A peste Albert Camus



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Tarrou seguiu-o, mas pareceu mudar de ideia no mo-f mento de sair; voltou-se para o jornalista e disse: l
- Sabe que a mulher de Rieux se encontra numa casa f de saúde a algumas centenas de quilómetros daqui? f
Rambert fez um gesto de surpresa, mas Tarrou já saíra. 1 Muito cedo, no dia seguinte, Rambert telefonou para o médico.
- Aceitaria que eu trabalhasse com o senhor até encontrar um meio de deixar a cidade?
Houve um silêncio do outro lado da linha, e depois Rieux disse:
- Sim, Rambert. Muito obrigado,
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in
Assim, durante semanas, os prisioneiros da peste debateram-se como puderam. E alguns, como Rambert, chegavam até a imaginar, como se vê, que ainda agiam como homens livres, que ainda podiam escolher. Mas, na realidade, podia-se dizer nesse momento, nos meados do mês de agosto, que a peste tudo dominara. Já não havia então destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste e sentimentos compartilhados por todos. O maior era a separação e o exílio, com o que isso comportava de medo e de revolta. Eis por que o narrador acha conveniente, no auge do calor e da doença, descrever de maneira geral e a título de exemplo as violências dos nossos concidadãos vivos, os enterros dos defuntos e o sofrimento dos amantes separados.
Foi no meio desse ano que o vento se ergueu e soprou durante vários dias na cidade empestada. O vento é particularmente temido pelos habitantes de Oran, pois não encontra nenhum obstáculo natural no planalto em que ela está construída e invade assim as ruas com toda a violência. Depois desses longos meses em que nem uma gota de água refrescara a cidade, ela se recobrira de uma camada cinzenta que se descamava ao sopro do vento. Esse levantava assim ondas de poeira e de papéis que batiam nas pernas dos transeuntes, agora mais raros. Passavam apressados pelas ruas, curvados para a frente, com a mão ou um lenço sobre a boca. À noite, em lugar das reuniões em que se tentava prolongar o mais possível esses dias em que cada um podia ser o último, encontravam-se pequenos grupos de pessoas com pressa de voltar para casa ou de entrar nos cafés, se bem que durante alguns dias, com o crepúsculo que chegava bem mais rápido nessa época, as ruas ficavam desertas e só o vento soltava lamúrias contínuas. Do mar agitado e sempre invisível, vinha um cheiro de algas e de sal. Essa cidade deserta, branca de poeira, saturada de odores marinhos, toda sonora dos gritos do vento, gemia então corno uma ilha infeliz.
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Até aqui, a peste tinha feito muito mais vítimas nos bairros periféricos, mais povoados e menos confortáveis do que no centro da cidade. Mas ela pareceu de repente aproximar-se e instalar-se também nos bairros comerciais. Os habitantes acusavam o vento de transportar os germes da infecção. ”Ele baralha as cartas”, dizia o gerente do hotel. Fosse como fosse, porém, os bairros do centro sabiam que sua vez tinha chegado ao ouvirem vibrar muito perto deles, na noite, e cada vez mais frequentemente, a sirene das ambulâncias que faziam ressoar sob suas janelas o apelo monótono e desapaixonado da peste.
Até no próprio interior da cidade, teve-se a ideia de isolar certos bairros particularmente castigados e de só autorizar a saída dos homens cujos serviços eram indispensáveis. Os que ali viviam até então não puderam deixar de considerar essa medida como uma peça que lhes havia sido pregada especialmente e, em todo caso, pensavam, por contraste, nos habitantes dos outros bairros como homens livres. Estes, por outro lado, nos seus momentos difíceis, consolavam-se ao imaginar que outros eram ainda menos livres que eles. ”Há sempre alguém mais prisioneiro que eu”, era a frase que resumia então a única esperança possível.
