A peste Albert Camus



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coisas amadas, compreenderam, com a continuação, que essas sombras podiam tornar-se ainda mais descarnadas ao perderem até as cores ínfimas que a recordação conservava. Ao fim desse longo tempo de separação já não imaginavam essa intimidade que fora sua, nem como havia podido viver perto deles um ser em que podiam a todo momento pousar a mão.
Desse ponto de vista, tinham entrado na própria ordem da peste, tanto mais eficaz quanto mais medíocre era. Ninguém mais, entre nós, tinha grandes sentimentos. Mas todos experimentavam sentimentos monótonos. ”É tempo de acabar com isso”, diziam nossos concidadãos, porque em período de flagelo é normal desejar o fim dos sofrimentos coletivos, e na verdade desejavam que aquilo acabasse. Mas tudo isso se dizia sem o calor e sem o sentimento amargo do princípio e apenas com as poucas razões que nos restavam ainda claras e que eram bem pobres Ao grande impulso feroz das primeiras semanas, sucedera um abatimento que seria erro considerar como resignação, mas que nem por isso deixava de ser uma espécie de aquiescência provisória.
Nossos concidadãos tinham-se adaptado, como se costuma dizer, porque não havia outro modo de proceder. Tinham ainda, naturalmente, a atitude da desgraça e do sofrimento, mas já não os sentiam. De resto, o Dr. Rieux, por exemplo, achava que essa era justamente a desgraça e que o hábito do desespero é pior que o próprio desespero. Antes, os separados não eram realmente infelizes, pois havia no seu sofrimento uma luz que acabava de se extinguir. Agora, eram vistos pelas esquinas, nos cafés ou em casa dos amigos, plácidos e distraídos, e com um ar tão entediado que, graças a eles, toda a cidade parecia uma sala de espera. Os que tinham uma profissão, executavam-na ao ritmo da própria peste, meticulosamente e sem brilho. Todos eram modestos. Pela primeira vez, os separados não tinham repugnância em falar dos ausentes, em usar a linguagem de todos, em examinar sua separação sob o mesmo enfoque que as estatísticas da epidemia. Enquanto, até então, tinham subtraído ferozmente seu sofrimento à desgraça coletiva, aceitavam agora a confusão. Sem memórias e sem esperança, instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.
É claro que nada disso era absoluto. Pois se é verdade
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que todos os separados chegaram a esse estado, é justo acrescentar que não chegaram todos ao mesmo tempo e que, da mesma forma, uma vez instalados nessa nova atitude, lampejos, retrocessos, bruscos estados de lucidez, levavam os pacientes a uma sensibilidade mais nova e mais dolorosa. Eram necessários para isso momentos de distração, em que eles formavam algum projeto que implicava o fim da peste. Era preciso que eles sentissem, inopinadamente e por efeito de alguma graça, a mordida de um ciúme sem objeto. Outros encontravam também renascimentos súbitos, saíam do seu torpor em certos dias da semana, no domingo, naturalmente, e aos sábados à tarde, porque esses dias eram consagrados a certos ritos, do tempo do ausente. Ou, então, uma certa melancolia que os invadia ao fim da tarde davalhes o aviso, aliás, nem sempre confirmado, de que a memória ia voltar. Essa hora da tarde, que para os crentes é a do exame de consciência, é dura para o prisioneiro ou o exilado que só pode examinar o vácuo. Ela os mantinha suspensos por um momento; depois, voltavam à atonia, encerravam-se na peste.
Já se compreendeu que isso consistia em renunciarem ao que tinham de mais pessoal. Ao passo que nos primeiros tempos da peste eles se surpreendiam com a quantidade de pequenas coisas que contavam muito para eles, sem terem qualquer existência para os outros, e faziam assim a experiência da vida pessoal; agora, pelo contrário, só se interessavam por aquilo que interessava aos outros, já não tinham senão ideias gerais e seu próprio amor assumira para eles a forma mais abstrata. Estavam a tal ponto abandonados à peste que lhes acontecia às vezes só desejarem o sono e surpreenderem-se a pensar: ”Que venham logo os tumores e se acabe com isso!” Mas, na realidade, já estavam dormindo, e todo esse tempo não foi mais que um longo sono. A cidade estava povoada por sonolentos acordados que só escapavam realmente ao seu destino nos raros momentos em que, de noite, sua ferida aparentemente fechada se reabria bruscamente. E, despertados em sobressalto, apalpavam então, distraídos, os bordos irritados dessa ferida, redescobrindo num lampejo seu sofrimento, subitamente rejuvenescido e com ele, a imagem perturbada do seu amor. De manhã, voltavam ao flagelo, quer dizer, à rotina.
