A viajante do tempo


- O COMANDANTE DA GUARNIÇÃO



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12 - O COMANDANTE DA GUARNIÇÃO
Estávamos nos aproximando de Fort William e eu comecei a pensar seriamente no meu plano de ação, quando chegássemos lá.

Iria depender, pensei, do comandante da guarnição. Se acreditasse que eu era uma respeitável senhora em apuros, poderia me fornecer uma escolta temporária em direção à costa e ao meu suposto embarque para a França.

Mas ele poderia suspeitar de mim, surgindo na companhia dos Mac-Kenzie. Ainda assim, eu evidentemente não era escocesa; e se ele imaginasse que eu fosse algum tipo de espiã? Obviamente, era isso que Colum e Dougal pensavam — que eu fosse uma espiã inglesa.

O que me fazia imaginar o que eu supostamente deveria estar espionando. Bem, atividades impatrióticas, suponho; entre as quais, sem dúvida, incluía-se coletar dinheiro para apoiar o príncipe Carlos Eduardo Stuart.

Entretanto, nesse caso, por que Dougal permitira que eu presenciasse suas atividades? Poderia facilmente mandar que eu saísse antes dessa parte dos procedimentos. Claro, tudo se desenrolara em gaélico, argumentei comigo mesma.

No entanto, talvez esse fosse o ponto. Lembro-me do estranho brilho em seus olhos e da frase "Pensei que não soubesse gaélico". Talvez fosse um teste, para ver se eu realmente ignorava a língua. Porque um espião inglês dificilmente seria enviado às Highlands sendo incapaz de falar com metade da população do lugar.

Não, a conversa entre Dougal e Jamie que eu ouvira parecia indicar que Dougal realmente era um jacobita, embora Colum aparentemente não fosse - ainda.

Minha cabeça estava começando a zumbir com todas essas suposições e fiquei satisfeita ao constatar que nos aproximávamos de uma vila razoavelmente grande. Provavelmente, isso também significava uma boa hospedaria e um bom jantar.

A hospedaria era realmente confortável, pelos padrões a que me acostumara. Se a cama era aparentemente projetada para anões - e, aliás, mordidos de pulgas, — aO menos ficava num quarto isolado. Nas diversas estalagens menores, eu dormira num estrado numa sala comum a todos, cercada por homens roncando e as sombras dobradas de vultos envoltos em seus xales.

Em geral, eu adormecia logo, quaisquer que fossem as condições, cansada de um dia na sela e uma noite de politicagem de Dougal. Na primeira noite em uma estalagem, no entanto, permanecera acordada por mais de meia hora, fascinada pela notável variedade de ruídos que os aparelhos respiratórios masculinos eram capazes de produzir. Um dormitório inteiro cheio de estudantes de enfermagem não chegava nem perto.

Ocorreu-me, ouvindo o coro, que os homens numa enfermaria de hospital raramente roncam. Sim, respiram pesadamente. Soltam arfadas, gemem ocasionalmente e às vezes soluçam ou choram durante o sono. Mas não havia comparação com aquele saudável pandemônio. Talvez homens feridos ou doentes não pudessem dormir profundamente o bastante para relaxarem naquela espécie de algazarra.

Se minhas observações estivessem corretas, podia concluir que meus companheiros gozavam da mais perfeita saúde. Sem dúvida, assim pareciam, braços e pernas descontraidamente espraiados, rostos relaxados e brilhando à luz do fogo. O completo abandono de seu sono em tábuas duras de madeira era a satisfação de um apetite tão forte quanto aquele com que se sentavam à mesa de jantar. Obscuramente reconfortada pela cacofonia, puxei minha capa de viagem em volta dos ombros e também fui dormir.

Em comparação, agora me sentia um pouco solitária no esplendor de meu sótão minúsculo e fedorento. Apesar de ter removido as roupas de cama e batido o colchão para desencorajar co-habitantes indesejáveis, tinha certa dificuldade em dormir, tão silencioso e escuro o quarto pareceu depois que apaguei a vela.