Mais ou menos nessa época, houve também uma recrudescência de incêndios, sobretudo nos bairros residenciais à porta oeste da cidade. As informações revelaram que se tratava de pessoas egressas da quarentena e que, enlouquecidas pelo luto e pela desgraça, ateavam fogo às suas casas na ilusão de dizimar a peste. Foi muito difícil combater esses empreendimentos, cuja frequência submetia bairros inteiros a um perigo constante devido à violência do vento. Depois de ter demonstrado em vão que a desinfecção das casas, feita pelas autoridades, bastava para excluir qualquer risco de contágio, foi necessário instituir penas severas contra os incendiários inocentes. E sem dúvida, não era a pena de prisão que fazia recuar esses infelizes, mas a certeza, comum a todos os habitantes, de que uma pena de prisão equivalia a uma pena de morte em consequência da excessiva mortalidade verificada na penitenciária municipal. Evidentemente, essa crença não era destituída de fundamento: por motivos óbvios, parecia que a peste se empenhara em atacar particularmente aqueles que tinham adquirido o hábito de viver em grupo: soldados, religiosos e prisioneiros. Apesar do isolamento de certos detidos, uma prisão é uma comunidade e a prova disto é que na nossa prisão municipal
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os guardas, tanto quanto os presos, pagavam seu tributo à doença. Do ponto de vista superior da peste, todos aqueles homens, desde o diretor ao último dos detidos, estavam condenados e, talvez pela primeira vez, reinava na prisão uma justiça absoluta.


Foi em vão que as autoridades tentaram introduzir hierarquia nesse nivelamento, concebendo a ideia de condecorar os guardas da prisão mortos no exercício de suas funções. Como fora decretado o estado de sítio e, de certa forma, podia-se considerar que os guardas da prisão estavam mobilizados, a medalha militar lhes era concedida a título póstumo. No entanto, se os detidos não fizeram ouvir nenhum protesto, os meios militares não aceitaram bem a ideia e fizeram notar, com razão, que se podia estabelecer no espírito do público uma lamentável confusão. Fez-se justiça ao seu pedido e pensou-se que o mais simples era atribuir aos guardas a medalha da epidemia. Para os primeiros, porém, o mal estava feito, não se podia pensar em retirar-lhes as condecorações, e os meios militares continuaram a manter, o seu ponto de vista. Por outro lado, no que se refere à medalha da epidemia, ela apresentava o inconveniente de não produzir o efeito moral que se obtivera através da atribuição de uma condecoração militar, já que, em tempo de epidemia, era banal obter uma condecoração desse género. Todos ficaram descontentes.
Além disso, a administração da penitenciária não pôde atuar como as autoridades religiosas e, em menor escala, as militares. Na verdade, os monges dos dois únicos conventos da cidade tinham sido dispersados e alojados provisoriamente em casa de famílias piedosas. Da mesma forma, sempre que possível, eram destacadas pequenas companhias das casernas para se aquartelarem em escolas e edifícios públicos. Assim, a doença que, aparentemente, tinha forçado os habitantes à solidariedade de sitiados quebrava ao mesmo tempo as associações tradicionais e devolvia os indivíduos à sua solidão. Isso causava tumultos.
Pode-se pensar que todas essas circunstâncias, acrescentadas ao vento, levaram também o incêndio a certos espíritos. As portas da cidade foram atacadas de novo durante a noite e por várias vezes, mas dessa feita por pequenos grupos armados. Houve troca de tiros, feridos e algumas fugas. Os postos de guarda foram reforçados e essas tentativas cessaram com certa rapidez. No entanto, isso bastou para levantar na cidade um sopro de revolução que provocou algumas
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cenas de violência. Casas incendiadas ou fechadas por motivos sanitários foram saqueadas. A bem da verdade, é difícil supor que esses atos tenham sido premeditados. Na maior parte das vezes, uma oportunidade súbita levava pessoas até então respeitáveis a ações repreensíveis que eram logo imitadas. Encontraram-se, assim, indivíduos furiosos capazes de se precipitar numa casa ainda em chamas na presença do próprio proprietário, imbecilizado pela dor. Diante de sua indiferença, o exemplo dos primeiros foi seguido por muitos espectadores e nessa rua obscura, à luz do incêndio, viram-se fugir por todos os lados sombras deformadas pelas chamas moribundas e pelos objetos ou móveis que carregavam nos ombros. Foram incidentes que forçaram as autoridades a assimilar o estado de peste ao estado de sítio e a aplicar as leis decorrentes. Fuzilaram-se dois ladrões, mas não é certo que isso impressionasse os outros, pois no meio de tantos mortos, as duas execuções passaram despercebidas: eram uma gota de água no oceano. E na verdade, cenas semelhantes se desenrolaram com bastante frequência sem que as autoridades fizessem menção de intervir. A única medida que pareceu impressionar os habitantes foi a instituição do toque de recolher. A partir de onze horas, mergulhada na noite completa, a cidade era de pedra.


