A peste Albert Camus



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- De contrabando, naturalmente. Eles fazem passar mercadorias pelas portas da cidade. Vendem com lucro.
- Bem - disse Rambert. - E têm cúmplices?
- Justamente.
À tarde, o toldo estava levantado, o papagaio tagarelava na gaiola, e as mesas estavam rodeadas de homens em mangas de camisa. Um deles, com o chapéu de palha para trás, de camisa branca sobre o peito cor de terra queimada, levantou-se à entrada de Cottard. Um rosto regular e queimado, olhos negros e pequenos, dentes brancos, dois ou três anéis nos dedos, parecia ter uns trinta anos.
- Salve! - disse ele. - Vamos beber no balcão. Tomaram três rodadas em silêncio.
- E se saíssemos? - disse então Garcia. Desceram em direção ao porto, e Garcia perguntou o
que queriam dele. Cottard disse-lhe que não era exatamente para negócios que queria apresentar-lhe Rambert, mas apenas para o que chamou ”uma saída”. Garcia caminhava reto em frente e ia fumando. Fez perguntas, dizendo ”ele” ao falar de Rambert, sem parecer dar-se conta de sua presença.
- Para quê? - perguntava.
- A mulher está na França.
- Ah!
E algum tempo depois:
- Qual é sua profissão?
- Jornalista.
- É uma profissão em que se fala muito. Rambert não dizia nada.
- É um amigo - afirmou Cottard.
Caminhava em silêncio. Tinham chegado ao cais, cujo acesso estava interditado por grandes grades. Mas dirigiram-se a uma pequena taverna onde se vendiam sardinhas fritas, cujo cheiro chegava até eles.
- De qualquer maneira, isso não é comigo, mas com Raoul. E é preciso que eu o encontre. Não vai ser fácil.
- Como? - perguntou Cottard, com animação. Ele está escondido?
Garcia não respondeu. Perto da taverna, parou e voltou-se para Rambert pela primeira vez.
- Depois de amanhã, às onze horas, na esquina do prédio da Alfândega. - Fez menção de partir, mas voltou-se para os dois homens.
- Há despesas - acrescentou.
- É claro - aprovou Rambert.
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Pouco depois, o jornalista agradeceu a Cottard:.
- Oh! não - disse o outro com jovialidade. - Tenho prazer em prestar-lhe um serviço. E depois você é jornalista, qualquer dia me retribui isso.
Dois dias depois, Rambert e Cottard subiam as grandes ruas sem sombra que levam ao alto da nossa cidade. Uma parte do prédio da Alfândega tinha sido transformada em enfermaria e, diante da grande porta, postavam-se pessoas vindas na esperança de uma visita que não podia ser autorizada ou à procura de informações que, de uma hora para outra, caducariam. Em todo caso, esse ajuntamento permitia muitas idas e vindas, e podia supor-se que essa circunstância não era diferente da maneira como o encontro de Garcia e de Rambert tinha sido marcado.
- É curiosa - disse Cottard - essa obstinação em partir. Em suma, o que se passa é bem interessante.
- Não para mim - respondeu Rambert.
- Oh! É claro que se arrisca alguma coisa. Mas, afinal, arriscava-se a mesma coisa, antes da peste, ao atravessar uma rua muito movimentada.
Nesse momento, o automóvel de Rieux parou junto deles. Tarrou dirigia, e Ríeux parecia meio adormecido. Acordou para fazer as apresentações.
- Já nos conhecemos - disse Tarrou. - Moramos no” mesmo hotel.
Ofereceu a Rambert levá-lo para a cidade.
- Não, temos um encontro aqui. Rieux olhou para Rambert:
- Sim - disse este.
- Ah! - admirou-se Cottard - o doutor está a par?
- Aí vem o juiz de instrução - avisou Tarrou, olhando para Cottard.
Este mudou de expressão. com efeito, o Sr. Othon descia a rua e avançava para eles, num passo vigoroso e compassado. Tirou o chapéu ao passar pelo pequeno grupo.
- bom dia, senhor juiz - cumprimentou Tarrou.
O juiz cumprimentou os ocupantes do automóvel e, olhando para Cottard e Rambert, que tinham ficado atrás, saudou-os gravemente com a cabeça. Tarrou apresentou o capitalista e o jornalista. O juiz olhou para o céu por um segundo e suspirou, dizendo que era uma época bem triste.
