A profecia voynich



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Richard D. Weber
A PROFECIA VOYNICH:

CRIANÇA ÍNDIGO

TRADUÇÃO

Johann Heyss


Novo Século
São Paulo

2008


Sumário
Prólogo 7

Londres 7

A Força Ômega: 10

O Inimigo: 10

As Crianças Índigo: 10

Os Shelta Thari - Os Pensadores: 10


PARTE I

Rasputin, o Palhacinho Louco
Capítulo 1 13

Berlin, 1940 .. 13



Capítulo 2 17

Capítulo 3 20

A Bordo do Expresso do Oriente 20



Capítulo 4 23

Capítulo 5 26

Capítulo 6 29

Capítulo 7 34

Istambul 34


PARTE II

A Ascensão da Babilônia
Capítulo 1 39

Dias de Hoje: Tell Brak Nagar, Síria 39

Fronteira Síria-Iraque 41

Capítulo 2 47

Capítulo 3 57

Capítulo 4 66

Capítulo 5 71

Capítulo 6 73

Capítulo 7 77

Capítulo 8 80

Londres 80



Capítulo 9 86

Capítulo 10 90

Capítulo 11 103

Capítulo 12 109

Capítulo 13 111

Capitulo 14 118

Capítulo 15 123

Capítulo 16 125

Capítulo 17 130

Capítulo 18 144

Capítulo 19 147

Capítulo 20 150

Capítulo 21 158

Capítulo 22 162

Capítulo 23 167

Capítulo 24 171

Capítulo 25 174

Capítulo 26 181
PARTE III

Sombras e Névoa
Capítulo 1 191

Capítulo 2 194

Capítulo 3 203

Capítulo 4 206

Capítulo 5 211

Capítulo 6 215

Capítulo 7 217

Capítulo 8 225

Capítulo 9 234

Capítulo 10 239

Capítulo 11 249

Capítulo 12 252

Capítulo 13 257
PARTE IV

Alice Através do Espelho
Capítulo 1 269

Capítulo 2 285

Capítulo 3 290

Capítulo 4 295

Capítulo 5 302

Capítulo 6 316

Epílogo 323

Referências 328

A Conexão Oculta com o Nazismo 329

O Manuscrito Voynich 330



Londres
A menina se embrenhou pela porta com o que lhe restava de forças. Foi um prazer sentir a chuvinha renitente enquanto atravessava o telhado com seus passos trôpegos. Ao correr, o frio ar noturno fluiu pulmões adentro. Estou chegando, ela pensou. Em poucos metros estarei livre.

Parou subitamente e começou então a rastejar até a beira do telhado.

Parou para piscar os olhos por causa da chuva e foi sacolejada pelo vento; esticou os braços na tentativa de manter o equilíbrio.

Olhou para baixo e mal conseguiu enxergar o fluxo dos faróis dos canos que deslizavam como pirilampos na escuridão. Acenavam para ela.

Alguém lá atrás abriu a porta com uma pancada barulhenta na parede. Acenderam as luzes na escadaria do outro lado do telhado e foram atrás dela.

Ela se virou. Um bando de figuras sombrias surgiu pela porta e pararam, projetando suas silhuetas em contraste com a parca iluminação de fundo.

Mesmo na penumbra ela conseguiu reconhecer o contorno mais alto, com aqueles cabelos louros claríssimos capturando a escassa luz. Sua estatura e seu jeito de andar eram inconfundíveis; tinha em si a crueldade seca de um chicote enrolado. Dava quase para ela sentir o aterrorizante vento negro que emanava de Margot Gant.

O som familiar de outra voz, vindo de um atalho para o telhado, fez a jovem estremecer de pânico.

— Hora de ir para casa, pequena — disse o doutor Craven.

Ela não respondeu.

Outra figura ao lado do médico deu um passo para a frente. A menina rastejou mais para a beirada. Então Margot esticou o braço, im­pedindo que o homem continuasse.

O clarão ofuscante de uma lanterna queimou-lhe a vista.

— Apague isto, seu idiota do inferno — Margot ralhou. Voltou-se para a menina e disse:

— Ninguém vai lhe machucar, Wendy — falou suavemente, com um tom de voz brando, a mão deslizando em direção à pistola com tranqüilizante que estava cuidadosamente encaixada no cós da calça às suas costas.

Por alguma razão Wendy sentiu que ela estava com a arma; dava para ver o metal negro e frio em sua mente.

Mas ela se levantou com os braços ainda estendidos, sentindo como se o vento fosse lhe devolver a sanidade em uma lufada. Começou a cantarolar a cantiga infantil com os lábios entreabertos. — Nana neném, voe alto meu bem. Quando o vento soprar, seu bercinho vai balançar...

Wendy deu mais um passo. O vento castigava o telhado, desarrumando-lhe os cabelos.

Quando o galho quebrar...

Os olhos de Wendy estavam bem fechados agora, suas pestanas pesadas de memórias que não eram bem memórias, sonhos que não eram bem sonhos, e ela girava a cabeça de um lado para outro.

Ela deu mais um passo.

— Não! — Margot gritou ao ver que ela seguia em frente.

Silenciosa, graciosa e leve como anjo, a menina de oito anos desapareceu diante de seus olhos.

Eles ficaram na beira, olhando para a rua lá embaixo.

O médico de rosto pálido ao lado de Margot deu uma olhada nervosa pelo peitoril e disse, balançando a cabeça: — Não dá para enxergar a rua daqui, ja? — deu um passo para trás e suspirou aliviado. — Teve um momento em que até achei que nossa pombinha soubesse mesmo voar.

