A viajante do tempo



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19 - O MONSTRO DO LAGO
Na noite seguinte, acampamos nas margens do lago Ness. Deu-me uma sensação estranha ver o local outra vez; tão pouco havia mudado. Ou mudaria, eu deveria dizer. Os larícios e amieiros ostentavam um verde mais escuro, porque estávamos em pleno verão, não no fim da primavera. As flores haviam mudado dos suaves tons de rosa e branco das violetas e flores-de-maio para os dourados e amarelos mais quentes dos tojos e giestas. O céu estava mais azul, mas a superfície do lago continuava a mesma; um obscuro azul enegrecido que espelhava as margens acima e mantinha as imagens refletidas encurraladas, em cores embotadas sob o espelho esfumaçado.

Viam-se até mesmo alguns barcos a vela mais acima no lago. Embora, quando um deles aproximou-se, tenha constatado que se tratava de uma embarcação de casco de couro curtido estendido sobre uma estrutura de vime, não o esbelto barco de madeira com que eu estava acostumada.

O mesmo cheiro pungente que impregna todos os cursos d'água estava lá; uma mistura penetrante de folhagens de cheiro forte e folhas apodrecidas, água doce, peixes mortos e lama quente. Acima de tudo, havia a mesma sensação estranha pairando no ar. Os homens, assim como os cavalos, pareciam senti-la e a atmosfera do acampamento era contida e reservada.

Tendo encontrado um lugar confortável para as minhas próprias cobertas de dormir e as de Jamie, caminhei até a beira do lago para lavar o rosto e as mãos antes do jantar.

A margem descia num barranco íngreme até quebrar-se num aglomerado de lajes de pedra que formavam uma espécie de cais irregular. Era muito sossegado ali na base da margem, fora da vista e dos barulhos do acampamento, e sentei-me sob uma árvore para apreciar um momento de privacidade. Desde o meu apressado casamento com Jamie, já não era seguida a todo instante; ao menos isso consegui.

Arrancava preguiçosamente as pencas de sementes aladas de um galho baixo e atirava-as no lago quando notei as ondulações da água contra as Pedras se intensificarem, como se empurradas por um vento que se aproximava.

Uma cabeça grande e chata emergiu na superfície a menos de três metros de distância. Pude ver a água escorrendo borbulhante das escamas que recobriam uma crista ao longo do pescoço sinuoso. A água estava agitada desde uma distância considerável e pude vislumbrar aqui e ali o movimento maciço e escuro sob a superfície do lago, embora a cabeça em si se mantivesse relativamente imóvel.

Eu mesma fiquei absolutamente imóvel. Estranhamente, não tive medo. Senti uma leve afinidade com a criatura de outra época, mais fora de seu próprio tempo do que eu, os olhos insípidos tão velhos quanto seus antigos mares e oceanos, olhos que se tornaram turvos nas profundezas sombrias de seu refúgio reduzido. Havia uma sensação de familiaridade misturada à de irrealismo. A pele luzidia era lisa, azul-escura, com um vívido talho verde brilhando com uma radiação iridescente sob a mandíbula. E os olhos estranhos, sem pupilas, eram de um âmbar profundo e cintilante. Muito, muito bonito.

E tão diferente da réplica menor, cor de lama, de que eu me lembrava, enfeitando o diorama do quinto andar do Museu Britânico. No entanto, o formato era inconfundível. As cores dos seres vivos começam a desbotar com o último suspiro e a pele macia, elástica, e os músculos flexíveis começam a se deteriorar em questão de semanas. Mas os ossos às vezes resistem, ecos fiéis da forma, último e débil testemunho da glória de outrora.

As narinas reguladas por válvulas abriram-se repentinamente com um assustador chiado da respiração; um instante de movimento suspenso e a criatura afundou outra vez, uma turva agitação de águas como única testemunha de sua aparição.

Eu havia me levantado quando a criatura surgiu. Inconscientemente, devo ter me aproximado a fim de observá-la melhor, pois me vi de pé em uma das lajes de pedra que se projetavam acima do espelho d'água, observando as ondas definhadas transformarem-se novamente na placidez do lago.

Fiquei ali parada por um instante, fitando a vastidão do lago insondável.

- Adeus - disse finalmente às águas vazias. Estremeci e virei-me para voltar à margem.

Um homem estava parado no topo do barranco. A princípio, fiquei assustada, depois o reconheci como um dos carroceiros de nosso grupo. Seu nome era Peter, lembrei-me, e o balde em sua mão indicava o motivo de sua presença. Estava prestes a perguntar-lhe se vira o monstro, mas a expressão de seu rosto quando me aproximei era uma resposta mais do que suficiente. Seu rosto estava mais branco do que as margaridas a seus pés e pequenas gotas de suor escorriam para dentro de sua barba. Via-se o branco de seus olhos ao redor de toda a íris, como os olhos de um cavalo assustado, e suas mãos tremiam tanto que o balde batia em sua perna.

— Tudo bem - eu disse, quando cheguei perto dele. —Já foi embora. Em vez de minha afirmação tranqüilizá-lo, pareceu motivo de mais alarme. Deixou cair o balde, caiu de joelhos diante de mim e fez o sinal-da-cruz.

- Te-tenha piedade, senhora - balbuciou. Para meu enorme constrangimento, lançou-se no chão e agarrou a barra da minha saia.

- Não seja ridículo - eu disse com certa aspereza. — Levante-se. -Cutuquei-o delicadamente com a ponta do pé, mas ele apenas tremeu e continuou preso ao chão como um cogumelo achatado. - Levante-se - repeti. - Seu tolo, é apenas um... - parei, tentando pensar. Dizer-lhe seu nome em latim provavelmente de nada iria adiantar.