- Disseram-me, Sr. Tarrou, que se ocupa da aplicação de medidas profiláticas. Permita-me que o felicite. Pensa, doutor, que a doença vai se propagar?
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Rieux respondeu que era necessário esperar que não e o juiz repetiu que era preciso esperar sempre, que os desígnios da Providência eram insondáveis. Tarrou perguntou-lhe se os acontecimentos lhe haviam trazido um aumento de trabalho.
- Pelo contrário, os casos que chamamos de direito comum diminuem. Só tenho que instruir infrações graves às novas disposições. Nunca se respeitaram tanto as leis antigas.
- É que, em comparação - disse Tarrou -, elas parecem boas, necessariamente.
O juiz abandonou o ar sonhador que assumira, com o olhar como que suspenso do céu. E examinou Tarrou com um ar frio:
- Que diferença faz? - perguntou. - Não é a lei que conta, é a condenação. Nada podemos contra isso.
- Aquele - disse Cottard, quando o juiz partiu é o inimigo número um.
O carro arrancou.
Um pouco mais tarde, Rambert e Cottard viram Garcia chegar. Avançou para eles sem lhes fazer sinal e disse, à guisa de cumprimento:
- É preciso esperar.
À volta deles, a multidão, em que predominavam mulheres, esperava num silêncio total. Quase todas carregavam cestos que tinham a vã esperança de poder fazer passar aos parentes doentes e a ideia, ainda mais louca, de que estes poderiam utilizar suas provisões. A porta estava guardada por soldados armados e, de vez em quando, um grito estranho atravessava o pátio que ficava em frente da porta. Na assistência, rostos inquietos voltavam-se para a enfermaria.
Os três homens contemplavam esse espetáculo quando, às suas costas, um ”bom dia” claro e grave os fez voltarem-se. Apesar do calor, Raoul estava vestido muito corretamente. Alto e forte, vestia um terno jaquetão de cor escura e um chapéu de abas reviradas. Tinha o rosto bastante pálido. com os olhos castanhos e a boca cerrada, Raoul falava de uma maneira rápida e precisa:
- Vamos descer para a cidade - ordenou. - Garcia, você pode nos deixar.
Garcia acendeu um cigarro e deixou-os afastarem-se. Caminharam rapidamente, acertando o passo pelo de Raoul, que se colocara no meio.
- Garcia explicou-me - disse. - A coisa pode ser
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arranjada. De qualquer maneira, vai custar-lhe de mil francos.
Rambert respondeu que aceitava.
- Almoce comigo, amanhã, no restaurante espanhol do Quartier de Ia Marine.
Rambert concordou e Raoul apertou-lhe a mão, sorrindo pela primeira vez. Depois de sua partida, Cottard desculpou-se. Não estaria livre no dia seguinte e, além disso, Rambert não precisava dele.
Quando, no dia seguinte, o jornalista entrou no restaurante espanhol, todas as cabeças se voltaram à sua passagem. O porão sombrio, situado numa pequena rua amarela e seca pelo sol, só era frequentado por homens, a maior parte de tipo espanhol. Mas logo que Raoul, instalado a uma mesa no fundo, fez um sinal ao jornalista e este se dirigiu para ele, a curiosidade desapareceu dos rostos, que voltaram aos seus pratos. Raoul tinha à sua mesa um sujeito alto, magro e mal barbeado, de ombros desmedidamente largos, rosto cavalar e cabelos espessos. Os braços compridos e delgados, cobertos de pêlos negros, saíam de uma camisa de mangas arregaçadas. Acenou com a cabeça três vezes quando Rambert lhe foi apresentado. O seu nome não havia sido pronunciado, e Raoul referia-se a ele como ”nosso amigo”.
- Nosso amigo acha possível ajudá-lo. Ele vai. . . Raoul calou-se, pois a empregada aproximava-se para servir Rambert. - Ele vai pô-lo em contato com dois de nossos amigos que o apresentarão a dois guardas que trabalham conosco. Mas a coisa não termina aí. Os próprios guardas é que devem indicar o momento propício. O mais simples seria o senhor instalar-se durante algumas noites em casa de um deles que mora perto das portas. Antes, porém, nosso amigo vai facilitar-lhe os contatos necessários. Quando tudo estiver arranjado, é a ele que deve pagar.
