A trajetória do Telejornalismo em Pernambuco



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A Trajetória do Telejornalismo em Pernambuco



Aline Grego - amgrego@unicap.br

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO - UNICAP

Mil novecentos e sessenta, início das transmissões televisivas em Pernambuco, a novidade chega ao Recife dez anos depois de instalada a primeira televisão no Brasil, a TV Tupi de São Paulo. Tentando recuperar o tempo perdido, Pernambuco inaugura, praticamente ao mesmo tempo, duas emissoras: a TV Rádio Clube - Tv Tupi, pertencente aos Diários Associados, e a TV Jornal do Commércio, do grupo F. Pessoa de Queiroz.

Desde as primeiras transmissões vários gêneros de programas marcaram a programação da tv local: humor, novela, comerciais, noticiário, programas de auditório. Mas foi o jornalismo televisivo que, na fase áurea ou de crise das emissoras do Estado, sempre esteve presente na programação, garantindo a notícia no ar. É sobre o noticiário televisivo, e a evolução do mesmo ao longo da existência da tevê em Pernambuco, de que trata o presente trabalho.

Para realizar tal tarefa foi necessário recorrer aos documentos audiovisuais das emissoras de tevê de Pernambuco, pelo menos o que conseguimos recuperar. A partir de registros de som e imagem lançamos base para iniciar a análise da evolução tecnológica e da linguagem jornalística adotadas nas emissoras pernambucanas. A pesquisa procurou investigar até que ponto a evolução tecnológica interferiu no desempenho e desenvolvimento do telejornalismo das emissoras locais.

Desenvolvemos a pesquisa nas 10 emissoras do Estado. Seis delas localizadas no Recife e em Olinda: TV Jornal, TV Guararapes, TV Universitária, Rede Globo Nordeste, Tribuna e Rede TV, outras três emissoras instaladas no interior do Estado: TV Asa Branca e TV Pernambuco, ambas em Caruaru, e a TV Grande Rio, no município de Petrolina. Além da TV Golfinho, que fica no arquipélago de Fernando de Noronha. Também procuramos obter registros das extintas TV Tupi e TV Manchete, o que foi extremamente difícil. Da Manchete conseguiu algumas poucas imagens, mas, lamentavelmente nada foi guardado da pioneira tevê Tupi, que além de ter encerrado suas transmissões no início da década de 80, por ordem judicial contra os Diários Associados, também havia sofrido, dois anos antes do seu fechamento, um incêndio nas suas instalações e, em função disto, perdido grande parte do seu acervo de imagens. Restaram apenas fotografias e o testemunho de alguns profissionais que trabalharam no jornalismo da emissora.

Os contatos com os registros audiovisuais dos telejornais pernambucanos, a exemplo de reportagens gravadas em filmes e em fita magnética, bem como o recolhimento de fotos e textos telejornalísticos (scripts), nos aproximaram da metodologia desenvolvida pela Crítica Genética, que direciona seu olhar para o processo de construção. Além da análise desses registros, foram realizadas entrevistas com 36 profissionais que atuaram ou ainda atuam no telejornalismo pernambucano, para dessa forma tentar reconstituir e compor o percurso travado pelo jornalismo na televisão local, sobretudo naquelas emissoras em que não existia a prática e o cuidado para manter, adequadamente, seus arquivos, em especial os de imagens.

O Telejornalismo Pernambucano


Os primeiros jornais de tevê em Pernambuco seguiram os padrões já existentes no eixo Rio-São Paulo, que receberam forte influência do jornalismo produzido pelas rádios. Não havia uma formação de profissionais direcionada para a tv e o jeito foi improvisar. Quase todos os profissionais foram recrutados do rádio, foi uma fase que, segundo Cícero Moraes, ex-apresentador das tevês Tupi e Globo locais, era marcado por “um certo heroísmo”.1 Brivaldo Francklin, ex-apresentador da TV Jornal, lembra que havia um período de adaptação, de teste pra ver se combinava com aquilo que o produtor queria, nessa experiência, segundo ele, houve alegria para o telespectador, mas tristezas também, uma vez que “o galã do rádio quando aparecia na tv, às vezes era uma decepção”.