- É apenas um pequeno monstro - disse finalmente e, agarrando-o pela mão, puxei-o para que se levantasse. Tive que encher o balde, já que ele (não sem razão) se recusava a se aproximar da água. Seguiu-me de volta ao acampamento, mantendo uma distância cautelosa, e fugiu às pressas imediatamente para cuidar de suas mulas, lançando olhares apreensivos por cima do ombro em minha direção enquanto se afastava.

Como não pareceu disposto a mencionar a criatura para mais ninguém, achei que talvez eu também devesse ficar calada. Embora Dougal, Jamie e Ned fossem homens educados, o resto era em grande parte analfabetos oriundos dos mais longínquos penhascos e ravinas das terras dos MacKenzie. Eram guerreiros destemidos e combatentes corajosos, mas também eram tão supersticiosos quanto quaisquer membros de tribos primitivas da África ou do Oriente Médio.

Assim, tomei minha sopa em silêncio e fui dormir, consciente o tempo todo do olhar penetrante do carroceiro Peter.




20 - CLAREIRAS DESERTAS
Dois dias após o assalto, voltamos novamente para o norte. Aproximávamo-nos do local de encontro com Horrocks e Jamie parecia distraído de vez em quando, talvez considerando a importância que as notícias do desertor inglês poderiam ter.

Eu não vi Hugh Munro outra vez, mas acordei no escuro da noite anterior e vi que Jamie não estava no cobertor ao meu lado. Tentei ficar acordada, esperando que retornasse, mas adormeci quando a lua começou a descer no horizonte. Pela manhã, ele dormia profundamente ao meu lado e sobre o meu cobertor havia um pequeno pacote, embrulhado em uma folha de papel fino, com uma pena da cauda de pica-pau enfiada no papel. Abrindo-o cuidadosamente, encontrei um grande pedaço de âmbar bruto. Uma das faces do bloco fora aplainado e polido e, nessa janela, podia-se ver a forma escura e delicada de uma pequena libélula, suspensa num vôo eterno.

Alisei o papel do embrulho. Havia uma mensagem gravada na superfície branca encardida, escrita numa letra pequena e surpreendentemente elegante.

- O que diz? - perguntei a Jamie, estreitando os olhos diante das letras e sinais estranhos. - Acho que está em gaélico.

Ele ergueu-se em um dos cotovelos, examinando o papel.

— Não é gaélico — disse. — É latim. Munro já foi professor, antes de os turcos o levarem. É um trecho de Catulo:

...da mi basia mille, diende centum, dein mille altera, dein secunda centum...

Um leve rubor tomou conta dos lóbulos de suas orelhas enquanto traduzia:


Permita, então, que beijos apaixonados permaneçam

Em nossos lábios, comece a contagem

Até mil e cem

E mais cem e mais mil.


- Bem, isso tem mais classe do que o conhecido biscoito da sorte -observei, achando graça.

- O quê? - Jamie perguntou, surpreso.

- Deixa pra lá — respondi apressadamente. - Munro encontrou Horrocks para você?

- Ah, sim. Já está combinado. Vou encontrar-me com ele em uma pequena localidade que conheço nas montanhas, dois ou três quilômetros acima de Lag Cruime. Dentro de quatro dias, se nada der errado nesse meio tempo.

A alusão à possibilidade de as coisas darem errado deixou-me um pouco nervosa.

- Acha que é seguro? Quero dizer, você confia em Horrocks?

Ele sentou-se, esfregando os olhos e piscando para afastar os resquícios de sono.

- Um desertor inglês? Deus do Céu, não. Imagino que ele me venderia a Randall num piscar de olhos, exceto que ele próprio não pode se aproximar dos ingleses. Eles enforcam desertores. Não, não confio nele. Foi por isso que vim com Dougal nesta viagem, ao invés de procurar Horrocks sozinho. Se o sujeito estiver tramando alguma coisa, ao menos terei companhia.

- Ah. - Eu não tinha certeza se a presença de Dougal era assim tão tranqüilizadora, considerando-se o aparente estado de coisas entre Jamie e seus dois tios conspiradores.

- Bem, se é o que você pensa - eu disse, em dúvida. - Ao menos, não creio que Dougal fosse aproveitar a oportunidade para dar um tiro em você.

- Na verdade, ele atirou em mim - Jamie disse alegremente, abotoando a camisa. — Você deveria saber, foi você quem tratou o ferimento.

Deixei cair o pente que estava usando.

- Dougal! Pensei que tinham sido os ingleses que haviam atirado em você!

- Bem, os ingleses realmente atiraram em mim, mas não foram eles que me acertaram — corrigiu. - E não deveria dizer que foi Dougal quem me acertou. Provavelmente foi Rupert, ele é o melhor atirador entre os homens de Dougal. Não, quando fugíamos dos ingleses, percebi que estávamos próximos aos limites das terras dos Fraser e pensei em arriscar uma fuga. Assim, esporeei o cavalo e desviei para a esquerda, contornando Dougal e o resto dos homens. Havia um intenso tiroteio, mas a bala que me atingiu veio de trás. Dougal, Rupert e Murtagh estavam às minhas costas naquele momento. E os ingleses estavam todos à minha frente. Na realidade, quando caí do cavalo, rolei pelo morro abaixo e acabei quase no colo deles. - Inclinou-se sobre o balde de água que eu trouxera, lavando o rosto com a água fria. Sacudiu a cabeça para afastar os cabelos dos olhos, piscou para mim, sorrindo, as gotículas brilhantes agarradas às espessas pestanas e sobrancelhas.

