A peste Albert Camus



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Durante esse tempo, de todos os subúrbios, a primavera chegava aos mercados. Milhares de rosas murchavam nas cestas dos vendedores, ao longo das calçadas, e seu perfume adocicado flutuava por toda a cidade. Aparentemente, nada mudara. Os bondes continuavam sempre cheios nas horas de afluência, vazios e sujos o resto do dia. Tarrou observava o velhinho, e este escarrava nos gatos. Grand se recolhia em casa todas as noites para seu misterioso trabalho. Cottard vagueava sem destino e o Sr. Othon, o juiz de instrução, continuava a passear com seus animais. O velho asmático despejava os grãos-de-bico de um recipiente para o outro, e, por vezes, encontrava-se o jornalista Rambert com um ar tranqüilo e interessado. À noite, a mesma multidão enchia as ruas e as filas estendiam-se diante dos cinemas. Aliás, a epidemia pareceu recuar, e durante alguns dias contou-se apenas uma dezena de mortos. Depois, de repente, subiu de modo vertiginoso. No dia em que o número dos mortos atingiu de novo trinta, Bernard Rieux olhava o telegrama oficial que o prefeito lhe estendera, exclamando: ”Estão com medo!” O telegrama dizia: ”Declarem estado de peste. Fechem a cidade”.
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II
A partir desse momento, pode-se dizer que a peste se tornou um problema comum a todos nós. Até então, apesar da surpresa e da inquietação trazidas por esses acontecimentos singulares, cada um de nossos concidadãos continuara suas ocupações conforme pudera, no seu lugar habitual. E, sem dúvida, isso devia continuar. No entanto, uma vez fechadas as portas, deu-se conta de que estavam todos, até o próprio narrador, metidos no mesmo barco e que era necessário ajeitar-se. Assim é, por exemplo, que, a partir das primeiras semanas, um sentimento tão individual quanto o da separação de um ente querido se tornou, subitamente, o de todo um povo e, juntamente com o medo, o principal sofrimento desse longo tempo de exílio.
Na verdade, uma das consequências mais importantes do fechamento das portas foi a súbita separação em que foram colocados seres que para isso não estavam preparados. Mães e filhos, esposos, amantes que tinham julgado proceder, alguns dias antes, a uma separação temporária, que se tinham beijado na plataforma da nossa estação, com duas ou três recomendações, certos de se reverem dentro de alguns dias ou algumas semanas, mergulhados na estúpida confiança humana, momentaneamente distraídos de suas ocupações habituais por essa partida, viram-se, de repente, irremediavelmente afastados, impedidos de se encontrarem ou de se comunicarem. Sim, porque as portas tinham sido fechadas algumas horas antes de ser publicado o decreto do prefeito e, naturalmente, era impossível levar em conta os casos particulares. Pode dizer-se que essa invasão brutal da doença teve, como primeiro efeito, o de obrigar nossos concidadãos a agir como se não tivessem sentimentos individuais. Nas primeiras horas do dia em que o decreto entrou em vigor, a prefeitura foi invadida por uma multidão de requerentes que, ao telefone ou junto aos funcionários, expunham situações igualmente interessantes e, ao mesmo
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tempo, igualmente impossíveis de examinar. A bem da verdade, foram necessários vários dias para que nos déssemos conta de que nos encontrávamos numa situação sem compromissos e que as palavras ”transigir”, ”favor”, ”exceção” já não tinham sentido.
Até mesmo a leve satisfação de escrever nos foi recusada. Por um lado, com efeito, a cidade já não estava ligada ao resto do país pelos meios de comunicação habituais e, por outro, um novo decreto proibiu a troca de qualquer correspondência, a fim de evitar que as cartas pudessem transformar-se em veículos de infecção. A princípio, alguns privilegiados puderam chegar às portas da cidade e entender-se com sentinelas dos postos de guarda que concordaram em facilitar a passagem de mensagens para o exterior. Isso era ainda nos primeiros dias da epidemia, em que os guardas achavam natural ceder a sentimentos de compaixão. No entanto, ao fim de algum tempo, quando os próprios guardas se convenceram realmente da gravidade da situação, recusaram-se a assumir responsabilidades cuja extensão não podiam prever. As comunicações telefónicas interurbanas, autorizadas a princípio, provocaram tal congestionamento nas cabines públicas e nas linhas, ;ue foram totalmente suspensas durante alguns dias e, depois, estritamente limitadas aos chamados casos urgentes, como morte, nascimento e casamento. Os telegramas tornaram-se, então, nosso único recurso. Seres ligados pela inteligência, pelo coração e pela carne ficaram reduzidos a procurar os sinais dessa comunhão antiga nas maiúsculas de um telegrama de dez palavras. E como, na realidade, as fórmulas que se podem utilizar num telegrama se esgotam depressa, longas vidas em comum ou paixões dolorosas resumiram-se rapidamente numa troca periódica de fórmulas feitas como ”Estou bem. Penso em ti. Saudades”.
Alguns, contudo, obstinavam-se em escrever e, sem trégua, para se corresponder com o exterior, imaginavam estratagemas que acabavam sempre por se revelar ilusórios. Mesmo quando alguns dos meios que tínhamos imaginado obtinham êxito, ficávamos sem sabê-lo, por não recebermos qualquer resposta. Durante semanas ficamos, então, reduzidos a recomeçar sempre a mesma carta, a copiar as mesmas informações e os mesmos apelos, se bem que, depois de um certo tempo, as palavras de sangue, ditadas pelo coração, perdiam o seu sentido. Então, nós as copiávamos maquinalmente, tentando, por meio dessas frases mortais, dar sinais
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de nossa vida difícil. E, finalmente, a esse monólogo estéril e teimoso, a essa conversa árida com uma parede, o apelo convencional do telegrama parecia-nos preferível.
Aliás, alguns dias depois, quando se tornou evidente que ninguém conseguiria sair da cidade, alguém teve a ideia de perguntar se o regresso dos que haviam partido antes da epidemia podia ser autorizado. Depois de alguns dias de reflexão, a prefeitura respondeu afirmativamente. Mas logo estabeleceu que os repatriados não poderiam, em caso algum, voltar a sair da cidade e que, se eram livres para vir, não o seriam para tornar a partir. Algumas famílias, poucas aliás, não levaram a situação a sério e, sobrepondo a qualquer prudência o desejo de rever os parentes, convidaram estes últimos a aproveitar a ocasião. No entanto, os prisioneiros da peste logo compreenderam o perigo a que expunham os parentes e resignaram-se a sofrer a separação. No momento mais grave da doença, só se viu um caso em que os sentimentos humanos foram mais fortes que o medo de uma morte torturada. Ao contrário do que se poderia esperar, não eram dois amantes, que o amor atirava um para o outro, acima do sofrimento. Tratava-se apenas do velho Dr. Gastei e de sua mulher, casados há tantos anos. Alguns dias antes da epidemia, Mme Gastei dirigira-se a uma cidade vizinha. Não eram sequer um desses casais que oferecem ao mundo o exemplo de uma felicidade invejável, e o narrador está em condições de dizer que, segundo todas as probabilidades, esses esposos, até então, não tinham a certeza de estarem satisfeitos com a sua união. Mas essa separação brutal e prolongada os capacitara a afirmar que não conseguiam viver afastados um do outro e que, diante dessa verdade subitamente revelada, a peste era coisa sem importância.
Tratava-se de uma exceção. Na maioria dos casos, era evidente que a separação não devia cessar senão com a epidemia. E, para todos nós, o sentimento que fazia a nossa vida e que, no entanto, julgávamos conhecer bem (os naturais de Oran, como já foi dito, têm paixões simples), assumia um novo aspecto. Maridos e amantes que tinham a maior confiança nas companheiras revelavam-se ciumentos. Homens que se julgavam volúveis no amor redescobriam-se constantes. Filhos que tinham vivido junto da mãe, mal olhando para ela, depositavam toda a preocupação e angústia numa ruga de seu rosto que lhe povoava a lembrança. Essa separação brutal, sem meio-termo, sem futuro previsível, deixava-nos perturbados, incapazes de reagir contra a
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lembrança dessa presença, ainda tão próxima e já tão distante, que ocupava agora nossos dias. Na verdade, sofríamos duas vezes: o nosso sofrimento, em primeiro lugar, e em seguida, sofrimento que atribuíamos aos ausentes: filho, esposa ou amante.
Em outras circunstâncias, aliás, nossos concidadãos teriam encontrado uma solução numa vida mais exterior ou mais ativa. Mas, ao mesmo tempo, a peste deixava-os ociosos, reduzidos a vagar sem destino pela cidade triste e entregues, dia após dia, aos jogos enganosos da recordação, pois, nos seus passeios sem rumo, eram levados a passar sempre pelos mesmos caminhos e a maior parte das vezes, numa cidade tão pequena, os caminhos eram precisamente os que, em outra época, haviam percorrido com o ausente.
Assim, a primeira coisa que a neste trouxe a nossos concidadãos foi o exílio. E o narrador está convencido de que pode escrever aqui, em nome de todos, o que ele próprio sentiu então, já que o sentiu ao mesmo tempo que muitos dos nossos concidadãos. Sim, era realmente o sentimento do exílio esse vazio que trazíamos constantemente em nós, essa emoção precisa, o desejo irracional de voltar atrás ou, pelo contrário, de acelerar a marcha do tempo, essas flechas ardentes da ’memória. Se algumas vezes dávamos asas à imaginação e nos comprazíamos em esperar pelo toque de campainha que anuncia o regresso, ou pelos passos familiares na escada; se, nesses momentos, consentíamos em esquecer que os trens estavam imobilizados, se nos organizávamos para ficar em casa à hora em que normalmente um viajante podia ser trazido pelo expresso da tarde até nosso bairro, esses jogos obviamente podiam durar. Chegava sempre um momento em que nos dávamos conta claramente de que os trens não chegavam. Sabíamos, então, que nossa separação estava destinada a durar e que devíamos tentar entender-nos com o tempo. A partir de então, nos reintegrávamos, afinal, à nossa condição de prisioneiros, estávamos reduzidos ao nosso passado e, ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logo renunciava, ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos que nela confiam.
Em particular, todos os nossos concidadãos se privaram muito depressa, mesmo em público, do hábito que porventura tivessem adquirido de calcular o prazo da sua separação. Por quê? É que, quando os mais pessimistas o tinham avaliado, por exemplo, em seis meses, quando haviam esgotado
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antecipadamente toda a amargura dos meses vindouros, e erguido, com grande esforço, a sua coragem ao nível dessa prova, reunindo as últimas forças para continuar sem vacilar à altura desse sofrimento, estirado numa tão longa sequência de’dias, então, às vezes, um conhecido, um anúncio de jornal, uma suspeita fugaz ou uma brusca clarividência despertava a ideia de que, afinal, não havia razão para que a doença não durasse mais de seis meses, talvez um ano, ou mais.
Nesse momento, o desmoronar da coragem, da vontade e da paciência era tão brusco, que lhes parecia que não poderiam jamais sair desse precipício. Então, restringiam-se a não pensar mais na libertação, a não se voltar para o futuro e a manter sempre, por assim dizer, os olhos baixos. Mas, naturalmente, essa prudência, essa maneira de enganar a dor, baixar a guarda para recusar o combate, eram mal recompensadas. Ao mesmo tempo em que evitavam esse desmoronamento que não queriam por preço algum, privavam-se, na verdade, dos momentos bastante frequentes em que podiam esquecer a peste nas imagens de seu futuro reencontro. E assim encalhados a meia distância entre esses abismos e esses cumes, mais flutuavam que viviam, abandonados a dias sem rumo e recordações estéreis, sombras errantes, incapazes de se fortalecer a não ser aceitando enraizar-se na terra de sua própria dor.
Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Esse próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela que esperavam

- assim como misturavam o ausente a todas as circunstâncias de sua vida de prisioneiros, mesmo as relativamente felizes, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a essas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que, no entanto, se obstinava no silêncio.


Mas, se havia exílio, na maior parte dos casos era o exílio em casa. E, embora o narrador só tenha conhecido o
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exílio de todos, não deve esquecer aqueles, como o jornalista Rambert ou outros, para quem, pelo contrário, as agruras da separação se intensificam, porque viajantes surpreendidos pela peste e retidos na cidade se encontravam afastados, ao mesmo tempo, do ente a que não podiam juntar-se e de seu próprio país. No exílio geral, eram os mais exilados, pois se o tempo despertava neles, como em todos, a angústia que lhe é própria, estavam também presos ao espaço e chocavam-se sem cessar de encontro aos muros que separavam o seu refúgio empestado da pátria perdida. Eram esses, sem dúvida, que víamos vagando a todas as horas do dia pela cidade poeirenta, chamando em silêncio pelas noites que só eles conheciam e pelas manhãs de seu país. Alimentavam então a sua dor com sinais imponderáveis e mensagens desconcertantes, como um voo de andorinha, um orvalho de poente ou os estranhos raios que o sol às vezes abandona nas ruas desertas. Fechavam os olhos sobre esse mundo exterior que pode sempre salvar de tudo, obstinados em acariciar suas quimeras demasiado reais e, em perseguir com todas as forças as imagens de uma terra em que uma certa luz, duas ou três colinas, a árvore favorita e rosto de mulheres .compunham um ambiente para eles insubstituível.
Afinal, falemos mais expressamente dos amantes: são os de mdior interesse e deles o narrador está talvez mais habilitado a falar. Encontravam-se eles ainda atormentados por outras angústias, entre as quais é preciso assinalar o remorso. Essa situação, na verdade, permitia-lhes analisar o seu sentimento com uma espécie de objetivídade febril. E era raro que nessas ocasiões suas próprias fraquezas não lhes aparecessem mais claramente. A primeira ocasião que encontravam para isso estava na dificuldade que tinham em imaginar com precisão os atos e os gestos do ausente. Lamentavam o desconhecimento de como empregava o seu tempo, acusavam-se de seu descuido em informar-se disso e de como haviam fingido acreditar que, para um ser que ama, o emprego do tempo do ser amado não é a fonte de todas as alegrias. Era-lhes fácil, a partir desse momento, recordar o seu amor e examinar-lhe as imperfeições. Em épocas normais, sabíamos todos, conscientemente ou não, que não há amor que não se possa superar e aceitávamos, no entanto, com maior ou menor tranqüilidade, que o nosso permanecesse medíocre. Mas a recordação é mais exigente. E, muito logicamente, essa desgraça que nos vinha do exterior e que atingia toda uma cidade não nos trazia apenas um sofrimento
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injusto, com que teríamos podido indignar-nos: levava-nos a incitar mais sofrimentos em nós mesmos, fazendonos, assim, consentir na dor. Essa era uma das maneiras que a doença tinha de desviar a atenção e de baralhar as cartas.


Assim, cada um teve de aceitar viver o dia-a-dia, só, diante do céu. Esse abandono geral que podia, com o tempo, fortalecer o caráter, começava no entanto por torná-lo fútil. Para alguns de nossos concidadãos, por exemplo, eles eram ’então submetidos a uma outra servidão que os punha a serviço do sol e da chuva. Ao vê-los, parecia que recebiam pela primeira vez, diretamente, a impressão do tempo que fazia. Suas fisionomias alegravam-se à simples visita de uma luz dourada, enquanto os dias de chuva lhes punham um véu espesso sobre o rosto e os pensamentos. Haviam escapado há algumas semanas dessa fraqueza e dessa escravidão absurdas porque não estavam sós diante do mundo e porque, numa certa medida, o ser que vivia com eles se colocava diante do seu universo. A partir desse instante, pelo contrário, ficaram aparentemente entregues aos caprichos do céu, o que significa que sofreram e esperaram sem razão.
Enfim, nesses extremos da solidão ninguém podia contar com o auxílio do vizinho, e cada um ficava só com sua preocupação. Se alguém, por acaso, tentava fazer confidências ou dizer alguma coisa do seu sentimento, a resposta que recebia, qualquer que fosse, magoava na maior parte das vezes. Compreendia então que ele e o interlocutor não falavam da mesma coisa. com efeito, ele se exprimia do fundo de longos dias de ruminação e de sofrimentos, e a imagem que queria transmitir ardera muito tempo no fogo da espera e da paixão. O outro, pelo contrário, imaginava uma emoção convencional, a dor que se vende nos mercados, uma melancolia em série. Amável ou hostil, a resposta caía sempre no vazio, era preciso renunciar a ela. Ou, pelo menos, para aqueles a quem o silêncio era insuportável, já que os outros não conseguiam encontrar a verdadeira linguagem do coração, resignavam-se a adotar a língua dos mercados e a falar, também eles, de maneira convencional, a do simples relato e do noticiário, da crónica cotidiana, de certo modo. Ainda nesse caso, as dores mais verdadeiras adquiriram o hábito de se traduzir em fórmulas banais de conversação. Só por esse preço podiam os prisioneiros da peste obter a compaixão dos porteiros ou o interesse dos ouvintes.
Entretanto, e o que é mais importante, por mais dolorosas
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que fossem essas angústias, por mais pesado que estivesse esse coração, apesar de vazio, pode-se dizer efetivamente que esses exilados, no primeiro período da peste, foram privilegiados. Na verdade, no próprio momento em que a população começava a afligir-se, seu pensamento estava inteiramente voltado para o ser que esperavam. No desespero geral, o egoísmo do amor os preservava e, se pensavam na peste, era apenas na medida em que ela trazia à sua separação o risco de se tornar eterna. Tinham, no meio da epidemia, uma distração salutar que se era tentado a considerar como sangue-frio. O desespero salvava-os do pânico, havia algo de bom na sua desgraça. Por exemplo, se acontecia que um deles fosse levado pela doença, era quase sempre sem que tivesse tido tempo de se precaver contra isso. Arrancado a essa longa conversa interior que mantinha com uma sombra, era então lançado, sem transição, para o mais espesso silêncio da terra. Não tivera tempo para nada.
Enquanto nossos concidadãos tentavam acomodar-se a esse súbito exílio, a peste colocava guardas às portas e desviava os navios que faziam rota para Oran. Depois do fechamento das portas, nem um único veículo entrara na cidade. A partir desse dia, teve-se a impressão de que os automóveis andavam sempre em círculos. O porto apresentava também um aspecto singular para aqueles que o olhavam do alto das avenidas. A animação habitual que o tornava um dos primeiros portos da costa extinguira-se bruscamente. Viam-se ainda alguns navios, mantidos em quarentena. Mas nos cais, grandes guindastes desarmados, pequenos vagões deitados de lado, as pilhas solitárias de barris ou de sacos testemunhavam que também o comércio tinha morrido de peste.
Apesar desses espetáculos inéditos, parece que nossos concidadãos tinham dificuldade em compreender o que lhes acontecia. Havia os sentimentos comuns, como a separação ou o medo, mas continuavam a colocar em primeiro plano as preocupações pessoais. Ninguém aceitara ainda verdadeiramente a doença. A maior parte era sobretudo sensível ao que perturbava seus hábitos ou atingia seus interesses. Impacientavam-se, irritavam-se, e esses não são sentimentos que se possam contrapor à peste. A primeira reação, por exemplo, era culpar as autoridades. A resposta do prefeito, diante
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das críticas de que a imprensa se fazia eco - ”Não se poderiam propor medidas mais flexíveis que as adotadas?”

- foi bastante imprevista. Até então nem os jornais nem a Agência Ransdoc tinham recebido qualquer estatística oficial sobre a doença. O prefeito passou a comunicá-la, diariamente, à agência, pedindo-lhe a publicação de uma nota semanal.


Mesmo nesse caso, contudo, a reação do público não foi imediata. Na verdade, o anúncio de que a terceira semana de peste somava trezentos e dois mortos não falava à imaginação. Por um lado, talvez nem todos tivessem morrido de peste. Por outro lado, ninguém na cidade sabia quantas pessoas morriam por semana em tempos normais. A cidade tinha duzentos mil habitantes. Ignorava-se se essa proporção de óbitos era normal. É esse o género de detalhes com que nunca nos preocupamos, apesar do interesse evidente que apresentam. Ao público faltavam, de algum modo, pontos de referenciai Foi só com o tempo, ao constatar o aumento das mortes, que a opinião pública tomou consciência da verdade. com efeito, a quinta semana deu trezentos e vinte e um mortos e a sexta, trezentos e quarenta e cinco. O aumento, pelo menos, era eloquente. Mas não era bastante forte para impedir que nossos concidadãos, em meio à sua inquietação, tivessem a impressão de que se tratava de um acidente, sem dúvida desagradável, mas, apesar de tudo, temporário.
Continuavam assim a circular nas ruas e a sentar-se às mesas dos cafés. No conjunto, não eram covardes, trocavam mais gracejos que lamúrias e aparentavam aceitar com bom humor inconvenientes evidentemente passageiros. As aparências estavam salvas. No fim do mês, no entanto, mais ou menos durante a semana de preces de que se falará mais adiante, transformações mais graves modificaram o aspecto da nossa cidade. Para começar, o prefeito tomou medidas relativas à circulação dos veículos e ao abastecimento. Este foi limitado e a gasolina, racionada. Prescreveu-se até a economia de eletricidade. Só os produtos indispensáveis chegavam por terra e pelo ar a Oran. Foi assim que se viu o trânsito diminuir progressivamente, até ficar quase nulo, as lojas de luxo fecharem de um dia para o outro, outras guarnecerem as vitrines com cartazes negativos, enquanto filas de compradores se formavam diante de suas portas.
Oran assumiu assim um aspecto singular. O número de pedestres tornou-se mais considerável e, até nas horas mortas, muitas pessoas, reduzidas à inação pelo fechamento dos
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armazéns ou de certos escritórios, enchiam as ruas e os cafés. Por ora, não estavam ainda desempregadas, mas de licença. Oran dava então, por volta das três horas da tarde, por exemplo, e sob um belo céu, a impressão ilusória de uma cidade em festa, cujo trânsito e comércio tivessem sido fechados para permitir a realização de uma manifestação pública e cujos habitantes tivessem invadido as ruas para participar do regozijo.
Naturalmente, os cinemas se aproveitavam dessas férias generalizadas e faziam um bom negócio. Mas os circuitos que os filmes cumpriam normalmente eram interrompidos. Ao fim de duas semanas, os cinemas foram obrigados a trocar os programas e, algum tempo depois, acabavam projetando sempre o mesmo filme. Suas receitas contudo não diminuíam.
Finalmente os cafés, graças ao considerável estoque a :umulado numa cidade onde o comércio de vinhos e álcool ocupa o primeiro lugar, puderam igualmente servir os clientes. A bem da verdade, bebia-se muito. Como um café tivesse anunciado que ”quem vinho bebe, mata a febre”, a ideia, já natural no público, de que o álcool evitava doenças infecciosas reforçou-se na opinião geral. Todas as noites, por volta de dez horas, um número considerável de bêbados expulsos dos cafés enchia as ruas, espalhando afirmações otimistas.
Todas essas modificações porém, em certo sentido, eram tão extraordinárias e tinham-se realizado tão rapidamente, que não era fácil considerá-las normais e duradouras. O resultado era que continuávamos a colocar em primeiro lugar nossos sentimentos pessoais.
