A posiçÃo do verbo em interrogativas qu- diretas na história do



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A POSIÇÃO DO VERBO EM INTERROGATIVAS Q DIRETAS NA HISTÓRIA DO PORTUGUÊS EUROPEU

André ANTONELLI (UNICAMP)


1. Introdução


Como se sabe, todas as línguas Germânicas Modernas (à exceção do Inglês), manifestam o que se costuma chamar de efeito V2, isto é, uma restrição determinando que o verbo finito seja precedido, nas orações matrizes, por apenas um constituinte sintático. Os dados em (1) exemplificam esse fenômeno no Alemão:
(1) a. Er hat ihm gestern gesehen

Ele tem o ontem visto

“Ele o viu ontem”


b. Gestern hat er ihm gesehen

ontem tem ele o visto

“Ele o viu ontem”


No âmbito do quadro teórico da Gramática Gerativa, uma análise explicativa com ampla repercussão para os fatos em (1) é a de que o verbo finito se move de I para C em orações matrizes de línguas V2 (cf. den Besten 1983). Esta operação de movimento estaria associada ao fronteamento de algum XP, seja ele o sujeito gramatical ou não, para [Spec, CP]. Assim, a derivação de uma sentença como (1b), com um advérbio em posição inicial, teria a seguinte representação:
(2) Estrutura derivada de (1b):

[CP Gesterni [C hatj [IP ... ti …tj ]]]


Um dos aspectos interessantes dessa proposta é que ela resolve de maneira simples o porquê da inversão V(erbo)S(ujeito) nos casos em que o constituinte pré-verbal não é o sujeito da oração. Como há disponível apenas um Spec à esquerda do verbo, vindo essa posição a ser ocupada por um sintagma diferente do sujeito, restaria a este unicamente ser linearizado em posição pós-verbal.

Muitas línguas, incluindo-se nesse grupo o Português Europeu Moderno (PE), embora não sejam representativas do efeito V2 em orações declarativas matrizes (cf. (3)), apresentam o que foi designado por Rizzi (1996) de estruturas V2 residuais, como por exemplo a propriedade que determina uma estrita adjacência entre um constituinte Q e o verbo em orações interrogativas diretas, derivando com isso a típica inversão VS de línguas com verbo em segunda posição (cf. os exemplos em (4)).1


(3) Com a Maria, O Pedro falou.
(4) a. (O) Que ofereceu [o Pedro] à Joana?

b. * (O) Que [o Pedro] ofereceu à Joana?

c. A quem escreveu [o Pedro]?

d. * A quem [o Pedro] escreveu?

e. Como conseguiu [o Pedro] acabar o trabalho?

f. * Como [o Pedro] conseguiu acabar o trabalho?

(Ambar 1992)
Rizzi argumenta que o mesmo tipo de movimento do verbo de I para C defendido para as línguas V2 é o que ocorre nas estruturas interrogativas do tipo V2 residual. A idéia é que, nesse contexto específico, cria-se uma configuração Spec-núcleo envolvendo o constituinte Q e o verbo, o primeiro preenchendo [Spec, CP] e o segundo ocupando C. Tal configuração explicaria satisfatoriamente o fato de não ser possível a linearização do sujeito imediatamente à esquerda do verbo. Assim, embora no PE a restrição V2 não seja um processo generalizado a todas as orações matrizes, a típica inversão VS das interrogativas Q passa a ser entendida como um caso especial de verbo em segunda posição, daí o rótulo de estrutura V2 residual.

Analisando orações interrogativas Q diretas produzidas por escritores portugueses nascidos entre a primeira metade do século XVI e a primeira metade do século XVIII, período este que será designado ao longo deste trabalho de Português Clássico (PCl), embora a típica inversão VS obrigatória do PE seja o padrão também do PCl, pudemos atestar casos em que a adjacência entre a expressão Q e o verbo é quebrada por um constituinte fronteado. Aceitando-se a hipótese de que a inversão VS das orações interrogativas realmente reflita o mesmo processo em operação nas orações declarativas matrizes de línguas V2, ou seja, movimento do verbo para C, os casos de ordem linear Q-XP-V do PCl, lembrando-se que XP não é o sujeito, são problemáticos para uma análise que assuma uma visão tradicional do componente CP, isto é, uma única projeção com seu núcleo e Spec. Aqui, a partir da proposta cartográfica de Rizzi (1997) para o nível de CP, defenderemos que o contraste entre o PE e o PCl pode ser explicado satisfatoriamente em termos de diferentes posições ocupadas pelo verbo na periferia à esquerda de orações interrogativas Q  na gramática do período clássico, o verbo ocorreria numa posição mais baixa da estrutura oracional.

