A peste Albert Camus



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- Os dias são muito compridos e eu agora nunca estou
em casa.
- Para mim é indiferente esperar, desde que saiba que vai chegar. E quando você não está, penso no seu trabalho. Tem notícias?
- Sim, vai tudo bem, se posso acreditar no último telegrama. Mas sei que ela diz isso para me tranqüilizar.
A campainha da porta tocou. O médico sorriu para a mãe e foi abrir. Na penumbra do patamar, Tarrou, vestido de cinzento, parecia um grande urso. Rieux fez o visitante sentar-se diante da secretária. Ele próprio ficou em pé, atrás da poltrona. Estavam separados pela única lâmpada acesa em cima da secretária.
- Sei - disse Tarrou, sem preâmbulos - que posso lhe falar com franqueza. - Rieux aprovou em silêncio. Dentro de quinze dias ou um mês, o senhor já não terá aqui qualquer utilidade; estará superado pelos acontecimentos.
- É verdade - respondeu o médico.
- A organização do serviço sanitário é má. Faltam-lhe homens e tempo.
Rieux reconheceu ainda que era verdade.
- Soube que a prefeitura está planejando uma espécie de serviço civil para obrigar os homens válidos a participarem no salvamento geral.
- Está bem informado. Mas o descontentamento já é grande, e o prefeito hesita.
- Por que não se pedem voluntários?
- Isso foi feito, mas os resultados foram insignificantes.
- Fez-se por via oficial e sem muita fé no que faziam. O que lhes falta é imaginação. Nunca estão à altura dos flagelos. Se os deixarmos agir, acabarão por morrer, e nós com eles.
- É provável - retorquiu Rieux. - Devo dizer que pensam também nos presos para os chamados trabalhos pesados.
- Gostaria mais que fossem homens livres.
- Eu também. Mas por quê, afinal?
- Tenho horror às condenações à morte. Rieux olhou para Tarrou.
- Então? - perguntou.
- Então, tenho um plano de organização de equipes sanitárias voluntárias. Autorize-me a ocupar-me disso e deixemos as autoridades de lado. Aliás, as autoridades estão
suplantadas. Tenho amigos por toda parte e eles formarão o primeiro núcleo. E naturalmente, participarei dele.
- Está bem - disse Rieux -, aceito com alegria. Temos necessidade de ser ajudados, sobretudo nesta profissão. Encarrego-me de fazer a prefeitura aceitar a ideia. Aliás, não há outra opção. Mas. . .
Rieux refletiu.
- Mas esse trabalho pode ser mortal, como sabe. Em todo caso é preciso que eu o previna. Pensou bem?
Tarrou olhava-o com seus olhos cinzentos e tranqüilos.
- Que pensa do sermão de Paneloux, doutor?
A pergunta foi feita naturalmente, e Rieux respondeu naturalmente:
- Vivi demais nos hospitais para gostar da ideia de castigo coletivo. Mas, como sabe, os cristãos falam às vezes assim, sem que realmente o pensem. São melhores do que parecem.
- Pensa então, como Paneloux, que a peste tem o seu lado bom, que abre os olhos, que obriga a pensar?
O médico sacudiu a cabeça com impaciência.
- Como todas as doenças deste mundo. Mas o que é verdade em relação aos males deste mundo é também verdade em relação à peste. Pode servir para engrandecer alguns. No entanto, quando se vê a miséria e a dor que ela traz é preciso ser louco, cego ou covarde para se resignar à peste.
Rieux apenas erguera um pouco o tom de voz. Mas Tarrou fez um gesto com a mão como para acalmá-lo. Sorria.
- Sim - continuou Rieux, dando de ombros. - Mas não me respondeu. Refletiu bem?
Tarrou empertigou-se um pouco na cadeira e esticou a cabeça para a luz.
- Acredita em Deus, doutor?
De novo, a pergunta fora feita naturalmente. Mas desta vez Rieux hesitou.
- Não, mas que quer dizer isso? Estou nas trevas e tento ver claro. Há muito que deixei de achar isso original.
- Não é isso o que o separa de Paneloux?