Ao sair do hospital, dois dias depois de fechadas as portas, o Dr. Rieux encontrou Cottard, que levantou para ele um rosto que era a própria imagem da satisfação. Rieux felicitou-o pela aparência.
- Sim, as coisas vão muito bem - respondeu o homenzinho. - Diga-me, doutor, e essa maldita peste, hem? A coisa está começando a ficar séria.
O médico concordou. E o outro acrescentou, com uma espécie de prazer:
- Agora não há razão para que ela pare. Vai ficar tudo de pernas para o ar.
Caminharam um momento juntos. Cottard contou que um grande merceeiro do seu bairro armazenara géneros alimentícios para vendê-los mais caro, e que tinham encontrado latas de conservas debaixo da cama quando foram
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buscá-lo para levá-lo ao hospital. ”Morreu lá. A peste não compensa.” Cottard estava assim, cheio de histórias, falsas ou verdadeiras, sobre a epidemia. Por exemplo, dizia-se que, no centro, certa manhã, um homem que apresentava os sinais da peste, no delírio da doença, tinha-se precipitado para a rua, atirando-se sobre a primeira mulher que encontrara, abraçando-a, enquanto gritava que contraíra a peste.
- Bem - observava Cottard, num tom amável que não combinava com sua afirmação -, vamos todos ficar loucos, com toda a certeza.
Da mesma forma, na tarde do mesmo dia, Joseph Grand acabara fazendo confidências pessoais ao Dr. Rieux. Vira a fotografia da Sra. Rieux em cima da mesa e olhara para o médico. Rieux respondeu que sua mulher estava se tratando fora da cidade. ”Em certo sentido”, dissera Grand, ”é uma sorte.” O médico respondeu que sem dúvida era uma sorte e que era apenas necessário ter esperança de que sua mulher se curasse.
- Ah! - exclamou Grand. - Compreendo.
E, pela primeira vez desde que Rieux o conhecia, pôs-se a falar com exuberância. Embora procurasse ainda as palavras, conseguia quase sempre encontrá-las, como se tivesse pensado há muito no que estava dizendo.
Tinha-se casado muito jovem com uma moça pobre da vizinhança. Fora justamente para se casar que interrompera os estudos e arranjara um emprego. Jeanne e ele nunca saíam do bairro. Ia vê-la em casa, e os pais de Jeanne riam-se um pouco desse pretendente silencioso e desajeitado. O pai era ferroviário. Quando estava de folga, viam-no sempre sentado a um canto, perto da janela, pensativo, olhando o movimento da rua, com as mãos enormes pousadas nas coxas. A mãe cuidava sempre da casa e Jeanne ajudava. Era tão pequena, que Grand não podia vê-la atravessar uma rua sem sentir angústia. Os veículos pareciam-lhe, então, desproporcionados. Um dia, diante de uma loja enfeitada para o Natal, Jeanne, que olhava a vitrine, maravilhada, voltara-se para ele, dizendo: ”Como é bonito”. Ele apertara-lhe o pulso. Foi assim que o casamento foi decidido.
O resto da história, segundo Grand, era muito simples. É o mesmo para todos: a gente se casa, ama ainda um pouco, trabalha. Trabalha tanto que se esquece de amar. Jeanne trabalhava também, já que as promessas do chefe da repartição não tinham sido cumpridas. Aqui, era preciso um pouco de imaginação para compreender o que Grand queria
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dizer. com a ajuda do cansaço, ele deixara correr as coisas, tinha-se calado cada vez mais e não cultivava na jovem mulher a ideia de que era amada. Um homem que trabalha, a pobreza, o futuro lentamente fechado, o silêncio das tardes em redor da mesa - não há lugar para a paixão num tal universo. Provavelmente, Jeanne tinha sofrido. Contudo, ficara: acontece que se sofre muito tempo sem saber. Os anos tinham passado. Mais tarde, ela partira. Na verdade, não partira só. ”Gostei muito de você, mas agora estou cansada. . . Não me sinto feliz por partir, mas não é necessário ser feliz para recomeçar.” Eis, em resumo, o que ela lhe escrevera.
Joseph Grand, por sua vez, tinha sofrido. Teria podido recomeçar, como observou Rieux. Mas faltava-lhe fé.
Simplesmente, continuava a pensar nela. O que teria desejado seria escrever-lhe uma carta para se justificar. ”Mas é difícil”, dizia. ”Há muito tempo que penso nisso. Enquanto somos amados, somos compreendidos sem palavras. -Mas uma pessoa não ama sempre. Em dado momento, eu devia ter encontrado palavras para retê-la, mas não consegui.” Grand assoava-se numa espécie de guardanapo xadrez. Depois, limpou o bigode. Rieux o observava.
- Desculpe, doutor - disse o velho -, mas como dizer? Tenho confiança no senhor. Sinto que posso falar. De modo que isso me comove.
Visivelmente, Grand estava a mil léguas da peste.
À noite, Rieux telegrafou para a mulher a fim de dizerlhe que a cidade estava fechada, que ele estava bem, que ela devia continuar a tratar-se e que pensava nela.
Três semanas depois de a cidade ser fechada, Rieux encontrou, ao sair do hospital, um jovem que o esperava.
- Suponho - disse-lhe este último - que se lembra de mim. - Rieux julgava conhecê-lo, mas hesitava. - Antes desses acontecimentos - esclareceu o outro - vim pedir-lhe informações sobre as condições de vida dos árabes. Chamo-me Raymond Rambert.
- Ah, sim - respondeu Rieux. - Bem, agora tem um belo assunto de reportagem.
O outro parecia nervoso. Informou que não se tratava disso e que vinha pedir auxílio ao Dr. Rieux.
- Desculpe - acrescentou -, mas não conheço ninguém nesta cidade e o correspondente do meu jornal tem a infelicidade de ser imbecil.
Rieux propôs-lhe caminharem até o dispensário do
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centro, pois tinha algumas ordens a dar. Desceram as ruelas do bairro negro. A noite se aproximava, mas a cidade, antes tão barulhenta a essa hora, parecia curiosamente solitária. Alguns toques de clarim no céu ainda dourado testemunhavam apenas que os militares se davam ares de cumprir o dever. Durante esse tempo, ao longo das ruas íngremes, entre os muros axuis, cor de ocre ou roxos das casas mouriscas, Rambert falava, muito agitado. Deixara a mulher em Paris. Para dizer a verdade, não era sua mulher, mas era a mesma coisa. Telegrafara-lhe logo que a cidade foi fechada. Pensara, primeiro, que se tratava de um acontecimento provisório e procurara apenas corresponder-se com ela. Os colegas de Oran tinham-lhe dito que nada podiam fazer, os correios tinham-no mandado voltar da porta, um secretário da prefeitura rira-se na sua cara. Depois de esperar duas horas numa fila, acabara fazendo com que aceitassem mandar um telegrama, onde tinham escrito: ”Tudo vai bem. Até breve”.
Mas de manhã, ao levantar-se, viera-lhe bruscamente o pensamento de que afinal não sabia quanto tempo aquilo podia durar. Decidira partir. Como era recomendado (na sua profissão, tem-se certas facilidades), conseguira falar com o chefe do gabinete do prefeito e dissera-lhe que não tinha nenhuma ligação com Oran, que não tinha nada que ficar, que se encontrava lá por acaso e que era justo que o deixassem ir embora, ainda que, uma vez lá fora, o obrigassem a fazer uma quarentena. O chefe do gabinete respondera-lhe que compreendia muito bem, mas não podiam abrir exceções, ia ver, mas que, em resumo, a situação era grave e não podia decidir nada.
- Mas, afinal - dissera Rambert -, eu sou um estranho nesta cidade.
- Sem dúvida, .mas, apesar de tudo, esperemos que a epidemia não dure muito.
Para concluir, tinha tentado consolar Rambert, observando que podia encontrar em Oran matéria para uma reportagem interessante e que todo acontecimento tinha o seu lado bom. Rambert encolhia os ombros. Chegavam ao centro da cidade.
- É uma estupidez, doutor, compreenda. Eu não vim ao mundo para fazer reportagens. Mas talvez tenha vindo ao mundo para viver com uma mulher. Não é a ordem natural das coisas?
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Rieux respondeu que pelo menos isso lhe parecia razoável.
Nas ruas do centro não havia a multidão habitual. Alguns transeuntes dirigiam-se apressadamente para suas casas distantes. Nenhum sorria. Rieux pensou que era o resultado da comunicação que a Ransdoc fizera nesse dia. Ao fim de vinte e quatro horas, nossos concidadãos recomeçavam a ter esperança. Nesse mesmo dia, porém, os números estavam ainda muito frescos na memória.
- É que - disse Rambert sem mais nem menos eu e ela encontramo-nos há pouco e entendemo-nos muito bem.
Rieux não dizia nada.
- Mas eu o estou amolando - continuou Rambert.

- Queria apenas perguntar-lhe se podia passar-me um atestado, em que se afirmasse que não tenho essa maldita doença. Creio que isso me seria útil.


Rieux acenou afirmativamente com a cabeça, agarrou um rapazinho que se atirava nas suas pernas e recolocou-o suavemente de pé. Partiram de novo e chegaram à Place d’Armes. Os ramos de fícus e das palmeiras pendiam, imóveis, cinzentos de poeira, à volta de uma estátua da República empoeirada e suja. Rieux bateu no chão os pés cobertos de uma camada esbranquiçada. Olhou para Rambert. com o chapéu ligeiramente para trás, o colarinho desabotoado debaixo da gravata, mal-barbeado, o jornalista tinha um ar teimoso e irritado.
- Pode ter certeza de que o compreendo - disse por fim Rieux -, mas seu raciocínio não é correto. Não posso passar-lhe o atestado, pois, na verdade, ignoro se o senhor tem ou não essa doença, e porque, mesmo nesse caso, não posso atestar que entre o segundo em que sair do meu consultório e aquele em que entrar na prefeitura, não a tenha contraído. E ainda que. . .
- E ainda que. . .? - interrompeu Rambert.
- Ainda que eu lhe desse esse atestado, ele não lhe serviria para nada.
- Por quê?
- Porque há na cidade milhares de homens na sua situação que não podem, apesar de tudo, ser autorizados a sair.
- Mas e se eles não tiverem a peste?
- Não é razão suficiente. Essa história é tola, bem sei, mas diz respeito a todos. É preciso aceitá-la como é.
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- Mas não sou daqui!
- A partir de agora, infelizmente, será daqui, eximo todo mundo.
O outro animava-se.
- É uma questão de humanidade, juro. Talvez não compreenda o que significa uma separação como esta para duas pessoas que se entendem bem.
Rieux não respondeu imediatamente. Depois disse que julgava compreender. com todas as suas forças, desejava que Rambert voltasse e reencontrasse a mulher e que todos os que se amavam se reunissem, mas havia decretos e leis, havia a peste e o seu papel era fazer o que era necessário.
- Não - insistiu Rambert, com amargura -, o senhor não pode compreender. O senhor fala a linguagem da razão, fala de modo abstrato.
O médico levantou os olhos para a estátua da República e esclareceu que não sabia se falava a linguagem da razão, mas que falava a linguagem da evidência, o que não era obrigatoriamente a mesma coisa. O jornalista ajeitou a gravata.
- Então isso significa que tenho de arranjar-me de outra maneira? Mas - prosseguiu com uma espécie de desafio - vou deixar esta cidade.
O médico respondeu-lhe que o compreendia ainda, mas que não tinha nada com isso.
