A viajante do tempo



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- Bem, sim, mas... - Olhou-me incisivamente quando hesitei.

- O que foi, Sassenach? -- Respirei fundo.

- Jamie... se eu lhe contar uma coisa, você promete não me perguntar como eu sei?

Segurou-me pelos dois braços, olhando-me no rosto. A chuva umedecia seus cabelos e fazia pequenas gotas deslizarem pelos lados de seu rosto. Sorriu para mim.

- Eu lhe disse que não pediria nada que você não quisesse me contar. Sim, prometo.

- Vamos nos sentar. Você não devia ficar de pé por tanto tempo. Voltamos para junto da parede onde o ressalto das ardósias do telhado protegia uma pequena área seca do calçamento e nos instalamos confortavelmente, as costas apoiadas na parede.

- Tudo bem, Sassenach. O que é? -Jamie perguntou.

- O duque de Sandringham — eu disse. Mordi o lábio. - Jamie, não confie nele. Eu não sei tudo sobre ele, mas sei... que existe alguma coisa a respeito dele. Alguma coisa errada.

- Você sabe disso? — Pareceu surpreso. Foi a minha vez de olhá-lo com espanto.

- Está dizendo que você já sabe sobre ele? Você o conhece? - Fiquei aliviada. Talvez as ligações misteriosas entre Sandringham e a causa jacobita fossem bem mais conhecidas do que Frank e o vigário imaginavam.

- Ah, sim. Ele esteve aqui, visitando, quando eu tinha dezesseis anos. Quando eu... fui embora.

- Por que você foi embora? - Estava curiosa, lembrando-me subitamente do que Geillis Duncan dissera quando a encontrei pela primeira vez no bosque. O estranho boato de que Jamie era o verdadeiro pai do filho de Colum, Hamish. Eu sabia que ele não era, não poderia ser — mas provavelmente eu era a única pessoa no castelo que realmente sabia. Uma suspeita desse tipo poderia facilmente ter levado Dougal a atentar contra a vida de Jamie - se de fato isso ocorrera no ataque em Carryarick.

- Não foi por causa de... Letitia, foi? - perguntei com certa hesitação-

- Letitia? — Seu espanto atemorizado era evidente e algo dentro de mim que eu não sabia que estava apertado de repente relaxou. Eu realmente não acreditava que houvesse alguma verdade na suposição de Geilie, mas ainda assim...

- O que, em nome de Deus, faz você mencionar Letitia? - Jamie perguntou com curiosidade. - Eu vivi no castelo por um ano e falei com ela uma única vez pelo que me lembro, quando me chamou ao seu quarto e me repreendeu por organizar um jogo de shinty no meio do seu jardim de rosas.

Contei-lhe o que Geilie dissera e ele riu, o hálito condensando-se no ar frio e chuvoso.

- Meu Deus - exclamou —, como se eu tivesse a coragem!

- Você não acha que Colum possa ter suspeitado de algo assim, acha? — perguntei.

Ele sacudiu a cabeça com determinação.

- Não, não acho, Sassenach. Se ele tivesse a menor suspeita de algo assim, eu não teria sobrevivido até os dezessete anos, quanto mais atingir a idade madura de vinte e três.

Isso mais ou menos confirmava minha própria impressão de Colum, mas fiquei aliviada mesmo assim. A expressão de Jamie tornara-se pensativa, os olhos azuis subitamente remotos.

- No entanto, pensando bem, não sei se Colum realmente sabe por que deixei o castelo tão repentinamente naquela ocasião. E se Geillis Duncan anda por aí espalhando tais boatos... Essa mulher é uma encrenqueira, Sassenach; uma mexeriqueira e uma megera, se não for a bruxa que as pessoas dizem que é. Nesse caso, é melhor eu fazer com que ele descubra.

Ergueu os olhos para o lençol de água que se despejava das calhas.

- Talvez seja melhor descermos, Sassenach. Está ficando úmido demais aqui fora.

Descemos por um caminho diferente, atravessando o telhado para uma escada externa que levava às hortas, onde eu quis arrancar um pouco de borragem, se o aguaceiro permitisse. Abrigamo-nos junto à parede do castelo onde o peitoril avançado de uma das janelas desviava a chuva.

- O que você faz com borragem, Sassenach? -Jamie perguntou, olhando com interesse para as videiras e plantas esparsas, arriadas pela chuva.

