A viajante do tempo


- UNE MAUVAIS QUART D'HEURE APÓS A OUTRA



Baixar 3.14 Mb.
Página18/37
Encontro02.07.2019
Tamanho3.14 Mb.
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   37

21 - UNE MAUVAIS QUART D'HEURE APÓS A OUTRA
Delicadamente, removi um filamento de planta aquática ainda úmido da manga da minha blusa e coloquei-o no centro do mata-borrão. Depois, vendo o tinteiro à mão, peguei a folha e mergulhei-a na tinta, usando o resultado para pintar padrões interessantes no espesso papel absorvente do mata-borrão. Empolgando-me no espírito da ação, finalizei a obra-prima com um palavrão, salpiquei-a com areia e sequei-a cuidadosamente antes de pendurá-la na bancada de escaninhos.

Recuei um passo para admirar o efeito, em seguida olhei ao redor à cata de outras distrações que pudessem tirar minha mente da iminente chegada do capitão Randall.

Nada mau para o escritório particular de um capitão, pensei, examinando as pinturas na parede, os objetos de prata sobre a escrivaninha e o tapete grosso no assoalho. Comecei a andar pelo carpete, a fim de respingá-lo melhor. O percurso até Fort William secara minhas roupas externas bastante bem, mas as camadas inferiores de anáguas ainda gotejavam.

Abri um pequeno armário atrás da escrivaninha e descobri a peruca sobressalente do capitão, perfeitamente arranjada em um dos suportes de ferro batido do par ali existente. Cuidadosamente arrumado diante da peruca, via-se um conjunto de prata composto de espelho e escovas, bem como um pente de casco de tartaruga. Levando a peruca em seu suporte para a escrivaninha, delicadamente peneirei em cima dela o conteúdo de areia restante no recipiente antes de devolvê-la ao armário.

Estava sentada atrás da escrivaninha, o pente na mão, analisando meu reflexo no espelho, quando o capitão entrou. Lançou um olhar para minha aparência desalinhada, o armário assaltado e o mata-borrão desfigurado.

Sem piscar, puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente, acomodando-se descontraidamente com um dos pés calçados de botas descansando no joelho oposto. Um chicote de montar pendia de uma das mãos elegantes e aristocráticas. Observei a ponta trançada, vermelha e preta, conforme ela balançava-se lentamente de um lado para o outro acima do tapete.

- A idéia tem seus atrativos - ele disse, observando meus olhos seguindo o balanço do chicote. - Mas provavelmente consigo pensar em algo melhor, se tiver alguns instantes para me concentrar.

- Diria que sim - retorqui, tirando uma grossa mecha de cabelos de cima dos meus olhos. — Mas não tem permissão de chicotear mulheres, não é?

- Somente em determinadas circunstâncias - respondeu educadamente. - Que não correspondem à sua situação... ainda. Mas isso é muito público, sabe. Achei que poderíamos nos conhecer melhor em particular primeiro. - Estendeu a mão para o aparador atrás dele e pegou uma garrafa de bebida.

Tomamos o clarete em silêncio, entreolhando-nos por cima de nossos copos de vinho.

- Havia me esquecido de lhe oferecer minhas felicitações por seu casamento - disse, repentinamente. — Desculpe minha falta de boas maneiras.

- Não se preocupe - eu disse, gentilmente. - Tenho certeza de que a família de meu marido ficará extremamente agradecida por me oferecer sua hospitalidade.

- Ah, duvido um pouco — disse, com um sorriso cativante. — De qualquer modo, não estava pensando em contar-lhes onde você está.

- E o que o faz pensar que não sabem? - perguntei, começando a me sentir um pouco derrotada, apesar da minha determinação anterior de desacatá-lo. Lancei um olhar rápido à janela, mas ficava do lado errado do edifício. O sol não era visível dali, mas a luz parecia amarela; talvez meio da tarde? Quanto tempo levaria até Jamie encontrar meu cavalo abandonado? E quanto tempo depois disso até seguir minha pista até o riacho e perdê-la imediatamente? Desaparecer sem deixar traços tinha suas desvantagens. Na realidade, a menos que Randall decidisse mandar um recado a Dougal sobre meu paradeiro, não havia nenhuma maneira no mundo de os escoceses saberem para onde eu tinha ido.

- Se soubessem — disse o capitão, arqueando uma sobrancelha bem delineada -, provavelmente já estariam aqui. Considerando os tipos de nomes que Dougal MacKenzie aplicou a mim por ocasião de nosso último encontro, não creio que me considere um acompanhante adequado para um parente dele. E o clã MacKenzie parece considerá-la de tal valor que preferem adotá-la como um dos seus a vê-la cair nas minhas mãos. Não posso imaginar que permitissem que ficasse aqui definhando numa vil prisão.

Examinou-me com desaprovação, captando cada detalhe dos meus trajes ensopados, cabelos desgrenhados e aparência geral desalinhada.

