. Vamos sair daqui.

- Os pais dela? — exclamei, indignada. - Mas...

- É uma troca - disse com impaciência. - Deixe-a e venha. Agora! Arrastando-me com ela, fugiu de volta pelo mato. Protestando, segui-a ladeira abaixo até chegarmos, afogueadas e arquejantes, no sopé da colina, onde a obriguei a parar.

- O que é isso? — indaguei. — Não podemos simplesmente abandonar uma criança doente assim a céu aberto. E o que quer dizer com uma troca?

- Uma troca - disse, irritada. - Certamente você deve saber o que é uma troca. Quando as fadas roubam uma criança humana, deixam uma das suas no lugar. Você sabe que é uma criança trocada porque ela chora e se queixa o tempo todo e não cresce nem se desenvolve.

- Claro que sei o que é - eu disse. - Mas você não acredita nessa bobagem, não é?

Lançou-me um olhar rápido e estranho, cheio de cautelosa suspeita. Em seguida, as linhas de seu rosto relaxaram-se para sua expressão normal e divertido cinismo.

- Não, não acredito - admitiu. - Mas as pessoas daqui acreditam. -Olhou nervosamente para o alto da encosta, mas não se ouviu mais nenhum barulho do buraco na pedra. - A família deve estar por perto. Vamos embora.

Relutantemente, deixei que me puxasse em direção à vila.

- Por que a colocaram lá em cima? — perguntei, sentada em uma pedra para retirar minhas meias antes de atravessar um pequeno córrego. - Será que esperam que o Povo Pequeno venha curá-la? - Ainda estava preocupada com a criança; parecia terrivelmente doente. Não sabia o que havia de errado com ela, mas talvez fosse possível ajudar.

Talvez eu pudesse deixar Geilie na vila, depois voltar para pegar a criança. Mas teria que ser logo; olhei para o céu a leste, onde nuvens cinzas e carregadas escureciam rapidamente o dia com um tom púrpura. Uma claridade rósea ainda podia ser vista a oeste, mas não devia restar mais do que meia hora de luz.

Geilie passou a alça de corda trançada de seu cesto pelo pescoço, arregaçou as saias e entrou no córrego, estremecendo com a água fria.

- Não - disse. - Ou melhor, sim. Essa é uma das colinas de fadas e é perigoso dormir ali. Se você deixar uma troca de um dia para o outro num lugar assim, o Povo virá resgatá-la e deixar a criança humana que roubaram no seu lugar.

- Mas não o farão, porque não é uma troca — eu disse, prendendo a respiração ao toque da água de neve derretida. — É apenas uma criança doente. Pode muito bem não sobreviver a uma noite a céu aberto!

- Não sobreviverá — ela disse secamente. - Estará morta pela manhã. E peço a Deus que ninguém nos tenha visto perto dela.

Parei bruscamente no meio do ato de calçar os sapatos.

- Morta! Geilie, vou voltar para buscá-la. Não posso deixar a criança lá. — Virei-me e comecei a atravessar o córrego outra vez.

Ela me pegou por trás e me fez espatifar de cara na água rasa. Debatendo-me e arquejando, consegui ficar de joelhos, espadanando água em todas as direções. Geilie estava parada no meio do córrego com água até a barriga da perna, as saias ensopadas, fitando-me com raiva.

- Sua maldita inglesa idiota! - gritou. — Não há nada que possa fazer! Está me ouvindo? Nada! Aquela criança já está praticamente morta! Não vou ficar parada aqui e deixar que você arrisque sua própria vida e a minha por alguma idéia maluca da sua cabeça! - Bufando e resmungando, abaixou-se, pegou-me por baixo dos braços com as duas mãos, fazendo-me ficar de pé.

- Claire - disse ansiosamente, sacudindo-me pelos braços. - Ouça-me. Se você se aproximar daquela criança e ela morrer, e ela vai morrer, acredite-me, eu já as vi assim, a família a culpará por isso. Não vê o perigo que isso representa? Não sabe o que dizem a seu respeito na vila?

Fiquei parada, tremendo, na brisa fria do pôr-do-sol, dividida entre seu óbvio pânico pela minha segurança e a idéia de uma criança desamparada, morrendo aos poucos sozinha no escuro, com flores silvestres aos seus pés.

- Não - respondi, sacudindo o cabelo molhado do rosto. — Geilie, não, não posso. Terei cuidado, prometo, mas tenho que ir. — Livrei-me de suas mãos e virei-me na direção da margem oposta, tropeçando e chafurdando nas sombras incertas do leito do rio.

Ouviu-se um grito abafado de exasperação atrás de mim, seguido de uma frenética agitação de águas na direção oposta. Bem, ao menos ela não me atrapalharia mais.

Escurecia rapidamente e abri caminho pelo mato emaranhado o mais rápido que pude. Não tinha certeza se conseguiria encontrar o monte certo se ficasse escuro antes de eu alcançá-lo; havia vários por perto, quase todos da mesma altura. E com fadas ou sem fadas, a idéia de ficar vagando por ali sozinha no escuro não me agradava nem um pouco. A questão de como eu faria o caminho de volta ao castelo com um bebê doente era algo que eu resolveria quando chegasse o momento.

Encontrei o monte, finalmente, ao avistar o grupo de lariços jovens que eu lembrava de ter visto no sopé. Já estava quase completamente escuro agora, uma noite sem luar, e eu tropeçava e caía com freqüência. Os lariços permaneciam juntos, conversando baixinho na brisa noturna, com estalidos e cliques e suspiros sussurrados.

O maldito lugar é assombrado, pensei, ouvindo a conversa das folhas acima da minha cabeça enquanto serpenteava no meu caminho pelo meio dos troncos esguios. Não me surpreenderia se encontrasse um fantasma atrás da árvore seguinte.

Mas fiquei surpresa. Na verdade, fiquei apavorada quando o vulto sombrio saiu de trás da árvore e me agarrou. Deixei escapar um grito agudo e comecei a golpeá-lo.