Os olhos de Margot cintilaram de ódio. Ela torceu a bochecha do médico com força e a estapeou com as costas da mão. — Ela sabe voar, seu idiota. Esta é a droga do problema!




Para Kelly suas façanhas aprontar

Usou o espelho do diabo, uma gema,

E ao com ele brincar de nanar

Resolveu quase todos os problemas.

Versos de Samuel Mordomo no interior de um espelho de obsidiana que está no Museu Britânico e já foi usado pelos astrólogos elisabetanos John Dee e Edward Kelly.



Nem tudo que é bom vem de cima.

Lema da Sociedade Vril.


Nazistas. Odeio estes caras.

Indiana Jones




A FORÇA ΩMEGA:
Major Brody Devlin: ex-funcionário do Serviço de Proteção e Segurança do Departamento de Estado, ex-fuzileiro naval e atual agente-líder.

Sgto. Clint "Chewie" Raindancer: ex-SEAL (Comando Especial da Mari­nha Americana), indígena americano.

Ten. Braxton: ex-advogado-caçador-de-nazistas do Departamento de Jus­tiça Americano.

Scout Thompson: ex-hacker.

Sgto. Conners: escocês, ex-membro do Esquadrão Macacos da Pesada da Força Aérea Britânica.

Madison Dare: doutora em matemática e física pela Universidade de Princeton.

Bill Sorensen: ex-diretor de operações secretas da DIA (Agência de Inteli­gência de Defesa).
O INIMIGO:
Al-Dajjal: assassino e neonazista treinado pela KGB.

Heinrich Gant: chefe da Sociedade Vril e negociante de armas. Margot Gant: mulher misteriosa sem passado. Matadora brutal, sádica e masoquista.

Machado de Gelo: guarda-costas e matador.
AS CRIANÇAS ÍNDIGO:
Wendy/Noor E Alam: "Luz do Mundo".

Os garotos perdidos: Peter, Gabriel, Johnboy e Raji.


OS SHELTA THARI-OS PENSADORES:

Dra. Blair Morgan Kelly: arqueóloga e alta sacerdotisa celta. Ginny Doolittle: protetora excêntrica do tipo fada madrinha.


PARTE I

Rasputin, O Palhacinho Louco


Capítulo 1
Berlin, 1940
Entre um grunhido e outro, o homem impulsionava seu corpanzil pela ín­greme escada do edifício acima.

Tinha um encontro com um homem morto.

Uma placa no tijolo adjacente à grande porta vermelha dizia:

Der Vril Gesellschaft. A Sociedade Luminosa.

Tirou a mão do bolso da capa de chuva e ajeitou a enorme aba do chapéu de feltro preto ao se virar novamente para a rua. Olhou ao redor com cautela para ver se fora seguido.

Satisfeito de ver que tudo parecia normal na rua, ele entrou.

A mulher que o recebeu era espetacular. Cabelos longos e louros emoldu­ravam o rosto aquilino. Seus olhos celestes eram claros e ágeis. — Barão, que bom lhe ver.

— Senhorita Orstic, você continua encantadoramente linda, como sempre. Um leve rubor coloriu aquele rosto suave como pétala.

Ela usava um robe de cetim vermelho que se ajustava ao seu corpo como uma segunda pele. Seus longos cabelos roçavam pela parte de baixo das costas à medida que ela caminhava furtivamente pela sala.

— Por favor, queira se sentar — a sedução pulsava em sedutoras nuances de voz.

Quando ela estendeu o braço para indicar a mesa forrada com uma toalha preta, o olhar do barão percorreu o decote em V do robe que ela usava. A cur­va inclinada dos seios fartos e o pigmento escuro de uma auréola ameaçavam escapar ligeiramente de uma das bordas do decote. Os seios grandes ondulavam perto da fresta do robe, sacudindo de leve quando ela mexia o braço.

Ele ficou de queixo caído e seu monóculo caiu do olho.

Debaixo do robe, ele percebeu, ela estava nua.

Como se lesse seus pensamentos, a mulher deu um sorriso ardiloso e balan­çou a cabeça.

Ele sentiu o sangue subir ao rosto e desviou o olhar para a mesa, à qual es­tava sentado um homem, suas mãos impecavelmente dobradas sobre o colo.

Lutando para retomar a compostura, ele deu um jeito de dizer: — Herr Hess — curvou-se elegantemente e seus saltos se encontraram em um clique perceptível. — Como vai?

Rudolf Hess levantou-se para saudá-lo. Debaixo da testa proeminente em formato de enxada e sobrancelhas negras protuberantes, seus olhos cinzentos e vazios eram quase como alfinetes. Seu olhar impiedoso se suavizou à medida que as rugas de um sorriso racharam a expressão pétrea. — Faz muito tempo mesmo, velho amigo. Mas vamos dispensar as amenidades e tratar do assunto do dia? Foi com muita dificuldade que consegui fazê-lo voltar incógnito à Alemanha — seu rosto endureceu novamente.

A médium, Maria Ostric, diminuiu as luzes.

A sessão começou.

Sentados à mesa, deram-se as mãos. O barão hesitou, acovardado, ao sentir a mão gelada da médium segurando a sua. Ela fechou os olhos. Por um momento ficaram sentados em silêncio, agarrando-se as mãos com força, apenas com o som de suas respirações ecoando por entre as escuras sombras do recinto.

Ela convocou os espíritos com voz melodiosa.

— Eu apelo à Grande Fraternidade Branca, rogo por sua ajuda para falar com o espírito de nosso companheiro, Dietrich Eckhart.

