A viajante do tempo


- UM CASAMENTO É CELEBRADO



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14 - UM CASAMENTO É CELEBRADO
Havia um teto baixo, de vigas largas, acima de mim quando acordei, e uma colcha grossa cuidadosamente cobrindo-me até o queixo. Eu parecia estar vestida apenas com minhas roupas de baixo. Comecei a me sentar para procurar minhas roupas, mas mudei de opinião no meio da operação. Deitei-me novamente, bem devagar, fechei os olhos e segurei a cabeça para impedir que saísse rolando do travesseiro e batesse no chão.

Acordei novamente, algum tempo depois, quando a porta do quarto se abriu. Entreabri um olho, cautelosamente. Um vulto ondulante definiu-se aos poucos na figura circunspecta de Murtagh, olhando-me com desaprovação do pé da cama. Fechei o olho. Ouvi um ruído escocês abafado, provavelmente indicando uma expressão horrorizada, mas quando olhei de novo ele se fora.

Estava começando a recair num agradável estado de inconsciência quando a porta abriu-se novamente, desta vez revelando uma mulher de meia-idade que deduzi tratar-se da mulher do estalajadeiro, carregando um jarro de água e uma bacia.

Entrou alegremente no quarto, fazendo barulho, e abriu as persianas com uma forte batida, que reverberou pela minha cabeça como a colisão de um tanque. Avançando sobre a cama como uma divisão panzer, arrancou a colcha do frágil aperto da minha mão e atirou-a para o lado, deixando-me trêmula e exposta.

— Vamos, meu bem - ela disse. - Temos de aprontá-la agora. - Passou um braço troncudo pelos meus ombros e me içou à posição sentada. Segurei a cabeça com uma das mãos e o estômago com a outra.

- Aprontar? - disse, com um gosto de ressaca na boca. A mulher começou a lavar meu rosto com energia.

— Ah, sim — disse. — Não vai querer perder seu próprio casamento, vai?

- Vou, sim - disse, mas fui ignorada enquanto ela me despia sem a menor cerimônia e me colocava de pé no meio do assoalho para cuidados mais íntimos.

Um pouco depois, sentei-me na cama, totalmente vestida, sentindo-me confusa e beligerante, mas graças a uma taça de vinho do porto oferecida pela dona da casa, consegui pelo menos parecer funcional. Bebi cuidadosamente uma segunda dose, enquanto a mulher enfiava um pente pelos cachos desgrenhados do meu cabelo.

Dei um salto e estremeci, entornando o porto, quando a porta abriu-se com um estrondo mais uma vez. Uma coisa atrás da outra, pensei com ódio. Desta vez, era uma visita dupla, Murtagh e Ned Gowan, com os mesmos olhares de desaprovação. Troquei olhares com Ned enquanto Murtagh entrava no quarto e, rodeando a cama bem devagar, inspecionava-me de todos os ângulos. Voltou para Ned e murmurou alguma coisa em um tom de voz baixo demais para que eu pudesse ouvir. Com um último olhar de desespero em minha direção, fechou a porta atrás deles.

Finalmente, meus cabelos estavam penteados ao agrado da mulher, puxados para trás e enrolados num coque no alto da cabeça, com alguns cachos soltos caindo nas costas e anéis à frente de minhas orelhas. Parecia que meu couro cabeludo iria se soltar com a tensão dos cabelos puxados para trás e para cima, mas o efeito no espelho que a mulher me ofereceu era inegavelmente apropriado. Comecei a me sentir um pouco mais humana e até consegui agradecer-lhe por seus esforços. Deixou o espelho comigo e foi embora, comentando que era uma bênção se casar no verão, não?, já que haveria muitas flores para os meus cabelos.

- Nós que estamos prestes a morrer - disse à minha imagem refletida, esboçando uma saudação no espelho. Deixei-me cair sobre a cama, cobri o rosto com um pano úmido e voltei a dormir.

Estava tendo um sonho bastante agradável, algo a ver com campos cobertos de flores silvestres, quando percebi que o que eu considerara uma brisa refrescante esvoaçando as mangas do meu vestido era um par de mãos não tão delicadas. Sentei-me num solavanco, chacoalhando cegamente.

Quando consegui abrir os olhos, vi que meu pequeno quarto agora se parecia a uma estação do metrô, com rostos de parede a parede: Ned Gowan, Murtagh, o estalajadeiro, a mulher do estalajadeiro e um rapaz magro, que vinha a ser o filho do estalajadeiro, com os braços cheios de diversos tipos de flores, responsáveis pelo aroma em meu sonho. Havia também uma mulher jovem, armada com um cesto de vime redondo, que me sorriu amavelmente, exibindo a ausência de vários dentes importantes.

Essa mulher, como se viu em seguida, era a costureira da vila, recrutada para reparar as deficiências do meu guarda-roupa fazendo ajustes em um vestido, obtido sem aviso prévio de algum contato local do dono da estalagem. Ned carregava o vestido em questão, pendurado de uma das mãos como um animal morto. Alisado sobre a cama, viu-se que era um vestido longo, com um decote na frente, de cetim grosso, na cor creme, com um corpete separado que se abotoava com dezenas de botões recobertos com mesmo tecido, cada qual bordado com uma flor-de-lis em fio de ouro. A linha do decote e as mangas em forma de sino eram ricamente ornadas com rendas, assim como a sobressaia bordada, de veludo cor de chocolate. O estalajadeiro estava semi-enterrado nas anáguas que carregava, as costeletas eriçadas quase desaparecidas sob as camadas vaporosas.

Olhei para a mancha de vinho do porto na minha saia de sarja cinza e a vaidade venceu. Se eu devia de fato me casar, não queria fazê-lo parecendo uma criada da vila.

Após um curto espasmo de atividade frenética, comigo parada como um manequim de costureira e todos os outros correndo de um lado para o outro pegando, carregando, criticando e tropeçando uns nos outros, o produto final ficou pronto, completo com ásteres brancas e rosas amarelas presas nos meus cabelos e um coração batendo loucamente por baixo do corpete de renda. O ajuste não estava absolutamente perfeito e o vestido ainda tinha um cheiro um pouco forte da proprietária anterior, mas o cetim era pesado e fazia um ruge-ruge fascinante em torno dos meus pés, sobre as camadas de anáguas. Senti-me uma rainha e bastante bonita.

- Não pode me obrigar a fazer isso, você sabe - sibilei ameaçadora-mente para as costas de Murtagh enquanto o seguia pelas escadas, mas tanto ele quanto eu sabíamos que minhas palavras não passavam de bravata vazia. Se alguma vez eu tivera a força de caráter de desafiar Dougal e arriscar a sorte com os ingleses, ela se esvaíra com o uísque.

Dougal, Ned e o resto estavam no salão principal da taberna ao pé das escadas, bebendo e trocando amenidades com alguns habitantes da vila que não pareciam ter nada melhor a fazer com sua tarde do que ficar por ali à toa, embebedando-se.

Dougal avistou-me descendo devagar e repentinamente parou de falar. Os outros também fizeram silêncio e eu flutuei até o térreo numa gratificante áurea de reverente admiração. Os olhos fundos de Dougal cobriram-me lentamente da cabeça aos pés e retornaram ao meu rosto com um aceno de reconhecimento sem nenhum sinal de rancor.

Em virtude dos acontecimentos, já fazia algum tempo desde que um homem olhara para mim daquela forma e eu também respondi com um gracioso aceno de cabeça.

Após o primeiro instante de silêncio, os demais presentes na taberna começaram a expressar sua admiração e até Murtagh se permitiu um ligeiro sorriso, balançando a cabeça, satisfeito com os resultados de seus esforços. E quem foi que o nomeou editor de moda? Pensei, de modo irritante. Ainda assim, tinha que admitir que ele era o responsável por eu não me casar de sarja cinza.

Casar. Ah, meu Deus. Temporariamente encorajada pelo vinho do porto e pelas rendas de cor creme, conseguira momentaneamente ignorar o significado da ocasião. Segurei com força o corrimão quando a súbita compreensão me atingiu como um soco no estômago.

Relanceando os olhos pela multidão, entretanto, notei uma flagrante ausência. Meu noivo não estava em nenhum lugar à vista. Alentada pelo pensamento de que ele pudesse ter escapado por alguma janela e estar a quilômetros de distância a essa altura, aceitei uma última taça de vinho do proprietário antes de seguir Dougal para fora.

Ned e Rupert foram buscar os cavalos. Murtagh desaparecera em algum lugar, talvez atrás de pistas de Jamie.

Dougal segurava-me pelo braço; ostensivamente para me apoiar, com receio de que eu tropeçasse em minhas sapatilhas de cetim, mas na verdade para evitar qualquer tentativa de fuga de última hora.

Era um "quente" dia escocês, significando com isso que a névoa não estava suficientemente forte para ser qualificada de garoa, mas não muito longe disso, tampouco. De repente, a porta da estalagem se abriu e o sol surgiu, na pessoa de Jamie. Se eu era uma noiva radiante, o noivo era sem dúvida resplandecente. Fiquei de boca aberta e assim permaneci.

Um escocês das Highlands em roupas de gala é uma visão impressionante - qualquer um, por mais velho, feio ou desgracioso que seja. Um jovem escocês das Highlands, alto, empertigado e de forma alguma desgracioso, visto de perto é de se perder o fôlego.