- Só não entendo por que a querem tanto - observou. - Ou, se você é tão valiosa para eles, por que diabos a deixariam vagando pelo campo sozinha. Eu pensava que até os bárbaros tomavam conta de suas mulheres Melhor do que isso. - Um brilho repentino iluminou seus olhos. - Ou será que você talvez tenha resolvido separar-se deles? - Recostou-se na cadeira, intrigado com essa nova possibilidade.

-- A noite de núpcias foi mais difícil do que você esperava? – perguntou. -- Devo confessar que fiquei um pouco desconcertado quando soube que você preferiu ir para a cama com um daqueles selvagens cabeludos, seminus, do que ter novas conversas comigo. Isso demonstra um grande senso de dever, madame, e devo parabenizar quem quer que a tenha contratado pela capacidade que tem de motivá-la. Mas - inclinou-se ainda mais para trás em sua cadeira, equilibrando o copo de vinho sobre o joelho - receio que eu ainda tenha que insistir no nome de seu empregador. Se você realmente se separou dos MacKenzie, a suposição mais provável é que seja uma agente francesa. Mas de quem?

Fitou-me intensamente, como uma cobra tentando hipnotizar um pássaro. No entanto, a essa altura, eu já tomara clarete suficiente para recuperar uma parte da minha valentia e também o encarei sem desviar os olhos.

- Ah - disse, com exagerada cortesia -, então estou incluída nesta conversa? Achei que estava indo muito bem sozinho. Por favor, continue.

A linha graciosa de sua boca endureceu-se um pouco e a ruga profunda no canto aprofundou-se mais ainda, mas não disse nada. Colocando os óculos de lado, levantou-se e, retirando a peruca, dirigiu-se ao armário, onde a colocou no suporte vazio. Eu o vi fazer uma pequena pausa, ao ver os escuros grãos de areia adornando a outra peruca, mas sua expressão não mudou de forma perceptível.

Sem peruca, seus cabelos eram escuros, fartos, lustrosos e de textura fina. Também tinham uma aparência familiar que me perturbou, embora fossem longos até os ombros e amarrados para trás com uma fita de cetim azul. Retirou o laço de fita, pegou o pente na escrivaninha e ajeitou os cabelos amassados pela peruca, depois amarrou de novo a fita cuidadosamente. Prestativamente, segurei o espelho para que ele pudesse avaliar o resultado final. Tirou-o de mim com um gesto ostensivo e recolocou-o no seu lugar junto às perucas, quase batendo a porta do armário.

Eu não sabia se todos esses rodeios tinham o objetivo de me deixar nervosa - e se esse fosse o caso, estava dando certo - ou se ele simplesmente não sabia o que fazer em seguida.

A tensão foi um pouco aliviada pela entrada de um ordenança, trazendo uma bandeja de chá e acompanhamentos. Ainda em silêncio, Randall serviu uma xícara e estendeu-a a mim. Ficamos mais algum tempo em silêncio, tomando o chá.

- Não me diga — falei, finalmente. - Deixe-me adivinhar. É uma nova forma de persuasão que você inventou, tortura pela bexiga. Você me serve bastante líquido até eu prometer lhe contar qualquer coisa em troca de cinco minutos com um urinol.

Ele foi pego de surpresa de tal maneira que não pôde conter o riso. Isso transformou inteiramente sua expressão e pude compreender sem dificuldade por que havia tantos envelopes perfumados com caligrafia feminina no fundo da gaveta esquerda de sua escrivaninha. Tendo deixado a máscara cair, ele não prendeu o riso, mas deixou-o fluir. Quando terminou, fitou-me outra vez, com um esboço de sorriso ainda nos lábios.

- O que quer que você seja, madame, pelo menos é divertida - observou. Puxou a corda de um sino pendurada junto à porta e quando o ordenança reapareceu, instruiu-o a me conduzir às necessárias instalações.

- Mas cuidado para não perdê-la no caminho, Thompson - acrescentou, abrindo a porta para mim com uma mesura cínica.

Apoiei-me fracamente contra a porta do lavatório aonde fui conduzida. Estar longe de sua presença era um alívio, mas por pouco tempo. Eu já tivera ampla oportunidade de julgar o verdadeiro caráter de Randall, tanto pelas histórias que ouvira quanto por experiência própria. Mas havia aqueles malditos lampejos de Frank que de vez em quando transpareciam pelo exterior cruel e ostentoso. Fora um erro fazê-lo rir, pensei.

Sentei-me, ignorando o mau cheiro enquanto me concentrava no problema imediato. A fuga parecia improvável. Fora o vigilante Thompson, o escritório de Randall ficava em um prédio localizado perto do centro do complexo. E embora o forte em si mesmo não fosse mais do que uma área cercada por um muro de pedra, esses muros tinham três metros de altura e os portões duplos eram bem guardados.

Pensei em fingir que estava passando mal e permanecer no meu refúgio, mas descartei a idéia — e não só por causa do ambiente desagradável. A dura verdade é que pouco adiantava adiar a tática, a menos que eu tivesse alguma coisa em mente, o que eu não tinha. Ninguém sabia onde eu estava e Randall não pretendia dizer a ninguém. Eu era dele, enquanto ele estivesse disposto a se divertir comigo. Mais uma vez, arrependi-me de tê-lo feito rir. Um sádico com senso de humor era particularmente perigoso.