O amigo mais uma vez sacudiu a cabeça de cavalo, sem parar de mastigar a salada de tomate e pimentões que engolia. Depois, falou com um leve sotaque espanhol. Propôs a Rambert que se encontrassem dois dias depois, às oito horas da manhã, debaixo do pórtico da catedral.
- Mais dois dias - observou Rambert,
- É que não é fácil - disse Raoul. - É preciso encontrar as pessoas.
O cavalo concordou mais uma vez e Rambert aprovou sem entusiasmo. O resto do almoço desenrolou-se na procura de um assunto. Mas tudo se tornou muito fácil quando
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Rambert descobriu que o cavalo era jogador de futebol. Ele próprio praticara esse esporte. Falou-se, portanto, no campeonato da França, do valor dos times profissionais ingleses e da tática em W. No fim do almoço, o cavalo estava totalmente animado e tratava Rambert por tu, para persuadi-lo de que não havia lugar mais belo num time que o de centromédio. ”Compreendes”, dizia ele, ”o centro-médio é quem distribui o jogo. E distribuir o jogo, isso é futebol.” Rambert era da mesma opinião, embora tivesse sempre jogado como centro-avante. A discussão foi interrompida apenas por um aparelho de rádio que, depois de ter entoado em surdina melodias sentimentais, anunciou que na véspera a peste fizera cento e trinta e sete vítimas. Ninguém reagiu na sala. O homem de cabeça de cavalo encolheu os ombros e levantou-se. Raoul e Rambert imitaram-no.
Ao partir, o centro-médio apertou a mão de Rambert com energia.
- Chamo-me González - disse.
Esses dois dias pareceram intermináveis a Rambert. Dirigiu-se à casa de Rieux e contou-lhe com detalhes suas diligências. Depois, acompanhou o médico em uma de suas visitas e despediu-se dele à porta da casa, onde o esperava um doente suspeito. No corredor, um barulho de corridas e de vozes: avisavam à família da chegada do médico.
- Espero que Tarrou não demore - disse Rieux. Parecia cansado.
- A epidemia está andando muito rápido? - perguntou Rambert.
Rieux disse que não era isso e que até a curva da estatística subia mais devagar. Simplesmente, os meios de luta contra a peste não eram ainda suficientes.
- Falta-nos material - disse. - Em todos os exércitos do mundo, substitui-se geralmente a falta de material por homens. Mas também há falta de homens.
- Vieram médicos do exterior e sanitaristas.
- Sim - disse Rieux -, dez médicos e uma centena de homens. Aparentemente, é muito. Mal chega para o estágio atual da doença. Será insuficiente, se a epidemia se propagar.
Rieux apurou o ouvido aos ruídos do interior, depois sorriu para Rambert.
- Sim - disse -, deve apressar-se para resolver logo o caso.
Uma sombra passou pelo rosto do jornalista.
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- Sabe, não é isso que me faz partir. - Rieux respondeu que sabia, mas Rambert continuou: - Creio que não sou covarde, pelo menos não sempre. Já tive ocasião de prová-lo. Só quê há ideias que não consigo suportar.
O médico olhou-o de frente.
- Vai encontrá-la - disse.
- Talvez, mas não consigo suportar a ideia de que isso vai demorar muito e que ela vai envelhecer durante todo este tempo. Aos trinta anos, começa-se a envelhecer, e é preciso aproveitar tudo. Não sei se consegue me entender.
Rieux murmurava que julgava compreender, quando Tarrou chegou, muito animado.
- Acabo de pedir a Paneloux que se junte a nós.
- E então? - perguntou o médico.
- Ele refletíu e concordou.
- Fico satisfeito - disse o médico. - Fico satisfeito em saber que ele é melhor que seu sermão.
- Todos são assim - afirmou Tarrou. - É preciso apenas dar-lhes uma oportunidade.
Sorriu e piscou o olho para Rieux.
- E a minha função na vida é dar oportunidades.
- Desculpe-me - disse Rambert -, mas preciso chegar a tempo.
