A viajante do tempo


- ENCONTRO COM UM MENDIGO



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17 - ENCONTRO COM UM MENDIGO
Dormimos até bem tarde na manhã seguinte e o sol já estava alto quando deixamos a estalagem, desta vez rumando para o sul. A maioria dos cavalos já não estava no curral e nenhum dos homens de nosso grupo parecia estar por perto. Perguntei em voz alta onde teriam ido. Jamie riu.

— Não sei ao certo, mas posso imaginar. A patrulha foi naquela direção ontem - apontou para oeste -, portanto diria que Rupert e os demais foram naquela direção. — Apontou para leste.

— Gado — explicou, vendo que eu ainda não compreendia. — Os proprietários de terras e arrendatários pagam à patrulha para ficar de olho e recuperar seu gado se forem roubados numa dessas incursões na fronteira. Mas se a patrulha está indo para oeste, em direção a Lag Cruime, qualquer rebanho a leste está desamparado, ao menos um pouco. Adiante ficam as terras dos Grant e Rupert é um dos melhores ladrões de gado que já conheci. Os animais o seguem a qualquer lugar, sem sequer um mugido. E como não há mais diversão por aqui, provavelmente ficou impaciente.

O próprio Jamie parecia um pouco inquieto e andava a passos largos. Havia uma trilha de veado pelo meio das urzes e a caminhada era bastante fácil, de modo que eu conseguia acompanhá-lo sem dificuldade. Após algum tempo, saímos em uma faixa de charneca, onde podíamos caminhar lado a lado.

— E quanto a Horrocks? - perguntei repentinamente. Ouvindo-o mencionar a cidade de Lag Cruime, lembrei-me do desertor inglês e de suas possíveis informações. - Você deveria encontrá-lo em Lag Cruime, não é?

Assentiu.

— Sim. Mas não posso ir lá agora, tanto com Randall quanto com a patrulha indo naquela direção. Perigoso demais.

— Alguém não poderia ir por você? Ou não confia em ninguém o suficiente para isso?

Olhou para mim e sorriu.

— Bem, há você. Já que afinal de contas não me matou ontem à noite - acho que posso confiar em você. Mas receio que não possa ir a Lag Cruime sozinha. Não, se necessário, Murtagh irá por mim. Mas talvez eu consiga uma outra coisa... vamos ver.

- Confia em Murtagh? - perguntei, curiosa. Não nutria sentimentos muito amistosos em relação ao homenzinho desmazelado, já que ele era mais ou menos responsável pelas minhas presentes dificuldades, tendo me seqüestrado. No entanto, havia sem dúvida algum tipo de amizade entre ele e Jamie.

- Ah, sim. - Olhou para mim, surpreso. - Murtagh me conhece desde pequeno. É primo de segundo grau do meu pai, eu acho. Seu pai era

- É um Fraser, você quer dizer - interrompi apressadamente. - Pensei que ele fosse um dos MacKenzie. Ele estava com Dougal quando encontrei vocês.

Jamie balançou a cabeça.

- Sim. Quando resolvi voltar da França, mandei avisá-lo, pedindo-lhe para me encontrar na costa. - Sorriu ironicamente. - Eu não sabia se tinha sido Dougal quem mandara me matar antes. E não gostava da idéia de me encontrar com vários MacKenzie sozinho. Não queria acabar boiando na praia de Skye, se era isso que tinham em mente.

- Compreendo. Então, Dougal não é o único que acredita em testemunhas.

Concordou.

- Muito úteis, as testemunhas.

Do outro lado da charneca havia um trecho de rochas retorcidas, escavadas e talhadas pelo avanço e recuo de geleiras em outras eras. Água de chuva enchia os fossos mais profundos e cardos, tanásias e rainhas-dos-prados cresciam em volta desses pequenos lagos entre montanhas, as flores refletindo-se na água parada.

Estéreis e sem peixes, esses lagos pontilhavam a paisagem e formavam armadilhas para viajantes desavisados, que podiam facilmente tropeçar em um deles no escuro e ser forçado a passar uma noite molhada e desconfortável na charneca. Sentamo-nos ao lado de um desses pequenos lagos para fazer o nosso lanche matinal de pão e queijo.

O lago ao menos tinha pássaros; andorinhas mergulhavam na superfície da água para beber e tarambolas e maçaricos escarafunchavam a terra lamacenta das margens com seus bicos longos, à cata de insetos.

