A viajante do tempo


- ASSALTANTES ATRÁS DAS ROCHAS



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18 - ASSALTANTES ATRÁS DAS ROCHAS
O que o capitão Randall disse? - perguntei. Com Dougal de um lado e Jamie do outro, mal havia espaço para os três cavalos seguirem lado a lado pela estrada estreita. De vez em quando, um dos meus acompanhantes, ou os dois, tinha que se deixar ficar para trás ou adiantar-se, para não ficar emaranhado no mato que ameaçava reivindicar de volta o tosco caminho.

Dougal olhou para mim, depois de novo para a estrada, a fim de guiar seu cavalo em torno de uma enorme pedra. Um riso maldoso espalhou-se lentamente pelas suas feições.

- Não ficou muito satisfeito - disse, circunspecto. - Embora eu não tenha certeza se devo lhe contar o que ele realmente disse. Há limites até para a sua tolerância a palavrões, sra. Fraser.

Ignorei o uso sarcástico do meu novo título, bem como o insulto subjacente, embora tenha visto Jamie retesar-se na sela.

- Suponho, hã, que ele não pretenda tomar nenhuma medida a respeito? - perguntei. Apesar das garantias de Jamie, eu tinha visões de dragões de casacos vermelhos saindo tempestuosamente do mato, massacrando os escoceses e arrastando-me para o covil de Randall para interrogatório. Tinha a inquietante sensação de que as idéias de interrogatório de Randall deveriam ser criativas, para dizer o mínimo.

- Creio que não - Dougal respondeu despreocupadamente. — Tem mais com que se preocupar do que com uma Sassenach perdida, por mais bonita que seja. — Ergueu uma das sobrancelhas e fez uma pequena mesura em minha direção, como se o elogio fosse um pedido de desculpas. - Ele também tem mais juízo do que irritar Colum seqüestrando sua sobrinha - disse, de modo mais pragmático.

Sobrinha. Senti um ligeiro calafrio percorrer minha espinha, apesar do tempo quente. Sobrinha do chefe dos MacKenzie. Sem mencionar o comandante de guerra do clã MacKenzie, cavalgando tão despreocupadamente ao meu lado. E pelo outro ramo da família, eu provavelmente estava agora ligada a lorde Lovat, chefe do clã Fraser, com o abade de uma poderosa abadia francesa e quem saberia com quantos outros Fraser. Não, provavelmente John Randall acharia que não valia a pena perseguir-me. E esse, afinal, fora o motivo deste ridículo arranjo.

Olhei de soslaio para Jamie, agora cavalgando à frente. Suas costas eram eretas como um amieiro novo e seus cabelos brilhavam sob o sol como um capacete de metal polido.

Dougal seguiu meu olhar.

- Poderia ter sido pior, não? - disse, erguendo a sobrancelha com um ar irônico.

Duas noites depois, estávamos acampados numa faixa de charneca, perto de um daqueles estranhos afloramentos de pedra revelados pelas geleiras. Fora um longo dia de viagem, com apenas uma refeição apressada feita sobre a sela, e todos estavam satisfeitos por poderem parar para um jantar adequado. Eu já tentara anteriormente ajudar com a preparação das refeições, mas minha ajuda foi mais ou menos educadamente rejeitada por um taciturno membro do clã que aparentemente detinha essa função.

Um dos homens matara um veado de manhã e uma porção de carne recém-preparada, cozida com nabos, cebolas e o que mais o cozinheiro havia conseguido encontrar, compôs um delicioso jantar. Alimentados e satisfeitos, todos nós nos espalhamos em volta da fogueira, ouvindo histórias e canções. Para minha surpresa, o pequeno Murtagh, que raramente abria a boca para falar, tinha uma bela e limpa voz de tenor. Embora fosse difícil convencê-lo a cantar, os resultados eram recompensadores.

Aconcheguei-me mais perto de Jamie, tentando encontrar um lugar confortável para sentar no duro granito. Havíamos acampado perto do afloramento de pedra, onde uma prateleira larga de granito avermelhado nos fornecia um abrigo natural e a profusão majestosa de rochas atrás de nós formava um bom local para esconder os cavalos. Quando perguntei por que não dormíamos mais confortavelmente na grama flexível da charneca, Ned Gowan informou-me que estávamos próximos à fronteira sul das terras dos MacKenzie. E, assim, perto dos territórios dos Grant e dos Chisholm.

- Os batedores de Dougal afirmaram que não há sinal de ninguém nas vizinhanças - dissera, de pé sobre uma pedra grande para ele mesmo espreitar o horizonte em direção ao pôr-do-sol -, mas nunca se sabe. Melhor prevenir do que remediar.

Quando Murtagh deu por encerrada sua apresentação, Rupert começou a contar histórias. Embora não tivesse a elegância de Gwyllyn com as Palavras, possuía um repertório inesgotável de histórias, sobre fadas, fantasmas, os tannasg ou maus espíritos e outros habitantes das Highlands, como Os Monstros dos lagos. Esses seres, pelo que entendi, habitavam quase todas as reservas de água, sendo especialmente comuns em vaus e travessias, embora muitos vivessem nas profundezas dos lagos.