Mas, perguntar-se-á, que aspecto tinham esses separados? Pois bem, muito simples: não tinham aspecto nenhum. Ou, se se prefere, tinham o aspecto de todos, um aspecto
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inteiramente geral. Compartilhavam a placidez e as agitações pueris da cidade. Perdiam as aparências do senso crítico ao mesmo tempo em que ganhavam as aparências do sanguefrio. Podia-se ver, por exemplo, os mais inteligentes fingirem procurar, como todos, nos jornais ou nas emissões radiofónicas, razões para acreditar num fim rápido da peste e conceberem, aparentemente, esperanças quiméricas ou sentirem receios sem fundamento ao ler considerações que um jornalista havia escrito um pouco ao acaso, bocejando de tédio. Os demais bebiam sua cerveja ou tratavam de seus doentes, preguiçavam ou se esgotavam, arquivavam fichas ou faziam girar discos sem se distinguirem muito uns dos outros. Em outras palavras: já não escolhiam nada. A peste suprimira os juízos de valor. E isso se via pela maneira como ninguém mais se ocupava da qualidade do vestuário ou dos alimentos que se compravam. Aceitava-se tudo em bloco.
Para encerrar, pode-se dizer que os separados já não tinham esse curioso privilégio que no princípio os preservava. Tinham perdido o egoísmo do amor e as vantagens que dele tiravam. Pelo menos agora, a situação era clara: o flagelo era problema de todos. Todos nós, no meio das detonações que irrompiam às portas da cidade, dos carimbos que marcavam o compasso de nossa vida ou de nossa morte, em meio aos incêndios e às fichas, ao terror e às formalidades, prometidos a uma morte ignominiosa, mas registrada, entre fumaças terríveis e as sirenes tranqüilas das ambulâncias, todos nós nos nutríamos do mesmo pão do exílio, esperando sem o saber a mesma reunião e a mesma paz perturbadoras. Nosso amor, sem dúvida, estava presente ainda, mas simplesmente era inutilizável, pesado, inerte, estéril, como o crime ou a condenação. Não era mais que uma paciência sem futuro e uma espera obstinada. E, desse ponto de vista, a atitude de alguns de nossos concidadãos fazia pensar nas longas filas, nos quatro cantos da cidade, diante das lojas de alimentos. Era a mesma resignação e a mesma persistência, ao mesmo tempo ilimitada e sem ilusões. Seria apenas necessário elevar esse sentimento a uma escala mil vezes maior no que diz respeito à separação, porque se tratava então de uma outra fome, capaz de tudo devorar.
Em todo caso, supondo que se queira ter uma ideia justa do estado de espírito em que se encontravam os separados de nossa cidade, seria preciso evocar de novo as eternas tardes douradas e poeirentas que caíam sobre a cidade sem árvores, enquanto homens e mulheres se espalhavam
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por todas as ruas. Porque, estranhamente, o que chegava então dos terraços ainda ensolarados, na ausência dos ruídos de veículos e de máquinas que normalmente constituem toda a linguagem das cidades, era apenas um rumor de passos e de vozes surdas, o doloroso deslizar de milhares de solas, ritmado pelo silvo do flagelo no céu pesado, um interminável e sufocante arrastar de pés que enchia pouco a pouco toda a cidade e que, tarde após tarde, dava sua voz mais fiel e mais melancólica à obstinação cega que, em nossos corações, substituía então o amor.
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IV
Durante os meses de setembro e outubro, a peste manteve a cidade sob seu domínio. Já que se tratava de marcar passo, várias centenas de milhares de homens continuaram a arrastar os pés durante semanas intermináveis. A bruma, o calor e a chuva sucederam-se no céu. Bandos silenciosos de estorninhos e de tordos, vindos do sul, passaram muito alto, mas contornaram a cidade como se o flagelo de Paneloux, a estranha peça de madeira que girava, aos silvos, por cima das casas, os mantivesse à distância. No começo de outubro grandes tempestades varreram as ruas. E durante todo esse tempo nada de importante se produziu além desse monstruoso arrastar de pés.
