A viajante do tempo


- UM CASAMENTO É ANUNCIADO



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13 - UM CASAMENTO É ANUNCIADO
Sentei-me a uma mesa na taberna lá embaixo, fitando uma xícara de leite e tentando conter ânsias de vômito.

Dougal deu uma olhada em meu rosto quando eu desci, apoiada em um jovem cabo musculoso, e passou por mim em passos largos e determinados, subindo as escadas até o aposento de Randall. As portas e assoalhos da hospedaria eram fortes e bem construídos, mas ainda assim eu podia ouvir vozes altercadas no andar de cima.

Levantei a xícara de leite, mas minhas mãos ainda tremiam demais para que eu pudesse bebê-lo.

Gradualmente, comecei a me recuperar dos efeitos físicos do soco no estômago, mas não do choque sofrido. Eu sabia que o sujeito não era meu marido, mas a semelhança era tão forte e meus hábitos tão enraizados, que eu me sentira inclinada a confiar nele e falei com ele como teria falado com Frank, esperando civilidade, se não franca solidariedade. O que estava me deixando doente agora era ver esses sentimentos bruscamente virados do avesso pelo seu ataque perverso.

Doente e amedrontada também. Eu vira seus olhos quando se agachou ao meu lado no chão. Algo se movera em suas profundezas, apenas por um segundo. Desapareceu num relâmpago, mas eu jamais queria ver aquele olhar outra vez.

O barulho de uma porta se abrindo em cima me tirou dos meus devaneios. As pancadas surdas de passos pesados foram seguidas pela pronta aparição de Dougal, seguido de perto pelo capitão Randall. Tão perto, na verdade, que o capitão parecia estar perseguindo o escocês e parou bruscamente quando Dougal, avistando-me, estancou de repente no pé da escada.

Com um olhar fulminante por cima do ombro ao capitão Randall, Dougal caminhou rapidamente para onde eu estava, atirou uma moeda sobre a mesa como pagamento e me colocou de pé com um safanão, sem dizer uma só palavra. Estava me empurrando pela porta afora antes de eu ter tido tempo de registrar qualquer outra coisa além da expressão extraordinária de especulativa cobiça no rosto do oficial inglês.

Estávamos montados e partindo antes que eu tivesse tempo de enfiar minhas saias volumosas em torno das minhas pernas e o tecido encapelava-se à minha volta como um pára-quedas assentando-se. Dougal permaneceu silencioso, mas os cavalos pareciam perceber seu senso de pressa; estávamos quase galopando quando chegamos à estrada principal.

Perto de uma encruzilhada marcada com uma cruz picta, Dougal repentinamente puxou as rédeas e parou. Desmontando, agarrou as bridas dos dois cavalos e amarrou-as frouxamente em uma pequena árvore. Ajudou-me a descer, desapareceu repentinamente no meio dos arbustos, acenando para que eu o seguisse.

Segui o balanço de seu kilt pela colina acima, desviando-me conforme os galhos que ele afastava do caminho e ricocheteavam pela trilha, zumbindo acima de minha cabeça. A encosta da colina estava coberta de carvalhos e pequenos pinheiros. Eu podia ouvir abelharucos no bosque à esquerda e um bando de gaios gritando uns com os outros enquanto se alimentavam, mais adiante. O capim tinha o verde viçoso do começo do verão, moitas robustas desenvolvendo-se no meio das pedras e forrando o solo sob os carvalhos. Nada crescia embaixo dos pinheiros, é claro; as agulhas formavam uma camada de vários centímetros, oferecendo proteção às minúsculas criaturas rastejantes que se escondiam ali do sol e dos predadores.

Os cheiros penetrantes faziam minha garganta arder. Eu já estivera nessas colinas antes e sentira esses mesmos aromas de primavera. Mas na ocasião a fragrância do mato e dos pinheiros diluía-se com o cheiro dos vapores da gasolina da estrada lá embaixo e as vozes dos turistas do dia substituíam o canto dos gaios. Na última vez que percorri uma dessas trilhas, o chão estava coberto de embalagens de sanduíches e tocos de cigarro, ao invés de violetas e flores de malva. Embalagens de sanduíches pareciam um preço bem razoável a pagar, creio, por tais bênçãos da civilização, como antibióticos e telefones, mas no momento estava disposta a me contentar com as violetas. Precisava extremamente de um pouco de paz e havia paz ali.

Dougal virou bruscamente para o lado logo abaixo do topo da colina e desapareceu numa vegetação cerrada de giestas. Avançando atrás dele com certa dificuldade, encontrei-o sentado numa pedra plana ao lado de um pequeno lago. Um bloco de pedra gasto pelo tempo erguia-se inclinadamente atrás dele, com uma figura humana fraca e indistinta gravada na superfície manchada. Deve ser o lago de um santo, pensei. Esses pequenos santuários dedicados a um ou outro santo pontilhavam as Highlands e geralmente eram encontrados em locais mais retirados, embora mesmo ali, remanescentes de tiras de pano rasgadas esvoaçassem dos galhos de uma sorveira que pendia sobre a água; promessas de visitantes que faziam súplicas ao santo, por saúde ou uma viagem segura, talvez.