— Meu Deus - exclamei. - O que está fazendo aqui? - Encolhi-me por um instante contra o peito de Jamie, aliviada de vê-lo, apesar do susto que ele me dera.

Segurou-me pelo braço e virou-se para me levar para fora da floresta.

— Vim buscá-la — ele disse, a voz baixa. — Vim ao seu encontro porque já estava anoitecendo; encontrei Geillis Duncan perto do córrego de St. John e ela me disse onde você estava.

— Mas o bebê... — comecei, virando-me para o monte.

— A criança está morta - disse secamente, puxando-me de volta. - Eu fui lá primeiro, para ver.

Segui-o, então, sem objeção, perturbada com a morte da criança, mas aliviada pelo fato de que não teria, afinal, que enfrentar a subida até o pico das fadas ou o longo trajeto de volta sozinha. Oprimida pela escuridão e pelas árvores sussurrantes, não falei nada até atravessarmos o córrego outra vez. Ainda molhada da imersão prévia, não me dei ao trabalho de remover as meias, mas saí chafurdando para o outro lado de qualquer maneira. Jamie, ainda seco, continuou assim, saltando da margem para uma pedra no meio do córrego que se destacava acima da corrente, depois deu um pulo para o meu lado como um atleta de salto a distância.

— Você faz idéia de como é perigoso andar por aí sozinha à noite, Sassenach? — indagou. Não parecia com raiva, apenas curioso.

- Não... quero dizer, sim. Desculpe-me se o deixei preocupado. Mas eu não podia deixar uma criança lá, eu simplesmente não podia.

- Sim, eu sei. — Abraçou-me rapidamente. — Você tem um bom coração, Sassenach. Mas você não faz a menor idéia daquilo com que está lidando aqui.

- Fadas, hein? - Eu estava cansada e perturbada com o incidente, mas disfarçava com petulância. - Não tenho medo de superstições. - Um pensamento me ocorreu. - Você acredita em fadas, bebês trocados e tudo isso?

Ele hesitou por um instante antes de responder.

- Não. Não, não acredito em tais coisas, embora duvido que fosse passar a noite em uma colina de fadas, ainda assim. Mas eu sou um homem educado, Sassenach. Tive um professor particular alemão na casa de Dougal, muito bom, que me ensinou latim e grego e tudo o mais. Mais tarde, quando fui para a França aos dezoito anos, bem, estudei história e filosofia e vi que o mundo era muito mais do que charnecas e ravinas e monstros no lago. Mas essa gente... - Esticou um dos braços, abrangendo a escuridão atrás de nós.

- Nunca estiveram a mais de um dia de distância de onde nasceram, exceto por alguma coisa importante como um encontro do clã e isso talvez duas vezes na vida. Vivem entre os vales estreitos e os lagos e não sabem mais nada do mundo além do que o padre Bain lhes diz domingo na igreja. Isso e as histórias antigas.

Afastou um galho de amieiro e eu agachei-me para passar por baixo. Estávamos na trilha de veados que eu e Geilie seguíramos horas antes. Senti-me encorajada pela nova evidência de que ele sabia orientar-se, mesmo no escuro. Longe do monte das fadas, falou com a voz natural, apenas parando ocasionalmente para afastar algum mato do caminho.

- Essas histórias não passam de diversão nas mãos de Gwyllyn, quando ele se senta no salão bebendo vinho do Reno. - Seguiu à minha frente pelo caminho em descida e sua voz flutuava de volta para mim, suave e enfática no ar frio da noite.

- No entanto, aqui e mesmo na vila, é diferente. As pessoas vivem de acordo com essas histórias. Acredito que haja uma certa verdade por trás de algumas delas.

Pensei nos olhos cor de âmbar do monstro do lago e imaginei que outras seriam verdadeiras.

- E outras... bem... - Sua voz amainou-se e tive que me esforçar para ouvi-lo. - Para os pais daquela criança, talvez os console um pouco acreditar que foi a criança trocada que morreu e pensar em seu próprio filho, saudável e contente, vivendo para sempre com as fadas.

Chegamos aos cavalos e em meia hora as luzes do Castelo Leoch brilhavam na escuridão nos dando as boas-vindas. Nunca pensei que consideraria aquela construção inóspita um posto avançado da civilização, mas neste momento as luzes pareciam as de um farol de iluminação espiritual. Somente quando nos aproximamos é que percebi que a impressão de luz devia-se à fileira de lanternas acesas ao longo do parapeito da ponte.

— Alguma coisa aconteceu — eu disse, virando-me para Jamie. E vendo-o pela primeira vez na luz, percebi que não estava usando sua habitual camisa surrada e kilt encardido. Sua camisa de linho imaculadamente branca brilhava à luz das lanternas e seu melhor — seu único - casaco de velu-do estava dobrado sobre a sela.

- Sim - disse, balançando a cabeça. - Foi por isso que fui pegá-la. O duque finalmente chegou.

O duque foi uma surpresa para mim. Não sei exatamente o que eu esperava, mas não era o entusiasta de caça de rosto vermelho, cordial, expansivo, de olhos azuis claros que estavam sempre um pouco apertados, como se olhasse para o sol seguindo o vôo de um faisão.

Imaginei por um instante se toda aquela encenação anterior com relação ao duque não seria um pouco exagerada. No entanto, olhando em torno do salão, notei que todos os rapazes com menos de dezoito anos exibiam um ar ligeiramente preocupado, mantendo os olhos fixos no duque enquanto ele falava e ria animadamente com Colum e Dougal. Portanto, não era apenas encenação; eles estavam avisados.

Quando fui apresentada ao duque, tive alguma dificuldade em manter uma expressão imparcial. Ele era um homem grandalhão, rijo e em boa forma, do tipo que se costuma ver alardeando suas opiniões em pubs, derrotando os opositores com a força do estardalhaço e da repetição. Eu fora avisada, é claro, pela história de Jamie, mas a impressão física era tão esmagadora que quando o duque curvou-se sobre a minha mão e disse "Que encantador encontrar uma compatriota nesse lugar remoto, madame", numa voz de rato cansado, tive que morder a parte de dentro de minha bochecha para não cometer uma gafe em público.