- Quando está verde, nada. Primeiro é preciso secá-la e depois...

Fui interrompida por uma terrível algazarra de gritos e latidos, vinda de fora do muro da horta. Corri pelo aguaceiro em direção ao muro, Seguida mais lentamente por Jamie, mancando.

O padre Bain, o sacerdote da vila, vinha correndo pelo caminho, as poças d'água explodindo sob seus pés, perseguido por um bando de cachorros uivando e latindo. Atrapalhado por sua batina volumosa, o padre tropeçou e caiu, espalhando água e lama para todo lado. Num instante, os cachorros estavam em cima dele, rosnando e mordendo.

Uma mancha axadrezada saltou por cima do muro ao meu lado e Jamie estava no meio deles, desfechando golpes com sua bengala e gritando em gaélico, acrescentando sua voz à algazarra geral. Se os gritos e imprecações surtiam pouco efeito, a bengala era mais eficaz. Ouviram-se ganidos agudos conforme a clava golpeava a carne peluda e aos poucos o bando recuou, finalmente virando-se e debandando em direção à vila.

Jamie afastou os cabelos de cima dos olhos, arquejando.

- Maus como lobos - disse. - Eu já havia avisado Colum sobre este bando; é o mesmo que perseguiu Cobhar até o lago há dois dias. É melhor mandar abatê-los a tiros antes que matem alguém. - Olhou para mim enquanto eu me ajoelhava junto ao padre caído no chão, examinando-o. A chuva escorria das pontas dos meus cabelos e eu podia sentir meu xale ensopando-se.

- Ainda não conseguiram - eu disse. - Fora algumas marcas de dentes, ele está bem.

A batina do padre Bain estava rasgada em um dos lados, deixando à mostra uma coxa branca e lisa com um corte feio e vários pontos de perfuração que começavam a sangrar. O padre, lívido com o choque, tentava ficar de pé; ele, era óbvio, não estava gravemente ferido.

- Venha até o consultório comigo, padre, e eu limparei esses cortes - ofereci, reprimindo um sorriso diante do espetáculo que o padre gordo e baixo apresentava, a batina esvoaçando e revelando as meias com desenhos de losangos.

Nos melhores momentos, o rosto do padre Bain parecia-se a um punho cerrado. Essa semelhança ficou ainda mais pronunciada no momento pelas marcas vermelhas que riscavam sua papada e enfatizavam as rugas verticais entre as bochechas e a boca. Fitou-me como se eu lhe tivesse sugerido que cometesse alguma indecência pública.

Aparentemente eu o fizera, porque suas palavras seguintes foram:

- O quê? Um servo de Deus expor suas partes pessoais às mãos de uma mulher? Bem, vou lhe dizer, madame, não sei que espécies de imoralidades são praticadas nos círculos a que está acostumada, mas lhe digo que isso não será tolerado aqui, enquanto eu for responsável pelas almas desta paróquia! - Com isso, virou-se e saiu batendo os pés, mancando fortemente e tentando, sem sucesso, segurar a parte rasgada de sua batina.

- Como quiser - gritei às suas costas. - Se não me deixar limpar esses cortes, eles vão inflamar! — O padre não respondeu, mas curvou os ombros rechonchudos e escalou a escada da horta, um degrau de cada vez, como um pingüim saltitando num bloco de gelo flutuante.

- Esse homem não gosta muito de mulheres, não é? - observei Jamie.

- Considerando-se sua ocupação, imagino que não - respondeu. -Vamos comer.

Após o almoço, mandei meu paciente de volta para a cama para descansar - sozinho, desta vez, apesar de seus protestos - e desci para o consultório. O aguaceiro parecia ter diminuído o movimento; as pessoas preferiam permanecer a salvo nos seus aposentos, em vez de andarem por aí com seus arados ou caírem de telhados.

Passei o tempo agradavelmente, atualizando os registros no livro de Davie Beaton. No entanto, assim que terminei, um visitante obscureceu minha porta.

Ele literalmente obscureceu-a, seu corpo volumoso preenchendo-a de um lado a outro. Estreitando os olhos na semi-escuridão, divisei o vulto de Alec MacMahon, envolvido em um conjunto extraordinário de casacos, xales e um ou outro pedaço de manta de cavalos.

Aproximou-se com uma lentidão que me fez lembrar da primeira visita de Colum ao consultório comigo e me deu uma pista de seu problema.

