A peste Albert Camus



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Em certo sentido, pode-se dizer que sua vida era exemplar. Era um desses homens, raros na nossa cidade, como em qualquer lugar, que têm sempre a coragem de assumir seus bons sentimentos. O pouco que confidenciava dava provas de bondade e dedicação que não se ousa confessar nos nossos dias. Admitia, sem ruborizar, que gostava dos sobrinhos e da irmã, únicos parentes que lhe restavam e que, todos os anos, visitava na França. Reconhecia que a lembrança dos pais, mortos quando era ainda jovem, fazia com que sofresse. Não se recusava a admitir que amava, acima de tudo, um certo sino do seu bairro que tocava suavemente por volta de cinco horas da tarde. Para evocar emoções tão simples, contudo, a menor palavra custava-lhe mil esforços. Finalmente, essa dificuldade tinha-se tornado sua maior preocupação. ”Ah, doutor”, dizia, ”gostaria tanto de aprender a me expressar”. Falava disso a Rieux todas as vezes que o encontrava.
Nessa noite, o médico, ao ver o funcionário municipal partir, compreendeu de repente o que Grand tentara dizer: sem dúvida, ele estava escrevendo um livro ou algo semelhante. Já no laboratório, onde entrou por fim, isso tranqüilizara Rieux. Sabia que essa impressão era tola, mas não conseguia acreditar que a peste se pudesse instalar verdadeiramente numa cidade onde podiam encontrar-se funcionários modestos que cultivavam manias respeitáveis. Exatamente. Ele não imaginava um lugar para essas manias no meio da peste e julgava que ela não tinha praticamente futuro entre nossos concidadãos.
No dia seguinte, graças a uma insistência tida como fora de propósito, Rieux obtinha a convocação para a Prefeitura de uma comissão sanitária.
- É verdade que a população se inquietava - reconhecera Richard. - E depois os falatórios exageram tudo. O prefeito me disse: ”Vamos agir depressa se quiser, mas em silêncio”. Aliás, ele está convencido de que se trata de um alarme falso.
Bernard Rieux levou Gastei, no seu carro, à Prefeitura.
- Sabe - disse-lhe - que o departamento não tem soro?
- Sei. Telefonei para o depósito. O diretor caiu das nuvens. É preciso mandar vir de Paris.
- Espero que não demore.
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- Já telegrafei - respondeu Rieux. O prefeito estava amável, mas nervoso.
- Comecemos, senhores. Querem que resuma a situação?
Richard achava que era inútil. Os médicos conheciam a situação. A questão era apenas saber que medidas convinha tomar.
- A questão - interveio brutalmente o velho Gastei

- é saber se se trata de peste ou não.


Dois ou três médicos se sobressaltaram. Os outros pareciam hesitar. Quanto ao prefeito, estremeceu e voltou-se automaticamente para a porta, como para verificar se ela havia impedido aquela enormidade de se espalhar pelos corredores. Richard declarou que, em sua opinião, não se devia ceder ao pânico. Tratava-se de uma febre com complicações inguinais e era tudo o que se podia dizer, já que as hipóteses, na ciência como na vida, são sempre perigosas. O velho restei, que mastigava tranqüilamente o bigode amarelecido, levantou os olhos claros para Rieux. Depois dirigiu um olhar benevolente à plateia e declarou que sabia muito bem que era a peste, mas que, é claro, reconhecê-lo oficialmente implicaria medidas implacáveis. Ele sabia que era isso, no fundo, que fazia os colegas recuarem e portanto estava disposto a admitir, para tranqüilidade deles, que não era a peste. O prefeito agitou-se e afirmou que, em todo caso, não era uma boa maneira de argumentar.
- O importante - insistiu Gastei - não é que essa maneira de argumentar seja boa, mas que ela nos obrigue a refletir.
Como Rieux se calasse, perguntaram-lhe a sua opinião.
- Trata-se de uma febre de caráter tifóide, mas acompanhadas de abscessos e de vómitos. Fiz incisões nos abscessos. Pude, assim, provocar análises em que o laboratório julga reconhecer o bacilo da peste. Para ser preciso, é necessário dizer, entretanto, que certas modificações específicas do micróbio não coincidem com a descrição clássica.
Richard ressaltou que isso justificaria hesitações e que seria preciso esperar, pelo menos, o resultado estatístico da série de análises que começara há alguns dias.
- Quando um micróbio - disse Rieux, depois de um curto silêncio - é capaz, em três dias, de quadruplicar o volume do baço, de dar aos gânglios mesentéricos o volume de uma laranja e uma consistência de mingau, já não permite hesitações. Os focos de infecção encontram-se em extensão
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crescente. Pela rapidez com que a doença se propaga, se não for detida, pode matar metade da população em menos de dois meses. Conseqúentemente, pouco importa que lhe dêem o nome de peste ou febre de crescimento. O essencial é apenas impedi-la de matar metade da cidade.
Ríchard achava que era preciso não ver as coisas tão pretas e que, além disso, o contágio não estava provado, já que os parentes dos doentes estavam ainda indenes.
- Mas morreram outros - observou Rieux. - E, é preciso que se entenda, o contágio nunca é absoluto. Senão, teríamos uma progressão matemática infinita e um despovoamento fulminante. Não se trata de ver as coisas pretas, trata-se de tomar precauções.
Entretanto, Richard pensava em resumir a situação, lembrando que, para deter a doença, se ela não parasse por si só, seria necessário aplicar as graves medidas de profilaxia previstas na lei e que, para isso, seria necessário admitir oficialmente que se tratava da peste; como a certeza a esse respeito não era absoluta, isso exigia reflexão.
- A questão - insistiu Rieux - não é saber se as medidas previstas em lei são graves, mas se são necessárias para impedir que metade da população morra. O resto é com as autoridades, e, justamente, nossas leis prevêem um prefeito para resolver essas questões.
- Sem dúvida - retrucou o prefeito -, mas preciso que os senhores reconheçam oficialmente que se trata de uma epidemia de peste.
- Se não o reconhecermos, ela pode, apesar de tudo, matar metade da cidade.
Ríchard interveio com certo nervosismo.
- A verdade é que nosso colega acredita na peste. Sua descrição da síndrome o comprova.
Rieux respondeu que não descrevera uma síndrome, tinha descrito o que observara. E o que observara eram os furúnculos, as manchas, as febres delirantes, fatais em quarenta e oito horas. Poderia o Dr. Richard assumir a responsabilidade de afirmar que a epidemia se deteria sem medidas profiláticas rigorosas?
Ríchard hesitou e olhou para Rieux:
- Diga-me, sinceramente, o seu pensamento: tem certeza de que é a peste?
- O problema está mal colocado. Não é uma questão de vocabulário, é uma questão de tempo.
- A sua ideia - interveio o prefeito - seria que,
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mesmo que não se tratasse de peste, deveriam adotar-se as medidas profiláticas indicadas em tempo de peste.
- Se é absolutamente necessário que eu tenha uma ideia, é essa, com efeito.
Os médicos consultaram-se, e Richard acabou por dizer:
- É preciso, portanto, que se assuma a responsabilidade de agir como se a doença fosse a peste.
A fórmula foi calorosamente aprovada:
- É também a sua opinião, meu caro colega? - perguntou Richard.
- A fórmula me é indiferente - respondeu Rieux.

