A publicidade veiculada nas emissoras de rádio de Blumenau nas décadas de 60 e 70



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A publicidade veiculada nas emissoras de rádio de Blumenau nas décadas de 60 e 70

Autores: Clóvis Reis – Doutor em Comunicação

César Martins – Bacharel em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda

FURB – Universidade Regional de Blumenau


1 – Introdução
Ao contrário do que ocorreu nos grandes centros do Brasil, onde os anos dourados do rádio se situam entre as décadas de 30 e 60, em Blumenau a época áurea do meio foram os anos 60 e 70. Nesta época, a cidade contava com cinco emissoras de rádio. Eram elas: Clube, Difusora, Nereu Ramos, Alvorada e Blumenau.

A primeira delas foi também a primeira emissora de rádio do Estado. A história da Rádio Clube de Blumenau começou em 1929, com um serviço de alto-falante instalado pelo radioamador João Medeiros Junior. A partir de 1931, tais experiências passaram a utilizar um transmissor de 150 watts e Medeiros Júnior fundou então uma sociedade, para captação de recursos através de apólices que vendeu para amigos e conhecidos. Em 1935, a emissora entrou no ar em caráter definitivo.

No período das irradiações experimentais, Medeiros Júnior já havia conseguido junto ao governo federal a concessão do prefixo PRC-4. Com efeito, a Clube é a única emissora em Santa Catarina com o prefixo PR, característico das mais antigas estações de rádio do país (MEDEIROS; VIEIRA, 1999, p. 29).

A licença oficial para o funcionamento definitivo da Clube saiu em 19 de março de 1936. Neste período a rádio já estava mais potente, utilizando um transmissor de 500 watts.

No final da década de 30, Medeiros Júnior vendeu suas cotas de participação na emissora para cuidar de assuntos pessoais. Luiz de Freitas Melro e Flavio Rosa com o passar dos anos compraram as cotas de participação dos demais proprietários, tornando-se então os acionistas majoritários de uma organização que posteriormente se tornaria um grande grupo multimidiático.

Em 1957, entrou em atividade a Rádio Difusora. Era uma rádio afiliada ao grupo Coligadas de Emissoras, que na época também era proprietário da Rádio Clube de Blumenau. As Emissoras Coligadas eram compostas por seis estações: Clube de Blumenau, Clube de Indaial, Clube de Gaspar, Clube de Itajaí, Difusora de Blumenau e Araguaia de Brusque. Seus proprietários eram Luiz de Freitas Melro e Flavio Rosa que, anos mais tarde, fundariam em Blumenau o Jornal de Santa Catarina e a TV Coligadas, a primeira emissora de televisão de Santa Catarina.

A Difusora absorveu funcionários advindos da rede de emissoras. Com isso, já nasceu com profissionais conhecedores da linguagem do rádio, diferentemente do que ocorreu com a Rádio Clube de Blumenau, onde a improvisação e o experimentalismo marcaram as primeiras transmissões. Em 1990, a Difusora adotou o nome de Rádio Globo.

Por sua vez, a Rádio Nereu Ramos inaugurou suas operações em 1° de setembro de 1958. Seu fundador foi Evelázio Vieira, popularmente conhecido como Lazinho. O empresário foi um grande jogador de futebol e posteriormente um dos políticos mais influentes de Santa Catarina.

A Nereu foi a responsável direta pelos anos dourados do rádio no mercado local, pois contratou profissionais experientes de Curitiba, no Paraná, e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A emissora inaugurou o uso da unidade móvel nas transmissões externas e desencadeou uma forte concorrência com a Clube e a Difusora. O dinamismo de suas atividades obrigou uma reação das concorrentes, melhorando a programação e dando início a um período de grandes transformações no meio.

Já a Rádio Alvorada surgiu em 20 de julho de 1962. Há muita controvérsia em relação ao nome dos seus fundadores, posto que no Arquivo Histórico de Blumenau não se encontram documentos que comprovem a propriedade da emissora na época. No final da década de 70, a Alvorada passou para o controle da Fundação Isaec de Comunicação e mudou de nome para Rádio União. Os pontos fortes da programação eram o jornalismo e as transmissões esportivas. Em 1988, a emissora passou a se chamar Unisul e, em 1995, adotou o nome de CBN Vale do Itajaí.

