A viajante do tempo



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16 - UM BELO DIA
A intimidade arduamente conquistada da noite pareceu ter evaporado com o orvalho e havia um considerável constrangimento entre nós pela manhã. Após um desjejum praticamente em silêncio feito em nosso próprio quarto, subimos a pequena colina atrás da estalagem, trocando gentilezas um pouco formais de vez em quando.

No topo da colina, sentei-me em um tronco de árvore para descansar, enquanto Jamie sentava-se no chão, as costas apoiadas em um pinheiro novo, a alguns passos de distância. Algum pássaro agitava-se num arbusto atrás de mim, um pintassilgo, creio, ou talvez um tordo. Fiquei ouvindo seus trinados indolentes, observando as nuvenzinhas fofas passarem flutuando e considerando a situação.

O silêncio estava se tornando realmente difícil de suportar, quando Jamie disse repentinamente:

- Espero... - Parou e ruborizou-se. Embora eu sentisse que eu é quem deveria ruborizar-se, fiquei contente de que pelo menos um de nós fosse capaz de fazê-lo.

- O quê? - perguntei, da forma mais encorajadora possível. Ele sacudiu a cabeça, ainda corado.

- Não foi nada.

- Fale. - Estendi a perna e cutuquei sua coxa com a ponta do pé. — Honestidade, lembra-se? - Era injusto, mas eu realmente não podia mais suportar olhares nervosos e pigarros na garganta.

Suas mãos entrelaçadas apertaram-se em volta dos joelhos e ele balançou-se um pouco, mas fixou o olhar diretamente em mim.

- Eu ia dizer - falou suavemente - que eu esperava que o homem que teve a honra de se deitar com você pela primeira vez tenha sido tão generoso quanto você foi comigo. — Sorriu, um pouco timidamente. — Mas, pensando melhor, não soava muito bem. O que eu queria dizer... bem,

Tudo que eu queria dizer era obrigado.

-- Generosidade não teve nada a ver com isso! - retruquei, olhando Para baixo e limpando energicamente uma mancha inexistente do meu vestido. Uma bota grande intrometeu-se no meu reduzido campo de visão e cutucou meu tornozelo.

- Honestidade, hein? — repetiu e eu ergui os olhos, deparando-me com Par de sobrancelhas arqueadas com ironia, acima de um largo sorriso.

- Bem - eu disse, na defensiva —, não depois da primeira vez, de qualquer modo. - Ele riu e eu descobri para meu horror que eu mesma não estava imune ao rubor, afinal de contas.

Uma sombra fria caiu sobre meu rosto afogueado e um par de mãos fortes e grandes segurou as minhas com força e colocou-me de pé. Jamie tomou meu lugar no tronco e bateu no joelho, convidativamente.

- Sente-se - disse.

Obedeci relutantemente, mantendo o rosto desviado. Ele ajeitou-me confortavelmente contra seu peito e passou os braços em torno da minha cintura. Senti as batidas fortes e regulares de seu coração contra as minhas costas.

- Bem, vejamos - ele disse. — Se ainda não conseguimos conversar à vontade sem nos tocarmos, vamos nos tocar um pouco. Diga-me quando estiver acostumada comigo outra vez. - Inclinou-se para trás para que ficássemos na sombra de um carvalho e me apertou contra ele sem falar, apenas respirando devagar, de modo que eu sentia seu peito subir e descer e o seu hálito nos meus cabelos.

- Tudo bem - eu disse, após alguns instantes.

- Ótimo. - Afrouxou os braços e virou-se para olhar diretamente para mim. Assim de perto, eu podia ver os pêlos ruivos, curtos e eriçados, da barba por fazer, no rosto e no queixo. Deslizei os dedos por eles; eram como a pelúcia de um sofá antigo, rígidos e macios ao mesmo tempo.

- Desculpe-me - ele disse -, não pude me barbear hoje de manhã. Dougal me deu uma navalha antes do casamento ontem, mas pegou-a de volta. Com receio que eu cortasse a minha garganta depois da noite de núpcias, eu acho. - Riu para mim e eu sorri de volta.

A referência a Dougal me fez lembrar de nossa conversa na noite anterior.

- Eu estava pensando... ontem à noite, você disse que Dougal e seus homens foram ao seu encontro na costa quando você voltou da França. Por que você voltou com ele, ao invés de ir para sua própria casa ou para as terras dos Fraser? Quero dizer, da maneira como Dougal o tratou... -deixei a frase morrer, hesitante.

- Ah — ele disse, remexendo as pernas para acomodar meu peso mais uniformemente. Eu quase podia ouvi-lo pensando consigo mesmo. Decidiu-se com bastante rapidez.

- Bem, é algo que você deve saber, eu creio. - Franziu a testa consigo mesmo. - Eu lhe contei porque sou um fora-da-lei. Bem, durante tempo depois... depois que deixei o forte, não me importava muito... nada. Meu pai morreu nessa época e minha irmã... - Parou outra vez e senti que travava uma luta interna. Girei o corpo para olhar para ele. O rosto normalmente alegre estava sombrio por alguma emoção forte.

- Dougal me contou - disse devagar -, Dougal me contou que... que minha irmã ficou grávida. De Randall.

- Ah, meu Deus.

Olhou-me de viés, desviando o olhar em seguida. Seus olhos brilhavam como safiras e piscou apressadamente uma ou duas vezes.

- Eu... eu não consegui forças para voltar - disse, em voz baixa. — Vê-la outra vez, depois do que acontecera. Além disso - suspirou, apertando os lábios em seguida -, Dougal me disse que ela... que depois que a criança nasceu, ela... bem, é claro, ela não teve escolha; estava sozinha... droga, eu a deixei sozinha! Ele disse que ela estava morando com outro soldado inglês, alguém da guarnição, não sabia quem.

Engoliu com dificuldade, depois continuou com mais firmeza.

- Enviei para ela todo o dinheiro que pude, é claro, mas não pude... bem, não consegui escrever para ela. O que eu poderia dizer? — Encolheu os ombros, desamparadamente.

- Bem, de qualquer modo, após algum tempo cansei-me de viver como soldado na França. E fiquei sabendo por meio do meu tio Alex que ele ouvira falar de um desertor inglês, de nome Horrocks. O sujeito deixara o exército e fora trabalhar para Francis MacLean, de Dunweary. Estava bêbado um dia e deixou escapar que estava servindo na guarnição em Fort William quando eu fugi. E ele tinha visto o homem que atirou no sargento-mor naquele dia.

- Então, ele podia provar que não foi você! - Parecia ser uma boa notícia e eu disse isso a Jamie. Ele balançou a cabeça.

- Bem, sim. Embora a palavra de um desertor provavelmente não teria muito valor. Ainda assim, é um começo. Ao menos, eu mesmo saberia quem foi. E enquanto eu... bem, não vejo como eu possa voltar a Lallybroch; seria bom que eu pudesse andar pela Escócia sem o risco de ser enforcado.