- Sim, tem - afirmou Rambert, com um súbito lampejo. - Dirigi-me ao senhor porque me disseram que tinha um papel importante nas decisões tomadas. Pensei então que, ao menos em um caso, o senhor poderia desfazer o que fora feito com sua contribuição. Mas isso lhe é indiferente. Não pensou em ninguém. Não levou em conta os que estavam separados.
Rieux reconheceu que, em certo sentido, isso era verdade, que não quisera levá-lo em conta.
- Ah! Compreendo - respondeu Rambert. - Vai falar do serviço público. Mas o interesse público é feito da felicidade de cada um.
- Vamos - disse o médico, que parecia sair de um devaneio. - Não é só isso. Não se deve julgar ninguém. Mas o senhor não tem razão em se zangar. Se puder encontrar uma solução, ficarei profundamente feliz. Simplesmente, há coisas que minhas funções me proíbem de fazer.
O outro abanou a cabeça com impaciência.
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- Sim, faço mal em me zangar. E roubei-lhe muito tempo.
Rieux pediu-lhe que o mantivesse a par das suas providências e que não lhe guardasse rancor. Havia, certamente, um plano em que podiam encontrar-se. Rambert pareceu subitamente perplexo.
- Acho que sim - murmurou, depois de um silêncio. - Sim, apesar de tudo o que me disse. - Hesitou. Mas não posso concordar com o senhor.
Puxou o chapéu para a testa e partiu com um passo rápido. Rieux viu-o entrar no hotel onde vivia Jean Tarrou.
Logo depois, o médico abanou a cabeça. O jornalista tinha razão na sua impaciência de felicidade. Mas teria razão quando o acusava? ”O senhor vive na abstracão.” Eram realmente abstracão esses dias passados no hospital, onde a peste se saciava em dobro, elevando a quinhentas a média de vítimas por semana? Sim, havia na desgraça uma parte -y) de abstracão e de irrealidade. Mas quando a abstração começa
a matar-nos, é necessário que nos ocupemos da abstracão. E Rieux sabia apenas que isso era o mais fácil. Não era fácil, por exemplo, dirigir-se a esse hospital auxiliar - e agora havia três - de que estava encarregado. Improvisara, num cómodo que dava para o consultório, uma sala de recepção. O solo cavado formava um lago de água com creolina, no centro do qual se encontrava uma ilhota de tijolos. O doente era transportado para sua ilha, despido rapidamente e as roupas caíam na água. Lavado, enxuto, coberto com a camisa áspera do hospital, passava às mãos de Rieux, sendo depois transportado para uma das salas. Tinham sido obrigados a utilizar os pátios cobertos de. uma escola, que continha agora, ao todo, quinhentos leitos, a maioria dos quais ocupados. Depois da recepção da manhã que ele próprio dirigia, vacinados os doentes, abertos os abscessos, Rieux verificava mais uma vez a estatística e voltava às consultas da tarde. À noite, enfim, fazia visitas e voltava para casa muito tarde. Na noite anterior sua mãe observara, ao entregar-lhe um telegrama da jovem Mme Rieux, que as mãos do filho tremiam.
- Sim - dissera ele. - Mas com a continuação, ficarei menos nervoso.
Era vigoroso e resistente. Na realidade, não estava ainda cansado. Mas suas visitas, por exemplo, se tornavam insuportáveis. Diagnosticar a febre epidêmica equivalia a mandar retirar rapidamente o doente. Então começavam, na
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verdade, a abstração e a dificuldade, pois a família do doente sabia que só voltaria a vê-lo curado ou morto. ”Piedade, doutor!”, dizia a Sra. Loret, mãe da empregada que trabalhava no hotel de Tarrou. Que significava isso? É evidente que ele- tinha piedade. Mas isso não adiantava nada. Era preciso telefonar. Logo se ouvia ressoar a sirene da ambulância. No início, os vizinhos abriam as janelas e olhavam. Mais tarde, fechavam-nas precipitadamente. Começavam então as lutas, as lágrimas, a persuasão, em suma, a abstração. Nessas casas superaquecidas pela febre e pela angústia desenrolavam-se cenas de loucura. Mas o doente era levado. Rieux podia partir.
Das primeiras vezes tinha-se limitado a telefonar e a sair para atender outros doentes, sem esperar a ambulância. Mas os parentes fechavam então a porta, preferindo a convivência com a peste a uma separação cujo resultado agora conheciam. Gritos, investidas, intervenções da polícia e, mais tarde, das forças armadas, e o doente era tomado de assalto. Durante as primeiras semanas, Rieux fora obrigado a esperar até a chegada da ambulância. Depois, quando cada médico passou a ser acompanhado por um inspetor voluntário, Rieux pôde correr de um doente para outro. No início, porém, todas as noites foram corno essa em que, tendo entrado em casa da Sra. Loret, um pequeno apartamento decorado com leques e flores artificiais, foi recebido pela mãe, que lhe disse com um sorriso maldesenhado:
- Espero que não seja essa febre de que todos falam.
E ele, levantando o lençol e a camisa, contemplando em silêncio as manchas vermelhas sobre o ventre e as coxas, a inchação dos gânglios. A mãe olhava para as pernas da filha e, sem poder dominar-se, gritava. Todas as noites as mães gritavam assim, com um ar abstrato, diante de ventres expostos com todos os sintomas mortais, todas as noites braços se agarravam aos de Rieux, palavras inúteis, promessas e prantos se precipitavam, todas as noites as sirenes das ambulâncias desencadeavam crises tão vãs quanto qualquer dor. E, ao fim de toda essa longa série de noites sempre semelhantes, Rieux só podia esperar por uma longa série de cenas iguais, indefinidamente renovadas. Sim, a peste, como abstração, era monótona. Uma única coisa talvez mudava o próprio Rieux. Sentia-o nessa noite, junto ao monumento à República, apenas consciente da indiferença que começava a invadi-lo, sem tirar os olhos da porta do hotel por onde Rambert desaparecera.
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Ao final dessas semanas estafantes, depois de todos esses crepúsculos em que a cidade saía para as ruas para dar voltas sem rumo, Rieux compreendia que já não precisava defender-se contra a piedade. As pessoas cansam-se da piedade quando ela é inútil. E na consciência desse coração lentamente fechado sobre si próprio, o médico encontrava o único lenitivo desses dias esmagadores. Sabia que sua tarefa seria facilitada. Por isso se alegrava. Quando a mãe, recebendo-o às duas da madrugada, se afligia com o olhar vazio que pousava sobre ela, deplorava precisamente o único enternecimento que Rieux podia então encontrar. Para lutar contra a abstração, é preciso assemelhar-se um pouco a ela. Mas podia isso ser sensível a Rambert? A abstração, para Rambert, era tudo o que se opunha à sua felicidade. E na verdade, Rieux sabia que o jornalista, até certo ponto, tinha razão. Mas sabia também que chega o momento em que a abstração se mostra mais forte que a felicidade e que é preciso então, e só então, levá-la em consideração. Era o que devia acontecer a Rambert, e o médico pôde sabê-lo em pormenores pelas confidências que o jornalista lhe fez posteriormente. Pôde assim seguir, num novo plano, essa espécie de luta enfadonha entre a felicidade de cada homem e as abstrações da peste que constituiu toda a vida da nossa cidade durante esse longo período.
No entanto, onde uns viam a abstração, outros viam a verdade. De fato, o fim do primeiro mês de peste foi obscurecido por uma recrudescência acentuada da epidemia e um sermão veemente do Padre Paneloux, o jesuíta que assistira o velho Michel no princípio da doença. O Padre Paneloux já se havia distinguido por colaborações frequentes no boletim da Sociedade de Geografia de Oran, onde suas reconstituições epigráficas constituíam autoridade. Mas conquistara um auditório mais vasto que o de um especialista ao fazer uma série de conferências sobre o individualismo moderno. Mostrara-se, então, defensor ardoroso de um cristianismo exigente, igualmente distanciado da libertinagem moderna e do obscurantismo dos séculos passados. Nessa ocasião não poupara duras verdades ao seu auditório. Daí sua reputação.
Ora, por volta do fim do mês, as autoridades eclesiásticas da nossa cidade decidiram lutar contra a peste com seus próprios meios, organizando uma semana de preces
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coletivas. Essas manifestações da devoção pública deviam terminar no domingo com uma missa solene, sob a invocação de São Roque, o santo atacado pela peste. Nessa ocasião, tinham dado a palavra ao Padre Paneloux. Há uns quinze dias que este abandonara seus trabalhos sobre Santo Agostinho e a Igreja africana, que lhe haviam granjeado um lugar à parte na sua ordem. De temperamento fogoso e apaixonado, aceitara com determinação a missão de que o encarregavam. Muito antes desse sermão, já se falava dele na cidade e ele marcou, à sua maneira, uma data importante na história desse período.
A semana de preces foi seguida por um público numeroso. Não que em tempos normais os habitantes de Oran sejam particularmente piedosos. No domingo de manhã, por exemplo, os banhos de mar fazem séria concorrência à missa. Tampouco foram iluminados por uma súbita conversão. Mas, por um lado, com a cidade fechada e o porto interditado, os banhos não eram possíveis e, por outro lado, encontravam-se num estado de espírito bem singular em que, sem terem admitido no fundo de si próprios os acontecimentos surpreendentes que os atingiam, sentiam efetivamente que algo, é óbvio, mudara. No entanto, muitos continuavam a esperar que a epidemia parasse e que eles fossem poupados, com suas famílias. Por conseguinte, não se sentiam ainda obrigados a nada. A peste nada mais era para eles do que uma visita desagradável que havia de partir um dia, já que tinha vindo. Assustados, mas não desesperados, não chegara ainda o momento em que a peste lhes surgiria como a própria forma de sua vida e em que esqueceriam a existência que até agora tinham podido levar. Em suma, estavam na expectativa. No que se refere à religião, como a muitos outros problemas, a peste tinha-lhes dado uma singular disposição de espírito, tão afastada da indiferença como da paixão, que podia definir-se pela palavra ”objetividade”. A maior parte dos que seguiram a semana de preces poderia ter feito sua a frase que um dos fiéis havia proferido diante do Dr. Ríeux: ”De qualquer maneira, mal não pode fazer”. O próprio Tarrou, depois de ter anotado em seus cadernos que os chineses, em casos semelhantes, vão tocar tambor diante do génio da peste, observava que era absolutamente impossível saber se, na realidade, o instrumento se mostrava mais eficaz que as medidas profiláticas. Acrescentava, apenas, que para decidir a questão seria preciso estar informado sobre a existência de um génio da peste
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e que a nossa ignorância sobre esse ponto tornava estéreis todas as opiniões que se pudessem ter.
De qualquer modo, a catedral de nossa cidade esteve quase cheia de fiéis durante toda a semana. Nos primeiros dias, muitos habitantes ficavam ainda nos jardins de palmeiras e romãzeiras que se estendem diante do pórtico para ouvir a maré de invocações e de preces que refluíam até as ruas. Pouco a pouco, com o auxílio do exemplo, os mesmos ouvintes decidiram-se a entrar e a mesclar uma voz tímida aos responsos da assistência. E, no domingo, uma multidão considerável invadiu a nave, transbordando até o adro e os últimos degraus da escadaria. Desde a véspera, o céu tinha-se toldado, a chuva caía pesadamente. Os que estavam do lado de fora tinham aberto os guarda-chuvas. Um cheiro de incenso e de molhado flutuava na catedral quando o Padre Paneloux subiu ao púlpito.
Era de estatura mediana, mas robusto. Quando se apoiou ao rebordo do púlpito, apertando a madeira entre as mãos grandes, não se via nele senão uma forma espessa e negra, encimada pelas manchas de duas faces rubicundas sob os óculos de metal. Tinha uma voz forte, apaixonada, que alcançava longe, e quando atacou a assistência com uma única frase veemente e martelada: ”Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes”, a assistência se tumultuou.