Buscando freneticamente alguma coisa útil que eu pudesse saber a respeito do capitão, cheguei a um nome. Entreouvido e descuidadamente gravado, eu esperava ter o nome certo. Era uma carta lamentavelmente pequena para jogar, mas a única que eu possuía. Respirei fundo, soltei o ar apressadamente e saí do meu santuário.

De volta ao escritório, acrescentei açúcar ao meu chá e mexi-o cuidadosamente. Em seguida, creme de leite. Tendo arrastado o cerimonial ao máximo, fui forçada a olhar para Randall. Estava recostado na cadeira, em sua pose favorita, a xícara elegantemente suspensa no ar, para poder me examinar melhor.

-- E então? - eu disse. — Não precisa se preocupar em estragar meu apetite, porque não tenho nenhum. O que pretende fazer comigo?

Sorriu e tomou um gole deliberadamente cuidadoso do chá escaldante antes de responder.

- Nada.


- É mesmo? - Ergui as sobrancelhas, surpresa. - Sua criatividade falhou?

- Eu não gostaria de pensar assim - disse, sempre bem-educado. Seus olhos percorreram meu corpo de cima a baixo, de um modo que nada lembrava as boas maneiras.

- Não - disse, o olhar demorando-se na borda do meu corpete, onde o lenço que eu ali enfiara deixava as elevações dos meus seios bem visíveis -, por mais que eu quisesse lhe dar uma lição muito necessária de boas maneiras, receio que o prazer tenha que ser adiado indefinidamente. Vou mandá-la para Edimburgo com a próxima remessa do malote. E não gostaria que chegasse lá com nenhum dano visível; meus superiores poderiam me considerar displicente.

- Edimburgo? - Não pude disfarçar minha surpresa.

- Sim. Já ouviu falar no Tolbooth, imagino.

Já. Uma das prisões mais notórias e repulsivas da época, era famosa por imundície, crimes, doenças e escuridão. A maioria dos prisioneiros mantidos ali morria antes de serem chamados a julgamento. Engoli com força, forçando para baixo a bílis amarga que subira à minha garganta, misturada ao gole de chá doce.

Randall bebericou seu próprio chá, satisfeito consigo mesmo.

- Deverá se sentir bem confortável lá. Afinal, parece gostar de se cercar de sujeira e umidade. - Lançou um olhar reprovador à barra encharcada de minhas anáguas, caindo abaixo da minha saia. - Vai se sentir em casa, depois do Castelo Leoch.

Duvidava que a cozinha de Tolbooth fosse tão boa quanto a de Colum. E fora as questões gerais de conforto, eu não podia - não podia deixar que me enviasse para Edimburgo. Uma vez presa entre os muros de Tolbooth, jamais conseguiria voltar ao círculo de pedras.

Chegara a hora da minha cartada. Agora ou nunca. Ergui minha própria xícara.

- Como quiser - disse calmamente. — O que acha que o duque de Sandringham terá a dizer a respeito?

Entornou o chá quente no colo de pele de veado e emitiu vários barulhos muito gratificantes.

Estalei a língua em sinal de reprovação.

Acalmou-se, olhando-me furiosamente. A xícara permanecia virada, seu conteúdo marrom ensopando o tapete verde-claro, mas ele não fez nenhum movimento em direção à corda da campainha. Um pequeno músculo saltava no lado de seu pescoço.

Eu já encontrara a pilha de lenços engomados na gaveta superior esquerda de sua escrivaninha, juntamente com a caixa de rape esmaltada. Peguei um lenço e entreguei a ele.

- Espero que não manche - disse gentilmente.

- Não - ele disse, ignorando o lenço. Olhou-me atentamente. - Não, não é possível.

- Por que não? - perguntei, fingindo valentia, imaginando o que não seria possível.

- Teriam me informado. E se você estivesse trabalhando para Sandringham, por que diabos agiria de maneira tão ridícula?

- Talvez o duque esteja testando sua lealdade - sugeri aleatoriamente, preparando-me para ficar de pé num salto se necessário. Seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo e o chicote de montar que deixara de lado estava bem ao alcance de sua mão, em cima da escrivaninha.

Bufou em resposta a tal sugestão.

- Você é quem deve estar testando a minha credulidade. Ou minha tolerância à irritação. Ambas, madame, são extremamente infames. - Seus olhos estreitaram-se especulativamente e preparei-me para um salto rápido.

Lançou-se sobre mim e saltei para o lado. Agarrando o bule de chá, atirei-o em cima dele. Desviou-se e o bule atingiu a porta com grande estardalhaço. O ordenança, que devia estar de prontidão do lado de fora, enfiou a cabeça espantada pela porta.

Respirando ruidosamente, o capitão fez sinal impacientemente para que ele entrasse.