Dougal saudou meu aparecimento com um sinal da cabeça. Fez o sinal-da-cruz, abaixou a cabeça e, com as duas mãos em concha, pegou água do lago. A água tinha uma estranha cor escura e um cheiro ainda pior. Provavelmente uma fonte de água sulfurosa, pensei. Mas o dia estava quente e eu estava com sede, de modo que segui o exemplo de Dougal. A água tinha um gosto um pouco amargo, mas era fria e não de todo desagradável ao paladar. Bebi um pouco, depois joguei água no rosto. A estrada estava empoeirada.

Ergui os olhos, o rosto pingando, para deparar-me com ele observando-me com uma expressão muito estranha. Algo entre curiosidade e avaliação, pensei.

- Uma subida um pouco grande para um gole d'água, não? — comentei. Havia garrafas de água nos cavalos. E eu duvidava que Dougal pretendesse fazer um pedido ao padroeiro da fonte pelo nosso retorno seguro de volta à estalagem. Considerava-o um crente em métodos mais mundanos.

- Você conhece bem o capitão? — perguntou repentinamente.

- Menos do que você - retorqui. - Só o encontrei uma vez antes e por acaso. Não nos demos bem.

Surpreendentemente, o rosto severo abrandou-se um pouco.

- Bem - admitiu —, eu mesmo não posso dizer que gosto do sujeito. -Tamborilou os dedos na borda de pedra da fonte, pensando. - No entanto, é muito bem considerado por algumas pessoas - disse, olhando-me. -Um soldado corajoso e um bom guerreiro, pelo que ouço dizer.

Ergui as sobrancelhas.

- Não sendo um general inglês, não estou impressionada.

Ele riu, exibindo dentes extremamente brancos. O barulho perturbou três gralhas na árvore acima de nós, que saíram batendo as asas, queixando-se com seus gritos roucos.

- Você é uma espiã dos ingleses ou dos franceses? - perguntou, com mais uma desconcertante mudança de assunto. Ao menos, estava sendo direto, para variar.

- Claro que não - disse irritada. - Sou apenas Claire Beauchamp e nada mais. - Molhei meu lenço na água e usei-o para limpar o pescoço. Pequenas gotas refrescantes escorreram pelas minhas costas, por baixo da sarja cinza do meu vestido de viagem. Pressionei o tecido molhado no meu peito e o espremi, produzindo um efeito similar.

Dougal permaneceu em silêncio por vários minutos, observando-me intensamente enquanto eu conduzia minhas abluções aleatórias.

- Você viu as costas de Jamie — ele disse repentinamente.

- Dificilmente poderia ter deixado de ver - disse com certa frieza. Eu desistira de tentar adivinhar o que ele queria com essas perguntas desconexas. Provavelmente, me diria quando estivesse pronto.

- Está perguntando se eu sabia que Randall fez aquilo? Ou você mesmo já sabia?

- Sim, eu sabia muito bem disso — respondeu, avaliando-me calmamente -, mas não tinha certeza se você sabia.

Encolhi os ombros, deixando implícito que o que eu sabia ou deixava de saber não era problema dele.

- Eu estava lá, sabe - disse distraidamente.

- Onde?


- Em Fort William. Eu tinha algo a fazer lá, com a guarnição. O funcionário lá sabia que Jamie era parente meu e mandou me avisar quando o prenderam. Então, fui até lá para ver o que podia ser feito por ele.

- Pelo visto, não teve muito sucesso - disse, incisivamente. Dougal encolheu os ombros.

- Infelizmente, não. Se fosse o sargento-mor que costumava estar no comando, talvez tivesse conseguido salvar Jamie, ao menos da segunda rodada, mas Randall era novo no comando. Ele não me conhecia e não estava disposto a ouvir o que eu tinha a dizer. Percebi, na época, que ele queria fazer de Jamie um exemplo, para mostrar a todos desde o início que não haveria misericórdia com ele. - Bateu de leve na espada curta que carregava na cintura. - É um princípio bastante legítimo, quando se está no comando de homens. Ganhe o respeito deles antes de mais nada. E, se não puder, ganhe seu temor.

Lembrei-me da expressão no rosto do cabo de Randall e achei que sabia o caminho que o capitão escolhera.

Os olhos profundos de Dougal fitavam meu rosto com interesse.

- Você sabia que tinha sido Randall. Jamie lhe contou?

- Um pouco - respondi cautelosamente.

- Ele deve ter grande consideração por você — disse pensativamente. — Em geral, ele não fala a respeito disso com ninguém.

- Não consigo imaginar por quê - disse sarcasticamente. Eu ainda prendia a respiração toda vez que chegávamos a uma nova taberna ou hospedaria, até ficar claro que o grupo se instalara para uma noite de bebidas e conversa fiada junto à lareira. Dougal sorriu com cinismo, obviamente entendendo o que eu queria dizer.

- Bem, não era necessário me dizer, era? Uma vez que eu já sabia. -Passou a mão languidamente pela água estranhamente escura, provocando vapores de enxofre.

-- Não sei como é em Oxfordshire — ele disse, com uma ênfase sarcástica que me fez estremecer ligeiramente -, mas por aqui, as mulheres geralmente não são expostas a visões como a de um açoite. Já viu um?