- Não acho. Paneloux é um estudioso. Não viu a morte o suficiente, e é por isso que fala em nome de uma verdade. Mas o mais modesto padre de aldeia, que cuida dos seus paroquianos e que ouviu a respiração de um moribundo, pensa como eu. Ele trataria da miséria antes de querer demonstrar-lhe a excelência.
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Rieux levantou-se. Seu rosto estava agora na sombra.
- Vamos deixar isso - disse -, já que não quer responder.
Tarrou sorriu, sem se mexer na poltrona.
- Posso responder com uma pergunta? Foi a vez de o médico sorrir.
- Gosta do mistério. Vamos lá.
- É isso - disse Tarrou. - Por que o senhor mesmo demonstra tanta dedicação, já que não acredita em Deus? Sua resposta talvez me ajude a responder.
Sem sair da sombra, o médico disse que já respondera e que, se acreditasse num Deus todo-poderoso, deixaria de curar os homens, deixando a ele esse cuidado. Mas que ninguém no mundo, não, nem mesmo Paneloux, que julgava acreditar, acreditava num Deus desse género, já que ninguém se entregava totalmente e que nisso, ao menos ele, Rieux, julgava estar no caminho da verdade, lutando contra a criação tal como ela era.
- Ah! - exclamou Tarrou. - Então é essa a ideia que tem da sua profissão?
- Mais ou menos - respondeu o médico, voltando-se para a luz.
Tarrou assobiou baixinho, e o médico olhou para ele.
- Bem sei - continuou. - Diz a - J próprio que para isso é preciso ter orgulho. Mas eu não tenho senão o orgulho necessário, acredite. Não sei o que me espera, nem o que virá depois de tudo isto. No momento, há doentes, e é preciso curá-los. Em seguida, eles refletirão e eu também. Mas o mais urgente é curá-los. Eu os defendo como posso, é tudo.
- Contra quem?
Rieux voltou-se para a jane^. Adivinhava ao longe o mar por uma condensação mais escura do horizonte. Sentia apenas seu cansaço e lutava ao mesmo tempo contra um desejo súbito e irracional de se abrir um pouco mais com esse homem um pouco singular, mas que sentia fraternal.
- Não sei, Tarrou, juro-lhe que não sei. Quando entrei para essa profissão eu o fiz abstratamente, de certo modo, porque tinha necessidade, porque era uma situação como as outras, uma das que os jovens se propõem. Talvez também porque era particularmente difícil para um filho de operário corno eu. E depois foi necessário ver morrer. Sabe que há pessoas que se recusam a morrer? Já ouviu alguma vez uma mulher gritar ”Nunca!” no momento de morrer?
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Eu já. E descobri então que não conseguia me habituar. Era novo, nesse tempo, e minha repugnância julgava dirigir-se à própria ordem do mundo. Depois tornei-me mais modesto. Simplesmente, não me habituei a ver morrer. Não sei mais nada. Mas, afinal. . . - Rieux calou-se e voltou a sentar-se. Sentia a boca seca.
- Afinal?... - perguntou suavemente Tarrou.
- Afinal. . . - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhando para Tarrou com atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas suas vitórias serão sempre efémeras; mais nada.
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se.
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar.
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o que essa peste significa para o senhor.
- É verdade - tornou Rieux. - Uma interminável derrota.
Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou:
- Quem lhe ensinou tudo isso, doutor? A resposta veio imediatamente.
- A miséria.
Rieux abriu a porta do escritório e, no corredor, disse a Tarrou que ia descer também, pois precisava ver um de seus doentes no subúrbio. O outro propôs acompanhá-lo, e o médico aceitou. No fim do corredor, encontraram a Sra. Rieux, a quem o médico apresentou Tarrou.
- Um amigo - disse.
- Ah! - exclamou a Sra. Rieux. - Muito prazer em conhecê-lo.