- Reumatismo, não é? - perguntei com compaixão, enquanto ele se deixava cair rigidamente na minha única cadeira com um gemido abafado.

- Sim. A umidade afeta meus ossos - disse. - O que se vai fazer? -Colocou as mãos enormes e nodosas sobre a mesa, deixando os dedos relaxarem. As mãos se abriram lentamente, como uma flor-da-noite, revelando as palmas calejadas. Peguei uma das mãos retorcidas e virei-a suavemente para a frente e para trás, estendendo os dedos e massageando a palma áspera. O velho rosto marcado de rugas acima da mão contorceu-se um pouco com o movimento, mas depois relaxou quando as primeiras pontadas de dor passaram.

- Como madeira - eu disse. - Uma boa dose de uísque e uma massagem profunda é o melhor que posso recomendar. Chá de tanásia também ajuda um pouco.

Ele riu, o xale deslizando de seus ombros.

- Uísque, hein? Eu tinha minhas dúvidas, dona, mas estou vendo que tem jeito de uma boa médica.

Do fundo do meu armário de remédios, retirei a garrafa marrom anônima que guardava meu suprimento de uísque da destilaria de Leoch. Coloquei-a na mesa diante dele, com um copo de chifre.

- Beba - eu disse —, depois tire as roupas até onde achar decente e deite-se na mesa. Vou atiçar o fogo para que fique bem quente aqui.

O olho azul inspecionou a garrafa com satisfação e a mão deformada dirigiu-se lentamente ao gargalo.

- É melhor tomar um gole também, dona — avisou. - Vai ser um grande trabalho.

Gemeu, com um misto de dor e satisfação, enquanto eu lançava todo o peso do meu corpo sobre seu ombro esquerdo para soltá-lo, depois o erguia por baixo e girava a região para trás.

— Minha mulher costumava massagear minhas costas para mim -comentou - por causa do lumbago. Mas isso é ainda melhor. Tem um par de mãos muito forte, dona. Daria uma boa cavalariça.

— Presumo que isso seja um elogio - eu disse secamente, despejando mais da mistura de óleo e sebo na palma da minha mão e espalhando-a sobre as costas largas e brancas. Havia uma linha de demarcação bem definida entre a pele queimada, castigada pelo tempo, de seus braços, onde as mangas arregaçadas de sua camisa paravam, e a pele branca como leite de seus ombros e costas.

— Bem, você foi um belo rapaz em sua época - observei. - A pele de suas costas é tão branca quanto a minha.

Uma risada profunda sacudiu a carne sob minhas mãos.

— Agora nem dá para imaginar, não é? Sim, Ellen MacKenzie uma vez me viu sem minha camisa, ajudando um potro a nascer, e disse-me que parecia que o bom Deus havia colocado a cabeça errada no meu corpo. Devia ter um saco de pudim de leite nos ombros, ao invés de um rosto do altar.

Imaginei que estivesse se referindo à cortina do crucifixo na capela, que retratava diversos demônios extremamente feios, ocupados em torturar os pecadores.

— Parece que Ellen MacKenzie era um tanto livre em suas opiniões -observei. Estava mais do que ligeiramente curiosa a respeito da mãe de Jamie. De pequenos comentários que ele fazia de vez em quando, eu formara uma idéia de seu pai Brian, mas ele nunca mencionara sua mãe e eu não sabia nada a seu respeito, além de que morrera jovem, de parto.

— Ah, ela era desbocada e tinha uma cabeça voluntariosa também. -Desamarrando as ligas de suas calças curtas, presas abaixo dos joelhos, enrolei-as para cima e comecei a trabalhar os músculos das panturrilhas. -Mas tinha tanta doçura que ninguém se importava muito, além de seus irmãos. E ela não era de dar muita atenção a Dougal ou Colum.

— Hum. Foi o que ouvi dizer. Fugiu com o namorado, não foi? -- Enfiei os polegares nos tendões atrás do joelho e ele emitiu um som que teria sido um grunhido em qualquer pessoa menos digna.

— Ah, sim. Ellen era a mais velha dos seis filhos MacKenzie, um ou dois anos mais velha do que Colum e a menina dos olhos do velho Jacob. Foi por isso que demorou tanto tempo para se casar; não quis saber de John Cameron ou Malcolm Grant ou nenhum dos outros com quem poderia ter se casado e seu pai não queria forçá-la a agir contra sua vontade.