- Sim, parece uma boa idéia — eu disse secamente. - Mas onde entram os MacKenzie nesta história?

Seguiu-se uma certa dose de complicada análise de relações familiares e alianças de clãs, mas quando a fumaça se dispersou, pareceu que Francis MacLean tinha alguma conexão com o lado dos MacKenzie e informara Colum a respeito de Horrocks, que então enviou Dougal para fazer contato com Jamie.

- Foi assim que aconteceu de ele estar por perto quando fui ferido -Jamie concluiu. Parou, apertando os olhos contra o sol. — Perguntei-me, depois, sabe, se talvez ele mesmo não tenha feito isso.

Golpeá-lo com um machado? Seu próprio tio? Por que, pelo amor de Deus, ele haveria de fazer isso!?

Ele franziu o cenho como se avaliasse quanto deveria me contar, dePois encolheu os ombros.

- Não sei o quanto você sabe sobre o clã MacKenzie - disse —, embora imagino que não possa ter cavalgado com o velho Ned Gowan durante dias sem ouvir alguma coisa. Ele não consegue fugir do assunto por muito tempo.

Balançou a cabeça diante do meu sorriso de confirmação.

- Bem, você viu Colum. Qualquer um pode ver que ele não vai viver até uma idade avançada. E o pequeno Hamish tem apenas oito anos; não poderá liderar um clã ainda por uns dez anos. Então, o que acontece se Colum morre antes de Hamish estar preparado? - Olhou para mim, aguardando a resposta.

- Bem, Dougal seria o chefe do clã, eu creio - respondi devagar —, ao menos até que Hamish atinja a idade certa.

- Sim, é verdade. - Jamie assentiu. - Mas Dougal não tem a capacidade de Colum e há aqueles no clã que não o seguiriam com satisfação, se houvesse uma alternativa.

- Compreendo - eu disse lentamente -, e você é essa alternativa. Analisei-o cuidadosamente e tive que admitir que havia uma certa possibilidade ali. Ele era neto do velho Jacob; um MacKenzie de sangue, ainda que pelo lado de sua mãe. Um rapaz forte, atraente, bem-educado, inteligente e com o jeito da família para lidar com pessoas. Lutara na França e provara sua capacidade de liderar homens numa batalha; uma consideração importante. Nem mesmo o prêmio por sua cabeça poderia ser um obstáculo intransponível, se ele fosse o chefe dos MacKenzie.

Os ingleses já tinham problemas suficientes nas Highlands, com pequenas e constantes rebeliões, incursões pelas fronteiras e clãs em guerra, para não se arriscar a provocar um levante de grandes proporções acusando o chefe de um grande clã de assassinato — que para os membros do clã não seria, de forma alguma, considerado assassinato.

Enforcar um membro sem importância do clã Fraser era uma coisa; invadir o Castelo Leoch e arrastar o senhor do clã MacKenzie para enfrentar a justiça inglesa era inteiramente diferente.

- Você pretende ser o chefe, se Colum morrer? - Afinal, seria uma maneira de sair de suas dificuldades, embora eu suspeitasse que seria um caminho repleto de seus próprios e consideráveis obstáculos.

Ele sorriu diante da idéia.

- Não. Ainda que me sentisse no direito, o que não sinto, isso dividiria o clã, os homens de Dougal contra aqueles que me seguissem. Não tenho o gosto do poder à custa do sangue de outros homens. Mas Dougal e Colum não poderiam saber disso, não é? Assim, devem ter achado mais fácil me matar do que correr o risco.

Minha testa estava franzida, tentando compreender todas as implicações.

- Mas sem dúvida você poderia dizer a Dougal e Colum que não pretende... ah. — Ergui os olhos para ele com considerável respeito. - Mas você fez isso. No juramento.

Eu já havia considerado como ele lidara bem com uma situação perigosa ali; agora eu via exatamente o quanto era perigosa. Os homens do clã sem dúvida queriam que ele fizesse o juramento; assim como Colum não queria. Fazer aquele juramento era declarar-se um membro do clã MacKenzie e, como tal, um candidato em potencial a chefe do clã. Ele arriscava-se à violência ou à morte por se recusar; corria o mesmo risco, mais particularmente, por concordar.

Vendo o perigo, tomara a prudente decisão de ficar longe da cerimônia. E quando eu, por minha estropiada tentativa de fuga, o levei de volta à beira do abismo, ele pisara com firmeza e segurança numa fina corda bamba e atravessara para o outro lado. Je suis prest, de fato.

Balançou a cabeça, vendo os pensamentos cruzarem meu rosto.

- Sim. Se eu tivesse feito o juramento naquela noite, provavelmente não chegaria a ver a luz do dia.

Senti-me um pouco abalada com a idéia, assim como o conhecimento de que eu, inadvertidamente, o expusera a tal perigo. A faca acima da cama de repente não pareceu nada além do que uma sensata precaução. Imaginei quantas noites ele teria dormido armado em Leoch, esperando a visita da morte.

- Sempre durmo armado, Sassenach - disse, embora eu não tivesse falado. - Exceto no monastério, ontem foi a primeira noite em meses que não dormi com minha adaga na mão. — Riu, obviamente lembrando-se do que estava em sua mão ao invés da arma.

- Como diabos você sabia o que eu estava pensando? — perguntei, ignorando o sorriso. Sacudiu a cabeça, bem-humorado.

- Você seria uma espiã muito ruim, Sassenach. Tudo que você pensa transparece no seu rosto, claro como o dia. Você olhou para minha adaga e ficou ruborizada. - Analisou-me, de forma avaliadora, a cabeleira brilhante de lado. - Ontem à noite, eu pedi honestidade, mas não era realmente necessário; você não sabe mentir.

- Muito bem, já que aparentemente sou tão ruim nisso - observei com certa aspereza -, devo presumir que ao menos você não ache que sou uma espiã?

Não respondeu. Olhava por cima do meu ombro em direção à estalagem, o corpo repentinamente tenso como a corda de um arco. Fiquei assustada por um instante, mas logo ouvi os sons que haviam atraído sua atenção. O baque surdo de cascos e o chocalhar estridente dos arreios; um grande grupo de homens a cavalo descia a estrada em direção à estalagem.

Movendo-se cautelosamente, Jamie agachou-se atrás de uma cortina de arbustos, em um ponto de onde avistava a estrada. Prendi minhas saias e arrastei-me atrás dele o mais silenciosamente possível.

A estrada fazia uma curva fechada depois de um afloramento de rochas e, em seguida, outra curva mais sinuosa em direção ao estreito vale onde ficava a estalagem. A brisa matinal trazia em nossa direção os sons do grupo que se aproximava, mas passou-se um ou dois minutos antes que o primeiro cavalo despontasse em nosso campo de visão.