O Barão Rudolf von Sebottendorff estremeceu ao sentir cair a temperatura do ambiente.

Apesar de respeitar Eckhart, sempre tivera um ligeiro medo do mentor de Hitler. Por debaixo de seus modos excessivamente graciosos e sorriso de vovô, Eckhart ocultava algo de sombrio e visceral.

Aquele olhar gelado e resoluto lhe dava nos nervos.

Olhos que detinham a pessoa com o poder de sua intensidade, capazes de congelar, e Eckhart falava com voz abafada. O efeito da combinação era algo como um presságio de uma picareta de gelo no peito.



Eckhart era coisa séria, não era nenhum charlatão dissimulado. Seu conhecimento do oculto e seu domínio de oratória impressionaram o jovem Adolf Hitler. Com o apoio financeiro da Sociedade Vril, Eckhart criou o Führer e o NSDAP (Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, mais tarde conhecido como Par­tido Nazista). Seu falecimento deixou Hitler nas mãos de gángsteres e carniceiros. Deixou Hitler cercado por um núcleo de criminosos baratos liderados por aque­le idiota narcisista, o atarracado do Heinrich Himmler.

Pensar nos olhos pequenos e brilhantes e na expressão presunçosa daquele ex-criador de galinhas fez o estômago do barão revirar de acidez. O barão o desprezava. Para ele, partira de Himmler, por pura inveja, a ordem para jogá-lo em um campo de concentração e depois deportá-lo para a Turquia.

A profunda arfada vinda de sua esquerda o arrancou de seu devaneio.

Os olhos de Maria reviraram-se sob a testa, o branco dos olhos parecendo flutuar na escuridão. Sua cabeça caiu para trás.

Seu rosto se contorcia de dor enquanto de algum ponto das profundezas de sua garganta vazou um som grave e gutural.

O barão sentiu o estômago revirar de náusea. Hess estava apertando tanto sua mão que suas unhas chegavam a cravar na carne macia da palma.

Crack!

Instintivamente, o barão baixou a cabeça, achando que era um tiro. Choveu vidro do alto.



Seguiu-se uma série de estalos barulhentos e as pequenas lâmpadas do lustre-candelabro foram queimando uma a uma. Uma chuva de fagulhas lhe caiu de leve sobre a cabeça.

Maria ficou com o corpo mole e sem energia; os braços pendurados no corpo.

Seus lábios se entreabriram sedutoramente ao percorrer o lábio superior com a ponta úmida da língua. Suave no começo, seus gemidos foram crescendo em tom e intensidade. O ligeiro contorno de seus mamilos marcou presença no tecido frio quando ela arqueou as costas

O barão ficou olhando, perplexo. Como se ela estivesse sendo atacada por mãos invisíveis, o tecido do roupão se abriu na altura do busto. Por debaixo do tecido do robe, algo lhe torneava o torso. As mãos fantasmagóricas foram puxando o robe de seda cada vez mais alto, expondo-lhe as panturrilhas bem torneadas e os graciosos contornos das coxas firmes.


Capítulo 2
Maria se sente levada por um transe. Sensações agradáveis fluindo-lhe em um sono sem sonho. A escuridão murmurando. Mas então ela sente... uma presença maligna lhe serpenteando pela pele, rastejando como uma cobra.

Seu corpo entra em convulsões ao sentir mãos grosseiras apalpando-lhe os seios e explorando os contornos de seu corpo jovem e perfeito.

Ela se enche de uma sublime mistura de terror e injustificável abandono.

Algo se enrosca em sua garganta, apertando cada vez mais forte. Ela se sente sendo suspensa no ar e então arremessada para o alto, caindo pesada­mente sobre as costas.

A pressão ao redor da garganta diminui, mas dedos penetrantes rasgam o tecido do robe, sondando-lhe a pele. Mãos fortes lhe abrem as coxas...

... então algo lhe adentra bem fundo.

A força maligna aperta sua pegada de morsa no pescoço. Ela fica sufo­cada, engasgando ao tentar respirar.

Tremendo de êxtase, ela está dividida entre o enlevo e a vontade de viver.
Eles ficaram olhando, estupefatos, o corpo de Maria ser suspenso por mãos invisíveis, revirar-se violentamente e ser jogado ao outro lado da mesa, caindo pesadamente sobre as costas.

Simultaneamente, levantaram de um pulo e caíram novamente em seus assentos com suas pernas moles como borracha.

Algo lhe rasgou o robe, expondo seu corpo nu.


Suas coxas se abriram e seus quadris começaram a menear ritmicamente.

Então seu rosto começou a se contorcer como se ela estivesse sendo estran­gulada, começando a ficar vermelho, e depois azul. O tecido suave das laterais do pescoço estava marcado por manchas brancas, como se fossem de dedos lhe escavando a pele.

Hess foi o primeiro a conseguir falar. — Gott im Himmel! Faça alguma coisa. Ele a está matando!

O barão respirou fundo e se retesou.

Com sua voz firme e autoritária de barítono, ele disse: — Dietrich Eckhart. Pelo poder da sabedoria de seu nome, eu lhe ordeno que pare com essa loucura de uma vez e se dirija a mim.

O ar pareceu estalar com a energia estática.

O corpo de Maria ficou mole, e ela se esforçava para respirar.

Ela arregalou os olhos.

Enrijeceu o corpo e se levantou da mesa, arqueando a cintura de modo não natural, como se uma tábua rígida lhe estivesse levantando o torso.

Quando sua cabeça girou na direção do barão, seus olhos faiscaram furio­sos, e então se comprimiram como fendas.