Logicamente, o que se seguiu não parecia estar de acordo com esse exórdio patético. Só a sequência do discurso fez compreender aos nossos concidadãos que, por um hábil processo oratório, o padre tinha dado de uma só vez, como um golpe que se desfecha, o tema de todo o seu sermão. Logo depois dessa frase, Paneloux citou o texto do êxodo relativo à peste do Egito e disse: ”A primeira vez em que esse flagelo aparece na história é para atacar os inimigos de Deus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos, e a peste o faz então cair de joelhos. Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditai sobre isso e caí de joelhos”.
A chuva redobrava lá fora e esta última frase pronunciada no meio de um silêncio absoluto, que se tornou ainda mais profundo pelo crepitar da tempestade sobre os vitrais, ressoou com tal inflexão, que alguns ouvintes, depois de um segundo de hesitação, deixaram-se deslizar da cadeira para o genuflexório. Outros julgaram que era necessário seguir o exemplo, de tal modo que, de vizinho a vizinho, sem outro ruído que não fosse o ranger de alguma cadeira, todo o
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auditório se encontrou logo ajoelhado. Paneloux endireitou-se então, respirou profundamente e continuou, num tom mais veemente: ”Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem temê-la, mas os maus têm razão para tremer. Na imensa granja do universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que o joio se separe do trigo. Haverá mais joio que trigo, mais chamados que eleitos e essa desgraça não foi desejada por Deus. Por longo tempo, este mundo compactuou com o mal, repousou na misericórdia divina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem, todos se sentiam fortes. Chegado o momento, o arrependimento viria por certo. Até lá, o mais fácil era deixar-se levar, a misericórdia divina faria o resto. Pois bem! Isso não podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperança, acabara de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!”
Na sala, alguém resfolegou como um cavalo impaciente. Depois de uma curta pausa, o padre continuou, num tom mais baixo: ”Lê-se na Legende dorêe que no tempo do Rei Humberto, na Lombardia, a Itália foi devastada por uma peste tão violenta que os vivos mal chegavam para enterrar os mortos. Essa peste castigava sobretudo Roma e Pavia. E um anjo bom apareceu nitidamente dando ordens ao anjo mau, que trazia uma lança de caça, ordenando-lhe que batesse nas casas. E tantas vezes quantas uma casa recebia pancadas, tantos mortos havia que dela saíam”.
Paneloux estendeu aqui os dois braços curtos na direção do adro, como se mostrasse alguma coisa por detrás da cortina móvel da chuva. ”Meus irmãos”, disse com força, ”é a mesma caçada mortal que hoje prossegue nas nossas ruas. Vede-o, esse anjo da peste, belo como Lúcifer e brilhante como o próprio mal, erguido acima dos vossos telhados, empunhando a lança vermelha à altura da cabeça, designando com a mão esquerda uma de vossas casas. Nesse mesmo instante, talvez, o seu dedo se estende para a vossa porta, a lança ressoa sobre a madeira: mais um instante e a peste entra em vossa casa, senta-se no vosso quarto e espera o vosso regresso. Ela está lá, paciente e atenta, segura como a própria ordem do mundo. Essa mão que ela vos estenderá, nenhum poder humano, nem sequer, vede bem, a vã ciência humana, pode fazer com que a eviteis. E, batidos
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na eira sangrenta da dor, sereis repelidos como a palha.”
Aqui, o padre retomou, com mais amplidão ainda, a imagem patética do flagelo. Evocou a imensa lança volteando por cima da cidade, atacando ao acaso e erguendo-se de novo, ensanguentada; espalhando, enfim, o sangue e a dor humana ”para as sementeiras que preparariam as searas da verdade”.
Ao fim desse longo período, o Padre Paneloux parou, com os cabelos caídos sobre a fronte, o corpo agitado por um tremor que as mãos comunicavam ao púlpito, e prosseguiu, mais surdamente mas em tom acusador: ”Sim, chegou a hora de refletir. Pensastes que vos bastaria visitar Deus aos domingos para ficardes com vossos dias livres. Pensastes que algumas genuflexões bastariam para pagar vosso desleixo criminoso. Mas Deus não é fraco. Essas atenções espaçadas não bastavam à sua ternura devoradora. Ele queria ver-vos mais tempo, é a sua maneira de vos amar que é, a bem dizer, a única maneira de amar. Eis por que, cansado de esperar vossa vinda, deixou que o flagelo vos visitasse, corn~. visitou todas as cidades do pecado desde que os horúèns têm história. Sabeis agora o que é o pecado, como o souberam Caim e seus filhos, os de antes do Dilúvio, os de Sodoma e Gomorra, o faraó e Jó e também todos os malditos. E, como esses o fizeram, é um olhar novo que lançais sobre os seres e as coisas, desde o dia em que esta cidade fechou seus muros em torno de vós e do flagelo. Sabeis agora, finalmente, que é preciso chegar ao essencial”.
Um vento úmido infiltrava-se agora na nave e as chamas dos círios curvavam-se, crepitando. Um cheiro espesso de cera, tosses, um espirro chegaram até o Padre Paneloux, que, voltando à sua exposição com uma sutileza que foi muito apreciada, prosseguiu com voz calma: ”Muitos dentre vós, bem o sei, perguntaram a si próprios aonde quero chegar. Quero fazer-vos chegar à verdade e ensinar-vos a vos regozijar, apesar de tudo o que vos disse. Passou o tempo em que os conselhos, uma mão fraterna eram os meios de vos guiar para o bem. Hoje, a verdade é uma ordem. E o caminho da salvação é uma lança vermelha que vos aponta e vos conduz. É aqui, meus irmãos, que se manifesta, enfim, a misericórdia divina que colocou em todas as coisas o bem e o mal, a cólera e a piedade, a peste e a salvação. Este mesmo flagelo, que vos aflige, vos eleva e vos mostra o caminho. Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na
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peste um meio eficaz, de origem divina, para alcançar a eternidade. Os que não eram atingidos enrolavam-se nas roupas contaminadas para terem a certeza de morrer. Sem dúvida, essa fúria de salvação não é recomendável. Ela revela uma precipitação lamentável, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado que Deus, e tudo o que pretende acelerar a ordem imutável que Ele estabeleceu de uma vez para sempre conduz à heresia. Mas, ao menos, esse exemplo comporta uma lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, ele faz apenas valer esse clarão sublime de eternidade que j az no fundo de todo sofrimento. Ele ilumina esse clarão, os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ele manifesta a vontade divina que, sem fraquejar, transforma o mal em bem. Hoje ainda, através dessa caminhada de morte, de angústias e de clamores, Ele nos guia para o silêncio essencial e para o princípio de toda a vida. Eis, meus irmãos, o imenso consolo que queria vos trazer para que não leveis daqui apenas palavras que castigam, mas também um verbo de paz”.
Sentia-se que o Padre Paneloux terminara. Lá fora a chuva havia cessado. Um céu mesclado de água e de sol derramava sobre a praça uma luz mais brilhante. Da rua, chegavam ruídos de vozes, o deslizar de veículos, toda a linguagem de uma cidade que desperta. Os ouvintes juntavam discretamente seus pertences, com um sussurro surdo. Entretanto, o padre retomou a palavra e disse que, depois de ter mostrado a origem divina da peste e o caráter punitivo desse flagelo, tinha terminado e não faria apelo, para concluir, a uma eloquência que seria inoportuna em matéria tão trágica. Parecia-lhe que tudo devia ser claro para todos. Lembrou apenas que, por ocasião da grande peste de Marselha, o cronista Mathieu Marais se queixara de estar mergulhado no inferno, vivendo assim sem socorro e sem esperança. Pois bem! Mathieu Marais era cego! Nunca, mais que hoje, pelo contrário, o Padre Paneloux tinha sentido o socorro divino e a esperança cristã que eram oferecidos a todos. Ele esperava, contra toda a esperança, que, a despeito do horror desses dias e dos gritos dos agonizantes, nossos concidadãos dirigissem ao céu a única palavra que era cristã e que era de amor. Deus faria o resto.
É difícil dizer se esse sermão produziu efeito sobre nossos concidadãos. O Sr. Othon, o juiz de instrução, disse
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ao Dr. Rieux que tinha achado a exposição do Padre Paneloux ”absolutamente irrefutável”. Nem todos, porém, tinham uma opinião tão categórica. Simplesmente, o sermão tornou mais evidente para alguns a ideia, vaga até então, de que estavam condenados, por um crime desconhecido, a uma prisão inimaginável. E enquanto uns continuavam a sua vidinha e se adaptavam à clausura, para outros, pelo contrário, a única ideia foi, a partir desse momento, evadirem-se dessa prisão.
A princípio, as pessoas tinham aceito estar isoladas do exterior como teriam aceito qualquer outro inconveniente temporário que apenas perturbasse alguns de seus hábitos. Mas, subitamente conscientes de uma espécie de sequestro, sob a tampa do céu em que o verão começava a crepitar, sentiam confusamente que essa reclusão lhes ameaçava toda a vida e, chegada a noite, a energia que recuperavam com o frescor os lançava por vezes a atos de desespero.
Em primeiro lugar, quer seja ou não por efeito de uma coincidência, foi a partir desse domingo que houve em nossa .idade uma espécie de medo generalizado e bastante profundo para que se pudesse suspeitar que nossos concidadãos começavam verdadeiramente a tomar consciência da sua situação. Sob esse ponto de vista, a atmosfera de nossa cidade modificou-se um pouco. A questão, porém, é saber se na verdade a modificação estava na atmosfera ou nos corações.
Poucos dias depois do sermão, Rieux, que comentava o acontecimento com Grand, ao dirigir-se para os subúrbios, chocou-se na escuridão contra um homem que cambaleava diante deles, sem procurar avançar. Nesse mesmo momento as luzes de nossa cidade, que se acendiam cada vez mais tarde, resplandeceram bruscamente. O alto lampião por trás deles iluminou subitamente o homem, que ria sem ruído, de olhos fechados. Em seu rosto esbranquiçado, distendido por uma hilaridade muda, o suor corria em grossas gotas.
- É um louco - disse Grand.
Rieux, que acabava de pegá-lo pelo braço para arrastá-lo, sentiu que o empregado municipal tremia de nervoso.
- Dentro em pouco, não haverá senão loucos dentro de nossos muros - concordou Rieux. com o cansaço, sentia a garganta seca. Vamos tomar qualquer coisa.
No pequeno café em que entraram, iluminado por um único lampião em cima do balcão, as pessoas falavam em voz baixa, sem razão aparente, no ar espesso e avermelhado.
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No balcão, Grand, para grande surpresa do médico, pediu aguardente, que bebeu de um trago, e declarou ser muito forte. Depois quis sair. Lá fora, parecia a Rieux que a noite estava cheia de gemidos. Em qualquer parte, no céu negro, um sibilar surdo lembrou-lhe o invisível flagelo que agitava incansavelmente o ar quente.
- Ainda bem, ainda bem - murmurava Grand. Rieux perguntava a si próprio o que ele queria dizer. - Ainda bem

- continuava o outro - que tenho meu trabalho.


- Sim - disse Rieux -, isso é uma vantagem.
E, decidido a não escutar o sibilar, perguntou a Grand se estava contente com esse trabalho.
- Sim, creio que estou no bom caminho.
- Ainda lhe falta muito?
Grand pareceu animar-se, com o calor do álcool transparecendo na voz.
- Não sei. Mas a questão não é essa, doutor. Não, a questão não é essa.
Na obscuridade, Rieux adivinhava que ele agitara os braços. Parecia preparar qualquer coisa, que veio bruscamente, com volubilidade.