-- Não, e na verdade não quero — respondi incisivamente. - Mas posso imaginar o que seria preciso para causar marcas como as que Jamie tem nas costas.

Dougal sacudiu a cabeça, atirando um pouco da água do lago numa gralha curiosa que se aventurou mais perto.

-- Nisso você está errada, dona, e perdoe-me por dizer isso. Imaginar é uma coisa, mas não é o mesmo que ver um homem ter suas costas retalhadas. É uma visão terrível. É para alquebrar um homem e em geral consegue.

— Não com Jamie. - Falei com um pouco mais de veemência do que pretendia. Jamie era meu paciente e, até certo ponto, meu amigo também. Não tinha nenhuma intenção de discutir sua história pessoal com Dougal, embora pudesse admitir, se pressionada, uma certa curiosidade mórbida. Nunca conhecera ninguém mais franco e ao mesmo tempo mais misterioso do que o alto e jovem MacTavish.

Dougal deu uma risada curta e passou a mão molhada pelos cabelos, grudando para trás as mechas que haviam se desprendido durante nossa fuga - pois isso é o que me parecera - da taberna.

— Bem, Jamie é teimoso como o resto da família. São como rochas, todos eles, e ele é o pior. - Mas havia um indisfarçável tom de respeito em sua voz, por mais que quisesse esconder.

— Jamie contou-lhe que foi açoitado por tentativa de fuga?

— Sim.

— Sim, ele escalou o muro do forte logo depois do anoitecer, no mesmo dia em que os dragões o trouxeram. Era uma ocorrência bastante freqüente ali, as acomodações dos presos não sendo tão seguras quanto desejável. Assim, os ingleses mantinham patrulhas perto dos muros todas as noites. O funcionário da guarnição disse-me que Jamie lutou com todas as forças, pela sua aparência quando o trouxeram de volta, mas eram seis contra um e todos os seis com mosquetes, de modo que não levou muito tempo. Jamie passou a noite acorrentado e foi para o poste de açoite logo de manhã. - Parou, procurando indícios de iminente desmaio ou enjôo.



— Os açoites eram executados logo de manhã, depois da reunião da tropa, de modo a que todos já começassem o dia adequadamente enquadrados no espírito do capitão. Havia três a serem açoitados naquele dia e Jamie era o último.

— Você realmente viu a execução?

— Ah, sim. E vou lhe dizer, dona, ver homens serem açoitados não é uma visão agradável. Tive a sorte de nunca experimentar esse sofrimento, mas imagino que seja terrível. Ver acontecer a outra pessoa, enquanto espera a sua própria vez, deve ser pior ainda.

— Não duvido — murmurei. Dougal balançou a cabeça.

— Jamie tinha uma expressão bastante sombria, mas não moveu um único fio de cabelo, mesmo ouvindo os urros de dor e outros ruídos. Sabia que se pode ouvir a carne sendo dilacerada?

-Ugh!


— Foi assim que me senti também, dona - disse, fazendo uma careta diante da lembrança. — Sem falar no sangue e nas escoriações. Ech! - Cuspiu, evitando cuidadosamente o lago e sua borda. - Revirou meu estômago ver aquilo, e não sou de modo algum um homem fraco.

Dougal continuou sua história macabra.

- Chegando a vez de Jamie, ele caminha até o poste - alguns homens têm que ser arrastados, mas ele não - e estende as duas mãos para que o cabo possa abrir as algemas que está usando. O cabo faz menção de puxá-lo pelo braço, como se tivesse que arrastá-lo à posição, mas Jamie livra-se dele e dá um passo para trás. Eu pensei que ele fosse arrancar em disparada mas em vez disso ele apenas tira a camisa. Está rasgada e imunda como um esfregão, mas ele a dobra cuidadosamente como se fosse sua melhor camisa de domingo e coloca-a no chão. Em seguida, caminha até o poste ereto como um soldado e levanta as mãos para serem atadas.

Dougal sacudiu a cabeça, admirado. A luz do sol filtrando-se através das folhas de sorveira marcava-o com sombras rendadas, de modo que parecia um homem visto através de um pano decorativo de mesa. Sorri diante da idéia e ele balançou a cabeça em aprovação, achando que era minha reação à sua história.

- Sim, dona, coragem assim é extremamente rara. Não era ignorância, veja bem; ele acabara de ver dois homens serem açoitados e sabia que o mesmo tratamento o aguardava. Ele simplesmente decidiu que não havia jeito de escapar. A bravura no campo de batalha não é nada impossível para um escocês, mas dominar o medo com sangue-frio é raro em qualquer homem. Ele tinha apenas dezenove anos na época — Dougal acrescentou como uma reflexão tardia.

- Deve ter sido terrível ficar observando - eu disse ironicamente. -Admiro-me que não tenha ficado nauseado.

Dougal percebeu a ironia e não reagiu.