- Segure-a — ordenou bruscamente, atravessando o aposento em direção à escrivaninha. Comecei a respirar profundamente, tanto na esperança de me acalmar como na expectativa de não poder fazê-lo dentro de pouco tempo.

Entretanto, ao invés de me espancar, ele simplesmente abriu a gaveta mais baixa da direita, que eu não tivera tempo de investigar, e tirou um longo pedaço de corda fina.

- Que tipo de cavalheiro guarda corda nas gavetas da escrivaninha? -perguntei, indignada.

- Um cavalheiro prevenido, madame - murmurou, amarrando meus pulsos nas costas.

- Vá embora — disse impacientemente ao ordenança, sacudindo a cabeça em direção à porta. — E não volte, independente do que ouvir.

Aquilo me pareceu terrivelmente ameaçador e meus temores Mostraram-se mais do que justificáveis quando ele enfiou a mão na gaveta Mais uma vez.

Existe algo assustador em uma faca. Homens que são destemidos em combate corpo-a-corpo acovardam-se diante de uma lâmina nua. Eu mesma recuei, até que minhas mãos amarradas colidiram com a parede branca de cal. A temível ponta reluzente desceu e pressionou um ponto entre meus seios.

---- Agora - disse de forma confortável -, vai me contar tudo que sabe sobre o duque de Sandringham. - A lâmina pressionou com um pouco mais de força, afundando no tecido do meu vestido. - Leve quanto tempo quiser, minha querida. Não tenho a menor pressa. - Ouviu-se um pequeno pop! quando a ponta perfurou o tecido. Senti a lâmina, fria como o medo, um ponto minúsculo diretamente sobre o meu coração.

Randall lentamente deslizou a faca em semicírculo sob um dos meus seios. O tecido rústico soltou-se, caiu com um meneio da blusa branca e meu seio saltou para fora. Randall parecia estar prendendo a respiração. Exalou lentamente agora, os olhos fixos nos meus.

Afastei-me um pouco dele, mas quase não havia espaço para manobra. Acabei pressionada contra a escrivaninha, as mãos atadas segurando a borda. Se ele se aproximasse mais, pensei, talvez eu pudesse rolar para trás em cima das mãos e chutar a faca de sua mão. Duvidava que pretendesse me matar; certamente não até descobrir exatamente o que eu sabia sobre suas relações com o duque. Por alguma razão, essa conclusão trazia relativamente pouco conforto.

Ele sorriu, com aquela semelhança desalentadora com o sorriso de Frank; aquele sorriso adorável que eu vira encantar estudantes e amolecer o mais empedernido dirigente de universidade. Provavelmente, em outras circunstâncias, eu teria achado aquele homem atraente, mas no momento... não.

Moveu-se com rapidez, enfiando um joelho entre minhas coxas e empurrando meus ombros para trás. Não conseguindo manter o equilíbrio, caí pesadamente de costas sobre a escrivaninha, dando um grito quando aterrissei dolorosamente em cima dos pulsos amarrados. Pressionou o corpo entre minhas pernas, tateando com uma das mãos para erguer minhas saias enquanto a outra segurava meu seio nu, girando e beliscando. Comecei a espernear freneticamente, mas minhas saias me atrapalhavam. Agarrou meu pé e correu a mão pela minha perna, empurrando anáguas úmidas, saia e camisola de baixo para fora do caminho, levantando-as acima de minha cintura. Levou a mão às calças.

Semelhanças com Harry, o desertor, pensei furiosamente. O que em nome de Deus estava acontecendo com o exército britânico? Gloriosas tradições, pois sim.

No meio de uma guarnição inglesa, era provável que gritos não atraíssem nenhuma atenção útil, mas enchi os pulmões e tentei, mais como um protesto pro forma do que qualquer outra coisa. Esperei uma bofetada ou um safanão em resposta, para me calar. Ao invés disso, inesperadamente, ele pareceu gostar.

- Vamos, doçura, grite - murmurou, às voltas com a braguilha. - Vou gostar muito mais se você gritar.

Olhei-o diretamente nos olhos e retruquei, com clareza e absoluta falta de inabilidade.

- Vá se danar!

Uma mecha de cabelos negros soltou-se e caiu em sua testa num desarranjo devasso. Parecia-se tanto com seu descendente que fui tomada por um terrível impulso de abrir as pernas e responder a ele. Torceu meu seio de tal forma que o impulso desapareceu instantaneamente.

Eu estava furiosa, nauseada, humilhada e revoltada, mas curiosamente sem muito medo. Senti um movimento pesado, frouxo, contra a minha perna e repentinamente compreendi por quê. Ele não iria conseguir a menos que eu gritasse - e provavelmente nem mesmo assim.

- Ah, é assim, hein? — eu disse e fui recompensada com uma forte bofetada. Cerrei a boca com força e virei o rosto, para não me sentir tentada a fazer novos comentários imprudentes. Considerei que, com ou sem estupro, eu corria sério perigo com aquele homem de temperamento instável. Desviando os olhos de Randall, percebi um repentino lampejo de movimento na janela.

