A peste Albert Camus



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momento em que elas se regozijam de estar ainda sãs e salvas. Tanto quanto isso é possível, ele está à vontade no terror. Mas, porque ele sentiu tudo isso antes deles, creio que não consegue sentir inteiramente com eles a crueldade dessa incerteza. Em suma, como todos nós que não morremos ainda da peste, ele sente efetivamente que sua vida e sua liberdade estão todos os dias às vésperas de ser destruídas. Mas, já que ele próprio viveu no terror, acha normal que os outros o conheçam por sua vez. Mais exatamente, o terror parece-lhe então menos pesado de suportar que se estivesse totalmente só. É nisso que ele está errado e que é mais difícil de compreender que outros. Mas, afinal, é por isso que merece mais que os outros que tentemos compreendê-lo.”
Finalmente, as páginas de Tarrou terminam por uma narrativa que ilustra essa consciência singular que vinha ao mesmo tempo a Cottard e aos atacados pela peste. Esse relato reconstitui aproximadamente a atmosfera difícil da época e é por isso que o narrador lhe atribui importância.
Eles tinham ido à Ópera Municipal, onde se representava o Orfeu, de Gliick. Cottard convidara Tarrou. Tratavase de uma companhia que viera, na primavera da peste, fazer algumas representações em nossa cidade. Bloqueada pela doença, a companhia se vira forçada, após um acordo com nossa Ópera, a repetir o espetáculo uma vez por semana. Assim, há meses, todas as sextas-feiras, no nosso teatro municipal, ressoavam os lamentos melodiosos de Orfeu e os chamados impotentes, de Eurídice. No entanto, esse espetáculo continuava a conhecer o interesse do público e tinha sempre boas bilheterias. Instalados nos lugares mais caros, Cottard e Tarrou dominavam uma plateia repleta pelos mais elegantes de nossos concidadãos. Os que chegavam esforçavam-se visivelmente em fazer notar sua entrada. Sob a luz contundente da ribalta, enquanto os músicos afinavam discretamente os instrumentos, as silhuetas destacavam-se com precisão, passavam de uma fila a outra, inclinavam-se com graça. No ligeiro rumor de uma conversa de bom-tom, os homens retomavam a segurança que lhes faltara algumas horas antes, entre as ruas negras da cidade. A casaca expulsava a peste.
Durante todo o primeiro ato, Orfeu queixou-se com facilidade, algumas mulheres de túnica comentaram com graça seu infortúnio, e cantou-se o amor em pequenas árias. A sala reagiu com um entusiasmo discreto. Mal se notou que
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Orfeu introduzia na sua ária do segundo ato tremores que não figuravam e pedia, com um ligeiro excesso de patético, ao Senhor dos Infernos que se deixasse comover pelo seu pranto. Certos gestos bruscos que lhe escaparam apareceram aos mais perspicazes como um efeito de estilização que aumentava ainda mais o valor da interpretação do cantor.
Foi necessário o dueto de Orfeu e Eurídice, no terceiro ato (era o momento em que Eurídice fugia ao seu amante), para que uma certa surpresa corresse pela sala. E, como se o cantor tivesse apenas esperado esse movimento do público ou, mais certamente ainda, como se o rumor vindo da plateia tivesse confirmado o que ele sentia, foi esse o momento que ele escolheu para avançar para a boca da cena de uma forma grotesca, com os braços e pernas afastados no seu traje antigo, para vir abater-se no bucolismo do cenário, que nunca deixara de ser anacrónico, mas que assim se tornou aos olhos dos espectadores pela primeira vez e de uma maneira terrível. Isso porque, ao mesmo tempo, a orquestra calou-se, as pessoas da plateia levantaram-se e começaram lentamente a evacuar a sala, primeiro em silêncio, como se sai de uma igreja depois de acabada a missa, ou de uma câmara mortuária depois de uma visita, as mulheres segurando as saias e saindo de cabeça baixa, os homens guiando as companheiras pelo cotovelo, evitando o choque das cadeiras. Pouco a pouco, porém, o movimento precipitou-se, o murmúrio tornou-se exclamação e a multidão afluiu às saídas, comprimindo-se, acabando por se empurrar aos gritos. Cottard e Tarrou, que apenas se tinham levantado, ficaram sós diante de uma das imagens do que era a sua vida de então: a peste no palco, sob o aspecto de um histrião desarticulado, e, na sala, todo um luxo tornado inútil sob a forma de leques esquecidos e de rendas agarradas ao vermelho das poltronas.
Durante os primeiros dias do mês de setembro, Rambert trabalhara seriamente ao lado de Rieux. Apenas pedira uma folga no dia em que devia encontrar-se com González e os dois rapazes em frente ao liceu.
Ao meio-dia, González e o jornalista viram chegar os dois rapazes, que riam. Disseram que não tinha havido sorte da outra vez, mas que era preciso esperar. Em todo caso, já não era a sua semana de plantão. Era preciso ter paciência até a semana seguinte. Então, recomeçariam. Rambert
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disse que era exatamente essa a palavra. González propôs^ portanto, um encontro para a segunda-feira seguinte. Desssl vez, porém, instalariam Rambert em casa de Mareei e Louisl ”Vamos marcar um encontro você e eu. Se eu não aparecer J você vai diretamente à casa deles. Vamos explicar onde mo-I ram.” Mas Mareei, ou Louis, disse nesse momento que ol mais simples era conduzirem imediatamente o companheiro.! Se não fosse muito exigente, havia comida para os quatro.1 E, dessa forma, ele se informaria logo. González disse quel era uma excelente ideia, e desceram para o porto. l
Mareei e Louis moravam no final do Quartier de lal Marine, perto das portas que davam para a estrada da orlai marítima. Era uma pequena casa espanhola, de paredes es-l pessas, janelas exteriores de madeira pintada, compartímen-l tos nus e sombrios. Havia arroz, servido pela mãe dos rapa-l zes, uma velha espanhola, sorridente e cheia de rugas.I González admirou-se, pois já havia falta de arroz na cidade.I ”Nós o arranjamos nas portas”, disse Mareei. Rambert co-1 mia e bebia, e González afirmou que ele era um compa-1 nheiro de verdade, enquanto o jornalista pensava unicamente na semana que tinha de passar.
Na realidade, teve de esperar duas semanas, pois os turnos de guarda foram prolongados para quinze dias a fim de reduzir o número de equipes. E durante esses quinze dias, Rambert trabalhou sem se poupar, de maneira ininterrupta, com os olhos de certo modo fechados, desde a aurora até a noite. Tarde da noite, deítava-se e dormia um sono profundo. A passagem brusca da ociosidade a esse trabalho esgotante deixava-o quase sem sonhos e sem forças. Falava pouco de sua próxima fuga. Um único fato notável: ao fim de uma semana confessou ao doutor que, pela primeira vez, na noite anterior, se embriagara. Ao sair do bar, teve de repente a impressão de que suas virilhas se inchavam e seus braços se moviam com dificuldade em torno da axila. Pensou que era a peste. E a única reação que pôde ter então, e que concordou com Rieux não ser racional, foi correr ao alto da cidade e lá, de uma pequena praça, de onde ainda não se divisava o mar, mas de onde se via um pouco mais de céu, chamar sua mulher com um grande grito, por cima dos muros da cidade. De volta a casa e não descobrindo no corpo nenhum sinal de infecção, não se orgulhara muito dessa crise súbita. Rieux disse que compreendia muito bem que se pudesse agir assim. ”De qualquer
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modo”, disse ele, ”pode acontecer que se tenha vontade de fazê-lo.”
- O Sr. Othon falou-me a seu respeito esta manhã .- acrescentou subitamente Rieux, no momento em que Rambert ia deixá-lo. - Perguntou-me se eu o conhecia. ”Aconselhe-o, então, a não frequentar os meios de contrabando”, disse-me ele. ”Está se expondo.”
- Que quer dizer isso?
- Quer dizer que tem de apressar-se.
- Obrigado - disse Rambert, apertando a mão do médico. Já à porta, voltou-se de repente. Rieux notou que, pela primeira vez desde a peste, ele sorria. - Por que não me impede então de partir? Dispõe de todos os meios.
Rieux abanou a cabeça com seu movimento habitual e respondeu que isso era problema de Rambert, que escolhera a felicidade, e que ele, Rieux, não tinha argumentos a contrapor. Sentia-se incapaz de julgar o que era bem ou mal naquele caso.
- Nessas condições, por que me diz que devo me apressar?
- Talvez porque também eu tenha vontade de fazer qualquer coisa pela felicidade.
No dia seguinte, não falaram mais de nada, mas trabalharam juntos. Uma semana depois, Rambert estava enfim instalado na pequena casa espanhola. Tinham-lhe feito uma cama no compartimento comum. Como os rapazes não comiam em casa e como lhe tinham recomendado que saísse o menos possível, vivia só a maior parte do tempo ou conversava com a velha mãe espanhola. Era seca e ativa, vestida de negro, com o rosto moreno e enrugado debaixo dos cabelos brancos muito limpos. Silenciosa, sorria sozinha com todo o rosto quando olhava para Rambert.
Outras vezes, perguntava-lhe se não tinha medo de levar a peste a sua mulher. Ele pensava que era um risco que valia a pena correr, mas que afinal a probabilidade era mínima, ao passo que, permanecendo na cidade, arriscavam-se a ficar separados para sempre.
- Ela é simpática? - perguntava a velha, sorrindo.
