A viajante do tempo



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PARTE III

NA ESTRADA


11 - CONVERSAS COM UM ADVOGADO
Atravessamos os portões do Castelo Leoch dois dias depois, pouco antes do amanhecer. Em grupos de dois, três e quatro, ao som das exclamações de despedidas e dos gritos dos gansos selvagens no lago, os cavalos cruzaram cuidadosamente a ponte de pedras. Eu olhava para trás de vez em quando, até o vulto do castelo desaparecer atrás de uma cortina de névoa reluzente. A idéia de que talvez eu nunca mais visse a sombria construção de pedra ou seus habitantes me fez sentir uma estranha sensação de pesar.

O barulho dos cascos dos cavalos parecia abafado no nevoeiro. As vozes transportavam-se estranhamente pelo ar úmido, de modo que os chamados em uma das pontas da longa fila às vezes eram facilmente ouvidos na outra ponta, enquanto os sons de uma conversa próxima perdiam-se em murmúrios interrompidos. Era como cavalgar pelo meio de uma neblina povoada de fantasmas. Vozes sem corpo flutuavam no ar, soando distantes, depois espantosamente perto.

Meu lugar era no meio do grupo, flanqueada de um lado por um soldado cujo nome eu não sabia e, do outro, por Ned Gowan, o pequeno escriba que eu vira trabalhando no Conselho de Colum. Ele era mais do que um escriba, como descobri, quando começamos a conversar na estrada.

Ned Gowan era advogado. Nascido, criado e educado em Edimburgo, era o advogado típico. Um homem franzino e idoso, de hábitos organizados e meticulosos, usava um casaco de casimira de boa qualidade, finas meias de lã, uma camisa de linho com um discreto peitilho de renda e calças presas abaixo do joelho de um tecido que era um compromisso bem calculado com os rigores de viagens e o status de sua profissão. Um pequeno par de óculos de aro de ouro, um elegante laço de cabelo e um chapéu de duas pontas, de feltro azul, completavam a figura. Era a imagem tão perita de um homem da lei que eu não conseguia olhar para ele sem sorrir.

Cavalgava a meu lado em uma égua tranqüila cuja sela estava carregada com duas enormes sacolas de couro gasto. Explicou-me que uma transportava as ferramentas do seu ofício: tinteiro, penas de escrever e papel.

-- E para que serve a outra? - perguntei, examinando-a. Enquanto a primeira sacola estava rechonchuda com seu conteúdo, a segunda parecia quase vazia.

- Ah, são para os tributos do senhorio - respondeu o advogado, dando umas Palmadinhas na sacola flácida.

- Então, ele deve estar esperando muito dinheiro, não? - sugeri. O sr. Gowan encolheu os ombros afavelmente.

- Nem tanto, minha querida. A maior parte será paga com níqueis, centavos e outras moedinhas. E essas, infelizmente, ocupam mais espaço que outras espécies mais valiosas. - Sorriu, uma rápida curva dos lábios finos e ressequidos. - Quanto a isso, uma pesada quantidade de cobre e prata ainda é mais fácil de ser transportada do que o grosso da renda do nosso senhorio.

Voltou-se para lançar um olhar significativo por cima do ombro para as duas grandes carroças puxadas por mulas que acompanhavam o grupo.

- Sacas de grãos e feixes de nabos ao menos têm a vantagem de ausência de motilidade. Quanto a aves, se devidamente engaioladas, não tenho nada contra. Nem contra cabras, embora demonstrem certa inconveniência com seus hábitos onívoros; uma delas comeu um lenço meu no ano passado, embora tenha que admitir que a culpa foi minha em deixar o tecido despontando imprudentemente de um dos bolsos do meu casaco. - Os lábios finos cerraram-se numa linha determinada. - Este ano, no entanto, dei ordens explícitas. Não aceitaremos porcos vivos.

A necessidade de proteger os alforjes do sr. Gowan e as duas carroças explicava a presença dos vinte e poucos homens que integravam o resto do grupo de coleta de aluguéis, imaginei. Todos estavam armados e montados e havia alguns animais de carga, transportando o que presumi tratar-se de suprimentos para o sustento do grupo. A sra. Fitz, entre despedidas e advertências, dissera-me que as acomodações seriam primitivas ou inexistentes, com muitas noites passadas em acampamentos ao longo da estrada.

Eu estava muito curiosa para saber o que levara um homem com as óbvias qualificações do sr. Gowan a aceitar um cargo nas remotas Highlands da Escócia, longe das conveniências da vida civilizada à qual devia estar acostumado.

- Bem, quanto a isso — disse, em resposta às minhas perguntas —, quando eu era jovem, possuía um pequeno escritório de advocacia em Edimburgo. Com cortinas de renda na janela e uma placa de latão reluzente na porta, com meu nome gravado. Mas fiquei cansado de fazer testamentos e redigir escrituras, e de ver os mesmos rostos na rua, dia após dia. Assim, fui embora - disse com simplicidade.

Comprara um cavalo e alguns suprimentos e partira, sem fazer idéia para onde iria ou o que faria quando lá chegasse.

- Veja bem, devo admitir - disse, tocando o nariz afetadamente com um lenço bordado com seu monograma - um certo gosto por... aventura. Entretanto, nem minha compleição física, nem meus antecedentes familiares me habilitaram para a vida de um salteador de estradas ou de um homem do mar, que eram as ocupações mais aventurescas que eu podia vislumbrar na época. Como alternativa, resolvi que o melhor caminho para mim estava nas Highlands. Achei que talvez, com o tempo, pudesse convencer algum chefe de clã a..., bem, permitir que o servisse de algum modo.

E no curso de suas viagens, ele havia, de fato, encontrado tal chefe.

- Jacob MacKenzie - disse, com um sorriso afetuoso, nostálgico. -Velho patife desgraçado. - O sr. Gowan balançou a cabeça em direção à frente da comitiva, onde os cabelos brilhantes de Jamie MacTavish reluziam na neblina. - Seu neto parece-se muito com ele, sabe. Nos encontramos pela primeira vez na ponta de uma pistola, Jacob e eu, quando ele me roubava. Entreguei meu cavalo e minhas sacolas sem resistência, não tendo mesmo outra escolha. Mas acredito que ele ficou um tanto surpreso quando insisti em acompanhá-lo, a pé se necessário.

-Jacob MacKenzie. Seria o pai de Colum e Dougal? - perguntei. O idoso advogado confirmou, balançando a cabeça.

- Sim. Claro, ele não era um proprietário de terras na época. Isso aconteceu alguns anos mais tarde... com uma pequena ajuda de minha parte - acrescentou modestamente. — As coisas eram menos... civilizadas naquela época — disse nostalgicamente.