- Agradeço-lhe - disse uma voz fria e inalterada -, se tirar as mãos de cima de minha mulher. — Randall ficou paralisado com uma das mãos ainda em meu seio. Jamie estava agachado na moldura da janela, uma pistola de cabo de latão apoiada no antebraço.

Randall continuou paralisado por um instante, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Conforme voltava a cabeça lentamente em direção à janela, a mão direita, fora da vista de Jamie, deixou meu seio e deslizou sorrateiramente em direção à faca, que colocara sobre a escrivaninha junto à minha cabeça.

- O que foi que você disse? — perguntou, incrédulo. Quando agarrou a faca, virou-se o suficiente para ver quem tinha falado. Parou novamente por um instante, olhando fixamente, e em seguida começou a rir.

- Valha-nos Deus, é o jovem gato selvagem escocês! Pensei que tivesse acabado com você de uma vez por todas! Conseguiu se recuperar, hein? E esta é a sua mulher, você disse? Uma vagabunda bem gostosa, exatamente como sua irmã.

Ainda encoberto pelo corpo parcialmente virado, a mão de Randall que segurava a faca girou; a lâmina agora apontava para a minha garganta. Eu podia ver Jamie por cima de seu ombro, como um felino pronto para dar um salto da janela. O cano da pistola não vacilou, nem a expressão do seu rosto se alterou. A única pista para as suas emoções era o rubor escuro que subia por sua garganta; o colarinho estava aberto e a pequena cicatriz em seu pescoço flamejava, escarlate.

Quase descontraidamente, Randall lentamente levantou a faca para que Jamie a visse, a ponta quase tocando a minha garganta. Virou-se um Pouco mais em direção a Jamie.

- Talvez ache melhor jogar a pistola aqui, a menos que esteja cansado da vida de casado. Se preferir ser viúvo, naturalmente... - Os olhos fixos uns nos outros como o abraço de um amante, nenhum dos dois se moveu por um longo minuto. Finalmente, o corpo de Jamie relaxou a tensão do ataque. Soltou a respiração com um longo suspiro de resignação e atirou a arma na sala. Ela bateu no chão com um baque metálico e deslizou pelo assoalho até os pés de Randall.

Randall curvou-se e pegou a arma em um movimento sinuoso. Assim que a faca saiu do meu pescoço, tentei sentar-me, mas ele colocou a mão no meu peito e me empurrou, deixando-me novamente estatelada na escrivaninha. Mantinha-me na posição com uma das mãos, usando a outra para mirar a pistola em Jamie. A faca descartada estava em algum lugar no chão perto dos meus pés, pensei. Agora, se ao menos eu pudesse pegá-la com os dedos dos pés... A adaga no meu bolso estava tão fora do meu alcance como se estivesse em Marte.

O sorriso não desaparecera do rosto de Randall desde a aparição de Jamie. Agora ele se ampliou, o suficiente para mostrar os dentes caninos pontudos.

- Bem, assim está melhor. - A mão pesada deixou meu peito para retornar à braguilha de suas calças. - Eu estava ocupado quando você chegou, meu amigo. Vai me desculpar se eu continuar o que estava fazendo antes de cuidar de você.

A vermelhidão havia se espalhado completamente pelo rosto de Jamie, mas ele continuou imóvel, a arma apontada para o seu peito. Enquanto Randall terminava suas manobras, Jamie lançou-se contra a boca da pistola. Tentei gritar, para impedi-lo, mas minha boca estava seca de terror. Os nós dos dedos de Randall empalideceram quando ele apertou o gatilho.

O cano da arma de fogo bateu na câmara vazia e o punho de Jamie abateu-se sobre o estômago de Randall. Ouviu-se um estalido quando o outro punho quebrou o nariz do oficial e um fino jato de sangue manchou minha saia. Os olhos de Randall reviraram-se e ele caiu no chão como uma pedra.

Jamie estava atrás de mim, colocando-me de pé, cortando a corda em torno dos meus pulsos.

- Você abriu caminho até aqui blefando com uma arma descarregada? -grasnei histericamente.

- Se estivesse carregada, eu teria atirado nele logo que cheguei, não e? —Jamie disse entre dentes.

O ruído de pés aproximava-se pelo corredor em direção ao escritório. A corda soltou-se e Jamie arrastou-me com um safanão para a janela. Era uma queda de dois metros e meio até o chão, mas os passos estavam quase alcançando a porta. Pulamos juntos.

Aterrissei com um ruído áspero de ossos chocalhados e rolei numa confusão de saias e anáguas. Jamie levantou-me com um puxão e pressionou-me contra a parede do prédio. Passos apressados dobraram a quina do edifício; seis soldados surgiram no campo de visão, mas não olharam em nossa direção.

Assim que se afastaram, Jamie segurou minha mão e moveu-se em direção à outra esquina. Andamos rente à parede, parando perto da quina do edifício. Pude ver onde estávamos agora. A seis metros aproximadamente uma escada levava a uma espécie de passadiço que corria ao longo da parede interna das muralhas do forte. Ele fez um sinal com a cabeça indicando a escada; aquele era o nosso objetivo.