Mesmo assim, a tv e o noticiário televisivo conquistam a sociedade pernambucana, a imagem da pequena tela invadiu as casas dos telespectadores, na época ainda um verdadeiro artigo de luxo. Uma das principais atrações do novo meio estava no ritmo de produção da notícia envolvendo a imagem. O tempo entre o fato e a exibição da noticia passou a ocorrer mais rapidamente, principalmente, se comparado aos noticiários exibidos nos cinemas, ainda que muito distante da velocidade apresentada nos telejornais dos dias atuais.Para se ter uma idéia, a exibição da imagem de um acontecimento, por vezes, ocorria vários dias depois do fato. O filme vinha de avião, não era via satélite, como acontece atualmente. Isaltino Bezerra, que foi redator do Repórter Esso, em Recife, conta que o filme com as imagens do assassinato do presidente americano, John Kennedy, ocorrido em 1963, em Dallas, Estados Unidos, por exemplo, só foi exibido aqui no Recife três dias depois do acontecimento. O processo era extremamente lento: o cinegrafista da UPI filmava o acontecimento, depois enviava o filme para a matriz, em Nova York, que revelava o filme, montava e copiava, só então, as cópias eram enviadas para as sucursais da UPI espalhadas por vários países, através do transporte aéreo. Aqui no Brasil, a sede central da UPI ficava no Rio de Janeiro, que recebia o material do Estados Unidos e, a partir daí, cuidava da distribuição do filme com as outras cidades brasileiras.

Em função dessas dificuldades operacionais os jornais locais, muitas vezes, limitavam-se a transmissão de notícias, direto dos estúdios, ao vivo, apenas com a narração do apresentador e, quando possível, recorria a utilização de fotos sobre o acontecimento ou sobre o personagem central do fato, era o caso de uma notícia que envolvesse o presidente da república ou um artista famoso.

Outro dado interessante é que, quase sempre, o nome do jornal estava atrelado ao nome da empresa patrocinadora, alguns chegaram até a compor cenários e figurinos com os símbolos do anunciante. Isto aconteceu na TV Tupi, com um jornal patrocinado por uma empresa aérea. Segundo Dantas Mesquita, na época produtor de um dos programas da emissora, os apresentadores Sávio Araújo e Brivaldo Ferreira, mais “quatro garotas propagandas”, apresentavam o jornal num cenário que lembrava parte de um avião e usavam trajes de comandantes e de aeromoças, respectivamente

Ainda na década de sessenta, a Tupi apresentou um noticiário de sucesso, o Jornal Pirreli, mas, sem dúvida, o jornal televisivo que marcou época nos primeiros anos da tevê, não só em Pernambuco, mas em todo o país, foi o Repórter Esso que, no Recife, era exibido pela Tv Jornal do Commércio. Ele ia ao ar, diariamente, à noite, com apresentação de Edson Almeida. O Repórter Esso tinha uma equipe formada por um produtor, que era o jornalista Romildo Cavalcanti, dois redatores, três cinegrafistas: João Batista, Carlos Alberto e Radamés Almeida.

Em 1968 mais uma emissora passa a atuar em Pernambuco: é instalada a primeira televisão educativa do Brasil, a TV Universitária, pertencente a Universidade Federal de Pernambuco. A proposta inicial era exibir produções de caráter educativo e informativo. Segundo Luiz Maranhão, que fazia parte do quadro de jornalistas da emissora, a Tv Universitária tinha jornalistas profissionais de longa experiência, entre eles, o professor Luiz Delgado, que vinha do Jornal do Commércio, e o jornalista Antônio Bezerra Carvalho. Apesar de ser uma tevê educativa, havia destaque para o noticiário, que geralmente era acompanhado pela análise das notícias, uma espécie de comentarista telejornalístico.