Finalmente, a Rádio Blumenau entrou no ar em 1° de abril de 1967. Seus fundadores são Airton Arival Rebello e Péricles Rebello. A Blumenau mudou o modo de se fazer rádio na cidade, transmitindo nos moldes de uma emissora FM e oferecendo os serviços de agência de notícias para outras estações da região. No final da década de 80, a Blumenau passou a se chamar Rádio Jornal de Santa Catarina, porém anos mais tarde retomou o antigo nome.

Atualmente, Blumenau possui 11 emissoras de rádio de âmbito comercial. São elas: Clube, Globo, Nereu Ramos, CBN Vale do Itajaí e Blumenau, que transmitem em AM; e Atlântida, Band, Guararema, Menina, 90 Light Hits e União, que operam em FM.


2 - Desenvolvimento
2.1 – Problema de pesquisa
A história da publicidade radiofônica no Brasil divide-se nos seguintes períodos: a) a descoberta dos formatos de anúncio, de 1922 a 1930; b) a expansão e consolidação dos investimentos, de 1930 a 1960, considerados os anos dourados do rádio; c) as mudanças ante a presença da televisão, de 1960 a 1980; d) a transição para um novo modelo de mercado, a partir de 1980 (REIS, 2004, p. 2). Tais etapas e suas transformações estão vinculadas a aspectos tecnológicos, jurídicos e econômicos que protagonizam o rádio, a publicidade e o próprio país.

Já em Blumenau os anos de ouro do rádio foram as décadas de 60 e 70, posto que anteriormente não havia concorrência nas transmissões. Até então, estavam no ar apenas a Rádio Clube e a Rádio Difusora, que eram do mesmo grupo empresarial. A disputa pela audiência começou efetivamente com a inauguração da Rádio Nereu Ramos, em 1958, e se acirrou com a entrada em operação da Rádio Alvorada, em 1962, e da Rádio Blumenau, em 1967, o que se refletiu na qualidade da programação e no avanço tecnológico das transmissões. Em 1969 entrou no ar a TV Coligadas, que ao final da década de 70 já detinha o prestígio, a audiência e o faturamento publicitário antes dedicados ao rádio.

Com o objetivo de contribuir para o resgate da história da publicidade radiofônica neste período, a presente pesquisa busca responder as seguintes perguntas:

1) Quais eram os principais programas das emissoras de rádio de Blumenau nas décadas de 60 e 70?

2) Quais eram as formas de venda da publicidade utilizadas para o financiamento da programação neste período?

3) Qual era a estrutura de funcionamento do Departamento Comercial das emissoras?

Com tal fim, realizou-se uma pesquisa histórica, através de visita às emissoras, entrevista com profissionais da época, consultas ao Arquivo Histórico de Blumenau e bibliotecas da região Os dados coletados foram dispostos cronologicamente, para facilitar a análise e permitir uma avaliação comparativa.

Os resultados expostos a seguir são uma síntese do Trabalho de Conclusão de Curso do acadêmico César Martins, apresentado ao Curso de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da FURB – Universidade Regional de Blumenau, sob a orientação do Professor Clóvis Reis.


2.2 – Principais programas
A programação radiofônica se compõe de programas, também denominados espaços. O programa radiofônico compreende um conjunto de conteúdos diferenciados do discurso radiofônico, com uma estrutura própria e uma duração concreta (LEGORBURU, 2004, p. 61-67). Em geral, os programas se dividem em informativos, de variedades (ou magazines), esportivos, musicais, dramáticos, de entretenimento, formativos e especializados.

A seguir são descritas as principais características dos programas que alcançaram maior repercussão no rádio blumenauense durante as décadas de 60 e 70.

2.2.1 – A marcha do esporte
O programa “A marcha do esporte” constitui um verdadeiro marco na história do rádio local, já que foi o primeiro programa esportivo produzido em Santa Catarina. Criado pelo radialista Manoel Pereira Júnior em 1943, ia ao ar das12h40min às 13h, pela Rádio Clube de Blumenau.

“A marcha do esporte” era o programa de maior audiência da época e, conseqüentemente, o que tinha o custo mais elevado para a inserção de publicidade. Foi patrocinado com exclusividade durante 38 anos pela Transportadora Vale do Itajaí.

Em 1954, Manoel Pereira Júnior deixou a Clube, tomando o seu lugar o jornalista José Gonçalves, que dirigiu o programa até 1957. Com a sua saída, Tesoura Junior assumiu o cargo de editor de esportes da emissora.