Os fartos cabelos vermelho-dourados haviam sido escovados até adquirirem um aspecto brilhante e macio que roçava o colarinho de uma elegante camisa de linho fino com a frente de pregas, mangas em forma de sino, punhos de babados enfeitados de renda, combinando com a cascata de babados e renda do jabô engomado, preso na altura da garganta e ornamentado com um alfinete de rubi.

Seu tartã era de um xadrez vermelho vivo e preto que ofuscava o mais sereno verde e branco dos MacKenzie. A lã flamejante, amarrada por um broche redondo de prata, caía de seu ombro direito num drapejo gracioso, preso por um cinto de espada cravejado de tachas de prata, antes de continuar seu volteio pelas panturrilhas elegantemente recobertas por meias de lã e parando logo acima das botas de couro preto com fivela de prata. Espada, adaga e bolsa de pele de texugo completavam o traje.

Com quase um metro e noventa de altura, de ombros largos e traços marcantes, ele estava longe de se parecer com o sujo domador de cavalos com quem eu estava acostumada - e ele sabia disso.

Com um gesto elegante, fez uma reverência impecável para mim, murmurando "A seu serviço, madame", os olhos brilhando de malícia.

- Ah! - exclamei, quase desmaiando.

Nunca antes vira o taciturno Dougal embaraçado, sem conseguir encontrar palavras. As sobrancelhas grossas franzidas num rosto afogueado, parecia, a seu modo, tão surpreso quanto eu com essa aparição.

- Está louco, homem? — disse, finalmente. — E se alguém o vir? Jamie arqueou uma sobrancelha sarcasticamente para o homem mais velho.

— Ora, tio — disse. — Insultos? E além do mais no dia do meu casamento? Não ia querer que eu envergonhasse minha mulher, não é? Além disso - acrescentou com um brilho malicioso nos olhos -, acho que o casamento nem seria legítimo se eu não me casasse no meu próprio nome. E você quer que seja, não é?

Com um evidente esforço, Dougal recuperou seu autocontrole.

— Se já terminou, Jamie, podemos continuar - disse.

Mas Jamie ainda não havia terminado, ao que parecia. Ignorando a fúria de Dougal, retirou um colar de contas brancas de sua bolsa. Deu um passo à frente e fechou o colar em volta do meu pescoço. Olhando para baixo, pude ver que era um colar de pequenas pérolas barrocas, aquelas contas de forma irregular que são produto de moluscos de água doce, entremeadas com minúsculas contas de ouro. Pérolas menores pendiam das contas de ouro.

- São apenas pérolas escocesas - disse, desculpando-se -, mas ficam lindas em você. - Seus dedos demoraram-se um pouco no meu pescoço.

— Essas pérolas eram de sua mãe! — disse Dougal, olhando para as pérolas com ar ameaçador.

- Sim - disse Jamie calmamente. - E agora são de minha mulher. Podemos ir?

Onde quer que estivéssemos indo, ficava a alguma distância da vila. Formávamos um grupo de casamento um tanto carrancudo, o casal de noivos rodeados pelos demais como condenados que estavam sendo escoltados para alguma prisão distante. A única conversa foi uma desculpa de Jamie, em voz baixa, por ter chegado atrasado, explicando que houve alguma dificuldade em encontrar uma camisa limpa e um casaco grande que coubesse nele.

- Acho que esta pertence ao filho do escudeiro local - disse, agitando o jabô de renda. - Um pouco almofadinha, me parece.

Desmontamos e deixamos os cavalos no sopé de um pequeno monte. Uma trilha em meio às urzes levava para cima.

- Tomou todas as providências? - ouvi Dougal dizer em voz baixa para Rupert, quando amarravam os animais.

- Ah, sim. - Viu-se um clarão de dentes na barba negra. - Foi um pouco difícil convencer o padre, mas nós lhe mostramos a licença especial-- Bateu na bolsa à cintura, que retiniu musicalmente, dando-me uma idéia da natureza da licença especial.

Em meio à garoa e à névoa, avistei a capela projetando-se das urzes. Com uma sensação de completa incredulidade, vi a cúpula arredondada e as estranhas janelas com muitas vidraças pequenas, que eu vira na brilhante manhã ensolarada do meu casamento com Frank Randall.

- Não! — exclamei. — Aqui não! Não posso!

- Shh, vamos, shh. Não se preocupe, dona, não se preocupe. Tudo vai dar certo. - Dougal colocou a mão grande sobre meu ombro, produzindo sons tranqüilizadores em escocês, como se eu fosse um cavalo arisco. - É natural um pouco de nervosismo — disse para todos nós. A outra mão firme na minha cintura instava-me a continuar subindo a trilha. Meus sapatos afundavam-se na camada úmida de folhas caídas.

Jamie e Dougal caminhavam junto a mim, um de cada lado, para evitar uma fuga. Suas dominantes presenças eram intimidantes e senti uma crescente sensação de histeria. Duzentos anos à frente, mais ou menos, eu me casara naquela capela, encantada na época com sua natureza antiga e pitoresca. A capela agora estava estalando de nova, as tábuas ainda não estavam assentadas com aquele charme que iria adquirir ao longo do tempo, e eu estava prestes a casar com um escocês de vinte e três anos, católico e virgem, com a cabeça a prêmio, cujo...

Virei-me para Jamie, repentinamente em pânico.

- Não posso me casar com você! Eu nem sei seu sobrenome! Olhou para mim e arqueou uma sobrancelha ruiva.

- Ah. É Fraser. James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser. — Pronunciou-o formalmente, cada nome devagar e distintamente.

Completamente perturbada, eu disse, estendendo a mão tolamente.

- Claire Elizabeth Beauchamp.

Aparentemente tomando o gesto como um pedido de apoio, segurou minha mão e enfiou-a firmemente na dobra do seu braço. Assim irremediavelmente presa, continuei caminhando em silêncio para o meu casamento.

Rupert e Murtagh esperavam por nós na capela, montando guarda ao lado do padre prisioneiro, um jovem sacerdote alto e magro, com um nariz vermelho e uma expressão justificadamente aterrorizada. Rupert indolentemente tirava lascas de um raminho de salgueiro com uma faca grande e, embora tivesse posto de lado suas pistolas de cabo de chifre quando entrou na igreja, elas permaneciam ao alcance da mão na beira da pia batismal.

Os outros homens também se desarmaram, como era próprio na casa de Deus, deixando uma pilha de letalidade impressionantemente rutilante no banco da igreja. Somente Jamie conservou sua adaga e sua espada, provavelmente como uma parte cerimonial de seu traje.

Ajoelhamo-nos diante do altar de madeira, Murtagh e Dougal assumiam seus lugares como testemunhas e a cerimônia começou.

O formato da cerimônia de casamento católica não mudou muito em várias centenas de anos e as palavras unindo-me ao estranho ruivo a meu lado, eram basicamente as mesmas que haviam consagrado meu casamento com Frank. Sentia-me como uma concha oca e fria. As palavras balbuciadas pelo jovem padre ecoavam em algum lugar vazio da boca do meu estômago.

Levantei-me automaticamente quando chegou a hora dos votos observando numa espécie de entorpecido fascínio meus dedos gelados desaparecerem nas mãos poderosas do meu noivo. Seus dedos estavam tão frios quanto os meus e ocorreu-me pela primeira vez que, apesar da aparência exterior calma, ele devia estar tão nervoso quanto eu.

Até então eu evitara olhar para ele, mas agora ergui os olhos e deparei-me com ele fitando-me intensamente. Seu rosto estava lívido e cuidadosamente impassível; tinha a mesma expressão de quando eu tratara o ferimento em seu ombro. Tentei sorrir-lhe, mas os cantos da minha boca oscilaram precariamente. A pressão dos seus dedos nos meus aumentou. Tive a impressão de que um estava sustentando o outro; se um de nós soltasse a mão ou desviasse os olhos, ambos cairiam. Estranhamente, a sensação era reconfortante. Onde quer que estivéssemos nos metendo, ao menos estávamos juntos nisso.

— Eu a aceito, Claire, como minha esposa... — Sua voz não tremia, mas sua mão sim. Segurei seus dedos com mais força. Nossos dedos rígidos apertavam-se como tábuas num torno de bancada. -...amar, honrar e proteger... nos bons e nos maus momentos... - As palavras vinham de longe. O sangue esvaía-se da minha cabeça. O corpete com barbatanas era infernalmente justo e, embora eu sentisse frio, o suor escorria pelo meu corpo por baixo do cetim. Esperava não desmaiar.

Havia uma pequena janela de vitral bem alta na parede ao lado do santuário, uma representação rústica de São João Batista com sua capa de pele de urso. Sombras verdes e azuis flutuavam sobre a manga do meu vestido, fazendo-me lembrar do salão da taberna e desejei um drinque fervorosamente.

Minha vez. Gaguejei um pouco, o que me deixou furiosa. - Eu o recebo, James... - Empertiguei-me. Jamie terminara a sua parte com bastante credibilidade. Eu poderia tentar fazer o mesmo. -...para amar e proteger, de hoje em diante... - Minha voz fortaleceu-se.