Rieux e seus amigos descobriram então a que ponto estavam cansados. Na verdade, os homens dos grupos sanitários já não conseguiam digerir esse cansaço. O Dr. Rieux apercebia-se disso ao observar nos amigos e em si próprio a evolução de uma curiosa indiferença. Esses homens, por exemplo, que até aqui tinham mostrado vivo interesse por todas as notícias que diziam respeito à peste, já não se preocupavam com elas. Rambert, que fora encarregado provisoriamente de dirigir uma das casas de quarentena, instalada há pouco no seu hotel, conhecia perfeitamente o número dos que tinha em observação. Estava a par dos mínimos pormenores do sistema de evacuação imediata que organizara para aqueles que mostravam subitamente sinais de doença. A estatística dos efeitos do soro sobre os internados estava gravada em sua memória. Mas era incapaz de dizer o número semanal das vítimas da peste, ignorava se ela realmente progredia ou recuava. E, apesar de tudo, mantinha a esperança de uma evasão próxima.
Quanto aos outros, absorvidos em seu trabalho dia e noite, não liam os jornais nem ouviam rádio. E se lhes anunciavam um resultado, simulavam interessar-se, mas acolhiamno, na verdade, com a indiferença distraída que atribuímos
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aos combatentes das grandes guerras, esgotados pelo esforço, dedicados apenas a não desfalecer em seu dever cotidiano, mas já sem esperar pela operação decisiva nem pelo armistício.
Grand, que continuava a efetuar os cálculos exigidos pela peste, teria certamente sido incapaz de indicar seus resultados gerais. Ao contrário de Tarrou, de Rambert e de Rieux, visivelmente resistentes ao cansaço, sua saúde nunca havia sido boa. Ora, ele acumulava as funções de auxiliar da prefeitura, sua secretaria junto a Rieux e os trabalhos noturnos. Viam-no assim num estado contínuo de esgotamento, sustentado por duas ou três ideias fixas, como a de se oferecer umas férias completas depois da peste, durante uma semana pelo menos, e de trabalhar então de maneira positiva, ”tirem o chapéu, meus senhores”, no que tinha à mão. Era também sujeito a bruscos enternecimentos e, nessas ocasiões, falava de bom grado de Jeanne a Rieux, perguntava a si próprio onde estaria ela naquele momento e se, ao ler os jornais, pensaria nele. Foi com ele que Rieux se surpreendeu um dia a falar de sua própria mulher no tom mais banal, o que nunca fizera até então. Incerto do crédito que podia atribuir aos telegramas sempre tranqüilizadores da mulher, resolvera telegrafar ao médico-chefe da clínica onde ela se tratava. Em resposta, tinha recebido a comunicação de um agravamento do estado da paciente e a garantia de que tudo seria feito para deter a evolução do mal. Tinha guardado para si a notícia, e não se explicava, a não ser pelo cansaço, como tinha podido confiá-la a Grand. O empregado municipal, depois de lhe ter falado de Jeanne, interrogara-o acerca de sua mulher e Rieux respondera. ”Como sabe, isso agora se cura muito bem”, dissera Grand. Rieux tinha concordado, dizendo simplesmente que a separação começava a ser longa e que ele poderia talvez ter ajudado à mulher vencer a doença, ao passo que hoje ela devia sentir-se totalmente só. Depois, calara-se e só respondera muito evasivamente às perguntas de Grand.
Os outros encontravam-se no mesmo estado. Tarrou resistia melhor, mas os cadernos mostram que, se a sua curiosidade não se tornara menos profunda, perdera em diversidade. Durante todo esse período, na realidade, ele aparentemente só se interessava por Cottard. À noite, em casa de Rieux, onde acabara por se instalar desde que o hotel fora transformado em instituição de quarentena, mal ouvia Grand ou o doutor enunciarem os resultados. Desviava
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imediatamente a conversa para os pormenores da vida de Oran que geralmente o ocupavam.