O texto está organizado da seguinte forma. Na seção 2, apresentamos a proposta de periferia à esquerda assumida neste trabalho, mostrando que, no que tange à sintaxe de posição do verbo, os casos de V2 residual do PE não apresentam a mesma derivação que será aceita para as línguas V2 plenas. A seção seguinte explorará as orações interrogativas Q diretas do PCl. Procuraremos mostrar que, em tais sentenças, a gramática do período clássico manifesta uma sintaxe de posição do verbo similar à de línguas V2.

2. Verbo em Segunda Posição, V2 Residual e Interrogativas Q do PE


Sob o impacto do trabalho seminal de Pollock (1989), a partir do qual se propõe uma cisão para a projeção IP, Rizzi (1997) estende o mesmo tipo de proposta para o âmbito da categoria funcional CP, decompondo-a em diferentes sub-camadas. Para Rizzi, a estrutura de CP deve ser a seguinte:
(5) [ForceP [TopP* [FocP [TopP* [FinP [IP
Em (5), há quatro projeções distintas na periferia à esquerda da sentença. ForceP e FinP, a primeira na extremidade superior e a segunda na extremidade inferior de CP, são projeções que codificam, respectivamente, as informações relativas ao tipo da sentença (declarativa, interrogativa, relativa etc) e as informações que determinam a finitude da oração. As projeções intermediárias TopP e FocP codificam noções discursivas. A primeira delas, de natureza recursiva nas duas camadas onde pode ser projetada, é responsável por articular a noção discursiva de tópico (informação antiga), enquanto a segunda delas, quando ativada, introduz o valor discursivo de informação nova (foco). FocP, ao contrário de TopP, não é caracterizada pela propriedade de recursividade.

Uma vez aceita essa proposta cartográfica para a periferia à esquerda da oração, a derivação da ordem V2 (e estruturas V2 residuais), conforme ilustrado na introdução deste trabalho, que, tradicionalmente, envolve o domínio de CP, impõe o seguinte desafio, como bem sintetizado por Poletto (2002:2):


If the CP layer has to be conceived as a number of distinct functional projections, each hosting a different type of element and checking distinct semantic features, the traditional account of the linear restriction in terms of V to C movement is no longer valid and we need to reformulate it in the new perspective.”
Em face desse desafio, Roberts (2004) defende que a linearização da ordem de palavras V2, como se atesta na maior parte das línguas Germânicas, dependeria de propriedades do núcleo mais baixo de CP, isto é, Fin.2 Uma dessas propriedades, relacionada ao componente fonético, determinaria que o núcleo Fin apresente uma realização lexical em algum estágio da derivação, restrição esta que poderia ser satisfeita por concatenação (merge) ou, nos casos em que o léxico não torna disponível item lexical algum que possa ser inserido em Fin por concatenação, através de uma operação de movimento. Assim, tomando-se o Alemão como exemplo, o verbo finito seria o responsável por satisfazer nas orações matrizes, via movimento, a restrição fonética de Fin, já que não haveria um item lexical apropriado para ser inserido diretamente nesse núcleo. Nas orações encaixadas, por sua vez, seria o complementizador quem checaria o traço de Fin, não sendo necessário, portanto, o movimento do verbo, daí a impossibilidade, nesta língua, da ordem V2 em orações subordinadas. A obrigatoriedade de apenas um XP em posição pré-verbal nas orações matrizes estaria associada ao fato de Fin ser especificado com um traço EPP. Tal traço, para ser satisfeito, necessariamente desencadearia o alçamento de um constituinte para [Spec, FinP].

O fato de não ser possível a linearização de mais de um XP em posição pré-verbal, embora teoricamente outras posições acima de [Spec, FinP] estejam disponíveis para o fronteamento de constituintes, estaria relacionado a questões de minimalidade. Para Roberts, EPP pode ser considerado um traço que, sendo de nenhum tipo particular na tipologia de potenciais barreiras, é capaz de bloquear qualquer tipo de movimento. Nessa perspectiva, uma vez que um XP qualquer é movido até [Spec, FinP] para satisfazer o traço EPP, elemento algum poderá cruzar esse Spec sem violação de minimalidade.

Apresentada essa proposta de derivação da ordem de palavras com verbo em segunda posição, derivação esta construída sobre uma perspectiva cartográfica da periferia à esquerda, naturalmente surge a seguinte questão: seria a sintaxe de posição do verbo de orações interrogativas V2 residuais, como ilustramos na introdução com os exemplos em (4) do PE, similar à que assumimos para o efeito V2 de orações declarativas matrizes do Alemão, por exemplo, ou seja, com movimento do verbo até Fin e fronteamento do constituinte Q para [Spec, FinP]?