- Há um lugar no extremo leste do lago Garve... — disse, passando os olhos ao redor do grupo para se certificar de que todos estivessem prestando atenção - que nunca congela. Lá a água é sempre escura, mesmo quando o resto do lago está duro como uma pedra, porque ali é a chaminé do monstro do lago.

O monstro do lago Garve, como tantos iguais a ele, havia roubado uma jovem que fora ao lago pegar água, levando-a para viver no fundo do lago e ser sua mulher. Deus livre qualquer moça, e mesmo qualquer homem, de encontrar um belo cavalo à beira d'água e pensar em montá-lo, pois uma vez montado é impossível desmontar e o monstro entrará na água, se transformará em um peixe e nadará para seu esconderijo com o impotente cavaleiro ainda preso em seu dorso.

- Ora, um monstro sob as ondas possui apenas dentes de peixe - disse Rupert, meneando a mão como um peixe ondulante - e se alimenta de caramujos, plantas aquáticas e coisas úmidas e frias. Seu sangue é frio como a água e ele não precisa de fogo, mas uma mulher humana é um pouco mais quente do que isso. - Nesse ponto, piscou pra mim com uma malícia indecorosa, para deleite dos ouvintes.

- Assim, a mulher do monstro do lago sentia-se triste, com frio e com fome em sua nova casa sob as ondas, já que não gostava de caramujos e plantas aquáticas. Assim, sendo o monstro do lago um tipo bondoso, vai até a margem do lago, perto da casa de um homem conhecido como construtor. E quando o homem se aproxima da água e vê o belo cavalo dourado com seus freios de prata, brilhando ao sol, não consegue resistir a apoderar-se das rédeas e montar.

- Como era de se esperar, o monstro do lago carrega-o direto para as profundezas da água e para sua própria casa fria, própria para peixes. Ali, conta ao construtor que para se libertar terá que construir uma boa lareira, com chaminé, para que a mulher do monstro do lago possa ter um fogo para aquecer as mãos e fritar seu peixe.

Recostei a cabeça no ombro de Jamie, sentindo-me agradavelmente sonolenta e ansiosa para ir para a cama, ainda que essa fosse apenas um cobertor estendido sobre o granito. De repente, senti seu corpo retesar-se. Colocou a mão em meu pescoço, avisando-me para permanecer imóvel. Olhei em torno do acampamento e não vi nada estranho, mas percebi o ar de tensão passando de homem a homem numa comunicação sem fio.

Olhando na direção de Rupert, notei um movimento de cabeça quase imperceptível quando seus olhos encontraram-se com os de Dougal, embora continuasse a história sem se perturbar.

- Assim, o construtor, não tendo outra escolha, fez o que mandaram que fizesse. O monstro do lago cumpriu sua palavra e levou o homem de volta à margem do lago perto de sua casa. E a mulher do monstro do lago ficou feliz, aquecida e satisfeita com o peixe que frita para o jantar. E a água nunca se congela na extremidade leste do lago Garve porque o calor da chaminé do monstro do lago derrete o gelo.

Rupert estava sentado numa pedra, o lado direito voltado para mim. Enquanto falava, inclinou-se casualmente como se fosse coçar a perna. Sem o menor tropeço em seus movimentos, pegou a faca que estava no chão perto de seu pé e transferiu-a facilmente para o colo, onde ficou escondida nas dobras do seu kilt.

Apertei-me mais contra Jamie e puxei sua cabeça para baixo como um gesto amoroso.

— O que foi? — sussurrei em seu ouvido.

Ele prendeu o lóbulo de minha orelha entre os dentes e respondeu também num sussurro:

- Os cavalos estão irrequietos. Há alguém por perto.

Um dos homens levantou-se e caminhou para mais perto da rocha para urinar. Ao retornar, sentou-se em outro lugar, ao lado de um dos carroceiros. Outro homem se levantou e foi inspecionar a panela de comida, servindo-se de um pedaço de carne de veado. Por todo o acampamento, via-se uma sutil movimentação, enquanto Rupert continuava falando.

Observando atentamente, com o braço de Jamie envolvendo-me com força, finalmente compreendi que os homens estavam se aproximando de onde haviam deixado suas armas. Todos eles dormiam com suas adagas, mas em geral deixavam espadas, pistolas e os escudos redondos de couro em pilhas pequenas e bem arrumadas, perto da borda do acampamento. As próprias pistolas de Jamie estavam no chão, a poucos passos de distância.

Eu podia ver a luz da fogueira dançando na lâmina decorada em estilo damasceno. Embora as pistolas não fossem mais importantes do que as adagas comuns de cabo de chifre, usadas pela maioria dos homens, tanto a espada larga quanto a espada de dois gumes eram algo especial. Ele as mostrara orgulhosamente para mim em uma de nossas paradas, girando as lâminas reluzentes amorosamente nas mãos.

A espada de dois gumes estava guardada dentro do rolo de seu cobertor; eu podia ver o enorme punho em forma de T, o cabo áspero para a batalha, cuidadosamente lixado com areia. Eu a levantara e quase a deixara cair. Pesava cerca de sete quilos, Jamie me informara.