Tesoura Júnior começou na Clube em 1946, sendo assistente direto dos antecessores. Trabalhou na emissora até se aposentar, em 1984, totalizado 38 anos de dedicação ao radiojornalismo esportivo. Nolte (2003) conta que o radialista era muito respeitado: “O Tesoura Júnior derrubava técnico de futebol. Se ele comentava que o jogo estava mal, os dirigentes escutavam muito ele. Ele era inteligente, conhecia tudo sobre futebol”.

O apresentador implementou um programa com pré-produção e, segundo o próprio Tesoura Júnior (2003), a partir do momento em que assumiu a direção esportiva da emissora as notícias de âmbito local tornaram-se a prioridade de “A marcha dos esportes”.
2.2.2 – Preto no branco
O programa “Preto no branco” foi ao ar no início da década de 60. Começava às 21h30min, terminando geralmente às 23h. Alguns programas, devido ao grande prestígio do entrevistado, iam até a meia-noite. Vários personagens da época declaravam que a cidade sintonizava o programa para ter o que falar no outro dia.

O apresentador era o proprietário da Rádio Nereu Ramos, Evilázio Vieira, o Lazinho, que era substituído eventualmente por Álvaro Correa. Lazinho (2003) lembra que “o programa permitia a vinda a Blumenau de pessoas de renome em todo o Brasil e que isso prestigiava a emissora, aumentando o seu conceito”. O faturamento gerado com a venda de cotas de patrocínio e a utilização de expedientes como a permuta de anúncios por serviços de origem diversa possibilitavam a participação políticos, celebridades e profissionais liberais com atuação nos grandes centros do Brasil.

Uma das características do “Preto no branco” era o grande esforço de pré-produção do programa e a liderança em diversas campanhas comunitárias, como a mobilização para a instalação da FURB – Universidade Regional de Blumenau e o asfaltamento da BR-101. O programa pavimentou a carreira política de Lazinho, que posteriormente se elegeu deputado, prefeito e senador.
2.2.3 – Críticas e venenos
“Críticas e venenos” era um programa de muito sucesso, explorando o bom humor. Buscava-se o pitoresco do mundo esportivo, as trapalhadas de seus dirigentes, jogadores e árbitros. O programa nasceu de uma coluna de jornal. Seu criador, Adolfo Nolte, conta que era linotipista do jornal A Cidade, de Blumenau, e durante a noite escrevia esta coluna. Ninguém sabia quem era o autor, já que ele usava o pseudônimo de “O Carrasco”.

Nolte foi levado para a Rádio Clube por Tesoura Júnior, em 1953, onde transformou a coluna em um programa de rádio. O espaço ocupava horários variados, sendo usado para alavancar a audiência dos demais programas da emissora. Normalmente ia ao ar das 11h45min às 12h.

O “Críticas e venenos” consistia, como o nome já diz, em uma crítica a determinada personalidade da vida esportiva, utilizando texto e música. O texto configurava, descrevia a situação. Era a crítica. A música fazia o fechamento humorístico do quadro. Era o veneno.

A emissora também veiculava o programa na abertura das transmissões esportivas, como lembra Nolte (2003): “Antes do jogo, os melhores momentos da semana eram reprisados. Então nos estádios de futebol era aquela alegria toda, pois antigamente eles levavam o radinho de pilha para os campos. Era um sucesso... A gente tinha até orgulho de apresentar o programa”.

A comercialização do espaço dava-se por aluguel do horário na grade de programação, ou seja, a emissora fixava um determinado valor e o apresentador vendia anúncios publicitários para viabilizar economicamente a transmissão.

2.2.4 – Picape da frigideira


A transmissão do programa “Picape da frigideira” começou com a vinda do radialista Nelson Rosembrock para Blumenau. Ele era oriundo da Rádio Araguaia de Brusque e veio reforçar o elenco da Rádio Clube, que sentia a forte concorrência da Rádio Nereu Ramos.

O nome “Picape da frigideira” foi criado pelo radialista Altair Carlos Pimpão (KLUEGER, 2002, p. 15). A marca característica do programa era exatamente o barulho das batidas de uma colher desferidas contra uma frigideira, além do placar dos nascimentos nas maternidades da região, a música regional e o horóscopo.