- O que eu quero, sabe, doutor, é que no dia em que o manuscrito chegar ao editor, ele se levante depois de ter lido e diga aos seus colaboradores: ”Meus senhores, tirem o chapéu”.
Esta brusca declaração surpreendeu Rieux. Parecia-lhe que o companheiro fazia o gesto de se descobrir, levando a mão à cabeça e trazendo o braço à posição horizontal. Lá em cima, o estranho silvo parecia redobrar de intensidade.
- É verdade - dizia Grand -, é necessário que seja perfeito.
Embora pouco a par dos hábitos literários, Rieux tinha no entanto a impressão de que as coisas não se deviam passar tão simplesmente e que, por exemplo, os editores, nos seus gabinetes, deviam estar de cabeça descoberta. A verdade, porém, é que nunca se sabia, e Rieux preferiu calar-se. Contra a vontade, escutava os rumores misteriosos da peste. Chegavam ao bairro de Grand e, como este se situava num ponto alto, uma ligeira brisa refrescava-os, limpando ao mesmo tempo a cidade de todos os seus ruídos. No entanto, Grand continuava a falar, e Rieux não compreendia tudo o que o homenzinho dizia. Comprendeu apenas que a obra em questão tinha já muitas páginas, mas que o esforço a que seu autor se submetia para a levar à perfeição lhe era muito
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doloroso. Noites, semanas inteiras com uma palavra. . . às vezes com uma simples conjunção. Nesse ponto, Grand deteve-se e agarrou o médico por um botão do casaco. As palavras saíam trôpegas de sua boca malguarnecida.
- Compreenda bem, doutor. A rigor, é fácil escolher entre ”mas” e ”e”. Já é mais difícil optar entre ”e” e ”depois”. A dificuldade aumenta com ”depois” e ”em seguida”. Porém, o que há, sem dúvida, de mais difícil, é saber se se deve ou não colocar o e.
- Compreendo - disse Rieux.
Recomeçou a andar. O outro pareceu confuso e deu alguns passos para alcançá-lo.
- Desculpe - gaguejou. - Não sei o que tenho esta noite.
Rieux bateu-lhe suavemente no ombro e disse que desejava ajudá-lo e que sua história lhe interessava muito. O outro pareceu acalmar-se um pouco e, chegando a casa, depois de hesitar, convidou o médico a subir um momento. Rieux aceitou.
, Na sala de jantar, Grand convidou-o a sentar-se diante de uma mesa coberta de papéis cheios de emendas feitas numa letra microscópica.
- Sim, é isto - disse Grand ao médico, que o interrogava com o olhar. - Quer beber alguma coisa? Tenho um pouco de vinho. - Rieux recusou. Olhava para as folhas de papel.
- Não olhe - pediu Grand. - É minha primeira frase. Faz-me mal; faz-me muito mal.
Também ele contemplava todas as folhas, e sua mão pareceu incontrolavelmente atraída para uma delas, que levantou e colocou em transparência, diante da lâmpada elétrica sem cúpula. A folha tremia-lhe na mão. Rieux notou que o empregado municipal tinha a testa úmida.
- Sente-se - pediu o médico - e leia.
O outro olhou para ele e sorriu com uma espécie de gratidão.
- Acho, realmente, que estou com vontade de ler.
Esperou um pouco, sempre olhando para a folha, depois sentou-se. Rieux escutava ao mesmo tempo uma espécie de zumbido confuso que, na cidade, parecia responder ao silvo do flagelo. Nesse momento preciso, tinha uma percepção extraordinariamente aguda dessa cidade que se estendia a seus pés, do mundo fechado que ela formava e dos uivos terríveis que ela sufocava na noite. A voz de Grand elevou-se
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surdamente: ”Numa bela manhã do mês de maio, uma elegante amazona percorria, numa soberba égua alazã, as aléias floridas do Bois de Boulogne”. O silêncio voltou e com ele o rumor indistinto da cidade, que sofria. Grand pousara a folha e continuava a contemplá-la. Ao fim de um momento, levantou os olhos.


- Que acha?
Rieux respondeu que o princípio lhe despertava a curiosidade de conhecer o resto. Mas o outro afirmou com animação que esse ponto de vista não era bom e bateu nos papéis com a palma da mão.
- Isso é apenas uma aproximação. Quando eu conseguir transmitir perfeitamente o quadro que tenho na imaginação, quando a minha frase tiver o próprio ritmo deste passeio a trote um-dois-três, um-dois-três, então o resto será mais fácil e, sobretudo, a ilusão será tal, desde o princípio, que será possível dizer: ”Tirem o chapéu”.
Mas para isso faltava muito trabalho. Nunca consentiria em entregar aquela frase, tal como estava, a um editor, pois, apesar da satisfação que lhe trazia, por vezes se dava conta de que ela ainda não se ajustava perfeitamente à realidade, e que, de certo modo, mantinha uma facilidade de tom que se assemelhava de longe, mas que se assemelhava, em todo caso, a um chavão. Era esse pelo menos o sentido do que ele dizia quando ouviram homens correr sob as janelas. Rieux levantou-se.
- Vai ver o que vou fazer dela - dizia Grand. E, voltado para a janela, acrescentou: - Quando tudo isso tiver acabado.
Mas o barulho de passos precipitados recomeçava. Rieux já descia, e dois homens passaram por ele quando chegou à rua. Aparentemente, iam para as portas da cidade. Na verdade, alguns de nossos concidadãos, perdendo a cabeça entre o calor e a peste, deixavam-se arrastar à violência e tinham tentado burlar a vigilância das barreiras para fugir da cidade.
Outros, como Rambert, tentavam também fugir dessa atmosfera de pânico nascente, mas com mais obstinação e habilidade, se não com mais êxito. Em primeiro lugar, Rarr> bert prosseguira suas diligências oficiais. Segundo ele próprio dizia, a obstinação acaba por triunfar sobre tudo e, de um certo ponto de vista, ser desembaraçado era sua profissão.
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Visitara, pois, uma grande quantidade de funcionários e de pessoas cuja competência habitualmente não se discutia. No entanto, nesse caso, tal competência de nada lhes servia. Eram, a maior parte das vezes, homens que tinham ideias precisas e bem classificadas sobre tudo o que se refere aos bancos, à exportação, às laranjas e limões, ou ainda, ao comércio dos vinhos; que possuíam indiscutíveis conhecimentos sobre os problemas de contencioso ou de seguros, sem contar os diplomas sólidos e uma boa vontade evidente. Era até a boa vontade o que de mais impressionante havia em todos. Porém, em matéria de peste, seus conhecimentos eram quase nulos.
Diante de cada um deles, entretanto, e sempre que isso fora possível, Rambert defendera sua causa. Sua argumentação principal consistia sempre em dizer que era estrangeiro na nossa cidade e que, por conseguinte, seu caso devia merecer um exame especial. Em geral, os interlocutores do jornalista admitiam de bom grado esse ponto, mas diziamlhe que era também o caso de um certo número de pessoas e que, conseqúentemente, seu problema não era tão particular quanto imaginava. Ao que Rambert podia retrucar que o fato não mudava em nada a essência de sua argumentação, e replicavap-lhe que mudava alguma coisa nas dificuldades administrativas que se opunham a toda medida de favor, que corria o risco de criar aquilo a que chamavam, com uma expressão de grande repugnância, um precedente. Segundo a classificação que Rambert propôs ao Dr. Rieux, esse género de argumentadores constituía a categoria dos formalistas. Ao lado deles podiam encontrar-se os bem-falantes, que asseguravam ao suplicante que nada daquilo podia durar e que, pródigos de bons conselhos quando só se lhes pediam decisões, consolavam Rambert decidindo que se tratava apenas de um problema momentâneo. Havia também os importantes, que pediam ao visitante que deixasse uma nota resumindo seu caso, informando que decidiriam sobre o pedido; os fúteis, que lhe propunham vales de alojamento ou endereços de pensões económicas; os metódicos, que o faziam preencher uma ficha e arquivavam-na em seguida; os exaltados, que levantavam os braços e os aborrecidos, que desviavam os olhos; havia, enfim, os tradicionais, de longe os mais numerosos, que indicavam a Rambert outra repartição ou nova diligência a fazer.
O jornalista tinha assim se esgotado em visitas e formara uma ideia justa do que podia ser uma câmara ou uma
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prefeitura, de tanto esperar num banco estofado diante de grandes cartazes que o convidavam a subscrever obrigações do Tesouro, isentas de impostos, ou a alistar-se no exército colonial, de tanto entrar em repartições onde as fisionomias eram tão previsíveis quanto o arquivo e os fichários. A vantagem, como Rambert dizia a Rieux com uma ponta de amargura, era que tudo isso mascarava a verdadeira situação. Os progressos da peste escapavam-lhe praticamente, sem contar que os dias assim se passavam mais depressa e, na situação em que a cidade inteira se encontrava, podia-se dizer que cada dia que passava aproximava os homens, com a condição de que não morressem ao fim de suas provações. Rieux teve de reconhecer que esse ponto de vista era verdadeiro, mas que se tratava, em todo caso, de uma verdade demasiado genérica.
Em dado momento, Rambert alimentou uma esperança. Tinha recebido da prefeitura um boletim de informações em branco que lhe pediam que preenchesse com exatidão. O boletim inquietava-se com sua identidade, a situação da família, seus recursos, antigos e atuais, e o que chamava de seu curriculum vitae. Teve a impressão de que se tratava de um inquérito destinado a recensear as pessoas suscetíveis de serem enviadas para a sua residência habitual. Algumas informações confusas colhidas numa repartição confirmaram essa suspeita. No entanto, depois de algumas diligências precisas, conseguiu descobrir o serviço que tinha enviado o boletim, e disseram-lhe então que essas informações tinham sido recolhidas ”para o caso de virem a ser necessárias”.
- Que caso? - perguntou Rambert.
Afirmaram-lhe então que era para o caso de ele vir a adoecer da peste e a morrer dela, a fim de que se pudesse, por um lado, avisar a família e, por outro, saber se se deviam debitar as despesas do funeral ao orçamento da cidade ou se se podia esperar que os parentes as reembolsassem. Evidentemente, isso provava que ele não estava inteiramente separado daquela que o esperava, visto que a sociedade se ocupava deles. Mas não era um consolo. O mais notável, e Rambert o observou, era a maneira como no auge de uma catástrofe uma repartição podia continuar o seu serviço e tomar iniciativas de outros tempos, muitas vezes com desconhecimento das autoridades mais altas, pela simples razão de que era feita para esse fim.
O período que se seguiu foi para Rambert simultaneamente mais fácil e mais difícil. Era um período de estagnação
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Tinha visitado todas as repartições, feito todas as diligências e todas as saídas, por esse lado, estavam agora fechadas. Vagava então de café em café. De manhã, sentava-se num terraço, diante de um copo de cerveja morna, lia um jornal com a esperança de encontrar alguns sinais do fim próximo da doença, olhava para o rosto dos transeuntes, desviava-se, desgostoso, com sua expressão de tristeza e, depois de ter lido, pela centésima vez, as tabuletas das lojas em frente, a publicidade dos grandes aperitivos que já de nada serviam, levantava-se e caminhava ao acaso pelas ruas amarelas da cidade. Em passeios solitários para cafés e de cafés para restaurantes, chegava assim a noite. Rieux viu-o uma noite, precisamente à porta de um café, onde o jornalista hesitava em entrar. Pareceu decidir-se e foi sentar-se ao fundo da sala. Era aquela hora em que nos cafés, por ordem superior, se retardava ao máximo o momento de acender as luzes. O crepúsculo invadia a sala como uma água cinzenta, o cor-de-rosa do céu poente refletia-se nas vidraças e o mármore das mesas reluzia fracamente na obscuridade nascente. No meio da sala deserta, Rambert parecia uma sombra perdida, e Rieux pensou que era a hora de se sentir abandonado. Mas era também o momento em que todos os prisioneiros dessa cidade sentiam seu próprio abandono e era preciso, fazer qualquer coisa para apressar a libertação. Rieux afastou-se.