Se a espada de dois gumes era sombria e de aparência letal, a espada de lâmina larga era bela. Dois terços do peso da arma maior, era brilhante e Mortal, com arabescos islâmicos serpenteando pela lâmina de aço azulado até o guarda-mão espiralado do cabo, esmaltado em tons de vermelho e azul. Eu vira Jamie usá-la num exercício por diversão, primeiro com a mão direita com um dos soldados e depois com a mão esquerda, com Dougal. Era esplêndido vê-lo nessas condições, ágil e seguro, com uma graciosidade ainda mais impressionante se considerarmos seu tamanho. Mas minha boca ficou seca diante da idéia de ver essa habilidade usada a sério.

Inclinou-se para mim, plantando um beijo terno logo abaixo da linha do meu maxilar e aproveitando a oportunidade para virar-me ligeiramente, de modo que eu ficasse de frente para um dos amontoados de rochas.

— Daqui a pouco, eu acho... — murmurou, beijando-me diligentemente. - Vê a pequena abertura na rocha? — Eu via; um espaço com menos de um metro de altura, formado por duas lajes grandes tombadas uma ao lado da outra.

Segurou meu rosto e aproximou o seu, acariciando-me amorosamente.

— Quando eu disser para ir, entre e fique lá. Tem o punhal?

Ele havia insistido para que eu carregasse a adaga que atirara para mim naquela noite na hospedaria, apesar da minha própria insistência de que eu não possuía a habilidade nem a inclinação para usá-la. E quando era preciso insistir, Dougal tinha razão. Jamie era teimoso.

Conseqüentemente, a adaga estava em um dos bolsos fundos do meu vestido. Depois de um dia com a presença desconfortável de seu peso contra a minha coxa, quase me esquecera inteiramente dela. Deslizou a mão de forma brincalhona pela minha perna, certificando-se da presença da adaga.

A seguir, levantou a cabeça, como um felino farejando na brisa. Erguendo os olhos, pude vê-lo relancear um olhar para Murtagh e, em seguida, para mim. O homenzinho não externou nenhum sinal, mas levantou-se e espreguiçou-se com força. Quando se sentou outra vez, estava vários passos mais perto de mim.

Um cavalo relinchou nervosamente atrás de nós. Como se fosse um sinal, lançaram-se gritando por cima da rocha. Não ingleses, como eu temera, nem bandidos. Habitantes das Highlands, gritando como almas penadas. Do clã dos Grant, suponho. Ou dos Campbell.

Arrastando-me praticamente de joelhos, parti em direção às pedras. Bati a cabeça e ralei os joelhos, mas consegui me esgueirar para dentro da fenda. O coração disparado, tateei em busca da adaga em meu bolso, quase me cortando no processo. Não sabia o que fazer com o punhal longo e perigoso, mas me senti um pouco melhor por tê-lo comigo. Havia uma incrustação de pedra-da-lua no cabo e era reconfortante sentir o pequeno volume contra a palma da minha mão; ao menos, sabia que, mesmo no escuro, segurava-a corretamente.

A luta foi tão confusa que no começo eu não fazia nenhuma idéia do que estava acontecendo. A pequena clareira estava repleta de corpos gritando, empurrando-se, rolando no chão e correndo de um lado para o outro. Felizmente, meu santuário ficava afastado da zona de combate principal, de modo que não corria nenhum perigo no momento. Olhando ao meu redor, vi uma figura pequena, agachada, perto do meu esconderijo, pressionado contra as sombras da rocha. Segurei a adaga com mais força, mas percebi quase imediatamente que era Murtagh.

Então, essa fora a finalidade do olhar de Jamie. Murtagh fora instruído a me guardar. Não conseguia ver Jamie em lugar algum. A maior parte da luta estava ocorrendo nas rochas e nas sombras perto das carroças.

Claro, esse devia ser o objetivo do ataque; as carroças e os cavalos. Os atacantes eram um bando organizado, bem armado e nutrido, pelo pouco que pude ver à luz minguante da fogueira. Se eram os Grant, talvez estivessem procurando despojos ou vingança pelo gado que Rupert e amigos haviam surrupiado alguns dias atrás. Confrontado com os resultados do ataque improvisado, Dougal ficara ligeiramente aborrecido - não com o assalto propriamente, mas preocupado apenas com o fato de que o gado iria nos atrasar. No entanto, ele conseguira se desvencilhar dele quase imediatamente, em um pequeno mercado numa das vilas.

Logo ficou evidente que os atacantes não estavam muito preocupados em causar danos ao nosso grupo; apenas em pegar os cavalos e as carroças. Um ou dois conseguiram. Agachei-me rapidamente quando um cavalo sem arreios saltou a fogueira e desapareceu na escuridão da charneca, um homem gritando estridentemente agarrado à sua crina.

Mais dois ou três fugiram a pé, carregando sacas dos grãos de Colum, perseguidos por alguns MacKenzie furiosos gritando imprecações em gaélico. Pelos sons, o ataque estava chegando ao fim. Em seguida, um grande grupo de homens surgiu de surpresa na luz da fogueira e a ação intensificou-se outra vez.