Durante 15 anos o programa contou com o patrocínio exclusivo da rede de lojas Prosdócimo, que foi sucedida pelas Pilhas Eveready.
2.2.5 – A Blu é uma parada
O programa “A Blu é uma parada” é fruto direto das inovações implantadas pela Rádio Blumenau em termos de programação radiofônica, que seguia os moldes das primeiras emissoras de FM, com intensa difusão de músicas de sucesso. Amorim (2003) recorda: “O programa era transmitido aos sábados. A gente passava na rua e todo mundo estava ouvindo a emissora”. O slogan do programa era: “Só porque hoje é sábado, a Blu é uma parada”.

O programa estreou em meados da década de 70 e ficou no ar por mais de 15 anos. O “Blu é uma parada” teve como patrocinadores durante muitos anos a Drogaria Catarinense e a rede de lojas Utilar.


2.2.6 – Repórter catarinense
O “Repórter catarinense” foi um programa jornalístico criado por Manoel Pereira Júnior, na Rádio Clube de Blumenau, na década de 50. Foi inspirado no Repórter Esso, da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. O nome “Repórter catarinense” deve-se a seu patrocinador, a Drogaria Catarinense. Seu horário na grade de programação ao longo dos anos sofreu poucas alterações, indo ao ar das 18h às 18h30min.

Braga Mueller (2003) lembra que o “Repórter catarinense” tinha grande audiência: “Era impressionante, todos paravam para ouvir. O que se falava no programa estava falado. Estava sacramentado”. O programa era muito bem produzido e redigido. O redator do programa durante muitos anos foi Reinaldo de Oliveira Ferreira, tendo como superior direto Tesoura Júnior.


2.2.7 – Grande jornal do ar
O “Grande jornal do ar” era o programa de major prestígio da Radio Nereu Ramos e desfrutava de grande audiência. Na abertura, havia um editorial, sob a responsabilidade de Ismael Correa. Nos últimos 10 minutos, a entrevista do dia, a cargo de Álvaro Correa.

Álvaro Correa (2003) lembra com orgulho daquela época: “O programa era o best-seller da rádio. Era o grande programa”. Lazinho (2003) observa que, como o comércio fechava ao meio-dia, naquele tempo, e não existia o hábito de almoçar no centro, todos iam para casa. Por isso, o programa começava às 12h15min. Era o tempo necessário para chegar em casa e almoçar, ouvindo as notícias.

O “Grande jornal” do ar era o produto mais valorizado na grade de programação da Rádio Nereu Ramos e possuía quatro cotas comerciais exclusivas.
2.2.8 – Carta aberta
Curiosamente, o programa “Carta aberta” nasceu na televisão, há 25 anos, e depois migrou para o rádio, como lembra seu criador, Danilo Gomes (2003): “Eu apresentava na TV Coligadas o “Repórter Garcia” e lá alguém teve a idéia de fazer o “Carta aberta”. Aí entrou no ar na televisão e ficou quase nove anos. De lá eu vim para o rádio”. Gomes apresentou o programa nas rádios Unisul (sucessora da Alvorada) e Nereu Ramos.

O “Carta aberta” era um programa eminentemente comunitário e, apesar do nome, estabelecia o contato com público basicamente através do telefone. No início do programa, o próprio apresentador comercializava o espaço, mas depois o serviço de venda dos anúncios passou para as agências de publicidade e o Departamento Comercial das emissoras nas quais era veiculado.


2.2.9 – A polícia é notícia
O programa “A polícia é notícia” foi criado e apresentado por Rodolfo Sestrem na década de 70 e consistia, basicamente, na dramatização de fatos policiais. Fabeni (2003) recorda que Sestrem fazia o programa com tanto entusiasmo que às vezes até chorava ao final das transmissões.

“A polícia é notícia” estreou na Rádio Clube, mas conforme Rodolfo Sestrem mudava de emissora ele incluía o programa na grade de programação do seu novo local de trabalho. Na maioria das vezes, a comercialização do programa ocorria através do aluguel de horário na grade de programação da emissora. O programa ficou no ar até a década de 90.


2.2.10 – Peça sua música
Um dos primeiros programas de rádio do Estado foi o “Peça sua música”, uma das maiores fontes de renda da Rádio Clube de Blumenau. O ouvinte ia até a emissora, pedia uma música, fazia alguma dedicatória e pagava a emissão. O programa teve início na década de 30, se estendendo até meados dos anos 70.