Quanto a Gastei, no dia em que veio anunciar a Rieux que o soro estava pronto e depois de terem decidido fazer a primeira experiência no garoto do Sr. Othon, que acabavam de remover para o hospital e cujo caso parecia desesperador a Rieux, este comunicava ao velho amigo as últimas estatísticas, quando reparou que seu interlocutor adormecera profundamente na cadeira. E, diante desse rosto, em que habitualmente um ar de ternura e de ironia punha uma perpétua juventude e agora, subitamente abandonado, com um filete de saliva a unir-lhe os lábios entreabertos, deixava ver os estragos e a velhice, Rieux sentiu um aperto na garganta.
Era por tais fraquezas que Rieux podia julgar seu cansaço. A sensibilidade lhe fugia. Amarrada a maior parte do tempo, endurecida e seca, irrompia de vez em quando e abandonava-o a emoções que já não conseguia dominar. Sua única defesa era refugiar-se neste endurecimento e apertar o nó que nele se formara. Sabia efetivamente que essa era a melhor maneira de continuar. Quanto ao resto, não tinha muitas ilusões e seu cansaço tirava-lhe as que ainda conservava. Porque sabia que, durante um período cujo término não conseguia vislumbrar, seu papel já não era o de curar. Seu papel era diagnosticar. Descobrir, ver, descrever, registrar, depois condenar, essa era sua tarefa. Esposas agarravam-lhe as mãos e gritavam: ”Doutor, salve-o”. Mas ele não estava ali para salvar a vida, estava ali para ordenar o isolamento. De que servia o ódio que lia, então, nas fisionomias? ”O senhor não tem coração”, tinham-lhe dito um dia. Sim, ele tinha um coração. Servia-lhe para suportar as vinte horas por dia em que via morrer homens que haviam sido feitos para viver. Servia-lhe para recomeçar todos os dias. De agora em diante, o coração mal dava para isso. Como esse coração seria suficiente para dar vida?
Não, não eram socorros que ele distribuía durante todo o dia e sim informações. Aquilo, é claro, não se podia chamar uma profissão de homem. Mas, afinal, a quem, então, aquela multidão aterrorizada e dizimada tinha deixado tempo para exercer a profissão de homem? Ainda bem que havia a fadiga. Se Rieux estivesse mais vigoroso, aquele cheiro de morte espalhado por toda a parte poderia tê-lo tornado sentimental. Mas quando só se dorme quatro horas não se é sentimental. Vêem-se as coisas como elas são, isto é, vêem-se segundo a justiça, a horrenda e irrisória justiça.
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E os outros, os condenados, sentiam o mesmo. Antes da peste, recebiam-no como um salvador. Ele ia consertar tudo com três pílulas e uma seringa, e apertavam-lhe o braço, ao conduzi-lo pelos corredores. Era lisonjeiro, mas perigoso. Agora, pelo contrário, apresentava-se com soldados, era necessário dar coronhadas para que a família se decidisse a abrir a porta. Teriam desejado arrastá-lo e arrastar toda a humanidade com eles para a morte. Ah! Era bem verdade que os homens não podiam dispensar os homens, que ele se achava tão despojado quanto esses desgraçados e que merecia esse mesmo tremor de piedade que sentia crescer em si depois de deixá-los.
Eram pelo menos as ideias que o Dr. Rieux, durante essas intermináveis semanas, agitava com as que se relacionavam à sua situação de separado. E eram também aquelas cujo reflexo ele lia no semblante dos amigos. Mas o efeito mais perigoso do esgotamento que vencia, pouco a pouco, todos os que continuavam a luta contra o flagelo não estava nessa indiferença aos acontecimentos exteriores e às emoções dos outros, e sim na negligência a que haviam chegado. Porque tinham então tendência a evitar todos os gestos que não fossem absolutamente indispensáveis e que lhes pareciam sempre acima de suas forças. Foi assim que esses homens chegaram a desprezar cada vez mais as regras de higiene que tinham codificado, a esquecer algumas das desinfecções que deviam praticar em si próprios, a correr por vezes, sem se prevenirem contra o contágio, para junto de doentes atacados de peste pulmonar, porque, alertados no último momento de que deviam dirigir-se a casas infectadas, tinha-lhes parecido de antemão exaustivo voltarem a qualquer local para fazerem as instilações necessárias. Nisso residia o verdadeiro perigo, pois era a própria luta contra a peste que os tornava então mais vulneráveis a ela. Apostavam em suma no acaso, e o acaso não pertence a ninguém.