Parecia ser uma luta séria, uma impressão nascida dos lampejos das lâminas e do fato de que os participantes grunhiam bastante, mas não berravam. Finalmente, consegui entender. Jamie e Dougal estavam no centro do combate, lutando de costas um para o outro. Cada qual brandia sua espada larga na mão esquerda, adaga na direita e ambos estavam fazendo bom uso delas, até onde eu podia ver.

Estavam cercados por quatro homens - ou cinco; perdi a conta nas sombras — armados com espadas curtas, embora um dos homens tivesse uma espada larga pendurada na cintura e pelo menos mais dois carregassem Pistolas que não haviam sacado.

Devia ser Dougal ou Jamie, ou ambos, que queriam. Vivos, de preferência. Para resgate, suponho. Por isso, o uso deliberado de espadas curtas, que poderiam apenas ferir, ao invés da espada larga ou das pistolas mais letais.

Dougal e Jamie não sofriam de tais escrúpulos e dedicavam-se à luta com terrível e considerável eficiência. De costas um para o outro, formavam um círculo completo de ameaça, cada homem cobrindo o lado mais fraco do outro. Quando Dougal levou a mão com a adaga para cima com força considerável, pensei que "fraco" podia não ser o termo exato.

Toda a confusão de imprecações, grunhidos e brados avançava en minha direção. Recuei o máximo que pude, mas a fenda não tinha mais do que sessenta centímetros de profundidade. Percebi um ligeiro movimento pelo canto do olho. Murtagh decidira tomar parte mais ativa nos acontecimentos.

Eu mal conseguia afastar meu olhar horrorizado de Jamie, mas vi o homenzinho sacar a pistola, até aqui não disparada, bem devagar. Verificou o mecanismo de disparo cuidadosamente, esfregou a arma na manga, firmou-a no antebraço e esperou.

E esperou. Eu tremia de medo por Jamie, que abandonara as maneiras elegantes e desfechava golpes ferozmente de um lado para o outro, fazendo recuar os dois homens que agora o enfrentavam com absoluta fúria. Por que diabos ele não atirava?, pensei furiosamente. Então, compreendi porque não. Tanto Jamie quanto Dougal estavam na linha de fogo. Lembrei-me que pistolas de sílex às vezes deixavam a desejar em termos de precisão.

Essa suposição foi confirmada no minuto seguinte, quando uma estocada inesperada de um dos adversários de Dougal pegou-o no pulso. A lâmina rasgou todo o comprimento de seu antebraço e ele caiu sobre um dos joelhos. Sentindo seu tio cair, Jamie retraiu sua própria lâmina e deu dois rápidos passos para trás. Isso colocou suas costas perto da superfície de uma rocha, Dougal agachado a seu lado, ao alcance da proteção de sua única lâmina.,Também trouxe os atacantes para perto do meu esconderijo e da pistola de Murtagh.

Assim de perto, o estampido da pistola era espantosamente alto. Pegou os atacantes de surpresa, particularmente o que foi atingido. O homem ficou imóvel por um instante, sacudiu a cabeça, atordoado, depois foi se sentando bem devagar, caiu frouxamente para trás e rolou por um ligeiro declive até as brasas quase extintas da fogueira.

Aproveitando-se da surpresa, Jamie derrubou a espada da mão de um dos atacantes. Dougal já estava de pé outra vez e Jamie deslocava-se para o lado, dando-lhe espaço para lutar. Um dos adversários abandonou o combate e correu pelo morro abaixo para arrastar seu companheiro ferido para fora das cinzas da fogueira. Isso ainda deixava três assaltantes e Dougal estava ferido. Eu podia ver manchas escuras espalhando-se na superfície da rocha conforme ele brandia a espada.

Estavam muito perto de mim agora e eu podia ver a expressão do rosto de Jamie, calma e concentrada, absorta na exultação da batalha. De repente, Dougal gritou alguma coisa para ele. Jamie tirou os olhos do rosto do adversário por uma fração de segundo e olhou para baixo. Erguendo os olhos exatamente a tempo de evitar uma estocada, desviou-se para o lado e atirou sua espada.

Seu adversário olhou bastante surpreso para a espada cravada em sua perna. Tocou a lâmina estupidificado, depois a agarrou e puxou. Com a facilidade com que saiu, presumi que o ferimento não tivesse sido profundo. O homem ainda parecia ligeiramente atordoado e ergueu o olhar como se perguntasse o propósito de um comportamento tão inusitado.

Emitiu um berro, deixou cair a espada e correu, mancando pesadamente. Surpresos com o barulho, os outros dois atacantes olharam para os lados, viraram-se e também fugiram, perseguidos por Jamie, que se movia como uma avalanche. Ele conseguira tirar a enorme espada de dois gumes do cobertor enrolado e a agitava com as duas mãos em um arco letal. Apoiando-o, surgiu Murtagh, gritando algo altamente injurioso em gaélico e brandindo tanto a espada quanto a pistola recarregada.