Segundo Braga Mueller (2003), o espaço era extremamente lucrativo para a emissora, porque existiam músicas de sucesso para as quais havia de 10 a 15 dedicatórias. O “Peça sua música” ia ao ar das 15h às 22h.


2.2.11 – Cortesia musical
O “Cortesia musical” era levado ao ar pela Rádio Nereu Ramos. Era semelhante ao “Peça sua música”, da Rádio Clube. O programa estreou junto com a emissora, em 1958, mas o seu tempo de emissão era menor do que ocorria com o concorrente. O “Cortesia musical” ficou no ar até meados da década de 70.
2.2.12 – Caixa de pedidos Lever
O programa “Caixa de pedidos Lever” era emitido pela Rádio Clube, às 14h. Segundo Braga Mueller (2003), o programa era produzido em Blumenau, mas todas as orientações relacionadas ao roteiro vinham de uma agência de publicidade com sede em São Paulo.

O “Caixa de pedidos lever” consistia basicamente em enviar uma embalagem do sabonete Lever (antecessor do sabonete Lux) para a emissora, aproveitando o espaço para pedir uma música e escrever uma dedicatória. O programa ficou no ar de 1955 a 1963, com patrocínio exclusivo das indústrias Lever.


2.2.13 - Transmissões esportivas em geral
Como foi a primeira emissora de rádio de Santa Catarina e uma das primeiras do Brasil, a Clube teve o primeiro programa esportivo do Estado, “A marcha do esporte”, e foi uma das primeiras a formar uma equipe para transmitir os jogos de futebol. As transmissões externas começaram em 1954, quando a equipe da Clube estreou no jogo entre o Grêmio Esportivo Olímpico e o Guarani, dois times com grande tradição no esporte amador local. A equipe era composta por José Gonçalves, Jeser Jossi Reinert, Adolfo Nolte e Tesoura Júnior.

Tesoura Júnior (2003) conta como foi a primeira transmissão esportiva pela Clube: “O jogo foi realizado no Estádio da Baixada, na Alameda Rio Branco. O Olímpico ganhou de dois a zero. Naquele tempo ainda havia a paixão por determinado clube dentro da nossa equipe. Não havia um clima de imparcialidade que deveria prevalecer, como mais tarde prevaleceu. Então nesta primeira partida aconteceu um lance muito interessante. O locutor que estava narrando a partida era torcedor fanático do Palmeiras, um time arquiinimigo do Olímpico. O Guarani estava atacando, então ele narrou assim: ‘Fulano para ciclano, ciclano para fulano, entrou na área, preparou, vai marcar, chutou, mas que m..., passou por cima do travessão!’”

Tecnicamente também havia muitas dificuldades, como lembra Nolte (2003): “Havia poucas linhas telefônicas para as transmissões. Além disso, tínhamos que subir em poste para fazer a ligação dos fios, transmitir no meio de roça de aipim ou em cima do barranco. Tudo isso era normal”.

Para viabilizar economicamente o programa, a direção da Clube alugava o espaço na grade de programação. Então, os próprios integrantes da equipe esportiva visitavam o comércio e a indústria locais em busca de patrocínio. Não havia a participação dos contatos comerciais da emissora. Tesoura Júnior (2003) comenta: “Os valores cobriam muito bem as custos. O pessoal não regateava para pagar. Pagavam com toda a satisfação porque tinham muita audiência”.

A partir de 1958, as transmissões esportivas em Blumenau sofreram profundas transformações. Entrou no ar a Rádio Nereu Ramos, que inovou técnica e profissionalmente. A emissora utilizava equipamentos modernos e anos mais tarde introduziu o uso do microfone sem fio. Sua equipe era composta por grandes profissionais com muita experiência em emissoras de grandes centros do Brasil. Entre eles, incluíam-se Willy Gonzer, vindo da Rádio Inconfidência de Minas Gerais, e Martin Rebelato, egresso da Rádio Pan-Americana de São Paulo.

A comercialização dos espaços publicitários nas transmissões esportivas da Nereu era realizada pelo Departamento Comercial, diferentemente do que fazia a Clube, que alugava o espaço na grade de programação para que a equipe esportiva vendesse os anúncios publicitários.