Aproximou a cabeça da minha e sussurrou:

- Quando ouvir uma explosão, corra e suba a escada. Estarei atrás de você.

Assenti, balançando a cabeça. Meu coração parecia um martelo mecânico; olhando para baixo, vi que um dos meus seios ainda estava exposto. Não havia muito a fazer a respeito no momento. Segurei as dobras das minhas saias, pronta para correr.

Ouviu-se um enorme estrondo do outro lado do prédio, como a explosão de um morteiro. Jamie deu-me um empurrão e eu disparei, correndo o mais rápido que podia. Dei um salto para a escada, agarrei-a e subi aos tropeções; senti a madeira sacudir e estremecer quando o peso de Jamie atingiu a escada abaixo de mim.

Virando-me no topo da escada, tive uma visão completa do forte. Rolos de fumaça negra projetavam-se de um pequeno prédio próximo à muralha dos fundos e de todas as partes corriam homens em sua direção.

Jamie surgiu ao meu lado.

- Por aqui.

Correu agachado ao longo do passadiço e eu o segui. Paramos junto ao mastro da bandeira, preso na muralha. O estandarte agitava-se com força acima de nós, a adriça batendo ritmadamente contra o mastro. Jamie espreitava por cima da muralha, à procura de alguma coisa. Olhei para o acampamento atrás. Os homens aglomeravam-se no pequeno prédio, correndo de um lado para o outro e gritando. Mais adiante, vi uma pequena plataforma de madeira, com cerca de um metro e meio de altura e uma escada. Um pesado poste de madeira erguia-se no centro, com uma viga atravessada em cruz e algemas de corda penduradas nos braços da cruz.

De repente, Jamie deu um assobio; olhando por cima da muralha, vi Rupert, montado e conduzindo o cavalo de Jamie. Olhou para cima ao ouvir o assobio e conduziu os cavalos até junto à muralha abaixo de nós.

Jamie cortava a adriça do mastro. As pesadas dobras vermelhas e azuis da bandeira sucumbiram e deslizaram para baixo, aterrissando com um baque sibilante ao meu lado. Enrolando rapidamente uma das pontas da corda em volta de uma das estacas, Jamie atirou o resto para baixo do lado Externo da muralha.

- Vamos! - disse. - Segure-se firme com as duas mãos, coloque os pés contra a parede! Vá! — Comecei a descer, escorando os pés na muralha e soltando a corda aos poucos; o cordame fino escorregava e queimava minhas mãos. Caí perto dos cavalos e apressei-me a montar. Jamie saltou sobre a sela atrás de mim no instante seguinte e partimos a galope.

Reduzimos um pouco a marcha a uns dois ou três quilômetros do acampamento, quando se tornou claro que havíamos nos livrado de nossos perseguidores. Após uma breve conferência, Dougal decidiu que seria melhor nos dirigirmos para a fronteira das terras dos MacKenzie, como o território mais seguro.

— Podemos chegar a Doonesbury à noite e lá provavelmente estaremos em segurança. Amanhã espalharão avisos sobre nós, mas já teremos atravessado a fronteira antes que a notícia chegue lá.

Estávamos no meio da tarde; partimos em marcha firme, nosso cavalo com carga dupla ficando um pouco para trás. Meu cavalo, eu imaginava, ainda estaria pastando alegremente no bosque, esperando ser conduzido para casa por quem tivesse a sorte de encontrá-lo.

- Como me encontrou? — perguntei. Eu estava começando a tremer em efeito retardado e cruzei os braços ao redor do corpo para acalmar o tremor. Minhas roupas haviam se secado completamente a essa altura, mas eu sentia um frio que atingia os ossos.

- Achei melhor não deixar você sozinha e enviei um homem de volta para ficar com você. Ele não a viu partir, mas viu os soldados ingleses atravessarem o rio a vau e você com eles. — A voz de Jamie era fria. Não podia culpá-lo. Meus dentes começavam a ranger.

- S-surpreende-me que não tivesse achado que eu era uma espiã inglesa e m-me deixado lá.

- Era o que Dougal queria fazer. Mas o homem que a viu com os soldados disse que você estava se debatendo. Eu tinha ao menos que ir verificar. — Olhou para mim, sem mudar a expressão.

- Tem sorte, Sassenach, que eu tenha visto o que vi naquela sala. Ao menos, Dougal tem que admitir que você não está mancomunada com os ingleses.

- D-dougal, hein? E quanto a você? O q-que você acha? — perguntei. Ele não respondeu, apenas bufou rapidamente. No entanto, finalmente teve pena de mim o suficiente para arrancar o xale e atirá-lo sobre meus ombros, mas não passou o braço ao meu redor nem me tocou além do estritamente necessário. Cavalgou num silêncio amargo, manejando as rédeas com gestos bruscos, muito diferentes de suas maneiras gentis habituais.

Eu mesma, transtornada e abalada, não estava com disposição para aturar mau humor.