Uma voz fria e metálica falou, causando um arrepio na nuca do barão.

— Hitler vai dançar de acordo com a minha música.

Era a voz de Eckhart, com certeza. Não havia a menor dúvida. O barão es­tava sentado no leito de morte de Eckhart quando ele pronunciou as mesmas palavras finais.

— Tem uma pessoa em Zurique que conhece o segredo — disse a voz áspera e desencarnada vinda dos lábios de Maria.

O barão e Hess trocaram olhares de soslaio e se aproximaram ligeiramente.

— Seu poder e conhecimento são maiores que os meus. Em seu diário... encontra-se a chave do poder do Vril.

Visivelmente engolindo em seco, Hess conseguiu dizer: — O nome, Eckhart. Dê-nos o nome dele!

O rosto de Maria se contorceu em uma careta assustadora.

— Doktor Carl Gustav Jung.

Um grito estridente saiu dos lábios da médium, como se fosse a lâmina de uma faca lhe cortando o peito. Seu corpo oscilou e ela desfaleceu, desmoronan­do sobre a mesa, os olhos fitando o vazio. O pescoço estava retorcido em um ângulo antinatural.

Um pequeno traço de sangue escorria do canto da boca e então começou a escoar também do nariz e das orelhas.
Capítulo 3
A BORDO DO EXPRESSO DO ORIENTE
Havia uma multidão na estação de trem de Munique. O doutor Carl Gustav Jung abriu caminho cautelosamente por entre a aglomeração na plataforma para pegar o Expresso do Oriente. Com voz ofegante, pediu desculpas ao esbar­rar na jovem atraente que estava dando um beijo de despedida no namorado. Sentiu uma pontada aguda e penetrante nos joelhos idosos e uma dor pungente na base das costas ao içar as malas para o carregador pela janela do vagão.

Verzeinhen sie mir, estou terrivelmente atrasado — ele gritou em alemão, pedindo perdão. O funcionário assentiu com a cabeça e abriu um típico sorriso falso.

A fumaça turva coalhou o ar úmido. Ele parou e se virou rapidamente ao subir os degraus do vagão. Algo lhe rebocou os sentidos.

Um carregador gritou: — Todos a bordo!

Ele percorreu o terminal com os olhos. A figura sombria de um homem de capa de chuva se materializou detrás do carrinho de bagagem. Ele empurrava grosseiramente uma bela mulher de vestido azul para dentro do trem.

Em um instante, desapareceram dentro de um vagão de passageiros.

Jung guardou na mente a capa de chuva e o vestido azul da mulher.

Com um toque estridente de apito e o assovio barulhento do vapor, as rodas da locomotiva começaram a girar, fazendo com seu sopro o trem partir, enfim.



Os patrocinadores de sua série de palestras lhe providenciaram um vagão de primeira classe. Apesar de Jung achar que a extravagância do Expresso do Oriente era um pouco exagerada, seus velhos ossos cansados receberam com prazer aquele luxo. Um pouco de paz e tranqüilidade, um pouco de tempo para si mesmo e, é claro, a culinária rebuscada do Expresso do Oriente eram prazeres culpados que ele teria de suportar. Um sorriso excêntrico lhe veio aos lábios ao pensar em sua querida esposa que vivia lhe censurando por pular refeições para ficar trancado em sua torre acastelada de Bolligen.

Dirigiu-se à porta corrediça, deu uma rápida olhada no corredor, forçou um sorriso débil para uma velha com cara de ameixa seca acompanhada por uma matrona corcunda que exibia as gengivas em um sorriso lúbrico ao caminhar pesadamente em sua direção. Ele abaixou a cabeça para entrar no compartimento, segurando a porta atrás de si com grande dificuldade e sentindo dor. Abaixou a tela de seda e começou a desarrumar a mala.

Ao terminar, acomodou-se no sofá-cama com um grosso fólio. As mãos manchadas pela idade tiraram com esforço a fita vermelha do prendedor.

Pegou um documento. As iniciais ESS e a palavra SUPERSECRETO em letras vermelhas lhe encaravam.

Fora procurado pelo novo e inexperiente serviço de inteligência americano, o Escritório de Serviços Estratégicos, para fazer duas coisas. Devido ao seu histórico de psicanalista mundialmente renomado, deram-lhe a missão de fazer algo inédito: o perfil psicológico do pior homem do mundo, Adolf Hitler. Jung sentiu que isto era o mínimo que podia fazer, como ele dizia, para lutar contra as forças das trevas.

Mas havia mais nessa missão. Poder viajar incólume pela Europa, confraternizando com intelectuais, diplomatas e donos de indústrias era o disfarce perfeito para um espião. Ele podia ser olhos e ouvidos da ESS.

Lembrou-se da filosofia e da sugestão do Coronel Donavan, o "Bill Malu­co". Donavan era conhecido pelo linguajar tosco e pela franqueza. — Quem desconfiaria de um excêntrico como você? Um acadêmico apolítico considerado meio biruta por muitos de seus colegas. Ora, diabos, doutor Jung, o senhor se prostrou para os nazistas quando era diretor da Associação Européia de Psiquia­tria, nem levantou a voz!

Jung se retraiu ao ouvir as palavras de Donavan, mas às vezes a verdade, por mais dolorosa que fosse, era mais salutar. Quem sabe até uma chamada à ação, uma chance de consertar alguns erros.

Rabiscara umas anotações a partir do material fornecido pela ESS e simpa­tizantes que ele encontrou. Tirou os óculos de arame e massageou seu comprido nariz. Ele estava exausto. Pôs o fólio dentro da bolsa e se esticou no banco.