Era um grupo de vinte a trinta homens, a maioria usando calças justas de couro e vestidos com seus tartãs, numa variedade de cores e padrões de xadrez. Todos, sem exceção, muito bem armados. Cada cavalo carregava ao menos um mosquete amarrado à sela e havia uma abundância de pistolas, adagas e espadas à vista, além de outros armamentos que podiam estar escondidos nos espaçosos alforjes dos quatro cavalos de carga. Seis dos homens ainda levavam montarias extras, sem carga e sem sela.

Apesar dos apetrechos de guerra, os homens pareciam relaxados; conversavam e riam em pequenos grupos enquanto cavalgavam, embora aqui e ali uma cabeça se erguesse, vigilante, examinando os arredores. Contive o impulso de agachar-me quando o olhar de um dos homens passou por cima do local onde estávamos escondidos; certamente aquele olhar perscrutador descobriria algum movimento aleatório ou o reflexo do sol nos cabelos de Jamie.

Erguendo os olhos, descobri que o mesmo pensamento ocorrera a Jamie; puxara seu xale sobre a cabeça e os ombros, de modo que o embotado padrão de caça o transformasse realmente em parte dos arbustos. Quando o último homem entrou no pátio da estalagem, Jamie tirou o xale da cabeça e começou a voltar para o caminho que subia a colina.

- Sabe quem são? — perguntei, ofegante, enquanto o seguia pelo meio das urzes.

- Ah, sim. - Jamie subia a trilha íngreme como um cabrito montês, sem perder o fôlego ou a serenidade. Olhando para trás, notou que eu avançava com dificuldade e parou, estendendo a mão para me ajudar.

- É a patrulha - disse, fazendo um sinal com a cabeça em direção à hospedaria. - Estamos seguros, mas acho que devíamos ficar um pouco mais longe.

Eu ouvira falar do famoso Black Watch, um regimento policial não-oficial que mantinha a ordem nas Highlands, e também ouvira falar que havia outras patrulhas, cada qual vigiando sua própria região, coletando a "contribuição" dos clientes para garantir a segurança de gado e propriedades. Clientes atrasados nos pagamentos podiam acordar um dia e descobrir que seus animais domésticos haviam desaparecido durante a noite, sem ninguém que lhes dissesse para onde - certamente não os homens da patrulha. Fui tomada por um pânico repentino e irracional.

- Não estão procurando por você, estão?

Surpreso, olhou para trás como se esperasse ver homens galgando a subida da colina em seu encalço, mas não havia ninguém. Ele olhou de novo para mim com um sorriso de alívio e passou o braço em torno de minha cintura para me ajudar a subir.

- Não, duvido. Dez libras não são suficientes para que um grupo como esse tente me caçar. E se soubessem que eu estava na estalagem, não viriam como vieram, arrastando os pés até a porta da estalagem em bloco. - Sacudiu a cabeça com convicção. - Não, se estivessem perseguindo alguém, enviariam homens para guardar os fundos e as janelas antes de entrarem pela porta da frente. Devem ter parado apenas para um descanso.

Continuamos a subir, para além do local onde a trilha rústica se acabava em moitas de urzes e tojo. Estávamos entre contrafortes ali e as rochas de granito erguiam-se acima da cabeça de Jamie, trazendo a desconfortável lembrança dos megálitos de Craigh na Dun.

Emergimos no topo de uma pequena elevação e as colinas ondeavam-se na distância, em um exuberante declive de rochas e verde por todos os lados. A maioria dos lugares nas Highlands dava-me uma sensação de estar cercada por árvores, rochas ou montanhas, mas ali estávamos expostos às correntes de ar frio do vento e aos raios do sol, que saíra como se comemorasse nosso casamento pouco ortodoxo.

Experimentei uma inebriante sensação de liberdade por estar fora da influência de Dougal e da companhia claustrofóbica de tantos homens. Fiquei tentada a dizer a Jamie que fugisse e me levasse com ele, mas o bom senso prevaleceu. Nenhum dos dois tinha dinheiro ou comida além do pequeno lanche que ele trazia na bolsa à cintura. Certamente, seríamos perseguidos se não voltássemos à estalagem até o pôr-do-sol. E embora Jamie pudesse escalar rochas o dia inteiro sem derramar uma gota de suor ou perder o fôlego, eu não estava tão preparada fisicamente. Notando meu rosto vermelho, conduziu-me a uma rocha e sentou-se ao meu lado, fitando com ar de satisfação as colinas ao longe, enquanto esperava que eu me recuperasse. Estávamos a salvo ali.

Pensando na patrulha, coloquei a mão impulsivamente no braço de Jamie.

- Estou muito contente por você não valer muito — eu disse. Olhou-me por um instante, esfregando o nariz, que estava começando a ficar vermelho.

- Bem, posso encarar isso de diversos modos, Sassenach, mas nas circunstâncias atuais, obrigado.

-- Eu é que tenho que lhe agradecer por se casar comigo. Devo dizer prefiro estar aqui do que em Fort William.

- Agradeço o elogio, senhora — disse, com uma leve mesura. - Eu também. E enquanto estamos ocupados agradecendo um ao outro - acrescentou —, eu também devo agradecer-lhe por ter se casado comigo.

- Hã, bem... — Fiquei ruborizada outra vez.

- Não só por isso, Sassenach — disse, o sorriso ampliando-se. - Embora, sem dúvida por isso também. Mas acho que também salvou a minha vida, ao menos até onde diga respeito aos MacKenzie.

- O que quer dizer?

- Ser metade MacKenzie é uma coisa — explicou. - Ser metade MacKenzie com uma mulher inglesa é outra bem diferente. Não há muita chance de uma Sassenach tornar-se senhora de Leoch, independente do que os membros do clã pensem de mim. Foi por isso que Dougal me escolheu para casar com você.

Ergueu uma das sobrancelhas, vermelho-dourada à luz do sol matinal.

- Espero que não teria preferido Rupert.

- Não, não teria — respondi enfaticamente.

Ele riu e levantou-se, limpando as agulhas de pinheiro de seu kilt.

- Bem, minha mãe me disse que eu seria o escolhido de uma bela moça um belo dia. — Estendeu a mão e me ajudou a levantar.

- Eu disse a ela - continuou - que achava que cabia ao homem escolher.

- E o que ela disse a isso? - perguntei.

- Ela revirou os olhos e disse: "Você vai ver, meu belo galinho, você vai ver." - Riu. - E foi o que aconteceu.

Olhou para cima, para onde o sol agora se filtrava pelo meio das agulhas dos pinheiros em fios cor de limão.