Contudo, havia na cidade um homem que não parecia nem esgotado, nem desanimado e que continuava a ser a imagem viva da satisfação. Era Cottard. Continuava a manter-se à distância, preservando, no entanto, suas relações com os outros. Mas optara por visitar Tarrou sempre que o trabalho deste o permitia; por um lado, porque Tarrou estava bem informado sobre o seu caso, por outro, porque ele sabia acolher o pequeno capitalista com uma cordialidade inalterável. Era um milagre perpétuo, mas Tarrou, apesar do esforço que despendia, continuava benévolo e atencioso.
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Mesmo quando o cansaço o arrasava, em certas noites, no dia seguinte ele encontrava uma nova energia. ”com esse”, dissera Cottard a Rambert, ”pode-se conversar, porque é um homem.”
É por isso que, nessa época, as notas de Tarrou convergem pouco a pouco para a personagem Cottard. Tarrou tentou fazer um quadro das reações e reflexões de Cottard, tal como elas lhe eram confiadas por ele ou tal como ele as interpretava. Sob a rubrica ”Relações entre Cottard e a peste”, esse quadro ocupa algumas páginas do caderno, e o narrador acha útil fazer aqui um resumo. A opinião geral de Tarrou sobre o pequeno capitalista resumia-se neste juízo: ”É uma personagem que cresce”. Aparentemente, aliás, ele crescia em bom humor. Não lhe desagradava a feição que os acontecimentos tomavam. Exprimia, às vezes, o fundo de seu pensamento diante de Tarrou, por meio de observações do género: ”É claro que a coisa não está melhor. Mas, ao menos, estão todos no mesmo barco”.
”Evidentemente”, acrescentava Tarrou, ”ele está ameaçado como os outros, mas justamente com os outros. Depois, não está seriamente convencido, tenho certeza, de que possa ser atingido pela peste. Parece viver com a ideia, aliás, não totalmente tola, de que um homem presa de uma grande doença, ou de uma angústia profunda, está dispensado, por isso mesmo, de todas as outras doenças ou angústias. ’Já reparou’, disse-me ele, ’que não se podem acumular doenças? Imagine que você esteja com uma doença grave ou incurável, um câncer sério ou uma boa tuberculose, nunca apanhará peste ou tifo. É impossível. Aliás, a coisa vai ainda mais longe, pois nunca se viu um canceroso morrer em desastre de automóvel.’ Falsa ou verdadeira, essa ideia deixa Cottard de bom humor. A única coisa que ele não quer é ficar separado dos outros. Prefere estar sitiado com todos a estar preso sozinho. com a peste, já não é preciso inquietar-se com inquéritos secretos, processos, fichas, instruções misteriosas ou prisão iminente. Para dizer a verdade, já não há polícia, não há mais crimes, novos ou antigos, já não há culpados, há apenas condenados que esperam o mais arbitrário dos perdões e entre eles, os próprios policiais.” Assim, Cottard, e sempre segundo a interpretação de Tarrou, era levado a considerar os sintomas de angústia e de perturbação que apresentavam nossos concidadãos com satisfação indulgente e compreensiva que se podia exprimir por um: ”Continuem falando, senti isso antes de vocês”.
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”Em vão eu lhe disse que a única maneira de não estar separado dos outros era afinal ter uma consciência tranqüila. Olhou-me com maldade e disse-me: ’Então, desse modo, ninguém está nunca com ninguém’. E depois: ’Pode ter certeza, sou eu quem o digo. A única maneira de juntar as pessoas ainda é mandar-lhes a peste. Olhe à sua volta’. E, na verdade, compreendo bem o que ele quer dizer e o quanto a vida de hoje deve parecer-lhe confortável. Como não haveria ele de reconhecer reações que foram suas; a tentativa que cada um faz para congregar todos à sua volta; a gentileza com que nos desdobramos para informar às vezes um transeunte perdido e o mau humor de que outras vezes damos prova; a precipitação das pessoas para os restaurantes de luxo, seu prazer em lá se encontrarem e em lá se demorarem; a afluência desordenada que faz filas todos os dias no cinema, que enche todas as salas de espetáculos e os próprios cabarés, que se espalha como uma maré desenfreada em todos os lugares públicos; o recuo diante de qualquer conta to, o apetite de calor humano que, no entanto, impele os homens uns para os outros, cotovelos para cotovelos, sexos para sexos? Cottard conheceu tudo isso antes deles, é evidente. Exceto as mulheres, porque, com sua cabeça... E suponho que quando se sentiu tentado a frequentá-las, recusou-se para não ganhar uma fama que poderia prejudicá-lo no futuro.