Quatro anos depois o noticiário televisivo local é reforçado com a inauguração da Rede Globo Nordeste. Apesar das limitações dos primeiros anos de trabalho, essa tevê estava claramente voltada apenas para o jornalismo. Nenhum outro programa era produzido pela Globo na região. O jornalista Roberto Cavalcanti foi um dos primeiros a integrar a equipe da Globo, primeiro como cinegrafista. Ele está na emissora até hoje, atualmente é um dos chefes de reportagem. No início, segundo Cavalcanti, trabalhavam na equipe externa de reportagem o cinegrafista e o iluminador, em que o cinegrafista era obrigado, em reportagens sonoras, a entregar o microfone ao entrevistado. Não existia a figura do repórter. O repórter, por exemplo, é quem encaminhava as perguntas, claro que havia um respaldo da redação, na elaboração e produção da pauta e no roteiro de perguntas, mas a realização da reportagem no local do acontecimento ou da entrevista ficava mesmo a cargo do cinegrafista.

A TV Globo local apostou no telejornalismo diário e procurou seguir o padrão da rede em todo país. É bom lembrar que foi a TV Globo que colocou no ar o primeiro telejornal brasileiro, transmitido ao vivo, simultaneamente, para várias cidades brasileiras: o Jornal Nacional, que está no ar até hoje. “A matriz é que dava as regras, era um aprendizado para todo mundo, se apanhava obviamente em muitas coisas”, confessa a ex-editora chefe da Rede Globo Nordeste, a jornalista Vera Ferraz.

A presença da Tv Globo em Recife marcou uma corrida pelo avanço técnico e uma grande disputa com os telejornais das outras emissoras, em especial da Tv Tupi, que desfrutava de excelente audiência. Edna Maciel, repórter da TV Tupi na década de setenta e início dos anos oitenta, lembra que a emissora dos Diários Associados em Pernambuco “era uma empresa saudável, salários pagos em dia. A Tv Tupi do Recife era a única praça da TUPI que brigava com a Tv Globo”.

A falta de recursos para acompanhar as mudanças tecnológicas e a disputa pela audiência, transformaram os anos setenta num período de crise para várias emissoras pernambucanas, em especial, a Tv Jornal, uma vez que a maioria, durante uma década e meia (setenta e parte dos anos 80), se ressentiu com a ausência de recursos e de políticas administrativas empresariais, capazes de promoverem a modernização do setor de comunicação, em especial, de rádio e televisão em Pernambuco. No início dos anos oitenta a crise atinge, também, a Tv Tupi, primeiro um incêndio destrói parte do prédio e todo o acervo de imagens da emissora. A TV se recuperou do incêndio, mas os problemas financeiros dos Diários Associados, em particular, a dívida com a justiça do trabalho, foram o estopim para que o governo federal determinasse o fechamento das emissoras do grupo. A TV Tupi, canal seis, do Recife, apesar de ser a única do grupo a gozar de boa situação financeira e de deter excelente audiência em relação as demais emissoras dos Diários Associados, não teve sua concessão renovada e acabou sendo fechada, encerrando suas transmissões.

Na segunda metade dos anos oitenta surgem a Tv Tropical, que depois mudou o nome para TV Pernambuco, pertencente ao governo do Estado, e a emissora da Rede Manchete, pertencente ao grupo Bloch. O jornalismo, assim, voltou a ganhar espaço na tevê pernambucana. A rede Manchete tinha três jornais: o Jornal da Tarde, que ia ao ar ao meio dia, o Jornal da Manchete, primeira edição, veiculado à noite, e que era o maior jornal da emissora, e o Jornal da Manchete, segunda edição. Logo no início, em 1985, mas não havia o jornal local, existia, apenas, um insert com a vinheta intitulada Pernambuco em Manchete, que eram matérias de 30 segundos, exibidas ao longo da programação da emissora. Somente dois anos depois é que começaram a ser transmitidos os jornais locais.