- E é um belo dia, aliás. Venha, Sassenach. Vou levá-la para pescar. Subimos ainda mais para o meio das colinas. Desta vez, Jamie virou-se para o norte, atravessou um terreno pedregoso e uma greta, até a cabeça de uma minúscula ravina, verdejante e cercada de paredes de pedra, repleta do gorgolejar da água do riacho que espirrava de uma dúzia de cascatas entre as rochas e mergulhava alegremente ao longo de todo o desfiladeiro em uma série de arroios e lagos abaixo.

Mergulhamos nossos pés na água, movendo-nos da sombra para o sol e de volta para a sombra quando ficávamos com muito calor, falando de uma coisa e outra sem maior importância, ambos conscientes do menor movimento um do outro, ambos contentes de esperar que o acaso nos levasse àquele momento em que um olhar se demoraria um pouco mais e um toque adquirisse um significado maior.

Acima de um lago salpicado de manchas escuras, Jamie mostrou-me como atrair uma truta. Um pouco agachado para evitar os galhos mais baixos acima de sua cabeça, avançou ao longo de um ressalto da rocha, os braços estendidos para os lados para se equilibrar. Na metade da saliência de pedra, virou-se cuidadosamente e estendeu a mão, instando-me a segui-lo.

Eu já havia prendido a barra das minhas saias, para caminhar pelo terreno acidentado, e consegui alcançá-lo facilmente. Deitamo-nos estendidos na pedra fria, cabeça com cabeça, olhando para a água embaixo, os galhos de salgueiro roçando em nossas costas.

- Basta - explicou - escolher um bom lugar e esperar. - Mergulhou uma das mãos abaixo da superfície da água, suavemente, sem agitar a água, e deixou-a descansar no fundo arenoso, logo depois da linha de sombra feita pelo ressalto rochoso. Os longos dedos curvaram-se delicadamente em direção à palma da mão, distorcidos pela água, de modo que pareciam ondear delicadamente de um lado para o outro, como as folhas de uma planta aquática, embora eu visse pelos músculos imóveis de seu antebraço que ele não estava de forma alguma movendo a mão. A coluna de seu braço curvava-se bruscamente na superfície, parecendo tão deslocado quanto estivera quando o encontrei pela primeira vez, há pouco mais de um mês - meu Deus, apenas um mês?

Conheceram-se em um mês, casaram-se no outro. Unidos por votos e pelo sangue. E por amizade também. Quando chegasse a hora de partir, esperava não feri-lo muito. Fiquei satisfeita de não ter que pensar nisso por enquanto; estávamos longe de Craigh na Dun e não havia nenhuma chance no mundo de fugir de Dougal no momento.

- Lá está ela. - A voz de Jamie era baixa, pouco mais do que um sussurro; ele havia me dito que as trutas têm ouvidos sensíveis.

Do meu ângulo de visão, a truta não passava de um movimento na areia salpicada de manchas. Ali na sombra da rocha não havia como identificar o brilho de escamas. Manchas moviam-se sobre manchas, deslocadas pelo abanar das barbatanas transparentes, invisíveis se não fosse por seu movimento. Os peixinhos que haviam se juntado para beliscar com curiosidade os cabelos nos pulsos de Jamie fugiram para a parte iluminada do pequeno lago.

Um dos dedos curvou-se devagar, tão devagar que era difícil notar o movimento. Eu sabia que havia se movido apenas pela mudança de posição, em relação aos outros dedos. Mais um dos dedos, curvado lentamente- E depois de um longo, longo momento, mais outro.

Eu mal ousava respirar e meu coração batia contra a rocha fria com um ritmo mais acelerado do que a respiração do peixe. Lentamente, os dedos começaram a voltar, um a um, ficando abertos, e a lenta onda hipnótica começou outra vez, um dedo, outro dedo, mais um dedo, apenas uma leve Ondulação, como o movimento da borda da barbatana de um peixe.

Como que atraído pelo aceno em câmara lenta, o nariz da truta pressionava-se para fora, uma arfada delicada da boca e das guelras, ocupadas no ritmo da respiração, o interior róseo à mostra, e ocultando-se, alternadamente, à medida que os opérculos pulsavam como um coração.

A boca, abrindo e fechando, tateava e mordia a água. A maior parte do corpo já saíra de baixo da rocha, pairando sem peso na água, ainda na sombra. Eu podia ver um dos olhos, indo e vindo, num olhar sem expressão e sem direção.

Mais alguns centímetros trariam as ondulantes capas das guelras diretamente para os traiçoeiros dedos que acenavam. Percebi que eu estava agarrando a rocha com as duas mãos, pressionando o rosto com força contra o granito, como se eu pudesse me tornar ainda mais imperceptível.

Houve uma repentina explosão de movimento. Tudo aconteceu tão rápido que não pude ver o que realmente havia ocorrido. A água agitou-se furiosamente e jorrou por cima da rocha, a dois centímetros do meu rosto. Ao mesmo tempo, houve um rebuliço de tecido xadrez quando Jamie atravessou a rocha, rolando por cima de mim, e um forte estalo quando o corpo do peixe voou pelo ar e bateu na margem forrada de folhas.

Jamie lançou-se do ressalto de pedra nas águas rasas da beira do lago, espadanando água para todos os lados, a fim de recuperar o prêmio antes que o assustado peixe conseguisse nadar de volta para o santuário das águas mais fundas. Agarrando a truta pela cauda, bateu-a com perícia contra uma rocha, matando-a instantaneamente. Em seguida, veio arrastando os pés nas águas rasas para mostrá-lo a mim.

- Um bom tamanho - disse orgulhosamente, estendendo um sólido exemplar de uns trinta e cinco centímetros. - Ótimo para o desjejum. -Abriu um largo sorriso para mim, molhado até as coxas, os cabelos caindo no rosto, a camisa manchada de água e folhas mortas. — Eu disse que não ia deixar você passar fome.

Envolveu a truta em camadas de folhas de bardana e lama fria. Em seguida, lavou os dedos na água fria do riacho e, subindo na rocha, entregou-me o pacote cuidadosamente enrolado.

- Pode ser um presente de casamento estranho - disse, balançando a cabeça em direção à truta -, mas não sem precedente, como diria Ned Gowan.

- Há precedentes em dar um peixe de presente à nova esposa? - perguntei, achando graça.

Ele tirou as meias compridas e estendeu-as sobre a rocha, ao sol, para secar. Seus longos dedos dos pés remexeram-se, alegres com o calor.

- É uma antiga canção de amor, das Ilhas. Quer ouvir?

- Sim, claro. Ah, em inglês, se possível - acrescentei.

- Ah, sim. Não tenho voz para música, mas vou dizer a letra. - E afastando os cabelos dos olhos, recitou:

Você, filha do rei de mansões feericamente iluminadas

Na noite de nosso casamento,

Se eu for um homem vivo em Duntulm,

Irei ao seu encontro com presentes.