2.3 – Venda de publicidade
O mercado da publicidade constitui um fator externo que marca não apenas o presente de uma emissora de rádio, mas também as suas expectativas de futuro (MARTÍ, 2004, p. 39). Com efeito, a análise dos investimentos publicitários realizados no Brasil assinala a importância de uma boa relação com as agências de publicidade para que o rádio incremente a sua participação na divisão dos recursos destinados à mídia. (REIS, 2004, p. 294). Historicamente, o faturamento via agências de publicidade representa cerca de 70% da receita das emissoras com sede nos grandes centros. Os 30% restantes são contabilizados através da venda direta de anúncios.

Nas décadas de 60 e 70, a comercialização dos espaços publicitários nas emissoras de rádio de Blumenau ocorria de acordo com as seguintes formas: através dos contatos comerciais, buscando os clientes no comercio e indústrias locais; através dos próprios apresentadores dos programas, que alugavam espaço na grade de programação; através de agentes publicitários, com sede nos grandes centros do país; e por meio da chamada venda direta de balcão. A venda de balcão era aquela em que o anunciante deslocava-se até a emissora para contratar o anúncio comercial. Outra forma de obtenção de receita publicitária era a venda de oferecimentos musicais, comunicações de falecimento (obituário), agradecimentos e convites para missa de sétimo dia, avisos de achados e perdidos, venda de imóveis, entre outros.

A Rádio Nereu Ramos mantinha um representante em São Paulo e no Rio de Janeiro e cerca de 50% do seu faturamento provinha destes representantes, que recebiam 20% de comissão sabre o montante faturado. A Rádio Clube de Blumenau contava, desde a década de 30, com um representante no Rio de Janeiro. Posteriormente, as emissoras contrataram representantes em Porto Alegre e Curitiba.

Nesse período, em todas as emissoras era rotineiro que, além do Departamento Comercial, os apresentadores também vendessem anúncios. Mesmo sendo assalariados, os apresentadores utilizam suas aptidões para aumentar a renda com a comissão proveniente das vendas. Alguns locutores “alugavam” o horário na grade de programação por determinado preço e vendiam as cotas publicitárias acima do valor fixado pela emissora, contabilizando com isso uma renda elevada. Este tipo de comercialização (compra ou aluguel do horário) ocorria no caso de comunicadores mais conhecidos no mercado e no caso das equipes esportivas.

Nolte (2003) lembra como eram as negociações neste tipo de venda: “O falecido Ingo Hering (diretor-presidente da Hering) era um cara que não falava bem o português, mas jamais deixou de receber um radialista lá para buscar anúncio. Ele mesmo recebia a gente. Então, às vezes, nós ligávamos primeiro pro seu Ingo porque, se a gente chegasse lá na empresa sem ter falado com ele antes, o pessoal da portaria nos barrava. Então a gente ligava e dizia: ‘Seu Ingo nós temos uma partida pra transmitir’. Aí ele dizia pra gente passar lá. E ele mesmo nos recebia e mandava assinar a autorização de veiculação. Às vezes, quando a gente não conseguia falar com ele e precisava do anuncio, nós colocávamos o comercial no ar assim mesmo, sem a autorização prévia, e depois cobrávamos dele”.

Muitas vezes, o Departamento Comercial das emissoras solicitava a ajuda dos apresentadores para que os mesmos os auxiliassem em determinada venda de publicidade. Nesse caso, utilizava-se o prestígio dos locutores para o fechamento do negócio, como explica Tesoura Júnior (2003): “Às vezes alguns corretores até pediam auxílio pra gente. Eles queriam pegar um determinado anunciante, mas não estavam tendo penetração lá. Eles pediam então que um dos integrantes da equipe esportiva fosse junto neste cliente para dar uma mãozinha. Aí a gente ia lá e conseguia assinar o contrato”.

Somente os apresentadores mais conhecidos, com programas de grande audiência, conseguiam vender comerciais ou alugar o espaço na grade de programação das emissoras nas quais atuavam. Em caso contrario, a comercialização se dava através dos contatos comerciais e dos representantes das emissoras.

Convém observar que, nas décadas de 60 e 70, o comércio local era muito forte e que os moradores das cidades vizinhas dirigiam-se a Blumenau para fazer suas compras. A Rua XV de Novembro era o principal ponto comercial. Era ali que ocorria a concentração das maiores e melhores lojas de Blumenau e, conseqüentemente, era ali que as emissoras de rádio tinham seus maiores anunciantes.