À luz da proposta de CP cindido que seguimos aqui, em articulação à idéia de critério Q elaborada por Rizzi (1996), que trata os fenômenos envolvendo as interrogativas em termos de relações que se estabelecem entre o que existe em C e a expressão Q em [Spec, CP], defenderemos que, ao menos no que diz respeito ao PE, a sintaxe de posição do verbo das orações interrogativas Q é diferente da que é defendida por Roberts para as línguas com ordem V2 generalizada.

Inicialmente, consideremos a noção de critério Q. Rizzi (1996) defende que nenhuma sentença interrogativa pode violar o que por ele é designado de critério Q, o qual é elaborado nos seguintes termos:
(6) Critério Q

a. Um operador Q deve estar em configuração Spec-núcleo com um X0 [+ Q]

b. Um X0 [+ Q] deve estar em configuração Spec-núcleo com um operador Q
Como se vê, o critério Q determina a criação de uma relação entre um operador e um núcleo providos de um traço Q em comum, relação esta que deve se manifestar por meio da configuração Spec-núcleo. Em vista disso, a aplicação de tal critério apresentará como resultado esperado a adjacência linear entre o operador Q e o núcleo portador desse mesmo traço. Nesse sentido, a característica distintiva das sentenças interrogativas Q do tipo V2 residual, isto é, a inversão VS, pode ser entendida como um efeito do mecanismo de licenciamento do critério Q, aceitando-se que a expressão interrogativa e o verbo, enquanto um núcleo portador do traço [+Q], devem estabelecer uma relação Spec-núcleo relevante na periferia à esquerda da sentença, o que desencadearia a ordem VS em orações desse tipo, já que o sujeito permaneceria num domínio mais baixo.3

Dentro de uma proposta cartográfica de periferia à esquerda, o desafio que se coloca é saber exatamente em qual das sub-camadas de CP são satisfeitas as exigências do critério Q. Como se sabe, no PE, expressões interrogativas e operadores afetivos, incluindo-se nessa categoria sintagmas contrastivos focalizados do tipo só o João, ocorrem exatamente nos mesmos contextos e são mutuamente exclusivos (Raposo & Uriagereka 1996, nota 22). Assumindo-se a hipótese natural de que os sintagmas contrastivos focalizados estejam localizados em [Spec, FocP], a conclusão que se tira é que expressões interrogativas Q também ocupem essa posição.4 Com isso pode-se postular que o verbo esteja em Foc, já que deve estar numa relação Spec-núcleo com o constituinte interrogativo, como apontam as evidências, relação esta que seria motivada por conta da aplicação do critério Q.

Uma análise nessa direção explica não apenas a inversão VS obrigatória, mas também o fato de que, no PE, tópicos são superficializados necessariamente à esquerda de constituintes Q (cf. o contraste em (7)). Isso é exatamente o que se espera diante do estabelecimento da relação Spec-núcleo no nível de FocP entre a expressão interrogativa e o verbo, dado que não haveria entre esses dois elementos um Spec adequado para abrigar tópicos deslocados. Na realidade, considerando-se a projeção onde é satisfeito o critério Q e a estrutura oracional de periferia à esquerda que assumimos aqui, a um constituinte deslocado restaria unicamente o Spec da projeção TopP que pode ser ativada acima de FocP.
(7) a. [Esses livros], a quem entregaste?

b. * A quem [esses livros], entregaste?

(Raposo & Uriagereka 1996)
Essas considerações mostram então que, no tocante à sintaxe de posição do verbo, orações matrizes declarativas com verbo em segunda posição e orações interrogativas com configuração V2 residual, ao menos o tipo de V2 residual atestado no PE, não se enquadram dentro de um mesmo paradigma. No primeiro tipo, tem-se movimento do verbo até Fin, ao passo que, no segundo, o movimento do verbo se dá até Foc, um núcleo mais alto do que Fin na estrutura oracional. Na seção seguinte, veremos que essa distinção é central para uma explicação satisfatória da estrutura de orações interrogativas Q do PCl.

3. O PCl: Efeito V2 e Interrogativas
Neste trabalho, a fim de contrastar a sintaxe de posição do verbo das sentenças interrogativas Q do PE com a sintaxe desse mesmo tipo de construção no PCl,5 analisamos textos de dez autores nascidos entre a primeira metade do século XVI e a primeira metade do século XVIII.6 Inicialmente, destacamos que, em tais textos, o mesmo tipo de inversão VS obrigatória no PE é atestada de maneira produtiva nas interrogativas Q diretas do PCl, como ilustram os exemplos a seguir:
Século XVI
(8) a. Que faria [o zeloso Prelado] em caso que a doença pedia remédio apressado e as mèzinhas ordinárias não eram adequadas ao sojeito? (Sousa, 1556)

b. ¿ De que servem [livros de cavalarias fingidas]? (Lobo, 1579)