”Em resumo, a peste lhe convém. De um homem solitário que não queria sê-lo, ela fez um cúmplice. Porque, visivelmente, é um cúmplice e um cúmplice que se deleita. É cúmplice de tudo o que vê, das superstições, dos terrores ilegítimos, das suscetibilidades dessas almas em alerta; de sua mania de querer falar da peste o menos possível e, no entanto, de falar dela sem cessar; de sua aflição e de sua palidez à menor dor de cabeça, desde que sabe que a doença começa por cefaléias, e de sua sensibilidade irritada, suscetível, instável, enfim, que transforma em ofensa esquecimentos e se aflige com a perda de um botão.”
Acontecia muitas vezes a Tarrou sair com Cottard. Contava em seguida, em seus cadernos, como mergulhavam na multidão sombria dos crepúsculos ou das noites, ombro a ombro, imergindo numa massa branca e preta, em que uma rara lâmpada brilhava, acompanhando o rebanho humano para os prazeres ardentes que o defendiam contra o frio da peste. O que Cottard, alguns meses antes, procurava nos lugares públicos, o luxo e a vida ampla, aquilo com que
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sonhava sem poder satisfazer-se, isto é, o gozo desenfreado, todo um povo o procurava agora. Enquanto o preço das coisas subia irresistivelmente, nunca se tinha desperdiçado tanto dinheiro e, quando o essencial faltava à maioria, nunca se tinha dissipado tão bem o supérfluo. Multiplicavam-se todos os jogos de uma ociosidade que era apenas desemprego, Tarrou e Cottard seguiam por vezes, durante longos minutos, um desses casais que antes se aplicavam em esconder o que os unia e que agora, apertados um contra o outro, caminhavam obstinadamente através da cidade, sem ver a multidão que os rodeava, com a distração um pouco fixa das grandes paixões. Cottard enternecia-se. ”Ah! Que safados!”, dizia ele. E falava alto, expandia-se no meio da febre coletiva, das gorjetas reais que soavam à sua volta e das intriga • que se teciam diante de seus olhos.
Entretanto, Tarrou achava que havia pouca maldad na atitude de Cottard. Sua frase, ”Conheci isto antes deL^ ’, revelava mais infelicidade que triunfo. ”Creio”, dizia Tarrou, ”que ele começa a amar esses homens, prisioneiros entre o céu e os muros da cidade. Por exemplo, ter-lhes-ia explicado de bom grado, se pudesse, que a coisa não era tão terrível como tudo isso. ”Eles dizem”, afirmou ele, ”depois da peste, vou fazer isto, depois da peste vou fazer aquilo. . . Envenenam a própria existência, em vez de ficarem tranqüilos. E nem sequer se dão conta das vantagens de que desfrutam. Será que eu poderia dizer: Depois da minha prisão, vou fazer isto? A prisão é um começo, não é um fim. Ao passo que a peste. . . Quer a minha opinião? Eles são infelizes porque não se entregam. E sei muito bem o que estou dizendo.”
”com efeito, ele sabe o que diz”, acrescentava Tarrou. ”Avalia no seu justo valor as contradições dos habitantes de Oran que, ao mesmo tempo em que sentem profundamente necessidade do calor que os aproxima, não conseguem contudo abandonar-se a ele, por causa da desconfiança que os afasta uns dos outros. É sabido que não se pode ter confiança no vizinho que é capaz de nos passar a peste à nossa revelia e de aproveitar-se do nosso abandono para nos contagiar. Quando se passou o tempo, como Cottard, a ver indicadores possíveis em todos aqueles cuja companhia, contudo, se procurava, pode-se compreender esse sentimento. É fácil ser indulgente com pessoas que vivem na ideia de que a peste pode, de um dia para o outro, pôr-lhes a mão no ombro e de que ela se prepara, talvez, para fazer isso no



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