- Até que a morte nos separe. - As palavras ressoaram na capela silenciosa com um caráter surpreendentemente definitivo. Tudo estava imóvel, como uma imagem congelada. Então, o sacerdote pediu a aliança.

Houve uma agitação repentina e, de relance, vi a expressão arrasada no rosto de Murtagh. Mal registrei o fato de que alguém se esquecera de providenciar um anel, quando Jamie soltou minha mão o tempo suficiente para retirar um anel do próprio dedo.

Eu ainda usava a aliança de Frank na mão esquerda. Os dedos da mão direita pareciam congelados, descorados e rígidos na mancha de luz azul, quando um largo aro de metal passou pelo meu dedo anular. Ficou solto no dedo e teria caído se Jamie não dobrasse meus dedos e envolvesse minha mão fechada outra vez na sua.

Mais murmúrios do padre e Jamie inclinou-se para beijar-me. Era óbvio que ele pretendia apenas um breve e formal toque de lábios, mas sua boca era macia e quente e eu instintivamente me aproximei e correspondi Percebi vagamente alguns ruídos, gritos escoceses de entusiasmo e incentivo da platéia, mas na verdade não notei nada além da envolvente e cálida solidez dos seus lábios.

Separamo-nos, ambos um pouco mais serenos, e sorri nervosamente. Vi Dougal tirar a adaga de Jamie da bainha e perguntei-me qual seria a razão. Ainda olhando para mim, Jamie estendeu a mão direita, palma para cima. Prendi o ar de repente quando a ponta da adaga fez um corte profundo em seu pulso, deixando uma linha escura do sangue que aflorava. Não houve tempo de recuar antes que a minha própria mão fosse agarrada e eu sentisse o corte ardente da lâmina. Rapidamente, Dougal pressionou meu pulso ao de Jamie e enfaixou-os juntos com uma tira de linho branco.

Devo ter cambaleado um pouco, porque Jamie segurou-me pelo braço com a mão esquerda livre.

- Agüente firme - disse baixinho. - Falta pouco agora. Repita as palavras depois de mim. — Era um pequeno texto em gaélico, duas ou três frases. As palavras não significavam nada para mim, mas as repeti obedientemente depois de Jamie, tropeçando nas vogais escorregadias. A tira de linho foi desamarrada, os cortes enxugados e limpos, e estávamos casados.

Havia uma sensação geral de alívio e satisfação no caminho de volta pela trilha. Parecia uma alegre festa de casamento qualquer, apesar de pequena, e composta inteiramente de homens, à exceção da noiva.

Estávamos quase ao sopé da colina, quando a falta de comida, os remanescentes de uma ressaca e o estresse geral do dia me venceram. Deitei-me nas folhas úmidas, a cabeça no colo do meu novo marido. Ele colocou de lado o pano úmido com que estivera limpando meu rosto.

-- Foi tão ruim assim? - perguntou rindo para mim, mas seus olhos guardavam uma certa expressão que me sensibilizou, apesar de tudo. Sorri tremulamente em resposta.

- Não é você - afirmei. - É que... acho que não comi nada desde o desjejum de ontem. E receio que tenha bebido muito.

Sua boca contraiu-se.

- Ouvi dizer. Bem, isso eu posso remediar. Não tenho muito a oferecer a uma esposa, como eu disse, mas prometo que vou mantê-la alimentada. - Sorriu e timidamente afastou com o dedo indicador um cacho caído em meu rosto.

Comecei a me sentar e fiz uma careta diante de uma leve queimação no meu pulso. Havia me esquecido dessa última parte da cerimônia. O corte se abrira, sem dúvida em resultado da queda que eu sofrera. Peguei o pano de Jamie e amarrei-o desajeitadamente em volta do pulso.

- Achei que fora isso que a fez desmaiar - disse, observando. - Eu deveria tê-la avisado; não percebi que não estava esperando por isso até ver seu rosto.

- O que era, exatamente? - perguntei, tentando enfiar as pontas por baixo do pano.

- É um pouco pagão, mas é tradição por aqui fazer um voto de sangue, juntamente com a cerimônia normal. Alguns padres não a aceitam mas acho que esse não iria se opor a nada. Parecia tão assustado quanto eu me sentia — disse, sorrindo.

- Um voto de sangue? O que as palavras significavam?

Jamie segurou minha mão direita e delicadamente prendeu a ponta da atadura improvisada.

- Dizem o seguinte:

Você é sangue do meu sangue e ossos dos meus ossos. Dou-lhe meu corpo, para que nós dois sejamos um só. Dou-lhe meu espírito, até o fim de nossas vidas.

Encolheu os ombros.

- Mais ou menos como os votos normais, apenas um pouco mais... ah, primitivos.

Olhei para meu pulso enfaixado.

- Sim, acho que se pode dizer isso.

Olhei ao redor; estávamos sozinhos na trilha, sob um álamo. As folhas arredondadas,. mortas, espalhavam-se pelo chão, brilhando na umidade como moedas enferrujadas. Estava muito silencioso, exceto pelo respingo ocasional de gotas d'água caindo das árvores.

- Onde estão os outros? Voltaram para a hospedaria? Jamie fez uma careta.

- Não. Eu mandei que se afastassem para poder cuidar de você, mas estarão esperando por nós logo ali embaixo. — Indicou com um movimento do queixo, à moda de um homem do campo. - Não vão nos deixar sozinhos até que tudo esteja oficializado.

- É mesmo? — disse, sem compreender. - Estamos casados, não estamos. Ele pareceu constrangido, desviando o rosto e cuidadosamente afastando folhas mortas de seu kilt.

- Hum, hum. Sim, estamos casados, sem dúvida. Mas não está sacramentado, sabe, enquanto não for consumado. - Um rubor lento e intenso subiu de seu jabô de renda.

- Hum, hum - repeti. - Vamos procurar alguma coisa para comer.


15 - REVELAÇÕES DO QUARTO NUPCIAL
Na hospedaria, a comida já estava servida, na forma de um modesto banquete de casamento, incluindo vinho, pães frescos e rosbife. Dougal segurou-me pelo braço quando me dirigi às escadas para lavar o rosto antes de comer.

- Quero este casamento consumado, sem que paire nenhuma dúvida - Dougal me instruiu com firmeza em meia-voz. — Não pode haver dúvida de que se trata de uma união legal, sem deixar brechas para uma anulação ou todos nós estaremos arriscando nossos pescoços.

- Parece-me que você está fazendo isso de qualquer forma - observei, mal-humorada. - O meu, principalmente.

Dougal deu uns tapinhas com firmeza no meu traseiro.

- Não se preocupe com isso; faça a sua parte. — Olhou-me de cima a baixo com ar crítico, como se julgasse minha capacidade de desempenhar meu papel adequadamente.

- Conheci o pai de Jamie. Se o rapaz for parecido com ele, você não vai ter nenhum problema. Ah, Jamie! - Atravessou a sala apressadamente, para onde Jamie acabara de chegar, depois de ter ido guardar os cavalos na estrebaria. Pela expressão no rosto de Jamie, ele também estava recebendo suas ordens.

Como, em nome de Deus, isso veio a acontecer? Perguntei a mim mesma algum tempo depois. Há seis semanas, eu estava inocentemente colhendo flores silvestres em uma colina da Escócia para levar para casa para o meu marido. Agora, estava trancada em um quarto de uma hospedaria rural. Aguardando um marido completamente diferente, que eu mal conhecia, com ordens rígidas de consumar um casamento forçado, sob o risco de minha própria vida e liberdade.

Sentei-me na cama, tensa e aterrorizada em minhas finas roupas emprestadas. Ouviu-se um leve ruído quando a pesada porta do quarto abriu-se e, em seguida, se fechou novamente.

Jamie recostou-se na porta, observando-me. O ar de constrangimento de nós dois aprofundou-se. Foi Jamie quem finalmente quebrou o silêncio.

-- Não precisa ter medo de mim — disse suavemente. — Não ia pular em cima de você. - Ri involuntariamente.

- Bem, não achei que o faria. - Na verdade, não achei que fosse tocar em mim, a menos que eu o convidasse; o fato é que eu teria que convidá-lo a fazer consideravelmente mais do que isso, e logo.

Olhei para ele, em dúvida. Acho que seria mais difícil se eu não o achasse atraente; na realidade, acontecia o oposto. Ainda assim, eu não dormira com nenhum outro homem além de Frank em mais de oito anos. Não apenas isso, este jovem, como ele mesmo dissera, era completamente inexperiente. Eu nunca deflorara ninguém antes. Mesmo descartando minhas objeções a todo o arranjo, e considerando a questão de um ponto de vista inteiramente prático, como deveríamos começar? Naquele passo, ainda estaríamos ali de pé, olhando um para o outro, daqui a três ou quatro dias.

Clareei a garganta e bati na cama a meu lado.

- Ah, gostaria de se sentar?

- Sim. - Atravessou o quarto, locomovendo-se como um gato gigante. No entanto, ao invés de sentar-se ao meu lado, puxou um banco e sentou-se diante de mim. Um pouco sem jeito, ele estendeu os braços e tomou minhas mãos entre as suas. Eram mãos grandes, de dedos fortes, e muito quente, as costas das mãos ligeiramente cobertas de cabelos ruivos. Senti um leve choque ao contato e lembrei-me de uma passagem do Velho Testamento: "Pois a pele de Jacó era lisa e macia, enquanto seu irmão Esaú era um homem cabeludo." As mãos de Frank eram longas e esbeltas, quase sem cabelos e com uma aparência aristocrática. Sempre adorei observá-las quando ele fazia uma palestra.