Cansado da viagem, o duque e sua comitiva foram cedo para a cama. Na noite seguinte, no entanto, houve música e conversas depois do jantar e Jamie e eu nos unimos a Colum, Dougal e o duque. Sandringham ficou cada vez mais loquaz sob os efeitos do vinho de Colum e falava sem parar, discorrendo igualmente sobre os horrores de viajar nas Highlands e as belezas do campo. Ouvíamos educadamente e eu tentei não deixar que meus olhos encontrassem os de Jamie enquanto o duque discorria com sua voz aguda sobre a história de suas dificuldades.

— Um eixo de roda quebrou perto de Stirling e ficamos retidos durante três dias, debaixo de um aguaceiro, veja bem, até meu lacaio encontrar um ferreiro para vir consertar o maldito eixo. E menos de doze horas depois, caímos no maior buraco já visto e a droga do eixo quebrou de novo! Depois, um cavalo perdeu a ferradura e tivemos que descarregar a carruagem e caminhar ao lado dela, na lama, conduzindo o cavalo manco. E então... — Conforme a história continuava, de desgraça em desgraça, senti uma crescente necessidade de rir e tentei sufocá-la com mais vinho, provavelmente um erro de julgamento.

- Mas a caça, MacKenzie, que caça! - o duque exclamou a certa altura, revirando os olhos em êxtase. - Eu mal podia acreditar. Não é de admirar que você ofereça tal mesa. - Bateu delicadamente na barriga grande e sólida. —Juro que daria meus dentes caninos para pegar um veado como o que vimos há dois dias; um esplêndido animal, simplesmente esplêndido. Saltou dos arbustos bem na frente da carruagem, minha querida - confidenciou-me. - Assustou os cavalos, de modo que por pouco não saímos da estrada outra vez

Colum ergueu o belo recipiente de vinho em forma de sino, arquean-do interrogativamente uma das sobrancelhas. Quando serviu os copos que se apresentaram, disse:

- Bem, talvez possamos arranjar uma caça para Sua Excelência. O meu sobrinho é um ótimo caçador. - Olhou significativamente por baixo das sobrancelhas para Jamie; houve um aceno de cabeça quase imperceptível em resposta.

Colum recostou-se em sua cadeira, recolocando o recipiente na mesa, e disse descontraidamente:

- Sim, vamos providenciar isso. Talvez no começo da semana que vem. É muito cedo para faisão, mas a caça ao veado estará ótima. — Voltou-se para Dougal, recostado em uma poltrona acolchoada, um pouco afastado para um dos lados. — Meu irmão poderá acompanhá-los; caso pretenda seguir para o norte, ele pode lhe mostrar as terras que discutíamos anteriormente.

- Fantástico, fantástico! - O duque estava encantado. Deu um tapinha na perna de Jamie; vi os músculos enrijecerem-se, mas Jamie não se mexeu. Sorriu tranqüilamente e o duque deixou sua mão demorar-se apenas um instante a mais. Então, Sua Excelência percebeu que eu o estava olhando e sorriu jovialmente para mim, a expressão do rosto dizendo: "Vale a pena tentar, não é?" A despeito de mim mesma, correspondi ao sorriso. Para minha grande surpresa, gostei muito do sujeito.

Com a agitação da chegada do duque, eu me esquecera da oferta de Geilie de me ajudar a descobrir quem me enviara o mau agouro. E depois da cena desagradável com a criança trocada no monte das fadas, não estava certa se gostaria de tentar qualquer coisa que ela me sugerisse.

Ainda assim a curiosidade ultrapassou a desconfiança e quando Colum pediu a Jamie para acompanhar os Duncan ao castelo para o banquete do duque dois dias mais tarde, eu o acompanhei.

Foi assim que Jamie e eu nos encontrávamos na sala dos Duncan naquela quinta-feira, recebidos pelo fiscal com uma espécie de amizade constrangida, enquanto a mulher terminava de se aprontar no andar de cima. Bastante recuperado dos efeitos de sua última crise gástrica, Arthur ainda assim não parecia muito saudável. Como a maioria dos gordos que perde muito peso de repente, a gordura desaparecera do seu rosto, mas não de sua barriga. Sua pança ainda intumescia a seda verde em sua cintura, enquanto a pele do rosto caía flacidamente em grandes rugas.

- Talvez eu possa subir e ajudar Geilie com seu cabelo ou algo assim -sugeri. - Trouxe-lhe uma fita nova. — Antecipando a possível necessidade de uma desculpa para conversar com Geilie sozinha, trouxera um pequeno embrulho comigo. Apresentando-o como uma desculpa, atravessei a porta e subi as escadas antes que Arthur pudesse protestar.

Ela estava à minha espera.

- Entre - disse -, vamos até meu aposento particular para isto. Temos que nos apressar, mas não levará muito tempo.

Segui Geilie pela escada estreita, em caracol. Os degraus tinham alturas irregulares; alguns eram tão altos que eu tinha que levantar minhas saias para não tropeçar. Concluí que os carpinteiros do século XVII ou usavam métodos defeituosos de mensuração ou tinham muito senso de humor.

O santuário particular de Geilie ficava no topo da casa, num dos sótãos remotos acima das dependências dos criados. Era protegido por uma porta com tranca, aberta por uma chave realmente gigantesca, que Geilie retirou do bolso do seu avental; devia ter pelo menos quinze centímetros de comprimento, a argola decorada com arabescos em forma de flores e trepadeiras. A chave devia pesar cerca de meio quilo; segurada pela haste, daria uma boa arma. Tanto a fechadura quanto as dobradiças estavam bem azeitadas e a porta pesada abriu-se para dentro silenciosamente.

O sótão era pequeno, confinado pelas águas-furtadas providas de empenas que acompanhavam a frente da casa. Todo espaço de parede era coberto de prateleiras, abrigando jarros, garrafas, frascos, botijas e equeres. Inúmeros maços de ervas secando, amarrados cuidadosamente com fios de cores diversas, perfeitamente pendurados em fileiras dos cairos do telhado, roçando meus cabelos com uma poeira aromática confor-me passávamos por baixo.