Mas quando o velho Jacob morreu, Colum tinha menos paciência com as fraquezas de sua irmã. Lutando desesperadamente para consolidar seu abalado domínio do clã, buscou uma aliança com Munro ao norte ou Grant ao sul. Ambos os clãs tinham chefes jovens, que se transformariam em úteis cunhados. A jovem Jocasta, de apenas quinze anos, obedientemente aceitou o pedido de John Cameron e foi para o norte. Ellen, à beira de se tornar uma solteirona aos vinte e dois, mostrou-se bem menos dócil.

- Imagino que o pedido de Malcolm Grant tenha sido firmemente rejeitado, a julgar por seu comportamento há duas semanas - observei.

O Velho Alec riu, a risada transformando-se num gemido de prazer quando pressionei com mais força.

- Sim. Nunca soube exatamente o que ela disse para ele, mas acho que feriu fundo. Foi durante o Grande Encontro, que eles se conheceram. Foram lá para fora, para o jardim de rosas, à noite, e todos esperavam para ver se ela o aceitaria ou não. Ficou escuro e continuavam esperando. Mais escuro ainda, todos os lampiões acesos, a música foi iniciada e, ainda assim, nenhum sinal de Ellen ou de Malcolm Grant.

- Nossa Senhora. Deve ter sido uma conversa e tanto. - Despejei mais uma porção do linimento entre suas omoplatas e ele gemeu com a sensação quente e prazerosa.

- Assim parecia. Mas o tempo continuou a passar e eles não voltavam. Colum começou a temer que Grant tivesse fugido com ela; levado à força, sabe. E assim parecia, porque encontraram o jardim vazio. E quando ele me mandou chamar na estrebaria, eu lhe disse que os homens de Grant tinham ido buscar os cavalos e o grupo todo havia partido sem uma palavra de despedida.

Furioso, Dougal, então com dezoito anos, montou em seu cavalo imediatamente e partiu no encalço de Malcolm Grant, sem esperar por companhia nem por uma conversa com Colum.

- Quando Colum soube que Dougal havia partido no encalço de Grant, enviou a mim e outros homens atrás dele, já que Colum conhecia bem o temperamento de Dougal e não queria que seu novo cunhado fosse assassinado na estrada antes da proclama de casamento. Ele imaginou que Malcolm Grant, não tendo conseguido convencer Ellen a aceitar casar-se com ele, devia tê-la seqüestrado para forçá-la a se casar.

Alec fez uma pausa, pensativamente.

- Tudo que Dougal podia ver era o insulto, é claro. Mas não acho que estivesse tão aborrecido com o fato, para dizer a verdade, com ou Sem insulto. Teria resolvido seu problema - e Grant provavelmente iria ter que se casar com Ellen sem seu dote e ainda pagar uma compensação a Colum.

Alec respirou ruidosamente, com um ar cínico.

-- Colum não é homem de deixar passar uma oportunidade. Ele é rápido e cruel, assim é Colum. - O solitário olho de um azul glacial girou para trás para me olhar por cima de um ombro curvado. - Seria bom não se esquecer disso, dona.

- Não pretendo me esquecer - assegurei-lhe, com certa amargura. Lembrava-me da história de Jamie sobre o castigo que Colum ordenara e imaginei quanto disso fora por vingança contra a rebeldia de sua mãe.

No entanto, Colum não teve chance de aproveitar-se da oportunidade de casar sua irmã com o chefe do clã Grant. Quase ao raiar do dia, Dougal encontrou Malcolm Grant acampado junto à estrada principal com seus seguidores, dormindo sob um arbusto de tojo, enrolado em seu xale.

E quando Alec e os outros chegaram furiosos algum tempo depois, ficaram paralisados onde estavam pela visão de Dougal MacKenzie e Malcolm Grant, ambos despidos até a cintura e lanhados com as marcas de luta, cambaleando e oscilando de um lado para o outro na estrada, ainda trocando alguns golpes aleatórios sempre que ficavam ao alcance um do outro. Os seguidores de Grant estavam empoleirados ao longo da estrada como uma fileira de corujas, as cabeças virando-se de um lado para o outro, enquanto a briga próxima do fim serpenteava para cima e para baixo na aurora chuvosa.

- Ambos bufavam como cavalos e o vapor subia de seus corpos no ar frio. O nariz de Grant estava inchado, o dobro do tamanho, e Dougal mal conseguia ver com qualquer um dos olhos, ambos com o sangue pingando e secando em seu peito.