Século XVII
(9) a. Se o sangue de um inocente deu tais vozes a Deus, que será [o de tantos]? (Vieira, 1608)

b. E que cuida [Vossa Mercê]? (Chagas, 1631)


Século XVIII
(10) a. mas como pode [a justiça] ter na espada um exercício justo, se a balança na mão dos homens não tem uso, e se o tem é somente imaginário, e na realidade impraticável? (Aires, 1705)

b. Ora que ouvi [eu] aqui? (Costa, 1714)


À primeira vista, os dados acima poderiam ser analisados também como uma espécie de efeito V2 residual, na mesma linha da proposta para os dados contemporâneos do Português, isto é, com movimento do verbo até Foc, resultando, dessa forma, no estabelecimento da configuração Spec-núcleo entre a expressão interrogativa e o verbo finito, como restrição imposta pelo critério Q.7 Esse tipo de análise, como já se viu, daria conta perfeitamente da ordem linear VS dos exemplos de (8) a (10), e permitiria, além disso, fazer a previsão de que um tópico nunca quebraria a adjacência entre o constituinte Q e o verbo. Tal previsão, porém, não se confirma, considerando-se os dois dados a seguir atestados em nosso corpus.
(11) a. e se estas ali achariam piedade, ¿ como [àquelas] se lhes não fará [bom lugar] ali? (Chagas, 1631)

b. Quem [tal] diria? (Costa, 1714)


Em (11a), além dos clíticos e do constituinte negativo não, encontra-se entre o verbo finito e a expressão Q um dos argumentos internos do verbo fazer. Nesse exemplo, o sujeito da sentença passiva com se é superficializado em posição pós-verbal. (11b) evidencia a interposição de um objeto direto entre o sujeito Q e o verbo. Diante desses dados, é natural que se coloque a seguinte questão: se, no PCl, o verbo também sobe para Foc a fim de estabelecer uma relação Spec-núcleo com o constituinte Q em [Spec, FocP] por conta da aplicação do critério Q, como explicar o licenciamento de um argumento fronteado exatamente entre o verbo e a expressão interrogativa?

A priori, há duas maneiras de resolver esse problema. Uma seria assumindo que o constituinte fronteado não-interrogativo está em [Spec, FinP], em razão de um traço EPP de Fin. Isso colocaria o PCl ao lado de gramáticas estritamente V2, já que se caracterizaria por apresentar tanto movimento do verbo até Fin como também fronteamento de algum XP para [Spec, FinP]. A outra possibilidade seria assumindo que a gramática do PCl se assemelha à de línguas V2 no tocante ao movimento do verbo até Fin, mas não no que diz respeito ao fronteamento de algum constituinte para [Spec, FinP]. Na realidade, o elemento pré-verbal não-interrogativo dos casos apresentados em (11) estaria no Spec da projeção TopP localizada abaixo de Foc, seguindo a estrutura de CP cindido de Rizzi.

A idéia de que o Português, ao longo de sua história, tenha apresentado algum tipo de efeito V2 é uma proposta já defendida na literatura. Trata-se, por exemplo, da hipótese de Ribeiro (1995) para o período arcaico do Português. Para o período clássico, especificamente do século XVI em diante, essa mesma proposta também é defendida por outros trabalhos, como Galves, Britto & Paixão de Sousa (2005) e Paixão de Sousa (2004), entre outros. De fato, em relação ao período de tempo que nos interessa diretamente aqui, isto é, do século XVI ao XVIII, uma investigação não-exaustiva permitiu que atestássemos nos textos que analisamos o licenciamento de inversão VS em orações declarativas matrizes, um tipo de dado que se espera encontrar em um sistema de natureza V2, como demonstram os exemplos a seguir.
Século XVI
(12) a. Hüa certa maneira de dições, maiormente verbos, temos [nós] que parecem juntos, (...). (Oliveira, 1507)

b. Ali ficaram [os Hespanhoes] comendo alguns mantimentos que tinham, (...). (Couto, 1542)


Século XVII
(13) a. O fim da minha jornada verá [Vossa Excelência] pelas cartas de Sua Majestade que remete a Vossa Excelência o Residente, (...). (Vieira, 1608)

b. Entre as criadas da communidade, a servia [uma] , ainda que mulher virtuosa, e de exemplares costumes, de condiçaõ indigesta; (Céu, 1658)


Século XVIII
(14) a. a todos sustenta [a terra]; (Aires, 1705)

b. Agora fazia [eu] tenção de escrever por este portador com a minha extenção costumada; (Costa, 1714)