Quando se afastou, Tarrou voltou-se mais uma vez para ela. No patamar, o médico tentou em vão acender a luz. As escadas continuaram mergulhadas na noite. O médico perguntava a si mesmo se seria o efeito de uma nova medida de economia. Mas não se podia saber. Já há algum tempo que tudo nas casas e na cidade se estragava. Era talvez apenas
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porque os porteiros e nossos concidadãos em geral já não tomavam cuidado com coisa alguma. Mas o médico não teve tempo de continuar a interrogar-se porque a voz de Tarrou ressoava atrás dele:
- Mais uma palavra, doutor, ainda que lhe pareça ridícula: o senhor tem toda a razão.
No escuro, Rieux encolheu os ombros para si próprio.
- Não sei, realmente. Mas o senhor, o que acha?
- Oh - disse o outro, sem se perturbar -, tenho poucas coisas a aprender.
O médico parou, e o pé de Tarrou, atrás dele, escorregou num degrau. Tarrou equilibrou-se, apoiando-se no ombro de Rieux.
- Julga saber tudo da vida? - perguntou este.
A resposta veio do escuro, trazida pela mesma voz tranqüila.
- Sim.
Quando saíram para a rua, compreenderam que era bastante tarde, onze horas, talvez. A cidade estava muda, povoada apenas de rumores. Muito longe, ouvia-se a sirene de uma ambulância. Entraram no carro, e Rieux ligou o motor.
- É preciso que vá amanhã ao hospital, por causa da vacina preventiva. Mas, para terminar e antes de entrar nessa história, pense que tem ^ma probabilidade contra duas de sair disso.
- Esses cálculos, doutor, não têm sentido, sabe tão bem quanto eu. Há cem anos, uma epidemia de peste matou todos os habitantes de uma cidade da Pérsia, exceto precisamente o lavador de defuntos, que nunca tinha deixado de exercer a profissão.
- Teve sua terceira probabilidade, mais nada - disse Rieux, com uma voz subitamente mais surda. - Mas é verdade que temos ainda muito a aprender sobre esse assunto.
Entravam agora nos subúrbios. Os faróis brilhavam nas ruas desertas. Pararam. Diante do automóvel, Rieux perguntou a Tarrou se queria entrar, e o outro disse que sim. Um reflexo do céu iluminava os rostos. Rieux deu, de repente, um sorriso de amizade.
- Vamos, Tarrou - disse ele. - O que o leva a ocupar-se de tudo isso?
- Não sei. Talvez minha moral.
- Qual?
- A compreensão.
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Tarrou voltou-se para a casa e Rieux não viu mais seu rosto até o momento de entrarem em casa do velho asmático.
Logo no dia seguinte, Tarrou pôs-se a trabalhar e reuniu o primeiro grupo que devia ser seguido por muitos outros.
A intenção do narrador não é, entretanto, dar a essas equipes sanitárias mais importância do que elas realmente tiveram. No seu lugar, é verdade que muitos de nossos concidadãos cederiam hoje à tentação de lhes exagerar o papel. Mas o narrador está antes tentado a acreditar que, ao dar demasiada importância às belas ações, se presta finalmente uma homenagem indireta e poderosa ao mal. Pois, nesse caso, se estaria supondo que essas belas ações só valem tanto por serem raras e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas ações dos homens. Essa é uma ideia de que o narrador não compartilha. O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens são mais bons que maus e, na verdade, a questão não é essa. Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então, a matar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.
É por isso que nossas equipes sanitárias, que se concretizaram graças a Tarrou, devem ser julgadas com uma satisfação objetiva. É por isso que o narrador não quer ser o propagandista por demais eloquente de uma vontade e de um heroísmo a que atribui uma importância apenas razoável. Mas continuará a ser o historiador dos corações de nossos concidadãos que a peste tornara dilacerados e exigentes.
com efeito, os que se dedicaram às equipes sanitárias não tiveram um mérito tão grande em fazê-lo, pois sabiam que era a única coisa a fazer, e não se decidir fazê-lo é que teria sido incrível. Essas equipes ajudaram nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Uma vez que a peste se tornava o dever de alguns, ela surgiu realmente como era, isto é, como o problema de todos.
Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por
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l ensinar que dois e dois são quatro. Talvez o felicitemos por
ter escolhido essa bela profissão. Digamos, pois, que era provável
que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar
que dois e dois eram quatro e não o contrário, mas digamos
também que essa boa vontade lhes era comum com a do

professor, com a de todos aqueles que têm o coração igual


ao do professor e que, para honra do homem, são mais numerosos do que se pensa, ou pelo menos essa é a convicção
do narrador. Aliás, este compreende muito bem a objeção
• que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam
• a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que l aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido l com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a quesI tão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera
• . esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não l quatro. Quanto a nossos concidadãos que então arriscavam l a vida, tinham de decidir se estavam ou não na peste e se
• era ou não necessário lutar contra ela.
l Muitos moralistas novos da nossa cidade diziam então
l que nada servia para nada e que era preciso cair de joelhos.
• E Tarrou, Rieux e os amigos podiam responder isto ou l aquilo, mas a conclusão era sempre o que eles sabiam: era l - preciso lutar, desta ou daquela maneira, e não cair de joeI lhos. Toda a questão residia em impedir o maior número H possível de homens de morrer e de conhecer a sepam ração definitiva. Para isso, havia um único meio: combater
l a peste. Esta verdade não era admirável, era apenas conseqüente.

l Por isso, era natural que o velho Gastei pusesse toda a


i sua confiança e toda a sua energia em fabricar soros ali mesmo
com material precário. Rieux e ele esperavam que um
soro fabricado com as culturas do próprio micróbio que infestava
a cidade teria uma eficácia mais direta que os soros
vindos do exterior, já que o micróbio diferia ligeiramente do
bacilo da peste tal como era classicamente definido. Gastei
f esperava ter em breve seu primeiro soro.
Por isso era natural que Grand, que nada tinha de
herói, assumisse agora uma espécie de secretaria das equi-

equipes sanitárias. com efeito, parte dos grupos formados por


: Tarrou dedicava-se a um trabalho de assistência preventiva nos bairros muito populosos. Tentava-se introduzir aí a higiene necessária, contando-se as águas-furtadas e os porões
que a desinfecção não tinha visitado. Uma outra parte dos
grupos ajudava os médicos nas visitas domiciliares, garantindo
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o transporte dos doentes e até, mais tarde, na ausência de pessoal especializado, dirigia os carros dos doentes e dos mortos. Tudo isso exigia um trabalho de registro de estatística que Grand aceitara fazer.
Desse ponto de vista e mais que Rieux ou Tarrou, o narrador considera que Grand era o verdadeiro representante dessa virtude tranqüila que animava as equipes sanitárias. Aceitara sem hesitação, com a boa vontade que o caracterizava. Manifestara apenas o desejo de se tornar útil em pequenos trabalhos. Estava velho demais para o resto. Das dezoito às vinte horas podia dar seu tempo. E, como Rieux lhe agradecesse calorosamente, ele se admirava: ”Não é o mais difícil. Há peste, é preciso nos defendermos, evidente. Ah, se tudo fosse tão simples!” E repetia sua frase. Por vezes, à noite, quando o trabalho das fichas terminava, Rieux conversava com Grand. Tinham acabado por juntar Tarrou às suas conversas, e Grand se abria com um prazer cada vez mais evidente aos dois companheiros. Estes acompanhavam com interesse o trabalho paciente que Grand continuava, em meio à peste. Também eles, por fim, encontravam nisso uma espécie de repouso.
”Como vai a amazona?”, perguntava muitas vezes Tarrou. E Grand respondia invariavelmente, com um sorriso: ”Vai trotando, vai trotando”. Uma noite, Grand disse que tinha posto definitivamente de lado o adjetivo elegante para a sua amazona e que a classificava agora de esbelta. ”É mais concreto”, acrescentara. Outra vez, leu para os dois ouvintes a primeira frase, assim modificada: ”Numa bela manhã de maio, uma esbelta amazona, montada numa soberba égua alazã, percorria as aléias floridas do Bois de Boulougne”.
- Não é verdade - disse Grand - que a vemos melhor assim? E eu preferi: ”numa manhã de maio, ” porque ”mês de maio” alongava um pouco o trote.