As coisas acalmaram-se rapidamente depois disso e uns quinze minutos mais tarde os MacKenzie reuniam-se e avaliavam os danos.

Foram poucos: dois cavalos foram levados e três sacas de grãos, mas os carroceiros, que dormiam com suas cargas, evitaram maiores depredações nas carroças, enquanto os soldados haviam conseguido repelir os pretensos ladrões de cavalo. A maior perda parecia ter sido um dos homens.

Pensei, assim que deram por falta dele, que deveria ter sido ferido ou morto no confronto, mas uma busca minuciosa na área não conseguiu encontrá-lo.

- Seqüestrado - disse Dougal, contrariado. — Droga, ele vai me custar a renda de um mês em resgate.

- Poderia ter sido pior, Dougal - Jamie disse, enxugando o rosto na manga da camisa. - Pense no que Colum diria se tivesse sido você!

- Se tivessem levado você, rapaz, eu o deixaria por lá e você poderia trocar seu nome para Grant - Dougal retorquiu, mas o estado de espírito do grupo ficou substancialmente aliviado.

Peguei a caixa de suprimentos médicos que havia trazido e alinhei os feridos em ordem de gravidade dos ferimentos. Nada realmente grave, constatei com satisfação. O ferimento no braço de Dougal era provavelmente o pior.

Ned Gowan tinha os olhos acesos e efervescia de vitalidade, aparentemente tão intoxicado com a adrenalina da luta que mal notava o dente arrancado pelo cabo de um punhal mal direcionado. No entanto, tivera a presença de espírito suficiente para guardá-lo cuidadosamente embaixo da língua.

-- Por via das dúvidas, sabe - explicou, cuspindo o dente na palma da mão. A raiz não fora quebrada e a cavidade ainda sangrava um pouco, de modo que corri o risco e pressionei o dente com firmeza no lugar. O advogado ficou bastante pálido, mas não emitiu nenhum som. Entretanto, deu graças a Deus quando lavou a boca com uísque para fins de desinfecção e rapidamente o engoliu.

Eu colocara uma atadura no ferimento de Dougal imediatamente, a fim de estancar o sangue, e constatei satisfeita que o sangramento havia praticamente parado quando a desenrolei. Era um corte limpo, mas profundo. Uma camada fina de gordura amarela despontava nas bordas do corte aberto, que penetrara mais de dois centímetros no músculo. Nenhum vaso sangüíneo importante fora cortado, graças a Deus, mas teria que ser costurado.

Verificou-se que a única agulha disponível era um objeto robusto como uma sovela fina, usada pelos carroceiros para remendar arreios. Examinei-o em dúvida, mas Dougal meramente estendeu o braço e virou o rosto.

- Não me incomodo com sangue de um modo geral - explicou -, mas tenho uma certa objeção a ver o meu próprio sangue. — Permaneceu sentado em uma pedra enquanto eu trabalhava, os dentes cerrados com tanta força a ponto de fazer os músculos de seus maxilares tremerem. A noite estava ficando fria, mas gotículas de suor porejavam de sua testa. Em determinado momento, pediu-me educadamente para parar por um instante, afastou-se e pôde-se notar que vomitava atrás de uma pedra, em seguida voltou e apoiou o braço no joelho outra vez.

Por sorte, o proprietário de uma taberna resolvera saldar o aluguel deste trimestre na forma de um pequeno barril de uísque, o que foi muito oportuno. Usei-o para desinfetar alguns ferimentos abertos e depois deixava meus pacientes se medicarem como achassem melhor. Eu mesma aceitei uma caneca, ao término dos meus serviços. Tomei uma caneca inteira com prazer e deixei-me afundar prazerosamente no cobertor. A lua descia no céu e eu tremia, em parte pela reação e em parte pelo frio. Foi uma sensação maravilhosa sentir Jamie deitar-se ao meu lado e me aconchegar com firmeza em seus braços, junto ao seu corpo grande e quente.

- Acha que voltarão? - perguntei, mas ele sacudiu a cabeça.

- Não, foi Malcom Grant e seus dois filhos. Foi o mais velho que eu feri na perna. Devem estar em casa em suas próprias camas a essa altura -retorquiu. Acariciou meus cabelos e disse, em voz mais suave: — Você fez um belo trabalho esta noite, Sassenach. Tive orgulho de você.

Rolei sobre meu corpo e passei os braços em volta de seu pescoço.

- Não tão orgulhosa quanto eu. Você foi maravilhoso, Jamie. Nunca vi nada parecido.

Resfolegou, tentando diminuir seu próprio mérito, mas achei que ficou satisfeito, mesmo assim.

- Foi apenas um assalto, Sassenach. Faço isso desde os quatorze anos. E só por diversão, sabe; é diferente quando você está lutando com alguém que realmente quer matá-lo.

- Diversão - eu disse, com voz fraca. - Sem dúvida.

Seus braços envolveram-me com mais força e uma das mãos que me acariciavam desceu, começando a puxar minha saia para cima. Obviamente, a emoção da luta estava se transformando em um tipo diferente de excitação.

- Jamie! Aqui não! — exclamei, tentando esgueirar-me do seu abraço e puxar minha saia para baixo outra vez.