Atirei farelos de pão na lama para os pássaros. Um maçarico olhou desconfiado para um dos pedacinhos de pão, mas enquanto ainda estava tomando uma decisão, uma rápida andorinha passou zunindo sob seu bico e fugiu com a guloseima. O maçarico agitou as penas e voltou à sua laboriosa escavação.

Jamie chamou minha atenção para um maçarico, gritando e arrastando uma asa aparentemente quebrada perto de nós.

- Ela tem um ninho perto daqui - eu disse.

- Lá. — Ele teve que apontá-lo diversas vezes até que eu finalmente o identificasse; uma depressão rasa, completamente exposta, mas com os quatro ovos pintados tão semelhantes na aparência à margem salpicada de folhas que, quando pisquei os olhos, perdi o ninho de vista outra vez.

Pegando uma vara, Jamie cutucou o ninho devagar, deslocando um dos ovos do lugar. A maçarico-mãe, agitada, correu até quase diante dele. Ele sentou-se sobre os calcanhares, absolutamente imóvel, deixando o pássaro lançar-se de um lado para o outro, berrando. Viu-se o lampejo de um movimento e ele tinha o pássaro nas mãos, repentinamente silencioso.

Falou com o pássaro em gaélico, uma espécie de discurso sereno e sibilante, enquanto acariciava a plumagem macia e furta-cor com um dedo. O pássaro agachou-se em sua mão, completamente imóvel, até os reflexos paralisados em seus olhos negros e redondos.

Colocou o pássaro delicadamente no chão, mas o pássaro não se afastou até ele dizer mais algumas palavras e abanar a mão lentamente de um lado para o outro atrás dele. Deu um pequeno salto e precipitou-se para o mato. Observou-o partir e, inconscientemente, persignou-se.

- Por que fez isso? - perguntei, curiosa.

- O quê? - Ficou momentaneamente surpreso; acho que havia se esquecido de que eu estava ali.

- Você se benzeu quando o pássaro voou para longe; me perguntei por quê.

Encolheu os ombros, ligeiramente envergonhado.

- Ah, bem. É uma velha história, só isso. Porque os maçaricos gritam do jeito que fazem e correm lamentando-se perto de seus ninhos assim. -Apontou para o outro lado do pequeno lago, onde outro maçarico fazia exatamente o mesmo. Observou o pássaro por alguns instantes, distraído.

- Os maçaricos têm a alma das mães jovens que morreram de parto -disse. Olhou de soslaio para mim, timidamente. - Diz a lenda que gritam e correm em volta do ninho porque não conseguem acreditar que os ovos estão sendo chocados em segurança; estão sempre lamentando pelo filho perdido, ou procurando um filho que ficou para trás. - Agachou-se junto ao ninho e cutucou o ovo com a vara, virando aos poucos até que o lado pontudo ficasse voltado para ele, como os outros. Continuou agachado, mesmo depois de o ovo ter sido recolocado na posição inicial, balançando a vara entre as coxas, fitando as águas imóveis do pequeno lago.

- Acho que é apenas por hábito - disse. — Fiz isso pela primeira vez quando era pequeno e ouvi a história pela primeira vez. Não acreditava realmente que tivessem alma, é claro, mesmo naquela época, mas, sabe, apenas como um pouco de respeito... - Ergueu os olhos para mim e sorriu de repente. - Hoje faço isso tão constantemente, que nem notei. Há bem poucos maçaricos na Escócia. - Levantou-se e atirou fora a vara. -Vamos, venha. Há um lugar que quero lhe mostrar, perto do topo de uma colina lá adiante. - Segurou meu cotovelo para me ajudar a sair do declive e começamos a subir a encosta.

Eu ouvira o que ele havia dito ao maçarico que soltou. Embora soubesse apenas algumas palavras em gaélico, já escutara a antiga saudação o bastante para estar familiarizada com ela. "Vá com Deus, Mãe", ele dissera.

Uma jovem mãe, morta no parto. E uma criança deixada para trás. Toquei seu braço e ele olhou para mim.

- Quantos anos você tinha? - perguntei. Esboçou um sorriso.

- Oito - respondeu. — Desmamado, ao menos.

Não falou mais, apenas conduziu-me morro acima. Estávamos em contrafortes ondulantes, agora, cobertos de urzes. A frente, a paisagem do campo mudava bruscamente, com enormes aglomerados de granito erguendo-se da terra, cercados de moitas de sicômoro e larício. Atravessamos o topo da colina e deixamos para trás os maçaricos gritando junto aos pequenos lagos.

