A sociedade pedagógica



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A sociedade pedagógica

Michel Serres*

1. Bifurcando de maneira inesperada sobre o tempo comum, as verdadeiras revoluções nos tomam de surpresa. Elas surpreendem e revolucionam os modos de vida estabelecidos. Ora, uma vez realizadas, um olhar para trás assegura que se enraízam tão profundamente na História que teríamos devido e podido prevê-las. Acontece pois, como que a posteriori, que nós adivinhamos as causas, ou, ao menos, as condições. Vivendo a convulsão, nós não experimentamos senão as rupturas; à repensar, nós seguimos em frente.

2. O principal deste século não escapa à regra. Tanto no trabalho como na cultura, as cinco últimas décadas viram, freqüentemente, Hermes-mensageiroi, emblema da comunicação, tomar o lugar de Prometeuii, o herói das forjas e das artes do fogo que tinha dominado o século passado. A informação sucedia à transformação; às energias duras se substituíam as suaves, não certamente para realizar os mesmos trabalhos, mas para dar sua cor e seu estilo à nova civilização.

Revolução e continuidade

3. De maneira imprevisível, a sociedade industrial engendrava um imenso comércio de mensagens em múltiplas redes. Escolhi como insígnias um herói e um deus gregos – as inumeráveis legiões de anjos figuram melhor ainda nossa exaltação mensageira – para mostrar que não se esperou estes últimos cento e cinqüenta anos para realizar a importância do trabalho, depois aquela das mensagens. Não falta antecessores, pois, à referida revolução.

4. Deveríamos ter previsto em seguida que, tornada especializada nesta onda/textura de relações, de lugares, de vias/meios e de canais, a nova sociedade de comunicação investiria, de maneira eletiva, as instituições consagradas por muito tempo, na História, à transmissão de mensagens: a escola, em particular. A antiguidade considerava Hermes inventor da escrita e iniciador das ciências: o ensino tinha instituído, a partir do aparecimento da paideia grega, um intenso intercâmbio de mensagens por meios sofisticados/otimizados, com mensageiros leais e códigos regulados; entre as raras mensagens realmente purgadas de todo barulho sobressaem as que chamou-se matemáticas, ou seja, literalmente, as coisas que ensina-se.

5. Que a sociedade da comunicação se tornasse, mais recentemente mas também repentinamente, uma sociedade pedagógica não deveria ter, também, nos surpreendido; porque se poderia dizer, contrariamente mas com bastante razão, que a sociedade inteira se remodela, sob os nossos olhos, a partir do formato da escola. Entre outros exemplos: o jornalista da imprensa escrita, o apresentador de rádio, o animador de televisão falam como professores, e, melhor ou pior, não correm nunca o risco se ver portar mal/repudiado nem se ouvir contradizer. E nós escutamos, sabiamente sentados sobre nossas patas traseiras, a voz dos nossos novos mestres misturar, com alegria e uma pitada de perversão, sua sala virtual de classe e um verdadeiro jardim de recreação.

6. Nós deveríamos ter, então, mas ainda mais facilmente, previsto que a escola mesma se remodelaria por sua vez, por meio das novas tecnologias invadindo a sociedade inteira. Em parênteses, a língua francesa pode e deve adotar, creio, o vocábulo tecnologia, que ela definia, outrora e recentemente, como um discurso sobre as técnicas, e o utilizar no sentido, novo, procedente da língua inglesa, porque se trata de técnicas auxiliares da escrita, do cálculo, de códigos e dos sinais em geral, e por conseguinte de uma techné do logos; pela primeira vez, uma <> vem em ajuda ao trabalho intelectual ou <>! Em resumo, como se teria podido fazer com que a competência nova em informação, redes e canais não invadisse a rede especializada a mais antiga conhecida, as suas mensagens, os seus canais e se atores? Como o mais antigo e o melhor perito em mensagens, o professor, teria podido evitar a nova competência mensageira?

7. Uma vez ainda, o imprevisto junta-se ao fio de nossos costumes.


Etapas


8. Esta tradição de onde emerge o ensino a distância, nós mesmos podemos a escandir. Porque a cada mudança de suporte correspondeu um renascimento radical no ensino: à emergência da escrita corresponde, pelo menos em nossa cultura, a invenção da paideia grega; no Renascimento, o aparecimento da tipografia deu uma nova imagem à pedagogia, e Rabelais pode requerer uma cabeça bem feita, dado que a acumulação dos volumes na livraria lhe permite deixar à sua velha cabeça bem cheia.

A emergência atual das novas tecnologias coroa, em terceiro lugar, esta série, começada à aurora da história e prosseguida à idade das grandes descobertas. Elas transformam três coisas: objetivamente, os estoques do saber, menos concentrados doravante que distribuídos; subjetivamente, as faculdades humanas, dado que a memória, por exemplo, mergulha nos computadores, como, outrora e recentemente, ela mergulhava nas prateleiras ou nos livros; por último coletivamente, uma vez que aparece o que acabo de nomear de a sociedade pedagógica.

9. Apresentamos então neste número especial uma verdadeira revolução em nossos ofícios educativos/pedagógicos, uma ruptura total e radicalmente nova, mas, ao mesmo tempo, a conseqüência inelutável das tradições mais antigas da nossa história.

O sentido depende da via (do meio)

10. De onde sai esta idéia de que não terminamos de refletir as conseqüências, que todas as discussões de hoje sobre as reformas do ensino erram gravemente, se não se compreende que os conteúdos dependem dos canais. A cada transformação de suporte, a ciência ela mesma altera-se: a escrita fez emergir o milagre grego das matemáticas; após com a tipografia, o Renascimento forma as ciências experimentais. Não somente o ensino varia, mas sobretudo o que ensina-se. Não, uma mensagem não é independente das maneiras de transmiti-la; muito ao contrário, ela transforma-se à medida que alteram as vias (meios). Sim, o saber depende das modalidades da sua transmissão. O espetáculo das ciências contemporâneas, tão profundamente transformado desde que os cientistas de todas as disciplinas trabalham e pesquisam com computadores, testemunha esta/e coerção/constrangimento. Esqueçam, pois, um momento, os programas e trabalhem sobre os canais; os conteúdos, depois os métodos para os difundir virão a vocês por acréscimo; e vocês se surpreenderão por ter encontrado as soluções sem estar procurando-as.

11. Se não se compreende, além disso, que coletivos de apredizagem dependem ainda canais. Pelo canal oral, o velho experiente transmite o seu saber a todo um outro coletivo, muito diferentemente reunido, que aquele que aprende na e pelas prateleiras ou livros; e a classe mesma se altera desde que um canal com duplo sentido faz circular a mensagem. As relações dos aprendentes com aqueles que os ensinam, sua atitude mesma, transformam-se completamente. Esqueçam portanto um momento a forma dos grupos e das instituições; uma outra idéia do distribuição e do controle virá, onde as ofertas de saber, longe de os preceder, distante sobretudo de se impor, seguem as demandas de ensino e aí se adaptam. Emerge, então, um interesse novo pela aprendizagem por parte dos atores, uma reciprocidade flexível entre a demanda e a oferta, de onde, espero, se seguirá uma relação social renovada.

As distâncias


12. Retomamos, ainda, a História: o ensino a distância data da noite dos tempos, quero dizer desde o início da pedagogia, dado que esta última palavra significa a condução da criança durante um deslocamento. Esta viagem supõe vários desvios que o guia ajuda a preencher. Toda a história da paideia, desde sua origem grega, relata a redução progressiva de tais distâncias.

13. Quais sejam: geográficas, espaciais, físicas... elas medem-se em fases ou quilômetros, quando habitamos distante das escolas, das bibliotecas ou dos laboratórios, em resumo das fontes concentradas do saber; financeiros, se vivemos pobres, indigentes ou miseráveis; lingüísticas, se nós não falamos o dialeto conveniente entre cientistas ou aquele entre homens de cultura; culturais, se nossa etnologia continua a ser estrangeira ao saber canonizado; social, de acordo com à nossa classe; temporais, se a fonte do conhecimento saltou sobre tempos esquecidos; patéticos, porque o saber produz sempre medo, aí incluídos e talvez sobretudo, os experts... Estas distâncias todas nos separam do conhecimento.

14. Deixando vestígios estáveis sobre um suporte, a escrita seguida da tipografia inventaram primeiro o envio de mensagens a distância espacial, através de mensageiros; assim, o pedagogo desempenhou primeiro este papel no novo comércio de mensagens da escola. Melhor ainda, o livro e seus análogos tornam possível a sobrevivência de Euclides ou de Quintiliano, desaparecidos desde milênios, e que ensinam contudo as matemáticas e a retórica, vários séculos após a sua morte, à vontade àqueles que desejam assim apreender. Estes suportes suprimem, por conseguinte, desvios imensos no espaço e no tempo. Assim de novo reler, a história dos suportes passa seu tempo a reduzir distâncias. Por sua rapidez imediata e sua ubiqüidade, as novas tecnologias alargam e prolongam formidavelmente este irreprimível processo: nova certamente, por suas tecnologias, a pedagogia a distância empurra seus limites últimos a evolução histórica da antiguidade. Ela conduz as distâncias no espaço e no tempo ao fenômeno simples e global da ubiqüidade. (grifo do trad.)

15. De um golpe, o percurso, às vezes terrível e doloroso, do requerente em direção a fontes concentradas do saber se transforme e se inverte, dado que o saber mesmo, percorrendo estas mesmas distâncias de espaço e de tempo, imediatamente se apresenta na casa mesma do habitante. A pedagogia cede o lugar a uma <>, desde que o conhecimento ele mesmo se desloca e não aquele que busca conhecer: a primeira, onipresente, repousa por toda a parte e sempre à disposição de cada um. Não perde por esperar, utopicamente, uma nova liberdade de aprender, uma nova igualdade de oportunidades, uma fraternidade nova e aberta?


A presença viva


16. Resta o argumento principal, que retorna inelutavelmente, como uma pedra de Sísifoiii. Que fazem vocês então da presença, quente e viva, do corpo que ensina? Quem diz a vocês que estas técnicas a suprimem? Formam-se outros grupos, novos tipos de reunião ou de recreação, que reclamam um animador sempre também indispensável. E, que eu saiba, coortes de jovens se comprimem, inebriados, frente a presença virtual televisiva de seus cantores e seus ídolos preferidos: não gostam deles então? Além disso, vocês dão como exemplo, sempre, o professor exemplar que os abriu às línguas ou às ciências naturais, e têm razão; mas não esquecem o mestre que os bloqueou para sempre nas matemáticas porque vocês o detestavam?

17. Como qualquer canal de comunicação, o presencial obedece à velha regra de Esopo: a língua - respectivamente o telefone, as auto-estradas, a televisão, a Internet... - é a melhor e a pior das coisas. Em matéria de via ou de rede, este duplo valor faz a lei: sem criar posto, o anjo-mensageiro transforma-se demônio. O ensino a distância ele mesmo, como todos os outros, não escapa disto. A presença viva também não.



Mais que a criança e a igualdade, o dinheiro. Infelizmente!

18. Por ter trabalhado neste domínio desde uma dezena de anos, por ter aí conhecido mais malogros que sucessos, para se congratular que todos compreendam, doravante, que aqui repousa a solução de mil problemas insolúveis noutro lugar, os editores deste número crêem, duros como ferro, na revolução da qual acabo de escrever a história sumária.

19. Nós vivemos, então, sempre no entusiasmo originário e estamos persuadidos que a solução em questão rapidamente se imporá doravante, menos, infelizmente! pelo amor às crianças ou pela esperança de realizar a igualdade de oportunidades que por razões financeiras: nos países ricos ou pobres, as necessidades, em matéria de formação, crescem sem parar, bem como os investimentos necessários para satisfazê-las, enquanto que as fontes de financiamento, públicas ou privadas, atingiram há muito tempo o limite suportável. Por outro lado, como sempre acontece às técnicas obsoletas, onde se pode injetar milhões sem estar fazendo avançar uma polegada à sua produtividade, assassinada pelos rendimentos decrescentes, as soluções clássicas, concentradas, da era da acumulação - muito grandes bibliotecas, construção de campus... - atingem preços doravante inacessíveis às comunidades democráticas e não se perpetuam senão em ambientes ou riquíssimos ou faraônicos, enquanto as soluções da distribuição não atingem nunca o décimo destes custos. Temos, por conseguinte, os meios, técnicos e financeiros, para prover às necessidades de formação, prioritárias.

20. Em razão de hábitos, enfim, a promoverão: todos os países do mundo, incluindo aí os mais pobres, vivem na era da comunicação; a escola dura, agora, toda a vida, e aquele que não aceita esta formação contínua envelhece a partir de sua juventude e perde à sua adaptação; enfim, as gerações que seguem evoluem no mundo virtual como peixes na água e acharão maravilhoso de se instruir elas mesmas a distância antes que adormecidas atrás das costas dos seus colegas.

21. Este número especial os despertará.iv

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NOTAS

* Tradução experimental – Celso Candido



i "Hermes: The messenger of the gods, especially of Zeus. He was the god of commerce, protector of travellers and athletes as well as protector of orators, philosophers and intellectuais in general. He was also the conductor of the dead souls to Hades. He was born to Zeus and Maia (the daughter of Atlas)." (S. Kokkinou, p. 11)

ii


 “A necessidade do trabalho é uma punição imposta ao homem por Zeus: o mito de Prometeu e o de Pandora explicam a origem do ‘desígnio do pai dos deuses e dos homens a que ninguém escapa’ e a punição dos mortais. Prometeu, que, segundo a etimologia mais provável (...) significa exatamente o que o latim denomina purens, de prouidens, o prudente, o ‘pre-vidente’, o que percebe de antemão. Filho do Titã Jápeto e da Oceânida Clímene, era irmão de Epimeteu, Atlas e Menécio.

“Prometeu passa por haver criado os homens do limo da terra, mas semelhante versão não é atestada em Hesíodo. O filho de Jápeto, bem antes da vitória final de Zeus, já era um benfeitor da humanidade. Essa filantropia, aliás, lhe custou muito caro. Foi pelos homens que Prometeu enganou a seu primo Zeus por duas vezes. Numa primeira, em Mecone (nome antigo de Sicione, cidade da Acaia), quando lá ‘se resolvia a querela dos deuses e dos homens mortais’ (Teog., 535, 536). Essa disputa certamente se devia à desconfiança dos deuses em relação aos homens, protegidos pelo filho de um dos Titãs, que acabam de ser vencidos por Zeus. Pois bem, foi em Mecone que Prometeu, desejando enganar a Zeus em benefício dos Mortais, dividiu um boi enorme em duas porções: a primeira cotinha as carnes e as entranhas, cobertas pelo couro do animal; a segunda, apenas os ossos, cobertos com a gordura branca do mesmo. (114) Zeus escolheria uma delas e a outra seria ofertada aos homens. O deus escolheu a segunda e, vendo-se enganado, ‘ cólera encheu sua lama, enquanto o ódio lhe subia ao coração’. O terrível castigo de Zeus não se fez esperar: privou o homem do fogo, quer dizer, simbolicamente dos nûs, da inteligência, tornando a humanidade anóetos, isto é, imbecilizou-a:


“’Zeus te ocultou a vida no dia em que, com a alma em fúria, se viu ludibriado por Prometeu de pensamentos velhacos. Desde então ele preparou para o homens tristes cuidados privando-os do fogo.’ (Trab., 45-50)

Novamente o filho de Jápeto entrou em ação: roubou uma centelha do fogo celeste, privilégio de Zeus, ocultou-a na haste de uma férula e a trouxe à terra, ‘renimando’ os homens. O Olímpico resolveu punir exemplarmente os homens e a seu benfeitor.” (Juanito de Souza Brandão, Mitologia Grega, V. I, p 167)



iii “Sísifo, o mais solerte e audacioso dos mortais, conseguiu por duas vezes livrar-se da Morte. (...) Uma dia, porém, Tânatos veio busca-lo em definitivo e os deuses o castigaram impiedosamente, condenando-o a rolar um bloco de pedra montanha acima. Mal chegado ao cume, o bloco rola montanha abaixo, puxado por seu próprio peso. Sísifo recomeça a tarefa, que há de durar para sempre.” (JBS, p. 226)

iv Se refere ao número de “Le Monde de L’Éducation – de la culture et de la formation” (hors-série – septembre 1998), do qual este artigo é traduzido.






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