- Quase fiquei, dona - disse, erguendo as sobrancelhas escuras. - A primeira chicotada arrancou sangue e as costas do rapaz ficaram metade vermelha e metade azul em um minuto. Mas ele não gritou, não implorou misericórdia, nem se contorceu para tentar esquivar-se. Apenas pressionou a cabeça com força contra o poste e ficou imóvel. Contraía-se a cada chicotada, é claro, mas nada além disso. Duvido que eu fosse capaz disso -admitiu -, nem há muitos que sejam. Desmaiou no meio da execução e eles o acordaram com água de um jarro e foram até o fim.

- Realmente abominável - comentei. - Por que está me contando tudo isso?

- Ainda não terminei de contar tudo. - Dougal tirou a adaga da cinta e começou a limpar as unhas com a ponta. Era um homem meticuloso e exigente, apesar das dificuldades de se manter limpo na estrada.

- Jamie estava pendurado pelas cordas, o sangue escorrendo e manchando seu kilt. Não achava que ele tivesse desmaiado, estava apenas mal demais para ficar em pé naquele momento. Mas nesse exato momento o capitão Randall desceu ao pátio. Não sei por que ele não estava lá desde o início; alguns negócios o fizeram se atrasar, talvez. De qualquer modo, Jamie o viu aproximar-se e teve a presença de espírito de fechar os olhos e deixar a cabeça cair, como se estivesse inconsciente.

Dougal franziu as sobrancelhas, concentrando-se implacavelmente em um recalcitrante pedaço de pele na base da unha.

- O capitão ficou decepcionado por já terem açoitado Jamie; pelo visto, era um prazer que tinha reservado para si próprio. No entanto, não havia mais o que fazer por enquanto. Então, começou a fazer perguntas sobre como Jamie veio a escapar.

Levantou a adaga, examinando-a para ver se havia dentes, em seguida começou a amolar o gume na pedra em que estava sentado.

- Deixou vários soldados tremendo nas botas antes de terminar. O sujeito sabe aterrorizar com as palavras, tenho que admitir.

- Isso é verdade — disse secamente.

A adaga continuava a ser ritmadamente raspada na pedra. De vez em quando, uma fagulha fraca saltava do metal quando atingia alguma aspereza na rocha.

- Bem, no curso dessa investigação, descobriu que Jamie tinha uma ponta de pão e um pedaço de queijo com ele quando foi pego, levara com ele quando escalou o muro. Com isso, o capitão pensou um instante, depois exibiu um sorriso que eu teria detestado ver no rosto de minha avó. Então, declara que, sendo o roubo um crime grave, a penalidade devia ser proporcional, e sentencia Jamie na hora a mais cem chicotadas.

Encolhi-me involuntariamente.

- Isso iria matá-lo!

Dougal balançou a cabeça, concordando.

- Sim, foi o que o médico da guarnição disse. Disse que não iria permitir tal coisa; em sã consciência, deve-se conceder dez dias ao prisioneiro para que ele se cure antes de ser açoitado novamente.

- Ora, que gesto humanitário da parte dele - eu disse. - Sã consciência, pelo amor de Deus! E o que o capitão Randall achou disso?

- No começo, não ficou nem um pouco satisfeito, mas aceitou. Tomada a decisão, o sargento-mor, que conhecia um desmaio de verdade, desamarrou Jamie. O rapaz cambaleou um pouco, mas manteve-se em pé, e alguns dos homens presentes aplaudiram e deram vivas, o que não agradou nem um pouco o capitão. Também não ficou nada satisfeito quando o sargento pegou a camisa de Jamie e entregou-a de volta ao rapaz, embora tenha sido um gesto muito louvado pelos homens.

Dougal virou a lâmina de um lado para o outro, examinando-a com olhar crítico. Em seguida, colocou-a sobre os joelhos e olhou-me diretamente nos olhos.

- Sabe, dona, é bastante fácil ser corajoso, sentado numa taberna aconchegante com um copo de cerveja. Não é tão fácil, agachado num descampado frio, com balas de mosquete zunindo junto à sua cabeça e as urzes espetando seu traseiro. E é menos fácil ainda quando você está cara a cara com seu inimigo, com seu próprio sangue escorrendo pelas pernas.

- Imagino que não - eu disse. Eu realmente me sentia um pouco tonta, apesar de tudo. Mergulhei as duas mãos na água, deixando que o líquido escuro esfriasse meus pulsos.

- Eu voltei para falar com Randall durante a semana - Dougal disse em defesa própria, como se sentisse necessidade de justificar a ação. -Conversamos durante um bom tempo e eu até lhe ofereci compensação...

- Ah, estou realmente impressionada — murmurei, mas desisti diante de seu olhar furioso. - Não, falo a sério. Foi muita bondade sua. Imagino que Randall tenha declinado sua oferta, não?

- Sim, foi o que fez. E eu ainda não sabia por quê, pois não tenho visto oficiais ingleses serem tão escrupulosos quando se trata de seu bolso e roupas como as do capitão são bastante caras.

- Talvez ele tenha... outras fontes de renda — sugeri.

- Tem, sim, de fato - Dougal confirmou, mas com um olhar penetrante em minha direção. - Ainda assim... — hesitou, depois prosseguiu, mais devagar.

- Voltei lá novamente para dar apoio a Jamie quando ele fosse castigado outra vez, embora não houvesse muito que eu pudesse fazer por ele a essa altura, pobre rapaz.