Ouviam-se alguns ecos fracos da sala comum dois andares abaixo e um breve ruído de agitação e movimento, mas serviam apenas para realçar meu próprio isolamento. Era a primeira vez que me deixavam tão completamente sozinha desde a minha chegada ao castelo e não estava bem certa se gostava da situação.

Pairava nervosamente à beira do sono quando meus ouvidos captaram um sinistro ranger das tábuas do assoalho no corredor do lado de fora de meu quarto. Os passos eram vagarosos e incertos, como se o intruso hesitasse em seu caminho, escolhendo a tábua de aparência mais firme a cada novo passo. Sentei-me na cama com um pulo, tateando em busca da vela e da caixa de sílex junto à cama.

Minha mão, na busca às cegas, bateu na caixa de sílex, derrubando-a no chão com uma pancada fraca. Fiquei paralisada e os passos do lado de fora também.

Ouviu-se um leve arranhar na porta, como se alguém procurasse o trinco. Eu sabia que a porta estava destrancada; embora tivesse suportes para o trinco, eu vasculhara o quarto inutilmente à cata do trinco antes de ir para a cama. Agarrei o castiçal, arranquei o toco de vela e deslizei da cama tão silenciosamente quanto pude, brandindo a pesada peça de cerâmica.

A porta rangeu levemente nas dobradiças quando cedeu. A única janela do quarto estava hermeticamente fechada tanto contra os elementos do tempo quanto contra a luz; mesmo assim, pude divisar, ainda que vagamente, o contorno turvo da porta ao abrir. O contorno cresceu, em seguida para minha surpresa, encolheu-se e desapareceu quando a porta foi novamente fechada. Tudo ficou silencioso outra vez.

Fiquei comprimida contra a parede pelo que me pareceu uma eternidade, prendendo a respiração e tentando ouvir em meio ao barulho das batidas do meu coração. Por fim, avancei centímetro a centímetro em direção à porta, cuidadosamente dando a volta pelos cantos do quarto ao longo das paredes, considerando que as tábuas do assoalho deviam ser bem mais firmes ali. A cada passo, descia o pé devagar, colocando meu peso sobre ele, depois parando e tateando com os dedos dos pés descalços em busca da junção entre as duas tábuas, antes de apoiar o outro pé com a firmeza que eu julgasse possível.

Quando alcancei a porta, parei, o ouvido pressionado contra as tábuas finas, as mãos agarradas ao batente, alerta contra uma súbita invasão. Achei que ouvia uns sons leves, mas não tinha certeza. Seriam apenas os sons da movimentação lá embaixo ou seria a respiração presa de alguém do outro lado das tábuas da porta?

O fluxo constante de adrenalina estava me deixando tonta. Cansando-me finalmente daquela tolice, agarrei meu castiçal com firmeza, abri a porta com um safanão e me precipitei no corredor.

Digo "me precipitei"; na verdade, dei dois passos, pisei com força em algo macio e caí de cabeça no corredor, ralando os nós dos dedos e batendo a cabeça dolorosamente em algo sólido.

Sentei-me, segurando minha testa com as duas mãos, sem a menor preocupação de que pudesse ser assassinada a qualquer momento.

A pessoa em quem eu pisara praguejava com a respiração entrecortada. Através da névoa de dor, percebi vagamente que ele (presumi pelo tamanho e pelo cheiro de suor que meu visitante era um homem) se levantara e tateava para encontrar o fecho das persianas na parede acima de nós.

Uma repentina lufada de ar fresco me fez encolher e fechar os olhos, quando os abri novamente, a luz do céu noturno era suficiente para eu ver o intruso.

- O que você está fazendo aqui? — perguntei de modo acusador.

Ao mesmo tempo, Jamie perguntou, também num tom de acusação.

- Quanto é que você pesa, Sassenach?

Ainda um pouco confusa, respondi sem pensar:

- Cinqüenta e sete quilos. - Só então pensei em perguntar: - Por quê?

- Você quase esmagou meu fígado - respondeu, apalpando cuidadosamente a área afetada. - Sem mencionar que quase me matou de susto! -Estendeu a mão para baixo e me içou. — Você está bem?