Na quinta-feira do encontro, Rambert dirigiu-se ao pórtico da catedral cinco minutos antes das oito horas. O ar estava ainda bastante fresco. No céu avançavam pequenas nuvens brancas e redondas que a vinda do calor logo desfaria. Um vago cheiro de umídade subia ainda do gramado, no entanto seco. O sol, por detrás das casas do leste, aquecia apenas o capacete da Joana d’Are toda dourada que guarnecia a praça. Um relógio deu oito badaladas. Rambert ensaiou alguns passos sob o pórtico deserto. Vagas salmodias chegavam-lhe do interior com velhos perfumes de porão e de incenso. De repente, os cânticos cessaram. Uma dezena de pequenos vultos negros saíram da igreja e puseram-se a caminhar em direção à cidade. Rambert começava a impacientar-se. Outros vultos negros faziam a ascensão das grandes escadas e dirigiam-se para o pórtico. Acendeu um cigarro, mas depois pensou que talvez não fosse permitido naquele lugar.
Às oito e quinze, os órgãos da catedral começaram a tocar em surdina. Rambert penetrou na abóbada escura. Ao fim de um instante conseguiu distinguir na nave os pequenos vultos negros que tinham passado por ele. Estavam todos
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reunidos a um canto, em frente a uma espécie de altar improvisado, onde acabavam de instalar um São Roque executado às pressas numa das oficinas da cidade. Ajoelhados, pareciam ter-se encolhido ainda mais, perdidos entre os tons cinzentos como pedaços de sombra coagulada, pouco mais espessos, aqui e ali, que a bruma na qual flutuavam. Por cima deles, os órgãos executavam variações sem fim.
Quando Rambert saiu, González já descia as escadas e dirigia-se à cidade.
- Pensei que tinha ido embora - disse ele ao jornalista. - Seria natural.
Explicou que tinha esperado os amigos num outro encontro que marcara, não longe dali, às dez para as oito. Mas esperara por eles vinte minutos, em vão.
- Naturalmente, há algum problema. Nem sempre se fica à vontade no trabalho que fazemos.
Propunha um outro encontro para o dia seguinte, à mesma hora, junto do monumento aos mortos. Rambert suspirou e atirou o chapéu para a nuca.
- Não é nada - concluiu González, rindo. - Pensa só em todos os deslocamentos, os ataques e os passes que é preciso fazer para marcar um gol.
- Claro - disse, ainda, Rambert -, mas a partida só dura hora e meia.
O monumento aos mortos de Oran encontra-se no único lugar de onde se pode ver o mar, uma espécie de passeio que ladeia, numa distância bastante curta, as falésias que dominam o porto. No dia seguinte, Rambert, o primeiro a chegar, lia com atenção a lista dos mortos no campo de batalha. Alguns minutos depois, aproximaram-se dois homens, olharam-no com indiferença, depois foram encostar-se ao parapeito da avenida e pareciam inteiramente absorvidos na contemplação dos cais vazios e desertos. Eram ambos da mesma estatura, vestidos com as mesmas calças azuis e idêntica camiseta de malha azul-marinho de mangas curtas. O jornalista afastou-se um pouco, depois sentou-se num banco e pôde observá-los à vontade. Viu então que, com certeza, não tinham mais de vinte anos. Nesse momento viu González, que caminhava em direção a ele, desculpando-se.
- Estes são nossos amigos - disse, conduzindo-o na direção dos dois rapazes, que apresentou com os nomes de Mareei e Louis. De frente, pareciam-se muito, e Rambert calculou que fossem irmãos.
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- Pronto - disse González. - Agora a apresentação está feita. Falta fazer o negócio.
Mareei ou Louis disse então que seu plantão começaria dentro de dois dias, duraria uma semana e que seria preciso escolher o dia mais conveniente. Eram quatro a guardar a porta de oeste e os dois outros eram militares de carreira. Não havia condições de envolvê-los no negócio. Não eram de confiança e, além disso, só viriam aumentar as despesas. Mas às vezes, em determinadas noites, os dois colegas iam passar uma parte da noite na sala dos fundos de um bar que eles conheciam. Mareei ou Louis propunha assim a Rambert que fosse instalar-se em casa deles, próximo das portas, e que esperasse que viessem buscá-lo. A passagem seria então muito fácil. Mas era preciso não perder tempo, porque se falava ultimamente em instalar postos duplos no exterior da cidade.