Sob os céus enluarados, ela alinhavava os muros esbranquiçados e suas ruas retilíneas, jamais manchadas pela massa negra de uma árvore, jamais perturbadas pelos passos de um transeunte ou pelo latido de um cão. A grande cidade silenciosa não passava então de um aglomerado de cubos maciços e inertes, entre os quais as efígies taciturnas de benfeitores esquecidos ou de grandes homens antigos, sufocados para sempre no bronze, tentavam sozinhos, com seus falsos rostos de pedra ou de bronze, evocar uma imagem degradada do que fora o homem. Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de uma necrópole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito calar, enfim, todas as vozes.
Mas a noite também estava em todos os corações, e as verdades, como as lendas que se contavam sobre os enterros, não eram feitas para tranqüilizar nossos concidadãos. Porque é efetivamente necessário falar dos enterros, e o narrador pede desculpas. Sente naturalmente a crítica que lhe poderia ser feita a respeito, mas a única justificativa é que houve
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enterros durante toda essa época e que, de certo modo, o obrigaram, como obrigaram a todos os nossos concidadãos, a preocupar-se com enterros. Não é que ele goste desse tipo de cerimónias, preferindo, pelo contrário, a sociedade dos vivos, e, para dar um exemplo, os banhos de mar. Mas, afinal, os banhos de mar tinham sido suprimidos, e a sociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar à sociedade dos mortos. Era a evidência. Na verdade era sempre possível esforçar-se por não vê-la, fechar os olhos e recusá-la, mas a evidência tem uma força terrível que acaba sempre vencendo. Qual o meio, por exemplo, de recusar os enterros no dia em que nossos entes queridos precisam ser enterrados?
Pois bem, o que caracterizava no início nossas cerimónias era a rapidez! Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a pompa fúnebre fora suprimida. Os doentes morriam longe da família e tinham sido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. Naturalmente, a família era avisada, mas, na maior parte dos casos, não podia deslocar-se por estar de quarentena, se tinha vivido perto do doente. No caso de a família não morar com o defunto, apresentava-se à hora indicada da partida para o cemitério, depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão.
Suponhamos que essa formalidade se passara no hospital auxiliar de que se ocupava o Dr. Rieux. A escola tinha uma saída por trás do edifício principal. Num grande cómodo que dava para o corredor, amontoavam-se os caixões. No próprio corredor a família encontrava um único caixão, já fechado. Passava-se logo ao mais importante, quer dizer, fazia-se o chefe da família assinar papéis. Em seguida, colocava-se o corpo num carro que podia ser um verdadeiro carro funerário ou uma ambulância transformada. Os parentes tomavam um dos táxis ainda autorizados e, a toda a velocidade, os carros dirigiam-se ao cemitério por ruas exteriores. À porta, os guardas faziam parar o cortejo, davam uma carimbada no salvo-conduto oficial, sem o qual era impossível ter o que nossos concidadãos chamam de última morada, desapareciam, e os carros iam colocar-se perto de um quadrado onde numerosas covas esperavam que as enchessem. Um padre acolhia o corpo, pois os serviços fúnebres tinham sido suprimidos na igreja. Tiravam o caixão para as preces, passavam-lhe uma corda, era arrastado, deslizava,
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batia no fundo, o padre agitava o seu hissope e já a primeira pá de terra caía sobre o esquife. A ambulância partira urr, pouco antes para se submeter a uma desinfecção e, enquanto as pás de terra ressoavam cada vez mais surdas, a família entrava num táxi. Quinze minutos depois, chegava à casa.