No entanto, não se parecia nem um pouco ao herbanário claro e ordenado do andar inferior. Era apinhado, quase atravancado, e escuro, apesar das águas-furtadas.

Uma das prateleiras exibia livros, a maioria antigo e desfazendo-se, sem identificação nas lombadas. Passei o dedo curiosamente pela fileira dos livros encadernados em couro. A maior parte era de couro de boi, mas havia dois ou três de um material diferente; algo macio, mas desagradavel-mente gorduroso ao toque. E um que parecia encadernado com capa de pele de peixe. Retirei um dos livros e folheei-o cautelosamente. Era manuscrito, em uma mistura de francês arcaico e latim ainda mais obsoleto, mas pude decifrar o título. L’Grimoire d'le Comte St. Germain.

Fechei o livro e recoloquei-o na prateleira, sentindo um pequeno choque. A grimoire. Um livro de magia. Podia sentir o olhar de Geilie fixo em minhas costas e virei-me, deparando-me com um misto de malícia e cautelosa especulação. O que eu faria, agora que sabia?

- Então, não se trata apenas de boatos, hein? - eu disse, sorrindo. -Você realmente é uma bruxa. - Imaginava até onde iria tudo aquilo e se ela mesma acreditava, ou se não passava da aparência exterior de uma sofisticada simulação que ela usava para aliviar o tédio do casamento com Arthur. Também imaginava que tipo de magia ela praticava - ou achava que praticava.

- Ah, branca — disse, sorrindo. — Definitivamente, magia branca. Pensei com pesar que Jamie devia estar certo sobre meu rosto – todo mundo parecia ser capaz de dizer o que eu estava pensando.

- Bem, isso é bom - eu disse. - Eu mesma não tenho vocação para dançar em volta de fogueiras à meia-noite e cavalgar em vassouras, quanto mais beijar o traseiro do diabo.

Geilie atirou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada, encantada.

- Você não beija o de ninguém, isso eu posso ver - ela disse. - Nem eu. Embora se eu tivesse um doce e fogoso diabo como o seu na minha cama, não diga que não o fizesse com o tempo.

- Isso me faz lembrar... - comecei, mas ela já se voltara e iniciara seus preparativos, murmurando consigo mesma.

Verificando primeiro se a porta estava bem trancada atrás de nós, Geilie atravessou o aposento até a água-furtada e começou a remexer em um baú sob o banco da janela. Retirou uma panela grande e rasa e uma comprida vela branca enfiada em um castiçal de cerâmica. Uma nova busca me revelou uma colcha usada, que ela estendeu no assoalho como proteção contra farpas e poeira.

- O que exatamente está planejando fazer, Geilie? — perguntei, examinando os preparativos com desconfiança. De imediato, não via nenhuma intenção sinistra em uma panela, uma vela e uma colcha, mas eu era uma bruxa novata, para dizer o mínimo.

- Uma invocação - respondeu, puxando a colcha pelas pontas, de modo que os lados ficassem alinhados com as tábuas do assoalho.

- Para invocar quem? - perguntei. Ou o quê.

Ela levantou-se e ajeitou os cabelos para trás. Finos e lisos, soltavam-se de seus prendedores. Murmurando, arrancou os grampos dos cabelos e deixou-os cair numa cortina lisa e brilhante, quase dourada.

- Ah, fantasmas, espíritos, visões. Qualquer coisa de que possa precisar - disse. - Começa da mesma forma em qualquer caso, mas as ervas e as palavras são diferentes para cada um. O que queremos agora é uma visão. Para ver quem lhe deseja mal. Então, você poderá virar o mau agouro de volta para essa pessoa.

- Hã, bem... - Na verdade, eu não tinha nenhum desejo de vingança, mas estava curiosa, tanto para ver como era a invocação quanto para saber quem deixara o mau agouro para mim.

Colocando a panela no meio da colcha, despejou água de uma garrafa dentro do recipiente, explicando-me:

- Pode usar qualquer vasilha grande o suficiente para dar um bom reflexo, embora o livro de magia diga para usar uma bacia de prata. Até mesmo um lago ou uma poça d'água lá fora podem servir para alguns tipos de invocação, embora deva ser um local isolado. É preciso paz e silêncio para fazer isso.

Ela passou rapidamente de uma janela a outra, fechando as pesadas cortinas negras até praticamente toda luz do aposento se extinguir. Eu mal conseguia divisar a figura esbelta de Geilie movendo-se rapidamente pela penumbra, até ela acender a vela. A chama bruxuleante iluminou seu rosto enquanto ela a levava de volta para a colcha, lançando sombras angulosas sob o nariz empinado e o maxilar cinzelado.

Colocou a vela junto à panela de água, no lado oposto a mim. Encheu a panela cuidadosamente, tão cheia que a água abaulava-se ligeiramente acima da borda, só não transbordando pela ação da tensão superficial. Inclinando-me sobre ela, pude ver que a superfície da água fornecia um excelente reflexo, muito melhor do que qualquer outro obtido em qualquer dos espelhos do castelo. Como se lesse minha mente outra vez, Geilie explicou que além de servir para invocar espíritos, a panela refletora era um excelente acessório para pentear o cabelo.

- Não esbarre nela ou você vai ficar ensopada - avisara, franzindo a testa em concentração enquanto acendia a vela. Algo a respeito do tom prático da observação, tão prosaico em meio àqueles preparativos sobrenaturais, me fez lembrar de alguém. Erguendo os olhos para a figura pálida e esbelta, elegantemente inclinada sobre a panela, não conseguia adivinhar quem ela me fazia lembrar. Mas, é claro. Embora ninguém pudesse ser mais diferente da figura antiquada diante do bule de chá no gabinete do reverendo Wakefield, o tom de voz era exatamente o da sra. Graham.