- Fale-me de seu marido - Jamie disse, como se lesse a minha mente. Quase dei um puxão nas minhas mãos, de susto.

- O quê?

- Olhe, teremos três ou quatro dias juntos aqui. Embora eu não tenha a pretensão de saber tudo que há para saber, vivi boa parte da minha vida em uma fazenda e, a menos que as pessoas sejam muito diferentes dos outros animais, não vai levar tanto tempo assim para fazermos o que temos que fazer. Temos um pouco de tempo para conversar e deixarmos de ter medo um do outro. - Essa avaliação franca de nossa situação relaxou-me um pouco.

- Você está com medo de mim? - Não parecia. No entanto, talvez estivesse nervoso. Embora não fosse nenhum rapazinho tímido de dezesseis anos, essa era sua primeira vez. Ele olhou-me nos olhos e sorriu.

- Sim. Mais apavorado do que você, eu acho. E por isso que estou segurando suas mãos; para impedir que as minhas tremam. - Eu não acreditei, mas apertei suas mãos com força, agradecida.

- É uma boa idéia. É mais fácil conversar enquanto estamos nos tocando. Mas por que você me perguntou sobre meu marido? — Perguntava-me, um pouco desesperada, se ele queria que eu falasse da minha vida sexual com Frank, para saber o que eu esperava dele.

- Bem, sei que deve estar pensando nele. Seria difícil não estar, nestas circunstâncias. Não quero que você jamais pense que não pode falar dele comigo. Embora eu seja seu marido agora, e é estranho dizer isso, não é direito que você deva esquecê-lo ou mesmo tentar esquecê-lo. Se você o amava, ele deve ter sido um bom homem.

- Sim, ele... foi. — Minha voz tremia e Jamie acariciou as costas das minhas mãos com seus polegares.

- Então, terei que fazer o melhor possível para honrar seu espírito cuidando de sua mulher. - Ergueu minhas mãos e beijou cada uma formalmente.

Clareei a garganta.

- Foram palavras muito galantes, Jamie. Ele riu repentinamente.

- Sim. Pensei nisso enquanto Dougal fazia brindes lá embaixo. Respirei fundo.

- Eu tenho umas perguntas - disse. Abaixou os olhos, disfarçando um sorriso.

- Suponho que sim - concordou. - Acho que tem direito a um pouco de curiosidade, nas circunstâncias atuais. O que quer saber? — Ergueu os olhos de repente, os brilhantes olhos azuis cheios de malícia à luz da lamparina. - Por que ainda sou virgem?

- Hã, eu deveria dizer que isso é mais ou menos problema seu — murmurei. Parecia que estávamos ficando mais íntimos de repente e eu libertei uma das minhas mãos para pegar meu lenço. Ao fazê-lo, senti algo duro no bolso do meu vestido.

- Ah, me esqueci! Ainda estou com seu anel. - Tirei-o do bolso e o devolvi a ele. Era um pesado aro de ouro, com um cabochão de rubi incrustado. Em vez de recolocá-lo no dedo, abriu a bolsa na cintura e guardou-o.

- Foi o anel de casamento do meu pai - explicou. - Eu não o uso sempre, mas hoje eu quis homenageá-la arrumando-me o melhor possível. -Ficou ligeiramente ruborizado com essa confissão e fingiu estar às voltas para fechar a bolsa.

- Você realmente me prestou uma grande homenagem — eu disse, sorrindo involuntariamente. Acrescentar um anel de rubi ao fulgurante esplendor de seu traje era desnecessário, mas fiquei sensibilizada com a vontade de agradar que havia por trás desse gesto.

-- Vou comprar um que sirva para você assim que puder - prometeu.

-- Não tem importância - eu disse, sentindo-me um pouco culpada, quero dizer, afinal, eu pretendia ir embora assim que pudesse.

- Hã, tenho uma pergunta importante - eu disse, retomando o fio da meada. - Se não se importar em me dizer. Por que concordou em se casar comigo?

- Ah. - Soltou minhas mãos e endireitou-se um pouco no banco. Parou por um instante antes de responder, alisando o tecido de lã sobre suas coxas. Eu podia ver a longa linha do músculo rígida sob a prega de tecido grosso.

- Bem, para começar, eu perderia a oportunidade de conversar com você - disse, sorrindo.

- Não, de verdade - insisti. - Por quê? Ficou sério.

- Antes de eu lhe responder, Claire, há uma única coisa que vou lhe pedir - disse devagar.

- O que é?

- Honestidade.

Devo ter me contraído, porque ele inclinou-se para a frente ansiosamente, as mãos nos joelhos.

- Sei que há coisas que você gostaria de não me contar, Claire. Talvez coisas que não possa me contar.

Você não sabe o quanto está certo, pensei.

- Jamais vou pressioná-la, nunca, ou insistir em saber coisas que são apenas suas - disse, seriamente. Abaixou os olhos para as mãos, agora pressionadas uma contra a outra, palma com palma.

- Há coisas que não posso contar a você, ao menos não por enquanto. E não lhe peço nada que não me possa dar. Mas o que eu lhe pediria é que, quando realmente me contar alguma coisa, que seja verdadeira. E eu prometerei fazer o mesmo. Nós não temos nada entre nós no momento, a não ser, talvez, respeito. E acho que o respeito pode ter espaço para segredos, mas não para mentiras. Concorda? — Estendeu as mãos, palmas para cima, convidando-me. Eu podia ver a linha escura do voto de sangue em seu pulso. Coloquei minhas próprias mãos de leve sobre as dele.

- Sim, concordo. Eu serei franca. - Seus dedos fecharam-se suavemente sobre os meus.

- E eu lhe darei o mesmo. Agora - respirou fundo —, você perguntou por que me casei com você.

- Só estou um pouquinho curiosa.

Ele sorriu, a boca larga assumindo o humor latente nos olhos.

- Bem, não posso dizer que a culpo. Tive várias razões. E na realidade, há uma, talvez duas, que não posso lhe contar ainda, embora o faça com o tempo. A razão principal, no entanto, é a mesma pela qual você se casou comigo, imagino; para mantê-la a salvo das mãos de Jack Randall.

Estremeci ligeiramente à lembrança do capitão e as mãos de Jamie apertaram as minhas.

- Você está a salvo - ele disse com firmeza. — Tem meu nome e minha família, meu clã e, se necessário, a proteção do meu corpo também. O sujeito não vai colocar as mãos em você de novo, enquanto eu viver.

- Obrigada - eu disse. Olhando para aquele rosto forte, jovem, determinado, com as maçãs do rosto pronunciadas e o maxilar sólido, senti pela primeira vez que esse esquema absurdo de Dougal podia na verdade ter sido uma idéia razoável.

A proteção do meu corpo. A frase atingiu-me com um impacto particular, ao olhar para ele — os ombros largos e decididos e a lembrança de sua graciosa ferocidade, "se exibindo" com a espada à luz da lua. Ele falava a sério; e embora jovem, sabia o que estava dizendo e carregava as cicatrizes como prova. Não era mais velho do que muitos dos pilotos e dos homens da infantaria de quem eu cuidara e ele sabia tão bem quanto eles o preço do compromisso. Não era nenhuma promessa romântica que ele me fazia, mas a promessa franca de guardar minha segurança ao custo da sua própria. Eu só esperava poder lhe dar alguma coisa em troca.

- Isso é muito gentil de sua parte - eu disse, com absoluta sinceridade. — Mas isso valeria, bem, valeria um casamento?

- Sim - ele disse, balançando a cabeça. Sorriu novamente, um pouco melancolicamente desta vez. - Tenho boas razões para conhecer o sujeito, você sabe. Eu não deixaria um cachorro cair nas mãos dele se eu pudesse evitar, quanto mais uma mulher indefesa.

- Que lisonjeiro — observei com uma careta e ele riu. Levantou-se e aproximou-se da mesa perto da janela. Alguém, talvez a proprietária, havia oferecido um buquê de flores silvestres, arranjado na água em um copo de uísque. Atrás das flores, uma garrafa de vinho e dois copos.

Jamie serviu dois copos e voltou, entregando-me um e retomando seu lugar.

- Não tão bom quanto a reserva especial de Colum - disse com um sorriso -, mas nada mau, também. - Ergueu o copo. - A sra. Fraser - disse suavemente e eu senti um baque de pânico outra vez. Sufoquei-o com firmeza e ergui meu próprio copo.

- A honestidade - eu disse, e ambos bebemos.

- Bem essa é uma das razões — eu disse, abaixando meu copo. - Há outras que possa me contar?

Ele examinou o copo de vinho.

- Talvez seja apenas que eu queira ir para a cama com você. - Ergueu os olhos repentinamente. — Pensou nisso?

Se pretendia me desconcertar, estava conseguindo, mas decidi não demonstrar.

- Bem, pensou? — ele perguntou corajosamente.

- Para ser honesta, sim, pensei. — Os olhos azuis continuavam me olhando com firmeza por cima da borda do copo.

- Não precisava casar-se comigo para isso - retorqui.