- Pensando bem, Dougal teve grande dificuldade em me resgatar de volta. Eu estava estirado no chão, quase inerte, e ele estava de pé acima de mim, puxando-me pelo cinto com uma das mãos para que eu me levantasse e segurando a espada com a outra, lutando corpo-a-corpo com um dragão que achava que tinha uma certa cura para meus males. Dougal matou o sujeito e me colocou em cima do seu cavalo. — Sacudiu a cabeça. - Tudo estava meio confuso para mim na ocasião; só conseguia pensar em como devia ser difícil para o cavalo, tentando subir uma colina como aquela carregando quase duzentos quilos nas costas.

Parei, um pouco abalada.

— Mas... se ele quisesse, Dougal poderia ter matado você naquele momento.

Jamie sacudiu a cabeça, pegando a navalha que pedira emprestado a Dougal. Puxou o balde um pouco, para que a superfície formasse um espelho improvisado e, fazendo a tortuosa careta que os homens fazem ao se barbearem, começou a deslizar a lâmina pelas faces.

- Não, não na frente dos homens. Além do mais, Dougal e Colum não queriam necessariamente me ver morto, especialmente não Dougal.

— Mas... — Minha cabeça estava começando a girar outra vez, como parecia acontecer sempre que me deparava com as complexidades da vida familiar na Escócia.

As palavras de Jamie ficaram um pouco abafadas, conforme ele esticava o queixo, inclinando a cabeça para atingir os pêlos ásperos embaixo do maxilar.

— É por causa de Lallybroch - explicou, deslizando a mão livre pelo rosto para sentir um ou outro pêlo desgarrado. - Além de ser um rico pedaço de terra, a propriedade fica na cabeça de um desfiladeiro nas montanhas, a única passagem boa para as Highlands em quinze quilômetros, em qualquer direção. Se acontecer um novo levante, seria um valioso pedaço de terra para se ter sob controle. E se eu morresse antes de me casar, provavelmente as terras voltariam para os Fraser.

Riu, acariciando o pescoço.

- Não, eu sou um grande problema para os irmãos MacKenzie. Por um lado, se sou uma ameaça para a liderança do pequeno Hamish, querem me ver bem morto. Por outro, se não for, querem a mim e à minha propriedade do lado deles, em caso de guerra, e não com os Fraser. É por isso que estão dispostos a me ajudarem com Horrocks, sabe. Não posso fazer muita coisa com Lallybroch enquanto for um fora-da-lei, embora as terras ainda sejam minhas.

Enrolei os cobertores, sacudindo a cabeça, atordoada com as circunstâncias complexas - e perigosas - pelas quais Jamie parecia se locomover com tanta facilidade. E me ocorreu repentinamente que agora não apenas Jamie estava envolvido. Ergui os olhos.

- Você disse que se morresse antes de se casar, as terras voltariam para os Fraser - eu disse. — Mas agora você está casado. Portanto, quem...

- Isso mesmo - disse, balançando a cabeça para mim com um sorriso enviesado. O sol da manhã iluminava seus cabelos com chamas de ouro e cobre. — Se eu for assassinado agora, Sassenach, Lallybroch é sua.

Era uma bela manhã ensolarada, depois que a neblina se dissipou. Os pássaros agitavam-se nas urzes e a estrada era larga naquele local, para variar, e com uma terra fina e macia sob os cascos dos cavalos.

Jamie cavalgava ao meu lado quando subíamos um pequeno monte. Fez um sinal com a cabeça indicando à direita.

- Está vendo aquela ravina lá embaixo?

- Sim. - Era uma pequena área verde de pinheiros, carvalhos e álamos, a certa distância da estrada.

- Há uma fonte com uma lagoa lá, sob as árvores, e uma relva macia. Um lugar muito agradável.

Olhei para ele interrogativamente.

- Um pouco cedo para almoçar, não é?

- Não era exatamente isso que eu tinha em mente. - Jamie, eu descobrira por acaso há alguns dias, nunca dominara a arte de piscar um único olho. Ao invés disso, piscava os dois solenemente, como uma grande coruja vermelha.

- E o que exatamente você tinha em mente? — perguntei. Meu olhar desconfiado deparou-se com olhos azuis, infantis e inocentes.

- Eu estava pensando se você gostaria... na grama... sob as árvores... junto à água... com as saias para cima até as orelhas.

- Hã... - balbuciei.

- Direi a Dougal que vamos buscar água. - Acelerou o cavalo, voltando logo depois com as garrafas de água dos outros cavalos. Ouvi Rupert gritar alguma coisa às nossas costas em gaélico, enquanto descíamos a colina, mas não consegui distinguir as palavras.

Cheguei à clareira primeiro. Descendo do cavalo, relaxei sobre a relva e fechei os olhos contra a claridade do sol. Jamie freou ao meu lado pouco depois e saltou da sela. Deu um tapa no cavalo, as rédeas soltas, mandando-o pastar com o meu, antes de cair de joelhos na relva. Estendi os braços e o puxei para mim.

Era um dia quente, impregnado do cheiro de grama e perfume de flores. O próprio Jamie cheirava a grama recém-aparada, doce e pungente.

- Teremos que ser rápidos - eu disse. — Estarão se perguntando por que estamos levando tanto tempo para pegar água.

- Não vão ficar se perguntando - disse, desatando meus cordões com a facilidade adquirida com a prática. — Eles sabem.