- Não, bati a cabeça. - Esfregando o local, olhei intrigada o corredor inteiramente vazio, sem nenhum objeto ou peça de mobília. - Onde foi que bati com a cabeça? - perguntei.

- Na minha cabeça — ele disse, com uma certa irritação, pensei.

- Bem-feito — eu disse, cruelmente. — O que estava fazendo, se esgueirando dissimuladamente do lado de fora da minha porta?

Lançou-me um olhar furioso.

- Eu não estava "me esgueirando dissimuladamente", pelo amor de Deus. Eu estava dormindo, ou tentando. - Esfregou o que parecia ser um galo se formando em sua têmpora.

- Dormindo?

— Olhei de um lado para o outro do imundo corredor com exagerada surpresa. — Você sem dúvida escolhe os locais mais estranhos; primeiro, a estrebaria, agora isto.

- Talvez lhe interesse saber que há um pequeno grupo de dragões ingleses na taberna aí embaixo - informou-me com frieza. - Estão meio bêbados e se divertindo um pouco desregradamente com duas mulheres da cidade. Como só há duas mulheres e cinco homens, alguns dos soldados pareciam um tanto inclinados a se aventurarem nos andares de cima em busca de... ah, parceiras. Achei que você não iria gostar muito de tais atenções. — Atirou seu xale xadrez por cima do ombro e virou-se na direção das escadas. - Se me enganei nessa impressão, peço desculpas. Não tinha intenção de perturbar seu descanso. Boa noite.

- Espere um instante. - Ele parou, mas não se virou, forçando-me a dar a volta em torno dele para olhá-lo de frente. Retribuiu o olhar, educadamente, mas com frieza.

- Obrigada — eu disse. - Foi muita gentileza sua. Desculpe-me por ter pisado em você.

Ele sorriu, o rosto mudando de uma máscara hostil para sua expressão habitual de bom humor.

- Não foi nada, Sassenach - disse. - Quando a dor de cabeça passar e a costela quebrada sarar, ficarei novo em folha.

Virou-se e empurrou a porta do meu quarto, que se fechara na esteira da minha saída apressada, devido ao fato de que o construtor aparentemente erguera a estalagem sem o benefício de um fio de prumo. Não havia um único ângulo reto no local.

- Volte para a cama, então - ele sugeriu. — Estarei aqui.

Olhei para o chão. Além de essencialmente duro e frio, as tábuas de carvalho estavam manchadas de cusparadas, líquidos entornados e outras formas de imundície que eu não queria nem imaginar. A marca do construtor na verga da porta dizia 1732 e obviamente essa fora a única vez que as tábuas do assoalho haviam sido limpas.

- Não pode dormir aqui fora — eu disse. — Entre, ao menos o chão do quarto não está tão ruim.

Jamie ficou paralisado, a mão no batente da porta.

- Dormir no quarto com você? - Pareceu verdadeiramente chocado. - Eu não poderia fazer isso! Sua reputação ficaria arruinada!

Ele falava a sério. Comecei a rir, mas diplomaticamente transformei a risada em um acesso de tosse. Dadas as exigências da viagem, a superlotação das hospedarias e a crueza ou completa ausência de instalações sanitárias, eu estava tão acostumada à intimidade física com esses homens, inclusive Jamie, que achei hilariante a idéia de tanto pudor.

- Você já dormiu no mesmo aposento que eu outras vezes - ressaltei, quando me recobrei. - Você e mais outros vinte homens.

Ele gaguejou um pouco.

- Não é a mesma coisa! Quero dizer, eram locais totalmente públicos e... — Parou, acometido por um terrível pensamento. — Você não pensou que eu quis dizer que você estivesse sugerindo alguma coisa imprópria, pensou? - perguntou ansiosamente. - Acredite, eu...

- Não, não. Absolutamente. — Apressei-me a tranqüilizá-lo, assegurando-lhe que não me ofendera.