- Muito simpática.
- Bonita?
- Acho que sim.
- Ah! - dizia ela. - É por isso.
Rambert refletia. Era, sem dúvida, por isso, mas era impossível que fosse só por isso.
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- Não acredita em Deus? - perguntava a velha, que ia à missa todas as manhãs.
Rambert reconheceu que não, e a velha disse ainda que era por isso.
- Tem razão, é preciso ir ao encontro dela. Senão, o que lhe restaria?
O resto do tempo Rambert andava à volta das paredes nuas e caiadas, afagando os leques pregados nas paredes ou então contava as bolas de lã que franjavam o pano de mesa. À noite, os rapazes voltavam. Não falavam muito, senão para dizer que não chegara ainda o momento. Depois do jantar, Mareei tocava guitarra e bebiam um licor anisado. Rambert parecia pensativo.
Na quarta-feira, Mareei disse ao entrar: ”É para amanhã à meia-noite. Fique preparado”. Dos dois homens que guardavam o posto com eles, um estava atacado pela peste e o outro, que normalmente dividia o quarto com o primeiro, estava em observação. Assim, durante dois ou três dias, Mareei e Louis estariam a sós. No decurso da noite, iam acertar os últimos detalhes. No dia seguinte, seria possível. Rambert agradeceu. ”Está contente?”, perguntou a velha. Ele disse que sim, mas pensava em outra coisa.
No dia seguinte, sob um céu pesado, o calor era úmido e sufocante. As notícias da peste eram más. A velha espanhola conservava, contudo, a serenidade. ”Há pecado no mundo”, dizia. ”Por isso, forçosamente. . .” Como Mareei e Louis, Rambert estava de peito nu. Porém, por mais que fizesse, o suor corria-lhe entre os ombros e sobre o peito. Na semipenumbra da casa, de persianas fechadas, isso lhe tornava os torsos morenos e lustrosos. Rambert dava voltas, sem falar. Bruscamente, às quatro horas da tarde, vestiu-se e disse que ia sair.
- Cuidado - recomendou Mareei -, é para a meianoite. Está tudo preparado.
O jornalista foi à casa do médico. A mãe de Rieux disse-lhe que o encontraria no hospital. Diante do posto da guarda, a mesma multidão continuava a girar sobre si própria. ”Circulem”, dizia um sargento de olhos protuberantes. Os outros circulavam, mas em roda. ”Não há nada a esperar”, dizia o sargento, cujo suor atravessava o dólmã. Era também a opinião dos outros, mas ficavam, apesar de tudo, apesar do calor infernal. Rambert mostrou o salvo-conduto ao sargento que lhe indicou o gabinete de Tarrou. A porta
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dava para o pátio. Rambert cruzou com o Padre Paneloux, que saía do gabinete.
Numa pequena sala branca que cheirava a farmácia e a pano úmido, Tarrou, sentado atrás de uma secretária de madeira preta com as mangas da camisa arregaçadas, enxugava com um lenço o suor que lhe corria pela curva do braço.
- Ainda aqui? - perguntou.
- Ainda. Queria falar com Rieux.
- Está na sala. Mas se isso pudesse arranjar-se sem ele, seria melhor.
- Por quê?
- Está esgotado. Evito tudo o que possa perturbá-lo.
Rambert olhava para Tarrou. Tinha emagrecido. O cansaço turvava-lhe os olhos e os traços. Os ombros fortes estavam curvados. Alguém bateu, e entrou um enfermeiro, de máscara branca. Colocou em cima da secretária de Tarrou um maço de fichas e, com uma voz que o pano abafava, disse apenas: ”Seis”. Depois, saiu. Tarrou olhou para o jornalista e mostrou-lhe as fichas, que abriu em leque.
- Belas fichas, hem? Pois bem, são mortos, os mortos da noite.
Tinha a fronte cheia de sulcos. Juntou de novo o maço de fichas.
- A única coisa que nos resta é a contabilidade. Tarrou levantou-se, apoiando-se na mesa.
- Vai partir em breve?
- Hoje, à meia-noite.
Tarrou disse que isso o alegrava e que Rambert devia ter cuidado.
- Diz isso sinceramente? Tarrou encolheu os ombros.
- Na minha idade, é preciso ser sincero. Mentir é cansativo demais.
- Tarrou - disse o jornalista -, queria falar com o doutor. Desculpe-me.
- Eu sei. Ele é mais humano que eu. Vamos.
- Não é isso - disse Rambert, com dificuldade. E calou-se.
Tarrou olhou para ele e, de repente, sorriu-lhe.
Seguiram por um pequeno corredor, cujas paredes estavam pintadas de verde-claro e onde flutuava uma luz de aquário. Pouco antes de chegarem a uma porta dupla envidraçada, por trás da qual se via um curioso movimento de sombras, Tarrou fez Rambert entrar numa sala mu iço pequena,
inteiramente coberta de armários. Abriu um deles, tirou de um esterilizador duas máscaras de gaze hidrófila e estendeu uma a Rambert, convidando-o a usá-la. O jornalista perguntou se aquilo servia para alguma coisa, e Tarrou respondeu que não, mas que dava confiança aos outros.
Empurraram a porta envidraçada. Era uma sala imensa, de janelas hermeticamente fechadas, apesar da estação. No alto das paredes, ronronavam circuladores de ar, e suas hélices curvas agitavam o ar espesso e superaquecido por cima de duas fileiras de camas cinzentas. De todos os lados, vinham gemidos surdos ou agudos, que formavam apenas um lamento monótono. Homens vestidos de branco deslocavam-se com lentidão na luz crua que transbordava das janelas guarnecidas de grades. Rambert sentia-se pouco à vontade no calor terrível da sala e teve dificuldade em reconhecer Rieux, curvado sobre uma forma que gemia. O doutor abria as virilhas do doente, que duas enfermeiras, uma de cada lado da cama, mantinham de pernas afastadas. Quando se reergueu, deixou cair os instrumentos numa bandeja que um ajudante lhe estendia e ficou por um momento imóvel, a olhar para o homem em quem faziam um curativo.
- Que há de novo? - perguntou a Tarrou, que se aproximava.
- Paneloux aceita substituir Rambert na casa de quarentena. Já fez muito. Falta a terceira brigada de prospecção, a se reagrupar sem Rambert.
Rieux aprovou com a cabeça.
- Gastei terminou os primeiros preparados e propõe uma experiência.
- Ah! - disse Rieux. - Muito bem.
- Finalmente, está aqui Rambert.
Rieux voltou-se. Por cima da máscara, seus olhos se franziam ao ver o jornalista.
- Que faz aqui? - perguntou. - Devia estar longe. Tarrou disse que era para a meia-noite e Rambert
acrescentou: ”Em princípio”.
A cada vez que um deles falava, a máscara de gaze inchava e ficava úmida à altura da boca. Isso tornava a conversa um pouco irreal, como um diálogo de estátuas.
- Queria falar-lhe - disse Rambert.
- Vamos sair juntos, se quiser. Espere-me no gabinete de Tarrou.
Um momento depois, Rieux e Rambert instalavam-se no banco traseiro do carro do médico. Tarrou dirigia.
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- Acabou a gasolina - disse, ao arrancar. - Amanhã, teremos de andar a pé.
- Doutor - disse Rambert -, não vou embora, fico com o senhor.
Tarrou nem pestanejou. Continuava a dirigir. Rieux parecia incapaz de sair de seu cansaço.
- E ela? - perguntou, com uma voz surda. Rambert disse que tinha refletido, que continuava a
acreditar no que acreditava, mas que se partisse teria vergonha. Isso perturbaria seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieux endireitou-se e disse, com uma voz firme, que aquilo era tolice e que não era vergonha preferir a felicidade.
- Sim - disse Rambert -, mas pode haver ^vergonha em ser feliz sozinho.
Tarrou, que nada dissera até então, observou, sem voltar a cabeça, que, se Rambert queria compartilhar da desgraça dos homens, jamais teria tempo para ser feliz. Era preciso escolher.
- Não é isso - disse Rambert. - Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver com vocês. Mas agora que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira, quer não. A história diz respeito a todos nós.
Ninguém respondeu, e Rambert pareceu impacientar-se.
- Aliás, sabem muito bem disso. Senão, o que fariam neste hospital? Acaso fizeram a sua escolha e renunciaram à felicidade?
Nem Tarrou nem Rieux responderam. O silêncio durou muito tempo, até que se aproximaram da casa do médico. E Rambert de novo fez sua última pergunta, com mais força ainda. Só Rieux se voltou para ele. Ergueu-se com esforço.
- Perdoe-me, Rambert - disse -, mas não sei. Fique conosco, já que assim o deseja.
Uma guinada do carro fê-lo calar-se. Depois prosseguiu, olhando em frente.
- Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber por quê.
Deixou-se cair de novo sobre a almofada.
- É um fato, é só. Registremo-lo e aceitemos suas consequências.
- Que consequências? - perguntou Rambert.
- Ah! - disse Rieux. - Não se pode, ao mesmo
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tempo, curar e saber. Então, curemos, o mais depressa possível. É o mais urgente.
À meia-noite, Tarrou e o doutor faziam para Rambert o mapa do bairro que estava encarregado de fiscalizar quando Tarrou olhou para o relógio. Ao levantar a cabeça encontrou o olhar de Rambert.
- Não os avisou?
O jornalista desviou o olhar.