Mostrou-se em seguida muito preocupado com o adjetivo ”soberba”. Era pouco sugestivo, em sua opinião, e ele procurava o termo que fotografasse imediatamente a égua faustosa que ele imaginava. ”Gorda” não podia ser. Era concreto, mas um pouco pejorativo. ”Reluzente” o havia tentado por um instante, mas o ritmo não se prestava. Certa noite, anunciou triunfalmente que tinha encontrado: ”Uma negra égua alazã”. O negro indicava discretamente a elegância, em sua opinião.
- Não é possível - disse Rieux.
- E por quê?
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- Alazã não indica raça, mas a cor.
- Que cor?
- Bem, uma cor que, em todo caso, não é preto. Grand pareceu muito impressionado.
- Muito obrigado - disse ele. - Ainda bem que o senhor está aqui. Mas veja como é difícil.
- Que acha de ”suntuosa”? - perguntou Tarrou. Grand olhou para ele, e refletiu.
- Sim - disse. - Sim!
E, pouco a pouco, esboçava um sorriso.
Algum tempo depois, confessou que a palavra ”floridas” o constrangia. Como só conhecera Oran e Montélimar, às vezes pedia aos amigos indicações sobre a forma como as aléias do Bois eram floridas. A bem dizer, elas nunca tinham dado a impressão, a Rieux ou a Tarrou, de serem floridas, mas a convicção do funcionário os abalava. Ele estranhava aquela incerteza. Só os artistas sabem olhar. Mas certa vez, o médico encontrou-o numa grande excitação. Tinha substituído ”floridas” por ”cheias de flores”. Esfregava as mãos. ”Afinal, podemos vê-las e cheirá-las. Tirem o chapéu, meus senhores!” Leu triunfalmente a frase: ”Numa bela manhã de maio, uma esbelta amazona, montada numa suntuosa égua alazã, percorria as aléias cheias de flores do Bois de Boulogne”. No entanto, 1:dos em voz alta, os três genitivos que terminavam a frase soaram mal e Grand gaguejou um pouco. Acabrunhado, sentou-se. Depois, pediu ao médico licença para ir embora. Tinha necessidade de refletir um pouco.
Foi nessa época, como se soube depois, que ele deu na repartição certos sinais de distração considerados lamentáveis num momento em que a prefeitura enfrentava, com um pessoal reduzido, obrigações avassaladoras. O serviço ressentiu-se disso, e o chefe da repartição repreendeu-o severamente, lembrando-lhe que era pago para executar um trabalho que precisamente não cumpria. ”Parece”, disse o chefe da repartição, ”que o senhor faz serviço voluntário nas equipes sanitárias, fora do seu trabalho. Nada tenho com isso. O que me diz respeito é o seu trabalho aqui. E a primeira maneira de se tornar útil nessas terríveis circunstâncias é fazer bem seu trabalho. Ou senão o resto não serve para nada.”
- Ele tem razão - disse Grand a Rieux.
- Sim, tem razão - concordou o médico.
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í- Mas eu ando distraído e não sei como sair do fim da minha frase.
Tinha pensado em suprimir ”de Boulogne”, calculando que todos compreenderiam. Mas então a frase parecia relacionar-se com ”flores”, o que, na realidade, se relacionava com ”aléias”. Examinara também a possibilidade de escrever: ”As aléias do Bois cheias de flores”. Mas a situação de ”Bois” entre um substantivo e um adjetivo que ele separava arbitrariamente era como um espinho na carne. Certas noites, é bem verdade que ele parecia mais cansado que Rieux.
Sim, estava fatigado por essa busca que o absorvia por completo, mas nem por isso deixava de fazer as somas e as estatísticas de que precisavam as equipes sanitárias. Pacientemente, todas as noites passava fichas a limpo, juntavalhes curvas e esforçava-se lentamente por apresentar quadros tão precisos quanto possível. Muitas vezes, ia encontrar-se com Rieux em um dos hospitais e pedia-lhe uma mesa em algum gabinete ou enfermaria. Instalava-se lá com seus papéis, exatamente como se instalava à sua mesa na prefeitura, e no ar que os desinfetantes e a própria doença tornavam espesso agitava as folhas para fazer secar a tinta. Tentava então honestamente não pensar mais na sua amazona e fazer apenas o que era necessário.