- Ah, eram? — exclamei educadamente. — E Colum, hã, herdou-o, por assim dizer?

- Algo assim - disse o sr. Gowan. - Houve uma certa confusão quando Jacob morreu. Colum era o herdeiro de Leoch, sem dúvida, mas ele... — O advogado parou, olhando para a frente e para trás, para se certificar de que ninguém estivesse perto para ouvi-lo. O soldado havia se adiantado para emparelhar com alguns companheiros e uns quatro corpos de cavalos nos separavam do carroceiro que conduzia a carroça mais próxima.

- Colum era um homem perfeito aos dezoito anos — continuou sua história - e prometia ser um grande líder. Casou-se com Letitia como parte de uma aliança com os Cameron. Eu redigi o contrato de casamento - acrescentou, como uma nota de rodapé. - Mas logo após o casamento ele sofreu uma queda grave, durante um ataque de surpresa. Quebrou o osso longo da coxa e ele nunca se remendou direito.

Assenti. Não poderia mesmo, é claro.

- E depois - continuou o sr. Gowan com um suspiro -, levantou-se da cama cedo demais e levou um tombo das escadas que quebrou a outra perna. Ficou na cama quase um ano, mas logo ficou claro que os danos eram irreversíveis. Foi quando Jacob morreu, infelizmente.

O homem franzino fez uma pausa para ordenar os pensamentos. Olhou novamente para a frente, como se procurasse alguém. Não encontrando, acomodou-se na sela outra vez.

- Foi nessa época que houve toda aquela confusão sobre o casamento de sua irmã também - disse. - E Dougal... bem, receio que Dougal não se comportou muito bem nesse caso. Caso contrário, Dougal teria sido nomeado chefe na ocasião, mas as pessoas viram que ele ainda não tinha juízo para isso. - Sacudiu a cabeça. - Ah, houve um grande tumulto sobre tudo isso. Havia primos, tios e arrendatários. Foi necessário um Grande Encontro para resolver a questão.

- Mas escolheram Colum, afinal? - Eu me admirava mais uma vez com a força de personalidade de Colum MacKenzie. E, lançando um olhar ao homenzinho encarquilhado que cavalgava a meu lado, pensei ainda que Colum também tivera sorte ao escolher seus aliados.

- Sim, mas somente porque os irmãos permaneceram firmemente unidos. Não havia dúvida, veja bem, sobre a coragem de Colum, nem mesmo de sua capacidade mental, mas apenas de seu corpo. Era óbvio que ele jamais poderia liderar seus homens em uma batalha outra vez. Mas havia Dougal, forte e saudável, ainda que um pouco imprudente e exaltado. Ele colocou-se atrás do trono do irmão e prometeu seguir a palavra de Colum e ser suas pernas e seu braço armado no campo. Assim, foi feita uma sugestão de que Colum pudesse se tornar o chefe do clã, como faria normalmente, e Dougal fosse nomeado comandante de guerra, para liderar o clã em tempo de batalhas. Não era uma situação sem precedentes -acrescentou, para ser mais preciso.

A modéstia com que disse "Foi feita uma sugestão..." deixou claro de quem fora a sugestão.

- E você é um homem de quem? — perguntei. — Colum ou Dougal?

- Meus interesses devem estar com o clã MacKenzie como um todo -disse o sr. Gowan prudentemente. - Mas, formalmente, fiz meu juramento a Colum.

Formalmente uma ova, pensei. Eu vira aquela cerimônia de juramento, embora não me lembre especificamente da figura pequena do advogado entre tantos homens. Nenhum homem poderia estar presente naquela cerimônia e permanecer impassível, nem mesmo um advogado nato. E o homenzinho na égua baia, por mais ressequidos que fossem seus ossos, e afundado em leis até a medula, tinha por seu próprio testemunho a alma de um romântico.

- Ele deve considerá-lo uma grande ajuda — eu disse diplomaticamente.

- Ah, faço alguma coisa de vez em quando - ele disse, com modéstia.

- Como faço pelos outros. Caso precise de meus préstimos, minha querida - disse, radiante de contentamento -, sinta-se à vontade de pedir o meu auxílio. Pode confiar em minha discrição, asseguro-lhe. - Fez uma mesura graciosamente antiquada de sua sela.

- Na mesma extensão de sua lealdade a Colum MacKenzie? - perguntei, arqueando as sobrancelhas. Os pequenos olhos castanhos fitaram os meus diretamente e eu vi tanto a astúcia quanto o humor que se escondiam em suas turvas profundezas.

- Ah, sim - disse, sem se desculpar. — Vale tentar.

- Acho que sim — retruquei, mais com vontade de rir do que com raiva. - Mas eu lhe asseguro, sr. Gowan, que não tenho nenhuma necessidade de sua discrição, ao menos no momento. — É contagiante, pensei, ao ouvir a mim mesma. Estou falando exatamente como ele.

- Sou uma dama inglesa — acrescentei com firmeza - e nada mais. Colum está perdendo o tempo dele, e o seu, tentando extrair segredos de mim que não existem. - Ou que realmente existem, mas não podem ser revelados, pensei. A discrição do sr. Gowan podia ser ilimitada, mas não sua fé.

- Ele não o enviou conosco apenas para me coagir a revelações prejudiciais, enviou? - perguntei, atingida repentinamente pelo pensamento.

- Ah, não. - O sr. Gowan deu uma pequena risada diante da idéia. -Não, ora essa, minha querida. Eu desempenho uma função essencial, lidando com os recibos e com a contabilidade para Dougal, e realizando algumas pequenas exigências legais que os homens do clã nas áreas mais remotas possam ter. E receio que mesmo na minha idade avançada, não superei completamente a necessidade de ir em busca de aventuras. As coisas são muito mais pacatas hoje do que costumavam ser — soltou um suspiro que devia ser de arrependimento -, mas sempre há a possibilidade de assalto nas estradas ou ataques perto das fronteiras.

Bateu levemente no segundo alforje em sua sela.

- Esta sacola não está inteiramente vazia, sabe. — Levantou a aba o suficiente para que eu pudesse ver as coronhas reluzentes de um par de pistolas de cabos ornamentados, habilmente instaladas em presilhas gêmeas que as mantinham ao alcance fácil da mão.

Examinou-me com um olhar que assimilava cada detalhe das minhas roupas e aparência.

- Você mesma deveria andar armada, minha querida — disse em tom de ligeira reprovação. - Embora imagine que Dougal não acharia conveniente... ainda. Vou falar com ele sobre isso - prometeu.