- Bem, o que foi, então? Qual é o problema? — perguntei impacientemente. - Não fique emburrado, pelo amor de Deus! - Falei mais rispidamente do que pretendia e senti que ele se retesou ainda mais. De repente, ele virou a cabeça do cavalo para o lado e freou à beira da estrada. Antes que eu soubesse o que estava acontecendo, ele desmontara e me fizera descer da sela também. Aterrissei desajeitadamente, cambaleando para manter o equilíbrio quando meus pés atingiram o solo.

Dougal e os demais pararam quando nos viram desmontar. Jamie fez um gesto curto e contundente, mandando-os seguir em frente e Dougal abanou a mão, compreendendo.

- Não demore muito — gritou, e retomaram a viagem.

Jamie esperou até que estivessem fora do alcance de sua voz. Então, me puxou com um safanão para que o encarasse. Estava obviamente furioso, à beira da explosão. Senti minha própria ira crescer; que direito tinha de me tratar assim?

— Emburrado! — disse. — Emburrado, não é? Estou usando todo o autocontrole que possuo para não sacudi-la até seus dentes rangerem e você me diz para não ficar emburrado!

- Qual é o seu problema, pelo amor de Deus? - perguntei com raiva. Tentei livrar-me do aperto de suas mãos, mas seus dedos afundaram-se nos meus braços como as garras de uma armadilha.

- Qual é o meu problema? Vou lhe dizer qual é o meu problema, já que quer saber! — disse com os dentes cerrados. — Estou cansado de ter que ficar provando a toda hora que você não é uma espiã inglesa. Estou cansado de ter que vigiar você a todo instante, com medo da bobagem que fará em seguida. E estou muito cansado de ver as pessoas tentarem me fazer ficar olhando enquanto estupram você! Não gostei disso nem um pouco!

- E acha que eu gostei? - gritei. — Está tentando dizer que a culpa é minha? — Diante disso, ele realmente me sacudiu.

- É sua culpa! Se tivesse ficado onde mandei que ficasse hoje de manhã, isso nunca teria acontecido! Mas não, você não me ouve, não passo de seu marido, por que me escutar? Você age como bem entende e, quando vejo, está de costas com as saias para cima e um canalha entre suas pernas, a ponto de possuí-la diante dos meus olhos! — Seu sotaque escocês, geralmente leve, tornava-se mais forte a cada instante, um sinal seguro de que estava furioso, caso eu precisasse de mais indicação.

Nossos narizes já estavam quase se tocando, enquanto gritávamos um com o outro. Jamie estava vermelho de raiva e eu sentia o meu próprio sangue subir.

— É sua própria culpa, por me ignorar e suspeitar de mim o tempo inteiro! Eu lhe contei a verdade sobre quem eu sou! E eu lhe disse que não haveria perigo de eu ir com você, mas você quis me ouvir? Não! Sou apenas uma mulher, por que deveria prestar atenção ao que eu digo? As mulheres só devem fazer o que lhes mandam e seguir ordens e ficar sentadas docemente com as mãos cruzadas no colo esperando que os homens voltem e lhes digam o que fazer!

Sacudiu-me outra vez, incapaz de se conter.

- E se você tivesse feito isso, não estaríamos fugindo agora, com cem soldados ingleses no nosso encalço! Meu Deus, mulher, não sei se devo estrangulá-la ou jogá-la no chão e bater em você até deixá-la sem sentidos, mas por Deus, tenho vontade de fazer alguma coisa com você!

Diante disso, fiz um esforço determinado de chutá-lo nos testículos. Ele desviou-se e lançou o próprio joelho entre minhas pernas, evitando com eficácia quaisquer novas tentativas.

- Tente isso de novo e eu vou esbofeteá-la até seus ouvidos zumbirem - rosnou.

- Você é um brutamontes e um idiota - disse, arquejante, debatendo-me para escapar de suas mãos, agarradas aos meus ombros. - Acha que saí e fui capturada pelos ingleses de propósito?

- Acho mesmo que você fez isso de propósito, para se vingar de mim pelo que aconteceu na clareira!

Fiquei boquiaberta.

- Na clareira? Com os desertores ingleses?

- Sim! Você acha que eu deveria ter sido capaz de protegê-la e tem razão. Mas não consegui; você teve que fazer isso sozinha e agora está tentando me fazer pagar por isso deliberadamente colocando a si mesma, minha mulher, nas mãos de um homem que tirou meu sangue!

- Sua mulher! Sua mulher! Você não se importa comigo! Sou apenas sua propriedade; só é importante para você porque acha que eu lhe pertenço e não pode suportar que alguém tire alguma coisa que lhe pertence!

- Você me pertence mesmo — trovejou, enfiando os dedos nos meus ombros como pregos. - E você é minha mulher, goste ou não!

- Não gosto! Não gosto nem um pouco! Mas isso também não importa, não é? Desde que eu esteja presente para esquentar sua cama, não se importa com o que eu penso ou como me sinto! Isso é tudo que uma mulher representa para você, algo onde enfiar seu pau quando tem vontade!