Talvez compartilhassem uma atitude, um pragmatismo que considerava o oculto como uma simples coleção de fenômenos, como as condições do tempo. Algo a ser abordado com cauteloso respeito, é claro — do mesmo modo como se deve ter cuidado ao usar uma faca de cozinha —, mas certamente nada a evitar ou temer.

Ou talvez fosse o cheiro de loção de alfazema. As roupas soltas e esvoa-çantes de Geilie sempre cheiravam às essências que ela destilava: cravo-da-índia, camomila, louro, nardo, hortelã, manjerona. Hoje, entretanto, era alfazema que emanava das dobras de suas vestes brancas. O mesmo cheiro que permeava o algodão azul prático da sra. Graham e flutuava das rugas de seu peito ossudo.

Se o peito de Geilie também era escorado por baixo por tais suportes ósseos, não havia nenhum vestígio visível, apesar do decote baixo da vestimenta de Geilie. Era a primeira vez que eu via Geilie Duncan en déshabille; normalmente, ela usava as roupas severas e volumosas, abotoadas até o pescoço, que eram adequadas à mulher de um fiscal. A generosa opulência agora revelada era uma surpresa, uma abundância cremosa quase do mesmo tom da roupa que usava e me deu uma idéia do motivo pelo qual um homem como Arthur Duncan se casaria com uma jovem sem nenhum tostão, de uma família sem nenhuma distinção. Meus olhos dirigiram-se involuntariamente para a fileira de frascos cuidadosamente rotulados ao longo da parede, à procura de nitrato de potássio.

Geilie selecionou três frascos da prateleira, despejando uma pequena porção de cada um na tigela de um minúsculo fogareiro de metal. Acendeu a camada de carvão que havia embaixo com a chama da vela e assoprou a chama fraca para animá-la. Uma fumaça aromática começou a se desprender conforme as brasas se intensificaram.

O ar no sótão estava tão parado que a fumaça acinzentada ergueu-se diretamente para cima sem se difundir, formando uma coluna que reproduzia o formato da vela branca e alta. Geilie sentou-se entre as colunas como uma sacerdotisa em seu templo, as pernas graciosamente dobradas sob o corpo.

— Bem, acho que isso vai servir. — Limpando energicamente farelos de alecrim dos dedos, Geilie examinou a cena com satisfação. As cortinas negras, com seus símbolos místicos-, impediam a entrada de qualquer raio de sol intruso, deixando a vela como única fonte de iluminação direta. A chama refletia-se difusamente pela panela de água parada, que parecia brilhar como se ela, também, fosse uma fonte de luz, ao invés de um reflexo.

— E agora? — perguntei.

Os grandes olhos cinzas brilharam como a água, iluminados de expectativa. Meneou as mãos pela superfície da água, depois as entrelaçou entre as pernas.

— Fique sentada em silêncio por um instante - disse. - Ouça os batimentos do seu coração. Pode ouvi-lo? Respire com naturalidade, devagar e profundamente. — Apesar da vivacidade de sua expressão, sua voz era calma e lenta, em distinto contraste com sua conversa normalmente animada.

Segui obedientemente as instruções, sentindo minha pulsação diminuir conforme a respiração firmava-se num ritmo regular. Reconheci o cheiro de alecrim na fumaça, mas não tinha certeza sobre as outras duas ervas: dedaleira, talvez, ou cincoem-rama? Havia pensado que as flores roxas eram de dulçamara, mas isso não era possível. O que quer que fossem, a lentidão da minha respiração não poderia ser atribuída somente ao poder de sugestão de Geilie. Sentia como se um peso exercesse uma pressão no meu esterno, reduzindo a intensidade da minha respiração independente da minha vontade.

A própria Geilie permanecia sentada perfeitamente imóvel, obser-vando-me sem piscar. Balançou a cabeça uma vez e eu olhei para baixo obedientemente, para a superfície parada da água.

Ela começou a conversar, de uma forma regular, coloquial, que me fez lembrar novamente da sra. Graham falando para o sol no círculo de pedras.

As palavras não eram conhecidas, mas, ainda assim, tampouco nuas, eram desconhecidas. Era uma língua estranha, mas que eu achava que deveria conhecer, como se as palavras fossem pronunciadas logo abaixo do meu nível de audição.

Comecei a sentir minhas mãos entorpecidas e quis movê-las de sua posição, entrelaçadas no meu colo, mas recusavam-se a obedecer. Sua voz monótona continuou, suave e persuasiva. Agora eu sabia que compreendia o que estava sendo dito, mas ainda não conseguia trazer as palavras à superfície da minha mente.

Compreendi vagamente que ou eu estava sendo hipnotizada ou estaria sob a influência de alguma droga e minha mente agarrou-se com força à borda do pensamento consciente, resistindo à atração da fumaça aromática. Podia ver meu reflexo na água, as pupilas reduzidas a duas pontas de alfinete, os olhos arregalados como duas corujas cegas pelo sol. A palavra ópio atravessou meus pensamentos que gradualmente se desfaziam.

- Quem é você? — Não sabia qual de nós duas fizera a pergunta, mas senti minha própria garganta mover-se quando respondi:

- Claire.

- Quem a enviou aqui?

- Eu vim.

- Por que você veio?

- Não posso dizer.

- Por que não pode dizer?

- Porque ninguém acreditará em mim.

A voz em minha cabeça tornou-se ainda mais branda, amável, insinuante.

— Vou acreditar em você. Acredite em mim. Quem é você?

— Claire.

Uma voz alta e repentina quebrou o feitiço. Geilie sobressaltou-se e seu joelho esbarrou na bacia, desfazendo a superfície espelhada.

— Geillis? Querida? — Uma voz falou do outro lado da porta, hesitante, mas autoritária. - Temos que ir, querida. Os cavalos estão prontos e você ainda não se vestiu.

Murmurando baixinho algo grosseiro, Geilie se levantou e abriu a janela de par em par, de modo que o ar fresco soprasse em meu rosto, fazendo-me piscar e desanuviando um pouco a minha mente.