Rambert concordou e ofereceu alguns dos seus últimos cigarros. O rapaz que ainda não tinha falado perguntou então a González se a questão do pagamento estava resolvida e se podiam receber um adiantamento.
- Não - disse González. - Não vale a pena, é um conhecido. As despesas serão pagas na saída.
Combinaram novo encontro. González propôs um jantar no restaurante espanhol, dois dias depois. De lá, poderiam seguir para a casa dos guardas.
- Na primeira noite - disse ele a Rambert -, eu te faço companhia.
No dia seguinte, Rambert, ao subir ao seu quarto, cruzou com Tarrou na escada do hotel.
- vou encontrar-me com Rieux - disse. - Quer vir?
- Nunca sei se o estou incomodando - disse Rambert, depois de uma hesitação.
- Não acho. Ele falou-me muito em você. O jornalista refletia:
- Ouça - disse. - Se dispuserem de um momento depois do jantar, mesmo tarde, venham os dois ao bar do hotel.
- Isso depende dele e da peste - disse Tarrou.
No entanto, às onze horas da noite Rieux e Tarrou entraram no bar, pequeno e estreito. Umas trinta pessoas acotovelavam-se lá, falando muito alto. Recém-chegados do silêncio da cidade infestada, os dois pararam, um pouco aturdidos. Compreenderam a agitação ao verem que ainda serviam bebidas alcoólicas. Rambert estava numa ponta do balcão
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e fazia-lhes sinais do alto de seu banco. Eles o cercaram, Tarrou empurrando, com tranqüilidade, um freguês barulhento.
- O álcool não os assusta?
-- Não - respondeu Tarrou. - Pelo contrário.
Rieux aspirou o cheiro de ervas amargas do seu copo. Era difícil nesse tumulto, mas Rambert parecia sobretudo ocupado em beber. O médico não podia julgar ainda se ele estava bêbado. Numa das duas mesas que ocupavam o resto do local onde se encontravam, um oficial da Marinha, com uma mulher em cada braço, relatava a um gordo interlocutor congestionado uma epidemia de tifo no Cairo. ”Acampamentos”, dizia ele, ”tinham feito acampamentos para os indígenas, com tendas para doentes e, em toda a volta, um cordão de sentinelas que atiravam contra a família quando ela tentava trazer clandestinamente remédios caseiros. Era duro, mas era certo.” Na outra mesa, ocupada por rapazes elegantes, a conversa era incompreensível e perdia-se nos compassos do Saint James Infirmary, derramados por um pick-up colocado no alto.
- Está contente? - perguntou Rieux, elevando a voz.
- Está próximo - disse Rambert. - Talvez esta semana.
- É pena - gritou Tarrou.
- Por quê?
Tarrou olhou para Rieux.
- Oh! - disse este. - Tarrou diz isso porque acha que você podia nos ser útil aqui. Mas eu compreendo muito bem o seu desejo de partir.
Tarrou ofereceu outra rodada. Rambert desceu do banco e olhou-o de frente pela primeira vez:
- Em que poderia eu ser-lhes útil?
- Bem - disse Tarrou, estendendo a mão para o copo, sem pressa. - Nas nossas equipes sanitárias.
Rambert retomou o ar de profunda reflexão que lhe era habitual e subiu de novo no banco.
- Essas equipes não lhe parecem úteis? - perguntou Tarrou, que acabava de beber e olhava para Rambert com atenção.
- Muito úteis - respondeu o jornalista. E bebeu. Rieux notou que sua mão tremia. Pensou que com toda
a certeza, sim, ele estava totalmente bêbado.