O espaço do jornalismo televisivo foi novamente ampliado na década de noventa, primeiro com a recuperação financeira da Tv Jornal, agora sob a direção do Grupo Paes Mendonça, depois com o surgimento da Tv Tribuna, pertencente ao grupo João Santos. Nesse período foram inauguradas, também, duas emissoras no interior do estado, a TV Asa Branca, em Caruaru, e a TV Grande Rio, em Petrolina, ambas afiliadas da Rede Globo. Foi instalada, ainda, a TV Golfinho, no arquipélago de Fernando de Noronha.

Paralelo a esse crescimento no número de emissoras no Estado, o jornalismo local inicia uma nova etapa e passa por grandes transformações, visando atender às exigências impostas pelas redes nacionais de televisão. Paulo André Leitão, chefe de redação da TV Tribuna durante a década de noventa, afirma que quando começaram em 1991, a Tribuna era filiada a Rede Bandeirantes, que tinha um jornalismo muito voltado para São Paulo e, por conta disto, tinha certas exigências com relação a cobertura jornalística realizada em Pernambuco, que muitas vezes ia de encontro aos interesses jornalísticos locais. Hoje a Tribuna retransmite a programação da Rede Record, uma emissora mais flexível em relação a sua grade de programação. Quem transmite a Rede Bandeirantes é a mais nova emissora do estado: a TV Guararapes, dos Diários Associados2 , uma tevê moderna, inaugurada no ano de dois mil, com equipamentos digitais e uma nova proposta de profissional atuando no telejornalismo: o newsman, uma espécie de “faz tudo” no jornalismo televisivo. Ele produzia pauta, fazia a reportagem, editava e, às vezes, até apresentava o jornal. Mais a experiência não deu muito certo. Hoje o quadro da tevê foi reduzido, não existem mais edições de jornais diários, o jornalismo está reduzido a programas que cobrem a editoria de polícia.

Nesses quarenta e três anos de existência da tevê pernambucana, o jornalismo enfrentou mudanças técnicas, estéticas e editoriais, que marcaram e marcam a trajetória do telejornalismo pernambucano.


A evolução tecnológica
Das pesadas câmeras às portáteis digitais, da montagem à ilha de edição, da fotoquímica da película para um processo eletrônico, de formação eletromagnética, uma verdadeira revolução tecnológica invadiu as emissoras de televisão e, claro, provocou grandes mudanças, também, no fazer jornalístico televisivo.

É impossível não associar as mudanças estéticas e editoriais às questões tecnológicas. O jornalismo televisivo ganhou mobilidade e agilidade, até pouco tempo, (anos 60 e 70) a tevê usava o filme 16 mm para fazer jornalismo. O setor, assim, estava a mercê das dificuldades naturais de um processo que envolvia, além da filmagem, a revelação, e a montagem. Trabalhava-se com o filme em preto e branco, dezesseis milímetros negativo. Em função disto, era necessário fazer a inversão da imagem no telecine. Além disso, tinha que se dominar toda linguagem das câmeras, principalmente das lentes. Hoje basicamente as tomadas são feitas por lentes reflexivas, você já vê através da própria lente, antigamente não. Era necessário ter uma noção muito precisa da distância e colocar essa distância do objeto focado para filmar, naquela época tinha que se fazer uma matéria com cem pés, era a carga média das câmeras, cem pés significavam três minutos, era tudo enxutíssimo, mantendo, ainda, o respaldo da linguagem do cinema, para cada três takes um tinha que entrar na composição final da imagem. O cinegrafista era obrigado a andar com uma infra-estrutura que denominavam de saco preto, onde se fazia o carrego e descarrego da câmera, do filme, num ambiente completamente isolado de luz.

Era a época em que o jornalismo televisivo não contava, ainda, com os benefícios do vídeo tape. Segundo Isaltino Bezerra, era muito difícil desenvolver o telejornalismo, uma vez que os telejornais não contavam, também, com a figura do repórter: “o cinegrafista filmava, trazia o roteiro do que filmava, daquela pauta que você entregava, e você ia escrever em função das imagens que você recebia. Quando o filme velava, queimou o filme - acabou, você não tinha imagem, nem o que regravar”.

Para Vera Ferraz o que mudou nesse caminho e foi realmente determinante para o jornalismo televisivo foram os surgimentos do VT, vídeo-tape e, sobretudo, da ilha de edição: “saímos do filme ótico, em preto e branco, para o filme colorido, numa montagem praticamente manual, artesanal, até chegar a ilha de edição, que foi um avanço fora do normal. Hoje, graça aos efeitos da ilha de edição você ganha em dinamismo e criatividade na utilização dos recursos editoriais. Você usa a arte de uma forma genial para ilustrar, isso tudo que não acontecia no passado ou acontecia de uma forma muito primária. Até o crédito que se coloca hoje é diferente, porque antes você tinha o crédito em letra sete e hoje você usa o computador, sem dúvida, ganhou em a agilidade”.

A transposição do filme para o vídeo deu mais condições de trabalho, principalmente porque passaram a ter mais mobilidade e autonomia com o novo equipamento. Ainda assim, o início do vídeo foi um processo mais complexo e envolvia mais profissionais que atualmente. O equipamento U-Matic, por exemplo, requeria mais pessoal. Normalmente as equipes externas de jornalismo eram formadas pelo motorista, que em algumas emissoras fazia às vezes de iluminador, o repórter, o operador de vt, o cinegrafista. Hoje as equipes trabalham com três e, às vezes, até com dois profissionais apenas.

As mudanças técnicas foram determinantes, também, nas transmissões ao vivo. No início dos anos 60, o link de transmissão era testado dia antes, não possuía essa facilidade de hoje, no início do telejornalismo teria que ser um evento muito marcante para justificar uma transmissão externa. Os carros eram extremamente pesados (ônibus e/ou caminhões) que transportavam uma mini-emissora. A TV Jornal de Recife ainda possui o seu primeiro carro de externa, um ônibus, adquirido nos início dos anos 60, uma verdadeira relíquia, que todos os anos, durante o carnaval, mas precisamente no desfile da agremiação Galo da Madrugada, o carro sai entre trios elétricos e orquestras de frevo, um símbolo da resistência de uma emissora local, engolida pelas mudanças provocadas pela globalização.

As emissoras de tv no estado que não tiveram condições de acompanhar de imediato as transformações, amargaram com a crise, a exemplo da TV Jornal que ficou limitada, praticamente, aos programas de estúdio e aos noticiários policiais. Destaque para os programas de Jorge Chau e Jota Ferreira, o Blitz Ação Policial. O curioso é que esse tipo de telejornalismo, adotado no final dos anos setenta início dos oitenta para driblar a crise, chegou, guardadas as devidas proporções, aos dias atuais como nova tendência telejornalística da tv brasileira.

Hoje as equipes de jornalismo saem com equipamentos muito mais modernos, equipamentos menores, que passaram a facilitar o deslocamento. É possível fazer uma externa em poucos minutos, levando o fato ao telespectador com muita rapidez.

A evolução técnica, por sua vez implicou, também, em mudanças na linha editorial e no surgimento de novos papéis no jornalismo televisivo. Houve uma grande evolução, até por conta das necessidades sociais, a primeira grande mudança foi a presença do repórter na rua, ele reportando, ele investigando, ele questionando. O repórter veio somar a equipe externa do jornalismo televisivo.
Linha Editorial
Atualmente os telejornais estão mais próximos das comunidades. Por questões técnicas e considerando a extensão territorial do nosso país, não existiam na década de sessenta jornais televisivos em rede nacional e, por isso mesmo, os noticiários do Recife eram editados com noticias que iam além da cobertura regional. Os jornais tinham notícias internacionais, nacionais e locais. Eles eram ilustrados com slides ou com filmes, algumas vezes com Auricom (filmes sonoros), mas quase sempre filme mudo.

Os jornais não eram, em sua maioria, opinativo, eles limitavam-se a passar a informação, não analisavam o fato, não comentavam o fato, apenas transmitiam. Um dos principais exemplos deste formato foi o Repórter Esso, que deixava a interpretação do fato a cargo do espectador. Uma das exceções, como já foi citado anteriormente, foi o jornalismo desenvolvido na Tv Universitária. Outro programa jornalístico de destaque na década de sessenta, que fugia do padrão vigente foi o Diário de um Repórter, na Tv Tupi, que apresentava crônicas de Davi Nasser que, em geral, atacavam o governo. Gil Marques, locutor, recebeu, segundo Dantas Mesquita, várias ameaças através de telefonemas, o mesmo aconteceu com ele.

No canal dois existia O Show de Notícias, que apresentava uma estrutura bem diferenciada dos demais. Ele era dirigido por Aldemar Paiva e reunia vários apresentadores, cerca de cinco homens e duas mulheres, entre eles, o próprio Aldemar, Geraldo Liberal, Reinaldo Melo, Mauro Pimenta, Rui Cabral, Fernando Ramos e Dantas Mesquita. O show de notícias tinha cerca de 20 a 25 minutos de duração. Além das notícias nacionais, internacionais locais, ele apresentava variedades, artes e notícias de questões sociais. Havia um desenhista que fazia caricaturas dos entrevistados, a medida que eles davam entrevista. A estrutura do Show de Noticias seguia, de uma certa forma, a proposta do Jornal de Vanguarda, dirigido por Fernando Barbosa Sobrinho e exibido na TV Excelsior, em São Paulo. Mas o regime militar, a partir de sessenta e quatro, acabou por interromper esta e várias outras experiências criativas dos noticiários televisivos brasileiros. Quem sobreviveu, teve que se submeter a prática da censura.

Além da censura, um outro elemento passou a interferir na linha editorial dos telejornais pernambucanos, as agências de notícias internacionais. O Repórter Esso só dava notícias enviadas pela UPI – United Press International. Não se podia dar uma noticia que não fosse da UPI, não se utilizava outras fontes, todas as informações nacionais, internacionais e locais eram da agência de notícias americana. A UPI tinha um bureau em Recife, que era chefiado por Vladimir Calheiros, uma equipe de dois ou três repórteres que trabalhavam com ele. Quando as agências internacionais deixaram de interferir, surgiu, na década de setenta, o compromisso com as redes nacionais de tevê, que persiste até hoje.

No início das atividades da Tribuna, por exemplo, O Jornal da Noite tinha uma proximidade muito grande com o conteúdo editorial, o caráter editorial do telejornal da Rede Bandeirantes, sem desprezar evidentemente a cobertura de fatos que era importante para os telejornais locais, mas o foco central era ditado pela Bandeirantes. Quando a Tribuna deixou de retransmiti-la e passou a transmitir a Rede Record, admite Paulo André, “mudou o conteúdo de alguns programas, a gente mudou a forma de apresentar os telejornais, passamos a dar uma importância bem maior do que dávamos a cobertura policial, porque estávamos num horário nobre, dentro de um programa que existe até hoje, que é o Cidade Alerta”.

No caso da Rede TV, emissora que ficou no lugar da Rede Manchete, a linha editorial é definida pela matriz, que envia sugestões e algumas situações locais, a redação de Pernambuco tenta colocar como matéria que possa render no jornal de edição nacional da emissora, uma vez que não existe, ainda, o jornal local, isso faz com que a emissora perca espaço entre os telespectadores pernambucanos. A previsão é de que um jornal local passe a ser exibido a partir do segundo semestre de 2003.

Em algumas emissoras o compromisso com a rede é mais flexível, o que permite a produção local driblar em parte essa dependência. Segundo o jornalista Ivan Júnior, que foi diretor de programação da Tv Guararapes, “o pernambucano não aceita mais vê só a programação do eixo Rio-São Paulo. A programação local tende a crescer porque o espectador quer se vê na programação local”.

No caso da TV Universitária, segundo Luiz Lourenço, diretor de programação do canal 11, a emissora vem trabalhando a programação da tevê pública numa perspectiva que encara o jornalismo de uma forma não factual. O projeto Documento Nordeste, por exemplo, nasceu da necessidade de falar não só do nordeste do ponto de vista da miséria, dos problemas, mas falar, também, do outro lado, da riqueza cultural, do meio ambiente. O documentário ganhou espaço na rede educativa de todo o país, na medida que é exibido pela Rede Pública de tevê, e passou a constituir num espaço de divulgação da cultura e da identidade nordestina.

No caso da TV Jornal não podemos esquecer a contribuição, a partir da década de 90, do Jornal Meio Dia, que deu ao telejornalismo local, tanto do ponto de vista do espaço, quanto do ponto de vista da concorrência, um novo fôlego, porque ele teve a preocupação de ser um jornal comunitário, prestador de serviços, e isso fez com que o jornalismo televisivo local ganhasse, na década passada, mais credibilidade e ressonância entre os telespectadores. Essa linha editorial, infelizmente, não foi mantida e, a exemplo de outras emissoras, a TV Jornal também veicula programas policiais cuja qualidade editorial é bastante duvidosa, mas essa já é uma outra questão.

A verdade é que o formato dos telejornais, sem dúvida, sofreu modificações, ao longo desses anos, atento não só a audiência, mas de olho, também, na estética e nas possibilidades proporcionadas pelos novos recursos tecnológicos.

A Estética Telejornalistica
Depois do advento do vídeo tape, a figura do repórter passou a marcar definitivamente sua presença na telinha, mas o cuidado com a estética nem sempre esteve entre suas prioridades, como acontece com os repórteres nos dias atuais. Camisas estampadas, cabelos rebeldes, acessórios extravagantes. O início da presença dos repórteres e apresentadores nos telejornais, transmitidos ainda em preto e branco, contrapõe com as imagens comportadas e, por vezes pasteurizadas desses profissionais, dos atuais telejornais.

Esta situação é revelada, claramente, no depoimento do repórter da TV Globo, Francisco José, que está na emissora há 30 anos:

“uma vez aconteceu um incêndio num posto de gasolina, na rua corredor do bispo, no centro da cidade, tinha um carro de combustível pegando fogo, muitos carros sendo incendiados e nós fizemos uma matéria completamente diferente dos padrões da Globo da época, onde só oito repórteres eram autorizados a entrar no jornal nacional e todos de paletó, e eu fiz completamente diferente, a maneira louca de quem não sabia fazer televisão mesmo, falando e narrando e saiu tudo de improviso, todas as besteiras que eu gravei na hora foi ao ar, mas na época era para sair no jornal local, só que mandaram a matéria para o Jornal Nacional para transformar numa nota coberta com as imagens do incêndio. Acontece que o Jornal Nacional resolveu usar o repórter que estava ali, e quando terminou a edição daquela noite, editora chefe do jornal, Alice Maria, ligou para Recife e disse quem é esse repórter louco, com essa camisa horrível, esse cabelo grande, esse cara de louco, manda ele pra aqui que a gente vai cortar o cabelo dele, dar roupa pra ele e mudar esse sotaque dele que é muito feio. O sotaque eles não conseguiram mudar até hoje, porque eu continuo falando arrastado como todas as pessoas do nordeste falam, mas começou, assim, a minha trajetória no jornal nacional.”“.
Não foram apenas as roupas, nem a forma de falar, nem a aparência dos repórteres que foram sendo modificadas. A forma de pensar, produzir e executar as reportagens telejornalísticas também sofreram transformações, ela mudou quase que totalmente com as possibilidades de recursos oferecidos pelos novos equipamentos que utilizam a fita de vídeo cassete.

O estúdio também foi modificado, ganhou espaço. Do comportado painel colocado logo atrás do apresentador, passou para cenários que permitem mais mobilidade e descontração. No início dos anos 60 os telejornais contavam, apenas, com painel e poucos recursos para o apresentador. Antes do programa ir ao ar, o apresentador ia ao telecine com todos os textos das matérias que iriam ser exibidos para medir o tempo do texto com o tempo da imagem. O locutor lia enquanto o filme estava no ar, tinha que se ter o cuidado para evitar que o filme terminasse antes do apresentador ler toda a notícia.

Os tempos mudaram, a tecnologia passou a contribuir com o trabalho do apresentador, uma das grandes conquistas neste setor foi o surgimento do telepromter, que permite ao apresentador ler o texto olhando diretamente para a lente da câmera. Enquanto isso, o cenário simples do telejornalismo caminha para os efeitos gráficos. A presença despretensiosa do apresentador é modificada, a exigência de uma participação mais ativa passa a ser cobrada, inclusive a presença estética no vídeo. Sem falar do desembaraço necessário para a apresentação, por vezes comentá-lo e, também, realizar entrevistas. Atualmente os apresentadores são repórteres, editores e, em alguns casos, editor-chefe do jornal.

Todas essas mudanças estéticas, editorais e, sobretudo, tecnológicas, infelizmente não podem ser completamente resgatados. Apesar de uma história tão recente, muito pouco pode ser recuperado da trajetória do nosso telejornalismo. A falta de memória e o descaso com o acervo de imagens foram nossos maiores inimigos. Praticamente não existem nas emissoras de Pernambuco gravações dos telejornais da década de 60 e início dos anos 70. Toda a produção desse período, por exemplo, da TV Universitária, inclusive os telejornais, foi perdida por falta de condições técnicas ou de interesse administrativo em preservar os arquivos. Os arquivos da Tv Jornal sofreram com os mesmos problemas, assim também foi com o arquivo da TV Manchete, que não existe mais. O acervo da Tupi foi perdido totalmente, no incêndio e também na falta de cuidado em preservar parte da nossa história audiovisual. A TV Globo é uma das poucas emissoras que possui um arquivo organizado e significativo. Nos anos 90 a emissora teve o cuidado de criar o CEDOC - Centro de Documentação, um exemplo que, felizmente, começa a ser copiado pelas demais emissoras.




1 Todos os depoimentos que constam desse texto, foram gravados durante a pesquisa. Algumas gravações realizadas em fita de vídeo, outras em fita de áudio. Parte desses depoimentos encontram-se no vídeo “A Trajetória do Telejornalismo em Pernambuco”, produzido pela professora Aline Grego e pelos bolsistas do Progama de Iiniciação Cientítica da unicap - Pibic, são eles: Pedro Severien, Aline Grupillo e Carolina Barreto.


2 Depois de anos de lutas judiciais, o grupo dos Diários Associados em Pernambuco conseguiu provar, na Justiça Federal, que a TV Tupi de Recife era totalmente saudável financeiramente, não devia nem a fornecedores, nem a funcionários e, na época do seu fechamento, era a emissora que possuia os equipamentos mais modernos no início dos anos 80, ficando responsável, inclusive, pela coordenação do pool de transmissão da visita do Papa João Paulo II ao Recife. A comprovação desse quadro rendeu ganho de causa em favor dos Diários Associados. Com a indenização o grupo, que já possui em Recife o jornal mais antigo em circulação na América Latina, o Diário de Pernambuco, e uma rádio, a rádio Clube, voltou a possuir, também, o seu canal de televisão aberta: a Tv Guararapes.


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