Você receberá cem texugos, habitantes das margens,

Cem lontras marrons, nativas dos riachos,

Cem trutas prateadas, saltando de seus lagos...

E assim continuava por uma notável lista da flora e da fauna das Ilhas. Tive tempo, ouvindo-o declamar, de refletir na estranheza de estar sentada em uma rocha junto a um lago escocês ouvindo canções de amor gaélicas, com um grande peixe morto no colo. Mais estranho ainda era o fato de eu estar me divertindo muito.

Quando terminou, aplaudi, mantendo a truta presa entre meus joelhos.

- Ah, gostei dessa! Especialmente a parte que diz "Irei ao seu encontro com presentes". Ele parece um amante muito empolgado.

Com os olhos cerrados contra o sol, Jamie riu.

- Acho que eu poderia acrescentar um verso por minha conta: "Pularei dentro de lagos por você."

Nós dois rimos e depois ficamos em silêncio por algum tempo, refestelando-nos ao sol agradavelmente quente do começo do verão. Havia muita paz ali, sem nenhum som além do ímpeto da água corrente mais abaixo de nosso plácido lago. A respiração de Jamie acalmara-se. Eu tinha plena consciência do lento movimento de subida e descida de seu peito e da lenta pulsação em seu pescoço. Ele possuía uma pequena cicatriz triangular bem na base da garganta.

Eu podia sentir a timidez e o constrangimento começando a se infiltrar entre nós novamente. Estendi a mão e segurei a dele com força, na esperança de que o toque restabelecesse a intimidade entre nós como fizera antes. Ele passou o braço em volta dos meus ombros, mas isso apenas me fez notar os contornos rígidos de seu corpo sob a camisa fina. Afastei-me, sob o pretexto de colher um ramo das flores cor-de-rosa de gerânio que cresciam de uma fenda na rocha.

- Boas para dor de cabeça - expliquei, enfiando-as no meu cinto.

-- Isso a incomoda — ele disse, inclinando a cabeça para me olhar intensamente. - Não, não quis dizer a dor de cabeça. Frank. Você está pensando nele e isso a incomoda quando toco em você, porque não pode levar nós dois na mente. Não é?

- Você é muito perceptivo - eu disse, surpresa. Ele sorriu, mas não fez nenhum movimento para me tocar outra vez.

--- Não é muito difícil perceber isso, Sassenach. Eu sabia quando nos casamos que você o teria freqüentemente na lembrança, quisesse ou não.

Não queria, no momento, mas ele tinha razão; era independente da minha vontade.

- Sou muito parecido com ele? - perguntou repentinamente.

- Não.


De fato, seria difícil imaginar um contraste maior. Frank era esbelto, ágil e moreno, ao passo que Jamie era corpulento, vigoroso e claro como um raio de sol avermelhado. Embora ambos tivessem a graça compacta dos atletas, a constituição física de Frank era a de um jogador de tênis, o corpo de Jamie era o de um guerreiro, moldado - e surrado - pela abrasão da absoluta adversidade física. Frank ficava um pouco acima dos meus um metro e setenta. De frente para Jamie, meu nariz acomodava-se confortavelmente na pequena depressão no meio de seu peito e seu queixo podia descansar facilmente no topo da minha cabeça.

O físico não era a única dimensão em que os dois homens diferiam. Havia quase quinze anos de diferença entre eles, para começar, o que provavelmente explicava algumas diferenças entre a reserva urbana de Frank e a franqueza sincera de Jamie. Como amante, Frank era elegante, sofisticado, atencioso e hábil. Sem a mesma experiência ou pretensão, Jamie simplesmente se entregava a mim por inteiro, sem reservas. E a profundidade da minha resposta a isso me perturbava completamente.

Jamie observava minha luta, não sem simpatia.

- Bem, então, parece que eu tenho duas opções na questão — disse. -Posso deixar que fique cismando sobre o assunto ou...

Inclinou-se para baixo e docemente uniu seus lábios aos meus. Eu já havia beijado meu quinhão de homens, particularmente durante os anos de guerra, quando o flerte e o romance imediato eram os companheiros amenos da morte e da incerteza. Jamie, no entanto, era algo diferente. Sua extrema delicadeza não era de forma alguma insegura; ao invés disso, era uma promessa de uma força conhecida e contida sob rédeas; um desafio e uma provocação mais notável ainda pela ausência de reivindicação. Sou seu, dizia. E se você me quiser, então...

Eu queria - e minha boca abriu-se sob a dele, aceitando calorosamente tanto a promessa quanto o desafio sem me consultar. Após um longo instante, ele ergueu a cabeça e sorriu para mim.

- Ou posso tentar distraí-la de seus pensamentos - concluiu. Pressionou minha cabeça contra seu ombro, acariciando meus cabelos e alisando os cachos saltitantes atrás de minhas orelhas.

- Não sei se isso vai ajudar - disse, serenamente -, mas vou lhe dizer uma coisa: é uma dádiva e um encantamento para mim saber que eu posso dar-lhe prazer, que seu corpo pode reagir ao meu. Eu não havia pensado nisso... antes.

Respirei longamente antes de responder.

- Sim - eu disse. - Ajuda. Eu acho.

Ficamos em silêncio novamente pelo que me pareceu um longo tempo. Por fim, Jamie afastou-se e olhou para mim, sorrindo.

- Eu lhe disse que não tenho nem dinheiro nem propriedade, Sassenach?

Balancei a cabeça afirmativamente, imaginando onde ele pretendia chegar.

- Eu deveria tê-la avisado antes que acabaríamos dormindo em fardos de feno, sem nada além de cerveja de urzes e mingau de aveia para comer.

- Não me importo - eu disse.

Ele indicou com a cabeça uma abertura nas árvores, sem tirar os olhos de mim.

- Não tenho um monte de feno aqui comigo, mas há uma boa área de samambaias novas ali adiante. Se quiser praticar, só para ir sabendo como é...

Pouco tempo depois, acariciei suas costas, molhadas com o esforço e a seiva de samambaias esmagadas.

- Se disser "obrigado" mais uma vez, dou-lhe um tapa - eu disse. Ao invés disso, tive um ligeiro ronco em resposta. Uma samambaia pendurada acima de nós roçava seu rosto e uma formiga curiosa arrastava-se por sua mão, fazendo os longos dedos remexerem-se em seu sono.

Afastei-a e apoiei-me em um dos cotovelos, observando-o. Suas pestanas eram longas, vistas assim com seus olhos fechados, e espessas. No entanto, de uma cor estranha; castanho-avermelhadas e escuras nas pontas, eram muito claras, quase louras nas raízes.

A linha firme de sua boca relaxara-se no sono. Enquanto mantinha uma curva de sorriso no canto, seu lábio inferior agora relaxara em uma curva mais cheia que parecia tanto sensual quanto inocente.