- Está cansada, Sassenach? - perguntou, preocupado. - Não se preocupe, não vai demorar muito. — Agora, trabalhava com as duas mãos, puxando o tecido pesado na parte da frente.

- Não! — respondi, consciente demais da presença dos vinte homens, deitados a alguns metros de distância. - Não estou cansada, é que... Prendi a respiração quando sua mão, tateando às cegas, encontrou seu caminho entre minhas pernas.

- Meu Deus - ele disse baixinho. — Está escorregadio como limo.

- Jamie! Há vinte homens dormindo bem ao nosso lado! - sussurrei como se gritasse.

- Não vão dormir muito se você continuar falando. - Rolou o corpo para cima de mim, prendendo-me na pedra. Encaixou o joelho entre minhas coxas e começou a movimentar-se suavemente para frente e para trás. Involuntariamente, minhas pernas começaram a se afrouxar. Vinte e sete anos de bom comportamento de nada serviam diante de centenas de milhares de anos de instinto. Embora minha mente pudesse objetar a ser possuída numa rocha nua, ao lado de vários soldados dormindo, meu corpo claramente se considerava espólio de guerra e estava ansioso para completar as formalidades de redenção. Ele me beijou, longa e profundamente, a língua doce e irrequieta em minha boca.

- Jamie — disse, arfando. Ele afastou seu kilt do caminho e pressionou minha mão em seu corpo.

- Minha Nossa Senhora — eu disse, impressionada, a despeito de mim mesma. Minha noção de decência caiu mais um ponto.

- A luta dá um tesão enorme, depois. Você me deseja, não? — disse, afastando-se um pouco para olhar para mim. Não adiantava negar, com todas as evidências à mão. Ele estava duro como uma vara de metal contra a minha coxa nua.

-- Hã... sim... mas...

Agarrou-me com firmeza pelos ombros, com as duas mãos.

-- Fique quieta, Sassenach — disse com autoridade. — Não vai levar muito tempo.

Não levou. Comecei a atingir o clímax com a primeira investida forte, em espasmos longos, dilacerantes. Enfiei os dedos com força nas suas costas e permaneci assim, mordendo o tecido de sua camisa para abafar qualquer som. Em menos de doze estocadas, senti seus testículos contraírem-se com força contra seu corpo e o fluído quente de sua ejaculação. Deixou-se cair lentamente para o lado e ficou deitado, tremendo.

O sangue ainda latejava em meus ouvidos, fazendo eco à pulsação decrescente entre minhas pernas. A mão de Jamie repousava em meu seio, lânguida e pesada. Virando a cabeça, pude ver o vulto indistinto da sentinela, recostado contra uma rocha do outro lado da fogueira. Educadamente, virara as costas para nós. Fiquei meio chocada de ver que eu não estava nem sequer constrangida. Perguntei-me, um pouco indistintamente, se estaria pela manhã e, depois, não pensei em mais nada.

De manhã, todos se comportaram normalmente, ainda que se movendo com uma certa rigidez, em conseqüência do combate e de uma noite dormindo nas pedras. Todos estavam de excelente humor, até aqueles levemente feridos.

O humor geral melhorou ainda mais quando Dougal anunciou que viajaríamos somente até o bosque que podíamos ver da borda de nossa plataforma rochosa. Lá, os cavalos poderiam beber água e pastar e nós mesmos poderíamos descansar um pouco. Imaginei se essa mudança nos planos afetaria o encontro de Jamie com Horrocks, mas ele não pareceu perturbar-se com a declaração.

O dia estava nublado, mas sem garoa, e o ar estava quente. Tão logo o novo acampamento ficou pronto, os cavalos foram tratados e os feridos reexaminados, todos ficaram livres para fazer o que quisessem, dormir na grama, caçar ou pescar, ou simplesmente esticar as pernas depois de vários dias na sela.

Eu estava sentada embaixo de uma árvore conversando com Jamie e Ned Gowan, quando um dos homens aproximou-se e atirou um objeto no colo de Jamie. Era a adaga com o cabo de pedra-da-lua.

- É sua, rapaz? - perguntou. - Encontrei-a nas pedras hoje de manhã.

- Devo tê-la deixado cair, na confusão — eu disse. - Tudo bem; não sei mesmo o que fazer com isto. Provavelmente, teria ferido a mim mesma se tivesse tentado usá-la.

Ned olhou para Jamie com ar de reprovação por cima de seus pequenos óculos.

- Você lhe deu um punhal e não a ensinou a usá-lo?

- Não houve tempo, nas circunstâncias — Jamie defendeu-se. — Mas Ned tem razão, Sassenach. Devia aprender a lidar com armas. Nunca se sabe o que pode acontecer na estrada, como você viu à noite passada.

Assim, fui conduzida ao centro de uma clareira e as aulas começaram. Vendo o movimento, vários MacKenzie aproximaram-se para investigar e continuaram ali para dar palpites. Em pouco tempo, eu tinha mais de doze instrutores, todos discutindo os principais pontos da técnica. Após uma longa e amistosa discussão, chegaram à conclusão de que Rupert provavelmente era o melhor de todos com uma adaga e ele assumiu a aula.