Passamos o resto do dia em agradável conversa, vagando pelas reminiscências dos bons tempos de outrora quando os homens eram homens e a erva daninha da civilização era menos avassaladora nas trevas agradáveis e incultas das Highlands.

Ao cair da noite, armamos um acampamento numa clareira perto da estrada. Eu tinha um cobertor, enrolado e amarrado atrás da minha sela, e com isso preparei-me para passar minha primeira noite de liberdade do castelo. Entretanto, quando deixei a fogueira e me encaminhei para um lugar atrás de uma árvore, tinha consciência dos olhares que me seguiam. Mesmo ao ar livre, ao que parecia, a liberdade tinha limites bem definidos.

Chegamos à primeira parada por volta de meio-dia do segundo dia. Não passava de um aglomerado de três ou quatro cabanas erguidas fora da estrada, junto a um pequeno vale. Um banco foi trazido- de uma das pequenas casas para uso de Dougal e uma prancha - providencialmente trazida em uma das carroças - foi colocada sobre dois outros para servir como uma superfície sobre a qual o sr. Gowan poderia escrever.

Ele retirou um enorme quadrado de linho engomado do bolso da aba de seu casaco e estendeu-o cuidadosamente sobre um tronco, temporariamente retirado de sua função normal de apoio para rachar lenha. Sentou-se sobre ele e começou a arrumar o tinteiro, os livros de contabilidade e um bloco de recibos, tão composto em seus gestos como se ainda estivesse atrás de suas cortinas de renda em Edimburgo.

Um a um, os homens das pequenas fazendas das proximidades foram aparecendo, para conduzir seus negócios anuais com o representante do proprietário. Era um trabalho calmo e conduzido com bem menos formalidade do que os trâmites no salão do Castelo Leoch. Cada homem aproximava-se, recém-chegado do campo ou dos estábulos, e puxando um banco, sentava-se ao lado de Dougal em aparente igualdade, explicando, queixando-se ou apenas conversando.

Alguns vinham acompanhados de um ou dois filhos vigorosos, carregando sacas de grãos ou de lã. Ao final de cada conversa, o infatigável Ned Gowan lavrava um recibo pelo pagamento do aluguel anual, registrava a transação cuidadosamente no livro-razão e estalava os dedos para um dos ajudantes, que obedientemente carregava o pagamento para uma das carroças. Com menos freqüência, uma pequena pilha de moedas desaparecia nas profundezas de sua sacola de couro com um leve tinido de metal. Enquanto isso, os soldados descansavam sob as árvores ou desapareciam na floresta da encosta - para caçar, suponho.

Variações dessa cena repetiram-se muitas vezes nos dias seguintes. De vez em quando, eu era convidada a uma cabana para tomar cidra ou leite e todas as mulheres amontoavam-se no único cômodo pequeno para conversar comigo. Algumas vezes, um aglomerado de casinhas rústicas era grande o suficiente para comportar uma taberna ou mesmo uma estalagem, que se tornava o quartel-general de Dougal naquele dia.

Uma vez ou outra, os aluguéis incluíam um cavalo, uma ovelha ou outro animal doméstico vivo. Em geral, essas formas de pagamento eram trocadas com alguém na vizinhança por algo mais fácil de transportar. No entanto, se Jamie julgasse que um cavalo era bastante bom para ser incluído na estrebaria do castelo, este era acrescentado à nossa comitiva.

Eu me perguntava sobre a presença de Jamie no grupo. Embora o rapaz obviamente conhecesse cavalos muito bem, a maioria dos homens do grupo também conhecia, inclusive o próprio Dougal. Considerando-se ainda que os cavalos constituíam uma forma rara de pagamento e que geralmente não eram nada de especial em termos de raça, perguntava-me por que acharam necessário trazer um especialista. Foi uma semana depois de nossa partida, numa vila com um nome impronunciável, que eu descobri o verdadeiro motivo de Dougal querer a presença de Jamie.

A vila, embora pequena, era grande o suficiente para ostentar uma taberna com duas ou três mesas e vários bancos bambos. Ali Dougal concedeu suas audiências e recolheu os aluguéis. Após um almoço um tanto indigesto de carne salgada e nabos, ele fez as honras, pagando cerveja para os arrendatários que haviam se demorado por ali após as transações, além de alguns aldeões que vinham ao final da jornada diária de trabalho, para observar os estranhos e ouvir as novidades que tivessem para contar.

Fiquei sentada quieta numa cadeira no canto, bebendo cerveja amarga e aproveitando a trégua do lombo do cavalo. Eu quase não estava prestando atenção à conversa de Dougal, que ia e vinha entre o inglês e o gaélico, abrangendo de mexericos, assuntos de lavoura e criação de animais ao que soava como piadas grosseiras e conversa fiada.

Eu imaginava indolentemente quanto tempo levaria, naquele passo, para chegar a Fort William. Uma vez lá, qual seria exatamente a melhor forma de me desgarrar dos escoceses do Castelo Leoch sem me tornar igualmente enredada na guarnição militar inglesa. Perdida em meus próprios pensamentos, não notara que Dougal falava sozinho há algum tempo, como se fizesse uma espécie de discurso. Seus ouvintes seguiam-no atentamente, com uma ou outra exclamação ou interjeição. Voltando aos poucos a tomar consciência do ambiente à minha volta, percebi que ele habilmente inflamava os ânimos de sua platéia a respeito de alguma coisa.

Olhei ao redor. O gordo Rupert e o pequeno advogado, Ned Gowan, estavam sentados atrás de Dougal, recostados à parede, as canecas de cerveja esquecidas no banco ao lado, ouvindo atentamente. Jamie, com a testa franzida e olhando para dentro de sua própria caneca, inclinou-se para a frente com os cotovelos sobre a mesa. O que quer que Dougal estivesse dizendo, ele não parecia estar prestando atenção.

Sem aviso prévio, Dougal levantou-se, agarrou o colarinho da camisa de Jamie e puxou. Velha e de má qualidade, a camisa rasgou-se facilmente nas costuras. Tomado inteiramente de surpresa, Jamie ficou paralisado. Seus olhos estreitaram-se e eu vi seu maxilar travar-se com força, mas ele não se mexeu quando Dougal afastou as tiras de pano rasgadas para exibir suas costas para os espectadores.

Houve um grito sufocado de espanto e horror diante das cicatrizes, seguido de um burburinho de agitada indignação. Abri a boca, mas ouvi a palavra “Sassenach", pronunciada num tom nada amistoso, e fechei-a novamente.