Ficou parada, olhando-me especulativamente, depois se inclinou para me ajudar a ficar de pé.

— Vamos - disse. - Sentiu-se um pouco estranha, não? Às vezes, as pessoas reagem assim. É melhor deitar-se um pouco em minha cama enquanto eu me visto.

Deitei-me sobre sua colcha no quarto embaixo, os olhos fechados, ouvindo o leve farfalhar que Geilie fazia em seu quarto de vestir particular, perguntando-me o que teria sido tudo aquilo. Nada a ver com o mau agouro ou quem o enviara, obviamente. Apenas com a minha identidade. Com as faculdades mentais retornando gradualmente à sua vivacidade, ocorreu-me se Geilie não seria talvez uma espiã de Colum. Na posição que ocupava, ela sabia dos negócios e dos segredos de toda a região. E quem mais, além de Colum, estaria tão interessado em minhas origens?

O que teria acontecido, imaginei, se Arthur não tivesse interrompido a invocação? Eu teria ouvido, em algum lugar na fumaça perfumada, a injunção padrão do hipnotizador "Quando você acordar, não se lembrará de nada?" Mas eu me lembrava e isso me fazia pensar.

Na ocasião, entretanto, não houve a menor chance de perguntar a Geilie. A porta do quarto foi aberta de par em par e Arthur Duncan entrou. Atravessando o quarto em direção à porta do quarto de vestir de Geilie, ele bateu uma vez, apressadamente, e entrou.

Ouviu-se um pequeno grito de surpresa lá de dentro e em seguida um silêncio sepulcral.

Arthur Duncan reapareceu à porta, os olhos arregalados e desfocados, o rosto tão lívido que eu achei que talvez ele estivesse sofrendo algum tipo de ataque. Pus-me de pé num salto e corri em sua direção, enquanto ele se apoiava no batente da porta.

Entretanto, antes que eu pudesse alcançá-lo, afastou-se bruscamente da porta e saiu do quarto, cambaleando ligeiramente, passando por mim como se não me visse.

Eu mesma bati na porta de Geilie.

— Geilie! Você está bem?

Houve um momento de silêncio, depois uma voz perfeitamente serena disse:

- Sim, claro. Já vou sair.

Quando por fim descemos as escadas, encontramos Arthur, aparentemente bastante recuperado, saboreando um conhaque com Jamie. Parecia um pouco distraído, como se estivesse com o pensamento distante, mas saudou sua mulher com um ligeiro cumprimento quando ela apareceu, antes de mandar o criado ir buscar os cavalos.

O banquete estava começando quando chegamos e o fiscal e sua mulher foram conduzidos aos seus lugares de honra na mesa principal. Jamie e eu, de condição um pouco inferior, ocupamos nossos lugares em uma mesa com Rupert e Ned Gowan.

A sra. Fitz conseguira se superar e irradiava satisfação com os elogios que se acumulavam sobre a comida, a bebida e os demais preparativos.

O jantar estava, de fato, delicioso. Eu nunca provara faisão assado e recheado com castanhas ao mel e já me servia da terceira fatia quando Ned Gowan, observando-me e achando certa graça no meu apetite, perguntou se eu já havia experimentado o leitão.

Minha resposta foi interrompida por uma agitação na outra ponta do salão. Colum erguera-se de sua mesa e caminhava em minha direção, acompanhado do Velho Alec MacMahon.

- Vejo que não há limites para os seus talentos, sra. Fraser - Colum observou, fazendo uma ligeira mesura. Um largo sorriso marcava as interessantes feições.

- De cuidar de ferimentos e curar doentes a ajudar potros a nascerem. Logo estaremos recorrendo à senhora para fazer levantar os mortos, eu suponho. — Houve uma risada furtiva geral, embora eu tenha notado um ou dois homens olhando nervosamente na direção do padre Bain, presente nesta noite, que metodicamente se empanturrava de carneiro assado num canto do salão.

- De qualquer modo — continuou Colum, enfiando a mão no bolso do casaco —, permita-me oferecer-lhe uma pequena recompensa como sinal de gratidão. — Entregou-me uma pequena caixa de madeira, com o brasão dos MacKenzie talhado na tampa. Eu não sabia o quanto um cavalo Losgann era valioso e mentalmente agradeci a quaisquer espiritos benignos que houvessem presidido tais acontecimentos por nada ter dado errado.

- Não há de quê - eu disse, tentando retribuir a gentileza. — Não fiz nada de extraordinário. Só tive sorte de ter mãos pequenas.

- Ainda assim. Se preferir, considere-o um pequeno presente de casamento, mas gostaria que aceitasse.

Com um aceno de Jamie, aceitei relutantemente a caixa e a abri. Continha um belo rosário de azeviche, cada conta intricadamente esculpida e o crucifixo incrustado de prata.

- É lindo - disse, sinceramente. E era, embora eu não tivesse a menor noção do que deveria ser feito com ele. Embora nominalmente católica, fora criada por tio Lamb, o mais completo agnóstico, e fazia apenas uma vaga idéia do significado de um rosário. Mesmo assim, agradeci a Colum efusivamente e entreguei-o a Jamie para guardá-lo para mim na bolsa do seu kilt.

Fiz uma reverência para Colum, feliz de ver que eu estava dominando a arte de fazer mesuras sem cair de cara no chão. Ele abriu a boca para pedir licença educadamente, mas foi interrompido pelo barulho de algo se quebrando atrás de mim. Virando-me, não consegui ver nada além de costas e cabeças, conforme as pessoas saltavam de seus bancos para se aglomerar em torno do que quer que tenha causado o tumulto. Colum deu a volta à mesa com alguma.dificuldade, afastando a multidão com um aceno impaciente da mão. A medida que as pessoas recuavam respeitosamente abrindo caminho para sua passagem, pude ver a figura redonda de Arthur Duncan no chão, as pernas e os braços debatendo-se convulsivamente, afastando as mãos prestimosas dos que queriam ajudar. Sua mulher abriu caminho pela multidão sussurrante, deixou-se cair no chão ao lado dele e fez uma tentativa vã de embalar a cabeça dele em seu colo. O doente fincou os calcanhares no chão e arqueou as costas, produzindo barulhos estrangulados, como se estivesse asfixiado.