Da segunda vez, Jamie era o único prisioneiro a ser açoitado. Os guardas haviam retirado sua camisa antes de trazê-lo para fora, logo após o raiar do dia em uma fria manhã de outubro.

- Eu podia ver que o rapaz estava apavorado - Dougal disse -, embora caminhasse sem auxílio e não permitisse que o guarda o tocasse. Podia vê-lo tremer, tanto de frio quanto de pavor, a pele dos braços e do peito arrepiada, mas o rosto também molhado de suor.

Alguns minutos depois, Randall apareceu, o chicote enfiado debaixo do braço e as bolas de chumbo nas pontas das tiras de couro retinindo ao se chocarem umas contra as outras, enquanto ele caminhava. Olhou Jamie de alto a baixo friamente, depois fez um sinal para que o sargento-mor virasse o prisioneiro e mostrasse suas costas. O rosto de Dougal contraiu-se.

- Uma visão dolorosa... ainda em carne viva, os lanhos apenas parcial-mente fechados, com as marcas enegrecidas e o resto amarelo de hematomas. A idéia de um chicote se abater sobre tais ferimentos foi suficiente para me fazer encolher, juntamente com a maioria das outras pessoas.

---- Randall voltou-se para o sargento-mor e disse: "Belo trabalho, sargento Wilkes. Vamos ver se consigo me sair tão bem." Com imensa meticulosidade, mandou chamar o médico da guarnição e fez com que ele certificasse oficialmente que Jamie estava em condições de ser açoitado outra vez.

- Já viu um gato brincar com um ratinho? - Dougal perguntou. - Foi assim. Randall circulou em volta do rapaz, fazendo um ou outro comentário, nenhum agradável. E Jamie continuou ali firme como um carvalho, sem dizer nada e mantendo os olhos fixos no poste, sem olhar para Randall em nenhum momento. Pude ver que o rapaz agarrava os cotovelos para tentar parar de tremer e Randall também viu.

- Sua boca retesou-se e ele disse: "Pensei que este fosse o jovem que há apenas uma semana gritava que não tinha medo de morrer. Certamente um homem que não tem medo de morrer não teme algumas chicotadas, não é?" E enfiou o cabo do chicote na barriga de Jamie.

- Jamie, então, olhou Randall nos olhos e disse: "Não, mas tenho medo de morrer congelado antes que você pare de falar."

Dougal suspirou.

- Bem, foi um discurso corajoso, mas totalmente imprudente. Bem, flagelar um homem não é um negócio agradável, mas há maneiras de tornar isso pior do que deveria ser; bater de lado para cortar mais fundo ou golpear com força em cima dos rins, por exemplo. — Sacudiu a cabeça. -Terrível.

Franziu o cenho, escolhendo com cuidado as palavras.

- O rosto de Randall estava... concentrado, pode-se dizer... e como que excitado, como acontece quando um homem olha para uma mulher que lhe agrada, se entende o que quero dizer. Era como se estivesse fazendo algo muito pior a Jamie do que apenas esfolá-lo vivo. O sangue escorria pelas pernas do rapaz no décimo quinto golpe e as lágrimas escorriam pelo seu rosto com o suor.

Oscilei um pouco e estendi a mão para me apoiar na pedra da beirada da fonte.

- Bem - disse bruscamente, percebendo a expressão no meu rosto -, não direi mais nada, exceto que ele sobreviveu a isso. Depois, o cabo desamarrou suas mãos, ele quase caiu, mas o cabo e o sargento-mor, cada um agarrou-o de um lado pelos braços e o ampararam até ele conseguir ficar de pé. Ele tremia ainda mais, do choque e do frio, mas mantinha a cabeça erguida e seus olhos flamejavam - eu podia ver de seis metros de distância. Manteve os olhos fixos em Randall enquanto o ajudavam a descer da plataforma, deixando pegadas de sangue, como se encarar Randall fosse a única coisa capaz de mantê-lo em pé. O rosto de Randall estava quase tão pálido quanto o de Jamie e seus olhos estavam pregados nos olhos do rapaz, como se qualquer um deles fosse cair se desviasse os olhos. — Os próprios olhos de Dougal estavam fixos, ainda vendo a cena assustadora.

Tudo estava silencioso na pequena clareira, exceto pela leve agitação do vento nas folhas da sorveira. Fechei os olhos e fiquei ouvindo-o durante algum tempo.

- Por quê? - perguntei finalmente. - Por que me contou tudo isso? Dougal observava-me intensamente quando abri os olhos. Mergulhei uma das mãos na fonte outra vez e apliquei a água fria nas minhas têmporas.

- Achei que poderia servir para o que você poderia chamar de ilustração de caráter - disse.

- De Randall? - exclamei com uma risada curta, sem júbilo. - Não preciso de mais nenhuma evidência do caráter dele, obrigada.

- De Randall — concordou - e de Jamie também. Olhei para ele, repentinamente pouco à vontade.

- Veja bem, eu tenho ordens — enfatizou a palavra sarcasticamente - do bom capitão.

- Ordens de fazer o quê? — perguntei, a aflição aumentando.

- De apresentar a pessoa de uma súdita inglesa, de nome Claire Beauchamp, no Fort William, na segunda-feira, 18 de junho. Para interrogatório.