Diana
Jamie, com o rosto petrificado, levantou-se e afastou-se do pequeno ajuntamento que se formou ao seu redor. Retirou cuidadosamente os remanescentes de sua camisa, enrolando-a numa trouxa. Uma mulher pequena e idosa, que chegava à altura de seu cotovelo, sacudia a cabeça e batia de leve em suas costas, fazendo o que pareciam ser comentários de conforto em gaélico. Se fossem, certamente não pareciam estar surtindo o efeito desejado.

Ele respondeu sucintamente a algumas perguntas dos homens presentes. As duas ou três jovens que haviam chegado para pegar a cerveja para o jantar de suas famílias amontoaram-se junto à parede oposta, cochichando entre si, com olhares freqüentes e arregalados para o outro lado da sala.

Com um olhar para Dougal que poderia por direito transformá-lo em pedra, Jamie atirou o que restou de sua camisa em um canto da lareira e deixou o aposento com três passadas largas, livrando-se dos murmúrios de comiseração da multidão.

Privados do espetáculo, todas as atenções voltaram-se outra vez para Dougal. Eu não entendi a maior parte dos comentários, embora o pouco que tenha captado parecesse de natureza altamente anti-inglesa. Fiquei dividida entre a vontade de seguir Jamie lá fora e permanecer discretamente onde estava. Mas eu duvidava que ele quisesse alguma companhia e, assim, encolhi-me no canto e mantive a cabeça abaixada, estudando meu reflexo pálido e indistinto na superfície da caneca de cerveja.

O tilintar de metal me fez erguer a cabeça. Um dos homens, um sitiante robusto, de calças de couro, atirara algumas moedas em cima da mesa diante de Dougal e parecia estar fazendo seu próprio discurso. Deu um passo para trás, os polegares enfiados no cinto, como se desafiasse os outros a fazerem alguma coisa. Após um momento de hesitação, um ou dois corajosos fizeram o mesmo, seguidos de mais alguns, tirando moedas de cobre da bolsa presa à cintura do kilt. Dougal agradeceu-lhes fervorosamente, fazendo um gesto para o estalajadeiro para que trouxesse nova rodada de cerveja. Notei que o advogado Ned Gowan guardava as novas contribuições cuidadosamente em uma bolsa separada daquela usada para os aluguéis dos MacKenzie destinados aos cofres de Colum. Compreendi, então, qual devia ser o propósito da pequena encenação de Dougal.

As rebeliões, como a maioria das proposições de negócios, requerem capital. A criação e a manutenção de um exército requerem ouro, assim como o sustento de seus líderes. Do pouco que eu me lembrava da história do príncipe Carlos Eduardo, o Jovem Pretendente ao trono, parte de seu sustento viera da França, mas parte das finanças por trás de seu mal-sucedido levante viera dos bolsos rasos e esfarrapados das pessoas que ele se propunha a governar. Assim, Colum, ou Dougal, ou ambos, eram jacobitas; partidários do Jovem Pretendente e contrários ao ocupante legal do trono da Inglaterra, Jorge II.

Por fim, os últimos arrendatários foram embora para suas casas e Dougal levantou-se e espreguiçou-se, parecendo satisfeito, como um gato que tomou um prato de leite, senão de creme. Avaliou o peso da pequena bolsa e atirou-a para Ned Gowan para que fosse guardada.

- Ah, muito bem - comentou. — Não se pode esperar muito de um lugar pequeno como este. Mas se conseguirmos outras tantas como esta, teremos uma quantia respeitável no final.

- "Respeitável" não é exatamente a palavra que eu usaria - eu disse, erguendo-me do meu canto de observação.

Dougal virou-se, como se somente agora percebesse a minha presença.

- Não? - disse, a boca curva, achando graça. - Por que não? Tem alguma objeção a que súditos leais dêem uma pequena contribuição para apoiar seu soberano?

- Nenhuma - eu disse, olhando-o nos olhos. - Independente de quem seja o soberano. São os seus métodos de coleta que eu não aprecio.

Dougal examinou-me cuidadosamente, como se minhas feições pudessem lhe dizer alguma coisa.

- Independente de quem seja o soberano? — repetiu em voz baixa. -Pensei que não soubesse gaélico.

- E não sei - respondi laconicamente. - Mas tenho a inteligência com que nasci e dois ouvidos em bom estado. O que quer que "à saúde do rei Jorge" seja em gaélico, duvido muito que soe como "Bragh Stuart".

Atirou a cabeça para trás e riu.

- Não soa mesmo — concordou. — Eu lhe diria em gaélico o que penso do seu soberano e governante, mas não é uma palavra adequada para os lábios de uma dama, Sassenach ou não.

Inclinando-se, pegou a camisa enrolada e atirada nas cinzas da lareira e sacudiu a maior parte da fuligem.

- Já que não gosta de meus métodos, talvez queira remediá-los - sugeriu, atirando a camisa rasgada em minhas mãos. — Arranje uma agulha com a dona da casa e conserte-a.

-- Conserte-a você mesmo! — Enfiei-a de novo em seus braços e me virei para ir embora.

-- Como quiser - Dougal disse afavelmente às minhas costas. - Então, Jamie pode consertar sua própria camisa, se não está disposta a ajudar.

Parei, virei-me relutantemente e estendi a mão.

-- Está bem - comecei, mas fui interrompida pela mão grande de Jamie, que passou por cima do meu ombro e arrancou a camisa da mão de dougal. Dividindo um olhar sem brilho entre nós dois, Jamie enfiou a camisa embaixo do braço e saiu da sala tão silenciosamente quanto havia entrado.

Encontramos abrigo para aquela noite na casa de um rendeiro. Ou devo dizer que eu encontrei. Os homens dormiram do lado de fora, espalhados em diversos montes de feno, camas em carroças e canteiros de samambaias. Em deferência à minha condição feminina ou meu estado de semi-prisioneira, ofereceram-me uma cama dura no chão dentro da casa, perto da lareira.

Embora meu catre parecesse imensamente preferível à única cama de estrado onde toda a família de seis pessoas dormia, invejava os homens lá fora, em suas camas improvisadas ao ar livre. O fogo não estava apagado, apenas reduzido para a noite, e o ar na cabana era sufocante com o calor, os cheiros e os sons dos seus habitantes, remexendo-se, tossindo, resmungando, roncando, suando e expelindo ventosidades.

Após algum tempo, desisti de tentar dormir naquela atmosfera abafada. Levantei-me e saí silenciosamente, levando um cobertor comigo. O ar do lado de fora estava tão fresco em contraste com o ar congestionado no interior da casa que me recostei contra a parede de pedra, inspirando profundamente aquela aragem fria e deliciosa.