Ele pareceu sinceramente escandalizado.

- Não acha que eu a tomaria sem lhe oferecer casamento!

- Muitos homens o fariam - eu disse, achando graça de sua inocência. Gaguejou por um instante, parecendo desconcertado. Em seguida, recuperando a serenidade, disse com dignidade formal:

- Talvez eu seja pretensioso em dizer isso, mas gostaria de pensar que não sou "muitos homens" e que não coloco meu comportamento necessariamente no denominador comum mais baixo.

Um pouco emocionada com suas palavras, assegurei-lhe que até agora eu achava seu comportamento tanto gentil quanto elegante e pedi desculpas por qualquer dúvida que eu inadvertidamente pudesse ter lançado em suas motivações.

Com essa observação precariamente diplomática, fizemos uma pausa enquanto ele enchia nossos copos outra vez.

Tomamos o vinho em silêncio por alguns instantes, ambos sentindo-nos um pouco tímidos após a franqueza da última conversa. Assim, aparentemente havia alguma coisa que eu podia lhe oferecer. Eu não poderia, a bem da verdade, dizer que o pensamento não atravessara minha mente, antes mesmo da absurda situação em que havíamos nos envolvido. Ele era um jovem muito atraente. E houve aquele momento, logo depois da minha chegada ao castelo, quando ele me segurara no colo e...

Inclinei meu copo e sorvi o último gole. Bati de leve na cama ao meu lado outra vez.

- Sente-se aqui comigo - eu disse. - E... — vacilei, à procura de algum tópico neutro de conversa para nos deixar mais à vontade, sem o constrangimento da proximidade -, fale-me de sua família. Onde você passou a infância?

A cama afundou sob seu peso e eu me segurei para não rolar para cima dele. Ele sentou-se perto o suficiente para a manga de sua camisa roçar em meu braço. Deixei minha mão descansar, aberta e relaxada, sobre a minha coxa. Ele tomou-a naturalmente ao sentar-se e recostamo-nos contra a parede, sem olharmos para nossas mãos, mas tão conscientes da ligação como se fôssemos um só.

— Bem, por onde devo começar? — Colocou seus pés um tanto avantajados sobre o banco, cruzando-os na altura dos tornozelos. Achando engraçado, reconheci o homem das Highlands instalando-se bem para uma vagarosa dissecação daquele emaranhado de família e relações de clãs, que forma o pano de fundo de quase qualquer evento significativo nas Highlands escocesas. Frank e eu passamos uma noite no pub da vila, encantados com uma conversa entre dois velhos esquisitões, na qual a responsabilidade pela recente destruição de um antigo celeiro vinha de longa data, através das complexidades de uma rixa de famílias do local, até onde pude deduzir, de 1790. Com a espécie de pequenos choques com que já estava ficando acostumada, percebi que essa briga em particular, cujas origens imaginei que estivessem ocultas na névoa do tempo, ainda não havia começado. Reprimindo a confusão mental que essa percepção causara, forcei minha atenção ao que Jamie dizia.

- Meu pai era um Fraser, é claro; um meio-irmão mais novo do atual Senhor de Lovat. Mas minha mãe era uma MacKenzie. Você sabe que Dougal e Colum são meus tios? - Balancei a cabeça. A semelhança física era evidente, apesar da diferença de cor de pele e cabelos. As maçãs do rosto salientes, o nariz reto, cinzelado, eram uma herança MacKenzie.

- Sim, bem, minha mãe era irmã deles e havia mais duas irmãs, além dela. Minha tia Janet morreu, como minha mãe, mas minha tia Jocasta casou-se com um primo de Rupert e mora perto da margem do lago Eilean. Tia Janet teve seis filhos, quatro meninos e duas meninas, tia Jocasta teve três, todas meninas, Dougal tem quatro meninas, Colum tem apenas o pequeno Hamish e meus pais tiveram eu e minha irmã, que tem o nome de minha tia Janet, mas nós sempre a chamamos de Jenny.

- Rupert também é um MacKenzie? — perguntei, já me esforçando para compreender a posição de cada um.

- Sim. Ele é... - Jamie parou um instante, pensativo. - Ele é primo em primeiro grau de Dougal, Colum e Jocasta, o que o torna meu primo em segundo grau. O pai de Rupert e meu avô Jacob eram irmãos, juntamente com...

- Espere um minuto. Não vamos voltar mais do que o necessário ou vou ficar mais confusa. Ainda nem chegamos nos Fraser e já perdi a pista de seus primos.

Ele esfregou o queixo, calculando.

- Humm. Bem, do lado de Fraser, é um pouco mais complicado, porque meu avô Simon casou-se três vezes, de modo que meu pai teve dois conjuntos de meios-irmãos e meias-irmãs. Vamos deixar de lado por enquanto que eu tenho seis tios e três tias Fraser ainda vivos, e deixaremos de fora todos os primos desse grupo.

- Sim, certo. - Inclinei-me para a frente e servi mais um copo de vinho para cada um de nós.

Os territórios dos clãs MacKenzie e Fraser, como vim a saber, eram vizinhos por alguma distância, compartilhando a mesma fronteira, correndo lado a lado da costa marítima e continuando pela parte inferior do lago Ness. Essa fronteira compartilhada, como as fronteiras tendem a ser, era uma linha indefinida e não mapeada, indo e vindo de acordo com o tempo, o costume e as alianças. Juntamente com essa fronteira, no extremo sul das terras do clã Fraser, ficava a pequena propriedade Broch Tuarach, de Brian Fraser, pai de Jamie.

- É um solo bastante rico, há uma boa pesca e um bom trecho de floresta para caça. Deve abranger, talvez, sessenta chácaras e a pequena vila, que se chama Broch Mordha. Depois há, é claro, a mansão. Essa é moderna - disse com certo orgulho. - E há ainda a antiga sede, que usamos agora para os animais e os grãos.

- Dougal e Colum não ficaram nada satisfeitos de sua irmã casar-se com um Fraser e insistiram que ela não fosse uma arrendatária nas terras dos Fraser, mas que vivesse em uma propriedade livre. Assim, Lallybroch -é como as pessoas que moram lá a chamam - foi dada a meu pai, mas havia uma cláusula na escritura determinando que as terras deveriam passar apenas para os filhos de minha mãe, Ellen. Se ela morresse sem filhos, as terras voltariam para lorde Lovat após a morte de meu pai, quer meu pai tivesse filhos com outra mulher ou não. Mas ele não se casou outra vez e eu sou filho de minha mãe. Portanto, Lallybroch é minha, qualquer que seja o seu valor.

- Achei que estivesse me dizendo ontem que não possuía nenhuma propriedade. — Tomei um gole do vinho, achando-o bastante bom; parecia estar ficando melhor a cada vez que o bebia. Achei que talvez fosse melhor parar logo.

Jamie sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

- Bem, pertence a mim, sem dúvida. Mas o problema é que não me adianta muito atualmente, já que não posso ir lá. — Fez uma expressão de desculpas. - Há a pequena questão de que minha cabeça está a prêmio, você sabe.

Depois da fuga de Fort William, fora levado para a casa de Dougal, Beannachd (significa Abençoada, explicou), para se recuperar dos ferimentos e da febre que provocavam. De lá, fora para a França, onde passara dois anos lutando no exército francês, perto da fronteira com a Espanha.

- Você passou dois anos no exército francês e continuou virgem? — eu disse intempestivamente, incrédula. Eu tivera muitos franceses sob os meus cuidados e duvidava muito que a atitude dos gauleses em relação a mulheres tivesse mudado muito em duzentos anos.

Um dos cantos da boca de Jamie se retorceu e ele me olhou de esguelha.

- Se tivesse visto as prostitutas que prestam seus serviços ao exército francês, Sassenach, você se admiraria se eu tivesse coragem de tocar em uma mulher, que dirá ir para a cama com ela.

Engasguei, cuspindo vinho e tossindo, até que ele foi obrigado a bater nas minhas costas. Consegui me acalmar, ofegante e com o rosto afogueado, insistindo para que ele continuasse com sua história.

Retornara à Escócia há um ano e pouco e passou seis meses sozinho ou com um bando de "desgarrados" - homens sem clã -, vivendo com o que podia obter na floresta ou roubando gado das terras situadas na fronteira.

- Então, alguém me atingiu na cabeça com um machado ou algo parecido - ele disse, estremecendo. - E tenho que aceitar a palavra de Dougal sobre o que aconteceu nos dois meses seguintes, já que eu estava quase inconsciente.

Dougal estava numa propriedade próxima na ocasião do ataque. Chamado pelos amigos de Jamie, ele conseguira transportar o sobrinho para a França.

- Por que a França? - perguntei. - Certamente era correr um risco muito grande levá-lo para tão longe.

- Era um risco maior ainda me deixar onde estava. Havia patrulhas de ingleses por toda a região. Nós estivemos bem ativos por ali, sabe, eu e meus companheiros. Suponho que Dougal não quisesse que me encontrassem, inconsciente, na cabana de algum camponês.

- Ou em sua própria casa - eu disse, um pouco cinicamente.

- Imagino que ele teria me levado para lá, se não fosse por duas coisas - Jamie retrucou. - Primeiro, ele tinha um visitante inglês na época. Segundo, achou, pelo meu estado, que eu iria morrer de qualquer modo, então me enviou para o mosteiro.