- Droga — exclamei baixinho para mim mesma.

Vinha lutando contra aquilo. Antes mesmo deste ridículo casamento, eu estava mais do que consciente dessa atração. Já acontecera antes, como sem dúvida acontece a praticamente qualquer pessoa. Uma repentina sensibilidade à presença, ao aparecimento, de um determinado homem - ou Mulher, suponho. A necessidade de segui-lo com os olhos, de provocar Pequenos encontros "casuais", vê-lo inadvertidamente enquanto ele prosseguia com seu trabalho, uma sensibilidade refinada aos pequenos detalhes de seu corpo; as omoplatas sob o tecido da camisa, os ossos protuberantes de seus pulsos, o lugar macio sob seu maxilar, onde os primeiros pêlos de sua barba começam a nascer.

Paixão. Era comum, entre enfermeiras e médicos, enfermeiras e pacientes, entre qualquer grupo de pessoas lançadas por longos períodos de tempo na companhia umas das outras.

Algumas se entregavam a ela e romances intensos e breves eram freqüentes. Se tivessem sorte, o romance se extinguia em poucos meses, sem maiores conseqüências. Se não tivessem... bem. Gravidez, divórcio, um ou outro caso de doença venérea. Perigosa, a paixão.

Eu a senti, diversas vezes, mas tive o bom senso de resistir. E como sempre acontece, após algum tempo a atração diminuía e o homem perdia sua aura dourada e reassumia seu lugar de sempre em minha vida, sem nenhum dano a ele, a mim ou a Frank.

E agora. Agora eu tinha sido forçada a me entregar. E só Deus poderia saber que danos poderiam ser provocados por essa ação. Mas não havia como voltar atrás.

Ele permanecia deitado, à vontade, esparramado sobre o estômago. O sol se refletia em sua cabeleira ruiva e iluminava os pêlos curtos e macios que desciam por sua espinha dorsal até a penugem vermelho-dourada que polvilhava suas nádegas e coxas e se aprofundava em um matagal de cachos macios, castanho-avermelhados, que despontavam ligeiramente entre suas pernas abertas.

Sentei-me, admirando suas longas pernas, com a linha suave dos músculos que torneavam as coxas do quadril ao joelho e outra que se prolongava do joelho ao pé longo e elegante. As solas de seus pés eram lisas e rosadas, ligeiramente calejadas por andar descalço.

Meus dedos doíam, querendo percorrer o contorno de sua orelha pequena e bem-feita e o ângulo brusco de seu maxilar. Bem, pensei, a sorte fora lançada e não havia mais razão para me reprimir. Nada do que eu fizesse agora poderia piorar a situação, para nenhum de nós dois. Estendi a mão e toquei-o de leve.

Seu sono era muito leve. Com uma rapidez que me fez saltar, ele virou-se, apoiando-se nos cotovelos, como se fosse ficar de pé num salto. Ao me ver, relaxou, sorrindo.

- Madame, a senhora me tem em desvantagem.

Fez uma mesura bastante elegante para um homem estendido por extenso sobre faias, sem usar nada além de algumas manchas matizadas de luz solar, e eu ri. O sorriso permaneceu em seu rosto, mas mudou quando olhou para mim, nua sobre as samambaias. Sua voz ficou repentinamente rouca.

- Na verdade, madame, estou à sua mercê.

- É mesmo? - perguntei, baixinho.

Ele não se moveu, quando estendi minha mão outra vez e a deslizei lentamente pelo seu rosto e pescoço, sobre a curva brilhante do ombro e para baixo. Ele não se moveu, mas fechou os olhos.

- Meu Deus do Céu — disse. Prendeu a respiração com força.

- Não se preocupe - eu disse. - Não é preciso machucar.

- Obrigado a Deus pelas pequenas graças.

- Fique quieto.

Cravou os dedos com força na terra fofa, mas obedeceu.

- Por favor - disse, depois de algum tempo. Erguendo o rosto, vi que os olhos dele estavam abertos agora.

- Não - eu disse, divertindo-me. Fechou os olhos novamente.

- Vai pagar por isso — disse pouco tempo depois. Uma leve camada de suor brilhava na linha reta do seu nariz.

- É mesmo? - eu disse. - O que vai fazer?

Os tendões de seus antebraços saltaram quando pressionou as palmas das mãos contra o solo e ele falou com esforço, como se tivesse os dentes cerrados.

- Eu não sei, mas... por Cristo e Santa Inês... eu vou.... p-pensar em a-alguma coisa! Meu Deus! Por favor!

- Está bem - disse, soltando-o.

E dei um gritinho quando ele rolou no chão para cima de mim, prendendo-me contra as samambaias.

- Sua vez - disse, com grande satisfação.

Retornamos à hospedaria ao anoitecer, parando no topo da colina para nos certificarmos de que os cavalos da patrulha já não estavam mais amarrados no pátio.

A hospedaria parecia convidativa, a luz brilhando através das pequenas janelas e das frestas nas paredes. Os últimos raios do sol também brilhavam atrás de nós, fazendo com que tudo na encosta da colina lançasse uma sombra dupla. Uma brisa se elevava com o resfriamento do dia e as folhas agitadas das árvores faziam as múltiplas sombras dançarem na grama. Eu podia facilmente imaginar que havia fadas na colina, dançando com aquelas sombras, passando entre os troncos mais finos para se confundirem com as profundezas do bosque.

- Dougal também ainda não voltou - observei, quando descíamos a encosta. O grande capão preto que ele sempre montava não estava no pequeno cercado da estalagem. Diversos outros animais também não estavam ali; o de Ned Gowan, por exemplo.

- Não, ele não deve voltar antes de mais um dia, pelo menos. Talvez, dois. -Jamie ofereceu-me seu braço e descemos a colina devagar, com cuidado por causa das muitas pedras que se projetavam do capim curto.

- Aonde ele foi, afinal? - Na pressa dos acontecimentos recentes, não Pensara em questionar sua ausência - ou mesmo notá-la.

Jamie me ajudou a transpor a cerca aos fundos da estalagem.

— Tratar de negócios com os pequenos rendeiros das redondezas. Ele só tem um ou dois dias antes da data de entregá-la no forte. - Apertou meu braço, para me tranqüilizar. - O capitão Randall não vai ficar muito satisfeito quando Dougal lhe disser que ele não poderá ficar com você e, depois disso, Dougal não vai querer ficar se demorando nesta região.

— Bastante sensato da parte dele - observei. - Muita bondade dele também nos deixar aqui para, hã... nos conhecermos melhor.

Jamie exibiu um riso irônico.

— Não foi bondade. Foi uma das condições que estabeleci para me casar com você. Eu disse que casaria se fosse necessário, mas que jamais consumaria meu casamento embaixo de uma moita, com vinte homens do clã olhando e dando conselhos.