No dia seguinte, quando Rambert entrou pela segunda vez no restaurante espanhol, passou no meio de um pequeno
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grupo de homens que tinham puxado cadeiras para a calçada e saboreavam uma tarde verde e dourada em que o calor começava apenas a abrandar. Fumavam um tabaco de cheiro acre. No interior, o restaurante estava quase deserto. Rambert foi sentar-se à mesa do fundo, onde encontrara González j pela primeira vez. Disse à empregada que esperaria. Eram l sete e meia. Pouco a pouco, os homens voltaram à sala de] jantar e instalaram-se. Começaram a servi-los, e a abóbada j muito baixa encheu-se de ruídos de talheres e de conversas! surdas. Às oito horas, Rambert ainda esperava. Acenderam a luz. Novos clientes instalaram-se à mesa. Pediu o jantar. Às oito e meia, terminara sem ter visto González nem os dois rapazes. Fumou. A sala esvaziava-se lentamente. Lá fora, a noite caía muito rapidamente. Uma brisa morna que vinha do mar levantava suavemente as cortinas das janelas. Às nove horas, Rambert viu que a sala estava vazia e que a empregada olhava para ele com espanto. Pagou e saiu. Em frente ao restaurante um café estava aberto. Rambert instalou-se no balcão para vigiar a entrada do restaurante. Às nove e meia dirigiu-se ao seu hotel, procurando imaginar como havia de encontrar González, cujo endereço não tinha, com o coração desanimado por todas as providências que teria de retomar.
Foi nesse momento, na noite atravessada por ambulâncias apressadas, que ele compreendeu, como viria a dizer ao Dr. Rieux, que durante todo esse tempo tinha de algum modo esquecido a mulher, para dedicar-se inteiramente < à busca de uma abertura nos muros que o separavam dela. Mas foi nesse momento também que, com todos os caminhos mais uma vez fechados, ele a encontrou de novo no centro do seu desejo e com uma irrupção tão súbita de dor que começou a correr para o hotel a fim de fugir a essa queimadura atroz que, no entanto, levava consigo e que lhe devorava as têmporas.
Entretanto, no dia seguinte muito cedo, procurou Rieux para perguntar-lhe como poderia encontrar Cottard.
- Tudo o que me resta fazer - disse - é seguir de novo a pista.
- Venha amanhã à noite - disse Rieux. - Tarrou pediu-me que convidasse Cottard, não sei para quê. Ele deve chegar às dez horas. Venha às dez e meia.
Quando, no dia seguinte, Cottard chegou à casa do médico, Tarrou e Rieux falavam de uma cura inesperada que ocorrera no serviço deste último.
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- Um em dez. Teve sorte - dizia Tarrou.
- Bem! - exclamou Cottard. - Então não era peste. Garantiram-lhe que se tratava efetivamente da doença.
- Não é possível, já que está curado. Sabem tão bem quanto eu que a peste não perdoa.
- Em geral, não - disse Rieux. - Mas, com um pouco de obstinação, tem-se surpresas.
Cottard ria.
- Não me parece. Ouviu os números, esta tarde? Tarrou, que olhava para o capitalista com benevolência,
respondeu que conhecia os números e que a situação era grave, mas que provava isso? Provava que eram necessárias medidas ainda mais excepcionais.
- O senhor já as tomou.
- Já, mas é preciso que cada um as tome por conta própria.
Cottard olhava para Tarrou sem compreender. Este disse que homens demais continuavam inativos, que a epidemia dizia respeito a todos e que cada um devia cumprir seu dever. As equipes voluntárias estavam abertas a todos.
- É uma ideia - disse Cottard -, mas isso não servirá para nada. A peste é forte demais.
- Vamos saber - retorquiu pacientemente Tarrou quando tivermos tentado tudo.
Durante esse tempo Rieux, à sua secretária, copiava fichas. Tarrou continuava a olhar para o capitalista, que se agitava na cadeira.
- Por que não se junta a nós, Sr. Cottard?
O outro levantou-se com ar ofendido e pegou o chapéu redondo:
- Não é minha profissão. - Depois, num tom de bravata, acrescentou: - Além disso, sinto-me bem na peste. Não vejo por que haveria de me empenhar em fazê-la cessar.
Tarrou bateu na testa, como que iluminado por uma verdade súbita.
- Ah! É verdade, ia me esquecendo, sem isso, o senhor seria preso.
Cottard estremeceu e agarrou-se à cadeira, como se fosse cair. Rieux tinha parado de escrever e olhava-o com um ar sério e interessado.
- Quem lhe disse isso? - gritou o capitalista. Tarrou mostrou-se surpreso e respondeu:
- Mas o senhor mesmo. Ou, pelo menos, foi o que o doutor e eu julgamos compreender.