- O que quer dizer?

- Não ouviu o que Rupert disse quando partimos?

- Eu o ouvi, mas não consegui entender o que disse. — Meus conhecimentos de gaélico estavam melhorando a ponto de poder compreender as palavras mais comuns, mas ainda estava longe de entender uma conversa.

- Ótimo. Não era adequado aos seus ouvidos. - Tendo libertado meus seios, enterrou o rosto neles, sugando e mordendo delicadamente, até eu não agüentar mais e deslizar sob ele para levantar e tirar minhas saias do caminho. Sentindo-me absurdamente inibida depois daquele encontro selvagem e primitivo sobre a rocha, ficara acanhada de fazer amor perto do acampamento e os bosques eram densos demais para andarmos por eles com segurança um pouco mais longe do acampamento. Nós dois estávamos sentindo a leve e agradável tensão da abstinência e agora, longe de olhos e ouvidos curiosos, unimo-nos com um impacto que fez meus lábios e dedos formigarem com a precipitação do sangue.

Estávamos quase terminando quando Jamie ficou repentinamente paralisado. Abrindo os olhos, vi seu rosto escuro contra o sol, com uma expressão absolutamente indescritível. Havia um objeto negro pressionado contra sua cabeça. Meus olhos finalmente se ajustaram à claridade e vi que se tratava do cano de um mosquete.

- Levante-se, filho-da-mãe desgraçado. - O cano da arma moveu-se rispidamente, chocando-se contra a têmpora de Jamie. Bem devagar, ele levantou-se. Uma gota de sangue começou a formar-se no local onde o cano do mosquete arranhara a pele.

Eram dois soldados ingleses desertores, a julgar pelos restos esfarrapados dos uniformes. Ambos estavam armados com mosquetes e pistolas e pareciam muito satisfeitos com o que a sorte colocara em seus caminhos. Jamie ficou de pé com os braços erguidos, o cano de um mosquete pressionado contra o peito, o rosto cuidadosamente impenetrável.

- Devia tê-lo deixado terminar, Harry - disse um dos homens. Abriu um largo sorriso, com uma boa exibição de dentes estragados. - Parar assim no meio faz mal à saúde de um homem.

Seu comparsa espetou o mosquete no peito de Jamie.

- A saúde dele não é problema meu. E logo também não será mais problema para ele. Estou com vontade de aproveitar um pouco disso - fez um breve aceno da cabeça em minha direção - e não me importo de vir depois de outro homem, muito menos de um filho-da-puta escocês como este. O sujeito dos dentes estragados riu.

- Também não sou tão exigente. Mate-o, então, e ande logo com isso.

Harry, um sujeito baixo, atarracado e estrábico, pensou por um instante examinando-me especulativamente. Eu ainda estava sentada no chão, os joelhos puxados para junto do corpo e as saias firmemente pressionadas em volta dos tornozelos. Fizera um certo esforço para fechar meu corpete, mas ainda estava muito exposta. Finalmente, o homem baixo riu e fez um sinal chamando seu parceiro.

- Não, deixe que ele veja. Venha até aqui, Arnold, e mantenha seu mosquete nele. - Arnold obedeceu, ainda rindo. Harry colocou seu mosquete no chão e soltou o cinto com a pistola ao lado dele, preparando-se.

Pressionando minhas saias para baixo, percebi um objeto duro no bolso direito. A adaga que Jamie me dera. Conseguiria usá-la? Sim, decidi, olhando o rosto vesgo e cheio de espinhas de Harry, certamente eu conseguiria.

No entanto, eu teria que esperar até o último segundo possível e tinha minhas dúvidas se Jamie conseguiria se controlar por tanto tempo. Podia ver a ânsia de matar profundamente marcada em suas feições; logo a consideração das conseqüências não seria mais suficiente para contê-lo.

Não ousava deixar minhas intenções transparecerem muito em meu rosto, mas estreitei os olhos e fitei-o o mais duramente possível, querendo dizer-lhe para não se mexer. Os tendões saltavam em seu pescoço e o rosto estava roxo, tomado pelo sangue que subira, mas percebi um aceno ínfimo de sua cabeça, indicando que compreendera a minha mensagem.

Lutei enquanto Harry pressionava-me contra o chão e tentei levantar minha saia, mais para colocar a mão no cabo da adaga do que realmente para oferecer resistência. Esbofeteou-me com força, ordenando-me que ficasse quieta. Minha face ardeu e meus olhos lacrimejaram, mas a adaga agora estava em minha mão, oculta sob as pregas da saia.

Deitei-me de costas, respirando pesadamente. Concentrei-me em meu objetivo, tentando apagar tudo o mais da minha mente. Teria que ser nas costas; o desgraçado estava perto demais para eu tentar a garganta.

Os dedos imundos enfiavam-se em minhas coxas, afastando-as. entalmente, pude ver o dedo rombudo de Rupert golpeando na região as costelas de Murtagh e ouvir sua voz: "Aqui, dona, embaixo das últimas Costelas, perto da espinha dorsal. Golpeie com força para cima e diretamente no rim, e ele cairá como uma pedra."

Estava quase na hora; sentia o mau hálito quente e repugnante de Harry em meu rosto e ele apalpava minhas pernas nuas, concentrado em seu objetivo.

— Dê uma boa olhada, rapazinho, e veja como se faz — disse, ofegante. — Vou deixar sua vagabunda gemendo e pedindo mais.