Sim, se é verdade que os homens insistem em propor-se exemplos e modelos a que chamam heróis, e se é absolutamente necessário que haja um nesta história, o narrador propõe justamente esse herói insignificante e apagado que só tinha um pouco de bondade no coração e um ideal aparentemente ridículo. Isso dará à verdade o que lhe é devido, à adição de dois e dois o seu total de quatro, e ao heroísmo o lugar secundário que lhe cabe, logo depois, e nunca antes, da exigência generosa da felicidade. Isso dará também a esta crónica seu caráter, que deve ser o de uma relação feita com bons sentimentos, isto é, sentimentos que nem são ostensivamente maus nem exaltadores à feia maneira de um espetáculo.
Era pelo menos a opinião do Dr. Rieux quando lia nos jornais ou ouvia no rádio os apelos e estímulos que o mundo exterior fazia chegar à cidade da peste. Ao mesmo tempo em que os socorros enviados por ar e por terra, todas as noites, pelas ondas ou pela imprensa, comentários piedosos ou de admiração se abatiam sobre a cidade agora solitária. E todas as vezes, o tom de epopeia ou de discurso de distribuição de prémios impacientava o médico. Naturalmente, ele sabia
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que essa solicitude não era fingida. Mas ela não se podia exprimir senão na linguagem convencional pela qual os homens tentam exprimir o que os liga à humanidade. E essa linguagem não se podia aplicar aos pequenos esforços diários de Grand, por exemplo, por não poder exprimir o que Grand significava no meio da peste.
À meia-noite, por vezes, no grande silêncio da cidade então deserta, no momento de voltar à cama para um sono demasiado curto, o médico girava o botão de seu aparelho. E, dos confins do mundo, através de milhares de quilómetros, vozes desconhecidas e fraternas tentavam desajeitadamente dizer sua solidariedade e diziam, de fato, mas demonstravam ao mesmo tempo a terrível impotência em que se encontra todo homem de compartilhar verdadeiramente uma dor que não pode ver. ”Oran! Oran!” Em vão o apelo atravessava os mares, em vão Rieux se mantinha alerta, logo a eloquência subia e acusava mais ainda a separação essencial que fazia de Grand e do orador dois estrangeiros. ”Oran! Sim, Oran! Mas não”, pensava o médico, ”amar ou morrer juntos, não há outro recurso. Eles estão muito longe.”
E justamente o que falta relatar antes de chegar ao auge da peste, enquanto o flagelo reunia todas as suas forças para lançá-las sobre a cidade e apoderar-se dela definitivamente, são os longos esforços desesperados e monótonos que os últimos indivíduos, como Rambert, faziam para reencontrar sua felicidade e tirar à peste essa parte deles mesmos que defendiam contra todos os ataques. Era essa sua maneira de recusar a servidão que os ameaçava, e embora essa recusa, aparentemente, não fosse tão eficaz quanto a outra, a opinião do narrador é que ela tinha efetivamente um sentido e comprovava também nas suas próprias vaidades e contradições o que havia então de altivez em cada um de nós.
Rambert lutava para impedir que a peste o vencesse. Tendo adquirido a prova de que não poderia sair da cidade pelos meios legais, estava decidido, dissera a Rieux, a usar de outros. O jornalista começou pelos garçons dos bares. Um garçom de bar está sempre a par de tudo. Mas os primeiros que ele interrogou estavam sobretudo a par das sanções muito graves que se aplicavam a esse género de empreendimento. Em certo caso, foi até tomado por um provocador.
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Foi-lhe necessário encontrar Cottard em casa de Rieux para avançar um pouco. Nesse dia, Rieux e ele tinham falado mais uma vez nas vãs diligências que o jornalista fizera pelas repartições. Alguns dias depois, Cottard encontrou Rambert na rua e acolheu-o com a franqueza que sempre imprimia agora às suas relações.
- Nada de novo? - perguntou ele.
- Não, nada.
- Não se pode contar com as repartições. Não foram feitas para a compreensão.
- É verdade. Mas eu procuro outra coisa. É difícil.