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E como Cottard, invadido de repente por uma raiva forte demais para ele, gaguejasse palavras incompreensíveis, acrescentou:
- Não se irrite. Não será o doutor nem eu que vamos denunciá-lo. A sua história não nos diz respeito. E, além disso, a polícia é algo de que jamais gostamos. Vamos, sente-se.
O capitalista olhou para a cadeira e sentou-se, após uma hesitação. Um momento depois, suspirou.
- É uma velha história - reconheceu - que eles desenterraram. Achei que estava esquecida. Mas houve um que falou. Mandaram chamar-me e disseram que me mantivesse à disposição deles até o fim do inquérito. Compreendi que acabariam por me prender.
- É grave? - perguntou Tarrou.
- Depende da interpretação. De qualquer forma, não é um assassinato, em todo caso.
- Prisão ou trabalhos forçados? Cottard parecia muito abatido.
- Prisão, se tiver sorte. . .
Mas logo depois, recomeçou, com veemência:
- Foi um erro. Todos erram. E não consigo suportar a ideia de ser preso por isso, de ser separado da minha casa, dos meus hábitos, de todos os que conheço.
- Como? - perguntou Tarrou. - Foi por isso que resolveu enforcar-se?
- Foi. Uma bobagem, é claro.
Rieux falou pela primeira vez e disse a Cottard que compreendia a sua inquietação, mas que talvez tudo se solucionasse.
- Ah! Por ora, sei que nada tenho a temer.
- Vejo - disse Tarrou - que não entrará para nossas equipes.
O outro, que fazia girar o chapéu entre as mãos, levantou para Tarrou um olhar incerto.
- Não me queiram mal por isso.
- Claro que não. Mas tente, ao menos - disse Tarrou, sorrindo -, não propagar voluntariamente o micróbio.
Cottard protestou que não tinha querido a peste, que ela viera espontaneamente e que não era culpa sua se ela o beneficiava no momento. E quando Rambert chegou à porta, o capitalista acrescentou com muita energia na voz:
- De resto, minha ideia é que não conseguirá nada. Rambert soube que Cottard desconhecia o endereço de
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González, mas que podiam sempre voltar ao pequeno café. Marcaram encontro para o dia seguinte. E, como Rieux manifestasse o desejo de ser informado, Rambert convidou-o a ir com Tarrou ao seu quarto, no fim da semana, a qualquer hora da noite.
De manhã, Cottard e Rambert foram ao café e deixaram recado para Garcia marcando encontro para a tarde, ou no dia seguinte, em caso de impedimento. À tarde, esperaram em vão. No dia seguinte, Garcia estava lá. Ouvia em silêncio a história de Rambert. Não estava a par, mas sabia que haviam fechado bairros inteiros, durante vinte e quatro noras, a fim de proceder a verificações domiciliares. Era possível que González e os dois rapazes não tivessem conseguido atravessar as barreiras. Tudo o que podia fazer era colocá-lo de novo em contato com Raoul. Naturalmente, não seria antes de dois dias.
- Compreendo - disse Rambert. - É preciso recomeçar tudo.
Dois dias depois, na esquina de uma rua, Raoul confirmou a hipótese de Garcia: os bairros inferiores tinham sido fechados. Era preciso entrar novamente em contato com González. Dois dias depois, Rambert almoçava com o jogador de futebol.
- É uma idiotice - dizia. - Devíamos ter combinado uma maneira de nos encontrarmos.
Essa era também a opinião de Rambert.
- Amanhã de manhã, iremos à casa dos garotos e trataremos de resolver tudo.
No dia seguinte, os garotos não estavam em casa. Deixaram-lhe recado para que aparecesse no dia seguinte, ao meio-dia, na Place du Lycée. E Rambert voltou para casa com uma expressão que impressionou Tarrou quando o encontrou à tarde:
- Algum problema? - perguntou-lhe.
- Fui obrigado a recomeçar - respondeu Rambert. E renovou o convite:
- Apareça esta noite.
À noite, quando os dois homens penetraram no quarto de Rambert, ele estava estendido na cama. Levantou-se e encheu os copos que tinha preparado. Rieux, pegando o seu, perguntou-lhe se as coisas estavam bem encaminhadas. O jornalista respondeu que tinha feito tudo de novo, que chegara ao mesmo ponto e que teria em breve o seu último encontro. Bebeu e acrescentou:
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- Naturalmente, eles não virão.