Vendo que não conseguiria persuadi-lo, insisti para que ao menos ele usasse os cobertores da minha cama para se deitar. Ele concordou com alguma relutância e somente depois de eu afirmar várias vezes que de qualquer modo eu não iria usá-los, mas que pretendia dormir como sempre enrolada na minha grossa manta de viagem.

Tentei agradecer-lhe novamente, quando parei junto à cama improvisada, antes de retornar ao meu fétido santuário, mas ele descartou meus agradecimentos com um gesto gracioso da mão.

- Não foi uma gentileza inteiramente desinteressada de minha parte, sabe - ele observou. - Eu mesmo não queria ser notado.

Havia me esquecido que ele tinha suas próprias razões para se manter longe dos soldados ingleses. Também não me passou despercebido, no entanto, que isso poderia ter sido conseguido bem mais facilmente, sem falar mais confortavelmente, se ele dormisse na aquecida e arejada estrebaria, ao invés do chão diante da minha porta.

-- Mas se alguém realmente vier aqui em cima - protestei -, irá encontrá-lo.

Estendeu o braço longo para segurar a persiana giratória e fechou-a. O corredor mergulhou na escuridão e Jamie não parecia mais do que um Vulto sem formas definidas.

- Não podem ver meu rosto — ressaltou. — E nas condições em que estão, meu nome também não despertaria nenhum interesse, ainda que lhes desse meu nome verdadeiro, o que não pretendo fazer.

- É verdade — eu disse, sem muita convicção. - Mas será que não se perguntarão o que você está fazendo aqui em cima no escuro? — Eu não podia ver nada da expressão do seu rosto, mas o tom de sua voz dizia-me que ele estava sorrindo.

- De jeito nenhum, Sassenach. Vão achar apenas que estou esperando a minha vez.

Com isso, ri e entrei. Enrolei-me na cama e fui dormir, admirada com a mente que podia fazer piadas tão lascivas ao mesmo tempo em que se horrorizava com a idéia de dormir no mesmo quarto que eu.

Quando acordei, Jamie já fora embora. Descendo para o desjejum, encontrei Dougal ao pé das escadas, aguardando-me.

— Coma rapidamente, dona - disse. - Você e eu vamos a Brockton. Absteve-se de me dar maiores informações, mas parecia um pouco nervoso. Comi rapidamente e logo estávamos trotando pela névoa do começo da manhã. Os pássaros agitavam-se nos arbustos e o ar anunciava um quente dia de verão.

— Quem vamos ver? — perguntei. — Pode me dizer, porque se eu não conhecer, ficarei surpresa, e se conhecer, sou inteligente o bastante para fingir que estou surpresa, de qualquer modo.

Dougal olhou-me de soslaio, considerando o que eu dissera, mas decidiu que meu argumento fazia sentido.

— O comandante da guarnição de Fort William - disse.

Senti um pequeno choque. Não estava preparada para isso. Achava que ainda teríamos três dias até alcançarmos o forte.

— Mas estamos muito longe de Fort William! - exclamei.

— Mmmhum.

Pelo visto, este comandante de guarnição era do tipo irrequieto. Não satisfeito em permanecer em casa cuidando de sua guarnição, saía para inspecionar o campo com um grupo de dragões. Os soldados que estiveram em nossa hospedaria na noite anterior faziam parte deste grupo e disseram a Dougal que o comandante no momento estava instalado na hospedaria em Brockton.

Esse fato criava um novo problema e eu fiquei em silêncio pelo resto do percurso, analisando-o. Eu contara em poder me afastar da companhia de Dougal em Fort William, que eu achava ficar a um dia de viagem da colina de Craigh na Dun. Mesmo não estando preparada para acampar e não tendo comida nem outros recursos, achava que poderia cobrir essa distância sozinha e achar meu caminho até o círculo de pedras. Quanto ao que aconteceria depois - bem, só poderia saber indo até lá.