Ele procurou um local razoavelmente plano, livre de pedras e pinhas, onde pudesse demonstrar a arte de lutar com adagas.

- Olhe, dona - disse. Manteve a adaga equilibrada no dedo médio, quase três centímetros abaixo do cabo. - O ponto de equilíbrio, é onde você deve mantê-la, de modo que se encaixe confortavelmente em sua mão. - Experimentei com minha adaga. - Quando a ajustei adequadamente, ele me mostrou a diferença em uma punhalada de cima para baixo, com a faca abaixo da mão, e uma estocada de baixo para cima, com a faca acima da mão.

- Geralmente, é preferível o golpe de baixo para cima; de cima para baixo é melhor apenas quando você está vindo de cima, caindo sobre alguém com bastante força. - Analisou-me especulativamente.

- Não, você é uma mulher alta, mas ainda que pudesse atingir o pescoço, não teria força para perfurá-lo, a menos que o alvo esteja sentado. É melhor vir de baixo para cima. - Ergueu a camisa, revelando uma barriga volumosa e peluda, já brilhando de suor.

- Agora, veja — disse, apontando para o centro, logo abaixo do esterno -, este é o ponto onde você deve mirar, se estiver frente a frente. Mire diretamente para cima e para dentro, com todas as forças que conseguir reunir. Irá direto ao coração e mata em um ou dois minutos. O único problema é evitar o osso do meio do peito; ele vai até mais embaixo do que se pensa e se o punhal ficar preso nessa ponta mais macia, quase não vai ferir a vítima, mas você vai perder a arma e ele a pegará. Murtagh! Você tem as costas magras; venha cá e mostraremos à moça como atacar por trás. -Fazendo um Murtagh relutante girar nos calcanhares, deu um puxão para cima na camisa encardida para mostrar uma espinha dorsal cheia de nós e costelas proeminentes. Enfiou um dedo rombudo sob a última costela da direita, fazendo Murtagh dar um guincho de surpresa.

- Este é o lugar nas costas, de qualquer um dos lados. Veja, com as costelas e tudo o mais, é difícil atingir alguma coisa de importância vital quando você apunhala nas costas. No entanto, se puder enfiar a faca entre as costelas, isso é diferente, porém é mais difícil do que imagina. Mas aqui, embaixo da última costela, você apunhala para cima e atinge o rim. Vá reto para cima e ele cairá morto como uma pedra.

Rupert, em seguida, me fez tentar apunhalar em diversas posições e posturas. Quando ficou cansado, todos os homens se revezaram para agir como vítimas, obviamente achando meus esforços hilariantes. Obedientemente, deitavam-se na grama e viravam-se de costas para que eu pudesse atacá-los "de surpresa", pulavam sobre mim pelas costas ou fingiam me estrangular para que eu pudesse apunhalá-los na barriga.

Os espectadores me animavam com gritos de encorajamento e Rupert instruiu-me com firmeza a não recuar no último instante.

- Vá com toda a força, dona - disse. — Não pode recuar se for para valer. E se algum desses molengas não conseguir sair da frente a tempo, vai ter o que merece.

No começo, eu estava tímida e extremamente desajeitada, mas Rupert era um bom professor, muito paciente e bom na demonstração de movimentos, inúmeras vezes. Revirou os olhos com pretensa libidinagem quando se posicionou atrás de mim e me envolveu pela cintura, mas foi muito sério e eficiente ao segurar meu pulso para me mostrar como rasgar um inimigo na altura dos olhos.

Dougal sentou-se sob uma árvore, cuidando de seu braço ferido e fazendo comentários sarcásticos durante o treinamento, conforme ele progredia. No entanto, foi ele quem sugeriu um boneco como alvo.

- Dê-lhe alguma coisa onde ela possa enfiar o punhal - disse, quando comecei a mostrar alguma facilidade nos golpes. - É um choque, a primeira vez.

- É verdade — Jamie concordou. - Descanse um pouco, Sassenach, enquanto eu arranjo alguma coisa.

Afastou-se em direção às carroças com dois soldados e pude vê-los reunidos, gesticulando e puxando uma ou outra coisa do chão da carroça. Totalmente exausta, deixei-me cair sob a árvore, ao lado de Dougal.

Ele balançou a cabeça, um leve sorriso no rosto. Como a maioria dos homens, não se dera ao trabalho de fazer a barba durante a viagem e uma barba cerrada, castanho-escura, emoldurava sua boca, acentuando o carnu-do lábio inferior.

- Como vão as coisas, então? — perguntou, não se referindo à minha habilidade com armas pequenas.

- Bastante bem - respondi cautelosamente, também não me referindo a adagas. Os olhos de Dougal relancearam em direção a Jamie, ocupado com alguma coisa perto das carroças.

- O casamento parece ter feito bem ao rapaz - observou.

- É saudável para ele, nas circunstâncias — concordei, um pouco friamente. Seus lábios contorceram-se diante da minha entonação de voz.

- E para você também, dona. Um bom arranjo para todos, ao que parece.