Tentou imaginar um espelho negro e vazio sugando-lhe todos os pensa­mentos incômodos que vinham à mente aos borbotões. Ao respirar em padrão rítmico controlado, sua mente acabou se aquietando.

Quando ele começou a pegar no sono, um ronco retumbante tomou conta do compartimento. Um pequeno sorriso lhe veio aos lábios, seguido por um sonho.

Uma pomba branca desce das alturas, gradualmente se transformando em uma jovem. Seu rosto angelical irradia inocência. Ela pára em frente a uma cintilante tábua de esmeraldas, e aponta para ela com sua mãozinha delicada. Ela dá um sorriso discreto e diz. Estamos indo.

Capítulo 4
O som de alguém batendo na porta o despertou de um sono profundo. Jung tirou as pernas do sofá, pescou os óculos de dentro do bolso do casaco e foi, trôpego, abrir a divisória corrediça.

Warteziet... Estou indo — ele murmurou, ainda com a visão borrada.

Abriu a porta.

Um jovem corpulento vestindo um terno amassado estava à porta. Jung imaginou que fosse turco. Seu chapéu turco balançava para a frente e para trás a medida que ele olhava nervosamente para cima e para baixo do corredor. O suor corria em seu rosto moreno, os olhos arregalados e tomados pelo pânico.

Doktor Jung... Peço que me perdoe pela ríspida intromissão, mas é ques­tão de vida ou morte, por favor — disse o turco em alemão passável.

Jung o observou por um momento e então abriu a porta.

Deu um passo para trás e o homem entrou.

— Penso que talvez não seja prudente fechar a porta, meu jovem.

O homem balançou a cabeça de modo um tanto encabulado e disse: — Ah, eu lhe garanto que não quero lhe fazer mal, mas, por favor, tranque a porta.

Jung resmungou algo e trancou.



  • Queira se sentar.

  • Muita gentileza do senhor — o turco plantou-se no sofá-cama, mas ficou sentado apenas na beira, espremendo ardorosamente as mãos.

Jung tirou um cachimbo do bolso de dentro do casaco e foi enchendo do fumo de uma bolsinha enquanto falava. — Em casos como este é sempre bom começar do começo, ja?

O turco fez que sim.



- Então comecemos pelo seu nome.

— Kerim Bey. Estou a caminho de Istambul, onde moro.

Jung acendeu o cachimbo e soltou uma boa baforada de anéis de fumaça. O turco esfregou os lábios com as costas da mão.

— Eu encontrei minha irmã, doktor. Mas temo que ela esteja nas mãos do demônio em pessoa. Depois que ela sumiu com aquele capeta, levei seis longos meses, mas consegui descobrir que estavam em Berlim e fui atrás deles. Ela está a bordo deste trem, e está nas garras dele.

Jung adorava aplicar suas teorias no mundo real. Estudou os maneirismos e movimentos de olhos do turco ao falar. Desenvolvera um método simples de detectar quando alguém estava mentindo ou dizendo a verdade, e logo o transmitiria aos interrogadores da ESS. Percebeu que o turco olhava para cima e para a direita ao falar. Não era bom sinal. Chegara à conclusão que quando uma pessoa fazia isto com os olhos era sinal de que ela estava inventando ou falseando uma história.


  • Por favor, prossiga — Jung atiçou.

  • Ela se misturou com um grupo maligno chamado Vril. Eles a estão usan­do — ele parou e hesitou brevemente e então choramingou. — Sabe, ela tem um dom... desde criança. Acho que chamam de intuição. Eles praticam atos blasfemos...

Jung balançou a cabeça afirmativamente de propósito, e interrompeu. — Práticas ritualísticas do Vril para invocar espíritos malignos. E sua irmã servindo de guia espiritual deles. Com isto eles se protegem do perigo de se consorciar com essas forças demoníacas.

Isto está ficando interessante, Jung pensou.

O turco disse parte da verdade. Desta vez ele olhou para cima e para a esquerda, indicando que estava relembrando fatos reais. Mas quando fez uma pausa e soluçou, trêmulo, a hesitação indicou que estava representando.

— Então você acredita em mim? — o turco perguntou.

Jung deu um sorriso caloroso e tranqüilizador. — E quem é este demônio que seduziu sua irmã?

— Ele usa muitos nomes. Ele tem passaporte turco, mas seu nome de regis­tro é Rudolf Glauer, nascido perto de Dresden. Ele diz que foi adotado por um exilado austríaco pertencente à nobreza. Usa o título de Barão Rudolf von Sebottendorff. Ele estudou no meu país com os dervixes Bektashi, místicos sufis.

Jung se retesou ao ouvir o nome. Ouvira falar do barão, conhecia sua visão distorcida do mundo. O barão sugerira a Hitler que ele tomasse como exemplo para seu novo regime os Ismailitas Assassinos, que seguiam cegamente os caprichos de seu líder, o "Velho da Montanha"; até mesmo pular de despenhadeiros para a morte ao seu bel-prazer enquanto ele se dopava com haxixe. Em outras palavras, eles representavam um modelo para a SS, uma ordem de monges militares fanáticos que seguiam Heinrich Himmler cegamente. Se ele confrontar esse louco e decifrar sua mente doentia, talvez pudesse usar a informação em seu perfil psicológico de Hitler.

Jung decidiu se jogar de cabeça.

— Onde eles estão agora?

O turco levou as mãos à boca. — No trem, eu lhe disse.

Jung soltou um grunhido exasperado. — Ja, e onde exatamente?


Capítulo 5
Foram até o vagão-restaurante.