Havia um guarda, sentado e silenciosamente vigilante sob uma árvore junto ao caminho, mas apenas relanceou o olhar para mim. Aparentemente decidindo que eu não iria muito longe em minha roupa de baixo, voltou a descascar um pequeno objeto em suas mãos. A lua brilhava e a lâmina da minúscula sgian dhu tremeluziu nas sombras da árvore.

Dei a volta na cabana e subi um pequeno monte que havia atrás, com cuidado para não tropeçar em formas adormecidas na grama. Encontrei um lugar reservado e agradável entre duas pedras grandes e fiz um ninho confortável para mim mesma com um monte de capim e o cobertor. Estendida ao comprido no chão, fiquei observando a lua cheia em sua lenta jornada através do céu.

Dessa mesma forma, eu observara a lua se levantar pela janela do Castelo Leoch, em minha primeira noite como hóspede compulsória de Colum. Um mês, portanto, desde a minha calamitosa passagem pelo círculo de pedras. Pelo menos, eu agora sabia por que as pedras haviam sido colocadas ali.

Provavelmente sem nenhuma importância por si mesmas, eram, entretanto, sinalizadores. Assim como uma placa adverte contra deslizamento de pedras na beira de um penhasco, as pedras verticais destinavam-se a assinalar um local de perigo. Um local onde... a crosta do tempo era fina? Onde um portal de algum tipo estava aberto? Não que os construtores dos círculos soubessem o que estavam marcando. Para eles, seria um local de terrível mistério e poderosa magia; um lugar onde as pessoas desapareciam sem deixar vestígios. Ou apareciam, talvez, do nada.

Era uma idéia. O que teria acontecido, imaginava, se alguém estivesse presente na colina de Craigh na Dun quando fiz minha brusca aparição? Suponho que devia depender da época em que a pessoa entrava. Aqui, se um colono me encontrasse em tais circunstâncias, sem dúvida eu teria sido considerada uma bruxa ou uma fada. Mais provavelmente uma fada, surgindo naquela colina em particular, com a sua reputação.

E deve ser exatamente daí que veio a sua reputação, pensei. Se as pessoas através dos anos houvessem desaparecido repentinamente, ou igualmente surgido de repente em determinado local, esta seria uma boa razão para adquirir uma fama de mágico.

Tirei um pé de baixo da coberta e remexi os dedos ao luar. Não era uma atitude muito própria de uma fada, pensei de maneira crítica. Com um metro e setenta, eu era uma mulher bastante alta para esta época; da altura de muitos homens. Como dificilmente poderia passar por um duende, seria, portanto, considerada uma bruxa ou um espírito maligno de algum tipo. Do pouco que eu sabia a respeito dos métodos correntes para lidar com tais manifestações, só podia agradecer pelo fato de ninguém ter me visto aparecer.

Imaginava languidamente o que aconteceria se tivesse acontecido o contrário. E se alguém desaparecesse desta época e surgisse na minha? Isso, afinal, era exatamente o que eu estava pretendendo fazer, se houvesse alguma maneira de tornar isso possível. Como um escocês moderno, como a sra. Buchanan, a agente dos correios, reagiria se alguém como Murtagh, por exemplo, surgisse repentinamente da terra sob seus pés?

A reação mais provável, pensei, seria correr, para chamar a polícia, ou talvez não fazer nada, além de contar aos amigos e vizinhos sobre o acontecimento mais extraordinário que presenciara no outro dia...

E quanto ao visitante? Bem, ele poderia conseguir encaixar-se nessa nova época sem suscitar muita atenção, se fosse cauteloso e tivesse sorte. Afinal, eu estava conseguindo passar, com certo grau de sucesso, como residente normal desta época e lugar, embora minha aparência e linguagem certamente tivessem levantado muitas suspeitas.

E se, entretanto, uma pessoa assim deslocada fosse muito diferente ou saísse proclamando aos berros o que lhe acontecera? Se tivesse saído em tempos primitivos, é provável que um evidente estranho fosse simplesmente morto ali mesmo sem mais perguntas. E em tempos mais esclarecidos, provavelmente teria sido considerado louco e internado em alguma instituição, se não se calasse.

Esse tipo de acontecimento podia estar se desenrolando desde o início dos tempos, refleti. Mesmo quando acontecesse diante de testemunhas, não haveria nenhuma pista; nada para contar o que acontecera, porque a

única pessoa que sabia é quem havia desaparecido. E quanto ao desaparecido, Provavelmente ficariam de boca fechada no outro lado da conexão.

Mergulhada em meus pensamentos, não notei o fraco murmúrio de vozes ou o movimento de passos pela grama e fiquei absolutamente surpresa ao ouvir uma voz a apenas alguns metros de distância.

- Para o inferno, Dougal MacKenzie - disse. - Parente ou não, eu não lhe devia isso. - A voz era em tom baixo, mas carregada de raiva.

- Ah, não? - disse a outra voz, achando graça. - Estou me lembrando de um certo juramento, prometendo sua obediência. "Enquanto meus pés permanecerem nas terras do clã MacKenzie", acho que foi o que ouvi. -Ouviu-se uma batida surda, como a de um pé sobre a terra dura. — E essa terra é dos MacKenzie, rapaz.

- Dei minha palavra a Colum, não a você. - Então, era o jovem Jamie MacTavish e eu sabia exatamente o que o enfurecia.

- Somos um só, rapaz, e você sabe muito bem disso. — Ouviu-se o som de um leve tapa, como se Dougal batesse de leve no rosto de Jamie. - Sua obediência é para o chefe do clã e, fora de Leoch, eu sou a cabeça, os braços e as mãos, bem como as pernas de Colum.

- E nunca vi um caso mais evidente da mão direita não saber o que a esquerda está fazendo - veio a resposta rápida. Apesar da contrariedade do tom, havia um laivo de sagacidade e astúcia que se divertia com esse embate de egos. - O que acha que a direita vai dizer quando souber que a esquerda recolhe dinheiro para os Stuart?

Fez-se uma breve pausa antes de Dougal responder.

- Os MacKenzie, os MacBeolain e os MacVinich, todos são homens livres. Ninguém pode forçá-los a contribuir contra a sua vontade e ninguém pode impedi-los tampouco. E quem sabe? Pode ser que Colum contribua mais para o príncipe Carlos Eduardo do que todos eles juntos, no final das contas.

- Pode ser — a voz mais grave concordou. — Também pode chover de baixo para cima amanhã. Isso não significa que vou ficar no alto da escada esperando com meu baldinho virado para baixo.

- Não? Você tem mais a ganhar de um trono Stuart do que eu, rapaz. E nada dos ingleses, a não ser a forca. Se não se importa com seu próprio pescoço...

- Meu pescoço é problema meu -Jamie interrompeu bruscamente. -Assim como as minhas costas.