Uma maneira simples de explicar a gramaticalidade das frases acima seria justamente defendendo uma proposta de movimento do verbo até Fin, além do deslocamento de um XP de natureza qualquer para [Spec, FinP], como condição de satisfação do traço EPP de Fin. Nesse sentido, a gramática do PCl seria semelhante à das línguas Germânicas com verbo em segunda posição. Um contra-argumento, porém, a essa proposta vem das estruturas com verbo em posição inicial, como exemplificado a seguir.
Século XVI
(15) a. Acostumam [os grammaticos] repartir as letras consoantes em mudas e semivogaes em qualquer lingua, (...). (Oliveira, 1507)

b. Festejaram [todos] a Solino; (Lobo, 1579)


Século XVII
(16) a. Sabe [Deus] que tenho um ardente desejo de passar essa terra, (...); (Chagas, 1631)

b. Amotinou-se [o povo] contra os novos hóspedes; (Barros, 1675)


Século XVIII
(17) a. Têm [os homens] em si mesmos um espelho fiel, em que vêem, e sentem a impressão, que lhes faz a vaidade: (...). (Aires, 1705)

b. havia de [Vossa Mercê] poder assistir aqui a algum concerto (...); (Costa, 1714)


Os exemplos acima, embora manifestem a típica inversão VS de línguas V2, não apresentam o fronteamento de um XP. Ou seja, embora se possa defender que haja movimento do verbo até Fin, não se pode manter a hipótese da presença de um traço EPP nesse núcleo. Isso porque, se de fato fosse este o caso, necessariamente haveria sempre o deslocamento de um sintagma para [Spec, FinP], já que, nas línguas que apresentam o traço EPP em Fin, como assumimos ser o caso das línguas V2, o fronteamento para [Spec, FinP] não é opcional, mas sim obrigatório. Em vista disso, parece não ser uma solução satisfatória assumir que, nas orações interrogativas que licenciam um argumento entre o constituinte Q e o verbo finito, tal argumento tenha se movido para [Spec, FinP].

Uma análise alternativa para as construções que manifestam a ordem linear Q-XP-V seria então a que, por um lado, também estipula movimento do verbo até Fin, o que continuaria aproximando o PCl das línguas V2, mas que, por outro, não assume movimento do XP intermediário para [Spec, FinP] e sim para o Spec de uma projeção de tópico localizada entre Foc e FinP, conseqüentemente afastando o Português desse período das línguas V2 no que diz respeito à posição do constituinte imediatamente pré-verbal. Essa análise parece adequada especialmente se considerarmos o exemplo (11a), que manifesta um caso de Clitic Left Dislocation, com o constituinte retomado pelo clítico sendo superficializado entre a expressão interrogativa e o verbo. Em certo sentido, esse exemplo, retomado em (18), assemelha-se ao apresentado por Rizzi (1997) e elencado em (19), que manifesta ser possível no Italiano a ocorrência de um constituinte retomado por clítico exatamente entre um elemento focalizado e o verbo.


(18) e se estas ali achariam piedade, ¿ como [àquelas] se lhes não fará bom lugar ali?

(19) a. Credo che domani, QUESTO, a Giani, gli dovremmo dire.



Acredito que amanhã ISTO ao João lhe devemos dizer
O exemplo (19) é uma das evidências apresentadas por Rizzi para a sua proposta de ordenamento de constituintes no nível de CP, com uma projeção de tópico podendo seguir imediatamente uma categoria de foco. Que o sintagma a Giani, seguindo imediatamente o elemento focalizado, pode ser classificado como um tópico depreendemos de sua propriedade de ser retomado por um clítico.8 Assim, na sua estrutura de CP cindido, Rizzi coloca questo em [Spec, FocP] e a Giani em [Spec, TopP].

No caso do dado (11a/18), a semelhança com o exemplo do italiano está no fato de que também temos um elemento em [Spec, FocP], isto é, a expressão Q, sendo seguido imediatamente por um constituinte com propriedades de tópico, uma vez que o sintagma àquelas nada mais é do que um argumento dativo retomado por um pronome clítico. Nesse sentido, parece absolutamente plausível imaginar que, em (11a/18), o XP linearizado entre o constituinte Q e o verbo esteja em [Spec, TopP]. Tal posição, diferentemente de [Spec, FinP] em línguas V2, seria ativada e preenchida apenas nos casos em que houvesse uma motivação discursiva. Com isso, é de se esperar que, a depender do conteúdo informacional da oração, a projeção TopP não seja selecionada sempre, o que explicaria então os casos de V1 absoluto encontrados no período clássico do Português, embora se possa manter que a gramática do PCl manifestava movimento generalizado do verbo até Fin, tal como as línguas de natureza V2.9

Essa proposta permite observar ainda alguns desdobramentos interessantes relacionados a um outro fenômeno sintático, a saber, o da colocação de clíticos. Como se sabe, complementizadores e expressões interrogativas Q, entre outros constituintes, sempre funcionaram como elementos atratores de próclise no Português (cf. Galves & Paixão de Sousa 2004). A seguir, apresentamos exemplos do PE que confirmam este fato:
(20) Próclise com complementizador em posição pré-verbal

a. Todo mundo sabe [que a viste.

b. * Todo mundo sabe [que viste-a.
(21) Próclise com constituinte Q em posição pré-verbal

a. Quem me chamou?

b. * Quem chamou-me?
Na variante moderna do Português, a ocorrência de um tópico entre um elemento atrator de próclise e o verbo anula o desencadeamento da colocação pré-verbal do clítico, resultando na derivação enclítica, como atesta o par de sentenças a seguir:
(22) a. Dizem que [esses panfletos], distribuiu-os (o partido) ontem.

b. * Dizem que [esses panfletos], os distribuiu (o partido) ontem.