O Mosteiro de Ste. Anne de Beaupré, na costa francesa, era o domínio, ao que parece, do antigo Alexander Fraser, agora abade daquele santuário de aprendizagem e adoração. Um dos seis tios Fraser de Jamie.

- Ele e Dougal não se dão particularmente bem - Jamie explicou -, mas Dougal podia ver que pouco se poderia fazer por mim aqui, ao passo que se houvesse possibilidade de me ajudar, seria lá.

E foi. Ajudado pelos conhecimentos médicos dos monges e por sua própria constituição física forte, Jamie sobrevivera e aos poucos se recuperara, sob os cuidados dos santos irmãos de St. Dominic.

- Quando estava bem outra vez, voltei — explicou. — Dougal e seus homens me encontraram na costa e nos dirigíamos às terras dos MacKenzie quando nós, hã, a encontramos.

- O capitão Randall disse que estavam roubando gado - eu disse. Sorriu, imperturbável diante da acusação.

- Bem, Dougal não é homem de deixar passar uma oportunidade de ter algum lucro - observou. — Deparamo-nos com um belo rebanho pastando em um campo, sem ninguém por perto. Assim... - Encolheu os ombros, com uma aceitação fatalística das circunstâncias inevitáveis da vida.

Pelo visto, eu chegara no fim do confronto entre os homens de Dougal e os dragões de Randall. Vendo os ingleses em seu encalço, Dougal enviara metade de seus homens para contornarem um bosque, tocando o gado à sua frente, enquanto o resto dos escoceses se escondia entre as árvores novas, prontos para emboscar os ingleses, quando passassem.

— Funcionou muito bem - Jamie disse, com aprovação. - Surgimos diante deles e passamos direto pelo meio deles, gritando. Foram atrás de nós, é claro, e nós os lançamos em uma perseguição colina acima, através de riachos, por cima de rochas e tudo mais. E durante todo o tempo o resto dos homens de Dougal atravessava a fronteira com o gado. Deixamos os ingleses para trás e nos abrigamos na cabana onde a vi pela primeira vez, esperando clarear o dia.

— Compreendo — eu disse. — Mas por que você voltou para a Escócia? Imagino que estaria muito mais seguro na França.

Ele abriu a boca para responder, depois reconsiderou, tomando um gole de vinho. Aparentemente, eu estava me aproximando perigosamente da fronteira de sua própria área secreta.

— Bem, essa é uma longa história, Sassenach — respondeu, evitando a questão. - Eu lhe contarei mais tarde, mas por enquanto, que tal falarmos de você? Quer me falar de sua própria família? Se achar que pode, é claro — acrescentou apressadamente.

Pensei por um instante, mas realmente parecia haver pouco risco em contar-lhe sobre meus pais e tio Lamb. Havia, afinal, uma certa vantagem na escolha e profissão de tio Lamb. Um estudioso de antigüidades fazia tanto - ou tão pouco - sentido no século XVIII quanto no século XX.

Assim, contei-lhe, omitindo apenas pequenos detalhes como automóveis e aviões e, é claro, a guerra. Enquanto falava, ele ouvia atentamente, fazendo perguntas de vez em quando, demonstrando consternação com a morte de meus pais e interesse em tio Lamb e suas descobertas.

— E então conheci Frank — encerrei. Fiz uma pausa, sem saber ao certo o que mais eu poderia contar sem entrar em território perigoso. Para minha sorte, Jamie me salvou.

— E você preferia não falar dele agora - disse, compreensivo. Balancei a cabeça sem pronunciar nenhuma palavra, minha visão turvando-se um pouco. Jamie soltou minha mão e, passando o braço à minha volta, puxou minha cabeça delicadamente para o seu ombro.

— Tudo bem - disse, acariciando meus cabelos. — Está cansada, Sassenach, quer que a deixe dormir?

Por um instante, fiquei tentada a dizer que sim, mas senti que seria uma atitude tanto injusta quanto covarde. Limpei a garganta e sentei-me direito na cama, sacudindo a cabeça.

— Não — disse, respirando fundo. Ele cheirava levemente a sabonete e vinho. — Estou bem. Diga-me... diga-me, quais eram as suas brincadeiras quando você era criança?

O quarto era equipado com uma grossa vela de doze horas, anéis de cera escura marcando as horas. Conversamos durante três dos anéis, somente soltando as mãos um do outro para servir vinho ou levantando para fazer uma visita ao tamborete privado atrás de uma cortina no canto. Ao retornar de uma dessas visitas, Jamie bocejou e espreguiçou-se.

- É muito tarde - eu disse, levantando-me também. - Talvez devêssemos ir para a cama.

- Tudo bem - ele disse, esfregando a nuca. — Para a cama? Ou dormir? - Arqueou uma sobrancelha interrogativamente e o canto de sua boca curvou-se.

Na verdade, eu estava me sentindo tão à vontade com ele que quase havia me esquecido do motivo de estarmos ali. Diante dessas palavras, senti um repentino pânico.

- Bem... - eu disse, com voz fraca.

- Seja como for, não pretende dormir com essa roupa, não é? - perguntou, à sua maneira prática de sempre.

- Bem, não, acho que não. - Na realidade, na corrida dos acontecimentos, eu nem pensara numa roupa de dormir especial - que, de qualquer forma, eu não possuía. Sempre dormia com minha camisola de baixo ou com nada, dependendo da temperatura.

Jamie não tinha nada além das roupas que estava usando; obviamente, iria dormir com sua camisa ou nu, uma situação que provavelmente levaria os acontecimentos a uma definição rápida.

- Bem, então, venha até aqui e eu a ajudarei com essas rendas e laços. Suas mãos, de fato, tremiam um pouco quando começou a me despir.

Entretanto, perdeu um pouco da inibição na luta com as dezenas de minúsculos colchetes que fechavam o corpete.

- Ha! - exclamou triunfalmente quando o último se soltou e nós dois rimos.

- Agora, deixe-me ajudá-lo - eu disse, decidindo que não fazia sentido continuar adiando. Ergui os braços e desabotoei sua camisa, deslizando minhas mãos por dentro e pelos seus ombros. Desci as palmas das mãos lentamente pelo seu peito, sentindo os cabelos enrolados e as suaves endentações nas auréolas dos mamilos. Ele ficou parado, imóvel, mal respirando, enquanto eu ficava de joelhos para desabotoar o cinto tacheado em volta de seus quadris.

Se tiver que ser em alguma hora, é melhor que seja agora, pensei, e deliberadamente deslizei as mãos pelas suas coxas, rígidas e esbeltas sob o kilt. Embora a essa altura eu já soubesse muito bem o que a maioria dos escoceses usava por baixo dos kilts - nada - ainda assim era um choque encontrar apenas Jamie.

Ele me levantou e inclinou-se para beijar-me. Isso continuou por um longo tempo e suas mãos caminharam para baixo, encontrando o fecho da a anágua. Ela caiu no chão, em um monte revolto de babados engomados, deixando-me apenas com a camisola de baixo.

- Onde aprendeu a beijar assim? - eu disse, um pouco ofegante. Ele exibiu um largo sorriso e puxou-me para junto dele outra vez.

- Eu disse que era virgem, não um monge - respondeu, beijando-me outra vez. — Se eu achar que preciso de orientação, pedirei.

Pressionou-me com firmeza contra seu corpo e pude sentir que ele estava mais do que pronto para continuar com o assunto em pauta. Com alguma surpresa, percebi que eu também estava pronta. De fato, quer fosse o resultado da hora, tarde da noite, do vinho, de sua atração ou simplesmente de privação, eu também o desejava ardentemente.

Soltei sua camisa à cintura e deslizei minhas mãos para cima, pelo seu peito, acariciando seus mamilos com meus polegares. Enrijeceram-se no mesmo instante e ele repentinamente me esmagou contra seu peito.

- Uuuf! — eu disse, esforçando-me para respirar. Soltou-me, desculpando-se.

- Não, não se preocupe; beije-me outra vez. — Ele o fez, dessa vez abaixando as alças da minha camisola pelos meus ombros. Recuou ligeiramente, segurando meus seios nas mãos e acariciando os mamilos como eu fizera com ele. Tentei abrir a fivela que segurava seu kilt; seus dedos guiaram os meus e a fivela soltou-se.

De repente, ele me ergueu nos braços e sentou-se na cama, segurando-me em seu colo. Falou com a voz rouca.

- Diga-me se eu estiver sendo muito rude ou diga-me para parar, se quiser. A qualquer momento, até estarmos unidos; não acho que consiga parar depois disso.

Em resposta, passei meus braços pelo seu pescoço e o puxei para cima de mim. Guiei-o para a fenda escorregadia entre minhas pernas.

- Deus do Céu - disse James Fraser, que nunca usava o santo nome de Deus em vão.

- Não pare agora - eu disse.

Deitados lado a lado depois, pareceu-lhe natural aconchegar minha cabeça em seu peito. Nós nos encaixávamos bem e a maior parte de nosso constrangimento inicial desaparecera, perdido em uma excitação compartilhada e na novidade de explorar um ao outro.

- Foi como você esperava que fosse? — perguntei com curiosidade. Ele riu baixinho, provocando uma ressonância profunda em meu ouvido.