- Tinha mandado um recado - disse, com esforço antes de vir ao seu encontro.
Foi nos últimos dias de outubro que o soro de Gastei foi experimentado. Praticamente era a última esperança de Rieux. Em caso de novo fracasso o médico estava convencido de que a cidade toda ficaria entregue aos caprichos da doença, quer a epidemia prolongasse seus efeitos durante longos meses ainda, quer decidisse deter-se sem razão.
Na própria véspera do dia em que Gastei veio visitar Rieux, o filho do Sr. Othon adoecera e toda a família fora posta de quarentena. A mãe, que saíra de lá pouco antes, viuse pois isolada pela segunda vez. Cumpridor das determinações legais, o juiz mandara chamar o Dr. Rieux, logo que reconheceu no corpo da criança os sinais da doença. Quando Rieux chegou, o pai e a mãe estavam de pé, junto à cama. A menina tinha sido afastada. O garoto estava no período de abatimento e deixou-se examinar sem se queixar. Quando o médico levantou a cabeça, encontrou o olhar do juiz e, atrás dele, o rosto pálido da mãe, que colocara um lenço na boca e seguia os gestos de Rieux com os olhos dilatados.
- É isso, não é verdade? - perguntou o juiz, com uma voz fria.
- Sim - respondeu Rieux, olhando de novo para a criança.
Os olhos da mãe dilataram-se ainda mais, mas ela continuava calada. O juiz calou-se também e depois disse, num tom mais baixo:
- Pois bem, doutor, temos de fazer o que está determinado.
Rieux evitava olhar para a mãe, que mantinha o lenço na boca.
- Será rápido - disse ele, hesitando -, se puder telefonar. ..•-..
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O Sr. Othon disse que ia indicar-lhe o caminho. Mas o doutor voltou-se para a mulher:
- Lamento muito. Acho que devia preparar suas coisas. Sabe como é.
A Sra. Othon parecia perplexa. Olhava para o chão.
- Sim - disse ela, abanando a cabeça. - É o que vou fazer.
Antes de sair, Rieux não pôde deixar de perguntar se não precisavam de nada. A mulher continuava a olhá-lo em silêncio. Mas dessa vez o juiz desviou o olhar.
- Não - disse ele, engolindo a saliva -, mas salve meu filho.
A quarentena, que a princípio era uma simples formalidade, tinha sido organizada por Rieux e Rambert de uma maneira muito rigorosa. Em especial, tinham exigido que os membros de uma mesma família fossem sempre isolados uns dos outros. Se um dos membros da família tivesse sido infectado sem o saber, era preciso não multiplicar as possibilidades da doença. Rieux explicou essas razões ao juiz, que as achou razoáveis. Entretanto, a mulher e ele olharam-se de tal modo que o médico sentiu até que ponto essa separação os deixava perturbados. A Sra. Othon e sua filha puderam ser alojadas num hotel de quarentena dirigido por Rambert. Para o juiz de instrução, porém, já não havia lugar senão no campo de isolamento que a prefeitura estava organizando, no estádio municipal, com o auxílio de barracas emprestadas pelo serviço de vigilância sanitária. Rieux pediu desculpas, mas o juiz disse que havia uma só regra para todos, e que era justo obedecer.
Quanto ao garoto, foi transportado para o hospital auxiliar para uma antiga sala de aula em que haviam sido instalados dez leitos. Umas vinte horas depois, Rieux julgou seu caso desesperador. O pequenino corpo deixava-se devorar pela infecção, sem reagir. Pequenos tumores, dolorosos, mas ainda em formação, bloqueavam as articulações dos frágeis membros. Estava de antemão vencido. Foi por isso que Rieux teve a ideia de experimentar nele o soro de Gastei. Nessa mesma noite, depois do jantar, eles praticaram a longa inoculação, sem obter uma única reação da criança. No dia seguinte, de madrugada, todos se dirigiram ao leito do menino para julgar a experiência decisiva.
A criança, saída do seu torpor, agitava-se convulsivamente entre os lençóis. O Dr. Gastei e Tarrou estavam junto dele desde as quatro horas da manhã, acompanhando passo
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a passo os progressos ou recuos da doença. À cabeceira do leito, o corpo maciço de Tarrou estava um pouco curvado. Aos pés da cama, sentado junto de Rieux, que estava de pé, Gastei lia, com toda a aparência de tranqüilidade, um velho livro. Pouco a pouco, à medida que o dia avançava na antiga sala de aula, os outros chegavam. Em primeiro lugar, Paneloux, que se colocou do outro lado do leito em relação a Tarrou e encostado à parede. Lia-se em seu rosto uma expressão dolorosa, e o cansaço de todos esses dias em que ele se entregara totalmente traçara-lhe rugas na fronte congestionada. Por sua vez, Joseph Grand chegou. Eram sete horas e o empregado municipal desculpou-se por estar esfalfado. Só podia ficar um instante, mas talvez já soubessem alguma coisa de preciso. Sem falar, Rieux mostrou-lhe a criança, que, com os olhos fechados e o rosto transtornado, os dentes cerrados até o limite de forças, o corpo imóvel, virava e revirava a cabeça da direita para a esquerda no travesseiro sem fronha. Quando, finalmente, estava bastante claro para que no quadro-negro que ficara ao fundo da sala pudessem distinguir-se vestígios de antigas fórmulas de equações, chegou Rambert. Encostou-se aos pés da cama vizinha e tirou um maço de cigarros. Depois de lançar um olhar ao pequeno, no entanto, voltou a guardar o maço no bolso.
Gastei, que continuava sentado, olhava para Rieux por cima dos óculos.
- Tem notícias do pai?
- Não - disse Rieux -, está no campo de isolamento.
O médico apertava com força a barra do leito onde a criança gemia. Não tirava os olhos do pequeno doente, que se enrijeceu bruscamente e, com os dentes de novo cerrados, se encolheu um pouco ao nível da cintura, afastando lentamente os braços e as pernas. Do pequenino corpo, nu sob o cobertor militar, veio um cheiro de lã e de suor acre. A criança descontraiu-se pouco a pouco, levou os braços e as pernas para o centro da cama e, ainda cega e muda, pareceu respirar mais depressa. Rieux encontrou o olhar de Tarrou, que desviou os olhos.
Tinham visto morrer crianças, já que o terror, há meses, não escolhia, mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto, como faziam desde essa manhã. E, naturalmente, a dor infligida a esses inocentes nunca deixara de lhes parecer o que era na verdade, isto é, um eescândalo.
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Mas até então ao menos escandalizavam-se abstratamente, de certo modo, pois nunca tinham olhado de frente, tão longamente, a agonia de um inocente.
Justamente como se lhe mordessem o estômago, a criança dobrava-se de novo com um gemido débil. Ficou assim encolhida durante longos segundos, sacudida por calafrios e tremores convulsivos, como se sua frágil carcaça se curvasse sob o vento furioso da peste e estalasse aos sopros repetidos da febre. Passada a tempestade, ele se descontraiu um pouco, a febre pareceu retirar-se e abandoná-lo ofegante num patamar úmido e envenenado, em que o repouso já se parecia com a morte. Quando a vaga ardente o atingiu de novo pela terceira vez e o soergueu um pouco, a criança se retorceu, recuou para o fundo do leito no terror da chama que o queimava e agitou loucamente a cabeça, repelindo o cobertor. Grossas lágrimas lhe jorravam das pálpebras inflamadas e corriam pela face lívida, e, no fim da crise, exausta, crispando as pernas ossudas e os braços, cuja carne se fundira em quarenta e oito horas, a criança tomou no leito devastado uma atitude de grotesco crucificado.
Tarrou curvou-se e, com a pesada mão, enxugou o pequeno rosto, encharcado de lágrimas e de suor. Gastei fechara há um momento seu livro e olhava para o doente. Começou uma frase, mas foi obrigado a tossir para poder terminar, pois sua voz desafinava bruscamente.
- Não houve remissão matinal, não é verdade, Rieux? Rieux disse que não, mas que a criança resistia há mais
tempo do que o normal. Paneloux, que parecia um pouco abatido, encostado à parede, disse então, surdamente:
- Se tiver de morrer, terá sofrido mais tempo. Rieux voltou-se bruscamente para ele e abriu a boca
para falar, mas calou-se, fez um esforço visível para se dominar e voltou a olhar para a criança.
A luz aumentava na sala. Nas outras cinco camas, formas mexiam-se e gemiam, mas com uma discrição que parecia combinada. O único que gritava, no outro extremo da sala, soltava com intervalos regulares pequenas exclamações que pareciam traduzir mais espanto que dor. Parecia que, mesmo para os doentes, não era já o terror dos primeiros tempos. Agora, havia até uma espécie de aquiescência na maneira como aceitavam a doença. Só o pequeno se debatia com todas as suas forças. Rieux, que de vez em quando lhe tomava o pulso, sem necessidade aliás, mais para sair da
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imobilidade impotente em que se encontrava, sentia, ao fechar os olhos, essa agitação misturar-se ao tumulto de seu próprio sangue. Confundia-se então com a criança supliciada e tentava apoiá-la com toda a sua força ainda intacta. No entanto, reunidas um minuto, as pulsações dos seus dois corações desencontravam-se, a criança lhe escapava e seu esforço perdia-se no vácuo. Soltava então o frágil pulso e voltava ao seu lugar.