Em vista do contraste acima, poderíamos generalizar dizendo que, no PE, o ativamento de uma projeção TopP entre um elemento atrator de próclise e o verbo anula a propriedade do elemento atrator de desencadear a próclise. Note-se que tal projeção TopP está localizada necessariamente acima de FocP, dadas as restrições do PE quanto ao ordenamento de tópicos em relação a constituintes Q (cf. (7)). Considerando que o PCl também licencia uma projeção TopP acima de FocP, a tomar pelo exemplo (23) abaixo, ilustrativo do século XVIII, em que se tem à esquerda da expressão Q uma oração relativa livre retomada por um pronome clítico, poderíamos perguntar se essas duas categorias de tópico possíveis de serem ativadas no PCl, nos casos em que tivessem seus respectivos especificadores preenchidos por um constituinte precedido por elemento atrator de próclise, funcionariam ou não de forma homogênea como barreiras para o desencadeamento da próclise.
(23) e verdadeiramente [quem não temer a Lei de Deus, nem as leis dos homens], que princípio lhe fica por onde haja de obrar bem? (Aires, 1705)
Conforme o dado (11a/18) mostrado anteriormente, a respeito do qual assumimos que o sintagma deslocado à esquerda ocupa o Spec da projeção TopP licenciada abaixo de Foc, vê-se claramente que a ativação dessa categoria de tópico não neutraliza a capacidade do constituinte Q, um típico elemento atrator de próclise, de desencadear a colocação pré-verbal do clítico. Bastante interessante, porém, é o exemplo (24) a seguir, em que se tem um tópico ocorrendo entre um complementizador e o verbo. Em (24), tal como no PE, a ênclise é desencadeada.
(24) Aqui quero lembrar como em Portugal temos hüa cousa alhea e com grande dissonancia onde menos se devia fazer, a qual é esta: que [a este nome rei] damos-lhe artigo castelhano chamando lhe el-rei. (Oliveira, 1507)
Uma maneira de explicar essa aparente variação é defendendo que apenas a projeção TopP localizada acima de FocP seria capaz de anular o efeito de um elemento atrator de próclise, ao passo que, com relação à projeção TopP localizada mais abaixo, sua ativação não interferiria no desencadeamento da próclise. Assim, em (24), o PP topicalizado a este nome rei estaria no Spec da projeção de tópico localizada acima de FocP, obstruindo portanto a derivação da próclise, a ordem de palavras que seria esperada em razão da presença do complementizador que ocorre à esquerda do verbo, enquanto que, em (11a/18), a ativação da projeção TopP, que teria o seu Spec preenchido pelo sintagma àquelas, não bloquearia a propriedade do constituinte Q de desencadear a próclise, o que explicaria então a posição pré-verbal do clítico.

Essa distinção no tocante aos efeitos sintáticos das duas projeções de tópico de certa forma vai ao encontro da proposta de Galves, Britto & Paixão de Sousa (2005), que defendem haver no PCl duas posições pré-verbais: uma posição interna à oração e outra externa à fronteira sintática da oração. Essas autoras argumentam que o preenchimento da posição interna desencadearia obrigatoriamente a próclise, enquanto que o preenchimento da posição externa, desde que não havendo nenhum constituinte posicionado na posição pré-verbal interna, forçaria a derivação da ênclise. Nesse sentido, a posição que Galves, Britto & Paixão de Sousa denominam de interna à oração poderia ser equivalente à projeção de tópico localizada abaixo de Foc, conforme a proposta que desenvolvemos aqui, ao passo que a posição externa seria equivalente à projeção de tópico ativada acima de FocP. Por ora, apenas destacamos a convergência de resultados entre a proposta de Galves, Britto & Paixão de Sousa e a que elaboramos neste trabalho, deixando para investigações futuras os desdobramentos dessa correlação.