O sol estava ficando quente e depois de uma hora abrindo caminho pela folhagem densa - mesmo com Jamie indo à frente -, eu precisava de um descanso.

Encontramos um lugar sombreado ao pé de uma das formações rochosas. O local lembrava-me um pouco do local onde eu encontrara Murtagh pela primeira vez — e deixara a companhia do capitão Randall. Ainda assim, era agradável ali. Jamie disse-me que estávamos sozinhos, por causa do permanente cantarolar dos pássaros em toda a volta. Se alguém se aproximasse, a maioria dos pássaros pararia de cantar, embora os gaios e as gralhas se esgoelassem e berrassem alarmados.

- Sempre se esconda numa floresta, Sassenach - aconselhou-me. - Se você não se mover muito, os pássaros lhe dirão com tempo de sobra se alguém está se aproximando.

Voltando-se para mim, depois de apontar para uma gralha grasnando na árvore acima de nossas cabeças, seus olhos encontraram-se com os meus. E nos sentamos como se estivéssemos paralisados, ao alcance da mão um do outro, mas sem nos tocar, mal respirando. Após algum tempo, a gralha cansou-se de nós e foi embora. Foi Jamie quem desviou o olhar primeiro, com um estremecimento quase imperceptível, como se sentisse frio

Cogumelos de chapéus peludos despontavam suas cabeças brancas pelo musgo sob as samambaias. Jamie arrancou um de seu caule e passou o dedo sobre os raios do basídio enquanto reunia suas palavras seguintes. Quando falava cuidadosamente, como agora, perdia o leve sotaque escocês que em geral marcava seu discurso.

- Não quero... isto é... não pretendo insinuar... - Ergueu os olhos de repente e sorriu, com um gesto de desamparo. - Não quero insultá-la falando como se achasse que você tem uma vasta experiência com homens, só isso. Mas seria tolo fingir que você não saiba mais do que eu sobre essas questões. O que quero perguntar é... isso é comum? O que acontece entre nós, quando eu toco em você, quando você... se deita comigo? É sempre assim entre um homem e uma mulher?

Apesar de suas dificuldades, eu sabia exatamente o que ele queria dizer. Seu olhar era direto, fitando meus olhos enquanto aguardava uma resposta. Eu quis desviar os olhos, mas não pude.

- Freqüentemente, acontece algo parecido — eu disse e tive que parar e limpar a garganta. - Mas, não. Não, não é... comum. Não faço a menor idéia por quê, mas não é. Isso é... diferente.

Relaxou um pouco, como se eu tivesse confirmado algo sobre o qual ele se sentia um pouco ansioso.

- Achei que não. Nunca dormi com outra mulher antes, mas já... bem, já pus a mão em algumas. — Sorriu timidamente e sacudiu a cabeça. - Não era a mesma coisa. Quero dizer, já tive outras mulheres em meus braços antes, beijei-as e... - Agitou uma das mãos, descartando o resto da frase. -Era realmente muito agradável. Fazia meu coração bater com força e minha respiração faltar e tudo o mais. Mas não era nem de longe como é quando a tomo nos braços e a beijo. — Seus olhos, pensei, eram da cor de lagos e céus, e tão insondáveis quanto ambos.

Estendeu o braço e tocou meu lábio inferior.

- Começa do mesmo jeito, mas depois, após uns instantes - disse, falando docemente -, é como se eu tivesse uma chama viva nos braços. -Seu toque tornou-se mais firme, delineando meus lábios e acariciando o contorno do meu maxilar. - E eu só desejo me atirar nessa chama e ser consumido.

Pensei em dizer-lhe que seu próprio toque queimava minha pele e enchia minhas veias de fogo. Mas eu já estava acesa e brilhando como ferro em brasa. Fechei os olhos e senti o toque quente mover-se para minha face e para a têmpora, orelha e pescoço, e estremeci quando suas mãos desceram para a minha cintura e me puxaram para junto dele.

Jamie parecia ter uma idéia precisa de onde estávamos indo. Finalmente, parou ao pé de uma enorme rocha, com cerca de seis metros de altura, cheia de saliências e fendas pontiagudas. Tanásias e madressilvas silvestres cresciam nas fendas e oscilavam precariamente como bandeirolas amarelas contra a pedra. Tomou minha mão e balançou a cabeça indicando a rocha à nossa frente.