Ao longo das paredes caiadas, a luz passava do rosa ao amarelo. Por trás da janela, uma manhã de calor começava a crepitar. Mal se ouviu Grand sair, dizendo que voltaria. Todos esperavam. A criança, sempre de olhos fechados, parecia acalmar-se um pouco. As mãos que agora pareciam garras raspavam suavemente os flancos do leito. Depois subiram, coçaram o cobertor perto dos joelhos e, de repente, o pequeno dobrou as pernas, aproximou as coxas do ventre e imobilizou-se. Abriu então os olhos pela primeira vez e olhou para Rieux, que se encontrava diante dele. No rosto cavado, agora como que fixado numa argila cinzenta, a boca abriu-se e, quase imediatamente, emitiu um único grito contínuo que a respiração mal modulava e que encheu de súbito a sala de um protesto monótono, desafinado e tão pouco humano que parecia vir de todos os homens ao mesmo tempo. Rieux cerrou os dentes, e Tarrou voltou-se. Rambert aproximou-se do leito, perto de Gastei, que fechou o livro que ficara aberto sobre os joelhos. Paneloux olhou para a boca infantil, conspurcada pela doença, cheia desse grito de todas as idades. E deixou-se cair de joelhos, e todos acharam natural ouvi-lo dizer, com uma voz um pouco abafada, mas nítida, por detrás do lamento anónimo que não cessava: ”Meu Deus, salvai esta criança”.
Mas a criança continuava a gritar e, à sua volta, os doentes agitaram-se. Aquele cujas exclamações não haviam cessado, no outro extremo da sala, precipitou o ritmo de seu lamento até fazer dele também um verdadeiro grito, enquanto os outros gemiam cada vez com mais força. Uma maré de soluços irrompeu na sala, cobrindo a oração de Paneloux, e Rieux, agarrado à barra do leito, fechou os olhos, bêbado de cansaço e de desgosto.
Quando voltou a abri-los, encontrou Tarrou a seu lado.
- Preciso ir embora - disse. - Não consigo mais suportá-los.
Mas, bruscamente, os outros doentes calaram-se. O médico reconheceu então que o grito da criança tinha enfraquecido e
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que enfraquecia ainda e que acabava de cessar. À sua volta, os lamentos recomeçavam, mas surdamente e como um eco longínquo da luta que acabava de terminar. Porque a luta chegara ao fim. Gastei tinha passado para o outro lado do leito e disse que tudo findara. com a boca aberta, mas muda, a criança repousava no fundo dos cobertores em desordem, subitamente menor, com restos de lágrimas no rosto.
Paneloux aproximou-se do leito e fez os gestos da bênção. Depois, saiu pelo corredor central.
- Será preciso recomeçar tudo? - perguntou Tarrou a Gastei.
O velho médico abanava a cabeça.
- Talvez - disse com um sorriso crispado. - Afinal, ele resistiu muito tempo.
Mas Rieux saía já da sala, com um passo tão precipitado e com um tal aspecto que, quando passou por Paneloux, este estendeu o braço para detê-lo.
- Vamos, doutor - disse-lhe.
com o mesmo movimento arrebatado, Rieux voltou-se e lançou-lhe com violência:
- Ah! Aquele, pelo menos, era inocente, como o senhor bem sabe!
Depois voltou-se e, atravessando a porta da sala antes de Paneloux, chegou ao fundo do pátio da escola. Sentou-se num banco, entre pequenas árvores poeirentas, e enxugou o suor que já lhe escorria pelos olhos. Tinha vontade de gritar mais, para desfazer enfim o nó violento que lhe apertava o coração. O calor caía lentamente entre os ramos das árvores. O céu azul da manhã cobria-se rapidamente de uma névoa esbranquiçada que tornava o ar mais abafado. Rieux deixou-se ficar no banco. Olhava para os galhos, para o céu, recuperava lentamente a respiração, vencendo pouco a pouco o cansaço.
- Por que me falou com tanta raiva? - disse uma voz atrás dele. - Também para mim o espetáculo é insuportável.
Rieux voltou-se para Paneloux.
- É verdade - disse. - Desculpe-me. Mas o cansaço é uma loucura. E há horas, nesta cidade, em que nada sinto a não ser minha revolta.
- Compreendo - murmurou Paneloux. - Isso é revoltante, pois ultrapassa nossa compreensão. Mas talvez devamos amar o que não conseguimos compreender.
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Rieux endireitou-se bruscamente. Olhava para Paneloux com toda a força e toda a paixão de que era capaz e abanava a cabeça.
- Não, padre - disse ele. - Tenho outra ideia do amor. E vou recusar até a morte essa criação em que as crianças são torturadas.
No rosto de Paneloux passou uma sombra de perturbação.
- Ah, doutor - exclamou, com tristeza -, acabo de compreender aquilo a que se chama graça.
Mas Rieux deixara-se cair de novo em seu banco. Do fundo do cansaço que lhe voltara, respondeu com mais suavidade:
- É o que eu não tenho, bem sei. Mas não quero discutir isso com o senhor. Trabalhamos juntos para qualquer coisa que nos una para além das blasfémias e das orações. Só isso é importante.
Paneloux sentou-se junto de Rieux. Parecia comovido.
- Sim - disse ele -, é verdade, também o senhor trabalha para a salvação do homem.
Rieux tentou sorrir.
- A salvação do homem é, para mim, uma palavra demasiado grande. Não vou tão longe. É sua saúde que me interessa, a saúde em primeiro lugar.
Paneloux hesitou.
- Doutor. . . - disse ele.
Mas deteve-se. Também sobre sua fronte o suor começava a escorrer. Murmurou ”adeus”, e seus olhos brilhavam quando se levantou. Ia partir, quando Rieux, que rèfletia, se levantou também e deu um passo em sua direção.
- Perdoe-me, mais uma vez. Esse rompante não voltará a se repetir.
Paneloux estendeu-lhe a mão e disse com tristeza:
- E, contudo, não o convenci.
- Que importância tem isso? - respondeu Rieux.
- Como sabe, o que odeio é a morte e o mal. E, quer queira, quer não, estamos juntos para sofrê-los e combatê-los.
- Rieux segurava a mão de Paneloux. - Como vê - disse, evitando fixá-lo -, nem mesmo Deus pode nos separar agora.
Desde que entrara para as brigadas sanitárias, Paneloux não abandonara os hospitais e os lugares onde se encontrava
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a peste. Tinha-se colocado, entre os salvadores, na posição que lhe parecia ser a sua. Quer dizer, no primeiro posto. Não lhe tinham faltado os espetáculos da morte. E embora, em princípio, estivesse protegido pelo soro, a preocupação com sua própria morte não lhe era estranha. Aparentemente, mantivera sempre a calma. No entanto, a partir do dia em que vira, passo a passo, uma criança morrer, pareceu modificar-se. Lia-se no seu rosto uma tensão crescente. E, no dia em que disse a Rieux, sorrindo, que preparava nesse momento um curto tratado sobre o assunto ”Um padre pode consultar um médico?”, o doutor teve a impressão de que se tratava de algo mais sério do que parecia dizer Paneloux. Como o médico exprimisse o desejo de tomar conhecimento desse trabalho, Paneloux anunciou-lhe que devia fazer um sermão na missa dos homens e que, nessa ocasião, exporia pelo menos alguns de seus pontos de vista.
- Gostaria que viesse, doutor, o assunto vai interessar-lhe.
O padre fez seu segundo sermão num dia de grande ventania. Para dizer a verdade, a assistência era menos numerosa que por ocasião do primeiro sermão. É que esse género de espetáculo já não tinha para nossos concidadãos a atração da novidade. Nas circunstâncias difíceis que a cidade atravessava, a própria palavra ”novidade” tinha perdido seu sentido. Aliás, a maior parte das pessoas, quando não tinha desertado inteiramente de seus deveres religiosos., ou quando não os faziam coincidir com uma vida pessoal profundamente imoral, havia substituído as práticas normais por superstições pouco razoáveis. Era mais fácil usar medalhas protetoras ou amuletos de São Roque do que ir à missa.
Pode-se dar como exemplo o uso imoderado que nossos concidadãos faziam das profecias. Na primavera, com efeito, esperara-se, de um momento para outro, o fim da doença, e ninguém pensava em pedir aos outros detalhes sobre a duração da epidemia, já que todos estavam persuadidos de que ela não duraria para sempre. Mas, à medida que os dias passavam, começaram a recear que essa desgraça não tivesse realmente fim e, ao mesmo tempo, o término da doença tornou-se o objeto de todas as esperanças. Era assim que passavam de mão em mão diversas profecias atribuídas a magos ou a santos da Igreja Católica. Editores da cidade viram rapidamente o proveito que poderiam tirar dessa mania e difundiram em numerosos exemplares os textos que
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circulavam. Compreendendo que a curiosidade do público era insaciável, mandaram fazer pesquisas nas bibliotecas municipais sobre todos os testemunhos do género que as pequenas histórias podiam fornecer e espalharam-nos pela cidade. Quando a própria história já não tinha profecias, encomendaram-nas a jornalistas que, ao menos nesse ponto, se mostraram tão competentes quanto seus modelos dos séculos passados.
