A tarefa da preocupação



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Encontro18.09.2019
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A tarefa da preocupação


Ela se mudara do Meio-Oeste para Los Angeles, atraída por um emprego numa editora. Mas a editora foi, logo depois, comprada por outra, e ela ficou desempre­gada. Voltou a trabalhar como freelancer, um mercado irregular, e ora ficava atolada de trabalho, ora sem condições de pagar o aluguel. Muitas vezes, tinha de racionar os telefonemas, e, pela primeira vez em sua vida, não tinha seguro-saúde. Essa falta de cobertura era particularmente angustiante: ela imaginava catástrofes sobre sua saúde, certa de que qualquer dorzinha de cabeça era sinal de um câncer no cérebro e vislumbrava um acidente sempre que tinha de ir de carro a algum lugar. Diversas vezes, se descobria perdida num longo devaneio de preocupação, uma salada de angústia. Mas, por outro lado, dizia que achava que suas preocupações eram como um vício.
Borkovec descobriu outra surpreendente vantagem da preocupação. Enquan­to as pessoas estão mergulhadas em tais pensamentos, parecem perder a percepção das sensações subjetivas da ansiedade que a preocupação desperta - o coração disparando, as gotas de suor, os tremores - e, à medida que a preocupação continua, na verdade parece eliminar parte dessa ansiedade, pelo menos a que se reflete nas batidas cardíacas. Presume-se que a seqüência se dá mais ou menos assim: o preocupado nota alguma coisa que cria a imagem de uma ameaça potencial de perigo; essa catástrofe imaginária, por sua vez, causa uma leve crise de ansiedade. O preocupado, então, fica imerso numa longa série de pensamentos angustiantes, cada um dos quais prepara mais um tópico para que ele se preocupe; enquanto a atenção continua a se fixar nessa cadeia de preocupação, a própria concentração nesses pensamentos tira a mente da imagem catastrófica que originou a ansiedade. Borkovec constatou que as imagens são disparadores mais potentes de ansiedade psicológica do que os pensamentos, de modo que a imersão em pensamentos, com a exclusão de imagens catastróficas, alivia parcialmente a sensação de ansiedade. E, nessa medida, a preocupação é reforçada, como uma espécie de antídoto para a própria ansiedade que despertou.
Mas as preocupações crônicas também são autofrustrantes, porque tomam a forma de idéias estereotipadas, rígidas, e sem nenhuma abertura criativa que possa efetivamente conduzir à solução do problema. Essa rigidez se mostra não apenas no conteúdo manifesto do pensamento preocupado, que simplesmente repete, sem parar, mais ou menos as mesmas idéias. Mas, no nível neurológico, parece haver uma rigidez cortical, um déficit na capacidade de o cérebro emocional reagir com flexibilidade às mudanças de circunstâncias. Em suma, a preocupação crônica funciona de algumas formas, mas não de outras, que seriam mais conseqüentes: alivia um pouco a ansiedade, mas nunca soluciona o problema.
A única coisa que os preocupados crônicos não podem fazer é seguir o conselho que, com mais freqüência, lhes dão: Pare de se preocupar – ou pior: Não se preocupe - tudo bem. Como as preocupações crônicas são episódios amigdalíticos, surgem sem ser chamadas. E, por sua própria natureza, persistem, assim que surgem na mente. Mas, após muitos experimentos, Borko­vec descobriu alguns passos simples que podem Servir de auxílio até para o mais crônico preocupado a controlar o hábito de se preocupar.
O primeiro caso é a autoconsciência, é se apoderar dos episódios preocu­pantes tão logo eles se iniciem - o ideal sendo assim ou imediatamente após que a instantânea imagem catastrófica dispara o ciclo de preocupação-ansiedade. Borkovec treina pessoas nesse método, primeiro ensinando-lhes a monitorar os indícios de ansiedade, sobretudo aprendendo a identificar situações que provo­cam preocupação, ou os pensamentos e imagens que, num relance, dão início à preocupação, assim como as conseqüentes sensações corporais de ansiedade. Com a prática, as pessoas aprendem a identificar as preocupações num ponto cada vez mais perto do início da espiral de ansiedade. As pessoas também aprendem métodos de relaxamento, que podem aplicar nos momentos em que percebem o início da preocupação, e praticam-nos diariamente, para poderem usá-los na hora em que mais precisem.
Mas o método de relaxamento, por si só, não basta. Os preocupados também precisam contestar ativamente os pensamentos preocupantes; sem isso, a espiral de preocupação retomará. Assim sendo, o passo seguinte é assumir uma posição crítica em relação às suas próprias suposições: é muito provável que o fato temido ocorra? Trata-se, necessariamente, de haver apenas uma ou nenhuma alternativa para que aconteça? Há medidas construtivas a tomar? Será que adianta ficar percorrendo, sem cessar, esses mesmos pensamentos ansiosos?
A combinação de atenção e saudável ceticismo atuaria como uma espécie de freio na ativação neural que está por trás da baixa ansiedade. A geração ativa desses pensamentos prepara os circuitos que inibem o impulso límbico de preocupar-se; ao mesmo tempo, a indução ativa de um estado de relaxamento contrabalança os sinais de ansiedade que o cérebro emocional envia para todo o corpo.
Na verdade, observa Borkovec, essas estratégias estabelecem uma cadeia de atividade mental incompatível com a preocupação. Quando se deixa uma preocupação repetir-se continuamente, sem que seja contestada, ela adquire poder de persuasão; contestá-la, pensando numa série de pontos de vista igualmente plausíveis, impede que unicamente o pensamento preocupado seja ingenuamente tomado como verdadeiro. Mesmo algumas pessoas, com preocu­pação crônica, a ponto de merecerem um diagnóstico psiquiátrico, têm obtido alívio através do recurso a esse método.
Por outro lado, para pessoas com preocupações tão severas que se tornaram fobia, distúrbio obsessivo-compulsivo ou de pânico, talvez seja prudente - na verdade, este já seria um sinal de autoconsciência - recorrer à medicação para interromper o ciclo. A contenção dos circuitos emocionais, por meio de terapia, ainda assim, é necessária para reduzir a probabilidade de a ansiedade retomar quando a medicação for suspensa.
Fonte

GOLEMAN, Daniel. A tarefa da preocupação. In: ______. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.








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