- É preciso não fazer disso um princípio - disse Tarrou.
- Os senhores não compreenderam ainda - respondeu Rambert, encolhendo os ombros.
- O quê?
- A peste.
- Ah! - exclamou Rieux.
- Não, não compreenderam que consiste em recomeçar.
Rambert foi a um canto do quarto e abriu um pequeno fonógrafo.
- Que disco é este? - perguntou Tarrou. - Conheço a música.
Rambert respondeu que era o Saint James Infirmary. No meio do disco, ouviram-se dois tiros dispararem ao longe.
- Um cão ou uma fuga - disse Tarrou.
Um momento depois, o disco acabou e a sirene de uma ambulância se definiu, aumentou, passou sob as janelas do hotel, diminuiu e finalmente extinguiu-se.
- Este disco não é nada bom - disse Rambert. E além disso, já o ouvi pelo menos dez vezes hoje.
- Gosta tanto assim dele?
- Não, mas só tenho este,
E um momento depois, acrescentou:
- Eu não disse que tudo consiste em recomeçar? Perguntou a Rieux como iam as equipes. Havia cinco
grupos trabalhando. Esperavam criar outros. O jornalista tinha se sentado na cama e parecia preocupado com as unhas. Rieux examinava-lhe a silhueta curta e robusta, curvada à beira da cama. Descobriu de repente que Rambert o fitava.
- Sabe, doutor, pensei muito na sua organização. Se não estou nela, é porque tenho minhas razões. Quanto ao resto, creio que saberia ainda sacrificar a minha vida: fiz a guerra na Espanha.
- De que lado? - perguntou Tarrou.
- Do lado dos vencidos. Mas desde então, pensei um pouco.
- Em quê? - insistiu Tarrou.
- Na coragem. Agora, sei que o homem é capaz de grandes ações. Mas se não for capaz de um grande sentimento, não me interessa.
- Temos a impressão de que ele é capaz de tudo disse Tarrou.
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- Não. É incapaz de sofrer ou de ser feliz por muito tempo. Portanto, não é capaz de nada que preste.
Olhou para eles e continuou:
- Vejamos, Tarrou, você é capaz de morrer por um amor?
- Não sei, mas parece-me que não, agora.
- Está vendo? Você é capaz de morrer por uma ideia, é visível a olho nu. Pois bem, estou farto das pessoas que morrem por uma ideia. Não acredito em heroísmo. Sei que é fácil e aprendi que é criminoso. O que me interessa é que se viva e que se morra pelo que se ama.
Rieux escutara o jornalista com atenção. Sem deixar de olhar para ele, disse, suavemente:
- O homem não é uma ideia, Rambert.
O outro saltou da cama com o rosto inflamado de paixão.
- É uma ideia, e uma ideia curta, a partir do momento em que se desvia do amor. E, justamente, nós já não somos capazes de amar. Resignemo-nos, doutor. Esperemos vir a sê-lo e, se verdadeiramente não for possível, esperemos a libertação geral sem brincar de herói. Não irei mais longe.
Rieux levantou-se com um ar de súbito cansaço.
- Tem razão, Rambert, tem toda a razão, e por nada deste mundo eu gostaria de demovê-lo do que vai fazer, que me parece justo e bom. Mas devo dizer-lhe uma coisa: não se trata de heroísmo. Trata-se de honestidade. É uma ideia que talvez faça rir, mas a única maneira de lutar contra a peste é a honestidade.
- Õ que é honestidade? - perguntou Rambert, com um ar subitamente sério.
- Não sei o que ela é em geral. Mas no meu caso, sei que consiste em fazer o meu trabalho.
- Ah! - disse Rambert com raiva. - Não sei qual é o meu trabalho. Na verdade, talvez esteja errado ao escolher o amor.
Rieux o enfrentou:
- Não - disse com energia -, não está errado. Rambert olhava-os, pensativo.
- Creio que ambos nada têm a perder em tudo isso. É mais fácil ficar do lado bom.
Rieux esvaziou o copo.
- Vamos - disse. - Temos muito que fazer. E saiu.


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