- Quase. Eu pensei... nada, não tem importância.

- Não, diga-me. O que achou?

- Não vou lhe dizer. Vai rir de mim.

- Prometo não rir. Diga-me. — Acariciou meus cabelos, alisando os cachos para trás de minha orelha.

- Ah, está bem. Eu não havia percebido que era feito cara a cara. Achei que fosse por trás, como... como os cavalos, sabe.

Foi difícil cumprir minha promessa, mas não ri.

- Sei que parece tolice — disse defensivamente. — É que... bem, você sabe como a gente coloca idéias na cabeça quando se é garoto e depois elas permanecem lá?

- Você nunca viu pessoas fazendo amor? - Fiquei surpresa com esta revelação, tendo visto as cabanas dos camponeses, onde toda a família compartilhava um único quarto. Embora a família de Jamie não fosse de camponeses, ainda assim deveria ser uma rara criança escocesa que nunca acordou e viu seus pais fazendo amor ali perto.

- Claro que sim, mas geralmente sob as cobertas. Eu não podia ver nada, exceto que o homem ficava por cima. Isso eu sabia.

- Hummm. Eu reparei.

- Eu a esmaguei? - perguntou, um pouco ansioso.

- Não muito. Mas, realmente, era isso que você pensava? - Não ri, mas não pude deixar de abrir um amplo sorriso. Ele ficou ligeiramente vermelho em volta das orelhas.

- Sim. Eu vi um homem pegar uma mulher, uma vez, a céu aberto. Mas aquilo... bem, foi um estupro, é o que foi, e ele a pegou por trás. Me deixou impressionado e, como eu disse, a idéia se fixa.

Continuava me abraçando, usando sua técnica de amansar cavalos outra vez. Aos poucos, entretanto, mudou para uma exploração mais determinada.

- Quero lhe perguntar uma coisa - ele disse, correndo a mão pelas minhas costas.

- O que é?

- Você gostou? - perguntou, um pouco timidamente.

- Sim, gostei - eu disse, com absoluta honestidade.

- Ah. Achei que sim, embora Murtagh tenha me dito que as mulheres em geral não gostam muito disso, de modo que eu deveria acabar o mais rápido possível.

- E o que Murtagh saberia a respeito disso? - perguntei, indignada. -Quanto mais devagar, melhor, no que diz respeito à maioria das mulheres. -- Jamie deu outra risadinha.

- Bem, você deve saber melhor do que Murtagh. Recebi muitos conselhos sobre o assunto ontem à noite, de Murtagh, Rupert e Ned. Boa Parte me pareceu muito improvável e, assim, resolvi que era melhor usar meu próprio discernimento.

- Até agora não o orientou errado — eu disse, enrolando um dos cabelos do seu peito em torno do meu dedo. - Que outras pérolas de sabedoria eles lhe deram? - A pele dele era de um dourado ruivo à luz de vela; Para meu divertimento, ele ficou ainda mais vermelho.

- Eu não poderia repetir a maior parte. Como eu disse, acho que provavelmente estavam errados, de qualquer forma. Já vi muitos animais acasalarem-se e a maioria parece saber o que fazer sem precisar de nenhum conselho. Suponho que as pessoas possam fazer o mesmo.

Particularmente, achei engraçada a idéia de alguém obter indicações de técnicas sexuais do quintal e da floresta, ao invés de vestiários e revistas especializadas.

- Que tipos de animais você viu se acasalando?

- Ah, todos os tipos. Nossa fazenda ficava ao lado de uma floresta, sabe, e eu passava boa parte do tempo lá, caçando ou procurando vacas extraviadas e coisas assim. Vi cavalos e vacas, é claro, porcos, galinhas, pombos, cachorros, gatos, cervos, esquilos, coelhos, javalis, ah, e uma vez até um casal de cobras.

- Cobras?

- Sim. Sabia que as cobras têm dois órgãos sexuais? As cobras macho, quero dizer.

- Não, não sabia. Tem certeza?

- Sim, e ambos bifurcados, assim. - Afastou os segundo e terceiro dedos, ilustrando.

- Parece muito desconfortável para a cobra fêmea - eu disse, rindo.

- Bem, ela parecia estar se divertindo - Jamie disse. - Até onde eu podia ver; as cobras não têm muita expressão na cara.

Enterrei a cabeça em seu peito, resfolegando com a risada abafada. Seu agradável cheiro de almíscar misturava-se ao aroma pungente do linho.

- Tire a camisa - eu disse, sentando-me e puxando a bainha de sua roupa.

- Por quê? - perguntou, mas sentou-se e obedeceu. Ajoelhei-me diante dele, admirando seu corpo nu.

- Porque eu quero olhar para você - eu disse. Ele tinha uma bela constituição, de ossos longos e graciosos e músculos lisos que fluíam suavemente das curvas do peito e dos ombros para as ligeiras concavidades da barriga e das coxas. Ergueu as sobrancelhas.

- Muito bem, vamos ser justos. Agora, tire as suas. - Estendeu os braços e ajudou-me a sair de minha camisola amassada, puxando-a pelas minhas pernas. Depois de tirá-la, segurou-me pela cintura, analisando-me com intenso interesse. Quase fiquei constrangida enquanto ele me examinava.

- Nunca viu uma mulher nua antes? - perguntei.

- Sim, mas nunca tão de perto. - Seu rosto abriu-se num largo sorriso.

— E não uma que fosse minha. — Acariciou meus quadris com as duas mãos.

- Você tem bons quadris largos; daria uma boa reprodutora, eu acho.

- O quê!? — Afastei-me, indignada, mas ele me puxou de volta e deixou-se cair de costas, puxando-me para cima dele. Segurou-me até eu parar de me debater, depois me ergueu o suficiente para encontrar seus lábios outra vez.

- Sei que uma vez é o suficiente para tornar o casamento legal, mas... - Parou, encabulado.

- Quer fazer de novo?

- Você se importaria muito?

Também não ri desta vez, mas senti minhas costelas estalarem sob o peso.

- disse, com seriedade. - Não me importaria.

- Está com fome? - perguntei em voz baixa, algum tempo depois.

- Faminto. - Inclinou a cabeça para morder de leve meu seio, em seguida ergueu os olhos com um sorriso. - Mas também preciso de comida. - Rolou para a beira da cama. - Há pão e carne na cozinha, espero, e provavelmente vinho também. Vou trazer alguma coisa para nossa ceia.

- Não, não se levante. Eu vou buscar. - Saltei da cama e me dirigi para a porta, jogando um xale por cima da minha camisola por causa do frio no corredor.

- Espere, Claire! - Jamie chamou. - É melhor deixar que eu... - Mas eu já abrira a porta.

Minha aparição à porta foi saudada com uma retumbante ovação de uns quinze homens, descansando em volta da lareira no salão principal embaixo, bebendo, comendo e jogando dados. Fiquei parada, perplexa, apoiada no parapeito por um instante, quinze rostos maliciosos, tremeluzindo das sombras provocadas pelo fogo na lareira, voltados para mim.

- Ei, dona! — gritou Rupert, um deles. — Ainda está conseguindo andar? Então Jamie não está fazendo o serviço direito?

Esse gracejo foi acompanhado de estrondosas gargalhadas e diversos comentários ainda mais grosseiros relativos à perícia de Jamie.

- Se já deixou Jamie exausto, terei prazer em assumir o lugar dele! — ofereceu-se um jovem baixo, de cabelos escuros.

-- Não, não, ele não é bom, dona, fique comigo! — gritou um outro.

- Ela não vai escolher nenhum de vocês, rapazes! — gritou Murtagh, completamente bêbado. — Depois de Jamie, ela vai precisar de algo assim Para satisfazê-la! - Brandiu um enorme osso de carneiro acima da cabeça, fazendo o salão estremecer com as gargalhadas.

Girei nos calcanhares e voltei para o quarto, bati a porta e fiquei parada com as minhas costas na porta, olhando espantada para Jamie, deitado nu na cama, sacudindo-se de rir.

- Eu tentei avisá-la — ele disse, ofegante. - Devia ver sua cara!

- Exatamente o que todos aqueles homens estão fazendo lá fora?

Jamie deslizou graciosamente de nosso leito nupcial e começou a vasculhar de joelhos a pilha de roupas atiradas ao chão.

- Testemunhas - disse laconicamente. - Dougal não vai correr nenhum risco deste casamento ser anulado. - Levantou-se com seu kilt nas mãos, rindo para mim, enquanto o enrolava em torno dos quadris. — Acho que a sua reputação está irremediavelmente perdida, Sassenach.

Começou a se dirigir para a porta, sem camisa.

- Não vá lá fora! - eu disse, tomada de pânico. Ele virou-se para me dar um sorriso tranqüilizador.

- Não se preocupe, Sassenach. Se eles são testemunhas, é melhor que vejam alguma coisa. Além disso, não tenho a menor intenção de passar fome pelos próximos três dias por medo de um pouco de caçoada.

Saiu do quarto para um couro de exclamações obscenas, deixando a porta entreaberta. Eu podia ouvir seu progresso em direção à cozinha, pontuado por gritos de congratulações e perguntas e conselhos irreverentes.

- Como foi sua primeira vez, Jamie? Você sangrou? - gritou a voz áspera, facilmente identificável, de Rupert.