Devo ter me mostrado realmente alarmada, porque ele se pôs de pé num salto e se aproximou de mim.

- Coloque a cabeça entre os joelhos, dona — instruiu, empurrando a parte de trás do meu pescoço -, até a sensação de desmaio passar.

- Sei o que é preciso fazer - disse, irritada, mas obedecendo ainda assim. Fechei os olhos, sentindo o sangue que fugira começar a pulsar nas minhas têmporas outra vez. A sensação fria e úmida no meu rosto e nas orelhas começou a desaparecer, embora minhas mãos ainda estivessem geladas. Concentrei-me em respirar regularmente, contando: inspirar, um-dois-três-quatro; expirar, um-dois; inspirar, um-dois-três-quatro....

Finalmente, sentei-me, sentindo-me mais ou menos de posse das minhas faculdades. Dougal retomara seu lugar na beira da fonte e esperava pacientemente, observando-me para ter certeza de que eu não cairia para trás, dentro da fonte.

- Há uma maneira de fugir disso — disse bruscamente. - A única que consigo ver.

- Conte-me - eu disse, com uma tentativa pouco convincente de sorrir.

- Então, muito bem. — Inclinou-se para a frente, voltado para mim, para explicar. Randall tem o direito de levá-la a interrogatório porque é súdita da coroa inglesa. Bem, então, temos que mudar isso. Fitei-o, sem compreender.

O que quer dizer? Você também é um súdito da coroa, não? Como Poderia mudar isso?

- A lei escocesa e a lei inglesa são muito semelhantes - disse, franzindo a testa —, mas não são iguais. E um oficial inglês não pode forçar um escocês, a menos que tenha prova concreta de um crime cometido ou base para graves suspeitas. Mesmo com suspeitas, ele não pode retirar um súdito escocês das terras do seu clã sem a permissão do senhor desse clã.

- Andou conversando com Ned Gowan — eu disse, começando a me sentir um pouco tonta outra vez.

Balançou a cabeça, confirmando.

- Sim, conversei. Achei que chegaríamos a esse ponto, sabe. E o que ele me disse é o que eu imaginava; a única maneira de eu me recusar legalmente a entregá-la a Randall é mudá-la de inglesa para escocesa.

— Escocesa? — exclamei, a sensação de vertigem rapidamente substituída por uma terrível suspeita.

Suas palavras seguintes confirmaram minha suspeita.

— Sim - disse, balançando a cabeça diante da expressão do meu rosto. - Você tem que se casar com um escocês. Com o jovem Jamie.

— Eu não poderia fazer isso!

— Bem — ele franziu a testa, considerando a minha reação. - Suponho que possa aceitar Rupert, ao invés de Jamie. Ele é viúvo e arrendatário de uma pequena fazenda. No entanto, ele é bem mais velho e...

— Também não quero me casar com Rupert! Essa é... é a mais absurda... - As palavras me faltavam. Levantando-me, agitada e abalada, comecei a andar de um lado para o outro na pequena clareira, esmagando os frutos caídos da sorveira sob os pés.

- Jamie é um bom rapaz - Dougal argumentou, ainda sentado na pedra da fonte. - No momento, não tem nenhuma propriedade, é verdade, mas tem um bom coração. Nunca seria cruel com você. E é um ótimo lutador, com muita razão para odiar Randall. Se casar com ele, lutará até o último suspiro para protegê-la.

— Mas... mas eu não posso me casar com ninguém! — exclamei. Os olhos de Dougal aguçaram-se de repente.

- Por que não, dona? Ainda tem um marido vivo?

- Não. É que... isso é ridículo! Essas coisas não acontecem! Dougal relaxara quando respondi que não. Agora, ergueu os olhos para o sol e preparou-se para partir.

— É melhor irmos andando, dona. Temos providências a tomar. Terá que haver uma permissão oficial - murmurou, como se falasse consigo mesmo. — Mas Ned pode resolver isso.

Segurou-me pelo braço, ainda murmurando consigo mesmo. Desvencilhei-me de sua mão.

- Não vou me casar com ninguém - disse com firmeza.

Ele não se deixou perturbar, erguendo meramente as sobrancelhas.

- Quer que eu a entregue a Randall?

- Não! - Algo me ocorreu. - Então, pelo menos acredita em mim quando digo que não sou uma espiã inglesa?

- Agora acredito. - Falou com certa ênfase.

- Por que agora e não antes?

Balançou a cabeça indicando a fonte e a figura quase indistinta gravada na pedra. Devia ter centenas de anos, muito mais antiga do que a sorveira gigante que sombreava a fonte e lançava suas flores brancas na água escura.

- Fonte de St. Ninian. Você bebeu a água antes que eu lhe pedisse. A essa altura, eu estava completamente confusa.

- O que isso tem a ver?

Ele pareceu surpreso, depois sua boca contorceu-se num sorriso.

- Não sabia? Também a chamam de fonte do mentiroso. A água tem cheiro dos vapores do inferno. Qualquer um que beba da água e depois conte uma mentira, terá as entranhas arrancadas.