Erguendo a cabeça, os olhos cinzas de Geilie vasculharam ansiosamente a multidão como se procurasse alguém. Presumindo que ela estivesse procurando por mim, fiz o caminho que oferecia a menor resistência, esquivando-me e engatinhando por baixo da mesa.

Conseguindo chegar ao lado de Geilie, agarrei o rosto de seu marido entre as minhas mãos e tentei abrir seus maxilares. Pensei, pelos sons que produzia, que talvez tivesse se engasgado com um pedaço de carne, que ainda podia estar alojado na traquéia.

No entanto, seus maxilares estavam cerrados e rígidos, os lábios azulados e salpicados de uma saliva espumante que não condizia com sufocação. Mas ele certamente estava sufocando; o peito gordo subia em vão, lutando por ar.

- Depressa, virem-no de lado — eu disse. Várias mãos se estenderam imediatamente para ajudar e o corpo pesado foi habilmente virado, as costas largas de sarja preta voltadas para mim. Enfiei a base da minha mão entre as omoplatas, batendo nele repetidamente com pancadas surdas, regulares. As costas volumosas estremeceram ligeiramente com os golpes, mas não houve nenhum movimento espasmódico em resposta como o de uma obstrução repentinamente liberada.

Agarrei um ombro carnudo e coloquei-o de costas outra vez. Geilie inclinou-se bem perto do rosto com o olhar fixo, chamando o nome dele, massageando a garganta mosqueada. Os olhos agora estavam revirados para trás e os calcanhares começaram a bater com menos força. As mãos, cerradas de agonia, repentinamente se arremessaram para os lados, atingindo no rosto um espectador ansiosamente agachado.

Os ruídos engrolados cessaram subitamente e o corpo robusto ficou flácido de repente, inerte como um saco de cevada nas lajotas de pedra. Busquei sua pulsação freneticamente em um dos pulsos frouxos, notando pelo canto do olho que Geilie fazia o mesmo, erguendo o queixo redondo e bem barbeado e pressionando as pontas dos dedos com força na carne sob o ângulo do maxilar, à cata da carótida.

Ambas as buscas foram inúteis. O coração de Arthur Duncan, já sobrecarregado pela necessidade de bombear sangue através daquele arcabouço maciço por tantos anos, desistira de lutar.

Experimentei todas as técnicas de ressuscitamento que conhecia, embora sabendo que seriam inúteis: flexão dos braços, massagem no peito, até mesmo respiração boca-a-boca, por mais desagradável que fosse, mas sem o resultado esperado. Arthur Duncan estava definitivamente morto.

Endireitei-me exausta e recuei, quando o padre Bain, com um olhar rancoroso para mim, caiu de joelhos ao lado do fiscal e começou a ministrar-lhe apressadamente a extrema-unção. Minhas costas e braços doíam e meu rosto estava estranhamente entorpecido. A algazarra ao meu redor pareceu peculiarmente distante, como se uma cortina me separasse do salão apinhado de gente. Fechei os olhos e esfreguei as mãos pelos meus lábios formigantes, tentando apagar o gosto de morte.

Apesar da morte do fiscal, e das subseqüentes formalidades de exéquias e sepultamento, a caça ao veado do duque foi adiada por apenas uma semana.

A constatação da iminente partida de Jamie me causava uma profunda depressão; de repente, compreendi o quanto eu ansiava para vê-lo à mesa do jantar depois de um dia de trabalho, como meu coração saltava quando eu o via inesperadamente em momentos ociosos durante o dia e do quanto eu dependia de sua companhia e de sua presença sólida e reconfortante em meio às complexidades da vida no castelo. E, para ser bastante honesta, como eu gostava do calor e da maciez de seu corpo em minha cama à noite e de acordar com seus beijos desgrenhados e sorridentes todas as manhãs. A perspectiva de sua ausência era melancólica.

Ele abraçou-me com força, minha cabeça aninhada sob seu queixo.

— Vou sentir sua falta, Jamie — eu disse, ternamente.

Ele me abraçou com mais força e deu uma risadinha pesarosa.

- Eu também, Sassenach. Eu não esperava por isso, para dizer a verdade, mas me dói muito deixá-la. - Acariciou minhas costas docemente, os dedos traçando as elevações das vértebras.

-Jamie... tome cuidado.

Pude sentir o ronco profundo do riso abafado em seu peito ao responder.

- Com o duque ou com o cavalo? - Ele estava, para minha grande apreensão, pretendendo montar Donas para a caçada ao veado. Eu tinha visões do imenso alazão mergulhando em um penhasco por pura teimosia ou esmagando Jamie sob aqueles cascos letais.

- Com ambos - respondi secamente. - Se o cavalo o jogar no chão e você quebrar uma perna, ficará à mercê do duque.

- É verdade. Mas Dougal estará lá. Ri com sarcasmo.

- Ele quebrará a outra perna.

Ele riu e inclinou-se para beijar-me.

- Terei cuidado, mo duinne. Me fará a mesma promessa?

- Sim - eu disse, com sinceridade. — Está se referindo a quem deixou o mau agouro?

Seu semblante ficou repentinamente sério.

- Talvez. Não creio que você esteja correndo algum perigo ou eu não a deixaria. Mas, ainda assim... ah, e fique longe de Geillis Duncan.

- O quê? Por quê? — Recuei um pouco para olhá-lo. Era uma noite escura e seu rosto estava invisível, mas seu tom de voz era sério.

- A mulher é considerada uma bruxa e as histórias que contam sobre ela... bem, pioraram muito depois que o marido morreu. Não quero você perto dela, Sassenach.

- Você acha sinceramente que ela seja uma bruxa? - perguntei. Suas mãos fortes seguraram meu traseiro e me puxaram para mais junto dele. Passei os braços em volta do seu pescoço, desfrutando a sensação de seu peito liso e sólido.