Concluindo essa seção, gostaríamos de fazer algumas considerações a respeito da aplicação do critério Q nas orações interrogativas do PCl, uma vez que a proposta por nós defendida de movimento do verbo até Fin nesse tipo de oração poderia significar, num primeiro momento, um empecilho ao cumprimento das condições impostas por esse critério. Como já apresentado, o licenciamento do critério Q ocorre necessariamente por meio do estabelecimento da relação Spec-núcleo entre um operador e um X0 providos de um traço Q. No PE, vimos que tal condição é satisfeita no domínio de FocP, para onde se movem o constituinte Q e o verbo, que assumimos ser o núcleo especificado com o traço [+Q]. No PCl, entretanto, a priori o verbo não pode ser o X0 [+ Q] que deve fazer parte da configuração Spec-Núcleo com o operador portador desse mesmo traço, haja visto os casos em que não é manifestada a adjacência entre a expressão interrogativa e o verbo. Mas, se não é o verbo o núcleo relevante para o licenciamento do critério Q, qual núcleo desempenharia tal função, levando-se em conta o fato de que, na sintaxe visível, não existem evidências que indiquem a existência de um núcleo [+ Q] em Foc?

Poderíamos resolver essa questão assumindo que, tal como no PE, o verbo na gramática do PCl também é portador do traço [+ Q], sendo, portanto, o núcleo relevante para o licenciamento do critério Q. A diferença entre as duas gramáticas estaria associada ao momento de aplicação do critério Q. Esclarecendo um pouco melhor, poderíamos imaginar que o critério Q, no PE, deve ser satisfeito na sintaxe visível, ao passo que, no PCl, essa operação se aplica em LF. Com isso, teríamos uma explicação para a estrita adjacência entre o constituinte Q e o verbo na sintaxe visível do PE, enquanto que, na gramática do período clássico, tal adjacência pode ser quebrada no componente visível da derivação sintática, dado que o critério Q seria aplicado apenas em LF. De fato, em sua elaboração do critério Q, Rizzi contempla a possibilidade de que o estabelecimento da configuração Spec-núcleo entre o operador Q e o X0 [+ Q] seja satisfeito em LF, o que se harmonizaria com os dados do PCl.



Por outro lado, se assumirmos que não existe movimento coberto, como assim propõe Kayne (1998), que defende um conceito de derivação sintática apenas em termos de concatenação e movimento visível, a explicação acima perde a sua consistência. Aceitando que a hipótese levantada por Kayne de fato seja correta, manteremos aqui então que, no PCl, a aplicação do critério Q também ocorre na sintaxe visível. Para isso, seguiremos o tipo de análise desenvolvida por Mioto e Kato (2005) para as orações interrogativas Q do Português Brasileiro (PB), que permite a linearização do sujeito entre o constituinte Q e o verbo finito, como atesta o exemplo (25) a seguir.
(25) Com quem [o senhor] prefere disputar?
Mioto & Kato defendem que, por conta da posição pré-verbal do sujeito, não é possível manter que tenha havido movimento do verbo para o núcleo da projeção onde se encontra a expressão interrogativa. Ou seja, nesse caso também, aparentemente o critério Q foi violado, o que deveria resultar numa sentença agramatical, contrariamente aos fatos. O que explicaria então a boa formação do exemplo (25), segundo esses autores, é o mecanismo por eles designado de Concordância Dinâmica, isto é, a operação por meio da qual o núcleo da projeção onde deve ser licenciado o critério Q é dotado do traço [+ Q] por concordância quando seu Spec é preenchido pelo constituinte interrogativo. Assim, a interferência do sujeito entre a expressão Q e o verbo finito não significaria problema algum para o licenciamento do critério Q, já que a relação Spec-núcleo seria estabelecida entre com quem e o núcleo imediatamente à sua direita, o qual, embora foneticamente nulo, estaria dotado do traço [+ Q]. Aplicando esse tipo de análise às interrogativas do PCl, assumiremos que, uma vez alçada a expressão interrogativa para [Spec, FocP], automaticamente o núcleo Foc seria ativado com o traço [+ Q] por conta do mecanismo de Concordância Dinâmica, criando, dessa maneira, a configuração relevante para o licenciamento do critério Q. Com isso, a ausência de adjacência linear entre o verbo finito e o constituinte interrogativo, como nos casos atestados de ordem Q-XP(tópico)-V, deixa de ser um obstáculo à aplicação bem-sucedida do critério Q.

4. Considerações Finais
Neste trabalho, exploramos a estrutura de orações interrogativas Q tanto no período clássico quanto no período moderno do Português Europeu, procurando mapear a sintaxe de posição do verbo nessas duas gramáticas. Constatou-se que, diferentemente do PE, o PCl permitia o licenciamento de tópicos entre um constituinte Q e o verbo flexionado. A partir de uma perspectiva cartográfica da periferia à esquerda da sentença, esse contraste foi explicado em termos da sintaxe de movimento do verbo: no PCl, a inversão VS em interrogativas Q resulta do movimento do verbo até Fin, o mesmo tipo de movimento que ocorre em orações matrizes declarativas de línguas V2. Na ordem de palavras Q-XP-V, em que XP é um tópico, essa sintaxe de movimento do verbo possibilitaria o ativamento de uma projeção de tópico entre Foc, em cujo Spec se encontra a expressão Q, e FinP. Já no PE, a inversão VS em interrogativas Q diretas é perfeitamente analisada como decorrente de movimento do verbo até o domínio de FocP, onde se estabelece uma relação Spec-núcleo entre o verbo, posicionado em Foc, e o constituinte Q, localizado em [Spec, FocP].