- Vê os degraus ali, Sassenach? Acha que consegue? - Havia, de fato, protuberâncias fracamente marcadas na pedra, inclinadas contra a face da rocha. Algumas eram proeminências autênticas e outras meramente um apoio para liquens. Eu não sabia dizer se eram naturais ou se tinham recebido alguma ajuda em sua formação, mas achei que era possível subir por elas, ainda que com saias compridas e um corpete apertado.

Com algumas escorregadelas e sustos, e com Jamie empurrando prestativamente por trás de vez em quando, consegui chegar ao topo da rocha e parei para olhar à minha volta. A vista era espetacular. O volume maciço e escuro de uma montanha erguia-se a leste, enquanto bem abaixo, ao sul, os contrafortes estendiam-se por uma vasta e deserta charneca. O alto da rocha inclinava-se para dentro em todos os lados, formando uma bacia rasa. No centro da bacia, via-se um círculo enegrecido, com a fuligem remanescente de madeira queimada. Não éramos os primeiros visitantes, portanto.

- Você conhecia este lugar?

Jamie afastou-se um pouco para um dos lados, observando-me, satisfeito com o meu deslumbramento. Encolheu os ombros.

- Ah, sim. Conheço quase tudo nesta parte das Highlands. Venha aqui, há um local onde pode se sentar e ver a estrada onde ela passa perto da colina. - A hospedaria também era visível dali, reduzida, em função da distância, de casa de boneca a casinha de blocos de madeira de criança. Havia alguns cavalos amarrados a árvores ao lado da estrada, pequenos pontos marrons e pretos dali de cima.

Nenhuma árvore crescia no topo da rocha e o sol queimava minhas costas. Sentamo-nos lado a lado, as pernas balançando na borda e, como camaradas, compartilhamos uma das garrafas de cerveja que Jamie providencialmente retirou do poço do pátio da estalagem quando partimos.

Não havia árvores, mas as plantas menores, as que podiam crescer nas precárias fendas e criar raízes num solo escasso, brotavam aqui e ali, erguendo o semblante corajosamente para o quente sol de primavera. Havia um pequeno grupo de margaridas abrigando-se sob uma saliência perto de mim e estendi a mão para colher uma.

Ouviu-se um ligeiro zumbido e a margarida saltou do seu cabo e aterrissou no meu colo. Fiquei olhando estupidamente, a mente incapaz de dar sentido àquele comportamento bizarro. Jamie, bem mais rápido em suas Percepções, atirara-se deitado na pedra.

-- Abaixe-se! — exclamou. A mão avantajada agarrou meu cotovelo e me fez deitar estatelada a seu lado. Quando deitei no musgo esponjoso, vi a aste da flecha ainda tremendo acima do meu rosto, onde se fincara numa fenda do afloramento de rocha.

Fiquei paralisada, com medo até de olhar para os lados, e tentei agarrar-me ainda mais ao solo. Jamie estava imóvel ao meu lado, tão quieto que ele mesmo poderia passar por uma pedra. Até os pássaros e insetos pareciam ter feito uma pausa em suas cantorias e o ar ficou parado, à espera. De repente, Jamie começou a rir.

Sentou-se e, agarrando a flecha pela haste, girou-a cuidadosamente, retirando-a da fenda onde se instalara. Vi que estava guarnecida de penas bifurcadas da cauda de um pica-pau, amarradas com um fio azul, enrolado em uma faixa de pouco mais de um centímetro de largura abaixo das penas.

Colocando a flecha de lado, Jamie posicionou as mãos em concha em torno da boca e fez uma imitação notavelmente boa do grito de um pica-pau. Abaixou as mãos e esperou. Em um instante, o chamado foi respondido do arvoredo lá embaixo e um largo sorriso espalhou-se em seu rosto.

- Um amigo seu? - arrisquei. Ele confirmou balançando a cabeça, os olhos atentos ao estreito caminho na superfície da parede da rocha.

- Hugh Munro, a menos que outra pessoa tenha passado a fazer flechas como as dele.

Esperamos mais alguns instantes, mas ninguém apareceu no caminho.

- Ah - Jamie exclamou baixinho, virando-se a tempo de deparar-se com uma cabeça, erguendo-se lentamente acima da borda da rocha, atrás de nós.

A cabeça abriu um sorriso semelhante ao daquelas lanternas feitas de abóbora recortada como um rosto humano, alegre e banguela, radiante de prazer por ter nos surpreendido. A própria cabeça era mais ou menos da forma de uma abóbora, a impressão reforçada pela pele encouraçada, morena e avermelhada, que recobria não só o rosto, mas o topo redondo e careca de sua cabeça também. Poucas abóboras, entretanto, poderiam se vangloriar de uma barba tão luxuriante e de um par de olhos azuis e brilhantes como aqueles. Mãos robustas, com unhas imundas, plantaram-se sob a barba e agilmente ergueram o resto da lanterna de abóbora à plena vista.