Algumas dessas profecias apareciam até em folhetins nos jornais e não eram lidos com menos avidez que as histórias sentimentais que lá se encontravam em tempo de saúde. Algumas dessas previsões baseavam-se em cálculos estranhos em que intervinham o milésimo do ano, o número de mortos e a conta dos meses já passados sob o regime da peste. Outras estabeleciam comparações com as grandes pestes da história, tiravam delas semelhanças (que as profecias chamavam constantes) e, por meio de cálculos não menos estranhos, pretendiam extrair delas ensinamentos relativos à presente provação. Mas as mais apreciadas pelo público eram, sem contestação, as que, numa linguagem apocalíptica, anunciavam séries de acontecimentos, cada um dos quais podia ser aquele que a cidade sentia e cuja complexidade permitia todas as interpretações. Nostradamus e Santa Odília foram assim consultados diariamente e sempre com proveito. O que, de resto, se tornava comum a todas as profecias era o fato de elas serem, finalmente, tranqüilizadoras. Só a peste não o era.
Essas superstições substituíam para nossos concidadãos a religião, e foi por isso que o sermão de Paneloux se realizou numa igreja de que a quarta parte estava vaga. Na tarde do sermão, quando Rieux chegou, o vento, que se infiltrava em filetes de ar pelas portas de entrada, circulava livremente entre os ouvintes. E foi numa igreja fria e silenciosa, no meio de uma assistência composta exclusivamente por homens, que ele se instalou e viu o Padre Paneloux subir ao púlpito. Este falou num tom mais brando e mais refletido que da primeira vez, e em várias ocasiões os ouvintes notaram uma certa hesitação em seu discurso. Coisa mais curiosa ainda, dizia agora ”nós”, em vez de empregar a segunda pessoa do plural.
No entanto, sua voz tornou-se pouco a pouco mais firme. Começou por lembrar que a peste estava entre nós há longos meses e que, agora que a conhecíamos melhor, por a termos visto tantas vezes sentar-se à nossa mesa ou à
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cabeceira dos que nos eram queridos, caminhar ao nosso lado ou esperar a nossa chegada aos lugares de trabalho, agora, portanto, poderíamos talvez receber melhor o que ela nos dizia sem descanso e que talvez, com a primeira surpresa, não tivéssemos escutado bem. O que o Padre Paneloux já pregara no mesmo lugar continuava verdadeiro ou era essa, pelo menos, sua convicção. Ou talvez ainda, como acontecia a todos, e batia no peito, ele o tivesse pensado e dito sem caridade. O que continuava verdadeiro, entretanto, era que em tudo, e sempre, havia qualquer coisa a reter. A provação mais cruel era ainda benefício para o cristão, e justamente o que o cristão, nesse caso, devia procurar era seu benefício e de que era ele feito e como podia encontrá-lo.
Nesse momento, à volta de Rieux as pessoas pareceram enterrar-se entre os braços de seus bancos e instalar-se o mais confortavelmente que podiam. Uma das portas almofadadas da entrada bateu suavemente. Alguém se deu ao trabalho de segurá-la. E Rieux, distraído por essa agitação, mal ouviu Paneloux, que retomava o sermão. Dizia, mais ou menos, que não se devia tentar explicar o espetáculo da peste, mas sim tentar aprender o que com ele se podia aprender. Rieux compreendeu coníusamente que, segundo o padre, nada havia a explicar. Seu interesse fixou-se quando Paneloux disse vigorosamente que havia coisas que se podiam explicar em relação a Deus e outras que não se podiam. Havia, certamente, o bem e o mal e, geralmente, as pessoas sabiam explicar facilmente o que os distinguia. A dificuldade começava porém no interior do mal. Havia, por exemplo, o mal aparentemente necessário e o mal aparentemente inútil. Havia Dom Juan mergulhado nos Infernos e a morte de uma criança. Pois, se é justo que um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de uma criança. E, na verdade, nada havia de mais importante sobre a terra que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento traz consigo e suas razões que é preciso descobrir. No resto da vida, Deus nos facilitava tudo e, até então, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele encostava-nos contra a parede. Estávamos assim sob as muralhas da peste e era à sua sombra mortal que era necessário encontrar nosso benefício. O Padre Paneloux chegava até a recusar as oportunidades que lhe permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podia compensar
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seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor nos membros e na alma. Não, o padre continuaria encostado à muralha, fiel a esse esquartejamento de que a cruz era o símbolo, diante do sofrimento de uma criança. E diria sem temor aos que o escutavam nesse dia, ”Meus irmãos, chegou a hora. É preciso crer em tudo ou tudo negar. E quem, dentre vós, ousaria negar tudo?”


Rieux mal tivera tempo de pensar que Paneloux beirava a heresia e já o outro recomeçava, com veemência, para afirmar que essa injunção, essa pura exigência, era o benefício do cristão. Era, também, sua virtude. O padre sabia que o que havia de excessivo na virtude de que ia falar chocaria muitos espíritos habituados a uma moral mais indulgente e mais clássica. Mas a religião do tempo da peste não podia ser a religião de todos os dias, e se Deus podia admitir, e mesmo desejar, que a alma repouse e se rejubile nos tempos de felicidade, desejava-o excessivamente nos excessos da desgraça. Deus concedia hoje às suas criaturas a graça de colocá-las numa desgraça tal que lhes era necessário reencontrar e assumir a maior virtude que é a do Tudo ou Nada.
Um autor profano, há muitos séculos, pretendera revelar o segredo da Igreja, ao afirmar que não havia Purgatório. Subentendia, assim, que não havia meias medidas, que só havia o Paraíso e o Inferno, e que só se podia ser salvo ou condenado, segundo o que se tinha escolhido. Era, na opinião de Paneloux, uma heresia que só podia nascer no seio de uma alma libertina. Pois existia um Purgatório. Mas havia épocas, sem dúvida, em que não se podia contar muito com esse Purgatório, havia épocas em que não se podia falar de pecado venial. Todo pecado era mortal e toda indiferença, criminosa. Tudo ou nada.
Paneloux deteve-se, e Rieux ouviu melhor, nesse momento, debaixo das portas, as lamúrias do vento, que parecia redobrar lá fora. Nesse instante, o padre dizia que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que lhe era habitualmente atribuído, que não se tratava da banal resignação, nem mesmo da difícil humildade. Tratava-se de humilhação, mas de uma humilhação consentida pelo humilhado. Sem dúvida, o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o
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coração. Mas exatamente por isso era necessário passar por essa prova. Era por isso - e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil - preciso querê-la, porque Deus a queria. Só assim o cristão nada se pouparia e, com todas as saídas fechadas, iria ao fundo da escolha essencial. Escolheria crer em tudo, para não ficar reduzido a tudo negar. E como as boas mulheres que nas igrejas, nesse momento, ao saber que os tumores que se formavam eram o caminho natural por onde o corpo rejeitava a infecção, diziam: ”Meu Deus, dai-nos tumores”, o cristão saberia abandonar-se à vontade divina, ainda que incompreensível. Não se podia dizer: ”Isso eu compreendo, mas aquilo é inaceitável”, era preciso agarrar-se avidamente a esse inaceitável que nos era oferecido, justamente para que fizéssemos nossa escolha. O sofrimento das crianças era nosso pão amargo, mas sem esse pão, nossa alma pereceria de fome espiritual.
Aqui, o burburinho surdo que geralmente acompanhava as pausas do Padre Paneloux começava a fazer-se ouvir, quando, inopinadamente, o pregador recomeçou com força, aparentando perguntar, em lugar de seus ouvintes, qual era em suma a conduta a adotar. Receava efetivamente que eles fossem pronunciar a aterradora palavra ”fatalismo”. Pois bem, ele não recuaria diante do termo, se lhe permitissem acrescentar o adjetivo ativo. Sem dúvida, e mais uma vez, não se deviam imitar os cristãos da Abissínia de que falara. Não se devia sequer pensar em imitar os persas atingidos pela peste, que lançavam seus bandos sobre os piquetes cristãos, invocando o céu em altas vozes, para pedir que mandasse a peste a esses infiéis que queriam combater o mal enviado por Deus. Mas, por outro lado, tampouco se deviam imitar os monges do Cairo que, nas epidemias do século passado, davam a comunhão pegando a hóstia com uma pinça, para evitar o contato com aquelas bocas úmidas e quentes em que a infecção podia dormir. Os doentes persas e os monges pecavam igualmente. Isso porque, para os primeiros, o sofrimento de uma criança não contava e, para os outros, pelo contrário, o receio bem humano da dor tudo invadira. Em ambos os casos, o problema era escamoteado. Todos permaneciam surdos à voz de Deus. Mas havia outros exemplos que Paneloux queria recordar. Segundo o cronista da grande peste de Marselha, dos oitenta e um religiosos do Convento de La Mercy, só quatro sobreviveram à febre. E, desses quatro, três fugiram. Assim falavam os cronistas,
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e não fazia parte de seu ofício dizer mais. Mas, ao ler isso, o pensamento do Padre Paneloux ia para aquele que ficara sozinho, apesar dos setenta e sete cadáveres e, sobretudo, apesar do exemplo de seus três irmãos. E o padre, batendo com o punho no rebordo do púlpito, exclamava: ”Meus irmãos, é preciso ser aquele que fica!”
Não se tratava de recusar as precauções, a ordem inteligente que uma sociedade introduzia na desordem de um flagelo. Não se deviam escutar os moralistas que diziam ser preciso cair de joelhos e tudo abandonar. Era preciso, apenas, começar a caminhar para a frente, nas trevas, um pouco às cegas, e tentar praticar o bem. Quanto ao resto, porém, era preciso ficar e aceitar entregar-se a Deus, mesmo na morte das crianças, e sem procurar um recurso pessoal.