Assim, tudo se passava na verdade com o máximo de rapidez e o mínimo de riscos. E, sem dúvida, no princípio pelo menos, é evidente que o sentimento natural das famílias se ofendia. Em tempos de peste porém não é possível levar em conta semelhantes considerações: tinha-se sacrificado tudo à eficácia. Além disso, se a princípio o moral da população se ressentira com essas práticas, porque o desejo de ser enterrado decentemente é muito mais profundo do que se supõe, pouco depois, por felicidade, o problema do abastecimento tornou-se delicado e o interesse dos habitantes derivou para preocupações mais imediatas. Absorvidas pelas filas que era preciso fazer, pelas providências a tomar e pelas formalidades a cumprir caso quisessem comer, as pessoas não tiveram tempo de se ocupar da maneira como se morria à sua volta e como elas próprias morreriam um dia. Assim, essas dificuldades materiais que deviam ser um mal revelaram-se depois um benefício. E tudo teria corrido bem, se a epidemia não se tivesse alastrado, como já vimos.
Porque os caixões escassearam, faltou pano para as mortalhas e lugar nos cemitérios. Foram necessárias algumas precauções. O mais simples, e ainda por razões de eficácia, pareceu ser agrupar as cerimónias e, quando a coisa era necessária, multiplicar as viagens entre o hospital e o cemitério. Assim, no que diz respeito ao serviço de Rieux, o hospital dispunha nesse momento de cinco caixões. Uma vez cheios, a ambulância os transportava. No cemitério eram esvaziados, os corpos cor de ferro eram colocados em macas e esperavam num local preparado para esse fim. Os caixões eram regados com uma solução anti-séptica e levados novamente para o hospital, onde a operação recomeçava tantas vezes quantas fossem necessárias. A organização era, portanto, muito boa e o prefeito mostrava-se satisfeito. Disse até a Rieux que afinal isso valia mais que as carretas mortuárias conduzidas por negros, tal como se lia nas cerimónias de antigas pestes.
- Sim - respondeu Rieux -, é o mesmo enterro, mas nós fazemos fichas. O progresso é incontestável.
Apesar desses êxitos de administração, o caráter desagradável de que se revestiam agora as formalidades obrigou a prefeitura a afastar os parentes da cerimónia. Tolerava-se
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apenas que viessem até a porta do cemitério e nem isso era oficial. Sim, pois, no que se refere à última cerimónia, as coisas tinham mudado um pouco. Num extremo do cemitério, num local coberto de lentisco, tinham sido abertas duas enormes fossas. Havia a fossa dos homens e a das mulheres. Sob esse aspecto, as autoridades respeitavam as conveniências, e foi só muito mais tarde que, pela força das circunstâncias, este último pudor desapareceu e se enterraram de qualquer maneira, uns sobre os outros, sem preocupações de decência, os homens e as mulheres. Felizmente, essa confusão extrema marcou apenas os últimos momentos do flagelo. No período de que nos ocupamos, a separação das fossas existia, e as autoridades eram muito exigentes em relação a isso. No fundo de cada uma delas, uma espessa camada de cal viva fumegava e fervilhava. Nas bordas do mesmo buraco, um montículo da mesma cal deixava suas bolhas arrebentarem ao ar livre. Depois de acabadas as viagens da ambulância, levavam-se as macas em cortejo, deixavam escorregar para o fundo, mais ou menos ao lado uns dos outros, os corpos desnudados e ligeiramente retorcidos que, nesse momento, eram recobertos de cal viva e depois, de terra, mas só até uma certa altura, a fim de poupar espaço para os futuros hóspedes. No dia seguinte, os parentes eram convidados a assinar um registro, o que mostra a diferença que pode haver entre os homens e, por exemplo, os cães: a verificação era sempre possível.