- Não enquanto estiver viajando comigo, meu rapaz - disse a voz sarcástica do tio. - Se quiser ouvir o que Horrocks tem a lhe dizer, fará o que eu mandar. E será o mais sensato. Você pode ser muito bom com uma agulha, mas só tem uma camisa limpa.

Ouviu-se um movimento arrastado, como se alguém se levantasse de seu lugar em uma pedra, e seguisse pela grama. No entanto, apenas os passos de uma só pessoa, pensei. Sentei-me o mais silenciosamente possível e espreitei cautelosamente pela borda de uma das rochas que me escondiam. Jamie continuava lá, agachado sobre uma pedra há alguns passos de distância, os cotovelos apoiados nos joelhos, o queixo enterrado nas mãos. Estava quase de costas para mim. Comecei a retroceder cautelosamente, não querendo me intrometer em sua solidão, quando ele falou repentinamente.

- Sei que está aí - disse. - Saia, se quiser. - Pelo seu tom de voz, era completamente indiferente para ele. Levantei-me e comecei a sair, quando percebi que estava em minhas roupas de baixo. Refletindo que ele já tinha muito com que se preocupar, além de ficar constrangido por minha causa, enrolei-me discretamente no cobertor antes de emergir.

Sentei-me ao lado dele e recostei-me numa pedra, observando-o um pouco timidamente. Fora um leve aceno com a cabeça, ele ignorou-me, absorto em seus próprios e não muito agradáveis pensamentos, a julgar pela carranca sombria em seu rosto. Um dos pés batia nervosamente na pedra onde estava sentado e torcia os dedos, fechando-os, estendendo-os em seguida, com uma força que fazia várias articulações estalarem.

Foram os estalidos dos nós dos dedos que me fizeram lembrar do capitão Manson. O oficial responsável pelos suprimentos no hospital de campanha onde eu trabalhava, capitão Manson, enfrentava escassez de materiais, encomendas que não chegavam e as infindáveis idiotices da burocracia do exército como seus próprios problemas pessoais. Normalmente um homem agradável e tranqüilo, quando as frustrações tornavam-se muito grandes, ele se retirava para seu escritório particular e socava a parede atrás da porta com todas as forças que conseguia reunir. Os visitantes na sala de recepção observavam fascinados a frágil parede de fibras prensadas estremecer sob o impacto de seus golpes. Alguns instantes depois, o capitão Manson emergia novamente, com os nós dos dedos feridos, mas outra vez sossegado, para lidar com a crise do momento. Quando foi transferido para outra unidade, a parede atrás da porta estava coberta com dezenas de marcas de socos.

Vendo o jovem na pedra tentando desconjuntar os próprios dedos, fui levada a me lembrar de como o capitão enfrentava os seus problemas.

- Você precisa bater em alguma coisa - eu disse.

Hein? - Ergueu os olhos, surpreso, aparentemente esquecido da minha presença.

-- Bata em alguma coisa - aconselhei. - Vai se sentir muito melhor depois.

Sua boca moveu-se, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa, mas ao invés disso levantou-se da pedra e caminhou resolutamente para uma cerejeira robusta e aplicou-lhe um forte soco. Aparentemente encontrando no impacto um certo paliativo para seus sentimentos, golpeou o tronco da árvore várias vezes, fazendo-o sacudir e lançar uma chuva de pétalas cor-de-rosa sobre sua cabeça.

Sugando o nó de um dedo ferido, voltou instantes depois.

- Obrigado - disse, com um sorriso enviesado. - Talvez afinal eu consiga dormir esta noite.

- Feriu a mão? — Levantei-me para examiná-la, mas ele sacudiu a cabeça, esfregando os nós dos dedos delicadamente com a palma da outra mão.

- Não, não foi nada.

Permanecemos de pé por um instante, num silêncio constrangedor. Eu não queria fazer referência à cena que ouvira nem aos acontecimentos anteriores da noite. Por fim, rompi o silêncio dizendo:

- Não sabia que você era canhoto.

- Canhoto? Ah, sim, sempre fui. O professor costumava amarrar minha mão esquerda ao meu cinto atrás das costas, para me obrigar a escrever com a outra.

- E você consegue? Escrever com a direita, quero dizer.

Ele balançou a cabeça, levando a mão machucada novamente à boca.

- Sim. Mas isso faz minha cabeça doer.

- Você também luta com a mão esquerda? - perguntei, querendo distraí-lo. — Com a espada, quero dizer. - Ele não carregava nenhuma arma no momento, exceto sua adaga e sua sgiandhu, mas durante o dia ele geralmente carregava tanto a espada quanto as pistolas, como a maioria dos homens no grupo.

- Não, uso bem a espada em qualquer uma das mãos. Um espadachim canhoto fica em desvantagem, sabe, com uma espada pequena, porque você luta com seu lado esquerdo virado para o adversário e seu coração fica desse lado, certo?

Com energia demais para se manter quieto, começou a andar em passos largos de um lado para o outro na clareira gramada, fazendo gestos ilustrativos com uma espada imaginária.

- Com uma espada grande, não faz diferença - disse. Estendeu os dois braços para a frente, as mãos unidas e fez um movimento amplo e gracioso, em arco, pelo ar. - Em geral usa-se as duas mãos - explicou.

- Ou se estiver bem próximo do inimigo para usar apenas uma das mãos, não faz muita diferença qual delas usar, porque você vem de cima e atinge o sujeito no ombro. Não na cabeça, porque a lâmina pode escorregar facilmente. Mas corte-o no ponto certo — ele golpeou a junção do pescoço com o ombro usando o lado da mão — e ele estará morto. E se não for um golpe certeiro, ainda assim o sujeito não poderá mais lutar naquele dia, provavelmente nunca mais - acrescentou.

Levou a mão esquerda à cintura e sacou sua adaga em um movimento como o de água entornando de um copo.

- Agora, para lutar com uma espada e uma adaga ao mesmo tempo, se não tiver nenhum escudo para proteger a mão que segura a adaga, você deve favorecer seu lado direito, com a espada pequena nessa mão, e vir de baixo com a adaga, se estiver lutando de perto. Mas se a mão da adaga estiver bem protegida, pode vir de qualquer um dos lados e girar o corpo -ele agachava-se e rodopiava, ilustrando - para manter a lâmina do inimigo à distância, e usar a adaga somente se tiver perdido a espada ou não puder mais usar o braço que a empunhava.

Agachou-se quase ao rés do chão e ergueu a lâmina numa estocada rápida e mortífera, que parou a um centímetro do meu peito. Dei um passo para trás involuntariamente e ele endireitou-se imediatamente, guardando a adaga na bainha com um sorriso de desculpas.