Passei meu braço esquerdo em torno do seu pescoço para mantê-lo junto a mim; estendendo a mão com a faca no alto, mergulhei-a com todas as forças que pude arregimentar. O choque do impacto reverberou pelo meu braço e quase soltei a adaga. Harry ganiu e se contorceu, tentando escapar. Impedida de ver, eu mirara alto demais e a faca resvalara em uma costela.

Não podia desistir agora. Felizmente, minhas pernas libertaram-se do emaranhado das saias. Passei-as com toda força em volta dos quadris suados de Harry, prendendo-o durante os preciosos segundos de que eu precisava para outra tentativa. Apunhalei-o outra vez, com uma força desesperada, e desta vez atingi o lugar certo.

Rupert tinha razão. Harry arqueou-se numa hedionda paródia do ato sexual, depois desabou sem um som como um peso morto e flácido sobre mim, o sangue jorrando em esguichos cada vez mais fracos do ferimento em suas costas.

A atenção de Arnold fora distraída por um instante pelo espetáculo no chão e um instante era mais do que suficiente para o enlouquecido escocês que mantinha sob sua mira. Quando consegui me recuperar o suficiente para me esgueirar de baixo do defunto, Arnold se unira a seu comparsa na morte, a garganta cortada com precisão de orelha a orelha pelo sgian dhu que Jamie carregava na meia.

Jamie ajoelhou-se a meu lado, puxando-me de baixo do cadáver. Nós dois tremíamos de nervoso e do choque, e permanecemos agarrados um ao outro sem falar por vários minutos. Ainda sem falar, pegou-me no colo e levou-me para longe dos dois corpos, para uma faixa de terra gramada atrás de uma cortina de alámos.

Colocou-me no solo e sentou-se a meu lado desajeitadamente, desabando como se seus joelhos tivessem cedido repentinamente. Senti uma solidão gélida, como se o vento do inverno soprasse nos meus ossos, e estendi os braços para ele. Ele ergueu a cabeça dos joelhos, o rosto desfigurado, e fitou-me como se nunca tivesse me visto. Quando coloquei as mãos em seus ombros, puxou-me com força contra seu peito com um som entre um gemido e um soluço.

Possuímo-nos ali mesmo, num silêncio selvagem e angustiado, com movimentos ferozes e terminando em poucos instantes, levados por uma compulsão que eu não compreendia, mas sabia que devia acatar ou nos perderíamos um do outro para sempre. Não foi um ato de amor, mas de necessidade, como se soubéssemos que, se ficássemos sozinhos, nenhum de nós dois conseguiria suportar. Nossa única força residia na fusão, afogando lembranças de morte e de um quase-estupro na inundação dos sentidos.

Ficamos agarrados um ao outro na relva, desalinhados, sujos de sangue e tremendo sob o sol. Jamie murmurou alguma coisa, a voz tão baixa que apreendi somente a palavra "lamento".

- Não foi culpa sua - sussurrei, acariciando seus cabelos. — Está tudo bem, nós dois estamos bem. - Tinha a sensação de estar sonhando, como se nada fosse real à minha volta e reconheci vagamente os sintomas de choque retardado.

- Não é por isso - disse. - Não é por isso. Na verdade, foi culpa minha... Que tolice vir aqui sem tomar as devidas precauções. E deixar você ser... Mas não era isso a que eu estava me referindo. Queria dizer... que lamento muito por usá-la como fiz agora. Possuí-la agora, logo depois de.-- como um animal. Desculpe-me, Claire... Não sei o que... Não pude evitar, mas... Meu Deus, você está tão fria, mo duinne, suas mãos estão geladas. Vamos, deixe-me esquentá-la.

Choque, também, pensei confusamente. Era engraçado como o choque fazia algumas pessoas desatarem a falar. Outras apenas tremiam em silêncio. Como eu. Pressionei sua boca contra meu ombro para acalmá-lo.

- Está tudo bem - continuei repetindo. - Está tudo bem.

De repente, uma sombra recaiu sobre nós, sobressaltando-nos. Dougal estava parado ao nosso lado, radiante, os braços cruzados. Educadamente desviou o olhar enquanto eu atava meus cordões apressadamente, mas olhou para Jamie com o cenho franzido.

- Agora, ouça-me, rapaz, tudo bem que queira se dar ao prazer com sua mulher, mas deixar todos nós esperando por mais de uma hora e estarem tão absortos um com o outro que você nem me ouviu chegar... esse tipo de comportamento vai lhe causar problemas um dia desses, rapaz. Alguém podia vir por trás de vocês, encostar uma pistola em sua cabeça antes de você se dar conta e...

Parou no meio de sua advertência para me fitar com incredulidade, enquanto eu rolava pela grama rindo histericamente. Jamie, vermelho como uma beterraba, levou Dougal para o outro lado dos álamos, explicando-lhe o que se passara com uma voz baixa e controlada. Continuei a me sacudir incontrolavelmente, rindo baixinho, até enfiar um lenço na boca para abafar o som. A liberação repentina das emoções, associada às palavras de Dougal, evocara uma imagem do rosto de Jamie, pego em flagrante como acontecera, que achei totalmente hilariante em meu estado de atordoamento. Ri e gemi até minhas bochechas doerem. Finalmente, sentei-me, limpando os olhos no lenço, e me deparei com Jamie e Dougal de pé, parados acima de mim, exibindo expressões idênticas de desaprovação. Jamie me suspendeu e foi me conduzindo, ainda prendendo riso e resfolegando ocasionalmente, para onde o resto dos homens esperavam com os cavalos.