O turco balançou a cabeça em direção a uma mesa nos fundos do vagão. — Ela está usando vestido azul e está de costas para nós.

Jung limpou os óculos com um lenço velho, colocou-os atrapalhadamente de volta no rosto e deu uma olhada.

O vestido azul lhe acendeu a memória.

Sentado em frente à mulher estava um homem corpulento. Seu rosto re­dondo e gordo se empoleirava sobre um pescoço grosso e gorduroso que sobrava na gola apertada. A papada o deixava pavoroso como um buldogue. Seu terno cinza-escuro era elegante e, sem dúvida, feito por encomenda. Um monóculo fixo em um dos olhos bulbosos cintilava à luz do Sol. Ele formou um cone com os dedos gordos e com eles pressionou o queixo, pondo-se a olhar distraidamen­te para a paisagem que passava.

— Acho que é melhor você não dar as caras, meu jovem. Não quero causar uma cena.

O turco o observou cautelosamente. — Devo esperar em seu comparti­mento?

Jung respondeu com um aceno de cabeça e seguiu pelo corredor. Ao chegar à mesa ele inclinou os ombros e pôs um cartão de visitas com a mão trêmula sobre a toalha de linho branco, perto do vaso de rosas. Ele queria bancar o velho excêntrico, quem sabe pegando o barão desprevenido.

O barão observou o cartão e levantou os olhos de pálpebras pesadas. Le­vantou e fez uma mesura formal. — Qual a razão de nos dar o prazer de sua companhia, doktor Jung?

- Ah, apenas curiosidade de velho, creio. Tenho uma cópia de seu livro Der Talisman des Rosenkreuzers. É só que não podia deixar passar a oportunidade de encontrar o autor, um homem que possui vasto conhecimento sobre os rosacruzes.

O barão pareceu perplexo, mas seu rosto se iluminou. — Por favor, herr doktor, junte-se a nós — estalou os dedos, sinalizando para que o atendente trouxesse uma cadeira.

Jung infiltrou-se à mesa. Seus olhos fotografaram a mulher de azul. Seus olhos castanhos fluidos eram assombrosos, chamejando um calor predatório. O vestido justo e sem ombros conduzia sua beleza a um nível clássico.

Quando seus olhos se encontraram, ela deu um sorriso fraco e críptico. Olhou para Sebottendorff e depois para Jung novamente, e subitamente baixou os olhos. Jung notou seus longos dedos afunilados e seu pulso delicado quando ela levou uma taça de cristal com água aos generosos lábios.

Os olhos afiados de Jung captaram a maquiagem pesada sob o olho esquer­do, que de forma alguma conseguia esconder o roxo.

O barão pediu uma garrafa grande de Dom Pérignon e caviar de beluga. - Aos buscadores da iluminação. Que não sejamos como crianças tolas, com medo da escuridão, pois nela se encontra a luz!

Jung deu um sorriso astuto e levantou os óculos. — Não acredite no olho humano, nem na luz do Sol e nem nas trevas. O teatro de bonecos da visão é a Máscara do Demônio.

O barão soltou uma risada gélida e logo serviu mais uma dose a todos, ape­sar de Jung perceber que a dama de azul não havia tocado na primeira.

Passaram então a se entreter mutuamente com quintilhas humorísticas de progressivo mau gosto à medida que bebiam.

A conversa passou para um dos assuntos favoritos de Jung, alquimia. Ele havia escrito livros sobre o significado subjacente de seus estranhos símbolos e conhecimento oculto.

— Diga-me, doktor. Você realmente acredita que no final das contas é tudo questão de desejo reprimido?

Jung fez uma careta.

— Acho que o senhor está confundindo minhas teorias com as de meu colega, doktor Sigmund Freud. Devo confessar que a opinião dele sobre meu interesse em misticismo e alquimia causou uma severa tensão em nosso relacio­namento. Ele me acusa de ter parado em alguma fase da adolescência na qual minha lógica se confunde com o que ele chama de "pensamento mágico".

O barão deu uma risada doentia e então subitamente sua expressão ficou absolutamente séria. Linhas de tensão se formaram ao redor de sua boca en­quanto os olhos perfuraram Jung. — Conheço seu trabalho. Possivelmente mais do que o senhor possa imaginar. Em parte, está correto. O conceito de arquéti­pos profundamente arraigados é correto, como seu conceito do inconsciente co­letivo ao qual todos nós nos conectamos inadvertidamente de vez em quando. Acho, contudo, que o senhor deixou escapar um elemento crucial.

Jung retesou o corpo ao ouvir a reprimenda. — Por favor, prossiga.

O barão olhou ao redor. — Sugiro que continuemos esta conversa em meu compartimento. Tenho um maravilhoso brandy Luís XIV e diferentes tipos de excelentes charutos. O que o senhor me diz?

Jung arrotou ruidosamente, enfiou o dedo na gola da camisa para afrouxá-la e esfregou a mão pelo rosto, que ele sabia a esta altura estar corado por causa do champanhe. Simulou desinteresse, mas não podia deixar passar a oportuni­dade de mudar de assunto para falar de Hitler, caso ele desse abertura.



  • Bem... Não estou certo se a dama vai gostar disto — o médico respondeu olhando em direção a ela. — Ela provavelmente já está quase chorando de tédio com nossa conversa.

  • A dama em questão, para ser bem franco, não é dama nenhuma — o barão lhe lançou um sorriso maldoso e voltou-se novamente para Jung. — Ade­mais, ela tem seu próprio compartimento. Por favor, dê-me este prazer.

A dama de azul ficou de pé e pediu licença.