Rambert passava também longos momentos na estação. O acesso às plataformas estava interditado. Mas as salas de espera, às quais se chegava por fora, permaneciam abertas e às vezes ali instalavam-se mendigos nos dias de calor, pois eram sombrias e frescas. Rambert ficava lá, para ler velhos horários, avisos proibindo cuspir e o regulamento da Polícia Ferroviária. Depois, sentava-se a um canto. A sala estava escura. Um velho fogão de ferro fundido esfriava há meses, no meio de desenhos em oito. Na parede alguns cartazes promoviam uma vida feliz e livre em Bandol ou em Cannes. Rambert sentia aqui essa espécie de terrível liberdade que se experimenta no fundo da miséria. Para ele, imagens mais difíceis de suportar, segundo o que dizia Rieux, eram as de Paris. Uma paisagem de velhas pedras e das águas, os pombos do Palais Royal, a Gare du Nord, os bairros desertos do Panthéon e alguns outros lugares de uma cidade que ele não sabia ter amado tanto, perseguiam então Rambert e impediam-no de fazer qualquer coisa de preciso. Rieux pensava apenas que ele identificava essas imagens com as do seu
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amor. E no dia em que Rambert lhe disse que gostava de acordar às quatro da manhã e de pensar em sua cidade, o médico não teve dificuldade em traduzir do fundo de sua própria experiência que ele gostava de imaginar a mulher que tinha deixado. com efeito, era a hora em que ele podia apoderar-se dela. Até as quatro horas da manhã não se faz nada, em geral, dorme-se a essa hora e isso é tranqüilizador, já que o grande desejo de um coração inquieto é possuir interminavelmente o ser que ama e poder mergulhar esse ser, quando chega o tempo da ausência, num sono sem sonhos que só possa acabar no dia do reencontro.
Pouco depois do sermão, o calor começou. Chegava-se ao fim do mês de junho. No dia seguinte ao da chuva tardia que marcara o domingo do sermão, o verão irrompeu de repente no céu e acima das casas. Levantou-se primeiro um vento forte e ardente que soprou durante um dia e ressecou as paredes. O sol fixou-se. Vagas incessantes de calor e de luz inundaram a cidade durante todo o dia. Fora das ruas em arcada e das casas parecia não haver um único ponto na cidade que não estivesse colocado na reverberação mais ofuscante. O sol perseguia nossos concidadãos em todas as esquinas e, se eles paravam, atacava-os então. Como esses primeiros calores coincidiram com uma subida vertiginosa do número de vítimas que se calculou em cerca de setecentas por semana, apoderou-se da cidade uma espécie de abatimento. Nos subúrbios, nas ruas planas e nas casas com terraços, a animação decresceu e, nesse bairro onde toda a gente vivia sempre nas soleiras, todas as portas estavam fechadas e as persianas corridas, sem que se soubesse se era da peste ou do calor que as pessoas julgavam assim proteger-se. De algumas casas, contudo, saíam gemidos. Antes, quando isso acontecia, viam-se muitas vezes curiosos que paravam na rua, à escuta. Mas depois desses longos alarmes, parecia que o coração de todos tinha endurecido e que caminhavam ou viviam ao lado dos queixumes como se eles fossem a linguagem natural dos homens.
Os tumultos junto às portas da cidade, durante os quais os guardas tinham sido obrigados a servir-se de armas, criaram uma surda agitação. Tinha havido feridos, sem dúvida, mas falava-se de mortos na cidade, onde tudo se exagerava por efeito do calor e do medo. Em todo caso, é verdade que o descontentamento não cessava de aumentar, que nossas
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autoridades tinham receado o pior e estudado muito a sério medidas a serem tomadas no caso de essa população, mantida sob o flagelo, ser levada à revolta. Os jornais publicaram decretos que renovavam a proibição de sair e ameaçavam com penas de prisão os infratores. Patrulhas percorriam a cidade. Muitas vezes, nas ruas desertas e escaldantes viam-se avançar, anunciados em primeiro lugar pelo ruído dos cascos dos cavalos nos paralelepípedos, guardas montados que passavam por entre duas fileiras de janelas fechadas. Desaparecida a patrulha, um silêncio pesado e cheio de desconfiança recaía sobre a cidade ameaçada. De vez em quando, ouviam-se os disparos dos grupos especiais encarregados de matar os cães e os gatos que poderiam transmitir pulgas. Essas detonações secas contribuíam para estabelecer na cidade uma atmosfera de alerta.
No calor e no silêncio, e para o coração em pânico dos nossos concidadãos, tudo assumia, aliás, uma importância maior. Pela primeira vez todos se tornavam sensíveis às cores do céu e aos odores da terra causados pela mudança das estações. Cada um compreendia com terror que o calor ajudaria a epidemia e, ao mesmo tempo, cada um via que o verão se instalava. O grito dos gaviões no céu da tarde tornava-se mais débil por cima da cidade. Não mais se enquadravam nesses crepúsculos de junho que ampliam o horizonte em nosso país. As flores de mercados já não chegavam fechadas em botão e, depois da venda da manhã, as pétalas amontoavam-se nas calçadas poeirentas. Via-se claramente que a primavera se extenuara, que se tinha prodigalizado em milhares de flores que desabrochavam por toda parte e que ia agora adormecer, esmagar-se lentamente sob o duplo peso da peste e do calor. Para todos os nossos concidadãos, o céu de verão, essas ruas que empalidecem sob os tons da poeira e do tédio, tinham o mesmo sentido ameaçador que as centenas de mortos que a cada dia pesavam sobre a cidade. O sol inclemente, estas horas com gosto de sono e de férias, já não convidavam como antes às festas da água e da carne. Pelo contrário, soavam lúgubres na cidade fechada e silenciosa. Tinham perdido o brilho metálico das estações felizes. O sol da peste apagava todas as cores e escorraçava qualquer alegria.
Era essa uma das grandes revoluções da doença. Em geral, todos os nossos concidadãos acolhiam o verão com alegria. A cidade abria-se então para o mar e derramava sua mocidade nas praias. Nesse verão, pelo contrário, o mar próximo
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estava interditado e o corpo já não tinha direito às suas alegrias. Que fazer nessas condições? É ainda Tarrou quem dá a imagem mais fiel de nossa vida de então. Ele seguia, a bem da verdade, os progressos da peste em geral, observando justamente que uma mudança da epidemia fora assinalada pelo rádio quando deixou de anunciar as centenas de óbitos por semana para passar a comunicar noventa e dois, cento e sete e cento e vinte mortos por dia. ”Os jornais e as autoridades brincam de espertos com a peste. Imaginam que lhe tiram alguns pontos porque cento e trinta é um número menos impressionante que novecentos e dez.” Evocava também os aspectos patéticos ou espetaculares da epidemia, como a mulher que, num bairro deserto, com as persianas fechadas, tinha subitamente aberto uma janela por cima dele e soltado dois grandes gritos antes de voltar a fechar as persianas sobre a sombra espessa do quarto. Mas ele anotava, além disso, que as pastilhas mentoladas tinham desaparecido das farmácias, pois muitas pessoas as chupavam para se prevenir contra um contágio eventual.
Continuava também a observar suas personagens favoritas. Soube-se que o velhote dos gatos vivia também na tragédia. Certa manhã, com efeito, haviam soado tiros e, como escrevia Tarrou, alguns estilhaços de chumbo tinham matado a maior parte dos gatos e aterrorizado os outros, que abandonaram a rua. No mesmo dia, o velhote surgira na varanda, à hora habitual, mostrara uma certa surpresa, debruçara-se, examinara as extremidades da rua e resignara-se a esperar. com a mão dava pequenas pancadas na grade da varanda. Esperava ainda, rasgara um pedaço de papel, entrara e tornara a sair. Depois de um certo tempo desaparecera bruscamente, fechando, com rancor, as janelas. Nos dias seguintes repetiu-se a mesma cena, mas podiam ler-se no rosto do velho uma tristeza e uma perturbação cada vez mais manifestas. Ao fim de uma semana, Tarrou esperou em vão o aparecimento diário, e as janelas ficaram obstinadamente fechadas sobre um desgosto bastante compreensível. ”Em tempo de peste, é proibido escarrar nos gatos” era a conclusão das anotações.
Por outro lado, quando Tarrou entrava à noite em casa, tinha sempre certeza de encontrar, no vestíbulo, a figura sombria do vigia, que passeava de um lado para outro. Ele não deixava de lembrar a todos que chegavam que tinha previsto o que estava acontecendo. A Tarrou, que reconhecia ter-lhe ouvido prever uma desgraça, mas que lhe
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recordava sua ideia de terremoto, o velho guarda respondia: ”Ah, se fosse um terremoto? Uma boa sacudidela, e não se fala mais nisso. . . Contam-se os mortos, os vivos, e pronto. Mas essa porcaria de doença? Até os que não a apanham, parecem trazê-la no coração”.
O proprietário não andava menos desanimado. A princípio, os viajantes, impedidos de deixar a cidade, tinham sido mantidos no hotel quando as portas da cidade se fecharam. Mas, pouco a pouco, como a epidemia se prolongasse, muitos tinham preferido instalar-se em casa de amigos. E as mesmas razões que tinham enchido todos os quartos do hotel mantinham-nos vazios desde então, já que não chegavam novos viajantes a nossa cidade. Tarrou era um dos raros hóspedes, e o gerente não perdia oportunidade para lhe fazer notar que, se não fosse seu desejo de ser agradável aos seus últimos clientes, teria há muito fechado o estabelecimento. Pedia muitas vezes a Tarrou que calculasse a duração provável da epidemia. ”Dizem”, observava Tarrou, ”que o frio é inimigo dessa espécie de doença.” O gerente exasperava-se: ”Mas aqui nunca faz realmente frio, meu caro senhor. De qualquer modo, ainda faltam alguns meses”. Tinha certeza aliás de que os visitantes continuariam durante muito tempo a evitar a cidade. Essa peste era a ruína do turismo. No restaurante, d pois de uma curta ausência, viuse reaparecer o Sr. Othon, o homem-coruja, mas seguido apenas pelos dois cachorrinhos comportados. Colhidas as informações, soube-se que a mulher tinha tratado e enterrado a própria mãe e que estava, nesse momento, de quarentena.
- Não gosto disso - disse o gerente a Tarrou. com quarentena ou sem quarentena, ela é suspeita, e, conseqúentemente, eles também.
Tarrou fez-lhe notar que, sob esse ponto de vista, todos eram suspeitos. Mas o outro era categórico e tinha sobre a questão opiniões bem definidas:
- Não, senhor, nem o senhor nem eu somos suspeitos. Eles são.
Mas o Sr. Othon não se alterava por tão pouco e, dessa vez, a peste não ia levar vantagem alguma. Entrava da mesma maneira na sala do restaurante, sentava-se antes dos filhos e continuava a dirigir-lhes frases distintas e hostis. Apenas o garoto mudara de aspecto. Vestido de preto como a irmã, um pouco mais curvado sobre si próprio, parecia uma
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pequena sombra do pai. O vigia, que não gostava do Sr. Othon, dissera a Tarrou:
- Ah! Aquele vai morrer todo vestido, nem será preciso arrumá-lo. Vai direitinho.