- Perdão. Estou me exibindo. Não quis assustá-la.

- Você é muito bom nisso — eu disse, sinceramente. - Quem o ensinou a lutar? Imagino que tenha precisado de outro lutador canhoto para ensiná-lo.

- Sim, era um lutador canhoto. O melhor que já vi. - Sorriu brevemente, sem humor. — Dougal MacKenzie.

A essa altura, a maioria das flores de cerejeira já havia caído de seus cabelos; somente algumas pétalas cor-de-rosa agarravam-se a seus ombros e estendi a mão para tirá-las. A costura de sua camisa havia sido habilmente refeita, reparei, ainda que toscamente. Até um rasgo no tecido fora remendado.

- Ele fará isso outra vez? — perguntei, sem conseguir me conter.

Ele fez uma pausa antes de responder, mas não fingiu não entender o que eu queria dizer.

- Ah, sim — disse finalmente, balançando a cabeça. — Ele faz o que bem entende, sabe.

- E vai deixá-lo agir? Vai deixar que use você dessa forma?

Ele olhou além de mim, para baixo da colina, em direção à taberna, onde uma única luz ainda brilhava pelas frestas dos troncos de madeira. Seu rosto estava impassível e indecifrável como uma parede.

-- Por enquanto.

Continuamos em nossas andanças, deslocando-nos não mais do que alguns quilômetros por dia, parando muitas vezes para que Dougal pudesse conduzir seus negócios em uma encruzilhada ou em uma cabana, onde diversos arrendatários reuniam-se com suas sacas de grãos e punhados de Moedas cuidadosamente economizadas. Tudo era registrado nos livros pela Pena ágil de Ned Gowan e os recibos necessários eram distribuídos de sua sacola de papéis e pergaminhos.

Quando alcançávamos uma vila ou aldeia bastante grande para ostentar uma estalagem ou taberna, Dougal mais uma vez encenava seu ato, pagando bebidas, contando histórias, fazendo discursos e, finalmente, se julgasse as perspectivas bastante boas, forçando Jamie a ficar de pé e mostrar suas cicatrizes. E mais algumas moedas seriam acrescentadas à segunda sacola, a bolsa que deveria ir para a França e para a corte do pretendente.

Tentei julgar essas cenas à medida que se desenrolavam e saía antes que atingissem o clímax, a crucificação pública não tendo sido nunca do meu agrado. Embora a reação inicial diante da visão das costas de Jamie fosse de horrorizada compaixão, seguida de explosões de investidas contra o exército inglês e o rei Jorge, em geral havia um leve sabor de desprezo que até eu conseguia perceber. Em uma ocasião, ouvi um homem observar em voz baixa para um amigo em inglês: "Que visão horrível, não? Cristo, eu preferia morrer do que deixar um Sassenach fazer isso comigo."

Com raiva e infeliz, Jamie tornou-se a cada dia mais triste. Enfiava a camisa assim que possível, evitando perguntas e comiseração, e com uma desculpa para deixar o grupo, evitava a todos até prosseguirmos viagem na manhã seguinte.

O ponto de colapso aconteceu alguns dias mais tarde, em um vilarejo chamado Tunnaig. Desta vez, Dougal ainda exortava a multidão, uma das mãos no ombro nu de Jamie, quando um dos espectadores, um rapaz grosseiro, de cabelos castanhos longos e ensebados, fez um comentário pessoal para Jamie. Não pude entender o que foi dito, mas o efeito foi instantâneo. Jamie livrou-se da mão de Dougal com um safanão e golpeou o rapaz no estômago, deixando-o estirado no chão.

Eu estava aprendendo a assimilar algumas palavras em gaélico, embora ainda não pudesse absolutamente dizer que entendia a língua. Entretanto, notara que em geral eu conseguia entender o que estava sendo dito pela atitude da pessoa que falava, quer entendesse as palavras ou não.

"Levante-se e repita o que disse" parece o mesmo dito em qualquer pátio de escola, bar ou beco do mundo.

Da mesma forma, "Tem razão, companheiro" e "Peguem-no, rapazes".

Jamie desapareceu sob uma avalanche de roupas sujas de trabalho quando a mesa virou e caiu com um estrondo sob o peso do sujeito de cabelos castanhos e dois amigos dele. Espectadores inocentes comprimiram-se contra as paredes da taberna e prepararam-se para divertir-se com o espetáculo. Aproximei-me de Ned e Murtagh, olhando a arquejante massa humana com inquietação. Um lampejo solitário de cabelos ruivos aparecia ocasionalmente no emaranhado de braços e pernas.

- Não deveria ajudá-lo? - murmurei para Murtagh, pelo canto da boca. Ele pareceu surpreso com a idéia.

- Não, por quê?

- Ele pedirá ajuda, se precisar - disse Ned Gowan, observando tranqüilamente ao meu lado.

- Como queiram. - Aquiesci sem muita certeza.

Tinha minhas dúvidas de que Jamie conseguiria pedir ajuda se precisasse; no momento, estava sendo estrangulado por um robusto rapaz de verde. Minha opinião pessoal era de que Dougal logo ficaria sem sua principal peça de exibição, mas ele não parecia preocupado. Na realidade, nenhum dos espectadores parecia nem um pouco preocupado com as lesões corporais que estavam acontecendo no chão a nossos pés. Algumas apostas foram feitas, mas a atmosfera geral era de tranqüilo divertimento.

Fiquei contente de perceber que Rupert barrou como que por acaso o caminho de dois homens que pareciam estar alimentando a idéia de entrar na briga. Quando deram um passo em direção à refrega, ele interpôs-se no caminho, pretensamente distraído, a mão pousada na adaga. Os dois homens recuaram, decidindo não interferir nos acontecimentos.

A sensação geral parecia ser a de que três contra um era uma proporção razoável. Considerando-se que esse um era forte e grande, um consumado lutador e obviamente tomado por uma fúria insana, isso poderia ser verdade.

A competição pareceu se igualar com a saída repentina do sujeito de verde, escorrendo sangue em conseqüência de uma cotovelada em cheio no nariz.

A contenda continuou por mais algum tempo, mas a conclusão tornou-se cada vez mais óbvia, quando um segundo participante caiu e rolou para baixo da mesa, gemendo e segurando a virilha com as duas mãos. Jamie e seu adversário inicial ainda trocavam socos no meio da sala, mas os espectadores que haviam apostado em Jamie já recolhiam seus prêmios. Um golpe de antebraço na traquéia, acompanhado de um violento soco nos rins, mostraram ao sujeito de cabelos castanhos que a discrição é a melhor parte da coragem.