De certa forma, o corpo combinava com a cabeça, com uma aparência nítida de duende de Halloween. Os ombros eram muito largos, mas corcundas e inclinados, um bem mais alto do que o outro. Uma das pernas também parecia um pouco mais curta do que sua companheira, emprestando ao sujeito uma espécie de trejeito manco e saltitante.

Munro, se este realmente era o amigo de Jamie, estava vestido com o que pareciam ser múltiplas camadas de trapos, as cores desbotadas de tecido tingido com frutas silvestres aparecendo entre os rasgões de uma vestimenta disforme que um dia devia ter sido um guarda-pó feminino.

Não carregava a bolsa de pêlo que os escoceses levavam à frente da cintura, presa ao cinto, o qual era, de qualquer modo, não mais do que um pedaço de corda esfiapada, de onde pendiam duas carcaças peludas, a cabeça para baixo. Em vez disso, carregava uma gorda bolsa de couro atravessada no peito, de qualidade surpreendentemente boa, se considerarmos o resto do traje. Uma coleção de pequenos objetos de metal pendia da tira da bolsa: medalhas religiosas, condecorações militares, o que pareciam ser velhos botões de uniformes, moedas gastas, furadas e costuradas no couro, e três ou quatro pedacinhos retangulares de metal, cinzas e opacos, com marcas enigmáticas gravadas na superfície.

Jamie levantou-se enquanto a criatura avançava, saltando agilmente entre as protuberâncias da rocha. Os dois abraçaram-se efusivamente, batendo com força nas costas um do outro, à velha maneira dos homens se cumprimentarem.

- E então, como vão as coisas na casa dos Munro? – Jamie perguntou, afastando-se e examinando o velho companheiro.

Munro abaixou a cabeça e fez um estranho som devorador, sorrindo. Em seguida, erguendo as sobrancelhas, balançou a cabeça em minha direção e abanou as mãos curtas num gesto interrogativo estranhamente gracioso.

- Minha mulher - Jamie disse, ruborizando-se ligeiramente com um misto de timidez e orgulho na nova apresentação. - Casado há apenas dois dias.

Munro exibiu um sorriso ainda mais largo diante dessa informação e executou uma mesura notavelmente complexa e elegante, envolvendo o toque rápido na cabeça, no coração e nos lábios e terminando em uma posição quase horizontal no chão aos meus pés. Tendo realizado essa surpreendente manobra, colocou-se de pé num salto com a graça de um acrobata e bateu nas costas de Jamie outra vez, agora para felicitá-lo.

A seguir, Munro iniciou um extraordinário balé com as mãos, apontando para si mesmo, para a floresta lá embaixo, para mim e depois para ele outra vez, com tal variedade de gestos e acenos que eu mal conseguia seguir suas mãos esvoaçantes. Eu já vira conversas de surdos-mudos antes, mas não executada tão agilmente e com tanta graça.

- Então, é assim? -Jamie exclamou. Foi a sua vez de dar tapas de congratulações no outro homem. Não era de admirar que os homens se tornassem insensíveis à dor superficial, pensei. Vinha deste hábito de espancarem-se incessantemente.

-- Ele também se casou - Jamie explicou, virando-se para mim. - Há Seis meses, com uma viúva... ah, certo, com uma viúva gorda - acrescentou em resposta a um gesto enfático de Munro -, com seis filhos, na vila de Dubhlairn.

- Que bom — disse, educadamente. — Parece que pelo menos eles vão comer bem. - Indiquei os coelhos pendurados em seu cinto. Munro imediatamente soltou um dos animais mortos e entregou-o a mim, com tal expressão radiante de boa vontade que me senti obrigada a aceitá-lo, sorrindo e esperando secretamente que não abrigasse pulgas.

- Um presente de casamento - Jamie disse. - E muito bem-vindo Munro. Permita-nos retribuir a gentileza. - Com isso, extraiu uma das garrafas de cerveja de seu leito no musgo e passou-a a ele.

As cortesias assim resolvidas, sentamo-nos novamente, compartilhando com camaradagem uma terceira garrafa. Jamie e Munro lançaram-se em uma troca de notícias, mexericos e conversas que não pareciam menos desenvoltas pelo fato de que apenas um deles falava.