Para todas essas operações era preciso pessoal e este estava sempre prestes a faltar. Muitos desses enfermeiros e coveiros, primeiros-oficiais, depois improvisados, morreram de peste. Por mais precauções que se tomassem, o contágio acabava por se fazer um dia. No entanto, quando se pensa bem, o mais extraordinário é que nunca faltaram homens para exercer essa profissão durante todo o tempo da epidemia. O período crítico ocorreu um pouco antes de a peste ter atingido o seu auge, e as inquietações do Dr. Rieux eram então fundamentadas. Nem para os trabalhos especializados, nem para o que se chamavam os trabalhos grosseiros, a mãode-obra era suficiente. Mas, a partir do momento em que a peste se apossou realmente de toda a cidade, então seu próprio excesso provocou consequências bastante cómodas, pois ela desorganizou a vida económica e suscitou assim um número considerável de desempregados. Na maior parte dos casos, estes não permitiam recrutamento para os técnicos, mas os trabalhos grosseiros encontraram-se extremamente
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facilitados. A partir desse momento, na realidade, viu-se sempre a miséria mostrar-se mais forte que o medo, tanto mais que o trabalho era pago na proporção dos riscos. Os serviços sanitários puderam dispor de uma lista de pretendentes e, logo que havia uma vaga, avisavam-se os primeiros da lista que, salvo no caso de terem também entrado em férias no intervalo, não deixavam de se apresentar. Foi assim que o prefeito que hesitara muito tempo em utilizar os condenados temporários ou condenados à prisão perpétua, para esse género de trabalhos, pôde evitar que se chegasse a esse extremo. Enquanto houvesse desempregados, ele era de opinião que se podia esperar.
Bem ou mal, o fato é que até o fim do mês de agosto, nossos concidadãos, puderam, pois, ser conduzidos à sua última morada, se não decentemente, pelo menos com uma ordem suficiente para que a administração mantivesse a consciência de que cumpria seu dever. Mas é necessário antecipar um pouco a sequência dos acontecimentos para relatar os últimos procedimentos a que foi preciso recorrer. com efeito, no estágio em que a peste se manteve, a partir do mês de agosto o acúmulo de vítimas ultrapassou em muito as possibilidades que nosso pequeno cemitério podia oferecer. De nada servira derrubar muros, abrir aos mortos uma saída para os terrenos vizinhos: em breve tornou-se necessário encontrar outra coisa. Decidiu-se, em primeiro lugar, fazer os enterros à noite, o que logo dispensou certos cuidados. Puderam amontoar-se os corpos cada vez mais numerosos nas ambulâncias. E alguns retardatários que, contra todas as regras, ~se encontravam ainda nos bairros exteriores depois do toque de recolher (ou aqueles que o dever levava para lá) encontravam por vezes longas ambulâncias brancas que corriam a toda a velocidade, fazendo soar discretamente a sirene nas ruas vazias da noite. Apressadamente, os corpos eram lançados nas fossas. Mal tinham acabado de cair e já as pás de cal se abatiam sobre os rostos, e a terra os cobria de modo anónimo, nas covas que se abriam cada vez mais profundas.
Um pouco depois, contudo, foi preciso procurar outro lugar, tomar outras medidas. Um decreto da prefeitura expropriou os jazigos perpétuos e todos os restos exumados foram encaminhados ao forno crematório. Em breve, tornou-se necessário conduzir os próprios mortos da peste para a cremação. Mas, então, foi preciso utilizar o antigo forno de incineração que se encontrava a leste da cidade, fora das
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portas. Afastou-se para mais longe o piquete da guarda e um empregado da prefeitura facilitou muito a tarefa das autoridades ao aconselhar o uso dos bondes que antigamente serviam à orla marítima e que se encontravam desativados. Para esse fim, arrumou-se o interior dos veículos retirando-se os assentos e desviou-se a linha para o forno, que se tornou, assim, uma estação final.
Ê durante todo o fim do verão, como em meio às chuvas do outono, era possível ver passar, à beira-mar, no coração de cada noite, estranhos cortejos de bondes sem passageiros, oscilando acima do mar. Os habitantes acabaram sabendo do que se tratava. E, apesar das patrulhas que proibiam o acesso à orla marítima, alguns grupos conseguiam insinuar-se com certa frequência por entre os rochedos escarpados sobre as vagas para atirar flores aos carros, à passagem dos bondes. Ouviam-se, então, solavancos dos veículos, na noite de verão, com sua carga de flores e de mortos.