Acrescentei uma tradução mental de "Chega, eu desisto" à minha crescente lista de frases em gaélico/inglês.

Jamie ergueu-se lentamente de cima do seu último oponente aos brados e vivas da multidão. Balançando a cabeça em agradecimento, sem fôlego, cambaleou até um dos bancos que ainda estavam de pé e deixou-se cair sentado, escorrendo sangue e suor, para aceitar uma caneca de cerveja do taberneiro. Tomando-a de um gole só, colocou a caneca vazia no banco e inclinou-se para a frente, arquejante, os cotovelos nos joelhos e as cicatrizes em suas costas desafiadoramente expostas.

Pela primeira vez, ele não pareceu ter pressa para recolocar a camisa; Apesar do frio no local, permaneceu seminu, somente vestindo a camisa quando chegou a hora de buscarmos acomodações para passar a noite. Saiu debaixo de um coro de cumprimentos respeitosos, parecendo mais relaxado do que nos últimos dias, apesar da dor dos cortes, arranhões e contusões diversas.

- Um queixo ralado, um supercílio cortado, um lábio cortado, um nariz sangrando, seis nós dos dedos esmagados, um polegar torcido e dois dentes frouxos. Além de mais contusões do que eu poderia contar. -Terminei meu inventário com um suspiro. - Como se sente? - Estávamos sozinhos, o pequeno barracão atrás da estalagem onde eu o levara para administrar primeiros socorros.

- Bem - disse, rindo. Fez menção de se levantar, mas parou bruscamente, com uma careta de dor. — Sim, bem. Talvez as costelas doam um pouco.

- Claro que doem. Você está cheio de hematomas. Outra vez. Por que faz isso consigo mesmo? Do quê, em nome de Deus, acha que é feito? De ferro? - perguntei com irritação.

Riu melancolicamente e tocou o nariz inchado.

- Não. Quem me dera ser.

Suspirei outra vez e apalpei-o cuidadosamente no torso.

- Não acho que estejam quebradas; são apenas contusões. Mas vou enfaixá-las, por precaução. Fique em pé direito, enrole a camisa para cima e estenda os braços para os lados. - Comecei a rasgar em tiras uma velha manta que eu conseguira com a mulher do estalajadeiro. Resmungando baixinho sobre gesso e outras amenidades da vida civilizada, improvisei uma atadura, apertando-a e prendendo-a com o broche de seu xale.

- Não consigo respirar - queixou-se.

- Se respirar, vai doer. Não se mova. Onde aprendeu a lutar assim? Com Dougal também?

- Não. - Contraiu-se com o vinagre que eu estava aplicando no corte do supercílio. — Meu pai me ensinou.

- É mesmo? Quem era seu pai, o campeão de boxe do lugar?

- O que é boxe? Não, ele era um fazendeiro. Também criava cavalos. - Jamie inspirou com força e prendeu a respiração, quando continuei com a aplicação de vinagre em seu queixo ralado.

- Quando eu tinha nove ou dez anos, ele disse que achava que eu ia ser grandalhão como a família da minha mãe e que, portanto, teria que aprender a lutar. — Respirava com mais facilidade agora e estendeu uma das mãos para deixar que eu passasse pomada de cravos-da-índia nas articulações dos dedos.

- Ele disse: "Se você é grande, metade dos homens que encontrar vai temê-lo e a outra metade vai querer desafiá-lo. Derrube um deles e o resto o deixará em paz. Mas aprenda a fazer isso de maneira rápida e limpa ou vai ficar lutando toda a sua vida." Assim, ele me levava para o celeiro e me derrubava na palha, até eu aprender a me defender. Ai! Isso arde.

- Arranhões de unhas são ferimentos detestáveis - eu disse, esfregando seu pescoço.— Especialmente se o patife não lava as mãos com regularidade.

E duvido que aquele sujeito de cabelos sebosos tome banho uma vez por ano. "De maneira rápida e limpa" não é exatamente como eu descreveria o que você fez esta noite, mas foi realmente impressionante. Seu pai teria orgulho de você.

Falei com certo sarcasmo e fiquei surpresa ao ver seu rosto tornar-se sombrio.

- Meu pai está morto - disse sem rodeios.

- Sinto muito. - Terminei a limpeza dos ferimentos e disse-lhe em voz baixa: - Mas falei sinceramente. Ele teria se orgulhado de você.

Não respondeu, mas esboçou um meio sorriso. De repente, parecia muito jovem e perguntei-me que idade deveria ter. Estava prestes a perguntar quando uma tosse áspera atrás de mim anunciou a chegada de um visitante ao barracão.

Era o homenzinho nervoso chamado Murtagh. Fitou as costelas atadas de Jamie com um ar divertido e lançou uma pequena e velha bolsa de couro no ar. Jamie estendeu a mão enorme e pegou-a com facilidade, fazendo o conteúdo da bolsa tilintar.

- E o que é isso? - perguntou.

Murtagh ergueu uma sobrancelha sem forma definida.

- Sua parte das apostas, o que mais poderia ser?

Jamie sacudiu a cabeça e preparou-se para atirar a bolsa de volta.

- Não apostei nada.

Murtagh ergueu uma das mãos para impedi-lo.

- Você fez o trabalho. É um sujeito muito popular no momento, ao menos entre aqueles que o apoiaram.

- Mas não com Dougal, imagino - intrometi-me.

Murtagh era um desses homens que sempre parecia um pouco surpreso de descobrir que uma mulher tinha voz, mas assentiu educadamente.

- Sim, isso é verdade. Ainda assim, não vejo como isso deva perturbá-lo - disse a Jamie.

- Não? - Os dois homens trocaram um olhar, com uma mensagem que eu não compreendi. Jamie soltou o ar dos pulmões devagar entre os dentes, balançando a cabeça devagar para si mesmo.

- Quando? — perguntou.

- Uma semana. Dez dias, talvez. Perto de um lugar chamado Lag Cruime. Conhece?

Jamie balançou a cabeça novamente, confirmando. Parecia mais consciente do que eu o via há algum tempo.

— Conheço.

Olhei de um rosto para o outro, ambos fechados, escondendo um segredo. Então, Murtagh descobrira alguma coisa. Algo a ver com o misterioso "Horrocks", talvez? Encolhi os ombros. Qualquer que fosse o motivo, parecia que os dias de Jamie como peça de exibição haviam acabado.

— Suponho que Dougal sempre possa fazer um número de sapateado - eu disse.

— Hein? — Os olhares secretos transformaram-se em olhares de espanto.

— Nada. Durma bem. - Peguei minha caixa de suprimentos médicos e fui procurar meu próprio descanso.




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