Quase não tomei parte na conversa, sendo incapaz de ler os sinais de Munro, embora Jamie fizesse o melhor possível para me incluir por meio de traduções e referências.

A certa altura, Jamie indicou os pedaços retangulares de chumbo que adornavam a tira da bolsa de Munro.

- Agora é oficial, hein? - perguntou. - Ou é somente para quando a caça está escassa?

Munro balançou a cabeça como o palhaço de uma caixa de surpresas.

- O que são? - perguntei, curiosa.

- Gaberlunzies.

- Ah, claro - disse. - Desculpe-me por perguntar.

- Um gaberlunzie é um mendigo andarilho, com licença para pedir esmolas, Sassenach - Jamie explicou. - A licença vale dentro dos limites de uma paróquia e somente no dia da semana em que é permitido pedir esmolas. Cada paróquia tem a sua, para que os pedintes de uma paróquia não possam se aproveitar muito da caridade da outra.

- Um sistema com uma certa dose de elasticidade, pelo que estou vendo - eu disse, observando o estoque de quatro selos de chumbo de Munro.

- Ah, bem, Munro é um caso especial, sabe. Foi capturado pelos turcos no mar. Passou muitos anos remando numa galé e mais alguns como escravo na Argélia. Foi onde ele perdeu a língua.

- Eles... a cortaram? - Senti uma ligeira tontura.

Jamie não pareceu perturbar-se com a idéia, ele aparentemente ja conhecia Munro há algum tempo.

- Ah, sim. E também quebraram sua perna. As costas também, Munro? Não - corrigiu-se, diante de uma série de sinais de Munro. - As costas foi num acidente, que aconteceu quando pulava um muro em Alexandria. Mas os pés, isso foi obra dos turcos.

Eu não queria realmente saber, mas tanto Munro quanto Jamie pareciam estar morrendo de vontade de me contar.

- Está bem - disse, resignada. - O que aconteceu com os pés dele?

Com algo que se aproximava do orgulho, Munro tirou os sapatos surrados e as meias, expondo pés largos, achatados, onde a pele era endurecida e áspera, com áreas brancas e brilhantes, alternadas com áreas vermelhas como se estivessem em carne viva.

- Óleo fervente - Jamie disse. - É como forçam os cristãos capturados a se converterem à religião muçulmana.

- Parece um meio de persuasão muito eficaz - eu disse. — Então é por isso que várias paróquias lhe dão licença para mendigar? Para compensá-lo por suas provações em nome da cristandade?

- Exatamente. - Jamie estava satisfeito com a minha rápida apreensão da situação. Munro também expressou sua admiração com outro profundo salamaleque, seguido de uma expressiva, embora indelicada seqüência de movimentos com as mãos que eu entendi como sendo elogios à minha aparência física também.

- Obrigado, Munro. Sim, ela vai me dar muito orgulho, eu acho. -Jamie, vendo minhas sobrancelhas arquearem-se, diplomaticamente virou Munro de modo que suas costas ficassem viradas para mim e os dedos esvoaçantes escondidos. — Agora, conte-me o que tem feito nas vilas.

Os dois homens aproximaram-se ainda mais, continuando sua conversa canhestra com mais intensidade ainda. Como a parte de Jamie parecia limitar-se principalmente a grunhidos e exclamações de interesse, eu pouco podia colher do conteúdo da conversa e, assim, passei a me ocupar com um exame das estranhas plantas que brotavam na superfície de nosso poleiro.

Eu havia colhido um punhado de eufrásias e ditanos quando acabaram de conversar e Munro levantou-se para ir embora. Com uma última mesura para mim e um tapa nas costas de Jamie, arrastou-se para a borda da rocha e desapareceu tão rapidamente quanto um dos coelhos que ele abateu deveria ter desaparecido em sua toca.

- Que amigos fascinantes você tem - eu disse.

- Ah, sim. Um bom sujeito, Hugh. Cacei com ele e outros no ano passado. Ele vive por conta própria, mas agora que é um mendigo oficial, seu trabalho o mantém indo e vindo entre as paróquias; ele sabe tudo que se passa entre as fronteiras de Ardagh e Chesthill.

- Inclusive o paradeiro de Horrocks? — perguntei. Jamie balançou a cabeça.

- Sim. E ele levará uma mensagem para mim, para mudar o local de encontro.

- O que vai deixar Dougal perplexo - observei. - Se estivesse pensando em encostá-lo na parede em relação a Horrocks.