Com o aparecimento dos homens de Colum, os homens de Grant puseram-se de pé, as mãos na espada, e o encontro provavelmente teria resultado em um grave derramamento de sangue se um dos rapazes MacKenzie, de olho mais vivo, não tivesse observado o fato importante de que Ellen MacKenzie não estava entre os Grant.

- Bem, depois de despejarem água em Malcolm Grant para fazê-lo recuperar os sentidos, ele conseguiu contar-lhes o que Dougal não tinha parado para ouvir - que Ellen passara apenas um quarto de hora com ele no roseiral. Recusou-se a contar o que se passara entre os dois, mas o que quer que tenha sido, ele ficara tão ofendido que quis ir embora imediatamente, sem aparecer de novo no salão de Colum. E ele a deixara lá e não a vira mais, nem nunca mais queria ouvir o nome Ellen MacKenzie pronunciado em sua presença outra vez. Com isso, montou em seu cavalo -ainda um pouco vacilante — e foi embora. Desde então, nunca mais se tornou amigo de ninguém do clã MacKenzie.

Ouvi, fascinada.

- E onde estava Ellen todo esse tempo?

O Velho Alec riu, como o som de uma porta de estrebaria rangendo nas dobradiças.

- Do outro lado da montanha, bem longe. Mas eles não descobriram isso de imediato. Demos meia-volta e partimos para casa outra vez, encontrar Ellen ainda desaparecida e Colum de pé, lívido, no pátio, apoiando-se em Angus Mhor.

- Seguiu-se uma confusão ainda maior, porque com todos aqueles hóspedes, os quartos do castelo estavam lotados, assim como todos os sótãos e cubículos, cozinhas e quartinhos. Parecia impossível saber quem, de todas as pessoas no castelo, estaria desaparecido, mas Colum chamou todos os empregados e percorreu tenazmente a lista de todos os convidados, perguntando quem fora visto na noite anterior, e onde, e quando. Finalmente, descobriu uma criada da cozinha que se lembrou de ter visto um homem em uma passagem dos fundos, pouco antes de o jantar ser servido.

Ela só o notara porque era muito bonito; alto e forte, disse, com cabelos negros e lisos como uma silkie, e olhos de gato. Ela observou-o descer a passagem, admirando-o, e o viu encontrar-se com alguém na porta externa - uma mulher vestida de preto da cabeça aos pés e abrigada num manto com capuz.

- O que é uma silkie? — perguntei, surpresa.

Os olhos de Alec estreitaram-se para mim, enrugando-se nos cantos.

- São as focas. Durante muito tempo depois, mesmo após saberem a verdade, as pessoas na vila contavam a história de que Ellen MacKenzie havia sido levada para o mar, para viver entre as focas. Sabia que as silkies tiram sua pele quando vêm para terra firme e caminham como seres humanos? E se você encontrar a pele de uma silkie e a esconder, ele, ou ela - acrescentou com justiça -, não poderá entrar no mar outra vez, mas terá que permanecer com você em terra firme. Diz-se que é bom arranjar uma esposa-foca dessa forma, pois são ótimas cozinheiras e mães muito dedicadas.

- Ainda assim - disse criteriosamente -, Colum não estava inclinado a acreditar que sua irmã fugira com uma foca e deixou isso bem claro. Convocou os hóspedes, um por um, e perguntou a cada um deles quem conhecia um homem com aquela descrição. Finalmente, chegaram à conclusão de que seu nome era Brian, mas ninguém conhecia seu clã ou sobrenome; ele participara dos jogos, mas lá só o chamavam de Brian Dhu.

- A questão ficou suspensa por algum tempo, porque os homens não sabiam em que direção começar a procurar. Ainda assim, até o melhor dos caçadores tem que parar em uma cabana de vez em quando, pedir um punhado de sal ou uma caneca de leite. E finalmente a notícia do paradeiro do casal chegou a Leoch, pois Ellen MacKenzie não era uma jovem de aparência comum.

- Cabelos cor de fogo - disse Alec sonhadoramente, desfrutando o calor do óleo em suas costas. - E olhos como os de Colum: cinzas e debruados de pestanas negras. Muito bonitos, mas do tipo que o atravessam como um raio. Uma mulher alta; mais alta ainda do que você. E para dizer a verdade, os olhos doíam só de vê-la.