- Não, mas você vai, velho fílho-da-mãe, se não calar a boca - veio a resposta afiada de Jamie em carregado sotaque escocês. Urros de satisfação saudaram a pilhéria e a zombaria continuou, seguindo Jamie pelo corredor até a cozinha e de volta pelas escadas.

Abri um pouco mais a porta para deixar Jamie entrar, o rosto vermelho como o fogo e as mãos carregadas de comida e bebida. Entrou de lado, seguido por uma explosão final de gargalhadas vinda do salão. Abafei-a com uma decidida pancada da porta e da tranca.

- Trouxe o suficiente para não precisarmos sair por um bom tempo -Jamie disse, colocando pratos sobre a mesa, evitando cuidadosamente me olhar. — Quer um pouco?

Estendi o braço para além dele e peguei a garrafa de vinho.

- Agora não. O que eu preciso é de um drinque.

Havia uma poderosa urgência nele que me excitava e me levava a corresponder, apesar de sua falta de experiência. Não querendo dar aula nem ressaltar minha própria experiência, deixava-o agir como achava melhor, apenas oferecendo uma ou outra sugestão, como colocar seu peso nos cotovelos e não sobre meu peito.

Embora ainda faminto e desajeitado demais para ternura, ele fazia amor com uma espécie de incansável alegria que me fazia pensar que a virgindade masculina devia ser um bem altamente subestimado. No entanto, ele demonstrava uma preocupação com minha segurança que eu achava ao mesmo tempo atraente e irritante.

Em certo momento, em nossa terceira vez, curvei-me contra ele e gritei. Ele recuou imediatamente, surpreso e pedindo desculpas.

- Sinto muito - disse. - Não quis machucá-la.

- Não machucou. - Espreguicei-me languidamente, sentindo-me maravilhosamente bem.

- Tem certeza? - disse, inspecionando-me para verificar se havia algum dano. De repente, ocorreu-me que alguns pontos mais refinados haviam sido deixados de fora de sua apressada educação sexual a cargo de Murtagh e Rupert.

- Isso acontece toda vez? - perguntou, fascinado, depois que o esclareci. Sentia-me como a Mulher de Bath ou uma gueixa japonesa. Nunca me visualizara como instrutora nas artes do amor, mas tinha que admitir a mim mesma que o papel tinha seus atrativos.

- Não, não toda vez - eu disse, achando graça. - Somente quando o homem é um bom amante.

- Ah. - Suas orelhas ficaram levemente rosadas. Fiquei um pouco alarmada ao ver o olhar de franco interesse ser substituído por outro de crescente determinação.

- Você me dirá o que fazer da próxima vez? - perguntou.

- Você não tem que fazer nada especial — assegurei-lhe. — Apenas vá devagar e preste atenção. Por que esperar, então? Você ainda está pronto.

Ele ficou surpreso.

- Você não precisa esperar? Eu não posso fazer isso de novo logo depois.

- Bem, as mulheres são diferentes.

- Ah, eu notei - murmurou.

Envolveu meu pulso com o indicador e o polegar.

- É que... você é tão pequena. Tenho medo de machucá-la.

- Você não vai me machucar - eu disse impacientemente. — E se machucasse, eu não me importaria. - Vendo a perplexidade e incompreensão em seu rosto, resolvi mostrar-lhe o que eu queria dizer.

- O que está fazendo? - perguntou, chocado.

- Exatamente o que está vendo. Fique imóvel. - Após alguns instantes, comecei a usar os dentes, pressionando cada vez com mais força, até ele prender a respiração com um som agudo e sibilante. Parei.

- Eu o machuquei? — perguntei.

- Sim. Um pouco. - Sua voz parecia estrangulada. -- Quer que eu pare?

- Não!


Continuei, sendo deliberadamente rude, até que ele teve uma súbita convulsão, com um gemido que parecia que eu havia arrancado seu coração do peito. Ficou deitado de costas, tremendo e respirando pesadamente. Murmurou alguma coisa em gaélico, os olhos fechados.

- O que disse?

- Eu disse — respondeu, abrindo os olhos — que eu achei que meu coração fosse explodir.

Sorri, satisfeita comigo mesma.

- Ah, Murtagh e companhia não lhe contaram sobre isso também não é?

- Sim, contaram. Foi uma das coisas em que não acreditei.

Ri.

- Nesse caso, talvez seja melhor você me contar o que mais eles lhe disseram. Mas viu o que eu quis dizer sobre não me importar se você for um pouco rude?



- Sim. — Inspirou fundo e expirou lentamente. - Se eu fizesse o mesmo com você, sentiria a mesma coisa?

- Bem, sabe - eu disse, devagar -, na realidade, não sei. - Eu estava fazendo o possível para manter meus pensamentos sobre Frank afastados, achando que não deveria haver mais do que duas pessoas na cama de um casal, independente de como foram parar ali. Jamie era muito diferente de Frank, tanto no corpo quanto na mente, mas na verdade há apenas um número limitado de maneiras em que dois corpos podem se unir e nós ainda não havíamos estabelecido esse território de intimidade no qual o ato de amor assume variedades infinitas. Os clamores da carne eram inevitáveis, mas havia alguns territórios ainda inexplorados.

As sobrancelhas de Jamie arquearam-se numa expressão de zombeteira ameaça.

- Ah, quer dizer que existe algo que você não sabe? Bem, nós descobriremos, não é? Assim que eu tiver forças para isso. - Fechou os olhos novamente. — Em algum momento da semana que vem.

Acordei pouco antes do amanhecer, tremendo e paralisada de terror. Não consegui me lembrar do sonho que me acordou, mas o brusco mergulho na realidade foi igualmente assustador. Tinha sido possível esquecer minha situação por algum tempo na noite anterior, abandonada aos prazeres de uma intimidade recém-encontrada. Agora eu estava sozinha, ao lado de um estranho adormecido, a quem minha vida estava inexplicavelmente ligada, à deriva em um lugar repleto de ameaças ocultas.

Devo ter emitido algum som de angústia, pois houve uma repentina convulsão de cobertas quando o estranho em minha cama saltou para o chão com a assustadora instantaneidade de um faisão que alça vôo sob os seus pés. Pousou, agachado, perto da porta do quarto, quase invisível na meia-luz que precede o alvorecer.

Parando para ouvir atentamente junto à porta, ele fez uma rápida inspeção do quarto, planando silenciosamente da porta para a janela e para a cama. O ângulo de seu braço dizia-me que segurava uma arma de alguma espécie, embora não a pudesse ver na escuridão. Sentando-se ao meu lado, satisfeito de ver que tudo estava em segurança, guardou a faca ou o que quer que fosse no seu esconderijo acima da cabeceira.

- Você está bem? - sussurrou. Seus dedos roçaram meu rosto suado.

- Sim. Desculpe-me por tê-lo acordado. Tive um pesadelo. Que diabos... - comecei a perguntar o que o fizera saltar tão bruscamente.

Sua mão grande e quente deslizou pelo meu braço nu, interrompendo minha pergunta.

- Não é de admirar; você está congelada. - A mão me empurrou para baixo da pilha de colchas e para o espaço -aquecido recentemente desocupado. - Minha culpa - murmurou. - Tirei todas as cobertas. Acho que ainda não estou acostumado a compartilhar uma cama. — Envolveu as cobertas confortavelmente ao nosso redor e deitou-se de costas ao meu lado. Um momento depois, estendeu a mão para tocar meu rosto de novo.

- Sou eu? - ele perguntou em voz baixa. - Você não pode me suportar? Dei uma risadinha engasgada, quase um soluço.

- Não, não é você. - Estendi a mão no escuro, tateando em busca de sua mão para pressioná-la de maneira tranqüilizadora. Meus dedos encontraram um emaranhado de colchas e corpo aquecido, mas finalmente encontrei a mão que procurava. Ficamos deitados, lado a lado, olhando para o teto baixo de vigas grossas.

- E se eu dissesse que não podia suportá-lo? - perguntei de repente. -O que você poderia fazer? - A cama rangeu quando ele encolheu os ombros.

- Dizer a Dougal que você queria uma anulação com base na não-consumação, suponho.

Desta vez, ri sem me conter.

- Não-consumação! Com todas essas testemunhas?

O quarto estava começando a ficar claro o suficiente para ver o sorriso voltado para mim.

- Ah, bem, com ou sem testemunhas, somente eu e você podemos dizer com certeza, não é? E eu preferia ficar constrangido do que casado com alguém que me odiasse.

Virei-me para ele.

-- Eu não odeio você.

-- Eu também não a odeio. E há muitos casamentos que começaram com menos do que isso.

Delicadamente, ele virou-me de costas e encaixou-se em minhas costas, de modo que ficássemos aninhados um no outro. Sua mão segurou meu seio, não como um convite ou uma exigência, mas porque parecia ser ali o lugar dela.

- Não tenha medo - sussurrou em meu ouvido. — Agora somos dois.

Senti-me aquecida, acalmada e segura pela primeira vez em muitos dias. Somente quando começava a adormecer sob os primeiros raios da luz do dia é que me lembrei da faca acima de minha cabeça e me perguntei outra vez que ameaça faria um homem dormir armado e alerta no seu quarto de núpcias?




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