- Particularmente para você e seu irmão. E por falar nele, o que acha que Colum vai dizer quando souber?

O sorriso ampliou-se.

- Colum? Ah, bem. Creio que ele vai ter o maior prazer em receber uma sobrinha como você na família.

O boneco ficou pronto e eu voltei ao treinamento. O boneco era uma grande saca de lã, do tamanho do torso de um homem, com um pedaço de couro de búfalo curtido enrolado à sua volta e amarrado com corda. Serviria para eu praticar os golpes de adaga, primeiro amarrado a uma árvore na altura de um homem, depois atirado para cima de mim ou rolado no chão à minha frente.

O que Jamie não mencionara é que haviam inserido várias peças planas de madeira entre a saca de lã e o couro; para simular ossos, como explicou mais tarde.

As primeiras punhaladas foram tranqüilas, embora tivessem sido necessárias várias tentativas até conseguir perfurar o couro. Era mais duro do que parecia. Assim é a pele da barriga de um homem, informaram-me. Na tentativa seguinte, experimentei um golpe direto de cima para baixo e atingi uma das peças de madeira.

Por um momento, pensei que meu braço houvesse repentinamente caído no chão. O choque do impacto reverberou por todo o meu ombro e a adaga caiu dos meus dedos insensíveis. Tudo abaixo do cotovelo ficou dormente, mas um terrível formigamento avisou-me que não seria por muito tempo.

—Jesus Cristo — eu disse. Fiquei parada, segurando o cotovelo e ouvindo a risada geral. Finalmente, Jamie segurou-me pelo ombro e massageou meu braço até a sensibilidade retornar aos poucos, pressionando o tendão atrás do cotovelo e enfiando o polegar na depressão na base do meu pulso.

— Tudo bem — eu disse entre dentes, cuidadosamente flexionando minha formigante mão direita. - O que se faz quando se atinge um osso e se perde a faca? Há algum procedimento padrão para isso?

— Ah, sim — Rupert disse, rindo. — Saque a pistola com a mão esquerda e mate o filho-da-mãe com um tiro. - Isso provocou novas gargalhadas, que eu ignorei.

- Tudo bem - eu disse, mais ou menos calma. Estiquei a mão indicando a longa pistola que Jamie usava no quadril esquerdo. — E então? Vai me mostrar como carregar e disparar?

- Não, não vou. - Falou sério e com firmeza. Fiquei um pouco eriçada diante da resposta.

-- Por que não?

- Porque você é mulher, Sassenach.

Senti meu rosto ficar vermelho.

- Ah, é? - exclamei com ironia. - Acha que as mulheres não são capazes de entender como uma pistola funciona?

Olhou-me sem se alterar, a boca retorcendo-se um pouco enquanto considerava várias respostas.

-- Estou com vontade de deixar você experimentar - disse finalmente. Seria bem feito para você.

Rupert estalou a língua, aborrecido com nós dois.

- Não seja tolo, Jamie. Quanto a você, dona - disse, virando-se para mim -, não é que as mulheres sejam estúpidas, embora certamente algumas sejam; é que elas são pequenas.

- Hein? — Olhei para ele perplexa por um instante, sem compreender. Jamie soltou a respiração ruidosamente e tirou a pistola da presilha. Vista de perto, era enorme; uma arma prateada de quarenta e cinco centímetros da boca à coronha.

- Olhe — disse, segurando-a diante de mim. - Você a segura aqui, apoia a arma no braço e mira por aqui. E quando você puxa o gatilho, ela dá um coice como uma mula. Sou quase trinta centímetros mais alto do que você, peso uns quarenta quilos a mais do que você e sei o que estou fazendo. Ela causa em mim um machucado feio quando atiro; deve deixá-la estatelada no chão, de costas, se não pegá-la no rosto. - Girou a pistola e enfiou-a na presilha outra vez.

- Eu deixaria você ver por si mesma - disse, erguendo uma das sobrancelhas -, mas gosto mais de você com todos os seus dentes. Você tem um sorriso bonito, Sassenach, embora se irrite à toa.

O episódio serviu de lição e eu aceitei sem discutir a opinião dos homens de que mesmo a menor e mais leve das espadas era pesada demais para uma mulher usar com destreza. A pequena sgian dhu, a adaga que se carregava na meia, foi considerada aceitável e deram-me uma dessas, um objeto de ferro negro, pontiagudo e afiado, de aparência letal, com uns oito centímetros de comprimento e um cabo curto. Pratiquei inúmeras vezes retirá-la do seu esconderijo enquanto os homens observavam criticamente, até poder levantar a saia, agarrar a faca e já ficar na posição certa, tudo em um único e suave movimento, terminando com a faca abaixo da mão, pronta para degolar o adversário.

Finalmente, fui aprovada como uma lutadora novata e liberada para o jantar, entre congratulações generalizadas — com uma única exceção. Murtagh sacudiu a cabeça, em dúvida.

- Ainda acho que a única arma boa para mulheres é veneno.

- Talvez - retrucou Dougal -, mas tem suas deficiências num combate corpo-a-corpo.




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