Afora uma tendência persistente de rir histericamente por nada, eu não parecia sofrer de nenhum efeito danoso de nosso encontro com os desertores, embora tenha me tornado muito cautelosa em me afastar do acampamento. Dougal assegurou-me que, na realidade, não era tão comum encontrar bandidos nas estradas das Highlands, simplesmente porque não havia muitos viajantes que valesse a pena roubar. Ainda assim, sobressaltava-me nervosamente com os sons da floresta e voltava apressadamente das tarefas rotineiras como buscar lenha e água, ansiosa para avistar e ouvir os MacKenzie. Também encontrei um novo alento no som de seus roncos perto de mim à noite e perdi qualquer constrangimento que pudesse sentir a respeito dos discretos gemidos que ocorriam sob nossos cobertores.

Eu ainda sentia medo de ficar sozinha quando, alguns dias mais tarde, chegou o momento do encontro com Horrocks.

— Ficar aqui? — exclamei sem acreditar. — Não! Eu vou com você.

— Não pode — Jamie repetiu pacientemente, mais uma vez. — A maioria dos homens continuará viagem para Lag Cruime com Ned, para coletar os aluguéis, como esperado. Dougal e alguns dos outros irão comigo ao encontro, para o caso de alguma traição de Horrocks. Mas você não pode ser vista abertamente em Lag Cruime; os homens de Randall podem estar por perto e ele seria bem capaz de levá-la à força. E quanto ao encontro com Horrocks, não faço a menor idéia do que pode acontecer. Não, há um pequeno bosque perto da curva da estrada, é fechado, forrado de grama e há água bem perto. Ficará bem ali, até eu voltar para pegá-la.

— Não - repeti teimosamente. — Eu vou com você. - Um certo sentimento de orgulho não me deixava dizer-lhe que tinha medo de ficar longe dele. Mas estava disposta a dizer-lhe que temia por ele.

— Você mesmo disse que não sabe o que acontecerá no encontro com Horrocks - argumentei. - Não quero ficar esperando aqui, imaginando o dia inteiro o que terá acontecido a você. Deixe-me ir com você — disse, tentando persuadi-lo. - Prometo ficar fora de vista durante o encontro. Mas não quero ficar aqui sozinha, preocupada o dia todo.

Suspirou com impaciência, mas não argumentou mais. Entretanto, quando chegamos ao bosque, inclinou-se e agarrou as rédeas do meu cavalo, forçando-me a sair da estrada e entrar no mato. Desceu do seu cavalo, atando as duas rédeas a um arbusto. Ignorando minhas veementes objeções, desapareceu no meio das árvores. Teimosamente, recusei-me a apear. Ele não podia obrigar-me a ficar, pensei.

Surgiu na estrada finalmente. Os outros tinham ido à frente, mas Jamie, lembrando-se de nossa última experiência em clareiras desertas, não quis partir enquanto não tivesse esquadrinhado cuidadosamente o local, examinando metodicamente os quatro cantos do bosque e abrindo caminho pelo capim alto com uma vara. Quando voltou, desamarrou os cavalos e montou novamente na sela.

- É seguro — disse. — Cavalgue até o meio do bosque, Claire, e esconda-se e o cavalo também. Virei buscá-la assim que terminar o que tenho que fazer. Não sei quanto tempo vai durar, mas no mais tardar até o pôr-do-sol.

- Não! Eu vou com você! - Não podia suportar a idéia de ficar presa em uma floresta, sem saber o que estava acontecendo. Preferia estar correndo um perigo real a ser deixada durante horas de ansiedade, esperando e imaginando. E sozinha.

Jamie não conseguiu conter mais sua impaciência. Estendeu os braços e agarrou-me pelos ombros.

- Você não prometeu me obedecer? - perguntou, sacudindo-me brandamente.

- Sim, mas... — Só porque fui obrigada, ia dizer, mas ele ja tocava meu cavalo em direção ao bosque.

- É muito perigoso e eu não quero você lá, Claire. Vou ficar ocupado e, se vier a acontecer, não vou poder lutar e protegê-la ao mesmo tempo. - Vendo meu olhar rebelde, levou a mão ao alforje e começou a vasculhar lá dentro.

- O que está procurando?

- Corda. Se não fizer o que estou dizendo, vou amarrá-la a uma árvore até eu voltar.

- Não faria isso!

- Ah, faço, sim! - Obviamente, falava a sério. Cedi de má vontade e relutantemente tomei as rédeas do meu cavalo. Jamie inclinou-se para me beijar rapidamente no rosto, já se virando para partir.

- Cuide-se, Sassenach. Tem sua adaga? Ótimo. Volto o mais rápido que puder. Ah, mais uma coisa.

- O que é? - perguntei, amuada.

- Se você deixar este bosque antes de eu vir buscá-la, vou esfolar seu traseiro com o cinto da minha espada. Não iria gostar de percorrer a pé todo o caminho até Bargrennan. Lembre-se - disse, beliscando delicadamente minha bochecha —, não faço promessas vazias.

Continuei lentamente em direção ao bosque, olhando para trás para vê-lo cavalgando a toda velocidade, inclinado sobre a sela, cavalo e cavaleiro formando um único ser, as pontas de seu xale xadrez esvoaçando às suas costas.

Estava fresco sob as árvores; tanto eu quanto o cavalo demos um suspiro de alívio quando entramos na sombra. Era um daqueles raros dias quentes na Escócia, quando o sol flameja de um céu de musselina azul desbotada e a névoa matinal é dissipada até as oito horas. O trinado de pássaros enchia o bosque; um bando de abelharucos ciscava no grupo de carvalhos à esquerda e podia ouvir o que achei ser um tordo a curta distância.