Balançou a cabeça e um sorriso torceu o canto de sua boca.

- Sim, é verdade.

Era quase hora do jantar quando chegamos à hospedaria. Desta vez, no entanto, o grande cavalo preto de Dougal e seus cinco companheiros estavam Parados no pátio, mascando feno com satisfação.

O próprio Dougal estava lá dentro, limpando a poeira da estrada de sua garganta com cerveja. Cumprimentou-me com um aceno da cabeça e virou-se para cumprimentar o sobrinho. Em vez de falar, no entanto, ficou ali parado, a cabeça de lado, examinando Jamie com sarcasmo.

- Ah, é isso - disse, finalmente, no tom satisfeito de um homem que solucionou uma difícil charada. — Agora sei do que você me faz lembrar rapaz. - Virou-se para mim.

- Já viu um cervo perto do fim da estação do cio, dona? - disse, em tom confidencial. — Os pobres animais não comem nem dormem por várias semanas, porque não podem perder tempo, entre derrotar os outros cervos e atender às corças. No final da temporada, são só pele e osso. Os olhos estão fundos e a única parte deles que não treme com paralisia é seu...

O final da frase perdeu-se num coro de gargalhadas enquanto Jamie puxava-me escadas acima. Não descemos para o jantar.

Muito mais tarde, quando estávamos quase adormecendo, senti o braço de Jamie em volta da minha cintura e seu hálito morno no meu pescoço.

- Isso nunca pára? O desejo de ter você? - Sua mão acariciou meu seio. — Mesmo quando acabo de sair de você, eu a desejo tanto que sinto um aperto no peito e meus dedos doem querendo tocá-la outra vez.

Segurou meu rosto no escuro, com as duas mãos, os polegares acariciando os arcos das minhas sobrancelhas.

- Quando a seguro com as duas mãos e a sinto tremer assim, esperando que eu a possua... Meu Deus, quero lhe dar prazer até você gritar sob mim e abrir-se para mim. E quando tiro de você meu próprio prazer, sinto como se tivesse lhe dado minha alma junto com meu corpo.

Rolou para cima de mim e abri minhas pernas, contraindo-me ligeiramente quando ele me penetrou. Ele riu baixinho.

- Eu também estou um pouco dolorido. Quer que eu pare? — Envolvi seus quadris com minhas pernas em resposta e o puxei para mais junto de mim.

- Você gostaria de parar? - perguntei.

- Não. Não posso.

Rimos e nos balançamos juntos, devagar, os lábios e os dedos explorando no escuro.

- Entendo por que a Igreja diz que é um sacramento - Jamie disse sonhadoramente.

- Isto? — perguntei, espantada. - Por quê?

- Ou ao menos sagrado - ele disse. — Sinto-me como o próprio quando estou com você.

Ri com tanta força que ele quase saiu de mim. Parou e segurou meus ombros, prendendo-me na cama.

- O que é tão engraçado?

- É difícil imaginar Deus fazendo isso. Jamie retomou seus movimentos.

- Bem, se Deus fez o homem à Sua imagem, devo supor que Ele tenha um pênis. - Começou a rir também, perdendo o ritmo outra vez. -Embora você não me lembre muito a Virgem Maria, Sassenach.

Sacolejamo-nos nos braços um do outro, rindo até nos soltarmos e rolarmos cada qual para um lado.

Recompondo-se, Jamie deu um tapinha no meu quadril.

- Fique de joelhos, Sassenach.

- Por quê?

- Se não vai me deixar ser espiritual a respeito disso, vai ter que aturar meus instintos mais básicos. Vou ser um animal. — Mordeu meu pescoço. - Quer que eu seja um cavalo, um urso ou um cachorro?

- Um ouriço.

- Um ouriço? E como um ouriço faz amor? - perguntou. Não, pensei. Não farei isso. Não. Mas fiz.

- Com muito cuidado — respondi, não contendo um risinho silencioso. Então agora sabemos há quanto tempo esse aí existe, pensei.

Jamie deixou-se cair numa bola, rolando de rir. Finalmente, rolou para fora da cama e pôs-se de pé, tateando em busca da caixa de sílex sobre a mesa. Ele brilhou como âmbar vermelho contra a escuridão do quarto quando o pavio pegou fogo e a luz aumentou às suas costas.

Deixou-se cair ao pé da cama, rindo para mim, que ainda sacudia a cabeça sobre o travesseiro, com espasmos de riso. Passou as costas da mão pelo rosto e assumiu uma fingida expressão de seriedade.