- Compreendo. - Falei entre dentes. - Bem, minhas entranhas estão perfeitamente intactas. Portanto, pode acreditar em mim quando digo que não sou uma espiã, francesa ou inglesa. E pode acreditar em outra coisa, Dougal MacKenzie. Não vou me casar com ninguém!

Ele não estava ouvindo. Na realidade, já abrira caminho pelos arbustos que encobriam a fonte. Somente um galho de carvalho agitado marcava sua passagem. Fumegando de raiva, segui-o.

Continuei protestando por mais algum tempo na viagem de volta para a estalagem. Dougal finalmente advertiu-me a poupar minhas palavras e depois disso prosseguimos em silêncio.

Ao chegarmos à estalagem, atirei as rédeas do meu cavalo no chão, saí batendo os pés e subi as escadas para o refúgio do meu quarto.

A idéia toda não só era ultrajante, como impensável. Eu andava de um lado para o outro no quarto estreito, sentindo-me cada vez mais como um rato na armadilha. Por que diabos eu não tivera a coragem de fugir dos escoceses antes, qualquer que fosse o risco?

Sentei-me na cama e tentei pensar com calma. Considerada estritamente do ponto de vista de Dougal, sem dúvida a idéia era digna de mérito. Se ele simplesmente se recusasse a me entregar a Randall, sem nenhuma desculpa, o capitão poderia facilmente tentar me resgatar à força. E quer ele acreditasse em mim ou não, Dougal compreensivelmente poderia não querer entrar em atrito com um monte de dragões por minha causa.

Além disso, vista a sangue-frio, a idéia também tinha certo mérito do meu lado. Se eu fosse casada com um escocês, provavelmente não seria mais vigiada e guardada. Seria muito mais fácil fugir quando chegasse a hora. E se fosse Jamie - bem, ele gostava de mim, sem dúvida. E conhecia as Highlands como a palma de sua mão. Talvez me levasse a Craigh na Dun ou ao menos naquela direção. Sim, provavelmente o casamento era a melhor forma de atingir meu objetivo.

Essa era a maneira de encarar a situação a sangue-frio. Meu sangue, no entanto, estava longe de estar frio. Eu estava fervendo de raiva e agitação e não conseguia me acalmar, andando de um lado para o outro, furiosa, buscando uma saída. Qualquer saída. Após uma hora nesse estado, meu rosto estava afogueado e minha cabeça latejava. Levantei-me e abri as persianas, enfiando a cabeça para fora na brisa fresca.

Ouviu-se uma batida decidida na porta atrás de mim. Dougal entrou quando eu colocava a cabeça para dentro. Segurava uma folha rígida de papel como uma salva e vinha seguido de Rupert e do imaculado Ned Gowan, fechando a raia como se fossem cavalariços reais.

- Por favor, entrem - eu disse graciosamente.

Ignorando-me como sempre fazia, Dougal removeu um urinol de seu lugar em cima da mesa e espalhou as folhas de papel sem cerimônia sobre a áspera superfície de carvalho.

- Tudo arranjado — disse, com o orgulho de alguém que conduziu um projeto difícil à sua conclusão com sucesso. - Ned já redigiu os documentos; nada como um advogado, desde que ele esteja do seu lado, hein, Ned?

Todos os homens riram, evidentemente de bom humor.

- Não foi na verdade difícil - Ned disse modestamente. - É apenas um contrato simples. - Folheou os papéis com o dedo de um proprietário, em seguida parou, franzindo a testa com um pensamento repentino.

- Não tem nenhuma propriedade na França, tem? - perguntou, olhando-me com preocupação por cima dos pequenos óculos que usava para leitura. Sacudi a cabeça e ele relaxou, arrumando os papéis novamente numa pilha e batendo-os cuidadosamente para que todas as pontas coincidissem.

- Então, é isso. Você só precisa assinar aqui no pé da página e Dougal e Rupert no lugar das testemunhas.

O advogado colocou sobre a mesa o tinteiro que trouxera e, retirando habilmente uma pena de escrever limpa do bolso, entregou-a a mim com um gesto cerimonioso.

- E o que é isso exatamente? — perguntei. Era uma pergunta de natureza retórica, pois a folha de cima da pilha dizia CONTRATO DE CASAMENTO numa caligrafia perfeitamente legível, as letras com cinco centímetros de altura e fortemente negras, de um lado ao outro da página.

Dougal reprimiu um suspiro de impaciência diante da minha recalcitrância.

- Sabe muito bem do que se trata - disse em poucas palavras. — E a menos que tenha alguma outra idéia brilhante para escapar das garras de Randall, vai assiná-lo e acabar com isso. O tempo é curto.

Idéias brilhantes estavam particularmente em falta no momento, apesar da hora que eu despendera martelando o problema. Realmente começava a parecer que essa incrível alternativa era o melhor que eu podia fazer, por mais que esperneasse.

- Mas eu não quero me casar! — disse teimosamente. Ocorreu-me também que o meu ponto de vista não era o único envolvido. Lembrei-me da garota de cabelos louros que eu vira Jamie beijando na alcova do castelo.

- E talvez Jamie não queira casar comigo! — eu disse. — O que me diz? Dougal descartou a questão como insignificante.