No entanto, este novo acontecimento colocou um obstáculo inesperado nos meus planos. Se eu me separasse de Dougal aqui, como provavelmente aconteceria, estaria a quatro dias de viagem da colina, não um. Além disso, eu não tinha bastante confiança em meu senso de direção, quanto mais minha resistência física, para me arriscar sozinha a pé entre os pântanos e penhascos desertos. As últimas semanas de viagem em condições precárias me deram um cauteloso respeito pelos rochedos acidentados e riachos traiçoeiros das Highlands, sem falar de um ou outro animal selvagem. Não tinha nenhuma vontade em particular de me deparar com um javali, por exemplo, cara a cara em alguma ravina deserta.

Chegamos a Brockton no meio da manhã. A neblina se dissipara e o dia estava ensolarado o suficiente para me incutir uma sensação de otimismo. Talvez fosse uma tarefa simples, afinal de contas, persuadir o comandante da guarnição a me fornecer uma pequena escolta que me levasse até a colina.

Eu pude compreender por que o comandante escolhera Brockton para seu quartel-general temporário. A vila era bastante grande para abrigar duas tabernas, uma delas um imponente edifício de três andares com uma estrebaria anexa. Paramos ali, entregando nossos cavalos aos cuidados do cavalariço, que se movia tão lentamente que parecia fossilizado. Ele mal conseguira chegar à porta da estrebaria quando já estávamos lá dentro e Dougal pedira algo para se comer ao dono da taberna.

Fui deixada no térreo, diante de um prato de bolachas de aveia velhas, enquanto Dougal subia as escadas até o quarto particular do comandante. Tive uma sensação estranha ao vê-lo se afastar. Havia três ou quatro soldados ingleses na taberna, que me olharam especulativamente, conversando entre si em voz baixa. Após um mês entre os escoceses do clã MacKenzie, a presença dos dragões ingleses deixava-me inexplicavelmente nervosa. Disse a mim mesma que estava sendo tola. Afinal, eram meus próprios compatriotas, em outra época ou não.

Ainda assim, sentia falta da companhia agradável do sr. Gowan e a familiaridade reconfortante de Jamie não-sei-o-quê. Sentia que não tivera a oportunidade de me despedir de ninguém antes de partir de manhã, quando ouvi a voz de Dougal chamando da escada atrás de mim. Ele estava no topo da escada, acenando para que eu subisse.

Parecia um pouco mais sombrio do que o normal, pensei, quando afastou-se para o lado sem dizer nenhuma palavra e fez sinal para que eu entrasse no aposento. O comandante da guarnição estava parado junto à Janela aberta, sua figura esbelta e ereta em silhueta contra a luz. Deu uma risada curta ao me ver.

- Sim, foi o que eu pensei. Tinha que ser você, pela descrição do MacKenzie. - A porta fechou-se atrás de mim e eu fiquei sozinha com o capitão Jonathan Randall da Oitava Companhia dos Dragões de Sua Majestade.

Desta vez, trajava um uniforme vermelho e castanho-amarelado, limpo, com um peitilho enfeitado de renda e uma peruca perfeitamente cacheada e empoada. Mas o rosto era o mesmo - o rosto de Frank. Minha respiração ficou presa na garganta. Desta vez, entretanto, notei as pequenas rugas de crueldade em torno de sua boca e o toque de arrogância na postura dos ombros. Ainda assim, sorriu afavelmente e convidou-me a sentar.

O quarto estava escassamente mobiliado, apenas com uma mesa e uma cadeira, uma longa mesa de reunião e algumas banquetas. O capitão Randall fez um sinal para um jovem cabo que montava guarda perto da porta e uma caneca de cerveja foi desajeitadamente servida e colocada à minha frente.

O capitão mandou o cabo de volta à sua posição com um gesto da mão e serviu-se ele próprio da cerveja. Em seguida, acomodou-se elegantemente em uma das banquetas do outro lado da mesa, diante de mim.

- Muito bem - disse, gentilmente. — Por que não me conta quem você é e como veio parar aqui?

Não tendo outra escolha no momento, repeti a mesma história que contara a Colum, omitindo apenas as referências menos diplomáticas a seu próprio comportamento, que de qualquer modo ele conhecia. Eu não fazia a menor idéia de quanto Dougal lhe contara e não queria me arriscar a cometer um erro grave.