- Mais tarde, ouvi dizer que eles se conheceram durante o Grande Encontro, entreolharam-se e decidiram na mesma hora que não poderia haver mais ninguém para nenhum dos dois. Assim, fizeram os planos e fugiram, debaixo dos narizes de Colum MacKenzie e de trezentos hóspedes.

Riu repentinamente, lembrando-se.

- Dougal encontrou-os finalmente, vivendo na cabana de um camponês no limite das terras dos Fraser. Haviam decidido que a única maneira de conseguirem o que queriam seria esconderem-se até Ellen ficar grávida e barriguda o suficiente para não haver dúvida de quem era o pai. Então Colum teria que dar sua bênção ao casamento, gostasse ou não. E ele não gostou.

Alec riu.

- Enquanto estava na estrada, você por acaso viu uma cicatriz que Dougal tem atravessando seu peito?

Eu vira; uma fina linha branca que cortava seu coração e ia do ombro às costelas.

- Foi Brian quem fez aquilo? - perguntei.

- Não, Ellen - respondeu, rindo diante da expressão do meu rosto. -Para impedi-lo de cortar a garganta de Brian, o que ele estava prestes a fazer. Eu não mencionaria isso a Dougal, se fosse você.

- Não, acho que não o faria.

Felizmente, o plano funcionou e Ellen já estava com cinco meses de gravidez quando Dougal os encontrou.

- Houve uma grande confusão em torno do assunto e um monte de cartas muito desagradáveis entre Leoch e Beauly, mas no fim tudo se arranjou e Ellen e Brian foram morar em Lallybroch uma semana antes de a criança nascer. Casaram-se na frente da casa - acrescentou, como uma reflexão posterior - para que ele pudesse atravessar a soleira com ela nos braços pela primeira vez como marido e mulher. Ele disse depois que quase ficou rendido quando a pegou no colo.

- Você fala como se os conhecesse bem — eu disse. Terminando meu tratamento, limpei o óleo escorregadio de minhas mãos com uma toalha.

- Ah, um pouco - Alec disse, sonolento com o calor do corpo. A pálpebra caía sobre seu único olho e as rugas em seu rosto envelhecido haviam relaxado, perdendo a expressão de leve desconforto que normalmente o fazia parecer tão irritado.

- Eu conhecia bem Ellen, é claro. Brian eu conheci anos mais tarde» quando trouxe o rapaz para passar uma temporada aqui. Nós nos demos bem. Ele era bom com cavalos. - Sua voz definhou e a pálpebra se fechou-

Coloquei um cobertor sobre o corpo prostrado do velho tratador de cavalos e saí na ponta dos pés, deixando-o sonhando junto à lareira.

Deixando Alec adormecido, subi para nosso quarto, apenas para encontrar Jamie nas mesmas condições. Há um número limitado de atividades adequadas para diversão dentro de casa, em um dia escuro e chuvoso e presumindo-se que eu não queria nem acordar Jamie nem me unir a ele no mundo dos sonhos, sobravam apenas a leitura ou o bordado. Considerando-se as minhas mais do que medíocres habilidades nesta última, resolvi pegar um livro emprestado da biblioteca de Colum.

De acordo com os peculiares princípios arquitetônicos que governaram a construção de Leoch - baseados nus abominável fixação geral por linhas retas -, a escada que levava à suíte de Colum possuía duas mudanças de direção em ângulo reto, cada qual assinalada por um pequeno patamar. Em geral, um criado permanecia postado no segundo patamar, pronto para ir realizar uma pequena missão ou prestar assistência ao chefe do clã, mas não estava em seu posto hoje. Eu podia ouvir o rumor de vozes vindas de cima; talvez o criado estivesse com Colum. Parei do lado de fora da porta, sem saber se deveria interromper.

— Sempre soube que você era um tolo, Dougal, mas não pensei que fosse tão idiota. — Acostumado à companhia de professores desde a juventude e privado de aventurar-se pelo mundo lá fora como seu irmão fazia entre guerreiros e pessoas comuns, a voz de Colum geralmente não apresentava aquele escocês carregado que marcava a fala de Dougal. O sotaque culto havia falhado um pouco agora e as duas vozes eram quase indistinguíveis, ambas roucas de raiva. - Eu esperaria esse comportamento de sua parte se tivesse vinte e poucos anos, mas pelo amor de Deus, homem, você está com quarenta e cinco!




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