— Até o próximo encontro, herr Jung — ela disse, oferecendo-lhe a mão. Jung pensou ter notado um sinal de alívio lhe fluir pelo rosto, e sim... havia o indício de um sorrisinho sagaz.

Ela se virou para Sebottendorff. — Divirta-se enquanto pode, querido. — Palavras mordentes com entonação cáustica.

Sebottendorff bufou de raiva e a dispensou.

Jung podia ouvir atrás de si o sussurro e a agitação de seu vestido enquanto ela saía do vagão-restaurante.
Capítulo 6
Sozinho no compartimento privativo do barão, Jung estava começando a perder todas as esperanças de conseguir qualquer insight da mente perturbada de Sebottendorff. Mudou de assunto ao ficar entediado.

— Fiz um estudo cuidadoso sobre o poder do Vril.

O barão deu um olhar de coruja atônita e se envergou para a frente com as mãos carnudas apoiadas nos joelhos.

— Agora o senhor está caçoando de mim, doktor. Não seja brincalhão.

Jung deu um tapinha no bolso.

— Compartilharei isto com o senhor, mas precisa ser quid pro quo. Eu lhe digo algo e o senhor, em troca, me diz algo.

— O que está oferecendo... exatamente?

Jung pegou um caderno vermelho do bolso e folheou as páginas. — Como a maioria daqueles que buscam o caminho da verdade, mantenho um registro de minhas jornadas e experiências.

Coçando o queixo com os dedos dobrados, o barão perguntou: — Quer dizer um diário mágico?

Jung assentiu e riu. — Ah, se Sigmund Freud ouvisse nossa conversa — ele bateu na coxa e piscou. — Precisamente, pode chamá-lo assim. Mas primeiro, me diga o que foi que eu deixei escapar em meu trabalho.



  • Com isto estarei cumprindo minha parte do acordo?

  • Claro que não. Lá no vagão-restaurante, o senhor me atraiu à sua gruta com a promessa de revelar minhas falhas.

O barão levantou as mãos. — Muito bem. O senhor desconsiderou o poder maior, a força maior que conduz o universo. O poder da vontade de um homem. Quando canalizado adequadamente, pode mudar o mundo.

  • Para o bem e para o mal — Jung acrescentou suavemente.

  • Bem e mal? — o barão zombou. — Vamos lá, doktor. Quem vai dizer qual é qual? O importante é descobrir seu potencial oculto, sua verdadeira von­tade e então agir de acordo com ela.

  • Os fins justificam os meios a qualquer preço?

O barão deu um sorriso falso. — Não vou debater moralidade com o se­nhor. Seria perda de tempo.

Jung inclinou-se mais para perto, pronto para dar o bote. — O poder do Vril pode ser domado e canalizado. Creio, meu caro barão, que estamos falando da mesma coisa. A ciência está dando grandes passos, nosso conhecimento está crescendo com uma rapidez surpreendente. Digamos apenas que concordamos que a base da energia que conduz a alquimia é de fato a libido. Todavia, a alqui­mia também lida com física e química. Receio que sejam revelados muito em breve os segredos do vasto poder do átomo. Em meu sonho me foi revelado que um Sol Negro vai lançar sua longa e escura sombra por toda a Europa.

— Tive visões de chaminés vomitando um fedor oleoso, pilhas de corpos macilentos, coisas repugnantes e malignas, obscenas demais para mencionar. E um brilhante flash de luz que consome uma cidade inteira. Receio que o senhor tenha, sem querer, libertado um insano, um demônio que enlouqueceu com o poder do Vril. — Jung suspirou profundamente.

Sebottendorff ficou sentado em silêncio, detendo-se em cada palavra.

Jung prosseguiu. — E se eu lhe dissesse que a ciência também abriu outra porta através do estudo de algo a que chamamos de genética? Tive visões de uma mutação evolutiva desenvolvendo uma nova espécie de humanidade.

Jung parou e cravou os olhos nos de Sebottendorff.

— E se eu lhe disser que os Vril-ya estão chegando?

Jung usou o termo que ele sabia que seria familiar a Sebottendorff. Vril-ya, os Filhos do Sol. — Os Lebensraum ou origem principal da nova raça mestra.

Sebottendorff deu um sorriso oleoso. — A pureza racial vai gerar uma nova espécie.

- Não! Jung o interrompeu - Isto não tem nada a ver com suas teorias racistas de eugenia ou raças inferiores. Estou falando de um novo estado de evolução, uma alteração cósmica, por assim dizer. Um novo começo, a ascensão do Éden. Não será durante nossas vidas, mas será em breve, muito breve.

Sebottendorff arregalou os olhos. Parecia ansioso para falar. — Aonde eles irão... — ele deixou a frase pelo meio e observou Jung com um novo brilho nos olhos. — Eu não acho que somos tão diferentes, meu amigo. Mas qual é sua pergunta para mim?

- Quero sua opinião honesta e bem informada sobre quais seriam as motivações de Adolf Hitler, quero sua análise quanto à maior fraqueza dele.

O Barão Rudolf von Sebottendorff recuou e pôs-se de pé. Ajeitou com os dedos os cabelos longos e finos e caminhou pelo compartimento. Jung lhe deu tempo de recompor os pensamentos.

O taciturno aristocrata finalmente se sentou. Cortou a ponta de um charuto e o acendeu. Deu uma longa tragada e bafejou no rosto de Jung. — Assim como o senhor, vou lhe dar uma resposta honesta. É irônico que me faça esta pergunta. Acabo de terminar um livro chamado A Alemanha antes de Hitler, que expressa alguns de meus sinceros pontos de vista. Hitler não passa de um títere ambicioso, um dínamo humano de energia, sim.