O sermão de Paneloux era também relatado, mas com o seguinte comentário: ”Compreendo esse simpático ardor. No começo dos flagelos e quando eles terminam, sempre se faz um pouco de retórica. No primeiro caso, não se perdeu ainda o hábito, e no segundo, ele já retornou. É no momento da desgraça que a gente se habitua à verdade, quer dizer, ao silêncio. Esperemos”.
Tarrou anotava, enfim, que tivera uma longa conversa com o Dr. Rieux, da qual recordava apenas que dera bons resultados e esclarecia, a propósito disso, a cor castanho-clara dos olhos da mãe do médico, afirmava estranhamente que um olhar onde se lia tanta bondade seria sempre mais forte que a peste e consagrava, por fim, longas páginas ao velho asmático tratado por Rieux.
Tinha ido vê-lo, com o médico, depois da entrevista. O velho acolhera Tarrou com risinhos, esfregando as mãos. Estava na cama, encostado ao travesseiro, por cima das suas duas panelas de grãos-de-bico. ”Ah, mais um”, dissera ele ao ver Tarrou. ”É o mundo às avessas, mais médicos que doentes. É que a coisa anda depressa, hem? O padre tem razão, é bem merecido.” No dia seguinte, Tarrou voltara sem avisar. Se se der crédito às suas anotações, o velho asmático, lojista de profissão, tinha decidido aos cinquenta anos que já trabalhara bastante. Metera-se na cama e não voltara a levantar-se desde então. No entanto, a sua asma conciliavase com o tempo em que estivera em pé. Uma pequena renda o mantivera até os setenta e cinco anos, cujo peso ele carregava alegremente. Não conseguia tolerar relógios e, na verdade, não havia um único em toda a casa. ”Um relógio é um objeto caro e bobo”, dizia ele. Calculava o tempo, e sobretudo a hora das refeições, a única que lhe importava, com suas duas panelas, uma das quais estava cheia de grãosde-bico quando acordava. Enchia a outra, uma a uma, com o mesmo movimento aplicado e regular. Encontrava assim seus pontos de referência, num dia medido por panelas. ”De quinze em quinze panelas”, dizia ele, ”é hora de comer. É muito simples.”
Aliás, a se acreditar na mulher, desde muito novo dera sinais dessa vocação. Na verdade, nada lhe interessara jamais: nem o trabalho, nem os amigos, nem os cafés, nem a música,
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nem as mulheres, nem os passeios. Nunca saía da cidade, exceto num dia em que, obrigado a ir a Argel para cuidar de negócios da família, tinha descido na estação mais próxima de Oran, incapaz de levar mais adiante a aventura, e voltara no primeiro trem.
A Tarrou, que parecera admirar-se da vida enclausurada que ele levava, tinha mais ou menos explicado que, segundo a religião, a primeira metade da vida de um homem era uma ascensão e a outra, um declínio; que no declínio, os dias do homem já não lhe pertenciam, que lhe podiam ser arrebatados a qualquer momento, que ele nada podia fazer deles, e que o melhor, justamente, era não fazer nada. A contradição, aliás, não o assustava, pois tinha pouco depois dito a Tarrou que certamente Deus não existia, já que, de outro modo, os padres seriam inúteis. No entanto, por certas reflexões que se seguiram, Tarrou compreendeu que essa filosofia estava estreitamente ligada ao estado de espírito que lhe davam os peditórios frequentes da sua paróquia. Mas o que completava o retraio do velho era um desejo que parecia profundo, e que ele exprimiu várias vezes perante seu interlocutor: esperava morrer muito velho.
”Será um santo?”, perguntava Tarrou a si próprio. E respondia: ”Sem dúvida, se a santidade é um conjunto de hábitos”.
Mas, ao mesmo tempo, Tarrou dedicava-se à descrição bastante minuciosa de um dia na cidade tomada pela peste, dando assim uma justa ideia das ocupações e da vida de nossos concidadãos durante esse verão. ”Ninguém ri, a não ser os bêbados”, dizia Tarrou, ”e esses riem demais.” Depois, retomava sua descrição:
”De madrugada, brisas leves percorrem a cidade ainda deserta. A essa hora que fica entre as mortes da noite e as agonias do dia, parece que a peste suspende por um instante seu esforço e toma fôlego. Todas as lojas estão fechadas. Mas, em algumas, o aviso ’Fechada por causa da peste’ atesta que não abrirão dentro em pouco como as outras. Vendedores de jornais meio adormecidos não gritam mais as notícias, mas, encostados às esquinas das ruas, oferecem sua mercadoria aos lampiões com gestos de sonâmbulos. Daqui a pouco, despertados pelos primeiros bondes, vão espalhar-se por toda a cidade, oferecendo de braço estendido as folhas onde se destaca a palavra ’peste’. ’Haverá um outono de peste?’ O Professor B. . . responde: ’Não’. Cento e vinte
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e quatro mortos, e eis o balanço depois de noventa e quatro dias de peste’.


Apesar da crise de papel, que se torna cada vez mais acentuada, e já forçou alguns periódicos a diminuírem o número de páginas, criou-se mais um jornal, O Correio da Epidemia, que se impõe como tarefa ’informar nossos concidadãos, com a preocupação de uma escrupulosa objetividade, dos progressos ou retrocessos da doença; fornecer as opiniões mais categorizadas sobre o futuro da epidemia; prestar o apoio de suas colunas a todos os que, conhecidos ou desconhecidos, estejam dispostos a lutar contra o flagelo; levantar o moral da população, transmitir as diretrizes das autoridades e, numa palavra, reunir todos os esforços para lutar de modo eficaz contra o mal que nos assola’. Na realidade, esse jornal limitou-se muito rapidamente a publicar anúncios de novos produtos infalíveis para evitar a peste. Por volta das seis horas da manhã, todos esses jornais começam a ser vendidos nas filas que se instalam às portas das lojas mais de uma hora antes da sua abertura, depois nos bondes que chegam, apinhados, dos subúrbios. Os bondes tornaram-se o único meio de transporte e avançam com grande dificuldade, os estribos sobrecarregados. Coisa curiosa, no entanto: todos os ocupantes, na medida do possível, voltam as costas aos outros para evitar um contágio mútuo. Nas paradas, o bonde despeja uma carga de homens e de mulheres cheios de pressa de se afastarem e de se isolarem. Frequentemente, ocorrem cenas devidas apenas ao mau humor, que se torna crónico.
Depois da passagem dos primeiros bondes, a cidade desperta pouco a pouco, as primeiras cervejarias abrem as portas, com os balcões carregados de avisos: ’Não há mais café’, ’Traga o seu açúcar’, etc. . . Depois, abrem-se as lojas, as ruas animam-se. Ao mesmo tempo, a luz sobe e o calor aumenta pouco a pouco no céu de julho. É a hora em que aqueles que não fazem nada se arriscam pelas avenidas. A maior parte parece ter-se encarregado de conjurar a peste pela ostentação do seu luxo. Todos os dias, por volta de onze horas, nas artérias principais, há um desfile de homens e de mulheres jovens, em que se pode sentir essa paixão de viver que cresce no seio das grandes desgraças. Quanto mais a epidemia se estender, mais o moral se tomará elástico. Voltaremos a ver as saturnais milanesas à beira das sepulturas.
Ao meio-dia, os restaurantes enchem-se num abrir e fechar de olhos. Muito depressa, formam-se à porta pequenos
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grupos que não conseguiram encontrar lugar. O céu começa a perder a luz por excesso de calor. À sombra dos grandes toldos, os candidatos à comida esperam a vez, à beira da rua estalam ao sol. Se os restaurantes são invadidos, é porque simplificam muito o problema do abastecimento. Mas deixam intacta a angústia do contágio. Os convivas perdem longos minutos limpando pacientemente os talheres. Não há muito tempo, certos restaurantes anunciavam: ’Aqui escaldam-se os talheres’. Pouco a pouco, porém, renunciaram a qualquer publicidade, já que os clientes eram forçados a vir. Aliás, o cliente gasta de bom grado. Os vinhos finos ou assim considerados, os suplementos mais caros, são o começo de uma corrida desenfreada. Parece também que houve cenas de pânico num restaurante, porque um cliente, indisposto, empalidecera, levantara-se cambaleando e dirigira-se rapidamente para a saída.
Por volta de duas horas, a cidade esvazia-se pouco a pouco e é então o momento em que o silêncio, a poeira, o sol e a peste se encontram na rua. Ao longo das grandes casas cinzentas, o calor desliza sem cessar. São longas horas prisioneiras que acabam nas tardes inflamadas que se abatem sobre a cidade populosa e tagarela. Durante os primeiros dias de calor, uma vez ou outra, e sem que se saiba por quê, as tardes eram desertas. Mas agora a primJira friagem traz uma trégua, se não uma esperança. Todos descem então para as ruas, falam para se atordoar, discutem ou desejam-se e, sob o céu vermelho de julho, a cidade, carregada de casais e de clamores, deriva em direção à noite ofegante. Em vão, todas as tardes nas avenidas, um velho inspirado, com um chapéu de feltro e gravata esvoaçante, atravessa a multidão, repetindo sem cessar: ’Deus é grande, vinde a Ele’. Todos se precipitam, pelo contrário, para qualquer coisa que mal conhecem ou que lhes parece mais urgente que Deus. A princípio, quando achavam que era uma doença como as outras, a religião tinha prestígio. Mas quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer. Toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos se dissolve então, no crepúsculo ardente e poeirento, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo.
E também eu sou como eles. Puro engano! A morte nada é para os homens como eu. É um acontecimento que lhes dá razão.”
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É
Foi Tarrou que pediu a Rieux a entrevista de que fala nos seus cadernos. Na noite em que Rieux o esperava, o médico contemplava a mãe, placidamente sentada a um canto da sala de jantar. Era aí que ela passava seus dias quando a arrumação da casa a deixava livre. com as mãos juntas sobre os joelhos, esperava. Rieux não tinha sequer a certeza de que fosse ele quem ela esperava. No entanto, qualquer coisa se alterava no seu rosto quando ele aparecia. Tudo que uma vida laboriosa nele colocara de mutismo parecia então animar-se. Depois, recaía no silêncio. Nessa noite, olhava através da janela para a rua deserta. A iluminação tinha sido diminuída de dois terços. E, aqui e ali, uma lâmpada muito fraca punha alguns reflexos nas sombras da cidade.
- Vão manter a iluminação reduzida durante toda a peste? - perguntou a Sra. Rieux.
- Provavelmente.
- Contanto que isso não dure até o inverno. . . Seria muito triste.
- É verdade - disse Rieux.
Viu o olhar da mãe pousar-lhe na fronte. Sabia que a inquietação e o excesso de trabalho dos últimos dias lhe haviam vincado o rosto.
- O dia não correu bem? - perguntou a Sra. Rieux.
- Oh, como de costume.
Como de costume! Quer dizer que o novo soro enviado de Paris parecia ser menos eficaz que o primeiro, e as estatísticas subiam. Continuava a não haver a possibilidade de inocular o soro preventivo a não ser nas famílias já atingidas. Teriam sido necessárias quantidades industriais para generalizar sua utilização. A maior parte dos abscessos recusavam-se a abrir-se, como se tivesse chegado a época do seu endurecimento, e torturavam os doentes. Desde a véspera, havia na cidade dois casos de uma nova forma da epidemia. A peste tornava-se então pulmonar. Nesse mesmo dia, no decurso de uma reunião, os médicos, exaustos diante de um prefeito desorientado, tinham pedido e obtido novas medidas para evitar o contágio que na peste pulmonar se fazia de boca a boca. Como sempre, não se sabia nada.
Olhou para a mãe. O belo olhar castanho revolveu nele anos de ternura.
- Está com medo, mamãe?
- Na minha idade, já não se teme muita coisa.



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