Referências Bibliográficas
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1 Isso é verdade, em relação ao PE, unicamente nos casos em que o constituinte Q não apresenta um N realizado foneticamente. Caso apresente, caracterizando-se assim como uma expressão Q pesada, a ordem VS passa a ser opcional.

(i) Que tipo de ações [a CNA] vai desenvolver proximamente?

(ii) Que segredos escondem [as mais longínquas galáxias]?

(Mioto & Kato 2005)

Neste artigo, não discutiremos as orações interrogativas com uma expressão Q pesada. Para estudos a respeito desse tipo de construção no PE, cf. Ambar (1992) e Mioto & Kato (2005).


2 Uma proposta similar é desenvolvida em Haegeman (1997).

3 No caso do PE, a posição exata do sujeito é um assunto extremamente controverso. Na realidade, parece não haver uma única posição habilitada para abrigar o sujeito. Como bem aponta Costa (2004), a partir da distribuição de advérbios, duas ordens lineares são possíveis para os sujeitos pós-verbais em interrogativas Q: uma em que o sujeito precede o advérbio, e outra em que o segue imediatamente.

(i) Quem viu o João ontem?

(ii) Quem viu ontem o João?

Ante a hipótese plausível de que a posição do advérbio é a mesma nas duas sentenças, pode-se concluir então que não há uma posição única para o sujeito em seqüências VS. Para uma visão ampla e heterogênea da discussão a respeito da posição do sujeito no PE, cf., entre outros trabalhos, Barbosa (1995) e Costa (2004).



4 Situação semelhante é atestada no Italiano, por exemplo, que não licencia simultaneamente em posição pré-verbal uma expressão Q e um constituinte focalizado.

(i) * A GIANNI che cosa hai detto (, non a Piero)?

“AO JOÃO o que você disse (, e não ao Pedro)?

(ii) * Che cosa A GIANNI hai detto (, non a Piero)?

“Que coisa AO JOÃO você disse (, e não ao Pedro)?

(Rizzi, 1997)



5 Para uma discussão detalhada a respeito da periodização do Português, cf. Galves, Namiuti & Paixão de Sousa (2006).

6 Os textos investigados foram os seguintes: 1) A Gramática da Linguagem Portuguesa, de Fernão de Oliveira (1507-1585); 2) Décadas, de Diogo do Couto (1542-1606); 3) A Vida de Frei Bertolameu dos Mártires, de Luis de Sousa (1556-1632); 4) Corte na Aldeia e Noites de Inverno, de Francisco Rodrigues Lobo (1579-1621); 5) Cartas, de Antonio Vieira (1608-1697); 6) Cartas Espirituais, de Francisco das Chagas (1631-1682); 7) Rellaçaõ da Vida e Morte da Serva de Deos a Venerável Madre Elenna da Crus, de Maria do Céu (1658-1753); 8) A Vida do Padre Antonio Vieira, de André de Barros (1675-1754); 9) Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, de Matias Aires (1705-1763); 10) Cartas do Abade Antonio da Costa, de Antonio da Costa (1714-?). Todos os textos fazem parte do Corpus Tycho Brahe, um corpus histórico do Português Europeu em formato eletrônico, e encontram-se disponíveis em http://www.ime.usp.br/~tycho/corpus/index.html.

7 Dado o fato de que, no PCl, também não atestamos a ocorrência simultânea em posição pré-verbal de sintagmas contrastivos focalizados e constituintes Q, assumimos que estes últimos de igual forma ocupem [Spec, FocP].

8 Sobre a relação entre constituintes topicalizados e pronomes clíticos, cf. Cinque (1990).

9 A análise que defendemos aqui poderia ser reformulada numa perspectiva mais rígida da periferia à esquerda, unicamente com os rótulos CP e FP, este último localizado entre CP e IP (cf. Raposo & Uriagereka 1996, entre outros, para evidências a favor da existência da categoria FP). Neste caso, a ordem de palavras Q-XP-V apresentaria o constituinte interrogativo em [Spec, CP], o tópico intermediário em [Spec, FP] e o verbo em F. Para uma proposta de que F corresponde à Fin na estrutura de CP cindido de Rizzi, cf. Boeckx (2001).





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