Aqui, o Padre Paneloux evocou a grande figura do Bispo Belzunce durante a peste de Marselha. Lembrou que, pelo fim da epidemia, o bispo, tendo feito tudo o que devia fazer, julgando que já não havia remédio, se trancou com víveres em sua casa, que mandou murar; que os habitantes, de quem era o ídolo, por uma reviravolta de sentimentos, tal como ocorre por vezes no excesso das dores, zangaram-se com ele, cercaram-lhe à casa de cadáveres para infectá-lo e chegaram até a atirar corpos por cima dos muros para fazê-lo morrer com mais certeza. Assim, o bispo, numa última fraqueza, tinha julgado isolar-se da morte no mundo, e os mortos caíam-lhe do céu sobre a cabeça. Esse era também nosso caso, já que devíamos persuadir-nos de que não havia ilha na peste. Não, não havia meio-termo. Era preciso admitir o escândalo, pois era necessário escolher entre odiar a Deus ou amá-lo. E quem ousaria escolher o ódio a Deus?
- Meus irmãos - disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar -, o amor de Deus é um amor difícil. Ele pressupõe o abandono total de si mesmo e o menosprezo da pessoa. Mas só ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianças, só ele, em todo caso, pode torná-la necessária, pois é impossível compreendê-la, e não podemos senão desejá-la. Eis a difícil lição que desejava compartilhar convosco. Eis a fé, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhos de Deus, de quem é preciso nos aproximarmos. Diante dessa imagem terrível, é preciso que nos igualemos. Nesse cume, tudo se confundirá e se nivelará, a verdade brotará da injustiça aparente. É assim que em muitas igrejas do sul da França os mortos da peste dormem, há séculos, sob as lajes do coro, e os padres falam por cima de seus
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túmulos, e o espírito que eles propagam brota dessa cinza para a qual as crianças deram, contudo, a sua parte.
Quando Rieux saiu, um vento violento engolfou-se pela porta entreaberta e atingiu em pleno rosto os fiéis. Trazia até a igreja um cheiro de chuva, um aroma de calçadas molhadas que lhes deixava adivinhar o aspecto da cidade antes de saírem. Diante do Dr. Rieux, um velho padre e um jovem diácono, que saíam nesse momento, seguravam com dificuldade os chapéus. Nem por isso, o mais velho deixou de comentar o sermão. Prestava homenagem à eloquência de Paneloux, mas mostrava-se inquieto com as ousadias de pensamento que o padre tinha mostrado. Achava que esse sermão indicava mais inquietação que força e, na idade de Paneloux, um padre já não tinha o direito de ficar inquieto. O jovem diácono, com a cabeça baixa para proteger-se do vento, afirmou que frequentava o padre, que estava a par de sua evolução, que seu tratado seria ainda muito mais ousado e que não obteria o Imprimatur.
- Qual é afinal a ideia dele? - perguntou o velho padre.
Tinham chegado ao adro e o vento cercava-os, uivando, cortando a palavra ao mais novo. Quando conseguiu falar, disse simplesmente:
- Se um padre consulta um médico, há contradição. A Rieux, que lhe contava as palavras de Paneloux,
disse que conhecia um padre que perdera a fé durante a guerra ao descobrir um rosto de rapaz com os olhos vazados.
- Paneloux tem razão - disse Tarrou. - Quando a inocência tem os olhos vazados, um cristão deve perder a fé ou aceitar que lhe furem os olhos. Paneloux não quer perder a fé, irá até o fim. Foi isso o que quis dizer.
Será que essa observação de Tarrou permite esclarecer um pouco os lamentáveis acontecimentos que se seguiram e em que a atitude de Paneloux pareceu incompreensível aos que o cercavam? É o que se verá.
Na verdade, alguns dias depois do sermão, Paneloux ocupou-se em mudar de casa. Era a época em que a evolução da doença provocava mudanças constantes na cidade. E, assim como Tarrou tivera de abandonar o hotel para morar em casa de Rieux, o padre teve de deixar a casa em que sua ordem o instalara para ir morar em casa de uma pessoa idosa, frequentadora das igrejas e ainda imune à peste. Durante a mudança, o padre sentira aumentar o cansaço e a
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angústia. E foi assim que ele perdeu a estima da dona da casa. Como esta lhe tivesse louvado calorosamente os méritos da profecia de Santa Odília, o padre demonstrara uma impaciência muito ligeira, devida sem dúvida ao cansaço. Por mais esforços que fizesse, em seguida, para obter da velha senhora pelo menos uma neutralidade benévola, não o conseguiu. Tinha causado má impressão. E, todas as noites, antes de voltar para o quarto cheio de rendas de croché, tinha de contemplar as costas de sua anfitriã, sentada na sala ao mesmo tempo em que levava a recordação do ”Boa noite, Padre Paneloux” que ela lhe dirigia secamente e sem se voltar. Foi numa noite dessas que, no momento de se deitar, com a cabeça latejante, ele sentiu desencadearem-se, nos pulsos e nas têmporas, as ondas de uma febre, latente há dias.
O que se seguiu só ficou conhecido depois, pelo relato de sua anfitriã. De manhã, ela se levantara cedo, como de costume. Ao fim de certo tempo, admirada de não ver o padre sair do quarto, decidira-se, depois de muita hesitação, bater à porta. Encontrara-o ainda deitado, depois de uma noite de insónia. Respirava com dificuldade e parecia mais congestionado que habitualmente. Segundo seus próprios termos, tinha-lhe proposto com cortesia chamar um médico, mas a proposta fora repelida com uma violência que ela considerava lamentável. Nada pudera fazer, senão retirarse. Um pouco mais tarde, o padre tocara e mandara chamar Ia. Tinha-se desculpado pelo mau humor e declarara-lhe que não devia ser a peste, que não apresentava nenhum dos sintomas e que se tratava de um cansaço passageiro. A velha senhora respondera-lhe com dignidade que sua proposta não nascera de nenhuma inquietação dessa ordem, que não visava a sua própria segurança, que estava nas mãos de Deus, mas que só pensara na saúde do padre, pela qual se julgava, em parte, responsável. Mas, como ele nada mais acrescentasse, sua anfitriã, a acreditar em suas palavras, desejosa de cumprir inteirametne seu dever, propusera-lhe, mais uma vez, chamar o médico. O padre recusara de novo, mas acrescentando explicações que a velha senhora julgara muito confusas. Pensava apenas ter compreendido - e isso justamente lhe parecia incompreensível - que o padre recusava essa consulta porque estava em desacordo com seus princípios. Concluíra que a febre perturbava as ideias de seu inquilino, e que ela estava reduzida a levar-lhe um chá.
Sempre decidida a cumprir com grande exatidão as
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obrigações que a situação lhe criava, visitara regularmente o doente de duas em duas horas. O que mais a impressionara fora a agitação incessante em que o padre passara o dia. Tirava os lençóis e tornava a cobrir-se, passando incessantemente as mãos sobre a testa úmida e erguendo-se muitas vezes para tentar tossir, com uma tosse estrangulada, rouca e úmida, aos arrancos. Parecia então incapaz de extirpar do fundo da garganta os tampões de algodão que o teriam sufocado. Ao fim dessas crises, deixava-se cair para trás, com todos os sinais de esgotamento. Por fim, semierguia-se de novo e, durante um breve momento, olhava para a frente, com uma fixidez mais veemente que toda a agitação anterior. Mas a velha senhora hesitava ainda em chamar o médico e contrariar o doente. Podia ser um simples acesso de febre, por mais impressionante que parecesse.
À tarde, contudo, tentou falar com o padre, recebendo como resposta apenas algumas palavras confusas. Renovou a proposta. Mas então o padre ergueu-se e, meio sufocado, respondeu-lhe distintamente que não queria um médico. Nesse momento, a anfitriã decidiu que esperaria até o dia seguinte de manhã e que, se o estado do padre não tivesse melhorado, telefonaria para o número que a Agência Ransdoc repetia todos os dias uma dezena de vezes pelo rádio. Sempre atenta a seus deveres, pretendia visitar seu locatário durante a noite e velar por ele. Mas à noite, depois de lhe ter dado um chá fresco, quis descansar um pouco e só acordou de madrugada. Então, correu para o quarto.
O padre estava estendido, sem um movimento. À extrema congestão da véspera, sucedera uma espécie de lividez que se acentuava pelas formas ainda cheias do rosto. O padre fixava o pequeno lustre de contas multicolores que pendia por cima da cama. À entrada da velha senhora, voltou a cabeça em sua direção. Segundo ela, parecia nessa altura ter sido surrado durante toda a noite e ter perdido todas as forças para reagir. Perguntou-lhe como estava. E, numa voz em que notou o tom estranhamente indiferente, ele disse que ia mal, que não precisava de médico e que bastava que o levassem para o hospital, para que tudo se fizesse segundo as regras. Aterrada, a velha correu para o telefone.
Rieux chegou ao meio-dia. Diante do relato, respondeu apenas que Paneloux tinha razão e que devia ser tarde demais. O podre recebeu-o com o mesmo ar indiferente. Rieux examinou-o e ficou surpreso por não encontrar nenhum
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dos sintomas principais da peste bubônica ou pulmonar, a não ser o ingurgitamento e a opressão dos pulmões. De qualquer maneira, o pulso estava tão baixo e o estado geral tão alarmante, que havia poucas esperanças.