O capitão pareceu amável, mas cético durante toda a narração. Deu-se menos ao trabalho de ocultar seus sentimentos do que Colum, refleti. Inclinou-se para trás em sua banqueta, considerando.

- Oxfordshire, você diz? Não há nenhum Beauchamp em Oxfordshire que eu conheça.

- Como poderia saber? - retorqui. - Você mesmo é de Sussex. Seus olhos se arregalaram de surpresa. Eu podia morder a língua.

- E posso lhe perguntar como é exatamente que você sabe disso? — perguntou.

- Hã, sua voz. Sim, é o seu sotaque — respondi apressadamente. — Claramente Sussex.

As graciosas sobrancelhas escuras quase tocavam os cachos de sua peruca.

- Nem meus tutores, nem meus pais ficariam muito satisfeitos em saber que minha maneira de falar reflete com tanta clareza meu local de nascimento, madame — disse secamente. — Eles se deram a muito trabalho e gastos consideráveis para consertar isso. Mas, sendo a especialista em padrões locais de linguagem que você é - virou-se para o homem parado junto à parede - sem dúvida também pode identificar o local de origem de meu cabo. Cabo Hawkins, poderia me fazer o favor de recitar alguma coisa? Qualquer coisa serve - acrescentou, vendo a confusão no rosto do sujeito. - Um verso popular, por exemplo.

O cabo, um jovem de ombros largos, com uma expressão idiota no rosto carnudo, olhou desesperadamente à volta do aposento em busca de inspiração, depois se colocou em posição de sentido e entoou:

A viçosa Meg, ela lavava minhas roupas, E levou todas embora.

Esperei assim com grande aflição,

E depois eu a fiz pagar por isso.

- Ah, já chega, cabo, obrigado. — Randall fez um gesto para que se retirasse e o cabo recolheu-se junto à parede, suando em bicas.

- E então? - Randall voltou-se para mim, aguardando uma resposta.

- Hã, Cheshire - arrisquei.

- Quase. Lancashire. - Estreitou os olhos, examinando-me. Unindo as mãos atrás das costas, caminhou até a janela e olhou para fora. Verificando se Dougal trouxera homens com ele?, pensei.

Repentinamente, ele girou nos calcanhares, novamente de frente para mim, com um repentino:

- Parlez-vous français?

- Três bien - respondi prontamente. - O que tem isso?

A cabeça inclinada para um lado, examinou-me atentamente.

- Duvido que seja francesa - disse, como se falasse consigo mesmo. -Poderia ser, eu creio, mas ainda tenho que encontrar um francês que pudesse diferenciar um londrino de um habitante da Cornualha.

As unhas cuidadosamente manicuradas tamborilaram na madeira do tampo da mesa.

- Qual era mesmo seu nome de solteira, sra. Beauchamp?

- Olhe, capitão — eu disse, sorrindo o mais graciosamente possível —, por mais divertido que seja brincar de adivinhação com o senhor, eu realmente gostaria de concluir esses preliminares e preparar a continuação da minha viagem. Já fiquei bastante tempo retida e...

-- Você não ajuda em nada o seu caso adotando essa atitude frívola, madame - interrompeu, estreitando os olhos. Eu já vira Frank fazer isso, quando contrariado com alguma coisa e senti um enfraquecimento nos joelhos. Coloquei as mãos nas coxas para controlar-me.

- Não tenho nenhum caso a ser ajudado - eu disse, reunindo toda a coragem que podia. - Não estou reivindicando nada a você, à guarnição, mesmo aos MacKenzie. Tudo que quero é que me permitam retomar minha viagem em paz. E não vejo nenhuma razão pela qual você teria alguma objeção quanto a isso.

Olhou-me fixamente, os lábios apertados de irritação.

- Ah, não vê? Bem, considere minha posição por um instante, madame, e talvez minhas objeções se tornem mais claras. Um mês atrás, eu estava com meus homens numa perseguição violenta a um bando de bandidos escoceses não identificados que havia fugido com um pequeno rebanho de gado de uma propriedade perto da fronteira, quando...