Sempre fui uma entusiasta ornitófila amadora. Se ia ficar abandonada ali até que conviesse ao meu autoritário, dominador, empacado e obstinado marido parar de arriscar o seu estúpido pescoço, aproveitaria o tempo para ver que pássaros conseguiria avistar.

Soltei o cavalo para que pastasse na grama exuberante na borda do bosque, sabendo que ele não iria longe. A grama terminava bruscamente a alguns metros das árvores, sufocada pelas urzes invasoras.

Era uma clareira de diversos tipos de coníferas e de carvalhos novos, perfeita para observação de pássaros. Caminhei por ela, ainda mentalmente furiosa com Jamie, mas aos poucos me sentindo mais calma, à medida que ouvia o pio característico de um papa-moscas e a garrulice áspera do tordo.

A clareira terminava bruscamente no outro extremo, à beira de um pequeno precipício. Abri caminho entre as árvores novas e o gorjeio dos pássaros foi afogado no barulho de água corrente. Parei à margem de um riacho, um desfiladeiro íngreme e pedregoso, com cascatas lançando-se pelas encostas entalhadas para se espatifarem nos lagos marrons e prateados lá embaixo. Sentei-me na beirada da margem e deixei os pés dependurados acima da água, desfrutando o sol em meu rosto.

Um corvo cruzou o céu acima da minha cabeça, seguido de perto por um par de rabos-ruivos. O volumoso corpo preto ziguezagueava pelo ar, tentando evitar os minúsculos perseguidores. Sorri, observando os furiosos e pequenos pássaros atormentando o corvo de um lado para o outro e me perguntei se os corvos, quando entregues aos seus próprios afazeres, realmente voavam em linha reta. Aquele, se mantivesse uma linha reta, voaria diretamente para...

Parei repentinamente.

Estivera tão concentrada em discutir com Jamie que até aquele minuto não me ocorrera que a situação que eu vinha perseguindo há dois meses finalmente se apresentara. Eu estava sozinha. E sabia onde estava.

Olhando para o outro lado do riacho, meus olhos eram ofuscados pelo sol da manhã ardendo entre os freixos vermelhos na margem distante. Portanto, aquele era o leste. Meu coração começou a bater com força. O leste ficava para aquele lado, Lag Cruime estava diretamente às minhas costas. Lag Cruime ficava a seis quilômetros ao norte de Fort William. E Fort WilKam ficava a pouco mais de quatro quilômetros a oeste da colina de Craigh na Dun.

Assim, pela primeira vez desde meu encontro com Murtagh, eu sabia aproximadamente onde estava — a cerca de dez quilômetros daquela maldita colina e seu desgraçado círculo de pedras. Dez quilômetros - talvez -de casa. De Frank.

Comecei a voltar para a clareira, mas mudei de idéia. Não ousava pegar estrada. Tão perto de Fort William e dos diversos vilarejos que o circundavam, havia um risco grande de me deparar com alguém. E não podia levar um cavalo pelo curso perigosamente íngreme do riacho. Na realidade tinha dúvidas se o percurso poderia ser feito a pé; as ribanceiras de pedra eram escarpadas em alguns pontos, mergulhando diretamente nas águas revoltas do riacho, sem nenhuma base segura para pôr o pé, a não ser os topos de algumas rochas espalhadas, projetando-se das corredeiras.

Mas era de longe o caminho mais direto na direção que eu queria. E eu não ousava fazer um trajeto com muitas voltas; poderia facilmente me perder no mato ou ser alcançada por Dougal e Jamie, em seu retorno.

Meu estômago deu um salto repentino quando pensei em Jamie. Deus, como poderia fazer isso? Deixá-lo sem uma palavra de explicação ou desculpas? Desaparecer sem deixar vestígios, depois de tudo que fizera por mim?

Com esse pensamento, finalmente decidi deixar o cavalo. Ao menos, pensaria que não o deixei por vontade própria; acreditaria que fui assassinada por animais selvagens - toquei a adaga no meu bolso - ou talvez seqüestrada por bandidos. E não encontrando nenhuma pista do meu paradeiro, finalmente me esqueceria e se casaria de novo. Talvez com a linda e jovem Laoghaire, quando voltasse a Leoch.

Apesar de absurdo, vi que a idéia de Jamie compartilhando a cama de Laoghaire me transtornava tanto quanto a idéia de deixá-lo. Amaldiçoei-me por tal idiotice, mas não conseguia deixar de pensar em seu rosto redondo e meigo, ruborizado de desejo ardente, e as mãos grandes de Jamie mergulhando naqueles cabelos platinados...

Descerrei os dentes e resolutamente limpei as lágrimas do rosto. Não tinha nem o tempo nem a energia para reflexões tolas. Tinha que ir, e agora, enquanto podia. Talvez fosse a melhor oportunidade que teria. Esperava que Jamie me esquecesse. Eu sabia que jamais o esqueceria. Mas, por enquanto, precisava afastá-lo da mente ou não conseguiria me concentrar no que pretendia fazer, o que já era bastante complicado.

Cautelosamente, fui escolhendo meu caminho pela margem escarpada até a beira d'água. O barulho da correnteza abafava o som dos pássaros no bosque acima. A descida era difícil, mas ao menos havia espaço para caminhar ali junto à água. A beirada do rio era lamacenta e semeada de pedras, mas transitável. Mais para baixo, vi que teria que entrar na água e seguir precariamente de pedra em pedra, equilibrando-me acima da correnteza, até a margem alargar-se o suficiente para eu voltar à orla outra vez.