-• O senhor não tem nenhum dos sintomas principais da doença, mas, em todo caso, há dúvidas e tenho de isolá-lo.
O padre sorriu estranhamente, como por delicadeza, mas calou-se. Rieux saiu para telefonar e voltou. Olhava para o padre.
- Ficarei perto do senhor - disse-lhe, suavemente. O outro pareceu reanimar-se e voltou para o médico
uns olhos aos quais uma espécie de calor parecia ter retornado. Depois, articulou dificilmente, de maneira que era impossível saber se o dizia com tristeza ou não:
- Obrigado. Mas os religiosos não têm amigos. Concentraram tudo em Deus.
Pediu o crucifixo que estava colocado à cabeceira do leito e, quando o recebeu, voltou para ele o olhar.
No hospital, Paneloux não descerrou os dentes. Abandonou-se como uma coisa a todos os tratamentos que lhe impuseram, mas não largou o crucifixo. Entretanto, o caso do padre continuava a ser ambíguo. A dúvida persistia no espírito de Rieux. Era a peste e não era. Há’algum tempo, ela parecia comprazer-se em confundir os diagnósticos. No caso de Paneloux, porém, o que se seguiu viria demonstrar que essa incerteza não tinha importância.
A febre subiu. A tosse tornou-se cada vez mais rouca e torturou o doente durante todo o dia. À noite, finalmente, o padre expectorou o algodão que o sufocava. Era vermelho. Em meio ao tumulto da febre, Paneloux conservava o olhar indiferente e quando, no dia seguinte de manhã, o encontraram morto, meio fora do leito, seu olhar não exprimia nada. Na ficha, escreveram: ”Caso duvidoso”.
O Dia de Todos os Santos, nesse ano, não foi o que era habitualmente. Na verdade, o tempo era o de costume. Mudara bruscamente, e os calores tardios tinham dado lugar de repente a uma temperatura mais baixa. Como nos outros anos, um vento frio soprava agora de modo contínuo. Grossas nuvens corriam de um lado para outro no horizonte e cobriam de sombra as casas, nas quais caía, após sua passagem, a luz fria e dourada do céu de novembro. As primeiras
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capas de chuva tinham surgido. Mas notava-se um número surpreendente de tecidos impermeabilizados e brilhantes. Os jornais tinham contado, com efeito, que, duzentos anos antes, durante as grandes pestes do sul, os médicos usavam oleados para sua própria preservação. As lojas tinham se aproveitado disso para liquidar um estoque de roupas fora de moda, graças às quais todos esperavam imunizar-se.
Mas todos esses sinais da estação não podiam fazer esquecer que os cemitérios estavam desertos. Nos outros anos, os bondes se enchiam do cheiro enjoativo dos crisântemos e as mulheres em bandos dirigiam-se aos locais onde estavam enterrados os seus para cobrir-lhes de flores as sepulturas. Era o dia em que se tentava compensar junto ao morto o isolamento do esquecimento em que fora mantido durante longos meses. Mas, naquele ano, ninguém queria mais pensar nos mortos. É que, precisamente, já se pensava demais nisso. E não se tratava mais de voltar a eles com um pouco de pesar e muita melancolia. Já não eram os abandonados junto dos quais os vivos vão justificar-se uma vez por ano. Eram intrusos que se desejava esquecer. Eis por que a festa dos mortos, nesse ano, foi, de certo modo, escamoteada. Segundo Cottard, em quem Tarrou reconhecia uma linguagem cada vez mais irónica, todos os dias eram dia dos mortos.
E, realmente, as fogueiras da peste ardiam com uma satisfação cada vez maior no forno crematório. De um dia para o outro, na verdade, o número dos mortos não aumentava. Mas parecia que a peste se tinha instalado confortavelmente no seu paroxismo e incorporava aos seus assassinatos diários a precisão e a regularidade de um bom funcionário. Em princípio, segundo a opinião de pessoas competentes, era bom sinal. O gráfico da evolução da peste, com sua subida incessante, depois o longo planalto que lhe sucedera, parecia inteiramente reconfortante ao Dr. Richard, por exemplo. ”É um bom gráfico, um excelente gráfico”, dizia ele. Achava que a doença tinha atingido o que ele chamava de ”patamar”. Daqui em diante, só poderia decrescer. E ele atribuía o mérito disso ao novo soro de Gastei, que acabava de obter, com efeito, alguns êxitos imprevistos. O velho Gastei não o contradizia, mas considerava que na realidade nada se podia prever, já que a história das epidemias comportava saltos imprevistos. A prefeitura, que há muito desejava tranqüilizar a opinião pública e à qual a peste não
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proporcionava os meios necessários, se propunha a reunir os médicos para lhes pedir um relatório sobre o assunto, quando o próprio Dr. Richard, logo ele, foi arrebatado pela peste e precisamente no patamar da doença.
A administração, diante desse exemplo sem dúvida im- j pressionante, mas que, afinal, nada provava, voltou ao pessimismo com a mesma inconsequência com que acolhera, a princípio, o otimismo. Gastei limitava-se a preparar seu soro com o maior cuidado possível. De qualquer forma, já não havia nenhum lugar público que não estivesse transformado em hospital ou em isolamento, e se a prefeitura ainda era respeitada, é porque era efetivamente necessário manter um local de reunião. De um modo geral, porém, graças à relativa estabilidade da peste nessa época, a organização prevista por Rieux não foi de modo algum ultrapassada. Os médicos e os auxiliares, que contribuíam com um esforço inesgotável, não eram obrigados a imaginar um esforço ainda maior. Deviam apenas prosseguir com regularidade, se assim se pode dizer, esse trabalho sobre-humano. As formas pulmonares da infecção, que já se tinham manifestado, multiplicavam-se agora nos quatro cantos da cidade, como se o vento acendesse e alimentasse incêndios nos peitos. Em meio aos vómitos de sangue, os doentes eram arrebatados muito mais rapidamente. O contágio tinha agora probabilidade de ser maior, com essa nova forma de epidemia. Na realidade, as opiniões dos especialistas tinham sempre sido contraditórias sobre esse ponto. Contudo, para maior segurança, o pessoal sanitário continuava a respirar através de máscaras de gaze desinfetadas. À primeira vista, em todo caso, a doença deveria ter-se alastrado. No entanto, como os casos de peste bubônica diminuíam, a balança mantinhase em equilíbrio.
Havia, no entanto, outros motivos de inquietação em consequência das dificuldades de abastecimento, que cresciam com o tempo. A especulação interviera e oferecia, a preços fabulosos, os géneros de primeira necessidade que faltavam no mercado habitual. As famílias pobres viam-se, assim, numa situação muito difícil, enquanto às ricas não
assim,
faltava praticamente nada. A peste, que, pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministério, deveria ter reforçado a igualdade entre nossos concidadãos pelo jogo normal dos egoísmos, tornava, ao contrário, mais acentuado no coração dos homens o sentimento da injustiça. Restava, é bem verdade, a igualdade irrepreensível da morte, mas essa, ninguém
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queria. Os pobres que sofriam de fome pensavam, com mais nostalgia ainda, nas cidades e nos campos vizinhos, onde a vida era livre e o pão não era caro. Já que não podiam alimentá-los suficientemente, eles tinham o sentimento, pouco sensato aliás, de que deveriam tê-los deixado partir. De tal modo que se difundira uma divisa que se lia, às vezes, nos muros ou se gritava à passagem do prefeito: ”Pão ou ar”. Essa fórmula irónica dava o alarme de certas manifestações logo reprimidas, mas cuja gravidade todos percebiam.
Os jornais, evidentemente, obedeciam às instruções que recebiam, de otimismo a qualquer preço. Ao lê-los, o que caracterizava a situação era ”o exemplo comovente de calma e de sangue-frio” dado pela população. Numa cidade fechada sobre si mesma, porém, em que nada conseguia ficar em segredo, ninguém tinha ilusões sobre o ”exemplo” dado pela comunidade. E, para se ter uma ideia justa da calma e do sangue-frio de que se falava, bastava entrar num local de quarentena ou num dos campos de isolamento que haviam sido organizados pelas autoridades. Acontece que o narrador, ocupado com outros chamados, não os conheceu. Eis por que só pode citar aqui o testemunho de Tarrou.
Tarrou, na verdade, relata em seus cadernos uma visita que fez com Rambert ao campo instalado no estádio municipal. O estádio fica situado quase às portas da cidade e dá, por um lado, para a rua onde passam os bondes e, pelo outro, para os terrenos baldios que se estendem até a beira do planalto em que a cidade está construída. Habitualmente, é cercado por muros altos de cimento e bastara colocar sentinelas às quatro portas de entrada para dificultar a fuga. Da mesma forma, os muros impediam as pessoas do exterior de importunar, com sua curiosidade, os infelizes que estavam de quarentena. Em compensação, estes, durante todo o dia, ouviam, sem vê-los, os carros que passavam e adivinhavam, pelo maior rumor que estes deixavam para trás, as horas de entrada e de saída das repartições. Sabiam, assim, que a vida de que estavam excluídos continuava a alguns metros dali e que os muros de cimento separavam dois universos mais estranhos um ao outro do que se estivessem em planetas diferentes.