- Ah! - disse Cottard. - Compreendo.
Ele conhecia um caminho, e a Rambert, que se admirava, explicou que há muito frequentava os cafés de Oran, onde tinha amigos e que estava informado sobre a existência de uma organização que se ocupava desse tipo de operação. A verdade é que Cottard, cujas despesas ultrapassavam agora as receitas, tinha se metido em negócios de contrabando de produtos racionados. Assim, revendia cigarros e álcool de má qualidade cujos preços subiam sem cessar e que lhe propiciavam uma pequena fortuna.
- Tem certeza? - perguntou Rambert.
- Tenho, já que me fizeram uma proposta.
- E não aproveitou?
- Não seja desconfiado - disse Cottard, com um ar bonachão. - Não aproveitei porque não tenho vontade de partir. Tenho minhas razões.
E acrescentou, depois de um silêncio:
- Não me pergunta quais são as minhas razões?
- Suponho - respondeu Rambert - que isso não seja de minha conta.
- Em certo sentido, na verdade, isso não é de sua conta. Mas em outro. . . Enfim, a única coisa evidente é que me sinto bem melhor aqui desde que temos a peste conosco.
O outro escutou o discurso:
- Como entrar em contato com essa organização?
- Ah! - disse Cottard. - Não é fácil. Venha comigo.
Eram quatro horas da tarde. Sob um céu pesado, a cidade ardia lentamente. Todas as lojas tinham baixado os toldos. As ruas estavam desertas. Cottard e Rambert andavam por ruas com arcadas e caminharam longo tempo sem falar. Era uma das horas em que a peste se tornava invisível.
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Esse silêncio, essa morte das cores e dos movimentos podiam ser tanto os do verão quanto os do flagelo. Não se sabia se o ar estava carregado de ameaças ou de poeira e de ardor. Era preciso observar e refletir para chegar à peste, já que ela só se traía por sinais negativos. Cottard, que tinha afinidades com ela, fez notar a Rambert, por exemplo, a ausência de cães que, normalmente, deviam estar deitados de lado, à entrada dos corredores, de língua de fora à procura de um frescor impossível.
Seguiram pelo Boulevard dês Palmiers, atravessaram a Place d’Armes e desceram para o Quartier de Ia Marine. À esquerda, um café pintado de verde abrigava-se sob um toldo oblíquo, de grossa lona amarela. Ao entrar, Cottard e Rambert enxugaram o suor da testa. Sentaram-se em cadeiras dobráveis de jardim diante de mesas de ferro verde. A sala estava absolutamente deserta. Moscas zumbiam no ar. Numa gaiola amarela pousada no balcão, um papagaio, de penas caídas, estava abatido no poleiro. Velhos quadros representando cenas militares pendiam das paredes, cobertos de sujeira e de teias de aranha em espessos filamentos. Em todas as mesas de ferro e diante do próprio Rambert, secavam excrementos de galinha, cuja origem ele não compreendia muito bem até que de um canto obscuro, depois de um certo rebuliço, saiu saltitando um galo magnífico.
Nesse momen’^, o calor pareceu aumentar ainda mais. Cottard tirou o casaco e bateu na mesa. Um homenzinho, perdido num comprido avental azul, saiu do fundo, cumprimentou Cottard logo que pôde vê-lo, adiantou-se afastando o galo com um vigoroso pontapé e perguntou, no meio dos cacarejes da ave, o que os senhores desejavam que lhes servisse. Cottard pediu vinho branco e perguntou por um certo Garcia. Segundo o homenzinho, já havia vários dias que não o viam no café.
- Acha que ele virá esta tarde?
- Ora! - disse o outro. - Não estou dentro dele. Mas sabe a que horas costuma vir?
- Sei, mas não é muito importante. Quero só apresentar-lhe um amigo.
O garçom enxugou as mãos úmidas no avental.
- Como? O senhor também se ocupa de negócios? ”
- Sim - respondeu Cottard. O homenzinho fungou:
- Então, volte hoje à tarde. vou mandar-lhe o garoto. Ao sair, Rambert perguntou de que negócios se tratava.


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