Prossegui com extrema cautela, estimando quanto tempo eu teria. Jamie dissera apenas que voltariam antes do pôr-do-sol. Cinco a seis quilômetros até Lag Cruime, mas eu não tinha como saber em que condições estavam as estradas, nem quanto tempo levaria o assunto a tratar com Horrocks. Se ele estivesse lá. Mas estaria, argumentei comigo mesma Hugh Munro afirmara que estaria e, por mais estranha que fosse aquela figura, Jamie obviamente o considerava uma fonte confiável de informação.

Meu pé escorregou na primeira pedra no rio, mergulhando-me até os joelhos na água gelada e ensopando as minhas saias. Voltei para a margem prendi as saias o mais alto que pude e retirei os sapatos e as meias. Enfiei-os no bolso formado pelas saias presas e pisei na pedra outra vez.

Percebi que me agarrando com os dedos dos pés, podia pular de uma pedra para a outra sem escorregar. Entretanto, minhas saias emboladas dificultavam ver onde deveria pisar em seguida e mais de uma vez escorreguei para dentro da água. Minhas pernas estavam geladas e, conforme meus pés iam ficando dormentes, tornava-se mais difícil me equilibrar.

Felizmente, a margem alargou-se outra vez e pisei com satisfação na lama pegajosa e morna. Após curtos períodos de caminhada razoavelmente confortável, alternados com períodos muito mais longos saltitando precariamente de pedra em pedra pela correnteza gelada, descobri para meu alívio que estava ocupada demais para pensar muito em Jamie.

Após algum tempo, já estabelecera uma rotina. Pisar, firmar-se, parar, olhar em volta, localizar o próximo passo. Pisar, firmar-se, parar e assim por diante. Devo ter ficado confiante demais, ou talvez apenas cansada, porque me descuidei e errei o alvo. Meu pé escorregou irremediavelmente pela frente da pedra coberta de limo. Agitei os braços freneticamente tentando voltar para a pedra onde estava antes, mas já perdera o equilíbrio. Com saias, anáguas, adaga e tudo, mergulhei na água.

E continuei mergulhando. Embora o rio tivesse apenas cerca de meio metro de profundidade, havia poços fundos de vez em quando, nos locais onde a água revolta cavara depressões profundas no leito rochoso. A pedra onde eu perdera o equilíbrio ficava na borda de um desses poços e, quando atingi a água, afundei como uma verdadeira pedra.

Fiquei tão abalada com o choque da água gelada entrando pelo meu nariz e pela minha boca que nem gritei. Bolhas prateadas lançavam-se do corpete do meu vestido e passavam pelo meu rosto em direção à superfície. O tecido de algodão encharcou-se quase imediatamente e a sensação de congelamento provocada pela água paralisou minha respiração.

Comecei quase imediatamente a lutar para chegar à superfície, mas o peso das minhas roupas puxava-me para baixo. Tentei desamarrar os cordões do meu corpete, mas não havia a menor chance de conseguir desatá-los antes de me afogar. Proferi silenciosamente diversas observações depreciativas e mesquinhas sobre costureiras, moda feminina e a estupidez de saias longas, enquanto esperneava freneticamente para manter as pernas desembaraçadas das dobras dos tecidos.

A água era cristalina. Meus dedos tocaram a parede de pedra, deslizando pelas folhas longas, escuras e escorregadias de algas e lentilhas d'água. Escorregadia como limo, é o que Jamie dissera a respeito de minha...

O pensamento arrancou-me do pânico. De repente, compreendi que não deveria ficar me exaurindo tentando espernear para subir à superfície. Aquele poço não podia ter mais do que dois metros e meio a três metros de profundidade; o que eu tinha que fazer era relaxar, flutuar até o fundo, firmar os pés e ejetar-me para cima. Com sorte, isso me permitiria tirar a cabeça da água e respirar e, ainda que voltasse a afundar, podia continuar a saltar do fundo até conseguir me aproximar o suficiente da borda para me agarrar a uma pedra.

A descida foi agonizantemente lenta. Como já não lutava para subir, minhas saias encapelaram-se à minha volta, flutuando diante do meu rosto. Continuei batendo nelas para baixo, precisava manter o rosto livre. Meus pulmões pareciam que iam estourar e havia pontos escuros por trás dos meus olhos quando meus pés tocaram o chão liso do poço. Deixei meus joelhos inclinarem-se um pouco, pressionando as saias junto ao corpo, depois dei um impulso para cima com todas as minhas forças.

Funcionou, ainda que por pouco. Meu rosto irrompeu na superfície quando atingi o ápice do meu salto e tive apenas o tempo suficiente para a mais breve tragada de ar antes de a água fechar-se sobre mim outra vez. Pressionei os braços ao longo do corpo para minimizar a resistência da água e descer mais rapidamente. Mais uma vez, Beauchamp, pensei. Flexione os joelhos, prepare-se, salte!

Fui lançada para cima, os braços estendidos acima da cabeça. Vira um lampejo de vermelho quando irrompi da água na última vez; devia haver uma sorveira-brava projetando-se sobre a água. Talvez eu conseguisse agarrar um galho.

Quando meu rosto saiu fora da água, algo agarrou minha mão estendida. Algo duro, quente e reconfortantemente sólido. Uma outra mão.

Tossindo e cuspindo, tateei cegamente com a mão livre, contente demais com o resgate para lamentar a interrupção de minha tentativa de fuga. Contente ao menos até que, ao afastar os cabelos para trás, ergui os olhos para o rosto de Lancashire, carnudo e ansioso, do cabo Hawkins.




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