- Não - respondeu finalmente. - Mas não é o que eu acho que pode se transformar num perigo para você. Me promete?

- Prometo. - Na realidade, não relutei muito em prometer; desde os incidentes do bebê trocado e da invocação, não senti vontade de visitar Geilie. Coloquei a boca no mamilo de Jamie, tocando-o de leve com a língua. Emitiu um som rouco na garganta e puxou-me para mais perto.

- Abra as pernas - sussurrou. - Pretendo me assegurar de que vai se lembrar de mim quando eu tiver partido.

Algum tempo depois, acordei com frio. Tateando sonolentamente em busca da colcha, não consegui achá-la. De repente, ela recaiu sobre mim por conta própria. Surpresa, ergui-me em um dos cotovelos para olhar.

- Desculpe-me —Jamie disse. — Não pretendia acordá-la.

- O que está fazendo? Por que está acordado? - Estreitei os olhos por cima do ombro para vê-lo. Ainda estava escuro, mas meus olhos estavam tão acostumados que eu podia ver a expressão ligeiramente tímida de seu rosto. Ele estava completamente acordado, sentado em um banco junto à cama, seu xale jogado em volta do corpo para se aquecer.

- É que... bem, sonhei que você tinha se perdido e eu não conseguia encontrá-la. Isso me acordou e... eu quis ficar olhando para você, só isso. para gravá-la na mente, para me lembrar quando estiver longe. Eu virei a colcha; desculpe ter feito você sentir frio.

- Não tem importância. - A noite estava fria e muito silenciosa, como se fôssemos as únicas duas almas no mundo. - Venha para a cama. Deve estar com frio também.

Deslizou para o meu lado e aconchegou-se contra as minhas costas. Suas mãos acariciaram-me do pescoço ao ombro, da cintura ao quadril, percorrendo as linhas das minhas costas, as curvas do meu corpo.

- Mo duinne — disse, meigamente. - Mas agora eu deveria dizer mo air-geadach. Minha prateada. Seus cabelos têm um brilho prateado e sua pele é como veludo branco. Calman geal. Pomba branca.

Apertei meus quadris contra seu corpo, convidando-o, e encaixei-me contra ele com um suspiro quando seu membro firme preencheu-me. Segurou-me contra seu peito e movimentou-se comigo, devagar, profundamente. Arquejei um pouco e ele afrouxou o abraço.

- Desculpe-me - murmurou. - Não quis machucá-la. Mas eu realmente preciso estar dentro de você, ficar dentro de você, bem fundo. Quero deixar minha semente no fundo do seu corpo. Quero ficar abraçado a você assim e ficar com você até o amanhecer, deixá-la dormindo e partir, com as suas formas ainda quentes em minhas mãos.

Pressionei o corpo para trás, contra o dele.

- Você não vai me machucar.

Após a partida de Jamie, fiquei vagando, desanimada e triste, pelo castelo. Atendia pacientes no consultório, ocupava-me a maior parte do tempo possível nas hortas e jardins e tentava me distrair folheando os livros da biblioteca de Colum, mas ainda assim o tempo parecia não passar.

Já estava sozinha há quase duas semanas quando me deparei com a Jovem Laoghaire no corredor do lado de fora das cozinhas. Eu a observava dissimuladamente de vez em quando, desde o dia em que a vira no patamar da escada do lado de fora dos aposentos de Colum. Ela parecia bastante vivaz, mas havia um ar de tensão facilmente discernível à sua volta. Parecia alheia e melancólica - e não era de se admirar, pobre garota, pensei com compaixão.

Hoje, entretanto, ela parecia um pouco animada.

- Sra. Fraser! - ela chamou. - Tenho um recado para a senhora. – a viúva Duncan, segundo ela, mandara dizer que estava doente e pedia que eu fosse vê-la e cuidar dela.

Hesitei, lembrando-me das recomendações de Jamie, mas as forças conjuntas da compaixão e do tédio foram suficientes para me colocar na estrada para a vila em menos de uma hora, minha caixa de remédios amarrada atrás de mim, na sela do cavalo.

Quando cheguei, a casa dos Duncan tinha um ar de abandono e negligência, uma sensação de desordem que se estendia pela própria casa. Ninguém atendeu à batida na porta e quando a empurrei e entrei, vi que o vestíbulo e a sala estavam cheios de livros e copos sujos espalhados, tapetes desalinhados e uma grossa camada de poeira nos móveis. Minhas chamadas não fizeram nenhuma criada aparecer e a cozinha estava tão vazia e desordenada quanto o resto da casa.

Cada vez mais ansiosa, subi ao andar superior. O quarto de dormir em frente também estava vazio, mas ouvi um leve barulho arrastado vindo do depósito em frente ao patamar.

Empurrando a porta, vi Geilie, confortavelmente sentada numa cadeira, os pés apoiados no balcão. Ela andara bebendo; havia um copo e uma garrafa sobre o balcão e o aposento cheirava a conhaque.

Ficou espantada ao me ver, mas pôs-se de pé com dificuldade, sorrindo. Seus olhos estavam ligeiramente fora de foco, pensei, mas ela sem dúvida parecia estar bem.

- O que houve? - perguntei. - Não está doente? Arregalou os olhos para mim, surpresa.

- Doente? Eu? Não. Os empregados foram todos embora e não há comida na casa, mas há bastante conhaque. Quer um gole? - Voltou-se para a garrafa. Agarrei-a pela manga.

- Você não mandou me chamar?

- Não. - Olhou-me fixamente, os olhos arregalados.

- Então por que...— Minha pergunta foi interrompida por um barulho lá fora. Um barulho abafado, distante, retumbante. Eu já o ouvira antes, deste mesmo aposento, e as palmas da minha mão ficaram suadas na ocasião ao pensar em confrontar a turba que o produzia.

Limpei as mãos na saia do meu vestido. O barulho retumbante aproximou-se e não houve nem tempo nem necessidade de perguntas.





Compartilhe com seus amigos:
1   ...   20   21   22   23   24   25   26   27   ...   37


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande