A viajante do tempo



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2 - MONUMENTO DE PEDRAS
O sr. Crook veio me buscar, como combinado, pontualmente às sete horas da manhã seguinte.

- Assim poderemos pegar o sereno nos botões-de-ouro, não é, menina? - ele disse, piscando os olhos como um velho galanteador. Veio numa motocicleta, aproximadamente da sua própria idade, para nos transportar ao campo. As prensas de plantas estavam cuidadosamente amarradas às laterais de sua enorme máquina, como pára-choques de um rebocador. Foi uma lenta excursão pelo campo tranqüilo, ainda mais sossegado em contraste com o ronco estrondoso da moto do sr. Crook, repentinamente silenciada. Descobri que o velho senhor realmente possuía um grande conhecimento das plantas locais. Não só onde elas podiam ser encontradas, mas suas propriedades medicinais e a maneira de prepará-las. Lamentei não ter levado um bloco de anotações para registrar tudo, mas ouvi atentamente a voz entrecortada e procurei gravar as informações na memória, enquanto guardava nossos espécimes nas pesadas prensas.

Paramos para fazer um lanche ao sopé de uma curiosa colina de topo plano. Verde como a maioria de suas vizinhas, com as mesmas saliências e escarpas rochosas, tinha algo diferente: um caminho bem usado que subia por um dos flancos e desaparecia bruscamente atrás de um afloramento de granito.

- O que há lá em cima? - perguntei, apontando com um sanduíche de presunto. - Parece um local difícil para um piquenique.

- Ah. — O sr. Crook olhou para a colina. — Essa é a Craigh na Dun, menina. Eu pretendia mostrar-lhe depois do lanche.

- É mesmo? Há alguma coisa especial a respeito desta colina?

- Ah, sim — ele respondeu, recusando-se a dar maiores detalhes, dizendo meramente que eu veria quando chegasse lá.

Eu tinha algum receio quanto à sua habilidade de subir um caminho tão íngreme, mas logo se desvaneceu quando eu me vi arquejante, seguindo em seu rasto. Finalmente, o sr. Crook estendeu a mão nodosa e puxou-me para cima da beira do monte.

- Aí está. - Fez um gesto amplo com a mão, como se fosse o proprietário.

- Ora, é um monumento megalítico! — exclamei, encantada. - Um círculo de pedras em miniatura!

Por causa da guerra, já fazia vários anos que eu viajara à planície de Salisbury, mas Frank e eu visitamos Stonehenge logo depois de casados. Como os outros turistas andando maravilhados entre os enormes blocos de pedra verticais do monumento, ficamos boquiabertos diante da Pedra do Altar ("onde os antigos druidas realizavam seus terríveis sacrifícios humanos", anunciara o sonoro guia turístico com seu sotaque cockney a um grupo de turistas italianos, que diligentemente tirava fotografias do bloco de pedra de aparência bastante comum).

Com a mesma paixão pela exatidão que fazia com que Frank arrumasse as gravatas no cabide de modo que as pontas ficassem exatamente da mesma altura, percorremos até mesmo a circunferência do círculo, medindo os passos entre os buracos Z e os buracos Y e contando os dintéis no Círculo de Sarsen, o anel mais externo das monstruosas pedras verticais.

Três horas depois, sabíamos quantos buracos Y e Z havia (cinqüenta e nove, se quer saber; eu não quis), mas continuávamos sem fazer idéia da finalidade da estrutura, da mesma forma que as dezenas de arqueólogos profissionais e amadores que se arrastaram por aquele sítio nos últimos quinhentos anos.

Não por falta de opiniões, é claro. A vida entre acadêmicos ensinara-me que uma opinião bem expressada em geral é melhor do que um fato mal expressado no que diz respeito a progresso profissional.

Um templo. Um cemitério. Um observatório astronômico. Um local de execução (daí o nome inadequado de "Pedra do Massacre", inclinada para o lado, semi-enterrada em seu próprio buraco). Um mercado a céu aberto. Gostei dessa última sugestão, visualizando donas de casa megalíticas caminhando entre os dintéis, cestos nos braços, analisando o verniz do último carregamento de vasos e cerâmica vermelha, e ouvindo com ceticismo os proclames de padeiros da idade da pedra e de vendedores de contas de âmbar e de pás feitas com ossos de cervos.

A única coisa que a meu ver contrariava essa hipótese era a presença de corpos sob a Pedra do Altar e restos humanos incinerados nos buracos Z. A menos que fossem os desafortunados restos mortais de mercadores acusados de roubar os fregueses no peso, parecia um pouco anti-higiênico enterrar pessoas no mercado.

Não havia nenhum sinal de sepultamento no círculo de pedras em miniatura no topo desta colina. Por "miniatura" quero dizer apenas que o círculo de pedras verticais era menor do que Stonehenge; ainda assim, cada pedra tinha o dobro da minha altura e proporções maciças.

Eu ouvira de outro guia turístico em Stonehenge que esses círculos megalíticos ocorrem por toda a Inglaterra e Europa - alguns mais conservados do que outros, alguns diferindo ligeiramente na orientação e na forma, todos de finalidade e origem desconhecidas.

O sr. Crook ficou sorrindo afavelmente, enquanto eu circulava pelas pedras, parando de vez em quando para tocar de leve em uma delas, como se o toque de meus dedos pudesse deixar uma impressão nos monumentais blocos de pedra.

Algumas das lajes verticais eram rajadas, listradas de cores quase imperceptíveis. Outras eram pontilhadas de flocos de mica que refletiam a luz do sol matinal com um brilho alegre. Todas eram notavelmente diferentes dos amontoados de pedras nativas que se projetavam das samambaias à volta. Quem quer que tenha construído os círculos de pedra, e para que finalidade fosse, achou importante ter extraído, modelado e transportado blocos especiais de pedra para a edificação de seu tributo. Modelado — como? Transportado — como e de que distância inimaginável?

— Meu marido ficaria fascinado — eu disse ao sr. Crook, parando para agradecer-lhe por me mostrar o lugar e as plantas. — Vou trazê-lo aqui depois para que ele o veja.

O idoso cavalheiro elegantemente me ofereceu o braço no alto da trilha. Aceitei-o, concluindo depois de dar uma olhada na íngreme ribanceira que, apesar da idade, ele provavelmente tinha as pernas mais firmes do que as minhas.

Naquela tarde, desci a rua em direção ao povoado para buscar Frank na casa do vigário. Inspirava com satisfação aquela estonteante mistura das Highlands de urze, sálvia e giesta, temperadas aqui e ali por fumaça de chaminé e cheiro forte de arenque frito à medida que eu passava pelas poucas casas. A vila ficava aninhada em um pequeno declive ao sopé de uma daquelas elevadas escarpas que se erguiam quase verticalmente das charnecas das Highlands. As casas junto à rua eram bonitas. A prosperidade florescente do pós-guerra podia ser vista até em uma nova pintura e mesmo a propriedade do pároco, que devia ter pelo menos cem anos, exibia uma borda amarelo-viva em torno dos frouxos caixilhos das janelas.

A governanta do vigário atendeu à porta, uma mulher alta e de ar severo, com três voltas de pérolas artificiais no pescoço. Ouvindo quem eu era, pediu que eu entrasse e me conduziu por um corredor longo, estreito e escuro, coberto de gravuras em sépia de pessoas que podiam ter sido personagens famosos em sua época ou parentes queridos do atual vigário, mas que também podiam muito bem ser membros da família real, pelo que pude divisar de suas feições na escuridão.

O gabinete do vigário, ao contrário, ofuscava com a luz que entrava pelas enormes janelas que cobriam uma das paredes, praticamente do teto ao chão. Um cavalete junto à lareira, ostentando uma pintura a óleo inacabada de penhascos negros contra um céu noturno, mostrava a razão das janelas, que devem ter sido acrescentadas muito depois da construção da casa.

Frank e um homem baixo e gorducho, com um colarinho de padre, debruçavam-se confortavelmente sobre uma pilha de papéis velhos espalhados pela escrivaninha do outro lado da sala. Frank mal levantou a cabeça para me cumprimentar, mas o vigário educadamente abandonou suas explicações e apressou-se a vir apertar minha mão, o rosto redondo radiante de prazer.

- Sra. Randall! - exclamou, sacudindo minha mão entusiasticamente. - Que prazer revê-la! E chegou bem na hora de ouvir as novidades!

- Novidades? - Lançando um olhar no aspecto encardido e na tipologia dos documentos sobre a Escrivaninha, calculei que as novidades em questão deviam datar de 1750. Portanto, não eram exatamente as manchetes do dia.

- Sim, isso mesmo. Estivemos rastreando um ancestral de seu marido, Jack Randall, através dos despachos do exército na época. - O vigário inclinou-se em minha direção, falando pelo canto da boca como um gângster de filme americano. - Eu, hã, "peguei emprestado" os despachos originais dos arquivos da Sociedade Histórica local. Não vai contar para ninguém?

Achando graça, prometi que não revelaria seu terrível segredo e olhei à minha volta em busca de uma poltrona confortável onde pudesse receber as últimas revelações do século XVIII. A poltrona mais próxima das janelas pareceu-me adequada, mas quando me aproximei para virá-la para a escrivaninha, descobri que já estava ocupada. O ocupante, um garoto com uma surpreendente cabeleira negra e lustrosa, estava enroscado no fundo da poltrona, dormindo profundamente.

- Roger! - O vigário, vindo em meu auxílio, estava tão surpreso quanto eu. O garoto, acordado de repente, ficou de pé num salto, os olhos verdes-musgo arregalados.

- Ora, o que você está fazendo aqui, moleque? - O vigário repreendeu-o afetuosamente. — Ah, adormeceu lendo histórias em quadrinhos outra vez? - Pegou as folhas vivamente coloridas e entregou-as ao menino. - Agora, vá, Roger, tenho assuntos a tratar com os Randall. Ah, espere, esqueci-me de apresentá-lo. Sra. Randall, este é meu filho, Roger.

Fiquei um pouco surpresa. Se houvesse um solteirão inveterado no mundo, eu diria que era o reverendo Wakefield. Ainda assim, segurei a mãozinha educadamente estendida e apertei-a calorosamente, resistindo à necessidade urgente de limpar na saia um certo resíduo pegajoso.

O reverendo Wakefield ficou olhando afetuosamente o menino sair marchando em direção à cozinha.

- Filho da minha sobrinha, na verdade - confidenciou. - O pai levou um tiro na travessia do canal e a mãe foi morta durante um bombardeio, assim eu fiquei com ele.

- Muito generoso de sua parte - murmurei, pensando em tio Lamb. Ele, também, morrera durante um bombardeio, em um ataque ao auditório do Museu Britânico, onde dava uma palestra. Conhecendo-o como conhecia, acho que seu último sentimento foi de satisfação pelo fato de a vizinha ala de antiguidades persas não ter sido atingida.

- De modo algum, de modo algum. — O vigário sacudiu a mão, encabulado. — É bom ter um pouco de juventude na casa. Vamos, sente-se, por favor.

Frank começou a falar antes mesmo de eu ter colocado a minha bolsa sobre a poltrona.

- Uma sorte incrível, Claire - exclamou, entusiasmado, folheando a pilha já surrada. - O vigário encontrou toda uma série de despachos militares que mencionam Jonathan Randall.

- Bem, parece que grande parte da importância deve-se ao próprio capitão Randall — observou o vigário, pegando alguns papéis de Frank. — Ele esteve no comando da guarnição em Fort William durante aproximadamente quatro anos, mas parece ter passado grande parte de seu tempo atormentando o interior da Escócia, acima da fronteira, em nome da Coroa. Este lote — cuidadosamente, ele separou uma pilha de documentos e espalhou-os sobre a escrivaninha - é de relatórios de queixas apresentadas contra o capitão por várias famílias e proprietários, reclamando de tudo, desde interferência dos soldados da guarnição com as criadas ao roubo de cavalos, sem mencionar diversos casos de "insulto" ou "não especificados".

Não pude deixar de rir.

- Quer dizer então que você tem o proverbial ladrão de cavalos em sua árvore genealógica? — perguntei a Frank.

Ele deu de ombros, sem se perturbar.

- Ele era o que era e não há nada que eu possa fazer a respeito. Só quero descobrir. As queixas não são estranhas, para essa época específica; os ingleses de um modo geral, e o exército em particular, eram bastante impopulares nas Highlands. Não, o que é estranho é que parece que nada aconteceu em decorrência das queixas, nem mesmo das mais graves.

O vigário, incapaz de se manter quieto por mais tempo, interrompeu.

- Isso mesmo. Não que os oficiais naquela época tivessem que se pautar pelos mesmos padrões modernos; podiam agir praticamente por conta própria em questões de menor importância. Mas isso é estranho. Não é que as queixas tenham sido investigadas e descartadas; elas simplesmente nunca mais são mencionadas. Sabe do que eu desconfio, Randall? Seu antepassado devia ter um benfeitor. Alguém que podia protegê-lo da censura de seus superiores.

Frank coçou a cabeça, estreitando os olhos para os despachos.

- Talvez tenha razão. No entanto, tinha que ser alguém muito poderoso. No topo da hierarquia militar, talvez, ou talvez um membro da nobreza.

- Sim, ou possivelmente... O vigário foi interrompido em suas teorias pela entrada da governanta, a sra. Graham.

- Trouxe um pouco de chá, senhores - anunciou, colocando a bandeja com firmeza no meio da escrivaninha, de onde o vigário resgatou os preciosos despachos no momento exato. Ela me examinou de cima a baixo com um olhar perspicaz, avaliando os braços e pernas nervosamente contraídos e o olhar ligeiramente vitrificado.

- Só trouxe duas xícaras, porque pensei que talvez a sra. Randall quisesse acompanhar-me à cozinha. Tenho um pouco de... Não esperei pela conclusão de seu convite e levantei-me prontamente. Pude ouvir as teorias irrompendo outra vez às minhas costas enquanto atravessávamos a porta de vaivém que levava à cozinha.

O chá era verde, quente e perfumado, com pedaços de folhas dando voltas no líquido.

- Mirim — eu disse, abaixando a xícara. - Há muito tempo que não tomo Dolong.

A sra. Graham balançou a cabeça, radiante com o meu prazer em sua bebida. Ela certamente se esmerara, colocando paninhos de renda bordados à mão sob as xícaras de fina porcelana e oferecendo creme espesso e coalhado acompanhando os pãezinhos.

- Sim, eu não o conseguia durante a guerra. No entanto, é o melhor para a leitura. Tive muita dificuldade com o Earl Grey. As folhas despedaçam-se tão depressa que fica difícil ler qualquer coisa nelas.

- Ah, a senhora lê folhas de chá? — perguntei, achando engraçado. Nada poderia estar mais distante da concepção popular de uma adivinha cigana do que a sra. Graham, com seu permanente curto e cinza e seu colar de pérolas de três voltas. Um gole de chá percorreu visivelmente o pescoço longo e vigoroso e desapareceu sob as contas reluzentes.

- Ora, certamente, minha querida. Assim como minha avó me ensinou e a avó dela antes dela. Esvazie sua xícara e eu verei o que tem aí.

Ficou em silêncio por um longo tempo, de vez em quando inclinando a xícara para iluminá-la melhor ou girando-a lentamente nas palmas magras para obter um ângulo diferente.

Colocou a xícara de volta no pires cuidadosamente, como se receasse que fosse explodir no seu rosto. As linhas em torno de sua boca aprofundaram-se e as sobrancelhas uniram-se numa expressão intrigada.

- Bem - disse, finalmente. - Essa é uma das mais estranhas que já vi.

- É mesmo? - Eu ainda achava graça, mas comecei a ficar curiosa. -Vou conhecer um estranho alto e moreno ou fazer uma viagem através do oceano?

- Poderia ser. - A sra. Graham percebeu o tom irônico em minha voz e repetiu-o, sorrindo ligeiramente. – E poderia não ser. Isso é que é estranho sobre sua xícara, minha querida. Tudo nela é contraditório. Há a folha curvada para uma viagem, mas está cruzada pela folha quebrada que significa permanecer no lugar. E há estranhos, sem dúvida, vários deles. E um deles é o seu marido, se eu li as folhas direito.

Meu ar zombeteiro se dissipou um pouco. Após seis anos separados e seis meses juntos, meu marido de certa forma era realmente um estranho. Embora eu não conseguisse ver como uma folha de chá pudesse saber disso.

A sra. Graham continuava com a testa franzida.

- Deixe-me ver sua mão, minha filha - ela disse.

A mão que segurou a minha era ossuda, mas surpreendentemente aquecida. Uma fragrância de alfazema emanava da cabeça grisalha e bem arrumada que se inclinava sobre a palma da minha mão. Examinou minha mão cuidadosamente por um longo tempo, de vez em quando traçando uma das linhas com o dedo, como se seguisse um mapa cujas estradas acabassem todas nas águas de uma costa arenosa ou em terras ermas e desertas.

- Bem, o que diz aí? - perguntei, tentando manter um ar despreocupado. — Ou o meu destino é horrível demais para ser revelado?

A sra. Graham ergueu os olhos inquiridores e fitou o meu rosto pensativamente, mas continuou segurando a minha mão. Sacudiu a cabeça, enrugando os lábios.

- Ah, não, minha querida. Não é o destino que está em sua mão. Apenas a semente dele. - Inclinou a cabeça para um lado, considerando o que dizia. — Como sabe, as linhas da mão vão mudando ao longo do tempo. Em outro momento de sua vida, elas podem ser bastante diferentes do que são agora.

- Não sabia disso. Pensei que a gente nascia com elas e pronto. — Eu reprimia uma vontade premente de retirar minha mão. — Nesse caso, de que adianta a leitura da mão? - Não queria parecer mal-educada, mas estava achando aquele escrutínio um pouco desconcertante, especialmente depois da leitura das folhas de chá. A sra. Graham sorriu inesperadamente e fechou os meus dedos sobre a palma da minha mão.

- Ora, as linhas de sua mão mostram quem você é, querida. É por isso que mudam, ou deveriam mudar. Em algumas pessoas, não mudam; naquelas suficientemente infelizes para nunca mudarem interiormente, mas são poucas assim. - Apertou minha mão dobrada e deu-lhe um tapinha. - Duvido que você seja uma delas. Sua mão já demonstra mudanças demais para alguém tão jovem. Deve ser por causa da guerra, é claro — disse, como se falasse para si mesma.

Fiquei novamente curiosa e abri minha mão voluntariamente.

- O que sou, então, segundo a palma de minha mão?

A sra. Graham franziu o cenho, mas não segurou minha mão outra vez.

- Não sei dizer. É estranho, porque a maioria das mãos tem semelhanças. Veja bem, não estou querendo dizer que se você viu uma, viu todas, mas em geral é assim. Há padrões, sabe? - Sorriu repentinamente, um riso estranhamente simpático, exibindo dentes muito brancos e evidentemente postiços.

- É assim que uma adivinha funciona. Faço isso para a quermesse da igreja todos os anos. Ou fazia, antes da guerra; acho que voltarei a fazer, agora. Mas uma jovem entra na tenda e lá estou eu, ostentando um turbante com uma pena de pavão que peço emprestada ao sr. Donaldson e "trajes de esplendor oriental", que é o roupão do vigário, repleto de desenhos de pavão e amarelo como o sol. De qualquer forma, eu a examino de cima a baixo enquanto finjo estar olhando sua mão e vejo que usa uma blusa decotada quase até o umbigo, um perfume barato e brincos que vão até o pescoço. Não preciso de uma bola de cristal para lhe dizer que terá um filho antes da festa do ano que vem. - A sra. Graham fez uma pausa, os olhos cinzas acesos de malícia. — Mas se a mão que você estiver segurando estiver sem anéis, é diplomático prever primeiro que ela se casará em breve.

Eu ri e ela também.

- Então, a senhora não analisa as mãos delas? — perguntei. - Só para verificar os anéis?

Ela pareceu surpresa.

- Ah, claro que examino. É que você já sabe com antecedência o que vai ver. Geralmente. - Fez um sinal com a cabeça indicando minha mão aberta. - Mas nunca vi um padrão assim antes. O polegar grande — nesse momento, ela realmente inclinou-se para a frente e tocou-o de leve -, isso não mudaria muito. Significa que você tem força de vontade e uma determinação que dificilmente pode ser contrariada. - Piscou os olhos para mim. - Imagino que seu marido já tenha lhe dito isso. Da mesma forma, isso aqui. — Apontou para o montinho carnudo na base do polegar.

- O que é?

- Chama-se Monte de Vênus. - Comprimiu os lábios finos com força, embora não conseguisse impedir os cantos de se elevarem. — Em um homem, eu diria que significa que ele gosta de mulheres. Para uma mulher, é um pouco diferente. Para ser delicada a respeito, farei uma pequena previsão para você e direi que seu marido provavelmente não se afastará muito de sua cama. - Deu uma risadinha surpreendentemente profunda e imoral e eu fiquei levemente corada.

A idosa governanta examinou minha mão cuidadosamente outra vez, batendo com o dedo em riste aqui e ali para enfatizar suas palavras.

- Bem, vejamos, uma linha da vida bem definida; está com boa saúde e é provável que permaneça assim. A linha da vida está interrompida, significando que sua vida sofreu uma grande mudança. Bem, isso é verdade para todos nós, não é? Mas a sua é mais retalhada do que eu normalmente vejo; toda em pedacinhos. E a sua linha do casamento — sacudiu a cabeça outra vez — é dividida; não é incomum, significa dois casamentos...

Minha reação foi de descrença, que reprimi imediatamente, mas ela percebeu e no mesmo instante ergueu o olhar. Achei que ela devia ser uma adivinha muito perspicaz. A cabeça grisalha balançou em minha direção, procurando tranqüilizar-me.

- Não, não, menina. Não significa que vá acontecer alguma coisa com seu marido. É que, se acontecesse - e ela enfatizou o "se" apertando ligeiramente a minha mão -, você não seria do tipo que iria definhar e ficar de luto o resto de sua vida. O que significa é que você é uma dessas pessoas capazes de amar novamente se perder seu primeiro amor.

Apertou os olhos míopes para a minha mão, percorrendo delicadamente, com uma unha dura e pontuda, a minha profunda linha do casamento.

- Mas a maioria das linhas do casamento é interrompida, a sua bifurca-se. - Ergueu os olhos com um sorriso brincalhão. - Certamente você não é uma bígama em segredo, não é?

Sacudi a cabeça, rindo.

- Não. Quando teria tempo para isso? — Em seguida, virei a mão, mostrando a borda externa.

- Ouvi dizer que pequenas marcas no lado da mão indicam quantos filhos você vai ter? - Esperava ter falado em tom casual. O decepcionante lado externo da minha palma era completamente liso. A sra. Graham sacudiu a mão desdenhando a idéia.

- Que nada! Depois de ter um ou dois filhos, vai ter linhas aí. Mais provavelmente vai tê-las no rosto. Não prova nada de antemão.

- Ah, não? - Fiquei tolamente aliviada de ouvir aquilo. Estava prestes a perguntar se as linhas profundas na base do meu pulso significavam alguma coisa (um potencial para o suicídio?), quando fomos interrompidas nesse ponto pelo reverendo Wakefield, que entrou na cozinha carregando as xícaras vazias. Colocou-as na pia e começou uma busca desajeitada e espalhafatosa no armário, obviamente na esperança de que alguém fosse ajudá-lo.

A sra. Graham pôs-se de pé num salto para defender a santidade de sua cozinha e, empurrando o reverendo habilmente para o lado, começou a reunir acompanhamentos de chá na bandeja para levar ao gabinete. Ele me puxou para o lado, fora do caminho.

- Por que não vem ao gabinete tomar outra xícara de chá comigo e com seu marido, sra. Randall? Fizemos uma descoberta extremamente gratificante.

Pude notar que, apesar do aparente comedimento externo, ele estava esfuziante de alegria com o que quer que tivessem descoberto, como um garotinho com um sapo no bolso. Obviamente, eu teria que ir ler o rol de roupas sujas do capitão Jonathan Randall, o recibo do conserto das botas ou algum outro documento igualmente fascinante.

Frank estava tão absorvido com os papéis corroídos que mal ergueu os olhos quando entrei no gabinete. Entregou-os relutantemente nas mãos gorduchas do vigário e deu a volta para ficar de pé atrás do reverendo Wakefield e espreitar por cima de seu ombro, como se não pudesse suportar que os papéis ficassem fora de sua vista nem por um instante.

- Sim? - eu disse educadamente, manuseando os pedaços de papéis encardidos. - Hummm, sim, muito interessante. - Na realidade, a floreada caligrafia manuscrita estava tão desgastada e era tão rebuscada que não parecia valer a pena decifrá-la. Uma folha, mais bem preservada do que o resto, ostentava uma espécie de timbre no topo.

- O duque de... Sandringham, não é? — perguntei, analisando atentamente o timbre, com a figura desbotada de um leopardo deitado e as letras impressas embaixo, mais nítidas do que o texto manuscrito.

- Sim, isso mesmo — disse o vigário, ainda mais radiante. - Um título agora já extinto, como sabe.

Eu não sabia, mas confirmei inteligentemente com um aceno da cabeça, conhecendo como eu conhecia os historiadores no afã desvairado da descoberta. Raramente era necessário mais do que balançar a cabeça de vez em quando, exclamando "Ah, é mesmo?" ou "Absolutamente fascinante!" a intervalos apropriados.

Após uma certa dose de troca de deferências entre Frank e o vigário, o último ganhou a honra de me contar a respeito da descoberta. Evidentemente, toda aquela papelada velha indicava que o antepassado de Frank, o famoso Black Jack Randall, não fora apenas um valente soldado da coroa, mas um agente de confiança - e secreto - do duque de Sandringham.

- Quase um agente provocador, não diria, sr. Randall? - O vigário elegantemente passou a bola de volta para Frank, que não perdeu a oportunidade.

- Sim, é verdade. A linguagem é muito velada, é claro... - Virou as páginas delicadamente com o indicador bem limpo.

- Ah, é mesmo? - exclamei.

- Mas parece, por esses documentos, que Jonathan Randall foi incumbido da tarefa de trazer à luz sentimentos jacobitas, se existia algum, entre as proeminentes famílias escocesas de sua área. O objetivo era eliminar qualquer baronete e chefe de clã que pudesse estar abrigando simpatias secretas nessa direção. Mas isso é estranho. O próprio Sandringham não era suspeito de ser um jacobita? — Frank virou-se para o vigário com o cenho franzido numa expressão inquiridora. A cabeça lisa e careca do vigário enrugou-se numa expressão idêntica.

- Ora, sim, acho que tem razão. Mas espere, vamos verificar no Cameron. - Deu um salto em direção às prateleiras de livros, abarrotadas de volumes com capa de couro. - Certamente ele menciona Sandringham.

- Absolutamente fascinante - murmurei, deixando minha atenção desviar-se para a enorme placa de cortiça que revestia uma das paredes do gabinete, do chão ao teto.

Estava coberta com uma impressionante diversidade de objetos; a maioria papéis de algum tipo, contas de gás, correspondências, avisos do Conselho Diocesano, páginas soltas de romances, bilhetes de próprio punho do vigário, mas também pequenos itens como chaves, tampas de garrafas e o que pareciam pequenas peças de carro, presas com tachas e barbante.

Dei uma olhada lânguida pela miscelânea, mantendo um dos ouvidos sintonizado na discussão que transcorria atrás de mim. (O duque de Sandringham provavelmente foi um jacobita, concluíram.) Minha atenção foi atraída por um mapa genealógico, pregado com cuidado especial, à parte, com quatro tachas, uma em cada canto. O topo do mapa incluía nomes datados do começo do século XVII. Mas foi o nome na parte inferior do mapa que chamou minha atenção: "Roger W. (MacKenzie) Wakefield".

- Desculpe-me - eu disse, interrompendo uma discussão final se o leopardo no timbre do duque tinha um lírio na pata, ou seria um açafrão? -Essa é a árvore genealógica de seu filho?

- Hein? Ah, sim, é, sim. - Tendo a atenção desviada, o vigário aproximou-se às pressas, mais uma vez radiante. Desprendeu cuidadosamente o mapa da parede e colocou-o na mesa à sua frente.

- Não queria que ele esquecesse a própria família - explicou. - É uma linhagem muito antiga, do século XVI. - O dedo indicador grosso e curto traçou a linha de descendência quase reverentemente.

- Dei-lhe meu próprio nome porque me pareceu mais adequado, já que ele vive aqui, mas não queria que esquecesse suas origens. - Deu um sorriso contrafeito. — Receio que minha própria família não seja nada de se orgulhar, em termos de genealogia. Vigários e curas, com um ou outro livreiro para variar, e só pode ser rastreada até 1762. Registros bastantes falhos, sabe - disse, abanando a cabeça pesarosamente diante da letargia de seus antepassados.

Já estava ficando tarde quando finalmente deixamos a residência do vigário, que prometeu levar as cartas para a cidade para copiá-las logo de manhã cedo. Frank foi tagarelando alegremente sobre espiões e jacobitas durante a maior parte do caminho de volta à pousada da sra. Baird. Finalmente, entretanto, ele notou meu silêncio.

- O que foi, amor? — perguntou, segurando meu braço atenciosamente. - Não está se sentindo bem? — A pergunta foi feita num tom misto de preocupação e esperança.

- Não, estou perfeitamente bem. Só estava pensando... — hesitei, porque já havíamos discutido a questão anteriormente. - Estava pensando em Roger.

- Roger?


Fiz um gesto de impaciência.

- Realmente, Frank! Como pode ser tão... desligado?! Roger, o filho do reverendo Wakefield.

- Ah. Sim, é claro - disse vagamente. - Uma criança adorável. O que tem ele?

- Bem... é que existem muitas crianças como ele. Órfãos. Lançou-me um olhar penetrante e sacudiu a cabeça.

- Não, Claire. Realmente, eu gostaria, mas já lhe disse como eu me sinto a respeito de adoção. É que... eu não iria me sentir bem em relação a uma criança que não é... bem, do meu próprio sangue. Sei que isso é ridículo e egoísta da minha parte, mas é assim que eu me sinto. Talvez mude de idéia com o tempo, mas agora... — Andamos alguns passos num silêncio pesado. De repente, ele parou e virou-se para mim, tomando minhas mãos.

- Claire - disse com voz rouca -, eu quero o nosso filho. Você é a coisa mais importante do mundo para mim. Quero que seja feliz, acima de tudo, mas quero... bem, quero você para mim. Receio que uma criança de fora, com quem não temos nenhum relacionamento verdadeiro, venha a ser um intruso e eu me ressentiria disso. Mas poder lhe dar um filho, vê-lo crescer em você, vê-lo nascer... eu sentiria como se fosse mais uma... extensão de você, talvez. E de mim. Uma parte verdadeira da família. - Seus olhos estavam arregalados, suplicantes.

- Sim, tudo bem. Eu compreendo. - Estava disposta a abandonar o assunto, por enquanto. Virei-me para continuar andando, mas ele tomou-me em seus braços.

- Claire. Eu a amo. - A ternura em sua voz era irresistível e apoiei minha cabeça em seu casaco, sentindo seu calor e a força de seus braços à minha volta.

- Eu também o amo. — Ficamos ali abraçados por alguns instantes, balançando ligeiramente ao vento que varria a rua. De repente, Frank recuou um pouco, sorrindo para mim.

- Além disso — disse num sussurro, alisando meus cabelos revoltos pelo vento -, nós ainda não desistimos, não é?

Devolvi o sorriso. -Não.

Tomou minha mão, enfiando-a carinhosamente na dobra do braço, e voltamo-nos na direção de nossa hospedaria.

- Pronta para nova tentativa?

- Sim. Por que não? - Caminhamos a passos largos, de mãos dadas, em direção à Gereside Road. Foi a visão de Baragh Mhor, a pedra do povo picto que se ergue na esquina dessa rua, que me fez lembrar de outro monumento antigo.

- Eu me esqueci! - exclamei. - Tenho algo impressionante para lhe mostrar. — Frank abaixou os olhos para mim e puxou-me mais para junto de si. Apertou minha mão.

- Eu também - disse, rindo. - Você pode me mostrar o seu amanhã.

Quando o amanhã chegou, tínhamos outras coisas para fazer. Eu me esquecera que havíamos planejado uma viagem de um dia ao Great Glen, o extenso vale do lago Ness.

Era uma longa viagem através do vale e saímos bem cedo, antes do nascer do sol. Depois da corrida no amanhecer gelado para o carro que nos aguardava, era reconfortante relaxar sob a manta que cobria nossas pernas e sentir o calor retornando aos pés e às mãos. Com ele, veio uma deliciosa sonolência e senti-me adormecer tranqüilamente no ombro de Frank, sendo a minha última visão consciente a cabeça do motorista em silhueta contra o céu vermelho da aurora.

Já passava das nove horas quando chegamos e o guia que Frank contratara aguardava-nos na beira do lago com um pequeno barco.

- Se estiver de acordo, senhor, pensei em darmos uma pequena volta no lago até o Castelo Urquhart. Talvez possamos fazer um lanche lá, antes de continuar. - O guia, um homenzinho austero, vestindo uma camisa de algodão e calças de sarja surradas, guardou um cesto de piquenique cuidadosamente sob o banco e ofereceu-me a mão calejada para me ajudar a descer para o fundo do barco.

Era um lindo dia, com a florescente vegetação das margens íngremes refletindo nebulosamente na superfície ondulada do lago. Nosso guia, apesar do ar severo, era comunicativo e conhecedor, apontando ilhas, castelos e ruínas que ladeavam o lago longo e estreito.

- Lá, aquele é o Castelo Urquhart. — Apontou para uma muralha lisa de pedra, mal visível entre as árvores. — Ou o que restou dele. Foi amaldiçoado pelas bruxas do vale e viu uma desgraça atrás da outra.

Contou-nos a história de Mary Grant, filha do senhor do Castelo Urquhart, e de seu amante, Donald Donn, poeta e filho de MacDonald de Bohuntin. Proibidos de se encontrar por causa da objeção do pai dela aos hábitos de Donald de "surrupiar" qualquer cabeça de gado que encontrasse (uma profissão antiga e honrada das Highlands, segundo nos assegurou o guia), eles se encontravam mesmo assim. O pai ficou sabendo, Donald foi atraído para um falso local de encontro e assim capturado. Condenado à morte, suplicou para ser decapitado como um cavaleiro, ao invés de enforcado como um criminoso. Seu pedido foi atendido e o jovem dirigiu-se ao cadafalso repetindo "O Diabo se apossará do Senhor de Grant e Donald Donn não será enforcado". Não foi e a lenda diz que, quando sua cabeça decapitada rolou do cadafalso, ela falou, dizendo: "Mary, levante minha cabeça."

Estremeci e Frank passou o braço ao meu redor.

- Resta um trecho de um de seus poemas - disse serenamente. - De Donald Donn. Diz o seguinte:

"Amanhã deverei estar numa colina, sem a cabeça. Não tem compaixão de minha triste donzela, Minha Mary, de cabelos louros galhos meigos?"

Segurei sua mão e apertei-a de leve.

À medida que as histórias de traição, assassinato e violência eram recontadas, parecia que o lago fazia jus à sua sinistra reputação.

- E o monstro? — perguntei, espreitando pela beirada do barco as profundezas sombrias. Parecia perfeitamente adequado àquele cenário.

Nosso guia deu de ombros e cuspiu na água.

- Bem, o lago é estranho, quanto a isso não resta dúvida. Há histórias, é verdade, de algo antigo e maligno que um dia viveu nas profundezas do lago. Sacrifícios foram feitos a ele. Vacas, e às vezes até mesmo criancinhas, lançadas às águas em cestos de vime. - Cuspiu outra vez. - E alguns dizem que o lago não tem fundo. Tem um buraco no centro mais profundo do que qualquer outro na Escócia. Por outro lado — os olhos enrugados do guia enrugaram-se um pouco mais -, houve uma família aqui de Lan-cashire há alguns anos que foi correndo à delegacia em Invermoriston, gritando que havia visto o monstro sair da água e esconder-se no meio das samambaias. Disseram que era uma terrível criatura, coberta de pêlos vermelhos e chifres assustadores, e mastigava alguma coisa, com o sangue escorrendo da boca. - Ergueu uma das mãos, estancando minha exclamação horrorizada.

- O policial que mandaram para investigar voltou e disse que, bem, exceto pelo sangue gotejante, era uma descrição bem precisa - fez uma pausa para causar impacto —, de uma bela vaca das Highlands, ruminando nas samambaias!

Seguimos de barco até a metade do lago antes de desembarcar para um lanche tardio. Encontramos o carro lá e voltamos nele pelo vale, não vendo nada mais sinistro do que uma raposa vermelha na estrada, que nos olhou espantada, com um pequeno animal pendendo frouxamente de suas mandíbulas, quando viramos uma curva em grande velocidade. Ela saltou para a beira da estrada e fugiu, rápida como uma sombra.

Era bem tarde quando finalmente cambaleamos pelo caminho de entrada da pousada, mas permanecemos agarrados um ao outro na soleira da porta enquanto Frank tateava os bolsos em busca da chave, ainda rindo dos acontecimentos do dia.

Somente quando já nos despíamos para ir dormir é que eu me lembrei de mencionar o círculo de pedras em miniatura, em Craigh na Dun. Seu cansaço desapareceu instantaneamente.

- Verdade? E você sabe onde fica? Que maravilha, Claire! - Ficou exultante e começou a remexer em sua mala.

- O que está procurando?

- O despertador - respondeu, retirando-o.

- Para quê? - perguntei, espantada.

- Quero me levantar bem cedo para vê-las.

- Quem?

- As bruxas.



- Bruxas? Quem lhe disse que há bruxas?

- O vigário - Frank respondeu, claramente divertindo-se com a história. — A governanta dele é uma das bruxas.

Pensei na digna sra. Graham e torci o nariz com ar zombeteiro.

- Não seja ridículo!

- Bem, na verdade, não são bruxas. Tem havido bruxas por toda a Escócia há centenas de anos. Eram queimadas até quase o limiar do século XIX. Mas este grupo na verdade pretende ser de druidisas ou algo parecido. Não creio que seja realmente um congresso de bruxas, quero dizer, não são adoradoras do diabo. Mas o vigário disse que há um grupo local que ainda observa rituais nos dias das antigas festas do sol. Ele não pode se dar ao luxo de se interessar muito em tais acontecimentos, sabe, por causa de sua posição, mas também é um homem curioso demais para ignorá-los completamente. Ele não sabia onde as cerimônias eram realizadas, mas se há um círculo de pedras próximo, deve ser lá. — Esfregou as mãos na expectativa. - Que sorte!

Acordar uma vez no escuro para aventurar-se num passeio já é uma travessura. Duas vezes em dois dias cheira a masoquismo.

Desta vez, nem sequer um bom carro aquecido com mantas e garrafas térmicas. Segui Frank aos tropeções pela colina acima, dando topadas em raízes e pedras. Estava frio e enevoado, e enfiei as mãos mais fundo nos bolsos do meu cardigã.

Um último impulso no topo da colina e o monumento megalítico estava diante de nós, os blocos de pedra quase invisíveis na meia-luz que antecedia o alvorecer. Frank parou, imóvel, fascinado, admirando, enquanto eu me deixava cair sobre uma rocha convenientemente situada, arfando.

- Lindo — ele murmurou. Deslizou silenciosamente até a borda externa do círculo, a figura indistinta desaparecendo entre os vultos maiores das pedras. Lindas elas eram e muito estranhas também. Estremeci e não inteiramente por causa do frio. Se quem quer que as tenha erguido tinha a intenção de impressionar, sabia o que estava fazendo.

Frank voltou em um instante.

- Ninguém aqui ainda - sussurrou de repente por trás de mim, fazendo-me dar um salto. — Venha, encontrei um lugar de onde podemos observar.

A luz começava a subir do leste, apenas um matiz de cinza-claro no horizonte, mas o suficiente para impedir que eu tropeçasse enquanto Frank me conduzia por uma trilha que encontrara em alguns arbustos de amieiro perto do alto da trilha. Havia uma pequena clareira dentro do amontoado de arbustos, apenas o suficiente para ficarmos de pé, ombro a ombro. No entanto, a trilha era perfeitamente visível, assim como o interior do círculo de pedras, a não mais do que seis metros de distância. Não pela primeira vez, eu me perguntava que tipo de trabalho Frank realizara durante a guerra. Ele sem dúvida parecia saber deslocar-se silenciosamente no escuro.

Sonolenta como estava, só queria enroscar-me sob um arbusto aconchegante e voltar a dormir. Entretanto, não havia lugar para isso e, assim, continuei de pé, espreitando a trilha íngreme em busca das druidisas que estavam para chegar. Estava ficando com torcicolo e meus pés doíam, mas não deveria demorar muito mais; o fio de luz a leste tornara-se rosa-claro e calculei que deveria faltar menos de meia hora para o raiar do dia.

A primeira locomovia-se quase tão silenciosamente quanto Frank. Ouviu-se apenas um leve farfalhar quando seus pés deslocaram um cascalho perto do topo da colina e, em seguida, a cabeça grisalha bem penteada surgiu silenciosamente no campo de visão. A sra. Graham. Então, era verdade. A governanta do vigário estava adequadamente vestida com uma saia de tweed e um casaco de lã, carregando uma trouxa branca embaixo do braço. Desapareceu atrás de uma das pedras verticais, silenciosa como um fantasma.

Elas chegaram bem rapidamente depois disso, sozinhas, em duas ou em três, com risinhos e sussurros contidos ao longo da trilha, mas que eram rapidamente silenciados quando avistavam o círculo.

Reconheci algumas delas. Lá vinha a sra. Buchanan, a agente dos correios da vila, cabelos louros recentemente ondulados com permanente e o aroma de Evening in Paris desprendendo-se fortemente das ondas de seus cabelos. Reprimi o riso. Então era assim uma druidisa moderna!

Eram quinze ao todo, todas mulheres, variando em idade dos sessenta anos da sra. Graham a uma jovem de vinte poucos anos, que eu vira empurrando um carrinho de bebê pelas lojas há dois dias. Todas estavam vestidas para uma caminhada difícil, com trouxas embaixo do braço. Com um mínimo de conversa, desapareceram atrás das pedras ou de arbustos, emergindo de mãos vazias e braços nus, completamente vestidas de branco. Senti o aroma de sabão em pó quando uma delas roçou nosso aglomerado de arbustos e reconheci os trajes como lençóis, enrolados em torno do corpo e amarrados em um dos ombros.

Reuniram-se fora do anel de pedras, em uma fila da mais velha para a mais nova, e ficaram paradas em silêncio, à espera. A luz no leste tornou-se mais forte.

Quando o sol começou a subir lentamente no horizonte, a fila de mulheres moveu-se, caminhando devagar entre duas das pedras. A líder levou-as diretamente para o centro do círculo e começaram a dar voltas, ainda movendo-se lentamente, majestosas como cisnes em uma procissão circular.

De repente, a líder parou, ergueu os braços e deu um passo para o centro do círculo. Erguendo o rosto para o par de pedras mais a leste, deu um brado com voz forte. Não foi um grito, mas foi suficientemente claro para ser ouvido em todo o círculo. A névoa imóvel captou as palavras e as fez ecoar, como se viessem de toda a volta, das próprias pedras.

Qualquer que tenha sido o brado, foi repetido pelas dançarinas. Porque agora eram dançarinas. Sem se tocar, mas mantendo os braços estendidos em direção umas das outras, elas balançavam-se e ziguezagueavam, ainda movendo-se em círculos. De repente, o círculo se dividiu ao meio. Sete das dançarinas passaram a se mover no sentido horário, ainda num movimento circular. As outras se moviam na direção oposta. Os dois semicírculos passavam um pelo outro a velocidades cada vez maiores, às vezes formando um círculo completo, às vezes uma linha dupla. E no centro, a líder mantinha-se imóvel, repetindo de vez em quando aquele brado triste e agudo, em uma língua há muito desaparecida.

Deveriam parecer ridículas e talvez fossem. Um bando de mulheres enroladas em lençóis, muitas delas corpulentas e desajeitadas, desfilando em círculos no cume de uma colina. Mas os cabelos de minha nuca ficavam em pé ao som daquele grito.

Pararam todas ao mesmo tempo e voltaram-se de frente para o sol, formando dois semicírculos, com um caminho perfeitamente definido entre as duas metades do círculo assim formado. Conforme o sol subia no horizonte, sua luz fluía entre as pedras do leste, estendia-se entre as metades do círculo e atingia a majestosa pedra dividida ao meio do outro lado do monumento.

As dançarinas ficaram paradas por alguns instantes, paralisadas nas sombras de cada lado do raio de luz. Então, a sra. Graham disse alguma coisa, na mesma língua estranha, mas desta vez num tom de voz normal. Girou nos calcanhares e caminhou, empertigada, as ondas grisalhas dos cabelos brilhando ao sol, ao longo da faixa de luz. Sem uma palavra, as dançarinas seguiram-na. Passaram uma a uma pela fenda na pedra principal e desapareceram em silêncio.

Ficamos agachados nos amieiros até as mulheres, agora rindo e conversando normalmente, recuperarem suas roupas e partirem em grupo pela colina abaixo, para tomar café na casa do vigário.

- Meu Deus! — Estiquei-me, tentando desfazer a rigidez das minhas pernas e costas. - Que cena, hein?

- Maravilhosa! — exclamou Frank, entusiasmado. - Eu não teria perdido isso por nada no mundo. - Deslizou como uma cobra para fora dos arbustos, deixando-me sozinha para me desvencilhar do mato, enquanto ele andava de um lado para o outro no interior do círculo, o nariz voltado para o solo como um cão de caça.

- O que está procurando? - perguntei. Entrei no círculo com alguma hesitação, mas o dia já nascera completamente e as pedras, embora ainda impressionantes, haviam perdido muito do ar ameaçador da penumbra do alvorecer.

- Marcas — respondeu, arrastando-se de quatro, os olhos atentos à relva curta. - Como sabiam onde começar e onde parar?

- Boa pergunta. Eu não vejo nada. - Lançando um olhar ao solo, entretanto, o que realmente vi foi uma planta interessante que crescia na base de uma das pedras verticais. Miosótis? Não, provavelmente não. Estas eram flores de um azul-escuro com centros cor-de-laranja. Intrigada, comecei a caminhar em direção a ela. Frank, com a audição mais aguçada do que a minha, ficou de pé num salto e agarrou meu braço, tirando-me apressadamente para fora do círculo um segundo antes de uma das dançarinas da manhã surgir do outro lado.

Era a srta. Grant, a mulherzinha gorducha que tendo em vista sua figura, administrava a confeitaria da High Street na cidade. Olhou à sua volta apertando os olhos, depois remexeu no bolso à procura dos óculos. Pendurando-os no nariz, deu uma volta pelo círculo, finalmente lançando-se sobre a travessa de cabelo que havia perdido e pela qual voltara. Tendo recolocado-a no lugar em suas mechas grossas e brilhantes, não parecia com nenhuma pressa de retornar ao trabalho. Ao invés disso, sentou-se em uma rocha, recostou-se em uma das pedras gigantes em clima de camaradagem e acendeu um cigarro.

Frank deu um suspiro abafado de exasperação a meu lado.

- Bem - disse, resignado -, é melhor irmos. Ela pode ficar lá sentada o resto da manhã, pelo que parece. E não vi nenhuma marca óbvia, de qualquer modo.

- Talvez possamos voltar mais tarde — sugeri, ainda curiosa com a trepadeira de flores azuis.

— Sim, está bem. - Mas ele obviamente havia perdido o interesse no círculo em si, estando agora absorto nos detalhes da cerimônia. Interrogou-me implacavelmente no caminho de volta, instando-me a lembrar o mais detalhadamente possível as palavras exatas dos brados e o compasso da dança.

— Escandinavo - disse finalmente, com satisfação. - As raízes das palavras são do escandinavo antigo, tenho quase certeza. Mas a dança - sacudiu a cabeça, ponderando. Não, a dança é muito mais antiga. Não que não existam danças vikings em círculo - disse, erguendo as sobrancelhas com ar de censura, como se eu tivesse sugerido que não existissem. - Mas aquela mudança de lugar com a fileira dupla, isso é... hummm, é como... bem, alguns dos desenhos nas cerâmicas dos Beakers, mostram um padrão parecido, mas por outro lado... hummm.

Entrou em um de seus transes eruditos, murmurando para si mesmo de vez em quando. O transe foi quebrado somente quando tropeçou inesperadamente em um obstáculo perto da base do monte. Lançou os braços no ar com um grito de surpresa quando tropeçou e rolou desajeitadamente pelos últimos metros da trilha, indo parar numa moita de erva-cicutária.

Disparei pela ladeira abaixo atrás dele, mas encontrei-o já sentado entre os ramos trêmulos da planta quando consegui chegar ao sopé da colina.

— Você está bem? — perguntei, embora pudesse ver que estava.

— Acho que sim. - Passou a mão, aturdido, pela testa, alisando os cabelos escuros para trás. — Em que foi que eu tropecei?

— Nisto. - Ergui uma lata de sardinha, descartada por algum visitante anterior. - Uma das ameaças da civilização.

— Ah. — Pegou-a da minha mão, olhou o interior da lata, depois a atirou por cima do ombro. - Pena que está vazia. Estou com fome depois desta excursão. Vamos ver o que a sra. Baird pode arranjar para um café da manhã tardio?

— Vamos - eu disse, arrumando as últimas mechas de cabelo para ele. -Mas, ao invés disso, podemos almoçar cedo. - Nossos olhos se encontraram.

— Ah - repetiu, num tom completamente diferente. Passou a mão lentamente pelo meu braço e pelo lado do meu pescoço, o polegar tocando delicadamente o lóbulo da minha orelha. - Podemos, sim.

— Se você não estiver com muita fome — eu disse. A outra mão deslizou para as minhas costas. Com a mão espalmada, pressionou-me gentilmente contra ele, os dedos descendo cada vez mais. Sua boca abriu-se ligeiramente e ele respirou, bem de leve, pela gola do meu vestido, seu hálito morno fazendo cócegas nos meus seios.

Deitou-me cuidadosamente na grama, as flores da erva-cicutária parecendo plumas flutuando no ar em volta da minha cabeça. Inclinou-se e beijou-me, devagar, e continuou me beijando enquanto desabotoava minha blusa, um botão de cada vez, provocando, parando para enfiar a mão dentro do meu vestido e brincar com os bicos enrijecidos dos meus seios. Finalmente, tinha o vestido aberto do pescoço à cintura.

- Ah - disse mais uma vez, em outro tom diferente. - Como veludo branco. - Sua voz era rouca e seus cabelos haviam caído para a frente outra vez mas ele não fez nenhuma tentativa de arrumá-los para trás.