- Está bem, mulher. Estou vendo que chegou a hora em que terei que exercer minha autoridade como marido.

- Ah, é mesmo?

- Sim. - Mergulhou para a frente, agarrando minhas coxas e abrindo-as. Soltei um gritinho enquanto me contorcia, tentando me libertar, arrastando-me para a cabeceira da cama.

- Não, não faça isso!

-- Por que não? - Deitou-se ao comprido entre minhas pernas, erguendo os olhos para mim. Continuou segurando minhas pernas com força, impedindo-me de fechá-las.

-- Diga-me, Sassenach. Por que não quer que eu faça isso? - Esfregou o rosto na parte interna de uma de minhas coxas, a barba espetada raspando a pele fina. — Seja honesta. Por que não? — Raspou a barba no outro lado, fazendo-me chutar e retorcer-me desesperadamente para me libertar, mas em vão.

Afundei o rosto no travesseiro, frio contra meu rosto afogueado.

- Bem, se quer saber - murmurei -, eu não acho... bem, receio que não... quero dizer, o cheiro... - Minha voz definhou em um silêncio embaraçoso. Houve um movimento repentino entre minhas pernas, quando Jamie ergueu o corpo repentinamente. Passou os braços em torno dos meus quadris, colou o rosto na minha coxa e riu até as lágrimas correrem pelas suas faces.

- Meu Deus, Sassenach - disse, finalmente, resfolegando com a risada - não sabe qual é a primeira coisa que se faz quando se está conhecendo um novo cavalo?

- Não — respondi, completamente perplexa.

Ergueu um dos braços, exibindo um tufo macio de cabelos cor de canela.

- Você esfrega o sovaco no focinho do animal algumas vezes, para lhe dar seu cheiro e fazê-lo acostumar-se com você, para que não fique nervoso com você. - Ergueu-se sobre os cotovelos, espreitando por cima da elevação da barriga e dos seios.

- É o que você devia ter feito comigo, Sassenach. Devia ter esfregado minha cara entre suas pernas logo da primeira vez. Assim, eu não ficaria arisco.

- Arisco!

Abaixou o rosto e esfregou-o deliberadamente para cima e para baixo, resfolegando e respirando forte, imitando um cavalo. Contorci-me e chutei-o nas costelas, com o mesmo efeito de quem chuta uma parede de tijolos. Finalmente, pressionou minhas coxas para baixo outra vez e ergueu os olhos para mim.

- Agora — disse, num tom que não admitia oposição -, fique deitada quieta.

Senti-me exposta, invadida, impotente — e como se estivesse prestes a me desintegrar. O hálito de Jamie era ao mesmo tempo quente e frio em minha pele.

- Por favor - disse, sem saber se estava querendo dizer "por favor, pare" ou "por favor, continue". Não importava; ele não pretendia parar.

A consciência fragmentou-se em inúmeras sensações distintas: a aspereza da fronha de linho, empelotada de flores bordadas; o odor rançoso do lampião, misturado ao cheiro mais fraco de rosbife e cerveja e aos vapores ainda mais fracos do perfume das flores murchando no copo de vidro; a madeira fria da parede contra meu pé esquerdo, as mãos firmes nos meus quadris. As sensações giravam em redemoinho e aglutinavam-se por trás de minhas pálpebras cerradas em um sol brilhante que crescia e diminuía e que finalmente explodiu com um estalido sem som que me deixou numa escuridão quente e pulsante.

Indistintamente, de muito, muito longe, ouvi Jamie sentar-se.

- Bem, assim está melhor - disse uma voz, ofegando entre as palavras. - É preciso um pouco de esforço para deixá-la submissa, não é? — A cama rangeu com uma mudança de peso e senti meus joelhos serem afastados.

- Espero que não esteja tão morta quanto parece, está? — disse a voz, aproximando-se. Arqueei o corpo para cima com um som incompreensível quando tecidos extremamente sensíveis foram firmemente apartados em nova investida.

- Meu Deus - exclamei. Ouvi um risinho junto ao meu ouvido.

- Eu só disse que me sentia como Deus, Sassenach - ele murmurou. -Nunca disse que eu era Deus.

Mais tarde, quando o sol nascente começou a obscurecer a chama do lampião, acordei de um sono inebriante com a voz de Jamie murmurando mais uma vez:

- Isso pára, Claire? O desejo? Minha cabeça recostou em seu ombro.

- Não sei, Jamie. Realmente, não sei.





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