- Jamie é um soldado, fará o que mandarem. E você também - disse enfaticamente. - A menos, é claro, que prefira uma prisão inglesa.

Olhei-o furiosa, resfolegando. Eu estivera num redemoinho desde a nossa brusca partida do escritório de Randall e agora meu nível de agitação aumentara substancialmente, confrontada com uma escolha em preto e branco, por assim dizer.

- Quero falar com ele - disse de repente. As sobrancelhas de Dougal ergueram-se instantaneamente.

- Jamie? Por quê?

- Por quê? Porque você está me forçando a casar com ele e, pelo que vejo, nem comunicou a ele!

Obviamente, isso era uma irrelevância, no que dizia respeito a Dougal, mas por fim cedeu e, acompanhado de seus servos favoritos, foi buscar Jamie na taberna lá embaixo.

Jamie apareceu logo depois, parecendo desnorteado.

- Você sabia que Dougal quer que nos casemos? - perguntei sem rodeios.

Sua expressão desanuviou-se.

- Ah, sim. Sabia.

- Mas certamente - eu disse - um jovem como você, quero dizer, não a ninguém mais em quem você esteja, ah, interessado? — Ficou parado, o rosto inexpressivo por um instante, depois pareceu compreender.

-- Ah, se estou prometido? Não, não sou um grande partido para uma Jovem. - Continuou apressadamente, como se achasse que aquilo poderia ser tomado como uma ofensa. — Quero dizer, não tenho nenhuma propriedade e nada mais do que o soldo de um soldado para viver. Esfregou o queixo, lançando-me um olhar dúbio. -- E depois, há essa pequena dificuldade que minha cabeça está a prêmio. Nenhum pai quer ver a filha casada com um homem que pode ser preso e enforcado a qualquer momento. Já pensou nisso?

Com um gesto da mão, descartei o problema da condenação como uma questão de menor importância, comparada àquela monstruosa idéia. Fiz uma última tentativa.

— O fato de eu não ser virgem o incomoda? - Ele hesitou por um instante antes de responder.

— Bem, não - disse devagar -, desde que não a incomode o fato de eu ser. - Riu diante da minha expressão de queixo caído e recuou em direção à porta.

— Imagino que um de nós dois deva saber o que está fazendo - disse. A porta fechou suavemente atrás dele; obviamente, o período de namoro estava encerrado.

Os papéis devidamente assinados, desci cautelosamente as escadas íngremes da estalagem e sentei-me à uma mesa de bar na taberna.

— Uísque — disse à criatura velha e desgrenhada atrás do balcão. Fitou-me com olhos remelentos, mas um sinal de Dougal com a cabeça fez com que trouxesse uma garrafa e um copo. Este último era grosso e esverdeado, com uma lasca na borda, mas era aberto na parte de cima e isso era tudo que importava no momento.

Quando o efeito abrasador de engolir a bebida passou, provocou-me uma certa calma espúria. Senti-me desligada, observando detalhes à minha volta com uma intensidade peculiar: o pequeno vitral acima do bar, lançando sombras coloridas sobre o mal-encarado proprietário e suas mercadorias, a curva do cabo de uma concha de sopa com fundo de cobre que estava pendurada na parede ao meu lado, uma mosca de barriga verde esperneando nas beiradas de uma poça pegajosa em cima da mesa. Com uma certa dose de solidariedade, empurrei-a para fora da poça com o fundo do meu copo.

Gradualmente, tomei consciência de vozes alteradas por trás de uma porta fechada no outro lado do salão. Dougal desaparecera lá dentro depois da conclusão de seus negócios comigo, provavelmente para concretizar as providências com o outro lado contratante. Fiquei satisfeita de ouvir, a julgar pelas vozes altercadas, que meu futuro marido estava se encrespando, apesar de sua aparente falta de objeções anterior. Talvez não tenha querido me ofender.

— Fique firme, rapaz — murmurei e tomei outro gole.

Algum tempo depois, percebi vagamente a mão de alguém abrindo meus dedos a fim de remover o copo esverdeado. Outra mão segurou-me com firmeza pelo cotovelo.

— Cristo, está bêbada como um gambá — disse uma voz no meu ouvido. A voz arranhava desagradavelmente, pensei, como se o dono tivesse comido lixa. Ri baixinho diante da idéia.

- Fique quieta, mulher! - disse a desagradável voz áspera. Tornou-se mais fraca quando o dono da voz virou-se para falar com outra pessoa. -Bêbada como um gambá e falando como um papagaio... o que espera...

Outra voz interrompeu a primeira, mas não pude ouvir o que dizia; as palavras estavam vagas e indistintas. Entretanto, era um som agradável, grave e de certa forma tranqüilizador. Aproximou-se e pude entender algumas palavras. Esforcei-me para me concentrar, mas minha atenção começara a divagar outra vez.

A mosca achara seu caminho de volta à poça e debatia-se no meio, irremediavelmente atolada. A luz filtrada pela janela de vitral recaía sobre ela, reluzindo como faíscas na barriga verde esticada. Meu olhar fixou-se no minúsculo ponto verde, que parecia pulsar conforme a mosca contorcia-se e debatia-se.

- Minha irmã... você não tem a menor chance - eu disse, e a faísca apagou-se.






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