Parei, olhando-o fixamente. Então, esse fora o motivo de toda aquela discussão.

— Uma das condições? - perguntei, devagar. - E quais foram as outras? Estava ficando escuro demais para eu ver suas feições com clareza, mas achei que ele ficou constrangido.

— Só mais duas - disse, finalmente.

— E quais foram?

— Bem - ele disse, chutando um cascalho para fora do caminho. -Exigi que você se casasse comigo adequadamente, de kirk, diante de um padre. Não apenas no papel. Quanto à outra, ele deveria encontrar um traje adequado para você. - Desviou os olhos, evitando meu olhar, e sua voz era tão suave que eu mal podia ouvi-lo.

— Eu... eu sabia que você não queria se casar. Queria tornar isso... tão agradável quanto pudesse para você. Achei que se sentiria um pouco menos... bem, queria que você tivesse um vestido bonito, só isso.

Abri a boca para dizer alguma coisa, mas ele virou-se em direção à estalagem.

— Vamos, Sassenach — disse bruscamente. — Estou com fome.

O preço da comida era a companhia, como ficou evidente desde o instante em que surgimos à porta do salão principal da estalagem. Fomos recebidos com estrondosas saudações e apressadamente conduzidos a uma mesa, onde um farto jantar já estava em andamento.

Um pouco mais preparada desta vez, não me incomodei com as piadas e comentários grosseiros à nossa custa. Desta vez, fiquei satisfeita em poder permanecer reservada, encolhida no canto e deixando que Jamie lidasse com as brincadeiras indecentes e as especulações obscenas sobre o que andáramos fazendo o dia todo.

- Dormindo — disse Jamie, em resposta a uma pergunta desse tipo. -Não preguei o olho a noite passada. - As sonoras gargalhadas que ressoaram depois disso foram ultrapassadas por outras ainda mais estrondosas quando ele acrescentou em tom confidencial. — Ela ronca, sabe.

Eu dei um puxão em sua orelha e ele me agarrou e me beijou espalhafatosamente, para os aplausos gerais.

Depois do jantar, houve dança, ao som do violino do proprietário. Nunca fui uma grande dançarina, tendo a tendência a tropeçar nos próprios pés nos momentos de estresse. Não esperava me sair melhor, com aquelas saias longas e volumosas e calçados tão desajeitados. No entanto, depois de tirar os sapatos, fiquei surpreendida de ver que dançava sem a menor dificuldade e com grande prazer.

Com a falta de outras mulheres, a estalajadeira e eu prendemos nossas saias e nos entregamos a danças típicas escocesas sem parar, até eu ter que recostar-me no banco de espaldar alto, o rosto vermelho e ofegante.

Os homens eram absolutamente infatigáveis, girando como piões de xadrez, sozinhos ou uns com os outros. Por fim, recostaram-se contra a parede, observando, animando com exclamações e batendo palmas, enquanto Jamie segurava minhas duas mãos e me conduzia por algo rápido e frenético chamado "O galo do norte".

Terminando propositalmente ao pé da escada, giramos num abraço, com seu braço em volta da minha cintura. Paramos e ele fez um pequeno discurso, misto de gaélico e inglês, que foi recebido com mais aplausos, particularmente quando ele enfiou a mão na bolsa à cintura e atirou uma pequena bolsa de couro surrado para o proprietário, instruindo-o para servir uísque enquanto o dinheiro desse. Reconheci-a como sua parte das apostas na briga em Tunnaig. Provavelmente, todo o dinheiro que tinha no mundo; achei que não poderia ter sido gasto de forma melhor.

Conseguimos chegar à galeria em cima, seguidos por uma chuva de felicitações indelicadas, quando uma voz mais alta do que as outras chamou Jamie pelo nome.

Virando-se, vi o rosto largo de Rupert, mais vermelho do que de costume acima do emaranhado de barba preta, sorrindo para nós.

- Não adianta, Rupert -Jamie gritou. - Ela é minha.

- Desperdiçada com você, rapaz - Rupert retorquiu, enxugando o rosto na manga da camisa. - Ela vai deixá-lo no chão em uma hora. Não dão conta do recado, esses rapazinhos - disse, dirigindo-se a mim. - Se quiser um homem que não perde tempo dormindo, dona, me avise. Enquanto isso... - Atirou alguma coisa para cima.

Uma sacolinha cheia retiniu no chão aos meus pés. -- Um presente de casamento - disse. — Cortesia dos homens do Regimento Shimi Bogil.

- Hein? - Jamie inclinou-se para pegá-la.

- Alguns de nós não passamos o dia por aí à toa nas margens gramadas dos rios, rapaz - disse, com ar de reprovação, revirando os olhos libidinosamente em minha direção. - Esse dinheiro foi ganho com suor.

- Ah, sim - Jamie disse, rindo. - Dados ou cartas?

- Ambos. - Um riso maldoso cortou a barba negra. - Nós os depenamos, rapaz. Tiramos o couro deles!

Jamie abriu a boca, mas Rupert ergueu a mão avantajada e calosa.

- Não, rapaz, não precisa agradecer. Só dê uma boa por mim, hein? Coloquei os dedos nos lábios e joguei um beijo para ele. Batendo a mão no rosto como se tivesse sido atingido por alguma coisa, cambaleou para trás com uma exclamação e girou nos calcanhares em direção ao bar, oscilando como se estivesse bêbado, o que não estava.

Depois de toda a brincadeira lá embaixo, o quarto pareceu um paraíso de paz e sossego. Jamie, ainda rindo consigo mesmo, esparramou-se na cama para recuperar o fôlego.

Soltei meu corpete, que era desconfortavelmente apertado, e sentei-me para pentear meus cachos desalinhados e embaraçados com a dança.

- Você tem lindos cabelos — Jamie disse, observando-me.

- O quê? Estes? — Ergui uma das mãos para as minhas mechas que, como sempre, podiam ser educadamente descritas como emaranhadas.

Ele riu.


- Bem, gosto do outro também - disse, deliberadamente sério - mas, sim, estes mesmos.

- Mas é tão... encaracolado - eu disse, um pouco ruborizada.

- Sim, claro. - Pareceu surpreso. - Ouvi uma das meninas de Dougal dizer a uma amiga no castelo que ela levaria três horas com as pinças quentes para fazer os cabelos dela ficarem parecidos com os seus. Disse que gostaria de arrancar seus olhos por ter essa aparência e não precisar mover um dedo para isso. — Sentou-se e puxou suavemente um cacho, esticando-o de modo que, reto, chegasse quase ao meu seio. — O cabelo de minha irmã Jenny também é ondulado, mas não tanto quanto os seus.

- Os cabelos de sua irmã são ruivos como os seus? - perguntei, tentando visualizar a aparência da misteriosa Jenny. Ela parecia estar sempre presente na mente de Jamie.