  • Mas energia descontrolada e mal dirigida é uma coisa perigosa. Dietrich Eckhart e eu plantamos uma semente e ela cresceu. Distorcida pela auto-indulgência e pela egomania... Acho que o senhor chamaria assim. O maior defeito dele, o senhor pergunta?

  • Seu maldito ego, seu orgulho e teimosia! Ele se cerca de patetas e lacaios, homens subservientes que alimentam sua insanidade verborrágica. Ele se deixou obcecar pelo poder. Ele está cego a qualquer coisa que sugira cautela e falta de sorte. Ele traça o rumo do Terceiro Reich pelas estrelas.

  • Seu astrólogo, Erik Jan Hanussen, convenceu Hitler que podia lhe garantir boa sorte para sempre. Juntos fizeram o "Pacto dos Três", que consistia no führer, Hanussen e um amuleto em formato de homem; uma raiz de mandrágora. No quintal do carniceiro, ao soar a meia-noite em noite de lua cheia, a mandrágora soltou um grito ensurdecedor quando Hanussen a arrancou da terra. O führer leva o pacto escrito pendurado no pescoço e guarda a mandrágora trancada em local seguro.

- Então sua natureza supersticiosa poderia causar sua maior derrocada?

— Bem possível. Mas receio que o senhor esteja sofrendo do mesmo mal, doktor. O barão enfiou a mão em seu terno e tirou uma pistola semi-automática Luger 08 Parabellum.

Jung encarou, inflexível. Mas quanto mais encarou, mais estranho foi se sentindo. Ficou tonto e pequenas partículas pretas se revolviam nos cantos dos olhos.


  • Não é veneno, garanto — Sebottendorff explicou. — Apenas um sedati­vo forte. Não tenho estômago para esses métodos afeminados. Não, se não fosse um serviço porco, eu poria a boca desta pistola perto da sua têmpora e faria este cérebro fraco e arrogante explodir para fora do seu crânio. Mas haveria pergun­tas demais. Não, isto não daria certo mesmo.

  • Acho que você foi muito tolo, meu velho, de brincar de espião. Ademais, acho que você é um patife mentiroso. Você sabe corno acelerar o processo, como desencadear o potencial máximo do Vril. Dê-me seu diário mágico, agora!

Como Jung lutou para ficar com o diário, sentiu os dedos do barão, fortes e assemelhados a salsichas, arrancando-o de suas mãos. E então a escuridão se fechou sobre ele.

Quando Jung voltou a si, viu que estava sozinho no compartimento. Com uma dor de cabeça latejante, pegou o caminho de volta para o seu alojamento com pernas bambas.

Então, lembrou-se subitamente... o turco. Os olhos de Jung notaram uma mala caída no chão. Não era sua. Abaixando-se com um joelho, ele a abriu. Estava cheia de roupas sujas. Presumiu que fosse a valise de Kerim Bey. Jogou o conteúdo no chão e passou os dedos pelo forro da mala. Encontrou um fundo falso e rasgou o forro para abrir.

Dentro havia uma pasta grande que continha páginas amareladas com as margens rasgadas, como se tivessem sido arrancadas de um livro velho. Quando Jung abriu melhor, um bilhete escrito à mão caiu no chão.



Doktor, peço desculpas por minhas mentiras. Precisava que você distraísse o Ba­rão Sebottendorff enquanto fugia com minha irmã.

Perdoe-me, eu também pertenço a um culto antigo e prestei juramento de comba­ter as forças do mal. Deixo-lhe de presente um tesouro raro, que são as páginas per­didas do manuscrito Voynich, que foram encontradas escondidas no Palácio Imperial de Topkaki em Istambul. Elas contém a chave para decifrar o manuscrito. E vão lhe levar ao local do legendário...

Bateram com força na porta.



- Passaporte, por favor — gritaram os funcionários da alfândega.

Jung rapidamente enfiou o bilhete no bolso do paletó e colocou as páginas do Voynich cuidadosamente dentro de sua bolsa.



Capítulo 7
ISTAMBUL
O reflexo da lua cheia ondulava sobre a superfície escura do rio Bósforo, erguendo o olhar sobre o Barão Rudolf von Sebottendorff como se o convocan­do a uma sepultura aquosa. Ele arranhou o ombro, lutando para tirar a adaga cravada até o punho.

Um tiro ecoou pela noite e a rótula de seu joelho foi pelos ares. Ele levantou a vista para encarar os olhos cruéis do homem de chapéu turco que segurava com mão forte uma pistola automática Mauser ainda quente.

Na outra mão ele tinha o diário do doutor Jung.

Kerim Bey deu um sorriso seco e sussurrou asperamente: — Essa foi só para chamar sua atenção.

Os olhos furiosos de Sebottendorff espocaram. — Maldito Untermenchen! Devolva meu diário. Se o que você quer é dinheiro, faça seu preço.

Kerim Bey se aproximou, mergulhando os olhos naquele homem brutal e ferido. — Não quero seu dinheiro sujo. Só quero lhe mandar de volta para o inferno, que é o seu lugar.

Os olhos do barão inundaram-se de terror. O ar parecia espumar com o fedor intenso de suor frio e urina.

— Isto é por minha irmã!



A Mauser latiu duas vezes, enchendo as vísceras de Sebottendorff de chumbo quente.

Com o maxilar torto, ficou olhando com incredulidade e terror para a ensangüentada frente de sua camisa. Suas mãos desceram ao estômago e ele caiu de costas nas águas frias.






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