Foi uma tarde de domingo que Tarrou e Rambert escolheram para se dirigir ao estádio. Acompanhava-os González, o jogador de futebol, que Rambert voltara a encontrar e que acabara aceitando dirigir, por turnos, a vigilância do
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estádio. Rambert devia apresentá-lo ao administrador do campo. González dissera aos dois homenSj no momento em que se tinham encontrado, que era àquela hora, antes da peste, que ele se preparava para começar sua partida. Agora que os estádios estavam requisitados, não era mais possível. González sentia-se e parecia inteiramente ocioso. Essa era uma das razões pelas quais aceitara essa vigilância, com a condição de exercê-la apenas nos fins de semana. O céu estava meio encoberto e González, de nariz no ar, observou com pesar que esse tempo, nem chuvoso nem quente, era o mais favorável a uma boa partida. Recordava como podia o cheiro de embrocação nos vestiários, as tribunas apinhadas, os uniformes de cores vivas sobre o terreno fulvo, o limão dos intervalos e a limonada que arde nas gargantas secas com mil agulhas refrescantes. Tarrou nota, aliás, que durante todo o trajeto através das ruas esburacadas do subúrbio, o jogador não parava de chutar todas as pedrinhas que encontrava. Procurava acertar nos bueiros e, quando conseguia, exclamava: ”Um a zero”. Quando acabava de fumar, atirava a ponta do cigarro à frente e tentava, com o pé, pegá-la no ar. Perto do estádio, crianças que jogavam mandaram uma bola para perto do grupo que passava, e González deu-se ao trabalho de devolvê-la com precisão.
Finalmente, entraram no estádio. As tribunas estavam cheias de gente. Mas o terreno estava coberto de várias centenas de barracas vermelhas, no interior das quais se avistavam, de longe, camas e embrulhos. As tribunas haviam sido conservadas, para que os internados pudessem abrigarse do calor ou da chuva. Ao anoitecer, deviam simplesmente retornar às barracas. Debaixo das tribunas, encontravam-se os chuveiros, que tinham sido arranjados, e os antigos vestiários dos jogadores, que tinham sido transformados em gabinetes e enfermarias. A maior parte dos internados .encontrava-se nas tribunas. Outros vagavam pelos corredores laterais. Outros ainda estavam agachados à entrada de sua barraca e passeavam sobre todas as coisas um olhar vago. Nas tribunas, muitos estavam deitados e pareciam esperar.
- Que fazem durante o dia? - perguntou Tarrou a Rambert.
- Nada.
Quase todos, na verdade, tinham os braços caídos e as mãos vazias. Essa imensa assembleia de homens mantinhase curiosamente silenciosa.
- Nos primeiros dias, ninguém se entendia aqui -
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disse Rambert. - Mas, à medida em que os dias corriam, passaram a falar cada vez menos.
A julgar por suas anotações, Tarrou os compreendia e via-os a princípio amontoados em suas barracas, ocupados em escutar as moscas ou coçar-se, uivando sua cólera ou seu medo, quando encontravam um ouvido complacente. Mas, a partir do momento em que o campo ficara superpovoado, restava-lhes, portanto, calar e desconfiar. Na verdade, havia uma espécie de desconfiança que caía do céu cinzento e, no entanto, luminoso, sobre o campo vermelho.
Sim, todos tinham um ar de desconfiança. Já que os tinham separado dos outros, devia haver alguma razão, e apresentavam o rosto dos que procuram suas razões e as temem. Cada um daqueles que Tarrou olhava tinha os olhos desocupados, e todos pareciam sofrer de uma separação muito genérica daquilo que constituía a sua vida. E, como não podiam pensar sempre na morte, não pensavam em nada. Estavam de férias. ”Mas o pior”, escrevia Tarrou, ”é eles serem esquecidos e saberem disso. Os que os conheciam esqueceram-nos porque pensam em outra coisa, e isso é bem compreensível. Quanto aos que os amam, esqueceram-se também, pois são forçados a esgotar-se em diligências e projetos para retirá-los dali e, de tanto pensarem nessa saída, já não pensam naqueles que querem retirar. Também isso é normal. E, afinal, vê-se que ninguém é realmente capaz de pensar em ninguém, ainda que seja na pior das desgraças. Porque pensar realmente em alguém é pensar de minuto a minuto, sem se deixar distrair pelo que quer que seja: nem os cuidados da casa, nem a mosca que voa, nem as refeições, nem uma coceira. Mas há sempre moscas e coceiras. É por isso que a vida é difícil de viver. E eles sabem muito bem.”
O administrador, que se dirigia a eles, disse-lhes que um tal Sr. Othon desejava vê-los. Conduziu González ao seu gabinete e depois levou-os a um canto das tribunas, de onde o Sr. Othon, que se sentara a alguma distância, se levantou para recebê-los. Continuava a vestir-se da mesma maneira e usava o mesmo colarinho engomado. Tarrou notou apenas que os cabelos nas têmporas estavam muito mais eriçados e que um dos cordões dos sapatos se desatara. O juiz parecia cansado e nem uma única vez olhou seus interlocutores de frente. Disse que tinha muito prazer em vê-los e encarregou-os de agradecer ao Dr. Rieux pelo que fizera.
Os outros calaram-se.
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- Espero - disse o juiz, algum tempo depois - que Philippe não tenha sofrido muito.
Era a primeira vez que Tarrou o ouvia pronunciar o nome do filho e compreendeu que alguma coisa mudara. O sol baixava no horizonte e, entre duas nuvens, os raios penetravam lateralmente nas tribunas, dourando-lhes o rosto.
- Não - disse Tarrou -, não, ele realmente não sofreu.
Quando se retiraram, o juiz continuava a olhar para o lado de onde vinha o sol.
Foram despedir-se de González, que estudava um quadro de vigilância por turnos. O jogador riu ao apertar-lhes a mão.
- Ao menos, descobri os vestiários - disse ele. Estão como antes.
Pouco depois, o administrador reconduzia Tarrou e Rambert, quando se ouviu um enorme zumbido nas tribunas. Em seguida os alto-falantes, que nos bons tempos serviam para anunciar os resultados das partidas ou para apresentar os times, declararam, fanhosos, que os internados deviam voltar às barracas para que pudesse ser servido o jantar. Lentamente, os homens abandonaram as tribunas e dirigiram-se para as barracas, arrastando o passo. Depois de todos estarem instalados, dois pequenos carros elétricos, como os que se vêem nas estações, passaram por entre as barracas, transportando enormes panelas. Os homens estendiam os braços, duas conchas mergulhavam nas panelas e delas saíam para encher as duas tigelas. O carrinho prosseguia na sua marcha. A cena recomeçava na barraca seguinte.
- É científico - disse Tarrou ao administrador.
- É verdade - respondeu o outro, satisfeito, apertando-lhes a mão -, é científico.
Chegara o crepúsculo e o céu se descobrira. Uma luz suave e fresca banhava o campo. Na calma da tarde, ruídos de colheres e de pratos vinham de todos os lados. Morcegos voavam por cima das barracas e desapareciam subitamente. Um bonde gritava na agulha, do outro lado do muro.
- Pobre juiz - murmurou Tarrou, na saída. - Era preciso fazer qualquer coisa por ele. Mas como se ajuda um juiz? .. . ..
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Havia assim, na cidade, vários outros campos sobre os quais o narrador, por escrúpulo e por falta de informação direta, nada mais pode dizer. Mas o que ele pode afirmar é que a existência desses campos, o cheiro de homens que deles vinha, as vozes enormes dos alto-íalantes no crepúsculo, o mistério dos muros e o temor desses lugares condenados pesavam duramente sobre o moral de nossos concidadãos e aumentavam ainda mais a desorientação e o mal-estar de todos. Os incidentes e os conflitos com a administração multiplicaram-se.
No fim de novembro, entretanto, as manhãs tornaram-se muito frias. Chuvas diluvianas lavaram as calçadas, limparam o céu e deixaram-no puro de nuvens por sobre as ruas reluzentes. Um sol sem força espalhou sobre a cidade, todas as manhãs, uma luz brilhante e gélida. Pela tarde, ao contrário, o ar ficava de novo morno. Foi esse o momento que Tarrou escolheu para se revelar um pouco junto ao Dr. Rieux.
Por volta de dez horas, depois de um dia longo e exaustivo, Tarrou acompanhou Rieux, que ia fazer ao velho asmático sua visita da noite. O céu brilhava suavemente por sobre as casas do velho bairro. Uma ligeira brisa soprava sem ruído através das encruzilhadas obscuras. Das ruas calmas, os dois homens deram com a tagarelice do velho. Este informou-os de que havia alguns que não estavam de acordo, que a manteiga ia sempre para os mesmos, que tanto o jarro vai à fonte que um dia quebra e que provavelmente

- nesse ponto, esfregava as mãos - ia haver problemas. O médico tratou-o sem que ele parasse de comentar os acontecimentos.


Ouviam passos por cima deles. A velha, notando o ar interessado de Tarrou, explicou-lhe que havia vizinhas no terraço. Souberam, ao mesmo tempo, que havia uma bela vista lá de cima e que, como os terraços das casas se tocavam, por vezes era possível às mulheres do bairro visitarem-se sem sair de casa.
- É verdade - disse o velho -, podem subir. Lá em cima o ar é bom.
Encontraram o terraço vazio e guarnecido de três cadeiras. De um lado, tão longe quanto a vista podia alcançar, só se viam terraços que acabavam por ir encostar-se a uma massa escura e pedregosa, em que reconheceram a primeira colina. Do outro lado, por cima de algumas ruas e do porto invisível, o olhar mergulhava num horizonte em que o céu
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