Para evitar brigas entre os contatos comerciais da Rádio Nereu Ramos, Vieira (2003) conta que a emissora instituiu a divisão da Rua XV de Novembro em lado direito e lado esquerdo. Assim, determinados contatos visitavam somente as lojas do lado direito, enquanto outros se dirigiam somente aos estabelecimentos do lado esquerdo. Segundo ele, as agências de publicidade sempre tiveram uma participação pequena no faturamento das emissoras de Blumenau e passaram a desempenhar um papel de maior importância na venda de anúncios com a ascensão da televisão, na década de 70.
3 – Considerações finais
Com a realização do presente trabalho, comprovamos, primeiramente, a falta de material de pesquisa sobre a história das emissoras de rádio e da publicidade radiofônica em Blumenau. Apesar dos esforços do Arquivo Histórico, os documentos disponíveis são raros. As informações existem apenas na lembrança dos personagens que viveram aquele período.

Portanto, é necessária a realização de novas pesquisas sobre o rádio blumenauense, a fim de que se resgate e se preserve a história do meio. O presente trabalho representa uma primeira contribuição neste sentido e serve de base para futuras investigações.

Com o objetivo de sistematizar as principais conclusões do estudo, a seguir se apresentam os resultados relacionados às perguntas da pesquisa.
3.1 - Principais programas das emissoras de rádio nas décadas de 60 e 70
De acordo com o resultado das entrevistas realizadas com os profissionais que trabalharam nas emissoras de rádio de Blumenau nas décadas de 60 e 70, entre os programas que alcançaram maior repercussão naquele período incluem-se:

a) Programas informativos: “A polícia é notícia”, “Carta aberta”, “Grande jornal do ar”, “Preto no branco”, “Repórter catarinense”.

b) Programas musicais: “A Blu é uma parada”, “Caixa de pedidos Lever”, “Cortesia musical”, “Peça sua música”.

c) Programas esportivos: “A marcha do esporte”, transmissões esportivas em geral.

c) Programas de variedades (magazines): “Picape da frigideira”.

e) Programas de entretenimento: “Críticas e venenos”.

3.2 - Formas de comercialização e estrutura do Departamento Comercial das emissoras:
Nas décadas de 60 e 70, as emissoras de rádio em Blumenau vendiam os anúncios publicitários dos seguintes modos:

a) Venda direta de “balcão”: era uma forma de negociação realizada diretamente nas dependências da emissora de rádio. Além da publicidade propriamente dita, as emissoras vendiam dedicatórias para pedidos musicais, comunicação de achados e perdidos, anúncios para a seção de obituário, etc.

b) Contato comercial: na estrutura organizacional do Departamento Comercial das emissoras de rádio, já existia nas décadas de 60 e 70 a figura do contato comercial. Era o funcionário responsável pela prospecção e captação de clientes, que efetuava a venda de publicidade diretamente com o anunciante. Muitas vezes, o próprio contato comercial era o responsável pela redação dos anúncios. Na maioria dos casos, os contatos trabalhavam como profissionais autônomos, sem vínculo empregatício com as emissoras.

c) Representantes: as emissoras de rádio de Blumenau, com o intuito de atrair os anunciantes de âmbito nacional, utilizavam o expediente da representação nos grandes centros, com escritórios instalados em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba. Através de tais representantes, as emissoras veicularam campanhas de grandes anunciantes, como Kolynos, sabonetes Lever (Lux), Prosdócimo, Pilhas Eveready, entre outros. As verbas publicitárias captadas por esses representantes eram expressivas e contribuíam significativamente para o faturamento das emissoras.

d) Aluguel ou compra de horário na grade de programação: este tipo de negociação ocorria quando um apresentador alugava um determinado espaço na programação da emissora. A estação estipulava um determinado preço e o locutor contratava a veiculação de anúncios que cobriam tais custos. Os valores captados acima da cota estipulada pela emissora compunham o lucro do apresentador/vendedor.

e) Agências de publicidade: as poucas agências de publicidade que existiam em Blumenau nas décadas de 60 e 70 não representavam uma forma significativa de captação de anúncios para as emissoras. As agências centravam suas atenções nos jornais e, posteriormente, dedicaram seus esforços para a televisão.



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TESOURA JÚNIOR. Entrevista concedida pelo radialista. Blumenau, 2003.
VIEIRA, J. E. Entrevista concedida pelo proprietário da Rádio Clube de Blumenau. Blumenau, 2003.
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