Sacudiu a cabeça, ainda enrolando os cachos entre seus dedos.

- Não. Os cabelos de Jenny são negros. Negros como a noite. Sou ruivo como minha mãe e Jenny puxou ao meu pai. Brian Dhu, como o chamavam, ou "Black Brian", por causa do seu cabelo e da sua barba.

- Ouvi dizer que o capitão Randall é chamado de "Black Jack, arrisquei. Jamie riu sem humor.

- Ah, sim. Mas isso se refere à cor de sua alma, não de seus cabelos." Seus olhos aguçaram-se ao abaixar os olhos para mim.

- Você não está preocupada com ele, está, Sassenach? Não devia estar. - Suas mãos deixaram meus cabelos e seguraram meus ombros possessivamente.

- Falo sério, você sabe — disse meigamente. - Eu vou protegê-la. Dele de qualquer outra pessoa. Até a última gota do meu sangue, mo duinne.

- Muduinne? — perguntei, um pouco perturbada pela intensidade de suas palavras. Não queria ser responsável por qualquer derramamento de seu sangue, última ou primeira gota.

- Significa "minha morena". — Levou uma mecha dos meus cabelos aos lábios e sorriu, com uma expressão nos olhos que fez com que todas as gotas do meu próprio sangue começassem a perseguir umas às outras em minhas veias. - Mo duinne — repetiu docemente. - Há muito queria chamá-la assim.

- Uma cor um pouco sem vida, o castanho, sempre achei — eu disse, de maneira prática, tentando adiar um pouco os acontecimentos. Eu continuava com a sensação de estar sendo levada de roldão, com muito mais rapidez do que gostaria.

Jamie sacudiu a cabeça, ainda sorrindo.

- Não, eu não diria isso, Sassenach. Nem um pouco sem vida. -Levantou um punhado dos meus cabelos com as duas mãos e espalhou-o. -É como a água em um riacho, quando se encrespa sobre as rochas. Escura nos locais ondeados, com toques de prata na superfície, onde o sol bate.

Nervosa e um pouco ofegante, afastei-me para pegar o pente que deixara cair no chão. Ao levantar, deparei-me com Jamie, olhando-me fixamente.

- Eu disse que não lhe perguntaria nada que não quisesse me dizer — falou - e não o farei, mas tiro minhas próprias conclusões. Colum achou que você talvez fosse uma espiã inglesa, embora não conseguisse imaginar, nesse caso, por que não entende o gaélico. Dougal acha que é provável que você seja uma espiã francesa, talvez em busca de apoio ao rei Jaime. Mas nesse caso, ele não pode imaginar por que você estava sozinha.

- E você? - perguntei, puxando com força uma mecha teimosa. - O que acha que eu sou?

Inclinou a cabeça, avaliando, examinando-me com atenção. -- Na aparência, poderia ser francesa. Você possui aqueles belos ossos do rosto das mulheres de Angevin. No entanto, as mulheres francesas em geral têm uma cor de pele amarelada e sua pele parece opala. - Deslizou o dedo lentamente pela curva da minha clavícula e senti minha pele resplandecer sob seu toque.

O dedo moveu-se para meu rosto, desenhando o contorno da têmpora à face, alisando os cabelos para trás da orelha. Permaneci imóvel sob seu escrutínio, tentando não me mexer quando sua mão passou para trás do meu pescoço, o polegar acariciando delicadamente o lóbulo da minha orelha.

- Olhos dourados; vi um par de olhos assim uma vez... em um leopar-do. — Sacudiu a cabeça. — Não, Sassenach. Você poderia ser francesa, mas não é.

- Como sabe?

- Conversei muito com você; e também a ouvi falar. Dougal pensa que é francesa porque você fala francês bem, muito bem.

- Obrigada - eu disse, sarcasticamente. — E o fato de eu falar francês bem prova que não sou francesa?

Sorriu e apertou levemente o meu pescoço.

- Vous parlez três bien, mas não tão bem quanto eu — acrescentou, voltando ao inglês. Soltou-me de repente. - Passei um ano na França, quando deixei o castelo, e mais dois anos depois, com o exército. Conheço um francês de nascença quando ouço um. E o francês não é sua língua materna. - Sacudiu a cabeça devagar.

- Espanhola? Talvez, mas por quê? A Espanha não tem interesses nas Highlands. Alemã? Certamente, não. - Deu de ombros. - Quem quer que seja, os ingleses iriam querer descobrir. Não podem se dar ao luxo de terem desconhecidos soltos por aí, com os clãs agitados e o príncipe Carlos esperando para voltar da França. E seus métodos de averiguação não são nada agradáveis. Tenho motivos para saber.

- Então, como sabe que não sou uma espiã inglesa? Dougal achou que eu era, você mesmo disse.

- É possível, embora o inglês que você fala também seja mais do que um pouco estranho. Entretanto, se fosse uma espiã, por que iria preferir casar-se comigo a voltar para seu próprio povo? Essa foi mais uma razão para Dougal fazer você se casar comigo, para ver se iria fugir ontem à noite, quando chegasse a hora.

- E eu não fugi. Então, o que isso prova?

Ele riu e deitou-se de costas na cama, um braço sobre os olhos para protegê-los da luz do lampião.

- Não faço a mínima idéia, Sassenach. Não faço a mínima idéia. Não consigo imaginar nenhuma explicação razoável para você. Pelo que sei, deve ser alguém do Povo Pequeno. — Lançou-me um olhar de esguelha por baixo do braço. — Não, acho que não. Você é alta demais.

- Não tem medo que eu possa matá-lo durante o sono uma noite, se não souber quem eu sou?

Não respondeu, mas retirou o braço de cima dos olhos e seu sorriso ampliou-se. Seus olhos devem ser do lado dos Fraser, pensei. Não eram fundos como os olhos dos MacKenzie, possuíam um ângulo estranho, e as altas maçãs do rosto faziam-me parecer quase puxados.

Sem dificuldade para erguer a cabeça, abriu a frente de sua camisa e afastou o tecido, deixando o peito nu até a cintura. Tirou a adaga da bainha e jogou-a para mim. Caiu com um baque surdo aos meus pés.

Colocou o braço sobre os olhos de novo e esticou a cabeça para trás, mostrando o lugar onde a barba escura por fazer parava repentinamente, logo abaixo do maxilar.

- Direto para cima, logo embaixo do esterno - instruiu. - Rápido e limpo, embora seja necessário um pouco de força. Cortar a garganta é fácil, mas faz uma grande sujeira.

Inclinei-me para pegar a adaga.

- Seria bem-feito para você se eu o fizesse - observei. - Filho-da-mãe convencido.

O sorriso visível por baixo da curva do seu braço ampliou-se ainda mais.

- Sassenach?

Parei, a adaga ainda nas mãos.

- O quê?

- Eu morreria feliz.






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