Pela manhã, em todo caso, nos primeiros dias, um vapor espesso e nauseabundo pairava sobre os bairros orientais da cidade. Na opinião dos médicos, essas exalações, embora desagradáveis, não eram nocivas a ninguém. Mas os habitantes desses bairros ameaçaram imediatamente abandoná-los, persuadidos de que a peste assim se abatia também sobre eles do alto dos céus, de modo que as autoridades foram obrigadas a desviar a fumaça por um sistema de canalizações complicadas e os habitantes acalmaram-se. Só nos dias de muito vento um vago cheiro vindo do leste lhes lembrava que estavam instalados numa nova ordem e que, todas as noites, as chamas da peste devoravam a sua tribo.
Foram essas as consequências extremas da epidemia. Mas, felizmente, ela não aumentou depois, porque se pode calcular que a engenhosidade de nossas repartições, as disposições da prefeitura e até mesmo a capacidade de absorção do forno poderiam ter sido ultrapassadas. Rieux sabia que se tinham previsto então soluções desesperadas, como o lançamento dos cadáveres ao mar, e imaginava facilmente sua espuma monstruosa sobre a água azul. Sabia também que, se as estatísticas continuassem a subir, nenhuma organização, por melhor que fosse, resistiria; que os homens viriam a morrer amontoados e apodrecer na rua, apesar da prefeitura, e que a cidade veria, nas praças públicas, os mortos agarrarem-se aos vivos, com um misto de ódio legítimo e de estúpida esperança.
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De qualquer forma era esse tipo de evidência ou de apreensão que mantinha, em nossos concidadãos, o sentimento do exílio e. da separação. A esse respeito, o narrador sabe perfeitamente quanto é lamentável não poder relatar aqui algo de verdadeiramente espetacular como, por exemplo, algum herói altruísta ou alguma ação brilhante, semelhantes aos que se encontram nas velhas histórias. É que nada é menos espetacular que um flagelo e, pela sua própria duração, as grandes desgraças são monótonas. Na lembrança dos sobreviventes, os dias terríveis da peste não surgem como grandes chamas intermináveis e cruéis e sim como um interminável tropel que tudo esmaga à sua passagem.
Não, a peste nada tinha a ver com as grandes imagens exaltadas que tinham perseguido o Dr. Rieux no princípio da epidemia. Ela era, em primeiro lugar, uma administração prudente e impecável de bom funcionamento. É assim que, diga-se entre parênteses, para nada trair e, sobretudo, para não se trair a si próprio, o narrador tendeu para a objetividade. Não quis modificar quase nada pelos efeitos da arte, a não ser no que diz respeito às necessidades básicas de um relato mais ou menos coerente. E é a própria objetividade que o obriga agora a dizer que, se o grande sofrimento dessa época, tanto o mais geral quanto o mais profundo, era a separação, e se é indispensável, em sua consciência, fazer dele uma nova descrição nessa fase da peste, não deixa de ser verdade que até esse sofrimento era então menos patético.
Teriam nossos concidadãos, pelo menos os que mais haviam sofrido com essa separação, se habituado à situação? Não seria inteiramente justa essa afirmação. Seria mais exato afirmar que, tanto moral quanto fisicamente, sofriam com a desencarnação. No começo da peste, lembravam-se nitidamente do ente que haviam perdido e sentiam saudade. Mas, se se lembravam nitidamente do rosto amado, de seu riso, de determinado dia que agora reconheciam ter sido feliz, tinham dificuldade de imaginar o que o outro podia estar fazendo no próprio momento em que o evocavam e em lugares de agora em diante tão longínquos. Em suma, nesse momento, tinham memória, mas uma imaginação insuficiente. Na segunda fase da peste, perderam também a memória. Não que tivessem esquecido esse rosto, mas, o que vem a dar no mesmo, ele perdera a carne, já não o sentiam no interior de si próprios. E, enquanto tendiam a queixarse, nas primeiras semanas, de só lhes restarem sombras das



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