Com isso, seu rosto ficou branco como cera e começou a me sacudir seriamente. Minha cabeça sacolejou violentamente e meus dentes chocalharam, fazendo-me morder a língua.

- Solte-me! - gritei. Solte-me, seu - deliberadamente, usei as palavras de Harry, o desertor, tentando feri-lo - filho-da-mãe no cio! - Ele me soltou e recuou um passo, os olhos flamejando.

- Sua cadela de boca suja! Não vai falar assim comigo!

- Falo do jeito que quiser! Não pode mandar em mim!

- Parece que não! Você faz o que bem entende, não importa quem você magoe com isso, não é? Sua egoísta, teimo...

- É o seu maldito orgulho que está ferido! — gritei. - Salvei nós dois daqueles desertores na clareira e você não pode aceitar isso, não é? Você só ficou lá parado! Se eu não tivesse a faca, nós dois estaríamos mortos agora!

Até colocar em palavras, eu não tinha idéia de que estava com raiva dele por não me proteger dos desertores ingleses. Em circunstâncias mais racionais, esse pensamento jamais teria atravessado minha mente. Não foi culpa dele, eu teria dito. Foi pura sorte que eu tivesse a adaga, eu teria dito. Mas agora eu compreendia que, justo ou não, racional ou não, eu realmente sentia de alguma forma que era responsabilidade dele me proteger e que ele falhara. Talvez porque ele tão obviamente se sentisse assim.

Ficou parado olhando-me fixamente arquejando de emoção. Quando voltou a falar, tinha a voz baixa e entrecortada de paixão.

- Viu aquele mastro no pátio do forte? Balancei ligeiramente a cabeça.

- Bem, eu fui amarrado àquele poste, amarrado como um animal e chicoteado até meu sangue escorrer! Carregarei as cicatrizes até a morte. Se eu não tivesse tido muita sorte esta tarde, isso seria o mínimo que me aconteceria. Provavelmente teriam me chicoteado e depois me enforcado. - Engoliu em seco e continuou.

- Eu sabia disso e não hesitei nem por um segundo em entrar naquele lugar para ir atrás de você, mesmo achando que talvez Dougal tivesse razão. Sabe onde consegui a arma que usei? - Sacudi a cabeça, entorpecida, minha própria raiva começando a esmaecer. - Matei um guarda junto à muralha. Ele atirou em mim; é por isso que estava descarregada. Ele errou e eu o matei com minha adaga; deixei-a cravada no seu peito quando a ouvi gritar. Eu teria matado uma dúzia de homens para resgatá-la, Claire. - Sua voz falhou.

- E quando você gritou, corri para você, armado apenas com uma pistola vazia e minhas duas mãos. — Jamie falava com mais calma agora, mas seus olhos ainda faiscavam de dor e raiva. Fiquei em silêncio. Perturbada com o horror do meu encontro com Randall eu não dera absolutamente nenhum valor à coragem desesperada que ele precisou ter para entrar no forte para me salvar.

Desviou-se bruscamente, os ombros arriados.

- Tem razão - ele disse serenamente. - Sim, tem toda razão. - De repente, a raiva desaparecera de sua voz, substituída por um tom que nunca ouvira nele, nem mesmo na dor física extrema.

- Meu orgulho está ferido. E meu orgulho é praticamente tudo que me resta. - Apoiou os braços em um pinheiro de casca áspera e enterrou a cabeça neles, exausto. Sua voz era tão baixa que eu mal podia ouvi-lo.

- Você está me dilacerando, Claire.

Eu estava sentindo algo bem semelhante. Devagar, aproximei-me por trás dele. Ele não se mexeu, mesmo quando passei os braços pela sua cintura.

Recostei o rosto em suas costas curvadas. Sua camisa estava molhada, suada com a intensidade de seus sentimentos, e ele tremia.

— Sinto muito — eu disse, simplesmente. - Por favor, perdoe-me. - Ele virou-se e abraçou-me com força. Senti o tremor de seu corpo ceder aos poucos.

- Está perdoada, moça - murmurou finalmente nos meus cabelos. Soltando-me, olhou para mim, sério e formal.

— Eu também sinto muito - disse. — Peço-lhe que me perdoe pelo que eu disse; estava ferido e disse mais do que pretendia. Você também me perdoa? - Depois de seu último discurso, eu não sentia que houvesse qualquer coisa para eu perdoar, mas balancei a cabeça e apertei suas mãos.

- Está perdoado.

Num silêncio mais aliviado, montamos outra vez. A estrada era reta e plana por uma longa extensão neste trecho e ao longe pude ver uma pequena nuvem de poeira que devia ser Dougal e seus homens.

Jamie estava comigo outra vez; segurava-me com um dos braços enquanto cavalgávamos e eu me sentia mais segura. Mas uma leve sensação de constrangimento e ofensa ainda perdurava; as coisas ainda não estavam sanadas entre nós. Havíamos perdoado um ao outro, mas nossas palavras ainda pairavam na lembrança, não podendo ser esquecidas.






Compartilhe com seus amigos:
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   37


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande