A saga dos capelinos the making of


- Os capelinos eram da forma como os descrevi?



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1.4 - Os capelinos eram da forma como os descrevi?

Não há informações acuradas de como realmente os capelinos eram. Assim, a imaginação é livre e qualquer um pode imaginá-los como quiser. No entanto, eu me baseei em uma premissa. Assim que os capelinos começaram a renascer na Terra, a memória que eles tinham de Capela devia estar mais viva logo nos primeiros renascimentos do que após muitas existências. Deste modo, tudo o que era descrito como deuses, lendas e outras fontes de memória podem ser levadas em consideração. Assim, concluí as seguintes características:



  1. Eles eram muito altos. Isto se deve ao fato de que muitas lendas falam de titãs, gigantes que povoaram a Terra e lendas similares. Muitos podem dizer que realmente houve gi­gantes na Terra, mas não há vestígios de tais seres. Nunca en­contramos uma ossada de homens de três metros ou mais, mas já encontramos ossadas de dinossauros gigantescos de cem milhões de anos atrás. Creio, portanto, que, fisicamente, nun­ca houve homens gigantes propriamente ditos na Terra, a não ser em outro planeta, ou no mundo espiritual.

  2. Eles eram imberbes e calvos. A maioria dos povos pri­mitivos que se estabeleceram tinha como hábito raspar todos os seus pelos. Os sumérios, os egípcios e os harapenses tinham cer­to horror a cabelo, tonsurando-os. Aturavam a barba, creio eu, por falta de melhor opção, pois raspar a barba diariamente, na­queles tempos, era bem difícil.

  3. Eles tinham cabeças protuberantes, lançadas para trás. Os egípcios e os sumérios tinham desenvolvido chapéus para as elites que aumentavam em muito suas cabeças. Não era só para se mostrarem superiores aos seus semelhantes de clas­ses inferiores, mas, creio eu, para serem aquilo que eles acha­vam que eram, numa típica rememoração inconsciente daquilo que já haviam sido em Capela.

D) Eles eram azuis e verdes. Os arianos e outros povos como os egípcios apresentavam seus deuses e seus guerreiros como azuis ou verdes, com cabeças proeminentes. Infiro, es­pero que acertadamente, que eram reproduções inconscientes de seus aspectos capelinos.

Outras conclusões, como o fato de serem répteis, e ou­tras deduções são frutos de minha imaginação. No entanto, pode ser que tais características me fossem intuídas. Quem sabe? Biologicamente é perfeitamente possível o desenvolvi­mento de uma raça humana a partir de répteis.

Desejo lembrar aos amigos que a lenda dos dragões era uma constante entre os celtas e os chineses. Ambos viam os dragões como símbolos de seres extraordinários e de grande sabedoria. Essas lendas eram extremamente antigas. Entre os arianos, o deus Vartraghan, também conhecido como Indra, lutava contra Azi Dahaka, o grande dragão, e libertava as águas e as virgens do castelo maldito do repugnante ser alado. Como se pode ver, este conceito de dragão só podia ser espiri­tual, pois havia mais de sessenta e cinco milhões de anos que os dinossauros haviam sido extintos na Terra. Para que os ho­mens tivessem esta visão, era preciso que os capelinos fossem de descendência reptilóide, e que se apresentassem, em espí­rito, aos videntes da época, e que eles pudessem defini-los como tal. Será que isto é uma evidência de que os capelinos eram originários de raças de répteis? Não! Apenas mais uma pequena peça no imenso puzzle da História universal.
1.5 - O problema do exílio maciço de espíritos

Antes de mais nada, é preciso informar ao leitor que degredos maciços são fenômenos absolutamente normais. Não se trata de uma exceção que foi aberta para Capela ou eventualmente para a Terra. Todos os planetas vão evoluin­do junto com suas humanidades e, quando alcançam um de­terminado estágio, eles passam por uma espécie de limpeza fluídica e espiritual.

Os planetas não evoluem com a mesma velocidade que os espíritos que nele estão vivendo. Seriam, mal comparando, como escolas, por onde passam muitas classes, durante muitas eras. Por isto, encontramos planetas onde somente existem es­píritos ainda muito primitivos, como foi a Terra há milhões de anos, quando os dinossauros passeavam por aqui.

Naquele tempo, a Terra era um pré-maternal, se é que se pode usar este termo como uma forma de analogia. Nele evoluíram bilhões de espíritos, ainda na fase animal, encon­trando sua individualização, para partirem, levados por ope­radores amorosos, para outros orbes, e prosseguirem sua senda evolutiva.

Num determinado instante, obedecendo aos imperativos de um planejamento global dos administradores galácticos e de circunstâncias adequadas, a Terra começou a possibilitar o apa­recimento de espíritos já individualizados - provavelmente em outros planetas - que se iniciaram na fase humana inferior. Du­rante milhões de anos, a escola maternal terrestre forneceu o campo de experiências propício para que essas almas fossem se aprimorando.

Mais uma vez, seguindo os ditames dos espíritos superio­res, sempre em concordância com as leis divinas e a vontade so­berana do Amantíssimo Pai, a Terra foi devidamente preparada para subir mais um degrau como escola de aperfeiçoamento es­piritual. Neste ponto, iniciaram-se os processos de aperfeiçoa­mento das espécies aqui existente, dando origem aos tipos físicos dos quais nós fazemos parte.

Com isto, acelerou-se a necessidade de que a Terra ofe­recesse circunstâncias corretas para a eclosão da civilização. Os guias mentores começaram a atuar de forma mais direta, intuindo novos caminhos e novas tecnologias. No entanto, é preciso estar atento que isto é trabalho de grande dificuldade, pois a mente ainda pouco habituada ao raciocínio é material de difícil labor para os mentores, que não encontram recepti­vidade plena.

Enquanto isto acontece, os demais planetas habitáveis, fisicamente falando, vão evoluindo, cada um no seu estágio próprio, sem que nenhum 'queime' etapas, ou receba 'graças divinas' indevidas. Deste modo, cada um se encontra em de­terminado estágio, sendo que encontraremos alguns mais adiantados em termos de humanidade espiritual, enquanto outros nem sequer entraram na fase humana.

Os que alcançaram determinado estágio evolutivo subitamente se vêem às portas de ingressarem num patamar mais fraterno, mais amorável, mais homogêneo e de alta tecnolo­gia. É neste ponto que os espíritos que não alcançaram as luzes da fraternidade, que não demonstram um mínimo de boa vontade, e que se apresentam ainda profundamente desviados do aprisco seguro do Senhor, são expurgados do planeta onde estão, sendo levados para outro orbe, onde encontrarão ambien­te propício às suas tendências ainda primitivas e desregradas.

As leis divinas funcionam com excelente perfeição. Os exilados irão se aperfeiçoar no cadinho das lutas existenciais, ajudando os espíritos ainda em fases mais primitivas de evolu­ção, e irão gerar o aparecimento da civilização, sem a qual não é possível se evoluir amplamente. No entanto, eles são espíri­tos degredados pelo fato de serem ainda desajustados social­mente e psiquicamente, e, deste modo, sua atuação no novo habitat será diretamente proporcional ao seu desajuste.

Poderão se perguntar se isto é justo para os primitivos espíritos que habitam o orbe que tão amorosamente os recebe. A resposta é positiva. Sim, é mais do que justo, pois o espírito primitivo tem uma forte tendência à estagnação. Se ele não for atiçado com força, crueza, sofrimento e necessidades pungen­tes, ele ficará estático, repetindo monotonamente sua existên­cia. É preciso uma força poderosa - o sofrimento - para retirá-lo de sua concha de preguiça e comodismo e impulsio­ná-lo para desenvolver suas habilidades potenciais. Como um frágil passarinho que precisa abandonar seu ninho para o primeiro vôo, ele também deve ser 'expulso' de sua aparente tranqüilidade e galgar os cumes mais elevados, através do esfor­ço, do sofrimento (não-obrigatório) e da repetição exaustiva das lições do caminho evolutivo. Digo que o sofrimento não é obriga­tório, pois ele é apenas a conseqüência dos erros, inevitáveis é verdade, do caminho evolutivo. Deste modo, os capelinos degre­dados foram úteis para a implantação da civilização terrestre.

Capítulo 2

A Era dos Deuses e O Primeiro Faraó
Como ambos os livros tratam da implantação da civiliza­ção do Egito, iremos abordar os dois num único capítulo.

2.1 - Lendas egípcias e realidade

Todo o período anterior à implantação do Kemet (Egito) foi chamado pelos historiadores de Era dos Deuses, pois assim foi intitulado pelos escritos achados nas paredes de uma pirâ­mide menor da quinta e sexta dinastia. Muito provavelmente este período já era conhecido dos egípcios, mas não fora escrito ou não se encontrou nenhuma menção em papiros. Esses escri­tos formavam um conjunto de lendas, onde homens e deuses (neters) andavam juntos na Terra, estabelecendo um 'modus vivendi' que viria a gerar a civilização egípcia.

No prólogo do livro A era dos deuses, narramos as princi­pais lendas daquele período. Apesar do risco de nos tornar­mos cansativos, iremos transcrever o texto, já que muitos leitores podem não ter tido a oportunidade de conhecê-lo. O leitor que já os tiver lido e não desejar relê-los, poderá saltar este texto em corpo menor, indo direto às conclusões.

Naqueles tempos obscuros, dos quais sabe-se muito pouco, pôde-se fazer um quadro pouco claro, pelas lendas e escritos chamados de 'Os escritos da Pi­râmide', encontrados nas paredes de uma das pirâmi­des menores dos faraós da V e VI dinastias, somados aos escritos de dois gregos, Plutarco e Heródoto, quase três mil anos depois dos acontecimentos.

O país foi-se fazendo no decorrer de dois mil anos, com muito pouca interação entre os vários vilare­jos. O período pré-dinástico apresenta inúmeras len­das e deuses locais difíceis de serem precisados. As lendas envolvendo Ptah, Rá e o grande mito de Osíris devem ser conhecidas para o melhor entendimento da chamada Era dos Deuses, nome atribuído pelos pró­prios egípcios ao período pré-dinástico.

Contam as lendas que Ptah e Rá foram dois deu­ses, sendo Ptah o próprio Deus Criador, e Rá, seu filho, também conhecido como Ré ou Rê. Eles teriam vindo da Planície Primordial - uma espécie de céu - tendo atravessado o oceano que nos envolve - as águas de cima e as de baixo da Bíblia - chegando pessoalmente à Terra para ajudar-nos, suas criaturas, a evoluir. Ptah era um deus muito poderoso e domou as águas revoltas do Nilo, através de cavernas secretas perto da primeira catarata, em Aswan.

Rá, seu filho, um deus libidinoso que empre­nhou uma quantidade enorme de mulheres, podendo transformar-se em qualquer animal. Gerou vários fi­lhos, entre eles Chu e Tefnut, que deram origem a Gueb, a Terra, que engravidou Nut, o Céu, e dela nas­ceram quatro filhos: Osíris, Ísis, Seth e Neftis. Osíris e Ísis casam-se, ao se tornarem adultos, assim como Seth e Neftis. Seth deseja sexualmente Ísis, todavia não consegue nada com a irmã, que ama Osíris. As lendas falam que já se amavam no ventre de Nut, ou seja, no céu.

Pelas lendas dizem que Osíris foi infiel uma vez e teve um conúbio carnal com Neftis, engravidando-a. Seth descobriu e jurou vingança. Amaldiçoou Neftis, que gerou Anúbis, uma criatura semi-humana com ca­beça de chacal, que é jogado ao léu, no deserto. Ísis descobriu tudo e educou Anúbis como se fosse seu próprio filho.

Seth e seus cúmplices convidaram Osíris para entrar num caixão, pois afirmaram que quem coubesse no mesmo ganharia um fabuloso presente. Osíris, infantilmente, entra no mesmo, onde trancam-no e jogam o baú no Nilo, afogando-o. O caixão desce o Nilo e vai parar, não se sabe como, em Byblos, cidade da Fenícia. O baú com o corpo de Osíris, quando chega às costas fenícias, transforma-se em um enorme cedro, que o rei de Byblos, impressionado, leva para seu palá­cio para servir de viga-mestra. Ísis, misteriosamente, descobre o fato e vai atrás do seu amor. Chegando a Byblos, Ísis é recebida pelo rei e sua esposa.

Ísis reconhece o defunto e pleiteia ao rei que en­tregue o corpo de seu adorado marido. Naturalmente, o rei e a rainha, comovidos, enviam o corpo de Osíris de volta para o Egito num navio fenício, acompanhado de um príncipe, filho dos reis. Durante a viagem, Ísis começa a requerer a Rá, que, em muitos casos, é o pai e não Gueb, e em outras lendas é apenas o bisavô, que ressuscite o marido. Rá, com certa má vontade, o faz parcialmente, o suficiente para que possa engravidar Ísis, mas Osíris se transformara num verdadeiro zumbi. Ele a engravida durante a viagem e ela dá, de imediato, a luz ao já feito e perfeito Horus. Contudo, não pode fi­car junto com Osíris, pois assim que se aproxima, ele vai sumindo, desmaterializando-se.

Ao chegarem ao Egito, Ísis esconde o corpo do marido, numa das muitas charnecas do baixo Nilo, no delta do grande rio, e coloca Anúbis, filho de Osíris e Neftis, criado por ela, para tomar conta do esquife. Nesse período, Osíris torna-se o grande imóvel, o apá­tico. Seth descobre toda a trama e o lugar onde está Osíris, e depois de corromper Anúbis, na única hora em que o chacal pode ser subornado, no alvorecer, en­contra o corpo de Osíris desprotegido. Retalha-o em quatorze pedaços - algumas lendas lalam de quarenta e dois, coincidentemente, o mesmo número de divisões geopolíticas do Egito - e, secretamente, espalha-os, escondendo-os.

Ísis, desesperada, recorre novamente a Rá que, mais uma vez, atende displicentemente, contrariado e até mesmo obrigado, em certas lendas, e dá certos po­deres a Ísis para que encontre Osíris em dezoito meses. A procura, com a ajuda de Neítis, é árdua e terrível, não estando livre de perigos e aventuras. Finalmente, Ísis recolhe os quatorze pedaços, menos o falo de Osí­ris, e os sepulta em Abydus (Abdu em Egípcio antigo).

Nesse ínterim, Hórus, Filho de Osíris, vai procu­rar Seth, seu tio, e começam a travar uma extraordiná­ria luta. Os combates são terríveis e começam a incomodar os outros deuses que se queixam a Djhowtey, deus da escrita e da sabedoria. Djhowtey seria co­nhecido pelos gregos como Thoth e também associado a Hermes Trismegistos, o Hermes três vezes grande. Os romanos o conheceriam como Mercúrio. Conversa, então, com os dois contendores e os convida para um combate singular, com a mediação de Gueb, o deus da Terra. A pugna recomeça e, depois de horas sem ne­nhum resultado, cessa. Nessa hora noturna, as lendas tornam-se confusas; algumas falam que Seth teria pra­ticado coito anal com Hórus; outros que quase teria praticado e assim por diante. Para resumir, Ísis entra mais uma vez na história para salvar o filho Hórus da desgraça. No caso das lendas em que é possuído por Seth, ela reverte a situação para que o esperma de Seth saia do corpo de Hórus e o sêmen de Hórus entre no corpo de Seth, secretamente, de tal forma a impreg­ná-lo da seiva de Hórus. Outras lendas não mencionam esse fato e apenas o esquecem ou o consideram como irrelevante.

A luta recomeça no outro dia e Seth consegue perfurar um olho de Hórus, que continua o combate até que castra o tio. Gueb, o juiz da contenda, então, decreta Hórus como o vencedor do combate; e, era al­gumas lendas, Seth é expulso, e na maioria dos casos, Seth é transformado por Rá, em um deus dos trovões, andando em sua barca que atravessa o céu.

Os egípcios também cultuavam um grande Deus único, criador do universo e de tudo o que aqui existia, e acreditavam que Ele era tão ocupado com outras coi­sas mais importantes do que os simples mortais e seus vícios, que relegou a administração do mundo a outros deuses especializados. Os esoteristas, judeus e cristãos chamariam a esses intermediários divinos de anjos, com todas as suas classificações de arcanjos, potestades, tronos e assim por diante. O grande Deus único era co­nhecido em vários lugares com nomes diferentes, entre eles, Onkh, Ptah e Hórus, o velho. Havia, portanto, um monoteísmo entre os egípcios, assim como entre todos os povos do mundo. Sempre, em todas as culturas, houve um grande Deus criador e um séquito de deuses especializados.
As lendas quase sempre refletem fatos históricos acontecidos, portanto, baseado nesta premissa, é que desenvolvemos o nosso romance. Claro está que há uma parte ficcional, como o renascimento de um alambaque chamado Tajupartak, que se torna o deus Rá. Isto foi feito para mostrar várias facetas ao leitor. Primeiro, como os espíritos evoluem, o demônio de on­tem se transforma no anjo ou deus de amanhã. Segundo, pelas lendas, Rá era um deus libidinoso, com características bastan­tes cruentas, tendo empreendido várias batalhas e combatido ferozmente o canibalismo. Achei por bem lhe dar um passado mais pesado, mais demoníaco, por assim dizer.

Já para Osíris, um personagem doce em toda a história egípcia, achei melhor lhe conferir um passado mais adequado. No entanto, a própria morte de Osíris demonstra que ele não era isento completamente de culpa, ou de carma, como muitos gostam de falar. Deste modo, Osíris também traz consigo um carma a ser resgatado. As próprias lendas egípcias falavam do amor entre Osíris e Ísis antes mesmo de nascerem, portanto a história de Servignia e Tamkess me parece bem apropriada para mostrar que o amor verdadeiro vence barreiras que nem a distância e a morte são capazes de impedir. O leitor, portan­to, não deve levar estes arroubos ficcionais do autor ao pé da letra. No entanto, as lendas confirmam que Osíris foi um rei de um país unificado, que tentou fazer uma ampla reforma agrária (tornando-se depois um deus agrário, além do deus dos mortos) e que acabou sendo assassinado pelo seu irmão Seth. Depois de Osíris, o Egito iria se desmembrar em três reinos, passando por uma longa guerra civil, que só seria terminada com a ascensão definitiva de Horus como rei das duas terras.

Horus é mais uma figura mitológica, pois na realidade a história fala que o primeiro faraó é uma figura também lendá­ria, chamado Menes. Mas, a palavra munes significa fundador, logo era um cognome. Estudos mais sérios mostram que o primeiro faraó foi Nârmer, provavelmente filho de um rei anterior conhecido na história como rei-escorpião, um outro cognome. A filiação de Nârmer ao rei-escorpião é apenas uma pressuposição dos historiadores, pois nada impede que fosse até mesmo um inimigo usurpador, pois a história não cita ne­nhuma relação entre eles. Apenas este rei-escorpião foi im­portante na reunificação egípcia, à medida que conseguiu mobilizar as forças inferiores do sul contra o norte - o rico del­ta - provavelmente aproveitando que o norte estava dividido em dois reinos, que possivelmente viviam às turras.

As lendas são imprecisas, assim como a própria história escrita dos egípcios, quanto à forma de reunificação empreen­dida por Nârmer. Apenas uma figura de Nârmer, que, aliás, aparece na capa da edição brasileira, mostra o referido faraó dominando um inimigo nortista através da força. Deve-se, portanto, levar em conta que houve lutas e que Nârmer conse­guiu dominar o norte, mas o fato de ele ter começado a construir Menefert, sua capital, no médio Egito, demonstra que ele não tinha total confiança nos nortistas e também devia estar prevenido contra seus próprios aliados sulistas. As lendas de que o faraó era o filho de Rá, portanto o próprio Horus, de­vem ter sido desenvolvidas como uma forma de prevenir gol­pes palacianos e até mesmo revoltas populares contra o poder constituído. Aliás, esta idéia foi coroada de êxito, pois, na his­tória egípcia, poucos foram os golpes que derrubaram faraós. Num período de três mil anos, conta-se menos de uma dúzia de revoluções e 'golpes de estado' que vieram a destronar estes poderosos filhos de Rá.

Tentemos nos fixar um pouco no processo histórico, pois, se as lendas nos ajudam a entender o povo, a pesquisa ar­queológica e a paleontologia nos dão também sérias indica­ções sobre este fascinante período de nossa história cultural.

O povo egípcio foi formado por duas correntes distintas de povos. O primeiro foi uma raça negra, de tez marrom, pro­veniente do norte da África, onde hoje se localiza o Marrocos, a Argélia e a Tunísia. Este povo denominado de camitas ou hamitas, são citados na Bíblia como os filhos de Cam, netos de Noé, irmão de Sem, que viria a dar origem ao povo semita. Naturalmente são lendas bíblicas, mas que apenas atestam que os hamitas eram conhecidos na antigüidade. Este povo era ba­sicamente nômade e, portanto, criadores de gado, especial­mente ovelhas e cabras. Ao chegarem no vale e no delta, também começaram a plantar, tornando-se sedentários e agri­cultores, aproveitando a extrema fertilidade do rio Nilo. Era um povo longilíneo, cerca de um metro e setenta centímetros, o que, para os padrões da época, podia ser considerado de boa estatura, com cabelo encaracolado, que quando crescia demais formava uma espécie de carapaça. De um modo geral, como todos os povos antigos, eram pouco aguerridos, não dados a lutas e guerras, característica que viria a ser desenvolvida pos­teriormente com a implantação da agricultura.

Ao chegarem ao delta do Nilo, por volta de 5.000 a.C., vindos do norte da África, provavelmente margeando o Medi­terrâneo, eles se instalaram e foram levando sua vida. Alguns devem ter ido para o sul, seguindo o estreito vale do Nilo, pois este é margeado por desertos em ambos os lados. Os hamitas, ao se interiorizarem, encontraram tribos de homens negros, bem mais negros do que eles próprios, provenientes da África Setentrional, do atual Sudão. Esses homens eram de estatura mediana, mais encorpados, cabelos encarapinhados de cor ne­gra, com uma língua diferente do hamita. Esses homens negros falavam um ou mais idiomas do grupo niger-cordofanian, en­quanto que os hamitas falavam uma língua que se assemelha muito com o semita, sendo ambos da mesma raiz lingüística, o que demonstra um passado remoto comum. Esses negros se­tentrionais foram sendo assimilados pelos hamitas, na maioria das vezes, através do convívio pacífico e de casamentos inter-raciais, a ponto de virem a formar uma raça híbrida. No entanto, a lingüística demonstra que houve alterações no idio­ma hamita inicialmente falado pelos sulistas e pelos nortistas, mostrando que os negros setentrionais acabaram sendo assi­milados pelos hamitas, mas deixando algumas impressões. Esses negros setentrionais parecem ter chegado ao vale por dois caminhos. O primeiro margeando o rio Nilo. E o segundo por um caminho mais ao interior, estabelecendo-se principal­mente na região de Fayum, onde se encontraram vestígios de aldeias primitivas pré-hamitas, em épocas que datam de 7.000 a.C. No entanto, era um grupo pequeno e que não ofereceu resistências significativas à penetração hamita.

Os hamitas, tanto do sul, como no norte no delta, não chegaram a estabelecer uma nação, constituídos principal­mente de pequenos ajuntamentos humanos que viviam em áreas mais elevadas do vale e do delta, pois o Nilo ao encher não chegava a atingir tais localidades. Provavelmente, cada al­deia, extremamente primitiva, vivia razoavelmente isolada uma das outras, e só se relacionando esporadicamente seja na troca de bens, fato raro e que não caracteriza o comércio pro­priamente dito, seja em situações de desespero, quando o Nilo enchia em demasia, arrasando as pequenas aldeotas.

A história destes tempos não é escrita, portanto muito do que se sabe são conjecturas baseadas em pesquisas arqueo­lógicas e exumação de cadáveres conservados por alguma pe­ripécia da natureza, demonstrando que aqueles povos tinham vida média curta, em torno dos trinta a trinta e cinco anos, eram subnutridos, sujeitos a várias doenças endêmicas e a uma vida dura e primitiva, provavelmente com uma taxa de morta­lidade elevada.

Por volta de 3.500 a.C., os historiadores descobriram dois focos de civilização, onde já se encontram objetos de cerâ­mica diferenciados, utensílios de cobre e bronze, casas qua­dradas em vez das indefectíveis casas redondas, características de certo primitivismo, e um agrupamento de homens mais al­tos, provavelmente de tez branca. Esses dois focos são Ahmar El-Gebel e Naqqada. Os estudos nos levam a crer que, devido a semelhanças nas cerâmicas e nas casas, grupos de sumérios te­riam se estabelecido nestas duas localidades, mesmo que estivessem separadas por centenas de quilômetros de distância entre eles, e da própria Suméria.

Após este período, começa a 'Era dos Deuses' propriamente dita, destacando-se dois personagens míticos, mas que podemos facilmente vê-los como homens extraordinários para a época, que iniciam uma série de medidas em vários se­tores e alteram profundamente a estrutura primitiva, neolítica e pacífica do vale e do delta. Ahmar fica perto da atual Cairo, enquanto que Naqqada está mais para o sul, demonstrando que houve duas ou mais levas de sumérios que se localizaram naquelas plagas.

Os historiadores concordam quanto à influência inicial suméria, seja através do comércio, seja através de uma migra­ção, mas também concordam que, depois deste influxo inicial, o Egito se desenvolveu de forma diferente da Suméria, articu­lando uma sociedade toda própria, em nada devendo a sua matriz cultural mesopotâmica. Devido à própria localização do Egito, enfurnado entre dois desertos, o mar e a Núbia, eles conseguiram se isolar do resto do mundo e só mais tarde sofre­riam invasões - os hicsos - e também começaram a se relacio­nar com os habitantes de Creta (khetiu) e de Cubai (Biblos), chamados posteriormente de fenícios. Mas, como eram pro­fundamente xenófobos, as idéias e influências culturais que vinham de fora do Egito não eram aproveitadas, sendo despre­zadas e, até mesmo, repudiadas. Em parte, isto manteve seu povo longe de guerras até que os faraós da XVIII dinastia ini­ciaram movimentos de conquistas aos países vizinhos. Se por um lado esta atitude isolacionista os manteve ao abrigo de guerras, também teve o lado negativo de não tê-los mantido a par das novidades e invenções que vinham acontecendo em outros lugares. Desta forma, não se encontram utensílios de ferro até períodos mais tardios da história egípcia, assim como os exércitos egípcios eram pobremente equipados e não resis­tiram aos hicsos que, com os carros de combate e cavalaria, var­reram os despreparados egípcios por volta de 1750 a.C.

As características desses deuses - neters - que andaram perambulando pelas terras egípcias são nitidamente capeli­nas. Senão vejamos. Ahá ou Rá Harakty (Harakty significa da terra de Arac, outro nome para Uruck, principal cidade da Su­méria) era um homem de elevada estatura física, provavel­mente perto de ou levemente superior aos dois metros, que não tinha pejo em reprimir aqueles que lhe eram contra, pois as lendas demonstram que não só exterminou uma onda de canibalismo que adveio depois de uma terrível enchente do Nilo, como também passou na espada todos os que ousaram ir contra suas ordens 'divinas'.

Seu pretenso pai, denominado de Ptah, também não era homem que gostava de ser contrariado, e se as lendas lhe são mais favoráveis, também mostram que ele empreendeu vá­rias obras de contenção do Nilo à custa dos habitantes do local. No meu livro o apresento como uma personalidade mais ame­na, no entanto não podemos esquecer que, naqueles tempos, a vida do ser humano tinha muito pouca valia e que as corvéias impostas aos pobres felás podiam chegar a níveis intoleráveis. Basta ver as obras ciclópicas que os faraós empreenderam para se concluir que milhares de felás devem ter encontrado a morte nos mais diversos acidentes durante a construção de pi­râmides, tumbas escavadas na rocha nua, obras de contenção como diques e canais, assim como sob as condições mais escor­chantes no plantio e colheita dos campos egípcios. Não se pode apenas imaginar que os felás fizeram obras monstruosas que levavam anos a fio para serem completadas apenas por amor à pátria ou ao faraó ou a algum deus, pois muito prova­velmente foram forçados, seja à força bruta, seja impositiva­mente como uma forma de pagamento de taxas ao faraó ou algum deus de um templo local. Sabe-se que a remuneração era praticamente um prato de comida e, quem sabe, a garantia de que, ao morrer, receberia um julgamento complacente por parte dos quarenta e dois juízes do mundo invisível.

O Egito daquele tempo era um lugar primitivo onde as várias aldeias pouco se relacionavam. Cada lugarejo tinha de­senvolvido seus próprios deuses locais, não havendo divinda­des comuns a todos os lugares. Estes deuses eram basicamente telúricos, ou seja, relacionados com a terra e os principais fatos atmosféricos. Não há indícios de um deus único ou de deuses em comum entre eles.

Pouco se sabe sobre as crenças dos hamitas, mas su­põe-se que, como todos os povos primitivos, eles tinham um culto aos ancestrais. Isto é demonstrado pelo tipo de sepultamento - pré-mumificação - e os regalos que eram oferecidos aos mortos. Este tipo de culto ao ancestral parece ter sido uni­versal, e só podemos inferir que ele apareceu devido à vidên­cia espiritual.

É muito comum que escritores e pensadores espiritualistas comentem que as raças primitivas tinham na vidência um fato comum. Alguns inclusive concluem que os corpos es­pirituais estavam inseridos no corpo físico de tal modo que possibilitasse tal fenômeno - o da vidência. No entanto, não acredito em tal procedimento, pois isto iria perturbar em de­masia as pessoas. Não seria aconselhável que todos tivessem poderes espirituais em plena atividade, pois a interferência es­piritual seria excessivamente ostensiva e perturbadora. No en­tanto, assim como sempre houve fenômenos espirituais em todas as sociedades e em todas as épocas, deviam existir pes­soas, mormente mulheres, devido à maior sensibilidade psí­quica, que eram capazes de detectar os espíritos dos mortos, especialmente quando eles queriam se manifestar de alguma forma. Esta manifestação deve ter gerado as oferendas e as preces aos mortos, que são bastante comuns em todas as socie­dades da época.

É relevante, no entanto, demonstrar que este culto aos mortos não levou à crença da reencarnação, sendo esta uma doutrina implantada muito posteriormente. Acredita-se que a maioria das pessoas primitivas, ainda na fase humana inferior, ao morrerem, entram em profundo estado de catalepsia, ou seja, um sono pesado, sem sonhos e pesadelos. Sua atividade no mundo astral seria reduzida a um mínimo, estando devida­mente 'armazenado', esperando o momento da reencarnação. Nestes mundos primitivos, o complexo de culpa devia ser uma rara exceção, não gerando, portanto, reencarnações pesadas e nem o vagar de espíritos em profundo sofrimento, que pode­ria perturbar os reencarnados. Temos que concluir que os es­píritos dos falecidos que vinham pedir comida e bebida, sendo prontamente atendidos, deviam se resumir a casos esporádi­cos, e não a uma regra geral.

Para aqueles que o sono profundo não os alcançou, por algum motivo que tenha perturbado a ordem natural de seus estados psíquicos primitivos, apresentavam-se aos seus famili­ares quase sempre em estado de desespero, pois conversavam com as pessoas e ninguém lhes respondia. Perguntavam coisas e ninguém se dignava responder-lhes, o que demonstra que a maioria não os via. Isto, aliás, é um fato natural, pois os espíri­tos, após sua morte, nem sempre reconhecem seu estado e o mundo espiritual se confunde com o físico, além de ele interpolar em sua apreensão da realidade com os seus pensamen­tos, muitos deles em desalinho pelo novo estado. Eles procuram os parentes, mas somente uma minoria é capaz de vê-los e atendê-los.

Alguns autores espirituais nos dizem que o espírito do homem primitivo ficava vagando pela aldeia, até encontrar um corpo disponível para renascer. Assim, o período entre existências é bastante curto. Tenho, no entanto, dúvidas quan­to a este fato. Acredito que a maioria esmagadora de espíritos dos homens primitivos, após seu falecimento físico, entrava numa espécie de sono cataléptico profundo, dormindo por vá­rias décadas, até que os espíritos mais evoluídos os conduzissem ao renascimento. Sabemos que o processo de renascimento não é automático, bastando ao espírito se aproximar de uma pes­soa grávida. E um processo ao qual o espírito que vai renascer deve se submeter, voluntariamente ou não, a um processo de regressão, perda de forma do corpo astral, recuperação de no­vas energias, e 'aprisionamento' - por falta de uma palavra melhor - ao ovo recém-fecundado. Não é, pois, um processo que possa ser feito por si só, obrigando que haja a intervenção de operadores especializados, mesmo que não seja um proces­so difícil ou terrivelmente complexo.

Retornando ao âmago do capítulo, a história lendária egípcia nos revela que as aldeias primitivas, num dado instan­te, passaram a se fundir num estado maior que coincidiu com o aparecimento do deus Rá. Ora, retirando o maravilhoso da lenda, trazendo para a realidade física e social, temos que infe­rir que o deus Rá, ou melhor, dizendo o homem que acabou por receber esta divinização por parte dos egípcios, unificou as aldeias e deu-lhes um corpo administrativo. As lendas mais antigas falam dos heseps, também chamados pelos gregos de nomos, sendo instituídos no tempo em que os dois deuses, Ptah e Rá, andaram no mundo.

Se utilizarmos os modelos convencionais de implanta­ção da civilização em seus vários lugares do mundo, temos que inferir que, num dado instante, através da atuação vigorosa, Rá, também chamado de Ahá, implantou um sistema de castas ou de classes sociais. Este processo, que dava a uma minoria o poder sobre os demais homens, quase sempre aparece não por um processo espontâneo e natural, mas através da força e da coerção. Em alguns lugares, essa força pode até mesmo ter sido sutil, mas quase sempre aparece por força de uma dada circunstância onde um problema se apresenta (dilúvio, incên­dio, invasão, fome etc.) e um homem ou grupo de homens to­mam a liderança e depois não a abandonam mais. Para não largar mais o poder adquirido através da necessidade ou da força, essa minoria, quase sempre, se arroga poderes divinos e celestiais. Ou é um deus que assim o determinou ou é uma he­rança de ordem divina que os levou ao poder. Deste modo, o povo simples e temeroso dos deuses acaba por aceitar a predo­minância daquela família e de seus associados na direção da coisa pública, sendo cada vez mais vilipendiado, até que a si­tuação se torne impossível e haja uma revolta.

No caso egípcio é patente este processo. Ahá e seus asseclas dominam as várias aldeias do sul sem grandes resistências, pois as localidades haviam sido duramente castigadas por uma terrível enchente. Deste modo, podem estabelecer uma cadeia de poder que desemboca na figura, cada dia mais sagrada, de Ahá. Ele, pelo seu tamanho descomunal, sua força física e es­pecialmente sua liderança sobre um grupo de homens jovens e vigorosos, estabelece uma divisão que permite que seus se­guidores também se locupletem do trabalho dos primitivos egípcios. Ora, para ter tal idéia e instituir tal poder é preciso mais do que força bruta, é preciso astúcia, uma das caracterís­ticas de um capelino, acostumado intuitivamente a uma socie­dade estratificada, sofisticada e cheia de sedições, golpes, tramas e 'malandragens', como é uma sociedade da fase hu­mana média em plena ebulição do despertamento tecnológico (similar à civilização terrestre do século XX).

Já no norte do Egito, o delta, observa-se através das lendas que a situação já foi mais complicada, obrigando Ahá a ser mais duro, severo e violento. Pode-se observar que sua ambi­ção não iria ser restringida por nenhum obstáculo, seja de or­dem pessoal, seja de ordem local. Ele desejava o poder absoluto e acabou por consegui-lo usando de força e aliando-se a um número cada vez maior de seres iguais a ele. Para tal, ele divide seu reino em heseps, de forma a premiar seus se­guidores. Muitos desses se transformam em deuses, a maneira mais fácil de atemorizar os primitivos e obter o poder sobre eles. Se analisarmos que as classes dominadas são sempre mui­to mais numerosas do que a elite dominante, temos que dedu­zir que a maioria se deixava dominar por temor às forças invisíveis e também pela força das armas.

Uma das perguntas que devemos nos fazer é por que razão os homens desejam o poder? Analisando os tempos difíceis daquela época conclui-se que eles desejavam, na realidade, uma vida menos sacrificada e que os trabalhos mais pesados fossem feitos pelos homens mais simples. Aliás, esta regra vale também para os dias de hoje. Se eu posso ter alguém que faz o trabalho duro de plantar, de colher, de cozinhar etc., so­bra-me mais tempo para as diversões, para as atividades gosto­sas da vida (dormir mais, ter sexo com menos cansaço, liberdade de ir e vir, recreações, esportes e o dulce farniente). Portanto, se eu puder escravizar, ou 'servilizar' as pessoas mais simples, mais dinheiro, 'felicidade' física e vida boa eu terei. Esta regra simples é pública e notória na sociedade primitiva, e Ahá assim como os sumérios (Nimrud e seu grupo) foram ca­pazes de fazê-la valer com grande maestria.

Osíris, no entanto, um descendente de Ahá, portanto também divinizado ao nascer, decide trazer mais igualdade aos seus súditos. Em parte, sua tentativa de fazer uma reforma agrária é também uma tentativa de aperfeiçoar o Estado, pois isto traria maior riqueza a todos, inclusive para ele. E também uma forma de diluir o poder dos nobres hesepianos, descen­dentes dos primeiros homens que se aliaram a Ahá, e fortale­cer sua própria posição. Se ele o faz por amor ao povo por ser um espírito mais evoluído, ou se o faz por ganância, poder e astúcia, nunca saberemos. No romance A Era dos Deuses, o vemos como um enviado dos espíritos superiores que desejam não só uma situação mais igualitária, mas também que o progresso do Egito permita uma menor taxa de mortalidade e, conse­qüentemente, um aumento da população. É preciso fazer re­nascer um número enorme de espíritos tanto de origem terrestre como capelino. Para tanto, é preciso mudar hábitos de higiene, aumentar a produção de alimentos, estabelecer uma sociedade mais justa, conter o avassalador rio Nilo, canalizando-o e represando-o.

Osíris demonstra através das lendas que sofreu forte oposição por parte dos senhores feudais, os nobres hesepianos, ao passo que era amado pelos felás. Ele consegue em seu governo implantar uma era de ouro, como descrevem as lendas quando dizem que a população cresceu e tornou-se mais prós­pera. Ora, isto é indício de que houve melhorias na agricultura, mola mestra da sociedade de então, assim como aperfeiçoamentos em vários outros aspectos, tais como habitação, higie­ne, medicina, e domínio sobre o rio Nilo.

Osíris foi capaz de, numa dada época, abrir as portas do Egito ao comércio exterior, pois as lendas falam de Ísis, sua adorada esposa, indo até Biblos, a antiga Gubal, e trazendo madeiras finas - cedro - do atual Líbano. A escrita, lendariamente inventada pelo deus Thoth, também conhecido por Hermes e Djhowtey, traz um avanço tecnológico importante. A primeira escrita conhecida do Egito era similar à escrita suméria, no entanto a que iria frutificar seria bem diferente, mostrando que a influência suméria se restringiu ao começo, mas que o Egito foi capaz de desenvolver uma civilização à parte, sem a influência mesopotâmica.

As lendas, por mais que se apresentem de um modo fascinante, cheias de simbolismos, na maioria das vezes, retratam uma realidade nem sempre tão bela e encantadora, mas que revela um determinado processo social e histórico. Osíris, rei progressista, implanta uma cidade estruturada e planejada. Deste modo, ao trazer a capital para o delta, ele reconhece a importância econômica do norte, assim como deseja estar mais perto dos seus maiores opositores. Djedu, mais tarde co­nhecida como Busíris pelos gregos, tem como objetivo dina­mizar o norte, e, principalmente, através de um contato mais próximo do rei com seus súditos mais eminentes, controlá-los e submetê-los a uma estrutura mais formal, mais rígida, e, pro­vavelmente, retirando deles - os nobres hesepianos - o poder quase absoluto sobre seus domínios.

A história tem mais fatos do que simplesmente são des­critos pelos anais e lendas. Atrás dos fatos existem homens, com seus complexos, suas fobias, seus medos e, principalmen­te, sua ganância e arrogância. Assim, por detrás dos homens, existem influências diversas, entre elas, espirituais. Foi por esta razão, para mostrar que os espíritos superiores também recebem oposição dos inferiores, que eu trouxe à baila um personagem revoltante de estranho nome chamado Garust-hê-Etak, que irá se aproveitar do complexo de inferioridade de Seth, irmão de Osíris, para levá-lo ao crime e à destruição. E natural que tal personagem seja ficcional, mas a depuração das lendas demonstra que Seth, sendo ou não irmão de Osíris, foi muito mal influenciado por espíritos tenebrosos. Isto é na­tural, pois quando o ser humano começa a destilar o veneno da discórdia, os espíritos inferiores se aproximam e aprovei­tam para instigá-lo ainda mais. Portanto, se Garusthê-Etak não existiu de fato, algum outro espírito trevoso de nome desconhecido agiu sobre Seth de um modo muito similar ao descrito no romance.

As lendas egípcias são taxativas ao demonstrarem que, com o assassinato de Osíris, houve uma guerra civil - a luta en­tre Horus e Seth - que culminou com a separação das duas ter­ras - o baixo e alto Egito. Depurando as lendas, os historiadores situam o período osiriano por volta de 4.300 a.C., no entanto esta data é mais baseada na intuição do que em estudos arqueológicos, pois não há sequer evidências físicas de que Osí­ris de fato tenha existido e que não passou de uma mera figura lendária e, portanto, ficcional.

Minha opinião pessoal é que Osíris de fato existiu. Creio nesta possibilidade devido à solidez das lendas, provavelmen­te a única que persistiu tanto no baixo como alto Egito. Mas, como a civilização egípcia só deslanchou devido à influência dos sumérios - fato histórico comprovado pela ciência oficial - e a civilização suméria só se iniciou por volta de 3.600 a.C., te­mos que inferir que o período do grande rei Osíris só pode ter sido entre 3.600 e 3.000 a.C. Considerando que ele era filho de Gueb, neto de Chu, bisneto de Ahá, este período deve ter sido por volta de 3.500/3.400 a.C., para dar tempo de Ahá nas­cer e, seus descendentes crescerem e terem filhos.

Tudo parece indicar que houve no norte, o delta do Nilo, também chamado de Baixo Egito, um desmembramento em dois reinos antagônicos que guerrearam entre si por várias vezes. Os historiadores, baseando-se em lendas e parcos dados arqueológicos, acreditam que esses dois reinos tinham como capitais as cidades de Perouadjet (Buto em grego) e Zau (Saís). Baseando-me nestes dados por falta de melhores informações, mas como as duas cidades eram próximas uma da outra, é muito provável que houvesse um só reino, e que tenham se al­ternado no poder. De qualquer forma, o poderoso norte aca­bou sucumbindo ao menos poderoso sul, através de uma série de batalhas (presumivelmente) que culminaram com a subida ao trono do famoso e mítico rei Menés, hoje reconhecido como tendo sido Nârmer, sucessor do rei-escorpião.

Naturalmente, tratando-se de uma obra ficcional que tem por objetivo demonstrar a influência capelina na Terra, assim como os processos complexos de reencarnação e da tu­tela dos espíritos superiores sobre os destinos de nosso orbe, o primeiro faraó trata da reunificação do Egito. Aborda também outros aspectos que acreditamos serem importantes. Um de­les é a influência negativa, permanente, dos espíritos degredados que não estavam do lado da ordem e do progresso geral da Terra, para os quais criei o neologismo alambaque, que sig­nifica grande dragão, para constantemente aterrorizar os re­nascidos no seu processo de civilização.

Neste ponto é importante notar que seres cavilosos de mente deturpada dominaram o cenário espiritual a partir de 3.600 a.C., e gradativamente sua atuação foi desaparecendo. De onde apareceram estes seres espirituais que se intitulavam de deuses, de expressões monstruosas, que exigiam sacrifícios humanos rituais, muitas vezes em massa, como foi o caso da Meso-américa? Antes deste período não se têm notícias de reli­giões constituídas e nem de sacrifícios humanos. O máximo que se tinha eram sacrifícios de animais e, mesmo assim, isso não acontecia em todos os lugares. Só podemos concluir que os responsáveis por estas ignomínias foram os espíritos de ori­gem capelina, pois se coaduna perfeitamente com seres de alma perversa, de deturpação psíquica, de necessidade de ali­mentação fluídica.

Sabemos que alguns espíritos menos evoluídos se regozijam com a energia semimaterial conhecida como etérica, que alguns intitulam de fluido vital. Esta energia faz parte do corpo material e pode ser conseguida em todas as coisas físi­cas, desde vegetais, animais e os homens. No entanto, nos grandes animais, como os bois e os homens, a energia etérica é conseguida em maior quantidade. Esta energia quando assi­milada por espíritos dão uma sensação 'física' de existência, repercutindo no corpo mental e astral como se fosse um pode­roso alucinógeno. Deste modo, esses espíritos farão de tudo para conseguir este material, seja sugando de pessoas encar­nadas, como verdadeiros vampiros (aliás, é provável que ve­nha deste fato a lenda dos vampiros como Drácula e seus sequazes) ou provocando acidentes, guerras e desordens de onde conseguem um manancial maior do que simplesmente vampirizando os humanos e os animais.

A pergunta que poderíamos fazer é por que as forças superiores permitem que tais fatos acontecem. Primeiro porque os espíritos superiores sabem que se trata apenas de uma fase abominável que irá passar. Segundo, porque, pelas leis divi­nas, todo o mal redunda num bem. Os homens através da guerra desenvolvem a ciência e o conhecimento em geral. Os homens, sendo vítimas de vampiros, aprendem a manter um alto padrão moral e, conseqüentemente, vibratório que impe­de os 'vampiros' espirituais de lhes sugarem as energias mais íntimas, tanto astrais como etéricas. Terceiro, porque há tam­bém uma impossibilidade de impedir que os espíritos inferiores atuem sobre os homens. Simplesmente porque são os próprios homens que procuram lugares viciosos, onde os 'vampiros' atuam com grande facilidade, enfraquecendo as defesas naturais dos homens através da ingestão do álcool e de drogas potentes que liberam grandes quantidades de ecto­plasma, fluidos vitais e energias sutis.

Pode-se observar que, por volta de 3.600 a.C., se implantam as religiões oficiais, onde se mesclam o estado e a re­ligião, não só para que o culto às divindades seja organizado, mas também para que, através do temor dos deuses, a maio­ria trabalhadora, semi-escravizada, servil ou de fato escrava, possa ser devidamente controlada e se torne dócil aos co­mandos da elite dominante. No entanto, essas religiões cons­tituídas, devidamente mancomunadas com o estado, muitas vezes sendo indivisíveis com o próprio governante, são uma poderosa arma de dominação, e também um meio de impor as vontades desses seres cavilosos chamados de dragões sobre a globalidade da população.

Apópis, o dragão-serpente da mitologia egípcia, foi utilizado neste romance como a personificação do mal, mas sua atuação só é possível porque ele é chamado por Antef, Seth renascido. O demônio Apópis aparece nas lendas como sendo o adversário de Nârmer, aquele que o quer impedir de atingir seu objetivo. Deste modo, nada mais lógico do que ele ser o aliado de Antef. Será que Antef de fato existiu? Sim, houve um líder dos nortistas que se interpôs contra Nârmer, mas seu nome não é registrado pela história oficial. O fato é que Antef, ou outro nome que o líder dos nortistas tenha tido, foi derrotado pelas forças sulistas.

Um dos outros pontos de relevante importância é que, com a vitória da Nârmer, não só o Egito foi reunificado, como dois pontos importantes iriam aparecer. Primeiro, o rei passa a ser uma figura divina, uma figura que não pode ser contestada, muito menos derrubada do poder. Segundo, é que, com a fundação da cidade de Menefert (Memphis em grego), os detentores do poder, tendo à frente Nârmer, insti­tuem uma religião oficial.

Este movimento cultural teve como objetivo fundir numa única cultura as diversas modalidades culturais que formavam os inúmeros vilarejos e cidades do baixo e alto Egito. O faraó Nârmer deve ter visto que se não tivesse uma única língua, uma religião padrão, uma única forma de agir, os egípcios poderiam se tornar ingovernáveis. Uma única cultura já tinha começado a ser encetada por Osíris, e sua influência foi notória. Ele intro­duziu a noção de pesar o coração dos homens por um grupo de juízes espirituais que iriam condenar ou não os espíritos à eter­na bem-aventurança ou ao inferno do Duat.

Osíris influenciou sua época com a noção de que mais importante do que a vida era o que vinha depois dela, ou seja, a vida eterna. Com isto, tornou-se, além do deus da agricultu­ra, o deus dos mortos. Nârmer influenciaria a religião egípcia com sua doutrina de Menefert onde Ptah é o deus supremo. Mas unificar uma cultura é uma obra difícil, pois ninguém abandona seus deuses em troca de outros com temor dos deu­ses relegados, pois as divindades são vingativas, terríveis e mu­ito humanas. De qualquer forma, isto possibilitou o aparecimento de várias doutrinas que acabaram por se fundir, mesmo que a lógica ficasse prejudicada. Os deuses de Khmounou (Hermópolis em grego) ajudam a formar um quadro mais amplo, assim como os deuses de Ouaset (Tebas em grego), onde irá se destacar Amon - o oculto ou invisível. O grande deus de On (Heliopólis), Rá ou Rê, irá se fundir com o deus tebano, formando o famoso Amon-Rá. No entanto, cada cidade principal iria manter seus deuses e sua mitologia formando um enorme mosaico de difícil entendimento para o leigo, pois mistura deuses telúricos antigos, com figuras humanas divini­zadas e recompostas como figuras esdrúxulas, semi-humanas e semi-animais. Tentar entender a mitologia egípcia sob a ótica da lógica ocidental é tarefa hercúlea, mas muito com­preensível à luz da história e do entendimento, que o Egito antes de se tornar uma nação com um único povo, era uma colcha de retalhos culturais formada por um processo histó­rico multimilenar.

É preciso ressaltar que há escolas esotéricas modernas que dão explicações bastante lógicas aos deuses egípcios. Alguns templos daquela época também instruíam seus inicia­dos no simbolismo daqueles deuses. Algumas dessas explica­ções se perderam nas noites do tempo, mas, pelo conhecimento que se tem dos deuses e de suas explicações, temos uma forma de detectar o significado mais profundo que era explicitado aos iniciados dos templos egípcios. Daremos uma breve abordagem desses fatos.

Os povos antigos tinham uma forma de explicar a personalidade humana através da comparação com animais e fatos sociais: amor, ódio, casamento, morte, nascimento, crescimen­to etc. Além disto, eles viam seus deuses como a extensão de si próprios, ou seja, os neters eram de fato humanos, com toda a sua gama de qualidades e defeitos. A comparação entre as coi­sas naturais, como raios, terremotos, inundações, rios, deser­tos etc. levavam os homens a definirem a personalidade humana com características animais e telúricas. Aliás, fato esse que até hoje encontra respaldo no dia-a-dia. Por exemplo, fu­lano é uma águia, sicrano é um tubarão, fulana é um furacão, e assim por diante. Nada mais justo do que unir várias caracte­rísticas de um certo animal, ou de vários, na figura de um ho­mem, ou vice-versa, ou seja, de vários animais, com cabeça humanóide. Deste modo, Seth é visto como um homem cuja cabeça é um asno, símbolo de um animal teimoso, que mordia e escoiceava sem aviso prévio. Horus é um homem com cabeça de águia, símbolo de visão, de inteligência e de espiritualida­de, já que este pássaro voa alto, representando o ka - o corpo espiritual. A própria esfinge, com seu corpo de leão, cabeça humana e asas de águia irá encontrar nesta forma simbólica a sua representação. Neste caso, o faraó era forte e destemido como um leão, mas capaz de vôos de inteligência, intuições e espiritualidade de uma águia.

Outros deuses, especialmente os solares, irão encon­trar seu termo de comparação na natureza. Rá torna-se um deus solar, ou seja, o próprio espírito do sol, cuja barca - o sol propriamente dito - inicia sua jornada e desaparece no hori­zonte, tornando-se oculto-Amon (oculto) Rá. O disco solar é chamado de Aton, e tornar-se-á a figura do deus único com Akhenaton.

Como se pode ver, os deuses egípcios podem ter uma figura estranha, mas encontram lógica no simbolismo de suas figuras. Aliás, teremos a oportunidade de encontrar tal forma de pensar entre os antigos, não só no Egito, como na Mesopotâ­mia, entre os celtas, os mongóis, os indianos, os africanos oci­dentais e seus orixás, e muitos outros. Praticamente a mesma forma de pensar caracteriza o homem antigo, pois somente com o aparecimento da moderna psicologia é que a personalidade humana irá encontrar termos técnicos mais adequados, ou menos ligados à natureza, do que os deuses antigos.


2.2 - O segredo das pirâmides egípcias

Um dos monumentos que mais têm atraído a atenção dos espiritualistas de um modo geral, além de cientistas em geral, são as pirâmides egípcias. Durante muito tempo ficou a pressuposição de que essas pirâmides eram túmulos dos fa­raós, no entanto as evidências contrariam grandemente esta assertiva. Se fossem túmulos por que não se encontraram es­quifes e corpos dos faraós nos seus interiores? A maior pirâmi­de conhecida como a de Khufu (Quéops em grego) tem efetivamente um sarcófago, porém vazio, pois o referido faraó foi enterrado no vale dos reis. Outras pirâmides não têm câ­maras mortuárias, sendo monumentos maciços.

O alinhamento das pirâmides de Khufu, Khafre e Menkaré (Quéops, Quefrem e Miquerinos em grego) levou os pes­quisadores a verem nisto o alinhamento das estrelas de Orion. Outros estudiosos viram números perfeitos que têm relação com o diâmetro da Terra, assim como pontos geodésicos, e as­sim por diante. Eu me pergunto até onde os egípcios que cons­truíram as pirâmides tiveram esta preocupação? Será que, ao pesquisarem as pirâmides, os estudiosos não pegaram estes números e 'caçaram' números na Terra ou em qualquer outro tipo que pudessem 'casar' com os números encontrados? De qualquer forma, as três pirâmides da planície de Gize não são as únicas, pois existem algumas dezenas delas espalhadas pela planície em questão e nas redondezas, além de muitas tam­bém no atual Sudão. Nenhuma, entretanto, foi o túmulo de nenhum rei, mas apenas um monumento. Mas para que um monumento tão pomposo?

Para entender o espírito egípcio que levou à construção desses monumentos, é preciso retornar às lendas da época in­titulada de 'A Era dos Deuses'. Uma das mais interessantes nos conta que os homens foram criados na planície primordial e foram trazidos por Rá em sua imensa barca. Para que a barca de Rá pudesse atravessar o grande oceano que cerca a Terra e o grande espaço vazio (nem tão vazio assim, pois eles acredita­vam que era cheio de água), os egípcios imaginavam que esta imensa barca, que tinha o formato piramidal, era carregada por um grande pássaro vermelho que a carregava nas garras de suas patas e, após pousar a mesma com suavidade, partia voando com grande velocidade, desaparecendo, retornando algum tempo depois, trazendo outra barca cheia de seres hu­manos criados por Rá (ou pelos oito primordiais de acordo com as lendas de Hermópolis) que eram novamente deposita­dos na Terra. Em suas idas e vindas, o grande pássaro (nada mais lógico do que esta concepção, pois quem voa é pássaro) levava os homens de volta à planície primordial, onde desfrutariam de imorredoura felicidade, desde que houvessem se comportado de forma correta.

Esta grande ave era chamada de ave Benu e ela representava, em algumas doutrinas egípcias, o próprio Deus incriado, que trazia o hiquê - a essência vital - que vinha de uma distante e mágica terra. Este lugar mítico era chamado de 'ilha de fogo' - o lugar de luz duradoura além dos limites do mundo, onde os deuses nasciam ou reviviam e de onde foram trazidos ao mundo.

Os gregos, através do historiador Heródoto confun­diram a essência da religião egípcia e reduziram este conceito a um conto de fadas, denominando esta ave rubra de fênix - vermelho em grego. Aliás, nós, os ocidentais, acabamos fican­do com a concepção grega de uma ave que renasce de suas próprias cinzas, quando o simbolismo egípcio representava dois aspectos: a vinda dos deuses (ou os homens) na barca de Rá, e da essência vital, da energia que move o mundo e tudo o que nele existe.

De onde vem esta lenda?

No meu romance A Era dos Deu­ses eu imaginei a seguinte situação:

Os espíritos capelinos, para serem trazidos de Capela até a Terra, numa distância de quarenta e dois anos-luz, tinham que ser trazidos em grandes naves astrais. Algumas des­sas naves astrais tinham o formato piramidal, assim como devia haver outras com os mais variados formatos. No entanto, o que sabemos do mundo astral - o que não é muito - é que a matéria astral está sujeita à gravidade. Aliás, os cientistas, a cada dia se convencem mais de que a gravidade material é provocada por inúmeras partículas, ainda não muito conheci­das, que têm características bastante etéreas, tais como os neutrinos, que não têm massa detectável na matéria física, mas que atuam de modo formidável.

Se a gravidade atua sobre a matéria astral, isto impede que os espíritos do mundo astral saoam por aí voando e se afastando do planeta onde estão inseridos. As histórias, por­tanto, de que pessoas, através do desdobramento astral, fo­ram até planetas distantes, devem ser colocadas em dúvida, a não ser que tenham se desdobrado também do plano astral e o tenham feito em viagens mentais, matéria que faz parte do corpo espiritual, mas cuja influência da matéria mais densa é bem menor.

Ora, baseado nesta premissa - se é que está certa - os capelinos devem ter sido trazidos em naves, mas estas naves de­vem ter trafegado pelo plano vibracional mental, exigindo, portanto, que esta nave e todos os seus ocupantes sofressem uma alteração vibratória temporária e rápida do plano astral para o mental. Para que isto fosse possível, imaginei que a grande nave em forma piramidal, repleta de espíritos capelinos deportados e obreiros de boa vontade, tenha sido acopla­da por uma naveta menor, rubra por estar vibrando em faixas vibratórias muito mais rápidas, e que esta naveta tenha feito o procedimento descrito, ou seja, mudança vibracional do con­junto - naveta e nave - e transporte de Capela para a Terra em poucos segundos, quiçá, quase instantânea.

É mais do que óbvio que tal pressuposição está sujeita a chuvas e trovoadas. Não há como provar tal teoria e ela pode parecer inverossímil, mas, de certa forma, tem lógica perante as lendas egípcias. Os egípcios acreditavam que os homens e os deuses tinham sido trazidos dentro da barca de Rá - a pirâ­mide - também chamado de benben e que a ave benu - uma forma de garça - os trazia através do oceano primordial - o grande espaço sideral. Mas o mais importante é que eles acreditavam que seria através deste mesmo processo que eles voltariam à mítica 'ilha de fogo'.

Deste modo, eu estou plenamente convencido de que o monumento piramidal era, na realidade, para os egípcios, a fi­gura da nave que os levaria de volta a Capela - a ilha de fogo. Porém, eles eram bastante inteligentes para saberem que não iriam fisicamente para lá, pois o que tinha vindo não era o cor­po físico, mas sim, o seu espírito. Era esta alma que retornaria à bem-aventurança na ilha de fogo, mas antes teria de passar pelo julgamento dos juízes. Somente os bons poderiam voltar à ilha de fogo, o Duat, enquanto os maus ficariam no mundo subterrâneo.

As lendas egípcias são complexas e nem sempre podem ser descritas como as vemos. Primeiro, porque o Egito era uma colcha de retalhos de aldeias e cidades que, no início, não mantinham relações entre si. Portanto, havia uma variedade de lendas e deuses que levavam qualquer um à confusão. Se­gundo, porque as lendas geradas num certa época iam mudan­do no decorrer dos séculos. Terceiro, porque os sacerdotes, os chamados repositórios da verdade eterna, não as divulgavam à plebe, mas as guardavam a sete chaves em seus templos. Deste modo, qualquer afirmação sobre as lendas egípcias estará sempre sob suspeita e, provavelmente, fadada ao erro.

De qualquer modo, a forma piramidal foi apresentada de vários modos, seja no topo de uma coluna, como um obelis­co, seja dentro do templo do Hetbenben, seja em grande for­mato na planície de Gizé. Os egípcios também tinham um mistério que era chamado de benbennet, ou seja, o topo verme­lho da pirâmide, que representava a ave benu. Tanto é que a grande pirâmide de Khufu (Quéops) originalmente não apre­sentava o aspecto desolador de hoje, sendo um monumento liso, feito de mármore preto, com o topo construído em már­more vermelho. Os árabes tiraram quase todo o mármore e granito para construir a cidade do Cairo.

A cidade de On (Heliopólis) era considerada uma cida­de sagrada, pois era lá que a ave benu descia trazendo o Hiquê. O templo do Hetbenben, chamado pelos gregos do templo da ave fênix, era um dos mais concorridos, pois os seus adivinhos eram famosos em toda a antigüidade.

Com o decorrer dos tempos, a ave benu transformou-se em energia divina, vital, que alimentava o mundo. Como se pode ver, as lendas tendem a mudar com o decorrer dos tem­pos, o que torna a análise de uma dada época ainda mais difícil.

O leitor mais crítico pode colocar toda esta teoria em dúvida, pois eu também a coloco. Pode parecer inverossímil que os egípcios fizessem pirâmides como monumentos ao seu retorno à ilha de fogo, ao Duat (paraíso). No entanto, as pirâ­mides, assim como os obeliscos (coluna Djed - estável - com uma pirâmide no topo) eram os monumentos mais difundidos do Egito. A preocupação do egípcio com a morte chegava às raias do mórbido e ele dava a maior importância ao fato du­rante sua vida.

As pirâmides não eram túmulos, mas eram, na minha opinião, um simbolismo do retorno do degredado à sua pá­tria. Os egípcios eram um povo nostálgico por natureza. Eles viviam se relembrando de duas eras de ouro, uma de Rá e outra de Osíris, tentando reconstruir na Terra uma era dourada que só existia em suas memórias, em suas lendas e em sua mitologia.

Imaginemos por um instante, que sejamos degredados da Terra para um outro planeta primitivo - Deus nos livre de tal destino. Ao renascermos naquele planeta, nossa memória praticamente embotada não irá se lembrar do avanço tecnoló­gico da Terra, mas as reminiscências que podem vir em so­nhos, em transes ou fracionadas, irão nos levar à angústia, ao desespero, à vontade de retornar ao planeta de origem. Deste modo, iremos tentar reconstruir monumentos que nos lem­bram a nossa distante Terra. Para um francês, quem sabe se ele não tentará construir um arremedo de torre Eiffel, um in­glês, o Big Ben, e assim por diante. Nunca conseguiremos, no entanto, reproduzir fielmente, e estes objetos mal reproduzi­dos, poderão se tornar motivo de adoração. Se formos levados em naves astrais, e sabedores, ou pelo menos desconfiados, de que poderemos voltar à terra natal no mesmo equipamento interplanetário, tentaremos construí-lo ou reproduzi-lo como símbolo de nossa vitória física. Por outro lado, o egípcio man­tinha o corpo físico indelével através da mumificação, esperando, desta forma que, ao retornar ao Duat, este corpo pudesse ser reutilizado.

Que o leitor não busque lógica aristotélica nas lendas dos povos antigos, pois a memória de existências passadas aca­ba se mesclando com a nova realidade e irá se confundir, ge­rando novas mitologias. Os povos antigos, especialmente os menos letrados, aliás, como os homens atuais, nunca primaram pela lógica, e não devemos nos preocupar com a integridade de suas lendas. Basta conhecê-las e vê-las como o reflexo de um povo na sua tentativa de entender o universo e a si próprio.

Capítulo 3

Os Patriarcas de Yahveh e Moisés, o Enviado de Yahveh
3.1 - Os Patriarcas

A formação do povo hebreu é da maior importância para o entendimento da cultura ocidental, já que as grandes reli­giões do Ocidente, islamismo, judaísmo e cristianismo, têm em comum com o livro sagrado os textos do Antigo Testamento.

A Bíblia nos conta, desde o Gênese, como Deus atuou no mundo, sua criação e sua forma de agir em relação aos seres humanos. No entanto, um estudo comparativo das antigas lendas sumérias demonstram que os hebreus devem ter sido fortemente influenciados por estas lendas e fizeram várias in­terpretações e substituições, assimilando-as em grande parte.

Os sumérios acreditavam que os homens haviam sido feitos pelos anunnakis - os filhos de Anu, o deus do céu - e que, em dado momento, eles se arrependeram de sua cria­ção, resolvendo destruí-la, mandando uma enorme enxurra­da - um dilúvio. A Bíblia nos conta que Deus teria feito os homens e se arrependeu de sua criação e resolveu destruí-la com um dilúvio. Pode-se notar que é a mesma história, só que em vez dos deuses sumérios, há a substituição por uma única divindade, Yahveh.

Os anunnakis, no entanto, não estão todos de acordo e Enki, o deus das águas subterrâneas (vide Shiva, o senhor não-terrível) resolve avisar Ziusudra, pai de Cus e avô de Nimrud, na cidade de Shuruppak, na Suméria, e ele constrói uma arca e salva uma parte dos homens e vários animais, gerando a atual humanidade. Na Babilônia, Ziusudra seria chamado de Utnapishtin, mais tarde, em grego, tornar-se-ia Xisuthros e, finalmente, na Bíblia, Noé. Não é, portanto, nenhuma novida­de hebréia, mas sim a adaptação de lendas sumérias.

Há várias possibilidades de os hebreus terem assimilado estas histórias sumérias. A primeira seria através de Abrahão, pois é dito na Bíblia que ele saiu da cidade de Ur, na Caldeia, a sucessora da Suméria. A segunda através de Moisés, que, na minha opinião, visitou Ur onde aprendeu várias artes mágicas e conheceu as lendas babilônicas e sumérias. A terceira, e mais provável, foi quando os judeus foram levados cativos para a Babilônia por Nabucodonosor e lá se aculturaram tanto com os babilônios, como depois também com os persas, seus liber­tadores.

Esta primeira impressão é estranha, pois não se pode imaginar que um Deus de perfeição, infinito e onisciente, fos­se se arrepender de um fato que Ele já sabia de antemão (já que Ele é onisciente) e que, muito humanamente, resolvesse destruir o que havia criado, mas arrependendo-se de sua pró­pria decisão, resolve dar nova oportunidade à humanidade, avisando Noé para construir uma arca e nela colocar seus filhos e noras, assim como um casal de todos os animais existentes na Terra. É um belo conto de fadas que, infelizmente, ainda en­contra seguidores fiéis que nele acreditam, mas o estudo da his­tória nos mostra que sua origem é basicamente suméria.

De onde os sumérios teriam tirado isto? Na minha opinião é uma reminiscência do degredo capelino. Não se pode esquecer que um degredo desta natureza deve ter gerado uma imensa angústia nos exilados, assim como a noção de que, além de serem a escória de um mundo, eram deserdados da providência divina. Devem ter pensado que Deus ou era um ser distante que não se importava com eles ou era um ser rai­voso, temperamental e instável emocionalmente, capaz de destruir e construir com a mesma facilidade. Aliás, a visão do mundo nos leva a esta conclusão caso não se tenha um conhe­cimento superior, pois a Terra é marcada por tufões, vulcões, terremotos, enchentes e vários outros fenômenos telúricos de proporções assustadores que matam e destroem com rapidez e de forma indiscriminada.

Na Gênese, passado o período de criação e do dilúvio, há uma extensa relação de homens de grande longevidade. Mais uma adaptação suméria, pois na história mítica deste povo, os primeiros reis viviam trinta e seis mil anos. Trata-se de anos de doze períodos lunares, cada um com vinte e oito dias. Não eram, portanto anos especiais curtos ou simples­mente dias, ou seja, lá que interpretação se podia dar. Na ver­dade, para um povo que originalmente não sabia contar além dos seus dedos, qualquer número grande era um mistério. Logo, não se devem levar tais fábulas em conta. Pelo contrá­rio, a paleontologia prova que a vida média dos homens daquela época era extremamente curta, se situando por volta dos trinta e cinco anos. Sim, mas os reis não eram homens comuns, porém divindades colocadas na Terra pelos anunnakis. Conve­niente, não?!

Aparece finalmente a figura lendária de Abrahão. Devemos gastar alguns instantes para entender o próprio nome deste suposto ser humano. Seu nome inicial era Avram, que significa pai, em aramaico. Não é provável que seu pai Tareh tivesse colocado o nome de 'pai' num dos seus filhos, especial­mente que ele não era sequer o primogênito. Deve ser, por­tanto, um cognome que lhe foi atribuído, seja pela sua descendência, seja pelos seus pastores. No meu romance Os patriarcas de Yahveh, na primeira edição, eu não atribuí um de­terminado nome ao futuro patriarca, chamando-o desde o iní­cio da história de Avram. Isto se deve a uma falha de minha pesquisa, pois só descobri o significado de Avram posterior­mente. Na segunda edição, resolvi atribuir o nome de Sarug, que era o nome de seu bisavô paterno, que não deixa de ser uma possibilidade efetiva, já que era, de certa forma, praxe se dar nome dos avós e bisavós aos filhos. Ele ganha a alcunha de Avram, dada neste caso pelos seus pastores, pela proteção que ele dá aos mesmos.

Com o decorrer da história ele passa a se autodenominar Avraham, que seria melhor traduzido como grande pai, e que a Bíblia considera como pai de nações, o que seria uma livre interpretação de seu cognome.

O que na realidade podemos inferir? Realmente existiu este homem, ou ele é apenas a figuração de uma determinada tribo? Alguns historiadores acham que Tareh, Arão, Nacor, respectivamente pai e irmãos de Avram, eram localidades. Pode ser que tenham razão, pois Arão lembra muito Haran, uma cidade no norte da Mesopotâmia. No entanto, isto não comprova o fato, pois alguém pode se chamar de Paulo e não necessariamente ter nascido em São Paulo, no Brasil.

Na nossa história, como não queríamos fugir demais da história bíblica, mas apenas desmitificá-la, adotamos os nomes dos patriarcas como personagens reais, e não como tribos. Por outro lado, mesmo que fossem tribos ou localidades de onde saíram as tribos, era muito comum, no passado, que o clã tives­se o nome de seu patriarca. Portanto, para todos os efeitos, Avram, mais tarde conhecido como Avraham (Abrahão), será o fato gerador (pai) de várias tribos as quais viriam a se consti­tuir em nações. Os árabes se dizem descendentes de Abrahão através de seu filho Ismael, assim como os judeus dizem o mes­mo através de seu filho Yacob (Jacó), mais tarde cognominado de Israel - aquele que luta com Deus.

Há, no entanto, várias bases históricas em que se pode pesquisar e as enumeramos a seguir para mostrar que há uma certa lógica nos dois romances: Os patriarcas de Yahveh e Moisés, o enviado de Yahveh. Mas alertamos para o fato de que ninguém é capaz de assegurar que as coisas se passaram exatamente desta forma, especialmente as acontecidas no mundo astral.


3.2 - Yahveh é um deus de guerra hurrita?

Não só na nossa história aparece o deus hebreu Yahveh, mas em toda a Bíblia e na história dos judeus, esta divindade aparece de forma preponderante. No entanto, esta figura de­senvolvida pelos homens, na sua tentativa de entender a divin­dade, nasceu entre os hurritas como um deus da guerra e da vingança. Mas quem eram estes hurritas?

O que se sabe deste povo é que, por volta de 2.200 a.C., quando as tribos nômades da grande extensão de terra que compreende desde o Cáucaso até a China começaram a se mo­vimentar para fora de seus territórios, os hurritas acabaram por se estabelecer no norte da Mesopotâmia, na região onde é hoje o Iraque, e também parte da atual Síria. Era um povo indo-europeu que se estabeleceu naquela região provavelmente vindo do Cáucaso ou de regiões imediatas, onde se pressupõe que fugiram do assédio de outras massas de emigrantes.

A história é repleta destes fatos, onde grupos meno­res, ou são engolfados por levas maiores de emigrantes, ou são destruídos em sua passagem, ou fogem para outras re­giões desenvolvendo-se em suas novas paragens. Neste pe­ríodo da história da Terra, temos os arianos entrando na índia, os povos campaniformes entrando na Europa, vindo a gerar com os pré-celtas o povo celta, os hicsos indo para o Egito, e assim por diante.

Tudo parece indicar que os hurritas faziam parte de um grupo maior que foi dizimado pela passagem dos hititas em seu caminho para a Ásia Menor (atual Turquia) e que os remanescentes se desviaram para o norte da Mesopotâmia. Neste lugar a história não mostra violentos combates de con­quistas, até pelo contrário, mostra que os hurritas se amalga­maram com os povos lá existentes e que adotaram um estilo misto de vida.

No romance, os gomoritas, que vêm a gerar os hurritas, são um nome fictício, pois não há indícios históricos de seu nome anterior. Naquele tempo era muito comum as tribos adotarem os nomes de seus líderes proeminentes, ou de pre­tensos patriarcas geradores da tribo. Deste modo, o nome dado ao chefe de Hurri, vindo a gerar o nome da tribo de hurrita, é uma possibilidade histórica, mas sem nenhuma confir­mação de fato. Os hurritas, por sua vez, viriam a gerar os mitânios, que estabeleceram um vasto império naquela região, fundando a cidade de Washshukanni.

Esses povos tinham deuses indo-europeus, mas, com o decorrer dos tempos, foram substituídos pelos deuses locais e por uma plêiade de outros deuses nascidos de lendas e novos fatos geradores locais. Um desses deuses foi Yahveh, conheci­do na região das cidades de Ebla e Ugarit, assim como tam­bém na região de Haran.

A história do espírito Washogan é puramente fictícia, criada para mostrar como muitas vezes um espírito guia aca­ba se tornando um deus e que os espíritos superiores aprovei­tavam este fato para desenvolver um novo conceito da divindade. Muito provavelmente quando Avram entrou em contato com os hurritas, em Haran, ele deve ter escutado fa­lar de Yahveh, e deve ter se apaixonado pelo conceito de um deus forte, destemido, vingativo e poderoso com o qual nin­guém brincava e nem fazia pilhérias. Deste modo, não é nada improvável que ele tenha substituído seus deuses sumérios e caldeus por um único deus forte e destemido.

A etimologia da palavra Yahveh é obscura. Muitos a traduzem livremente como sendo "Eu sou quem eu sou", ou "Aquele que é". Dentro destas versões, optei pela versão 'Eu sou'. Os primeiros hebreus tinham não só Yahveh, como tam­bém o deus cananeu El. Tanto um como o outro se confundi­riam, tornando-se duas palavras para denominar a mesma divindade.

Avraham tinha um difícil caminho para fazer seu deus ser o escolhido. Os povos daquela época tinham muitos deuses e não os abandonariam com facilidade. Creio que o próprio Avraham teria dificuldade em abandonar os demais deuses e, em sua mente ainda primitiva, ele acabou por optar, provavel­mente de forma inconsciente, em transformar Yahveh não no único deus existente, mas no mais importante, no mais forte e poderoso, num henoteísmo fascinante.

O trabalho de transformar em único deus ficou para Moisés, que em parte foi bem-sucedido, pois a aceitação por parte dos hebreus não foi imediata, tendo levado mais de oito­centos anos para que Yahveh/El se tornasse o deus único.

Ora, se Avraham adotou o deus Yahveh dos hurritas, ele assimilou suas características principais, ou seja, ele aceitou o fato de ser um deus da guerra, dos trovões e da vingança. Se ele adotou bem estas características era porque, provavel­mente, eram suas próprias características ou aquelas que ele mais almejava ou admirava. Tendo como modelo este deus furioso, ele moldaria sua própria personalidade e a persona­lidade de seu povo.

Creio que seria interessante para o leitor conhecer outra teoria sobre Yahveh, com a qual não comungo, mas sei que há muitos que assim acreditam. Há esotéricos que crêem que Yahveh foi o chefe dos exércitos não-confederados de uma de­terminada revolta galáctica. Para o leitor menos informado so­bre esta teoria, resumiremos os principais aspectos da mesma.

A teoria em questão nos diz que Lúcifer, um dos espíri­tos mais evoluídos da galáxia, resolveu se revoltar contra o grande anjo Micah (futuramente Jesus Cristo, de acordo com esta mesma teoria). Ele mesmo sendo de elevada categoria si­deral não concordava com vários aspectos burocráticos da cri­ação da vida no universo e, como não comungava diretamente com Deus, acreditava que o Inefável não existia e que as dire­trizes que emanavam de Micah vinham dele próprio e não de uma desconhecida e obscura divindade suprema. Deste modo, ele e uma grande coorte de espíritos, entre os quais Yahveh, se revoltaram, criando uma espécie de desalinhamento da confe­deração galáctica.

A teoria nos conta em detalhes como esta rebelião se propagou e engolfou o nosso planeta, que naquela época era comandado por um príncipe planetário de nome Caligosto e que este teria se unido aos revoltosos. A Terra, cujo nome nes­ta teoria é Urantia, teria ficado ao lado das forças sediciosas e, com a derrota das forças revoltosas, ela e mais um certo núme­ro de planetas teriam sido isolados para que a rebelião não prosseguisse.

Durante milhares de anos, entretanto, enquanto a luta entre o bem e o mal se desenrolava, o pretenso comandante das forças revoltosas na Terra, Yahveh, dominava o cenário terrestre. Na teoria, este espírito seria também um ser de luz e as extensas matanças de seres humanos descritas na Bíblia por ordem de Yahveh apenas eram encaradas de fornia natural, já que, conhecedor da natureza espiritual do homem, este morti­cínio não significava o fim do assassinado, mas apenas uma transformação.

Yahveh, sendo um espírito de luz, também resolve criar um povo que teria por ele fascinante adoração. Ele desenvol­ve, portanto, um culto voltado para sua própria idolatria, le­vando-o, por isto, à criação do povo hebreu. Na teoria, Yahveh é responsável pelo êxodo do povo hebreu do Egito e pela des­truição dos exércitos do faraó.

Sem querer melindrar aqueles que acreditam nesta teoria, eu me pergunto se não há aí uma falta evidente de lógica. Pois senão vejamos:



  1. - Se Lúcifer é um espírito altamente evoluído como é ele iria se revoltar contra a ordem constituída? Ele poderia até questionar certos métodos espirituais, mas dizer que ele não conhece ou reconhece Deus como a divindade suprema o transporta automaticamente à condição de ignorante sobre as leis divinas, o que inviabiliza o fato de ele ser um espírito alta­mente evoluído.

  1. - Se o príncipe planetário Caligosto também se associa a Lúcifer, ele também é um ignorante das leis divinas, portan­to é outro que não poderia ter ascendido ao cargo máximo de dirigente planetário.

  1. - Se Yahveh é um espírito também evoluído, e a evolu­ção espiritual tem como principal atributo um amor fraternal incondicional, como ele poderia ter matado tantos seres sim­plesmente porque eles não o adoravam como ele queria ser adorado: com irrestrita obediência e devoção máxima.

Eu creio que esta teoria se baseia em premissas equivocadas. Um dos maiores equívocos de várias escolas espiritua­listas é acreditar que Deus tenha criado seres com algum grau de perfeição que não tenham alcançado tal grau de evolução através dos processos de reencarnação física. Desta forma, ao vislumbrarem espíritos em posições elevadas, eles acreditam que já tenham sido criados deste modo. Não lhes é licito acre­ditar que todos passam pelas várias fases de evolução e que, se estão em graus mais altos, isto deve-se ao fato de terem inicia­do sua jornada evolutiva antes de nós.

Estou plenamente convencido de que Deus jamais criaria seres que teriam uma linha paralela de evolução, como é o caso dos dementais e devas, pois isto iria ferir um dos prin­cípios mais elementares de sua perfeita justiça: a eqüidade. Se os devas têm uma linha de evolução diferente da nossa, das duas uma: ou eles foram privilegiados ou foram prejudicados.

Se a existência física for encarada como um sofrimento, então os devas foram beneficiados em não terem que encarnar. Ora, a simples assertiva nos leva a crer que Deus foi injusto com a humanidade, levando-nos ao sofrimento, enquanto ou­tros foram beneficiados. Se encararmos a existência humana como algo de muito bom, pois afinal das contas o mundo físico é um mundo de sensações gostosas como aplacar a sede, ali­mentar-se de comida apetitosa, fazer sexo, e assim por diante, então os devas foram privados destas sensações maravilhosas e mais uma vez caímos no ponto em que, agora, Deus foi injusto com os devas, impedindo que eles tivessem seu quinhão de ale­grias materiais. De uma forma ou de outra, linhas de evolução paralelas ferem o princípio da eqüidade.

As doutrinas antigas não tinham noção do processo de evolução, que é um conceito muito mais moderno. Antigamente eles tinham a noção de ciclos que se repetiam in­definidamente, assim como de processos antagônicos que se complementavam. Se existia a luz, existiam as trevas. Se existia o dia, existia a noite. Se existia o verão, existia o inver­no. Se existia o homem, existia a mulher. Estes fenômenos e fatos eram cíclicos, repetitivos, mas não alteravam a face da criação. Por isto, a famosa e equivocada frase: Não há nada de novo sob o Sol. Tudo se repetia com monótona precisão.

Esta visão do universo e de todas as coisas nele contidas se devia ao fato de que a percepção humana sobre a natureza a mostra quase imutável. Poucas seriam as escolas espiritualistas que teriam a noção de evolução, e nela se sobressai sobre as demais a escola hinduísta, que acredita que o universo nasce, vive e morre e depois renasce, através dos dias de Brahma. O mesmo acontece com o espírito do homem que nasce, vive e morre, e depois renasce numa infindável roda de reencarna­ções. É preciso alertar para o fato de que tal raciocínio come­çou a aparecer por volta do século VII a.C. Muito mais tarde, viriam outras escolas hinduístas que iriam inferir que este lon­go processo - a roda das encarnações - poderia ter um fim quando o espírito finalmente alcançasse a iluminação e, então, ele, já liberto, se fundiria com o grande todo.

Pode-se ver, portanto, que os conceitos de evolução, que partem do menos para o mais, através de longos processos, não foram conhecidos a não ser a partir do século XIX, abrin­do as portas para um entendimento superior. Nada mais lógi­co, portanto, que as escolas espiritualistas principais acreditassem que Deus tivesse criado os anjos, os devas, ou seja, lá o nome que se dêem a estes espíritos superiores, já devida­mente prontos. Deste modo, olhando para Deus e para os an­jos com olhos humanos, o governo do universo está sujeito a contrariedades, a revoltas e insídias, assim como o são os go­vernos humanos. Isto só demonstra que a compreensão do ho­mem em relação a Deus ainda é inexata e contraditória.

Preciso fazer mais um adendo a este ponto, o qual acredito que seja um dos mais importantes de toda a doutrina. Eu acredito que todos os espíritos sejam obrigados a passar por todas as fases, desde a menor à maior, inclusive pela existência física. No entanto, o que é preciso deixar claro, é que não pre­cisa ser necessariamente no planeta Terra. Há bilhões de planetas que oferecem condições análogas para que os espíritos possam passar pelo cadinho da experiência carnal, por assim dizer. Muito provavelmente, a grande maioria dos espíritos que hoje administram a Terra, nunca teve encarnação física aqui neste planeta, mas acredito, firmemente, que eles tive­ram várias existências materiais em outros orbes do nosso vas­to universo, ou até mesmo de universos anteriores ao nosso.

Para resumir, acredito que Avraham adquiriu a noção de um deus poderoso e temível entre os hurritas, e o difundiu entre seus familiares e o seu grupo social próximo. Creio que esta noção de um deus de vingança foi sendo substituído gra­dativamente por um deus menos feroz e protetor. É bastante comum os espíritos superiores tomarem emprestado deuses já estabelecidos entre os homens e os modificarem, tornando-os mais amorosos, protetores e subordinados a uma divindade suprema. Se analisarmos algumas religiões mais recentes, como a própria umbanda no Brasil, notaremos que os espíri­tos superiores tomaram emprestado a noção e os nomes dos deuses africanos - os orixás - e lhes deram uma aparência me­nos humana, tornando-os mais divinizados, todos subordina­dos a Deus, como forças auxiliares.

O mesmo deve ter acontecido com os espíritos su­periores que guiavam Avraham, vendo nele um homem de fi­bra indômita, de liderança inata, e que já tinha veneração por um deus que para ele era praticamente o único, pois ele o con­siderava o maior, o melhor, o mais poderoso. Tornar um povo henoteísta em monoteísta é uma tarefa mais fácil do que trans­formar um povo politeísta em monoteísta. Deste modo, os es­píritos superiores guiaram a mente deste homem para aceitar Yahveh como o deus principal, para, futuramente, suavizar os conceitos terríveis de Yahveh em um Deus de amor e justiça.
3.3 - A Formação do Povo Hebreu

Há muitas dúvidas sobre a verdadeira identidade dos hebreus, aqueles que saíram do Egito, vagaram pelo deserto do Sinai e finalmente se estabeleceram nas terras de Canaã, atual Israel. E muito difícil se falar de raça pura nas épocas de Abrahão, por volta de 1800 a.C., pois já havia uma miscigena­ção racial bastante grande. A região já havia sido invadida por povos semitas e indo-europeus, o que provocara uma mescla de raças interessantes. Aliás, é preciso ressaltar que os suméri­os, quando chegaram na Suméria por volta de 8.000 a.C., já ti­nham um pouco de sangue mongol e turcomano, como prova sua língua. Eles eram, portanto, uma mistura de in­do-europeus, mongóis e turcomanos. Os caldeus, um povo se­mita, também já tinha se misturado com os arameus, outro ramo semita, e, provavelmente, Abrahão devia ser um semita, com toques indo-europeus, já que era proveniente de Haran, em pleno território hurrita.

No decorrer dos anos, com seus diversos casamentos, com Sarah, com Agar, com Cetura, seu sangue se misturou com sangue indo-europeu, cananeu (outro ramo de semitas) e com sangue egípcio (de Agar), gerando diversas descendênci­as. Sua própria descendência também se misturou com o san­gue cananeu, hurrita de Haran e egípcio.

Quando os hicsos invadiram o Egito, a descendência de Abrahão foi para lá e se instalou na margem oriental do delta, chamado por eles de Goshem. Não há dúvida de que a pureza racial jamais existiu, mas pode-se inferir que o predomínio ge­nético da tribo de Abrahão deve ter sido semita, de origem cananéia. Tal fato, por si só, não é prova de pureza racial, já que aquela terra foi ocupada por vários tipos de povos, desde hititas, hurritas, mitânios, egípcios, árabes, semitas nômades do tipo beduíno, entre outros.

Sua ida ao Egito demonstra que, naquela época, a Terra devia estar passando por transformações climáticas sérias. É nesse período em que se observam grandes movimentações de outros povos indo-europeus, conforme já mencionado. A própria Bíblia menciona uma terrível seca em Canaã que obriga a tribo de Israel a se deslocar para o Egito.

Conforme relatei no livro Os patriarcas de Yahveh, os fa­mosos hicsos eram, na realidade, uma confederação de tribos de origem hitita, hurrita, citas e vários povos semitas que se agregaram. Todos deviam estar fugindo de terrível seca que deve ter assolado suas localidades, assim como, provavelmen­te, de situações criadas por causa de problemas de desloca­mentos de outros povos em seu caminho. De qualquer forma, os historiadores acreditam que este movimento foi suave, len­to e gradativo. Ou seja, as tribos foram adentrando o delta do Nilo, e lá se estabeleceram de modo pacífico. Os egípcios não guardavam suas fronteiras com grande empenho, pois jamais haviam sido invadidos, fato que posteriormente aos hicsos, mudaria dramaticamente.

Pelos estudos históricos, o faraó daquela época devia ser Khutauiré Ugaf, que vivia em Ouaset (Tebas para os gregos) e, quando se deu conta, não conseguiu expulsá-los. Sabe-se que os estrangeiros chamados pelos egípcios de Héqa-Ksasut já ha­viam fundado uma localidade que eles chamavam de Auwari-yash, e que seria chamada pelos gregos de Avaris e pelos kemetenses (egípcios) de Djanet.

A história registra a presença marcante de um líder denominado Salatis, e pelo seu nome imagina-se que seja de ori­gem hitita. No entanto, seu sucessor foi Khian, cujo nome é francamente de origem hurrita. Pelo estudo do nome Khian pode-se deduzir que os hurritas eram aparentados com os ci­tas, pois entre os citas, os gauleses e os britons das ilhas britâ­nicas, este nome era bastante comum. Deste modo, pelas armas - o arcocita, o carro de combate hitita, pela cavalaria cita - e pelos nomes, sabe-se que os hicsos eram uma mistura de vários povos.

Nesta leva devem ter vindo os participantes da tribo de Israel. A lenda bíblica de que José teria sido vendido pelos seus irmãos e teria ido, após várias peripécias, parar na corte do fa­raó, me parece uma fantasia. Imaginar que alguém possa che­gar a grão-vizir do Egito só porque interpretou o sonho de um faraó é imaginar que estamos lidando com beócios completos. O máximo que um faraó faria por José, após ter interpretado o sonho, seria colocá-lo ao seu serviço como um dos muitos adivinhos da corte. Até porque, no momento da interpretação do sonho, o faraó não sabia se ele tinha ou não acertado. Te­riam que se passar sete anos de fartura, seguido de sete anos de seca, para que o faraó reconhecesse o completo acerto das previsões de José, e então recompensá-lo regiamente.

Naquele tempo, o Egito já havia se dividido em dois reinos. O rico delta do Nilo era dominado pelos hicsos e o empo­brecido sul, com capital em Ouaset, era dominado pelos egípcios. Tanto é que naquele tempo aparecem duas dinastias de faraós, uma no sul e outra no norte. A tribo de Israel teria ido parar no norte, onde não devem ter tido problemas de as­similação, já que as várias tribos de hititas, hurritas e citas ar­rastaram com eles, em sua passagem, inúmeras tribos de cananeus, fenícios e árabes de modo geral.

A tribo de Israel, de acordo com as lendas bíblicas, já que são as únicas fontes a citá-lo, tinha um sério problema que viria a gerar discórdia e cisão: a sucessão dos bens paternos. Naquele tempo ser primogênito era bem mais do que apenas ter sido o primeiro a nascer, era ter o direito à primogenitura, que, em alguns raros casos, o pai retirava do filho mais velho para dar para outro. Os bens paternos iam unicamente para o primogênito, deixando os demais na mais negra miséria. O pai podia, a seu bel-prazer, fazer uma distribuição, ainda em vida, de seus bens para os demais filhos, mas no caso de morte abrupta do pai sem ter feito uma partilha adequada, somente o primogênito herdaria. Muitos irmãos tornavam-se pastores do irmão mais velho, mas, provavelmente, havia aqueles que se afastariam ou seriam afastados da tribo. Neste caso, eles partiriam desprovidos de bens que os ajudassem a se manter.

Este sistema de herança permitiu que, após a morte de Yacob, agora chamado de Israel, sua descendência, que permaneceu no Egito, se dividisse, a grosso modo, em duas correntes: os ricos e os miseráveis. A maior prova deste fato é que, quando do êxodo, os hebreus habitam tendas, algu­mas até luxuosas, têm camelos e diversos bens, incluindo ouro, que permite a construção de um bezerro de ouro, e posteriormente a arca da aliança. Estes bens seriam incom­patíveis com os bens de um povo totalmente escravo. A Bíblia iria citar que os egípcios deram presentes para os hebreus para que partissem, mas a não ser que tivesse havido grandes roubos - verdadeiros saques - por parte dos hebreus, as even­tuais dádivas dos egípcios iriam se restringir a poucos bens, in­validando a tese de um povo razoavelmente abastado.

Os hicsos acabaram sendo expulsos do Egito por Ahmés, um faraó sulista, que viria a ser o fundador da famosa XIX dinastia, de onde se destacam Akhenaton, a rainha Hatshepsut e seu sucessor Thutmés III. No entanto, os hebreus permaneceram no Egito, não partindo com seus aliados, os hititas, hurritas e citas. Por que razão? Provavelmente porque a aliança dos estrangeiros era tênue e sujeita a forças circunstan­ciais. Segundo, provavelmente os estrangeiros jamais aceitaram muito bem os semitas, que falavam uma língua diferente da deles. Terceiro, porque os semitas eram pastores e prova­velmente não dominavam nenhuma tecnologia de combate, não tendo nem as armas de ferro dos hicsos e nem a disposição bélica para aprender. Deste modo, eles se viam como párias dos próprios hicsos e, posteriormente, como párias dos egípcios.

Os egípcios, quando retornaram seu país, perseguiram as tropas dos hicsos até a fortaleza de Sharuken na Palestina e os derrotaram, espalhando-os e impedindo que se reagrupas­sem para reconquistar o delta do Nilo. No entanto, os semitas ficaram na terra de Goshem, margem oriental do Nilo, e lá pastorearam suas ovelhas.

A história egípcia, no entanto, menciona os habirus, como eram chamados os hebreus e os povos semitas de um modo geral, em várias ocasiões. Uma, na construção da cidade de Akhenaton e outra, na destruição de Jericó por parte de um faraó egípcio. Na nova capital denominada de Akhetaton - o horizonte de Aton - os habirus são vistos trabalhando duro, já de forma servil ou escrava, enquanto na conquista e destruição de Jericó, eles são vistos como soldados do faraó. Por outro lado, em Aváris, agora chamada de Djanet, há ricos habirus que dominam o comércio de carne, o pastoreio e as finanças, demonstrando claramente que havia duas correntes: os ricos e os miseráveis. Como já mencionamos, esta cisão econômica e social se deveu ao sistema de herança, que só seria mudado posteriormente com Moisés ou com os legisladores no tempo do êxodo, muito provavelmente por razões políticas e nem tanto por razões humanitárias.

Um ponto a ser compreendido é que, em Goshem, e no restante do Egito, especialmente no norte, ou seja, no delta, não existiam apenas descendentes de Israel, mas também vá­rios outros grupos semitas que haviam sido arrastados pelos hicsos na sua ida ao Egito, assim como pela seca que avassalara a terra de Canaã e vizinhanças. Deste modo, quando viesse a época do êxodo, estes grupos de semitas seriam incorporados ao grupo de habirus e partiriam para a reconquista de Canaã, tornando o já heterogêneo grupo ainda mais mesclado, com línguas parecidas, mas levemente diferentes, assim como cos­tumes e deuses diversos. Aliás, os vários grupos que formavam os habirus já não tinham o costume da tribo de Israel, fato que pode ser observado pela idéia, corrente na época, de que Yah­veh havia abandonado seu povo. E por que razão eles citavam isto? Provavelmente, porque, além da miséria em que viviam, havia os agrupamentos de outros semitas que cultuavam ou­tros deuses de origem cananéia e que não aceitavam Yahveh como o deus preponderante. Além disto, os cultos egípcios já haviam de longa data sido assimilados pelos habirus, que cul­tuavam uma mescla de deuses cananeus, egípcios e, quiçá, hititas, hurritas e citas.

Havia, no entanto, os filhos de Israel - os benei Israel - que, ao que tudo parece, continuavam fiéis aos seus costumes. Neste caso, por se manterem ricos e bem postos na vida, domi­nando as finanças e o comércio de carne e outras utilidades, para eles, Yahveh continuava a sorrir e propiciar boa vida. Te­riam que ser eles o esteio na formação do novo povo hebreu, pois se não fossem os costumes que eles haviam herdado e mantido, toda a história de Abrahão, Isaac e Jacó teria sido apagada e esquecida, tornando Yahveh apenas mais um deus entre milhares de deuses daquela região.
3.4 - Moisés e o êxodo

A história bíblica apresenta diversas incongruências que nos deixam com mais dúvidas do que certezas. Deste modo, ao escrever o livro Moisés, o enviado de Yahveh, resolvi pesquisar a história egípcia para ver o que eles falavam sobre o tal êxodo. No entanto, um fato de aparente importância, como a saída de seiscentas mil pessoas, não foi registrado pelos egípcios, assim como as dez pragas e especialmente a morte dos primogênitos.

O primeiro grande problema é situar adequadamente o período do êxodo. Há historiadores que falam que este se deu nos tempos de Ramsés II, outros já localizam em período pos­terior, na época de Merneptah, sucessor e filho de Ramsés II. Há também um historiador que localiza o êxodo junto com o ataque a Jericó pelo faraó Amenófis I, em 1545 a.C., mas esta teoria encontra pouco eco entre os demais estudiosos, preferin­do datar tal fato no reino de Merneptah, por volta de 1232 a.C.

Outros preferem a teoria de que, como Ramsés II per­deu o seu primogênito, Khaemouast, e este era realmente seu filho preferido como provam as imagens em Abou Simbel, a lenda judaica encontraria um ponto de apoio. O problema é que Merneptah também perdeu seu primogênito, o que em­baralha um pouco as coisas.

As dez pragas são vistas como obra de Yahveh, no entan­to, de tempos em tempos, o Egito era assolado por desequilí­brios ecológicos pelo fato de o rio Nilo não transbordar adequadamente, gerando pragas de gafanhotos, ratos, perce­vejos, água barrenta de cor vermelha (sangue na água), e como conseqüência havia pouca colheita, fome, dizimação da popu­lação por doenças (peste bubônica) e algumas revoltas locali­zadas, atrás de comida e água potável. Isto também atingia os rebanhos e os animais domésticos. Portanto, mesmo que os hebreus tenham inferido que estas pragas fossem um castigo de Yahveh contra o Egito, que não permitia sua saída, o fato mais provável é que os fenômenos naturais, telúricos, assim fossem interpretados.

Se fôssemos admitir uma atividade divina na história dos hebreus, na saída do Egito, teríamos que concluir que não se tratava de uma atitude divina, mas muito mais uma tene­brosa obsessão demoníaca engendrada por algum espírito te­nebroso. Vejam que Moisés é levado a pedir a saída do povo hebreu e que, por várias vezes, o faraó concorda, para depois, como diz a história bíblica, 'Deus endurecer o coração do fa­raó', voltar atrás na palavra dada. Com isto, Moisés se vê obri­gado a rogar pragas que desintegram o Egito, levando à ruína e à morte os animais e seres humanos. Cada vez que o faraó concorda, Deus o faz voltar atrás. Por quê? Se Deus quisesse ti­rar seu povo da escravidão, por que ele iria endurecer o cora­ção do monarca egípcio, fazendo-o retroagir na palavra real? Esta história por si só é inverossímil. Isto levou alguns esotéri­cos a crer que Yahveh era, na realidade, um demônio ou um espírito revoltado das coortes de Lúcifer.

Por outro lado, as entradas na corte egípcia por parte de Moisés são também sujeitas a uma razoável dúvida. Como é que Moisés entrava e saía da corte do faraó, dando-lhe ordens peremptórias, ameaçando-o e dando demonstrações de força sem que o faraó, figura que naquele tempo era lei e ordem, nada fizesse? Basta ver como é difícil alguém tentar falar com o primeiro mandatário de um país atualmente, para notar que entrar e sair da corte do faraó devia ser uma missão impossível.

O mais fanático dos apologistas bíblicos poderia dizer que Deus estava com ele e que, desta forma, ninguém podia impedi-lo de entrar. Concordo em tese, mas por que razão, se Deus estava com ele, o faraó concordava e depois, o próprio Deus o fazia voltar atrás? Para testá-lo? Para testar a vontade do povo hebreu? Ou será que a história era outra?

Sabemos pela história que Merneptah havia assumido um reino depauperado pelas grandes construções de seu pai, que drenaram os cofres públicos. Sabemos também que, no fi­nal do governo Ramsés II ou no início da administração de Merneptah, houve distúrbios, fome, peste bubônica e greves de escravos e até mesmo de administradores do terceiro esca­lão. Sabemos pelos registros históricos que um certo sacerdote de Amon-Rá foi destacado pelo faraó Merneptah para ensinar higiene aos habirus, pois acreditava-se que o motivo da peste era a falta de higiene dos campos de construção de Perramsés - um bairro vizinho e de luxo, murado, em Djanet, terra de onde provinha a família de Ramsés, assim como em duas ou­tras localidades onde estavam sendo construídos fortes e cida­des. Por outro lado, a história egípcia não registra se este tal Ahmose, sacerdote de Amon-Rá e de família real, portanto pa­rente do faraó, conseguiu seu intento.

De qualquer forma, o simples fato de o faraó mandar seu parente, um sacerdote de Amon-Rá, ensinar algo aos habi­rus, demonstra que ele não queria mal a este povo, mas tam­bém que não o suportava. Aliás, os egípcios sempre foram xenófobos - horror ao estrangeiro - e não suportavam nada que viesse de fora, especialmente depois da dominação dos hicsos. Pode-se deduzir que os habirus eram uma pedra no sa­pato do faraó e que devia existir pressão por parte dos nobres, como também do clero, para que fossem expulsos do Egito.

Por outro lado, ainda analisando a história bíblica, notamos mais discrepância quanto à atuação dos egípcios e do fa­raó. Quando finalmente os hebreus são autorizados a sair, o faraó, mais uma vez, tem seu coração endurecido por Deus, e re­solve sair em perseguição aos hebreus, e acaba levando sua tropa à destruição no mar Vermelho. De acordo com a lenda, o mar Vermelho foi aberto por Yahveh, através de Moisés, e, providencialmente fechado durante a passagem do exército egípcio.

Esta passagem apresenta alguns problemas de entendimento. Primeiro, porque os hebreus não atravessaram o mar Vermelho, mas, em certo momento, margearam-no. Para re­solver este impasse bíblico, os estudiosos resolveram colocar a passagem dos hebreus pelos pântanos e que estes teriam tra­gado os exércitos egípcios. Por mais que desejemos aceitar a versão bíblica, esta história deve ter acontecido de forma dife­rente, pois os egípcios conheciam muito melhor este trajeto do que os hebreus, que nunca haviam passado por lá. Nin­guém iria se aventurar em pântanos, especialmente com car­ros de roda que podem atolar com facilidade. Deve-se inferir outro fato, ou seja, que os exércitos egípcios não estavam per­seguindo os hebreus, mas apenas acompanhando-os, a certa distância, para se certificarem de que os expulsos não voltari­am sobre seus calcanhares. Quando se asseguraram de que os hebreus estavam bastante embrenhados no deserto do Sinai, eles retornaram, pois havia a séria ameaça dos líbios que pai­rava sobre eles. O faraó não iria arriscar todo o seu exército numa perseguição e deixar sua terra à mercê dos povos indo-europeus que a ameaçavam de invasão. No máximo deve ter mandado um destacamento que, sem dúvida, deve ter assus­tado os hebreus, impedindo-os de voltar. Do momento em que se meteram dentro do forno sináico, nada mais podiam fazer a não ser prosseguir e encontrar seu destino, o que permitiu o re­torno das forças egípcias para defenderem seu território.

A atuação de Yahveh no deserto do Sinai é outra dúvida que nasce em nossa mente. Por um sim ou por um não, por qualquer desobediência, Yahveh fulmina seus seguidores, ma­tando milhares de cada vez. Temos que inferir que o verdadei­ro Deus jamais iria matar suas criaturas simplesmente porque eles não acreditam em sua existência. Se fosse assim, grandes contingentes atuais já estariam mortos, já que a descrença num ser supremo alcança grande parte de nossa atual popula­ção. Por outro lado, se admitirmos que esses fatos realmente aconteceram, então temos que concluir que os espíritos supe­riores ou destacaram um espírito tenebroso para guiar o povo hebreu, ou então Yahveh era realmente um demônio cujo úni­co interesse era a adoração à sua pessoa seja de que forma fos­se, sendo capaz de matar os dissidentes com a crueldade de um Hitler e a rapidez de um Tamerlão.

É mais fácil acreditar que os morticínios que porventura aconteceram se deveram a dois fatos. O primeiro, as duras condições do deserto do Sinai que deve ter ceifado os menos aptos. O segundo se deve ao fato de que aquela massa hetero­gênea de semitas reunida, provavelmente às pressas, e aglo­merada de qualquer maneira, deve ter gerado conflitos étnicos. Para um povo, mesmo o mais miserável, que se acre­ditava eleito do Senhor, os estrangeiros - qualquer um que não professasse a mesma religião, costumes e língua - deve ter lhe parecido uma afronta. Naqueles tempos, como, aliás, agora também, a tendência ao genocídio - assassinato por ra­zões genéticas - raciais - era, e ainda é, uma solução conside­rada definitiva.

Se os líderes hebreus praticaram estas mortes usando como desculpa uma obra divina, eles conseguiram aplainar qual­quer resistência contra sua liderança, mas também denegriram a imagem de Deus, apequenando-o de forma acachapante.

As condições físicas do deserto do Sinai devem ter sido a maior causadora da mortandade do povo hebreu. Se realmen­te eles eram escravos dos egípcios, não se pode imaginar que sua alimentação fosse da melhor qualidade e nem em grande quantidade. Em todas as administrações, egípcias ou não, o desvio de comida, as compras de mercadoria de segunda categoria a preços de primeira eram e são comuns, o que devia diminuir ainda mais a resistência dos escravos. As condições do deserto são terríveis até mesmo para os muito bem preparados, imaginemos o que deve ter acontecido aos velhos, aos doentes, às crianças subnutridas e às mulheres depauperadas.

A pergunta que se podia fazer é por que razão os hebre­us não foram direto até Canaã. A resposta é dada pela própria história. Canaã era habitada por diversas tribos guerreiras, com­postas de cananeus semitas, horeus ou hititas indo-europeus e outros povos mitológicos como os gigantescos enacins, provavel­mente homens de dois metros que pareceriam gigantescos para uma raça de um metro e sessenta, em média.

Deste modo, estando Canaã ocupada por tribos perigo­sas, seria necessário que eles fossem para um lugar desértico e lá se preparassem para enfrentá-las. Por outro lado, a Bíblia nos relata que Moisés enfrentou diversas rebeliões e dissidên­cias que foram debeladas à custa de mortes (quase sempre im­putadas a Yahveh) e ele deve ter concluído que, com tal 'escória' - os escravos e os nobres benei Israel com sua indolên­cia - ele jamais seria capaz de conquistar a terra prometida. Certamente ele deve ter instruído sua liderança a conquistar a simpatia dos mais jovens, educando-os à parte dos pais, pois desta forma ele poderia fazer sua conscientização. Caso con­trário, os jovens, sob a influência dos pais, continuariam sua má vontade para com o êxodo, querendo voltar para o Egito.

Moisés teria que preparar sua elite guerreira sem a qual jamais conquistaria a terra prometida. Para tal sua estadia no Sinai deve ter sido forçada por estes fatos. No entanto, não posso acreditar que eles tivessem ficado quarenta anos no de­serto, pois o período necessário para formar seu exército não deve ter ultrapassado os quinze anos. Se ele pegasse as crian­ças com cinco anos, com mais quinze anos, ele teria gente apta para enfrentar os seus inimigos, pois estariam com vinte anos, idade boa para a luta. Para ficar quarenta anos naquele forno, ele teria que aproveitar a segunda geração de nascidos no de­serto, o que seria excessivamente longo. As revoltas aconteci­das em Kadesh-Barnea, oásis em que os hebreus acamparam, demonstra que sua estadia naquele lugar sempre foi ameaça­da. Por isto mesmo ele teria que ser rápido, e tanto foi que, em vez de entrar pela terra dos edomitas, ele teve que contornar Canaã para destruir os maobitas e penetrar pelo lado mais en­fraquecido, que era Jericó, onde ele sabia que enfrentaria me­nos resistências.

Por outro lado, sabemos que o seu sucessor foi Josué e que saiu do Egito com ele, já sendo seu braço direito após Aharon, seu pretenso irmão. Depois da morte de Moisés, Josué ainda durou vários anos, tendo comandado as hostes hebréias em sua conquista de Canaã. Se estabelecermos que Josué devia ter entre vinte e trinta anos quando saiu do Egito e se adicio­narmos mais quarenta anos de deserto e mais vinte anos de conquistas em Canaã, ele teria morrido entre oitenta e noven­ta anos, uma idade excessivamente provecta para quem pas­sou a vida no deserto, alimentando-se mal e sob o sol inclemente durante o dia e o frio extremo de noite. Já se so­marmos dez a quinze anos no deserto do Sinai, ele teria morri­do entre cinqüenta e sessenta anos, o que é mais natural para uma época em que a idade média chegava aos quarenta anos.

Voltando à figura de Moisés, temos que analisar se de fato ele foi um hebreu criado por uma princesa egípcia, por­tanto no palácio real, ou se ele era alguém diferente, que a len­da transformou em hebreu. Na minha opinião, a história de que ele foi salvo das águas do Nilo parece ser mais uma lenda para gerar uma figura divinizável. Um rio cheio de crocodilos e hipopótamos não seria o lugar ideal para colocar uma crian­ça numa cesta de vime. Sem dúvida a cesta viraria com a cor­renteza da água, matando a criança. Por outro lado, o nome Moisés - Moschê - não é um nome hebreu, sendo a corruptela de Ahmose, um nome egípcio que significa Rá nasceu, ou alvo­rada. Aliás, um nome não totalmente incomum, portanto dan­do a entender que o tal sacerdote de Amon-Rá de nome Ahmose destacado por Merneptah para ensinar higiene aos habirus, e Ahmose, já com sua corruptela hebréia Moschê, só podem ser a mesma pessoa.

Isto não impede que qualquer uma dessas figuras possa ter sido criada pela princesa Thermutis. No entanto, devemos nos perguntar por que uma princesa egípcia iria criar um habiru - um povo malvisto pelos egípcios - se ele não fosse seu próprio filho. Ela poderia criar um habiru nascido em sua casa para ser seu servo, mas nunca levá-lo para a corte como seu próprio filho.

Por outro lado, nenhum egípcio se apresentaria como sacerdote de Amon-Rá para ensinar higiene aos habirus, pois correria risco de vida entre aquele povo também xenófobo, que odiava os egípcios. Ele teria que ser introduzido por al­gum membro proeminente dos habirus, ou seria defenestrado. Já para um membro proeminente de Israel, aceitar apresentá-lo como um descendente de habiru, ele teria que conhecê-lo e ter um motivo ou um objetivo de comum acordo. Este benei Israel seria Aharon (também conhecido como Arão), que, para todos os efeitos históricos, apresentou Moisés como seu irmão.

Temos que entender que Arão era o porta-voz de Moi­sés não porque o líder hebreu era gago, ou falava mal, mas porque desconhecia, inicialmente, a língua habiru. Tanto é verdade que, depois de aprendê-la, já no Sinai é capaz de dis­cursar inflamadamente contra os revoltosos, os insidiosos e os idólatras. Por outro lado, Aharon não iria apresentá-lo como egípcio, tendo que inventar uma história que demonstrasse sua origem hebréia. Sua irmã Miriam teria que estar manco­munada, sem o que sua lenda poderia ser contestada pela irmã ou por outro familiar.

Se Moisés tinha mesmo sangue hebreu é um mistério que jamais saberemos, no entanto, creio que ele devia ter san­gue semita, sem o que ele teria traços excessivamente egípcios para se passar por habiru. Na nossa história, inferi que ele se­ria filho de Jetur, rei de Sydom, mas esta figura é meramente ficcional, pois não há referências de tal personagem na histó­ria. Por outro lado, se Thermútis tivesse tido um filho legíti­mo, com um parente ou nobre destacado para tal fato por Ramsés, seu presumível pai, Ahmose teria o tipo físico egípcio, de difícil aceitação entre os semitas habirus. Deste modo, ela deve ter tido um filho ilegítimo com algum nobre semita que visitou ou habitou a corte de Ramsés II por algum tempo. Poderia até mesmo ser filho ilegítimo de algum benei Israel radi­cado no Egito com a princesa, hipótese que não deve ser descartada. Pode-se até mesmo imaginar que o pai de Moisés fosse o mesmo homem que gerara Aharon e Miriam, mas aí se­ria levar as hipóteses longe demais.

Se ele era de fato ilegítimo, sua vida na corte deve ter sido péssima, pois ninguém aceitava bastardos, mesmo de ori­gem real. Se ele matou algum guarda, não seria motivo para fugir da corte, pois os egípcios eram liberais quanto a estas 'pequenas faltas' dos nobres. Já se ele tivesse matado um no­bre, sua vida de nada valeria, sendo preso e morto. Ele deve ter, portanto, cometido algum ato que o obrigasse ao desterro, mas não à morte.

As lendas judias nos falam que Moisés, antes de se tor­nar um peregrino nas terras de Madian, lutou nos exércitos egípcios na Etiópia. Não há como comprovar este fato, mas isto não tem a menor importância, pois de uma forma ou de outra ele acabou por se desterrar involuntariamente ou não nas terras de Madiam, onde conheceu Jetro e casou-se com Séfora, tendo com ela dois filhos, de pouca importância na história de Israel.

Na nossa história, eu o fiz conhecer a Babilônia e a cidade de Ur, mas confesso que não há registros de sua passagem por estes locais. Se o fiz, foi mais por uma questão intuitiva. Moisés, sem dúvida, era considerado um grande mago, um poderoso feiticeiro, um medianeiro entre Yahveh e os hebre­us. Ele poderia ter aprendido estas artes mágicas nos templos de Amon-Rá, já que era considerado um sacerdote deste tem­plo, ou poderia ter aprendido estas práticas nos principais templos da região, que eram o hetbenben, o templo de Samash (o deus-sol) ou Marduque na Babilônia (não são os mes­mos) e o templo de Nanna em Ur. Portanto, as possibilidades de ele ter ido para aqueles locais existem, mesmo que sujeitas a certa dúvida do momento em que não há provas cabais de tais vi­agens. Mas isto não invalida o fato de que ele tinha uma expe­riência internacional, portanto, uma mente mais aberta do que dos xenófobos egípcios. Se ele não tivesse, jamais teria levado sua missão a cabo, devido à sua antipatia e preconceito contra os ha­birus. Ele teria que ter uma visão mais ampla, tanto da espiritua­lidade, como também dos costumes diferentes de vários povos, sem o que sua missão se tornaria difícil, quiçá impossível.

Qual a real importância de Moisés na história universal? Basicamente ele foi o maior precursor na transformação de um culto henoteísta em monoteísta. Já existiam alguns cultos monoteístas, mas que não conseguiram se difundir adequadamente. Alguns hurritas acreditavam num deus único chamado Sutekh, mas eles não conseguiram e nem quiseram difundi-lo, pois até entre eles, existiam alguns que eram politeístas. Provavelmente, os que acreditavam em Sutekh deviam fazê-lo só para si. Já os ju­deus, sucessores históricos dos hebreus, eram ferrenhos defenso­res de Yahveh, sendo de um fanatismo exacerbado. Esta religiosidade acabaria desembocando na figura de Jesus e na in­trodução de um deus menos terrível, mais amoroso e justo, que viria a gerar o deus do cristianismo. No entanto, Moisés foi obri­gado a apresentar assim mesmo uma divindade ainda feroz, pois seus seguidores só entendiam o medo.

Sua grande atuação, no entanto, foi legislativa, pois transformou sua sociedade, mesmo que ainda nômade, numa nação que caminhava para o estado de direito. Suas leis, tanto religiosas, como sociais, viriam a se consolidar nos livros bíbli­cos de Deuteronômio, Números e Levítico. Posteriormente, Ezra, por volta do ano 444/400 a.C., transformaria suas leis consuetudinárias em leis escritas, solidificando, através do Torah escrito, o que já era conhecido oralmente.

Se foi Moisés que escreveu os cinco livros, conhecidos como Pentateuco, seria mais uma evidência de que ele andou pela Mesopotâmia, ou pelo menos conheceu as lendas sumári­as, pois a criação do universo, a perda do paraíso, o dilúvio universal são lendas de que ele teria tido conhecimento em Ur e na Babilônia.

Se esses livros só foram consolidados por Ezra e sua co­nhecida assembléia de notáveis, teremos que inferir que o se­gundo Moisés, como é conhecido Ezra (Esdras), também conhecia e aceitava as lendas sumérias e babilônicas. Aliás, isto não seria nenhuma novidade, já que ele nasceu na Babilônia e foi um dos responsáveis, junto com Nehemias, pelo retorno do povo judeu à Palestina.

De qualquer forma, temos que dar crédito a Moisés, pois a história judaica já menciona a Torah oral antes de Ezra, mas a escrita só foi efetivamente feita com Ezra e Nehemias. Moisés, muito provavelmente, foi o introdutor de uma mu­dança moral, pois até sua época a moral era principalmente fechada. A moral dita fechada se caracteriza pelo castigo ou punição aos maus ou desviados, usando para tal o medo, o ter­ror divino, exigindo, portanto, que a divindade fosse vista como um ser terrível que punia qualquer falta. Já com Moisés, a moral se tornou utilitária, ou seja, castigo para os maus e prêmio para os bons. Deste modo, Deus passou a ser visto como um ser que podia dar alguns benefícios aos seus fiéis se­guidores, mas continuava a ser terrível para os recalcitrantes e desviados de sua rígida lei. Seria necessária a vinda de mais um mensageiro para suavizar a imagem de Deus e transfor­má-lo não mais num carrasco ou num ser discricionário, mas num ser de amor e justiça.

Capítulo 4
Jesus, O Divino Discípulo

Os Anos Desconhecidos
4.1 - Introdução

Falar de Jesus Cristo é sempre extremamente difícil, pois é a figura sobre a qual mais se escreveu na literatura ocidental. Há as versões as mais contraditórias sobre Jesus, desde considerá-lo um simples homem, galileu inculto e revo­lucionário até a encarnação do próprio e único Deus. Eu mes­mo já tive as mais variadas opiniões sobre Jesus até que me defini pela versão que publiquei. No entanto, ainda há tanto a aprender sobre Jesus, o mundo material e espiritual, que é muito provável que eu venha ainda a mudar de opinião, ou re­finar mais ainda minha versão sobre Jesus.

Levei muitos anos lendo vários exegetas - pessoas que se dedicam ao estudo da Bíblia e sua interpretação - e aos pou­cos fui formando uma idéia sobre Jesus, sua vida e sua obra. O sexto livro Jesus, o divino discípulo - os anos desconhecidos trata do nascimento, infância, adolescência e maturidade de Jesus até o início de sua missão. São, portanto, os anos de que não se sabe quase nada.

Ao leitor interessado neste assunto, fazemos um alerta para que se despoje de toda a fé religiosa, pelo menos tempo­rariamente, e que analise os fatos com isenção de ânimo. Tare­fa difícil, pois falar de Jesus sempre suscita um aspecto emocional dentro de nós, devidamente incutido durante a in­fância pelos ensinamentos religiosos, assim como também na vida adulta. Não se trata de perder a fé em Jesus, apenas de tentar analisar os fatos ou a falta deles, navegando pelo mar proceloso do raciocínio o mais despojado possível de emo­ções, e tirar ilações valiosas que só irão reforçar a fé, ou trazê-la de volta com mais racionalidade e, conseqüentemente, mais sólida, ou quem sabe implantá-la para aqueles que nunca fo­ram teístas.

Farei um alerta ao leitor: muitos dos assuntos tratados aqui são, de um modo geral, novos. Portanto, por várias vezes, serei repetitivo. Sei que é desagradável ter que repisar o mes­mo argumento por várias vezes, mas não tenho outra forma. Algumas das premissas se apresentam para consolidar vários pontos e, com isto, sou obrigado a repeti-los à exaustão. Peço desculpas antecipadamente se isto cansar um pouco o leitor, mas foi pelo bem da clareza dos argumentos que fiz isto.

Os exegetas modernos têm a tendência de desacreditarem de todos os dados relativos à infância e adolescência de Jesus que coincidam com pregressas profecias, as chamadas profecias messiânicas. Eles partem da premissa de que a igreja primitiva, com o intuito de demonstrar que Jesus era realmen­te o messias, tentou encaixar todas as profecias com aspectos da vida de Jesus. Deste modo, não se acredita que ele tenha nascido em Belém, muito menos numa manjedoura, e como também não crêem que ele tenha sido descendente da família do rei David e que a fuga ao Egito e seu retorno tenham acon­tecido. Acham que ele nasceu em Nazareth e lá viveu todos os anos de sua infância e juventude, apenas para sair de lá e se juntar ao grupo de João Batista, presumivelmente seu primo. Teria estado com João Batista até que se tornou maduro e independente para iniciar sua própria missão.

As duas correntes de exegeses são antagônicas. As mais antigas acham que a Bíblia está absolutamente correta e a mais recente crê que tudo não passou de interpolações da igreja cristã primitiva no seu afã de provar a legitimidade de Jesus através da confirmação das profecias. Qual das duas está certa, ou haverá uma outra versão totalmente diferente?

Em diversas etapas da apresentação falarei da igreja pri­mitiva e da igreja cristã emergente. Para podermos entender estes dois temas, direi que defini como igreja primitiva aquela que foi instituída pelos apóstolos logo após a morte de Jesus e que se estendeu até a consolidação do cristianismo com o im­perador Constantino. A partir de Constantino, eu denomino a igreja cristã emergente, pois foi a partir do Concílio de Nicéia, em 325 d.C., que a igreja primitiva passou a ter os contornos da igreja católica atual.

No meu estudo, eu procurei ver os escritos antagônicos de Jesus, ou seja, aqueles que falam mal dele, especialmente os escritos pelos judeus e romanos da época. É uma triste notícia, pois os cristãos fizeram um bom trabalho, destruindo ou retifi­cando as críticas contrárias. O que sobrou recebeu tratamento posterior para se tornar favorável à figura de Jesus. Por outro lado, os escritos dos judeus contrários a Jesus datam de muitos séculos depois da vida e morte de Jesus, portanto escritos por pessoas que não participaram de sua vida e nem foram seus contemporâneos. As críticas e histórias judaicas desmoralizan­do ou diminuindo a figura de Jesus eram mais para consumo interno da comunidade judaica, especialmente nos lugares onde ela foi perseguida, com o intuito de darem às novas gera­ções uma espécie de antídoto contra o cristianismo imposto e obrigatório.

No meio da ganga impura, de vez em quando se é capaz de descobrir certas passagens, provavelmente esquecidas, ou que os cristãos primitivos não acharam importantes, e que po­dem nos lançar uma luz sobre a figura de Jesus. E foi a partir deste tênue fio que eu me baseei. O leitor poderá dizer que é um fio por demais fino para se tentar construir uma versão nova da história de Jesus, e lhe direi que, além de ele ter razão, é também, junto com algumas outras evidências, as únicas pis­tas que descobrimos.


4.2 - Yeshua, o filho de quem?

Esta pergunta é mais profunda do que apenas dizer que ele era filho de José e Maria, apresentados na história com seus nomes hebreus, Yozheph e Miriam. Quanto à maternida­de de Maria não há muito o que discutir, mas quanto à pater­nidade de José existem dúvidas razoáveis. A Bíblia nos diz que José descobriu que Maria estava grávida e iria abandoná-la até que um anjo o impediu. Outros dizem que Jesus era filho ilegí­timo de um soldado romano chamado Pantera, sendo, pois, um mamzer, um filho ilegítimo. No entanto, é pouco crível qualquer uma dessas duas histórias. Uma porque deseja enfa­tizar que Maria foi fecundada diretamente pelo Espírito San­to, ou seja, Deus, e ao eliminar José da paternidade física, abre a possibilidade de ser o próprio Deus seu pai carnal. A outra versão porque deseja tornar Jesus um proscrito desde a nas­cença e também eliminar a possibilidade de o próprio Deus tê-lo gerado fisicamente.

Não vamos discutir aqui se Deus tem ou não esta possibilidade. Apenas eu me questiono se Ele tem esta necessidade. Afinal de contas, a procriação através do sexo foi instituída por Deus, ou pelo menos com sua aquiescência, e não nos parece um ato sujo, pecaminoso ou que possa denegrir a imagem de quem quer que seja. No entanto, no Oriente, é comum que os profetas e homens santos tenham nascimentos especiais. Nada mais justo do que convencer os iletrados e ignorantes da época de que, sendo o profeta um ser divino, tudo nele seja especial. Portanto, Zarathustra, Sidarta Gautama e Jesus Cristo tinham que ter um nascimento especial, e, no caso de Jesus, um pai di­vino, e não simplesmente um pai mortal, como todos nós.

Ora, esta versão é profundamente injusta para com Ma­ria e José, e, em última instância, para com o próprio Jesus. Duvidar da paternidade física de Jesus é lançar uma sombra de dúvida sobre Maria, tornando-a uma possível adúltera, o que, na minha opinião, não deve ter acontecido. Portanto, para mim, José é o pai físico e social de Jesus. Não podemos nos es­quecer de que se os espíritos quiserem, eles podem fazer ope­rações genéticas no ovo recém-fecundado, permitindo que certas características sejam impressas e outras apagadas, portanto não há necessidade de que Deus seja obrigado a intervir no sentido de refutar uma lei natural criado por Ele, ou sob sua promulgação.

Por outro lado, dentro do mesmo raciocínio, Maria não deve ter concebido virgem. Além de ser um fato inexeqüível e desnecessário, já que Deus usa suas magníficas leis e não fica abrindo exceções a torto e a direito, é também uma afronta às demais mulheres. Então, por que especial deferência Maria ter um filho sem concurso de um homem, não padecendo de dores da delivrance e permanecendo virgem? A idéia recorren­te é de que o sexo é uma coisa suja, que avilta o ser humano, e, portanto, indigno da figura da mãe do próprio Deus que se fez carne. Esta visão é tipicamente misógina, ou seja, dos homens que não amam as mulheres e as consideram como levianas e sujas por terem sexo. Não se pode esquecer de que, para os homens do Oriente Próximo, a mulher é um ser subalterno, motivo de vergonha e pecado, instrumento de Satanás. Para eles, como conseqüência, o sexo é motivo de vergonha (quem sabe, porque seu próprio desempenho é sofrível, ou porque em seus inconscientes, eles ainda são devassos e colocam a cul­pa de suas devassidões e promiscuidade na figura feminina, eximindo-se da culpa do pecado de luxúria?). Ora, para estes falsos moralistas, os pais do cristianismo, as mulheres não prestam, são seres diabólicos que os levam ao paroxismo do gozo material, os afasta do paraíso e, por isto mesmo, Maria tem que ser diferente. Jesus não poderia ser filho de uma mu­lher comum, igual às demais, que possa sentir prazer no amor carnal e que sinta as dores do parto. Não, ela tem que ser imaculada, pura, virginal e, conseqüentemente, digna de ge­rar o filho de Deus, o próprio Deus feito carne.

Na minha opinião, Maria era uma mulher igual às demais. Pode ser que fosse mais evoluída do que a média das mu­lheres de então, mas ela gerou Jesus pelos processos normais. Ou seja, casou-se virgem, manteve um conúbio carnal com José, provavelmente bastante saudável, já que teve mais uma série de filhos, e teve um parto normal, sem maiores atribula­ções. Qualquer outra conclusão nos remete às lendas dos nas­cimentos dos heróis gregos, sim, porque era também preciso mostrar que Jesus teve um nascimento superior a qualquer semideus, pois senão os gregos e romanos iriam preferir ficar com seus deuses e semideuses, gerados pela volúpia de Zeus (Júpiter para os romanos).


4.3 - Yeshua, descendente de David?

Conforme mencionei, os exegetas modernos não aceitam a idéia de que Jesus era descendente do rei David, dizendo que a genealogia que aparece na Bíblia foi uma interpolação posterior da igreja primitiva. Deste modo, Jesus não teria sido descendente, mesmo que os apóstolos achassem isto de suma importância. O nascimento de Jesus na cidade de David, Belém, também não passa de um mito para certificar os judeus da época de que Jesus era o messias, fato este posto em dúvida por muitos deles.

A perseguição de Herodes a Jesus também não passaria de lenda, assim como a sua fuga ao Egito. A ida ao Egito seria apenas para confirmar uma lenda judaica dizendo que Deus teria trazido do Egito o seu filho unigênito. Esta tendência moderna de negar todas as coincidências com as profecias messiânicas também não encontra eco na realidade. Trata-se apenas de uma opinião de pessoas que se dizem abalizadas, no entanto, são apenas opiniões. Não há como provar que ele nasceu em Belém, não se tem o seu registro de nascimento, nem o carimbo no passaporte e nem nenhuma conta de gás ou telefone provando a sua estadia no Egito. Naquele tempo, os registros eram falhos, os controles inexistentes e, se existiam, não foram preservados até nossos dias. Deste modo, temos que procurar outro caminho para definir sua ascendência.

O leitor que tem paciência, siga meu raciocínio. Se Jesus tivesse nascido em Nazareth e tivesse sido criado naquela cida­de, ele não teria a oportunidade de se tornar um homem letra­do, o que comprovam os fatos e a história. Nazareth era uma cidade perdida no meio da Galiléia, sem nenhum progresso. Os galileus eram conhecidos pela sua ignorância e, naquele tempo, o analfabetismo chegava a noventa e cinco por cento tanto dos judeus como dos galileus. Para ser letrado, tanto o judeu como o galileu, tinha que ser de classe alta, da nobreza, pois só desta forma teria oportunidade de aprender a ler e es­crever. Os judeus e os galileus conheciam, esparsamente, a Torah oral - torá she-beal-pé - que era uma condensação do Ve­lho Testamento. Para que alguém soubesse bem a Bíblia, com seus livros Chumash, Neviim e Ketubim, teria que saber ler e es­crever, e mais: teria que falar bem o hebraico antigo, quando a língua falada pelos judeus e galileus daquela época era o ara­maico. (Os judeus passaram a falar o aramaico após terem sido levados cativos para a Babilônia pelo rei Nabucodonosor, pois essa era a língua dos babilônios). Deste modo, para Jesus po­der citar passagens da Bíblia e a utilizar com facilidade, ele te­ria que tê-la estudado com grande afinco. Certamente, ele sabia ler e escrever e, como conseqüência, ele não era um am-ha arez - um homem simples do povo. Ele tinha que des­cender de família nobre.

O que tal família nobre estaria fazendo homiziada num buraco infecto-contagioso como era Nazaré, daqueles tem­pos? Ninguém iria para lá de livre e espontânea vontade. Só se pode deduzir que estavam lá escondidos. Mas de quem? Só se pode concluir que estavam lá, incógnitos, fugindo do poder real. Para tanto, deviam ser realmente da família de David, ou, pelo menos, se consideravam desta família, e o poder real - a família de Herodes, o Grande - também acreditava que eles fossem. Se eram ou não, não tem grande importância, mas que, sem dúvida, eles se achavam e os seus perseguidores tam­bém acreditavam nesta pretensa descendência, deve ser enca­rada como um fato lógico.

Se de fato o eram, deviam ser de posição nobre e, portanto, ricos. Se morassem em Nazaré, a família de Jesus -avô e pai - não seria proeminente o suficiente para que Hero­des, o Grande se preocupasse com ela. Eles teriam que ser de Jerusalém, ou pelo menos de Belém, próximo da capital da Judéia. Além disto, se eles fossem nobres, eles pertenceriam ao kenesset - assembléia dos nobres - e até mesmo, provavel­mente, ao sinédrio - sanhedrin. Se não pertencessem, eles não seriam perseguidos e iriam se esconder em Nazaré. Se eles pertencessem ao sinédrio, eles teriam influência no governo, portanto sujeitos a adquirem inimizades e, eventualmente, so­frerem perseguições.

Se este raciocínio estiver correto, então deve ter sido o avô de Jesus o grande causador da perseguição à sua família por par­te de Herodes. Ele deve ter sido uma figura pública de caráter e personalidade forte que, com sua atuação política, levou Hero­des a persegui-lo e a querer exterminar toda a sua família.

Para o leitor menos familiarizado com Herodes, o Grande, é preciso dizer que ele foi um rei empossado por César Au­gusto, imperador romano, os verdadeiros donos da região. Ele não era judeu, sendo um idúmeo, portanto um árabe, com fortes inclinações helênicas, que governou com mão-de-ferro.

Para se tornar rei, ele não teve pejo de mandar afogar Aristóbulo, neto de Hircano II, que seria, presumivelmente, o legíti­mo sucessor ao reino da Judéia. Era, portanto, um homem que defendia seu reino com unhas e dentes, tendo conseguido ex­pandi-lo para gáudio seu e de seus amigos romanos. Apenas para se ter idéia de sua crueza, ele mandou matar seus dois fi­lhos, que tentaram destroná-lo. Era, pois, um homem que de­fendia suas conquistas e seu trono com unhas e dentes.

A família do rei David era considerada pelo povo como a legítima sucessora do trono, e os demais, usurpadores, espe­cialmente um miserável idúmeo culturalmente helenista, como Herodes era visto pelos judeus da época. Eles espera­vam que o messias libertador fosse da família de David, por­tanto, eles esperavam que o messias fosse um rei guerreiro que os livrariam do jugo dos estrangeiros. Deste modo, ao se apre­sentar como descendente de David, o avô de Jesus, Jacó, só pode ter atraído a cólera de Herodes, que deve ter mandado matá-lo e, como era praxe na época, matar toda a sua família. Deste modo, a perseguição não deve ter sido especificamente a Jesus, mas a toda família de Jacó.

Como conclusão, creio que Jesus devia ter sido da fa­mília de David, ou de uma família que se acreditava ser des­cendente do lendário rei David, portanto candidato natural ao trono do reino de Israel, um reino unificado e não des­membrado como o era na época. Veremos outros detalhes a respeito do nascimento de Jesus.
4.4 - Yeshua, nascido onde, quando e como?

Minha teoria é que Jesus, sendo de boa família, não nasceu numa manjedoura, mas em 'berço de ouro'. No entanto, esta versão não seria 'politicamente correta' para se atingir os pobres. A lenda de que ele teria nascido numa manjedoura e de que seria de família pobre era conveniente para trazer os pobres para o lado da igreja primitiva. No entanto, pelos mo­tivos já expostos no ponto anterior, se ele fosse pobre, não te­ria acesso ao estudo que ele demonstrou ter sempre no decorrer de sua vida pública.

Se ele nasceu em Belém ou em Jerusalém ou em alguma cidade da Judéia proeminente não é fundamental para a sua existência, mas ainda acho que a aldeia de Belém, que também não era grande coisa, ainda é a opção mais adequada. Para que Jacó, o avô paterno de Jesus, se achasse da família de David, ele devia viver em Belém, freqüentando as altas rodas de Jerusalém, que fica próxima. Caso contrário, ele teria difi­culdades em se dizer descendente daquela família mítica, cuja origem era Belém.

Se ele nasceu em Belém, não havia motivo para ele nascer numa manjedoura. Ele deve ter nascido normalmente em seu lar e ter sido colocado num berço também usual para aquela época.

As lendas falam de um censo feito por Quirino, mas este censo não aconteceu no ano zero da nossa era comum, mas sim por volta do ano 6 a.C. Também há fatos que demonstram que houve uma conjunção dos planetas Júpiter e Saturno que aconteceram tanto no ano 7 a.C. como também no ano 6 a.C. Esta conjunção faz com que os dois planetas apareçam bem brilhantes no céu, possivelmente gerando a lenda da estrela de Belém. Falam também da perseguição de Herodes a Jesus quando ele era bem pequeno, mas como Herodes morreu no ano 4 a.C, Jesus deve ter nascido provavelmente no ano 6 a.C, e sua perseguição se deu no ano 4 a.C., quando ele tinha por volta de dois anos de idade.

Quanto à forma de seu nascimento, eu estou plenamen­te convencido de que deve ter se dado como todos os nasci­mentos de seres vivos, ou seja, pelo processo normal. Não há necessidade de Deus ou os espíritos superiores terem arquite­tado um nascimento especial, assim como não acredito na ne­cessidade de uma fecundação excepcional. Quanto à adoração dos pastores, é até uma possibilidade, especialmente se ele era filho de um nobre da região, dono de rebanhos, a quem os pastores filiados ou empregados à sua casa devem ter vindo prestar sua homenagem

Já a vinda dos reis magos é uma possibilidade bastante real. Os magos eram, na realidade, o nome dado aos sacerdo­tes de Zarathustra, portanto persas, ou, melhor dizendo, na­quela época, parthos, aparentados racialmente com os antigos persas, da grande família indo-européia. Portanto, as imagens que mostram um Balthazar negro pode ser de grande beleza poética, especialmente para dizer que todas as raças vieram adorar ao filho de Deus, mas é totalmente improvável. Baltha­zar devia ser partho e, portanto, branco, provavelmente alto como eram os persas e parthos, de cabelos negros ou castanho-claro anelados, com barba bem cuidada, como era o cos­tume da época.

Só não acredito que eles tivessem vindo quando Jesus era um recém-nascido. Se eles se guiaram pela estrela de Be­lém, ou seja, pela conjunção de Júpiter e Saturno, e viram nis­to o nascimento de Xaosiante, o deus Mithra renascido para combater o mal e livrar o mundo da perversão, eles devem ter chegado bem mais tarde. Isto porque entre vislumbrar a con­junção e preparar uma caravana, era coisa para alguns meses. Por outro lado, a história que eu desenvolvi de que foram os reis magos que levaram Jesus para o Egito é meramente uma construção poética que não irá encontrar nenhuma base em fatos históricos. Não há como provar e nem desmentir.

Se realmente houve a perseguição à família de Jesus, José e sua pequena família devem ter fugido da Judéia, não indo para a Galiléia, pois lá o perigo continuava a existir, mas provavelmente para o Egito, onde existia uma grande colônia de judeus em Alexandria. Não há como comprovar este fato, sendo, portanto, sujeito a interpretações e aceitação duvidosa.

Aliás, a infância e adolescência de Jesus é toda constituída mais de dúvidas e hipóteses do que de certezas.


4.5 - A influência persa na vinda do messias

A história bíblica sobre o aparecimento dos reis magos tem algumas finalidades de ordem esotérica, para os crentes da época, pois a astrologia estava na moda, o que, aliás, renas­ceu na presente data. Os magos foram mais uma evidência de que o nascimento de Jesus foi obra divina, portanto, mais uma comprovação de que ele era uma pessoa especial. Os magos vindos do Oriente, portanto da Pérsia (na época, a Parthia), comprovavam para os crentes da igreja primitiva que Jesus era realmente o messias.

Os persas esperavam o nascimento do deus Mithra, que iria terminar com a luta entre Spenta Mainyu, o arcanjo do bem, e Angra Mainyu, o arcanjo do mal. Ambos, pelas lendas persas, eram arcanjos de grande beleza, filhos de Ahuramazda, o deus supremo dos persas, e Angra Mainyu revoltou-se contra seu pai e criador, junto com vários outros anjos e arcan­jos, formando uma grande legião do mal. Os anjos do mal eram chamados de devas, que nada têm a ver com os devas dos indianos. Pelas crenças persas, a criação divina era dividida em períodos de três mil anos, alternados entre Spenta Main­yu, o bem, e Angra Mainyu, o mal. No final do quarto período, Mithra renasceria como Xaosiante e expulsaria Angra Mainyu para o inferno, definitivamente, implantando um reino onde só iria prevalecer o bem.

Os judeus assimilaram também esta noção, conhecida como Shemitot, sendo descrita no Talmud. Este livro nos diz que o mundo durará por seis mil anos, sendo dois mil anos regidos pelo caos, dois mil pela Torah, e os últimos dois mil serão co­mandados pelo messias. Era natural que os judeus diminuís­sem os ciclos de três mil anos para dois mil e desaparecessem com dois grandes ciclos de três mil anos dos persas para poder coincidir com o seu próprio calendário. Se aceitassem os ciclos persas, ou teriam que aumentar seu calendário, que hoje está por volta de 5.750 anos, ou teriam dificuldades em explicar onde estão os demais anos, já que, na sua concepção, o seu ca­lendário se inicia com a própria criação divina.

Essas idéias foram apreendidas pelos judeus quando es­tiveram no cativeiro da Babilônia e, posteriormente, liberta­dos pelos persas de Kurush (Ciro segundo os gregos). Aliás, várias idéias persas foram adquiridas e incorporadas ao pensa­mento judeu e, posteriormente, ao pensamento cristão. Avin­da de Xaosiante tornou-se a vinda do messias, pois Mithra era um deus guerreiro, resplandecente, que iria derrotar o mal e tirar a tendência maligna do homem através de sua imensa força e poder. O mesmo esperavam os judeus, sendo que, ao incorporarem este conceito, eles o trouxeram para a cultura judaica como sendo um guerreiro libertador do povo judeu, que levaria este povo sofrido e dominado a um patamar eleva­do entre as nações.

Os persas, com sua mitologia de origem ariana, tinham dividido os filhos de Ahuramazda em duas categorias: os mazdas (senhores) e os devas (demônios, antigos mazdas revoltados). Como viam na criação de Ahuramazda uma atividade criativa imensa, a quantidade de mazdas e devas era enorme. Logo, em sua concepção, existia um anjo (mazda) para cada povo, para cada região, para cada pessoa, para cada dia do ano, para cada hora, para cada minuto, para cada segundo, para cada coisa viva, para cada coisa inanimada e, para o cúmulo do exagero, um mensageiro para cada gota de chuva que caía do céu. Os judeus assimilaram esta concepção e também fizeram suas di­visões, atribuindo aos anjos e arcanjos, tronos, dominações, potestades, querubins e serafins, os números extraordinários de mazdas que os persas tinham. Esta crença existe até hoje, es­pecialmente revivida com a crença nos anjos que pulula em vá­rios escritos de inúmeros autores contemporâneos.

O duelo entre Spenta e Angra Mainyu também encontra paralelo nos judeus, pois trata-se da luta entre o arcanjo Mi­guel e suas hostes do bem, contra Lúcifer e suas tropas revolta­das. Quando os judeus retornaram da Babilônia, eles haviam incorporado vários mitos babilônicos, sumérios e persas. Entre eles, existia o mito do 'outro lado' (sitra achra), o lado ne­gro, o mal personificado, ou seja, o adversário. A palavra Sa­tán quer dizer 'o acusador' em hebraico antigo, e o demônio teria uma série de nomes, entre eles o mais conhecido como a vergonha de Deus - Samael. Lúcifer, o portador do archote, não é um nome hebraico ou aramaico, provavelmente, uma interpolação posterior da igreja primitiva para substituir ou acrescentar mais um nome a Satan.

O messias tinha como objetivo, na opinião dos judeus daquela época, retirar o mal do mundo, mal este que estava in­crustado no ser humano por uma inclinação, ou seja, uma cer­ta tendência, digamos, quase atávica, quase genética, que os judeus chamavam de ietser ha-rá. Para os persas a retirada do mal no mundo era quase mágica, mesmo que para os judeus cultos eles diziam que tal tendência podia ser combatida com bons atos, pensamento elevado e o estudo da Torah. No en­tanto, havia a crença de que o messias iria retirar, quase mila­grosamente, este ietser ha-rá dos homens, deixando-os livres do mal, já que Satan ou Samael e suas hostes demoníacas se­riam derrotados e jogados perpetuamente no inferno, de onde não mais sairiam.

Até agora estão explicados o motivo da lenda do messias, os anjos bons e maus de nossa tradição e de onde eles provêm. No entanto, devemos nos perguntar como nascem tais lendas. De onde elas se originam? Minha teoria se baseia no seguinte argumento. Os persas haviam adquirido estas len­das de seus antepassados indo-europeus da vertente oriental, que acreditavam que o grande Varuna havia lutado no céu contra os demônios que haviam se revoltado e os expulsou para a Terra. Esta lenda deve ser melhor entendida como sen­do o grande degredo dos capelinos. Era, portanto, uma remi­niscência, provavelmente mal interpretada, do exílio a que os capelinos foram submetidos pelos espíritos superiores. Contu­do, para não dar a idéia de que eles foram expurgados, expul­sos de seu paraíso e abandonados à sorte, os espíritos guias devem ter influenciado os reencarnados com idéias positivas de que eles seriam sempre ajudados e poderiam ingressar nos planos mais elevados no momento em que atingissem uma evolução espiritual compatível. Ou seja, no instante em que não tivessem mais a inclinação para o mal (ietser ha-rá), somen­te existindo em seus íntimos a inclinação para o bem (ietser tov), esses espíritos - aliás, qualquer espírito - poderia ingres­sar nas esferas felizes.

Deste modo, a lenda de que os arcanjos se revoltaram contra Deus e foram expulsos do paraíso encontra uma expli­cação mais racional no degredo dos capelinos. E preciso so­mente alertar para o fato de que os capelinos não eram espíritos evoluídos que se revoltaram contra Deus, mas sim que os degredados eram espíritos de evolução mediana que haviam se perdido na senda evolutiva, vindo a se tornar psi­copatas, sociopatas, esquizofrênicos, em suma, desviados da lei divina, que exigiam uma recuperação espiritual excessivamen­te demorada, que não mais encontraria local apropriado no seu planeta de origem. Não eram, pois, arcanjos de rara beleza es­piritual que, por motivos fúteis, se revoltaram contra Deus.

Os bons espíritos devem ter informado, através de meios mediúnicos (incorporação, intuição ou vidência) ou de desdo­bramento astral durante o sono, que haveria sempre espíritos iluminados que viriam renascer, em missão sacrificial, junto aos homens, para tirar esta tendência para o mal, tanto do ín­timo do ser humano, como do próprio mundo. Eu acredito que a retirada desta tendência, que não é genética, nem atávi­ca, mas devido à caminhada evolutiva do espírito, portanto algo de muito natural, não se dá por meios miraculosos, e sim, através de um esforço permanente, constante e persistente no caminho do bem. Mas, para os antigos, que desconheciam o conceito de evolução, esta retirada deveria ser feita de forma mágica e ninguém melhor talhado para tal feito mágico e mi­raculoso do que o filho unigênito de Deus. Para os persas, Mithra era o primeiro e grande filho de Deus, o mais evoluído, o mais perfeito de todos os seres depois de Deus, e esta idéia passou para os judeus, e principalmente, para os cristãos, que Jesus tinha de ser o mais perfeito de todos os seres, pois era o próprio Deus feito carne, para usar um jargão católico.
4.6 - Fatos reveladores a respeito de Yeshua

Para tentar detectar quem era Jesus, me baseei em duas versões: a Bíblia e os escritos dos judeus. Se você é capaz de en­tender um ser adulto, você pode, mais ou menos, inferir que tipo de infância e adolescência esta pessoa deve ter tido. Por exemplo, se você encontra uma pessoa refinada, que conhece várias línguas, que dá demonstrações de cultura (mesmo que não seja de forma ostensiva), com boa fluência verbal, com de­terminado sotaque, se se veste com aprumo, comporta-se à mesa com boas maneiras e trata os demais com fidalguia, pode-se concluir que ele teve uma boa educação na infância, pro­vavelmente com pais (biológicos ou sociais) também educados, cursou bons colégios, teve a oportunidade de viajar, seja a ne­gócios e/ou a turismo, provavelmente dado à leitura devido a seu conhecimento cultural. Pelo tipo de sotaque, ou mistura de sotaques, pode-se deduzir onde ele foi criado durante certo período da infância ou adolescência. Em suma, quanto mais você conhecer intimamente esta pessoa, mais você poderá de­duzir (não necessariamente acertar com precisão) que tipo de pais biológicos ou sociais ele teve, que escolas freqüentou, os lugares por onde foi criado e andou e o tipo de emprego que teve (tamanho, cultura e nacionalidade da empresa).

Baseado nestas premissas, é que desenvolvi a história de Jesus. Ou seja, quanto mais conhecermos o Jesus histórico, mais inferências poderemos fazer sobre os anos desconheci­dos. Não significa, entretanto, dizer que iremos acertar com precisão, mas deveremos chegar bem próximos do Jesus real.

4.7 - Yeshua e sua família

A família é um dos aspectos mais importantes para a formação da personalidade de qualquer ser humano. A influên­cia da mãe e do pai, nesta ordem, é de vital importância para a formação da personalidade. Por outro lado, entram neste composto - a personalidade - a classe social, a cultura dessa classe social, a cultura da sociedade em que está inserido o ser humano em formação e a escola. Neste item, entram as in­fluências ternárias, que são os eventuais amigos, os irmãos, se houver, e a classificação do ser humano entre seus irmãos, ou seja, se ele é filho único, primogênito, irmão do meio ou o benjamim - o filho mais novo. Assim também entram as in­fluências temporais, ou seja, a idade dos pais, dos irmãos (a di­ferença de idade) e as doenças ou tipo de alimentação que podem assomar o ser em formação. Deste modo, a este com­posto complexo, ainda iremos juntar a evolução espiritual do ser em formação que irá fazer uma espécie de triagem daquilo que ele recebe e reagir de modo todo particular, gerando uma personalidade toda típica e individual.

Baseado nestas premissas, sabemos, pelas histórias bíblicas, que Jesus tinha vários irmãos, pois há citações textuais a este respeito. Os puristas, que desejam preservar a imagem de uma Maria eternamente virgem, dizem que são seus primos, mas os melhores exegetas da atualidade, inclusive alguns católi­cos de boa cepa, acreditam que não se tratava de primos, e sim de irmãos verdadeiros. Outros, ainda na tentativa de proteger a virgindade permanente de Maria, vêem os demais como filhos de José, provavelmente de um primeiro casamento.

Esta teoria de que José teria tido filhos de um primeiro casamento faria de Jesus o benjamim, ou seja, o filho mais moço de um homem provavelmente já maduro, quem sabe na casa dos quarenta anos. Logo, se esta teoria fosse verdadeira, o seu irmão mais velho deveria estar com cerca de dez anos, no mínimo quando Jesus nasceu. Sabemos que o irmão que assu­miu a continuação da missão evangélica de Jesus foi Yacob (Jacó), apelidado de o Justo, que seria morto no ano 62. Consi­derando-se que Jesus nasceu no ano 6 a.C., Jacó teria nascido por volta do ano 16 a.C, tendo setenta e oito anos na época de sua morte. Muito improvável, já que a idade média naquela época estava situada por volta dos quarenta anos. No entanto, não é impossível, apenas improvável.

Eu não consigo ver em que o fato de Jesus ter irmãos de mesmo pai e mãe pode denegrir a imagem de Maria. Isto pode refutar a permanente virgindade de Maria, mas na reali­dade só a enaltece mais como paradigma da mulher. Não como um ser etéreo, assexuada, mas uma mulher saudável, que mantém um saudável conúbio sexual com seu legítimo marido, tendo pelos métodos naturais a sua extensa prole. Deste modo, temos que deixar de lado este mito da igreja pri­mitiva, pois isto em nada enobrece a sua figura materna, pelo contrário, a transforma numa exceção que de modo algum enaltece a figura feminina.

Se Jesus foi, por outro lado, o primogênito, não há como prová-lo, pois as histórias bíblicas são imprecisas. Há, no entanto, fortes evidências disto de forma indireta. Senão veja­mos. Se Jesus foi de fato perseguido pelo fato de ser o legítimo herdeiro do trono de Israel é porque era o primogênito. Se fosse um irmão do meio, não teria direito ao pretenso trono de David, muito menos se fosse o filho mais novo de um segundo casamento, pois, neste caso, a herança se faz pelo lado paterno e não materno, como afirmam alguns exegetas. O trono era herdado por determinação paterna, seja porque o filho era primogênito ou porque o pai assim determinava, como foi o caso de Salomão, que, mesmo não sendo o primogênito, her­dou de David devido a uma série de insurreições do primogê­nito biológico contra sua figura real. Deste modo, temos que concluir que a possibilidade de Jesus ser o primogênito do ca­sal José e Maria é muito forte. Além disto, José, o pai, também tinha de ser o primogênito de Jacó, o avô, sem o qual Jesus também não teria direito ao trono de Israel. Sabemos que José tinha irmãos (quantos irmãos, nós não temos referências históricas confiáveis), mas temos registro de um que seria Cleophas, também chamado de Alfeu. Qual dos dois nomes é correto? Impossível determinar. Pode até ser que ele tivesse dois irmãos, um Cleophas e outro Alfeu. De qualquer modo, eles parecem não ter tido grandes influências na formação do caráter e personalidade de Jesus.

Sabemos, por outro lado, que, em determinada altura da vida de Jesus, a relação entre Maria e Jesus foi um pouco turva, assim como entre Jesus e seus pretensos irmãos. Os Evangelhos chegam a mencionar que seus irmãos o achavam louco. Por que será que alguém acha outro louco e depois conclui que estava enganado? Provavelmente porque não o entendiam. De qual­quer modo, isto vem demonstrar que Jesus teve algumas desa­venças, não se sabe de que monta, com sua mãe e irmãos.

Podemos, no entanto, concluir que Jesus deve ter sido o filho primogênito de uma família numerosa e que sua relação com a mãe e alguns, senão a totalidade, de seus irmãos foi meio turva, especialmente no início de seu ministério. As ra­zões terão de ser analisadas de forma mais detida adiante.


4.8 - Yeshua tinha um irmão gêmeo univitelino?

Este é um ponto interessante, mesmo que não seja polêmico e nem determinante para a formação final da personali­dade de Jesus, mas que pode ter sua relevância em alguns outros pontos que mencionaremos. Nós nos baseamos em dois fatos. O primeiro é o apelido de Yehudá (Judas), que é chama­do nos Evangelhos de Tomé. O segundo é um escrito em que é mencionado especificamente que Judas é o gêmeo do Senhor (Atos de Tomé).

Tomé, tom, tauma, dídimo significa gêmeo de forma inequívoca em hebraico, diminutivo hebraico, siríaco ou ara­maico e grego clássico antigo. O leitor poderia dizer que Judas poderia ser gêmeo de qualquer outro irmão de Jesus e não ne­cessariamente do próprio. No entanto, a segunda assertiva nos leva à conclusão de que há escritos, Atos de Tomé, que di­zem textualmente, 'Judas dídimo, vós que sois gêmeo do Se­nhor...'. O leitor pode dizer duas coisas quanto a esta frase. A primeira que se trata de um evangelho apócrifo, portanto su­jeito a dúvidas. A segunda é, como muitos exegetas assim o di­zem, que Judas era gêmeo em espírito, tendo o mesmo modo de pensar de Jesus, mas não necessariamente gêmeo físico.

Eu relutei durante alguns anos em acreditar nesta possibilidade, ou seja, de Jesus ter um irmão gêmeo. Eu me per­guntei, diversas vezes, qual seria o motivo que os espíritos superiores teriam em lhe colocar um gêmeo. Várias suposições me passaram pela cabeça, desde as mais descabidas, as quais não descartei de imediato e outras um pouco mais sadias, as quais analisei com mais cuidado.

Um dos aspectos descabidos foi imaginar que os espíri­tos superiores poderiam ter colocado um irmão gêmeo para morrer no lugar de Jesus, permitindo que ele continuasse vivo e intacto. Concluí que seria uma fraude e uma ignomínia, tanto dos espíritos superiores como do próprio Jesus deixar seu irmão gêmeo morrer em seu lugar. Seria vergonhoso e digno de um crápula. Portanto, acabei eliminando esta possibilidade, mesmo sabendo que há pessoas que acham que isto seria possível.

A razão mais séria é um fato de relevante importância na personalidade dos gêmeos. A maioria dos gêmeos univitelinos tem uma simbiose psíquica muito aguda, permitindo que vários fenômenos de telepatia sejam um fato corriqueiro. Ora, esta simbiose pode ser conseguida com outras pessoas, mas ja­mais tão profundamente e naturalmente do que com os gêmeos.

Para que seria preciso esta simbiose? Dediquei-me a alguns pensamentos e concluí pela seguinte teoria. Os Evange­lhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) foram escritos entre os anos 60 e 100 da era comum, portanto muito provavelmen­te por pessoas que tiveram contato com Mateus e Marcos, já que se sabe que Lucas era um grego que jamais conheceu Jesus pessoalmente. No entanto, os exegetas estão mais do que con­vencidos de que estes Evangelhos foram construídos sobre fra­ses avulsas, soltas, compiladas no decorrer do tempo, tornando-se conhecido no meio acadêmico como o Evangelho Q (Q de Quelle que, em alemão, significa fonte). Ou seja, havia manuscritos que foram compilados por alguém que retratava as palavras de Jesus, mas não os atos, portanto não era uma história cronológica da vida pública de Jesus. Era apenas, e não deixa de ser importante, uma coletânea das palavras, nem todas, mas apenas de algumas das frases provavelmente mais marcantes da pregação de Jesus.

Neste caso, quem melhor do que alguém que tivesse uma simbiose perfeita, dentro do que se pode considerar como perfeição, com o divino mestre, para compilar e enten­der a fim de poder interpretar as palavras de Jesus. Neste caso, Judas, apelidado de Tomé, seria a pessoa ideal, devido à sim­biose psíquica que devia ter com seu gêmeo.

O leitor pode se perguntar por que não Jesus escrever suas próprias palavras. Creio que a resposta mais correta seria a total falta de tempo a que devia estar submetido este ho­mem. Do momento em que começou seu ministério, ele devia ser avassalado por inúmeras pessoas, algumas à procura de cu­ras e outros atrás de informações e questionamentos. Há pas­sagens em que se nota que Jesus ficava tão assoberbado com a multidão que lhe solicitava as coisas mais estapafúrdias, assim como de pessoas que vinham discutir questões importantes, que os seus apóstolos eram obrigados a protegê-lo e expulsá-los que o incomodavam. Logo, tinha de haver alguém capaz de compilar os ditos de Jesus para a posteridade.

Para entender os motivos de não se escrever uma crôni­ca detalhada sobre Jesus, é preciso se despir da nossa cultura atual e regredir àquela época. A imensa maioria não sabia es­crever e os livros não existiam. O que havia eram rolos de pa­piros ou de outro material (pele de animais, tábua de argila etc.) em que se escreviam à mão as histórias. A reprodução desses manuscritos era lenta e custosa. O povo não tinha aces­so à leitura metódica e constante. Somente após o advento da imprensa, e mesmo assim depois que a sociedade se preocu­pou em alfabetizar a grande massa de desvalidos, é que a in­dústria editora deslanchou. No entanto, já estamos falando dos séculos XIX e XX. Antes, ler era luxo para poucos, que guardavam esta arte a sete chaves, pois conhecimento é poder.

Estou plenamente convencido de que Jesus e seus discípulos não tinham a intenção de escrever compêndios, até por­que, é minha opinião, Jesus nunca quis reescrever a kitvei ha-kodesh, ou seja, as sagradas escrituras, comumente chama­das de Bíblia. Veremos que sua missão era de teor diferente, e que, pelas suas próprias palavras, ele não tinha vindo para re­futar a lei dos profetas, mas para fazê-la cumprir em todos os seus pontos. Isto significa que ele achava que as escrituras sagradas já eram suficientes para levar o homem ao bom cami­nho e nada tinha que acrescentar a não ser uma interpretação mais espiritual das palavras, que dizer, nem tanto a letra que mata, mas sim o espírito que vivifica. Tanto é que todas as suas palavras acabavam reforçando o que existia na Bíblia, não tra­zendo nenhum ensinamento diferente, mas apenas solidifi­cando o que já existia, dando-lhe uma interpretação mais amorosa, fraterna e universal.

Como conclusão, creio que os espíritos superiores determinaram a vinda de um co-messias, se é que posso usar esta estranha expressão, como um apoio logístico, moral e intelec­tual a Jesus. No entanto, parte da missão de Judas que seria de continuar a missão de Jesus no caso de ele morrer - algo que discutiremos mais adiante - acabou por se tornar nula devido à perseguição romana à família de Jesus. (Sobre isto, sabe-se que os romanos chegaram a perseguir a família de Jesus no ano 132, portanto não era apenas uma coisa local e fugaz, mas algo de grave, pois eles sabiam que deviam exterminar a possi­bilidade de existirem descendentes de David a reivindicar o trono de Israel.) No entanto, a compilação das palavras de Je­sus, especialmente aquelas que não eram as usuais, aquelas que ele não devia repetir com insistência (todo mestre é obri­gado a repetir as lições para que elas se solidifiquem na mente dos alunos) devem ter sido compiladas pelo seu gêmeo, geran­do o evangelho Q. Neste ponto, Judas, Tomé, Dídimo ou simplesmente Tauma (Tomás) foi de relevante importância para a doutrina cristã.


4.9 - Yeshua tinha sotaque egípcio?

Devemos esclarecer de imediato que o sotaque egípcio mencionado aqui neste ponto é o sotaque do judeu alexandri­no, e não um eventual sotaque de algum egípcio antigo (um kemetense) que soubesse falar o aramaico. Os judeus tinham aversão aos egípcios, tanto o egípcio antigo, por terem sido os adversários de Israel em várias ocasiões, como também aos ju­deus que haviam se fixado em Alexandria, cidade situada no Egito, por os considerarem pessoas conspurcadas pela cultura variada que existia em Alexandria, como também 'traidores' que preferiram a antiga terra dos seus inimigos históricos em vez de morarem na terra prometida.

O fato de Jesus ter um sotaque egípcio é um ponto ja­mais mencionado por nenhum exegeta, historiador ou estudioso do assunto. Levantei tal aspecto em Guerra dos judeus e Antigüidades judaicas, escritas pelo judeu helenizado Josefo. O texto em Josefo é o seguinte:

Um golpe ainda pior foi desferido contra os ju­deus pelo falso profeta egípcio. Um charlatão, que ob­tivera fama de profeta, este homem apareceu no país, reuniu cerca de trinta mil seguidores ingênuos, e con­duziu-os por um caminho tortuoso do deserto até o monte chamado monte das Oliveiras. Daí propôs for­çar uma entrada em Jerusalém, e depois de dominar a guarnição romana, estabelecer-se como tirano do povo, empregando aqueles que entraram com ele como sua escolta. (Josefo, Guerra dos Judeus, 2261-262.)


Nessa época chegou em Jerusalém um homem proveniente do Egito que declarou que era um profeta e aconselhou as massas do povo comum a irem com ele para a montanha chamada monte das Oliveiras, que fica do lado oposto à cidade numa distância de um quilômetro. Pois afirmou que desejava demonstrar daí que sob seu comando as muralhas de Jerusalém cairi­am, através das quais prometeu dar-lhes uma entrada na cidade. (Josefo. Antigüidades Judaicas, 20169-170.)

Estes textos são altamente polêmicos, pois a maioria dos exegetas acha que Josefo está se referindo a outro profeta, e não a Jesus. Os exegetas afirmam que isto se passou no tempo do procurador Félix, e que rapidamente suas tropas massacra­ram os incautos, mesmo que o egípcio escapasse. Félix gover­nou a Judéia de 52 a 60 (?), enquanto que Pilatos foi de 26 a 36. Há, portanto, uma diferença de dezesseis a vinte anos.

No entanto, as coincidências são fortes, pois Jesus também juntou as pessoas no monte das Oliveiras - local em que os peregrinos se reuniam para irem até Jerusalém - e entrou na cidade santa em grande séquito e, durante a Páscoa em que foi morto, houve um ataque à fortaleza Antônia, onde estavam os romanos.

Eu creio que Josefo estava se referindo a dois fatos parecidos. Um acontecido no tempo de Pilatos e outro no tempo de Félix. O de Pilatos é o texto número 1, enquanto que o tex­to número 2 é o do tempo de Félix. Ambos tiveram massacres de judeus e em ambos, durante as lutas, os profetas fugiram, sendo que Jesus seria preso logo a seguir, enquanto o destino do outro egípcio, se é que era egípcio, não é conhecido.

Outros dizem que Josefo não poderia estar se referindo a Jesus, pois o chama nominalmente de falso profeta egípcio, enquanto que a Jesus, ele o intitula de:

... Homem sábio, se é que se pode chamá-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com pra­zer. E ele ganhou seguidores tanto entre os judeus, como entre muitos de origem grega. Ele era o messias.

No entanto, os próprios exegetas afirmam que este texto, que aparece na vulgata grega, é falso, tendo sido uma interpolação posterior da igreja primitiva.

Retornando a Josefo, e baseando-nos em que o texto (1) esteja se referindo a Jesus, por que ele o chamaria de falso pro­feta egípcio? Por que alguém teria uma alcunha de uma deter­minada região de qualquer país? Sem dúvida, é porque esta pessoa tem o sotaque daquela região. Não significa, contudo, que seja daquela região. Alguém nascido na França e criado na Inglaterra terá um sotaque britânico, mesmo que seja francês de nascimento.

Ora, o sotaque é algo que se ganha não só habitando certa região, mas dentro de certa faixa etária. Os estudos lingüísticos demonstram que se aprende uma língua com um de­terminado sotaque entre os dois e quinze anos, e quanto mais cedo melhor. Após os vinte anos, quando se aprende outra lín­gua, torna-se difícil aprendê-la com um sotaque adequado, sempre se colocando a nova língua sob a égide do sotaque de sua língua original. Por isto, os americanos e franceses, assim como outros povos, falam outras línguas com indefectíveis so­taques natais.

Se Jesus tivesse vivido sua infância em Alexandria, ele te­ria adquirido o sotaque egípcio, mas se voltasse para a Galiléia, para Nazaré, ele perderia este sotaque durante a adolescência e iria adquirir o sotaque galileu. Portanto, ele deve ter vivido em Alexandria até ter alcançado a idade adulta, quando dificilmen­te o sotaque se perde, solidificando-se em sua mente.

Por outro lado, os seus irmãos e primos não tinham o so­taque egípcio, sendo que eram considerados pelos judeus da Judéia como 'am-ha-arez' - homens simples e rudes da Galiléia -, isto porque deviam ter o sotaque galileu que os judeus da Judéia achavam inculto e atrasado. Logo, os irmãos de Jesus não foram criados até a idade adulta em Alexandria.

Acredito que Jesus tinha o sotaque dos judeus alexan­drinos e que isto não lhe criou problemas na Galiléia, pois os galileus tinham pouco ou nenhum contato com os judeus ale­xandrinos, mas que deve ter sido mais um motivo de resistên­cia durante a sua pregação na Judéia.

Um dos problemas que me criou uma imensa dúvida é se Maria deixaria Jesus ficar só, ou seja, longe de seus olhos e cuidados. Esta dúvida quase me fez desistir desta hipótese, pois mãe nenhuma deixaria seu filho ficar distante. No entan­to, fui perseguido pelo sotaque egípcio de Jesus e a falta deste sotaque por parte de seus irmãos. Como conciliar tal fato?

Eles tinham que ter sido criados separados e isto só poderia acontecer se e unicamente se existisse real perigo, não só para Jesus, mas para toda a família. Por outro lado, o que teria feito um homem de Belém ter ido morar em Nazaré, uma ci­dade miserável da Galiléia? Por que ele não ficou em Belém onde haveria mais oportunidades de ele criar bem sua família? Por que não foi para Cesaréia marítima, onde Herodes Antipas estava fazendo várias obras e um carpinteiro seria bem-vindo?

A resposta só pode ser o medo da perseguição da família de Herodes. Se procurassem por uma família com um par de gêmeos, José seria facilmente achado. Já se fosse uma família perdida na Galiléia, sem gêmeos, ele passaria despercebido, diminuindo o risco de ser descoberto. Creio que isto deve ter sido o motivo determinante de separar os gêmeos e colocá-los em lugares distantes e seguros. Judas, o Tomé, teria ido para Caná morar com o irmão de José, Cleophas, enquanto que Jesus retornaria para Alexandria, indo morar com algum parente.

Além disto, tudo, um rapaz com treze anos, pela lei judaica já é considerado adulto, quanto mais Jesus, que deve ter demonstrado precocemente que era muito mais maduro, por­tanto responsável e digno. No entanto, sei que isto é uma hi­pótese que deixará o leitor bastante em dúvida, mas o decorrer da história demonstra que a relação, pelo menos ini­cial, entre Jesus e sua mãe, sempre foi meio turva, provavel­mente por duas razões. A primeira porque Jesus não era uma criança/adolescente comum, o que sempre traz preocupação aos pais, especialmente à mãe. Se há por um lado orgulho em ter um filho precoce, há a preocupação de vê-lo cada dia mais afastado e pouco integrado em seu grupo. Isto se deve ao fato de que a idade mental é muito mais adiantada, o que o impede de se relacionar com os jovens de sua idade, mas também de não ser bem aceito pelos adultos, pois fisicamente o corpo ain­da é o de uma criança. Pode ser muito interessante, mas é sem­pre motivo de desconfiança e muitos irão ver a criança adiantada como um chato, um ser fora de seu tempo.

A segunda razão é porque, como Jesus foi criado duran­te um certo tempo longe dos olhos da mãe, ele se tornou, de certa forma, um estranho. Sua forma de pensar, de falar e de agir devia ser diametralmente oposta, ou pelo menos diferen­te, à dos seus irmãos, o que deve ter deixado sua mãe ainda mais preocupada e seus irmãos reticentes quanto à figura proeminente de Jesus.

Concluindo: estou muito convencido do fato de Jesus ter o sotaque egípcio e de ter sido educado entre os terapeutas de Alexandria, onde pôde desenvolver sua vasta cultura e sua taumaturgia excepcional.


4.10 - Yeshua teve uma discussão teológica no templo?

Em algum ponto da história, Jesus deve ter sido aparta­do ou se apartou de sua família, ficando em Alexandria com alguns parentes. Na minha opinião, isto deve ter acontecido depois de sua discussão no templo, com os sacerdotes do tem­plo e/ou membros do sinédrio. No entanto, no livro Jesus, o di­vino discípulo, eu escrevi a história de sua discussão teológica na casa de Nicodemos, e não no templo.

Creio que a discussão no templo seria por demais problemática para um jovem rapaz. Dificilmente, os sacerdotes o teriam questionado no templo, a não ser que ele tivesse se des­tacado de forma admirável e fosse um candidato a ingressar no templo. Aliás, esta é uma possibilidade fascinante, que da­ria uma outra vertente à história. Ou seja, Jesus tenta entrar no templo e é vetado pelas suas idéias originais, indo para Ale­xandria para complementar seus estudos. No entanto, por mais interessante que seja esta possibilidade, eu a descartei, já que Jesus, em sua idade madura, nunca teve idéias que fossem contrárias ao cânon da religião judaica.

O leitor poderá dizer que, pelo contrário, sua livre interpretação da lei judaica e especialmente suas afirmações de que ele destruiria o templo e o reconstruiria, além de se dizer filho unigênito de Deus, foram motivo de sua desgraça e de grande escândalo entre os sacerdotes do templo. Realmente, se isto aconteceu, é motivo suficiente para ser degredado de Israel. Há, contudo, dúvidas entre os exegetas, se Jesus real­mente afirmou tal fato. Muitos acham que a destruição do templo e sua reconstrução em três dias seria uma interpolação posterior para confirmar sua ressurreição. Assim como afir­mar que era filho unigênito de Deus. Aliás, as passagens são obscuras, pois os Evangelhos afirmam que Jesus teria dito em várias passagens que ele era enviado do Pai, e que só se vai ao Pai através do Filho etc., no entanto, há outras passagens, onde ele nega a sua própria filiação unigênita. Na passagem onde ele repreende os judeus por tê-lo chamado de bom, di­zendo que bom só Deus, ele, de certa forma, nega a sua igual­dade com o próprio Deus, colocando-se num patamar inferior. Quando ele afirma que lodos são deuses, mais uma vez ele também reafirma que todos os seres humanos também são filhos de Deus, assim como ele mesmo. Não há uma séria comprovação de que ele tenha afirmado que o caminho da sal­vação passasse inequivocamente por sua figura, e os trechos que assim o afirmam contrariam a sua pregação e sua doutrina, que veremos no próximo capítulo, era muito mais revolucionária do que se pode esperar.

De qualquer forma, o evangelho cita textualmente que, aos doze/treze anos, ele teve uma discussão com os sacerdotes e ele ficaram estupefatos com seu conhecimento precoce. Os seus antagonistas judeus afirmam que Jesus teve uma discus­são com os rabinos, denegrindo e blasfemando contra a reli­gião e fugiu para o Egito onde aprendeu as artes mágicas, tornando-se um grande feiticeiro. Retornou do Egito, pregan­do a destruição de Israel, tendo vindo com fórmulas mágicas coladas nas dobras de seu corpo, e praticando todo tipo de sortilégios e feitiçarias.

Esta versão judaica anticristã não deixa de ter um fundo de verdade. Provavelmente, ele se notabilizou em sua discus­são com os sacerdotes do templo, chamando excessivamente a atenção para a sua pessoa. Como a família de José precisava fi­car o mais incógnita possível, já que temiam a perseguição dos romanos e dos filhos de Herodes, o Grande, o teriam enviado para a segurança relativa de Alexandria, apartando-se dele e se escondendo numa cidadezinha miserável da Galiléia. Os sa­cerdotes não devem ter gostado de terem sido humilhados - se é que o foram - por um rapazola mal saído dos cueiros, e regis­traram tal fato, pelo menos mentalmente, considerando-o um apóstata ou, no mínimo, um mal guiado.

Na história, eu faço Jesus ter uma discussão teológica com Shamai, uma figura real, historicamente comprovada, grande adversário político de Hilel. Este foi chefe do sinédrio por muitos anos, tendo sido um homem de notável inteligên­cia e de grande tolerância, especialmente para com os pobres e os convertidos. Já Shamai era um radical, também de grande inteligência e sagacidade, mas sempre liderou a oposição mi­noritária a Hilel, o que sempre o deixou enfurecido, já que suas idéias não prevaleciam. É impossível se determinar se Je­sus teve ou não uma discussão com Shamai, conforme eu rela­tei na história, e muito menos saber o teor desta conversação.

No entanto, houve um motivo para inferir que Jesus tivesse discutido com o próprio Shamai, senão vejamos. Se Jesus tivesse discutido com alguém sem nenhuma importância, sua alocução teria caído no vazio. Ninguém iria se preocupar se ele tivesse 'entortado' um pobre rabino, ou um sacerdote de ordem inferior. Pelo contrário, ter sido 'engolido' por um jo­vem mancebo teria sido motivo de vergonha e chacota para o infeliz, e por mais que ele falasse que Jesus blasfemou, ele teria preferido ficar quieto a confirmar que o jovem o derrotou numa discussão teológica, tão a gosto do povo judeu. Jesus te­ria que ter derrotado um potentado do sinédrio, alguém de importância, publicamente, na frente de testemunhas, de tal ordem que o desmoralizasse. Ora, Hilel que morreu no ano 10 d.C., além de ser um homem tranqüilo e gentil, não teria en­trado em choque com Jesus, sabendo contornar suas eventuais idéias diferentes. Por outro lado, Shamai é o candidato mais correto, pois era um homem maduro, mas ainda relativamen­te jovem, tentando se impor, mostrando-se arrogante e deter­minado em vencer qualquer discussão teológica. Portanto, uma.provável discussão teológica entre o jovem Jesus e o ma­duro Shamai, mesmo que não possa ser provada, é uma hipótese atraente.

Na história, eu desenvolvi a discussão em dois pontos: Deus não é um ser discricionário e como conclusão lógica a re­encarnação é um processo de elevada justiça que demonstra a eqüidade divina. Como não há registros do teor da conversa de Jesus com um provável Shamai, eu parti para este caminho para poder discutir um ponto que acho de relevante impor­tância. Várias religiões monoteístas, entre elas certas facções do cristianismo que são uniexistenciais (acreditam numa só vida), acabam por afirmar que Deus é discricionário, ou seja, ele concede uma graça a quem Ele assim achar que merece, e não nos cabe julgar seus desígnios. Esta concepção traz à luz um Deus de certa forma injusto, temperamental, bem adequa­do ao antigo Yahveh, senhor dos exércitos, destruidor de seus inimigos. No entanto, as concepções mais modernas de Deus renegam essa figura prepotente e violenta, procurando afir­mar que Deus é principalmente justo e que sua justiça e bon­dade, bem mescladas e dosadas com infinita sabedoria, determinam todas as leis da natureza, incluindo, naturalmen­te, os seres humanos.

De uma forma ou de outra, tenha Jesus ou não discutido com os doutores da lei judaica, tudo parece indicar que tal fato aconteceu e que o criou problemas. Nos Evangelhos notamos uma mãe, de certa forma, irritada com o desaparecimento do filho e que o repreende, provavelmente em tom veemente. A história bíblica é meio inverossímil, pois quem seria irrespon­sável a ponto de perder o filho, achando que estava com o ou­tro cônjuge, num período tumultuado e de certa forma perigoso, e só procurá-lo alguns dias mais tarde, para encon­trá-lo discutindo com os doutores da lei? Como é que Jesus se alimentou durante este tempo, e ele não teve consideração para com seus pais? Vê-se, pois, que esta lenda é apenas para reforçar a figura divina de Jesus que se manifesta desde tenra idade, mas provavelmente deve ter sido extraída de um fato real e marcante, que provavelmente determinou o restante da existência de Jesus, pelo menos na sua adolescência.

Estou convencido de que esta discussão teológica trouxe muito mais do que reputação ao jovem Jesus, mas deve ter sido o principal motivo para que ele retornasse para Alexandria e os pais se homiziassem em Nazaré.




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