- Ah, então era isso que estavam fazendo! - exclamei. - Fiquei me perguntando — acrescentei, frouxamente.

O capitão Randall respirou pesadamente, depois resolveu desistir do que quer que pretendia dizer, a fim de continuar sua história.

- No meio dessa perseguição por força da lei — continuou, medindo as palavras -, encontrei uma inglesa semi-vestida, em um lugar onde nenhuma inglesa deveria estar, ainda que acompanhada de uma escolta adequada, que resiste às minhas perguntas, ataca a minha pessoa...

- Você me atacou primeiro! - eu disse, indignada.

- Cujo cúmplice me deixa inconsciente com um ataque covarde e que depois foge do local, obviamente com a ajuda de alguém. Meus homens e eu fizemos uma busca rigorosa naquela área e asseguro-lhe, madame, não havia sinal de seu criado assassinado, sua bagagem saqueada, suas roupas arrancadas, nem o menor sinal de que haja alguma verdade em sua história!

- Oh? — exclamei, debilmente.

- Sim. Além disso, não tinha havido nenhuma denúncia de bandidos naquela região nos últimos quatro meses. E agora, madame, você aparece na companhia do comandante de guerra do clã MacKenzie, que me diz que seu irmão Colum está convencido de que é uma espiã, provavelmente trabalhando para mim.

- Bem, não sou, sou? - eu disse, razoavelmente. — Ao menos, sabe disso.

- Sim, eu sei disso - repetiu demonstrando exagerada paciência. - O que eu não sei é quem diabos é você! Mas pretendo descobrir, madame, não tenha dúvidas quanto a isso. Sou o comandante desta guarnição. Como tal, tenho o poder de tomar certas medidas a fim de assegurar a segurança desta região contra traidores, espiões e qualquer outra pessoa cujo comportamento eu considere suspeito. E essas medidas, madame, estou plenamente preparado para tomar.

- E exatamente quais seriam essas medidas? — perguntei. Queria realmente saber, embora suponho que o tom da minha pergunta deva ter soado um pouco provocante.

Ele se levantou, olhou-me pensativamente por um instante, depois deu a volta na mesa, estendeu a mão e me colocou de pé.

- Cabo Hawkins - disse, ainda olhando-me fixamente -, vou requerer sua assistência por um instante.

O jovem junto à parede pareceu profundamente perturbado, mas aproximou-se de nós.

- Fique atrás da senhora, por favor, cabo — Randall disse, parecendo entediado. - E segure-a com firmeza pelos dois braços.

Ele afastou o braço para trás e desfechou um soco na boca do meu estômago.

Não emiti nenhum som, porque fiquei totalmente sem ar. Sentei-me no chão, dobrei o corpo, lutando para conseguir inspirar algum ar para os pulmões. Eu estava chocada muito além da dor do golpe em si, que já se fazia sentir, juntamente com uma onda de vertigem e enjôo. Numa vida bastante cheia de acontecimentos, ninguém jamais me golpeara de propósito.

O capitão agachou-se diante de mim. Sua peruca estava ligeiramente inclinada, mas fora isso e um certo brilho em seus olhos, não demonstrava nenhuma alteração de sua controlada elegância habitual.

- Espero que não esteja grávida, madame — disse em tom casual —, porque se estiver, não será por muito tempo.

Eu estava começando a emitir um estranho chiado, conforme os primeiros bocados de oxigênio conseguiram passar dolorosamente pela minha garganta. Rolei sobre as mãos e os joelhos e tateei fracamente em busca da borda da mesa. O cabo, após um olhar nervoso para o capitão, estendeu a mão para me ajudar a ficar em pé.

Ondas de escuridão pareciam tomar conta do aposento. Deixei-me cair na banqueta e fechei os olhos.

- Olhe para mim. - A voz era tão suave e calma como se ele estivesse me oferecendo chá. Abri os olhos e olhei para ele através de uma ligeira névoa. Tinha as mãos apoiadas nos quadris elegantemente trajados.

- Tem alguma coisa a me dizer agora, madame? — perguntou.

- Sua peruca está torta - disse, e fechei os olhos outra vez.






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