Soltou o fecho do meu sutiã com um eficiente toque do polegar e inclinou-se para prestar uma hábil homenagem aos meus seios. Depois, recuou e, segurando meus seios com as duas mãos, juntou as palmas lentamente até se encontrarem entre as duas protuberâncias e, sem parar, afastou-as novamente, traçando a Unhadas minhas costelas para trás. Para cima outra vez, para baixo e ao redor, até eu gemer e curvar-me para ele. Mergulhou os lábios nos meus e apertou-me contra seu corpo, até nossos quadris encaixarem-se perfeitamente. Inclinou a cabeça para mim, mordendo de leve o lóbulo da minha orelha.

A mão que acariciava minhas costas desceu cada vez mais para baixo, parando repentinamente, surpreso. Tateou de novo, depois Frank ergueu a cabeça e olhou para mim, rindo.

- O que é isso? — perguntou, imitando um policial da vila. - Ou melhor, o que não é isso?

- Estou sempre preparada - respondi, afetadamente. - As enfermeiras aprendem a se antecipar às contingências.

- Realmente, Claire - murmurou, deslizando a mão por baixo da minha saia e subindo pela coxa até o calor macio e desprotegido entre minhas pernas —, você é a pessoa mais terrivelmente prática que já conheci.

Frank surgiu por trás de mim quando estava sentada na sala de visitas naquela noite, com um grande livro aberto no colo.

- O que está fazendo? - perguntou. As mãos descansaram delicadamente sobre meus ombros.

- Procurando aquela planta - respondi, colocando o dedo entre as páginas para marcar o lugar. - A que vi no círculo de pedras. Veja... - Abri o livro. - Poderia estar nas Campanulaceae ou nas Gentianaceae, nas Polemoniaceae, nas Boraginaceae. Esta é bem provável, eu acho, miosótis -mas poderia até mesmo ser uma variante desta, a Anemone patens. -Apontei para a ilustração colorida de uma pulsatila. - Não acho que seja uma genciana de qualquer espécie; as pétalas não eram bem redondas, mas.

- Bem, por que não volta lá e pega uma amostra? - sugeriu. - O sr. Crook poderia lhe emprestar seu calhambeque, talvez, ou... Não, tive uma idéia melhor. Peça o carro da sra. Baird emprestado, é mais seguro. É uma caminhada curta da estrada ao sopé da colina.

- E depois mais ou menos mil metros de subida até o topo — eu disse. — Por que está tão interessado nessa planta? — Girei o corpo para olhar para ele. O abajur da sala contornava sua cabeça com uma fina linha dourada, como a gravura medieval de um santo.

- Não é na planta que estou interessado. Mas se você for até lá de qualquer modo, gostaria que desse uma olhada pelo lado de fora do círculo.

- Tudo bem - respondi, prestativa. - Para quê?

- Vestígios de fogo — ele disse. — Em tudo que pude ler sobre Beltane, o fogo é sempre mencionado nos rituais, mas as mulheres que vimos hoje de manhã não usaram nenhum. Imagino se talvez não tenham acendido o fogo de Beltane na noite anterior, depois voltado de manhã para a dança. Embora historicamente fossem os rebanhos de gado que deveriam acender o fogo. Não havia nenhum sinal de fogueira no interior do círculo - acrescentou. - Mas viemos embora antes de eu pensar em verificar a parte de fora.

- Está bem — eu disse novamente, bocejando. O fato de levantar cedo dois dias seguidos estava cobrando seu tributo. Fechei o livro e levantei-me. — Desde que eu não tenha que me levantar antes das nove.

Na verdade, eram quase nove horas quando cheguei ao círculo de pedras. Chuviscava e eu estava inteiramente molhada, não tendo pensado em levar uma capa. Fiz um exame superficial do lado de fora do círculo, mas se alguma vez houve uma fogueira ali, alguém se dera ao trabalho de remover todos os vestígios.

A planta foi mais fácil de encontrar. Estava onde eu me lembrava de tê-la visto, junto à base da pedra vertical mais alta. Peguei várias amostras da trepadeira e guardei-as provisoriamente no meu bolso, pretendendo lidar com elas adequadamente quando voltasse ao minúsculo carro da sra. Baird, onde deixara as pesadas prensas de plantas.

A pedra mais alta do círculo era fendida, com uma fissura vertical dividindo-a em duas partes maciças. Estranhamente, as duas partes haviam sido afastadas de algum modo. Embora fosse possível ver que as duas superfícies de frente uma para a outra se encaixavam, estavam separadas por uma brecha de quase um metro.

Havia um zumbido profundo vindo de algum lugar bem próximo. Imaginei que deveria haver uma colméia alojada em algum nicho da rocha e coloquei a mão sobre a pedra, a fim de inclinar-me para dentro da fenda.

A pedra gritou.

Recuei o mais depressa que pude, tão depressa que tropecei na relva curta e caí sentada com toda a força. Fitei a pedra, espantada, suando.

Nunca ouvira um som semelhante de nenhum ser vivo. Não é possível descrevê-lo, exceto dizer que era o tipo de grito que se poderia esperar de uma pedra. Era horrível.

As outras pedras começaram a gritar. Ouvi sons de batalha, os gritos de homens morrendo e cavalos feridos.

Sacudi a cabeça violentamente para clareá-la, mas o barulho continuou. Levantei-me aos tropeções e cambaleei em direção à margem do círculo. Os sons estavam por todo lado à minha volta, fazendo meus dentes doerem e minha cabeça girar. Minha visão começou a turvar.

Não sei agora se caminhei em direção à fenda na pedra principal ou se isso foi acidental, um deslocamento cego pelo nevoeiro de barulho.

Certa vez, viajando à noite, adormeci no banco do carona de um carro em movimento, embalada pelo barulho e pelo deslocamento, até à ilusão de uma serena ausência de peso. O motorista do carro entrou numa ponte a uma velocidade alta demais e perdeu o controle do carro. Acordei do meu sonho de estar flutuando direto no clarão de faróis e na sensação nauseante de estar caindo em alta velocidade. Essa transição brusca é o mais próximo que posso chegar para descrever a sensação que experimentei, mas ainda deixa dolorosamente a desejar.

Poderia dizer que meu campo de visão contraiu-se a um único ponto escuro, depois desapareceu completamente, sem deixar nenhuma escuridão, mas apenas um brilhante vazio. Poderia dizer que senti como se estivesse girando ou como se estivesse sendo virada do avesso. Tudo isso é verdade, mas nenhuma dessas comparações transmite a sensação que tive de total perturbação, de estar sendo atirada com força contra alguma coisa que não estava lá.

A verdade é que nada se movia, nada mudava, nada parecia acontecer e, ainda assim, eu experimentava uma sensação de terror tão grande que perdi completamente a noção de quem ou o quê eu era, ou de onde me encontrava. Estava no âmago do caos e nenhuma força física ou mental era útil contra isso.

Não conseguiria dizer realmente se perdi a consciência, mas sem dúvida não tive noção de mim mesma durante algum tempo. "Acordei", se essa for a palavra, quando tropecei numa pedra perto da base do monte. Praticamente resvalei pelos poucos metros restantes e acabei num espesso tufo de capim ao pé da colina. Sentia-me enjoada e tonta. Arrastei-me até um aglomerado de carvalhos novos e apoiei-me contra um deles para me equilibrar. Havia uma gritaria confusa perto dali, que me fez lembrar dos sons que eu ouvira, e sentira, no círculo de pedras. Não havia, entretanto, o tom estridente de violência inumana. Aquele era o som normal de conflito humano e eu segui em sua direção.




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