- Digamos apenas que não devemos agir como se metade da cidade não corresse o risco de morrer, porque senão ela morrerá de fato.


Em meio à irritação geral, Rieux partiu. Alguns momentos depois, no subúrbio que cheirava a fritura e a urina, uma mulher, com gritos terríveis, as virilhas ensanguentadas, voltava-se para ele.
No dia seguinte ao da reunião, a febre deu mais um pequeno salto. Chegou até os jornais, se bem que de uma forma benigna, já que se contentaram em fazer algumas alusões. No outro dia, em todo caso, Rieux podia ler pequenos cartazes brancos que a Prefeitura mandara rapidamente colar nos lugares mais discretos da cidade. Era difícil tirar desses cartazes a prova de que as autoridades encaravam a situação de frente. As medidas não eram draconianas, e pareciam muito submetidas ao desejo de não inquietar a opinião pública. O decreto dizia, na verdade, que tinham aparecido na comuna de Oran alguns casos de uma febre perniciosa que não se podia ainda caracterizar como contagiosa. Esses casos não eram bastante característicos para serem realmente inquietantes, e não havia dúvida de que a população saberia manter o sangue-frio. Contudo, e com um espírito de prudência que podia ser compreendido por todos, o prefeito tomava algumas medidas preventivas. Compreendidas e aplicadas como deviam sê-lo, essas medidas eram de natureza a debelar qualquer ameaça de epidemia. Conseqúentemente, o prefeito não duvidava por um só instante de que seus administrados dariam a mais dedicada colaboração ao seu esforço pessoal.
O cartaz anunciava, em seguida, medidas gerais, entre as quais uma desratização científica, por injeção de gases
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tóxicos nos esgotos, e uma vigilância estrita do íornenecirnento de água. Recomendava aos habitantes o asseio mais rigoroso e convidava, enfim, todos os que tinham pulgas a se apresentarem nos dispensários municipais. Por outro lado, as famílias deviam notificar obrigatoriamente os casos diagnosticados pelo médico e consentir no isolamento dos seus doentes em salas especiais do hospital. Aliás, essas salas estavam equipadas para tratar os doentes no mínimo de tempo e com o máximo de probabilidade de cura. Alguns artigos suplementares submetiam à desinfecção obrigatória o quarto do doente e o veículo de transporte. Quanto ao resto, o edital limitava-se a recomendar aos parentes que se submetessem a uma vigilância sanitária.
O Dr. Rieux afastou-se rapidamente do cartaz e retomou o caminho do consultório. Joseph Grand, que o esperava, levantou de novo os braços ao vê-lo.
- Sim - disse Rieux -, eu sei, os números estão subindo.
Na véspera, uma dezena de doentes havia sucumbido na cidade. O médico disse a Grand que talvez se encontrassem à noite, pois ia visitar Cottard.
- Tem razão - respondeu Grand. - Isso vai lhe fazer bem, pois eu o acho mudado,
- Como?
- Tornou-se gentil.
- Não era gentil antes?
Grand hesitou. Não podia dizer que Cottard fosse indelicado, a expressão não seria correta. Era um homem fechado e silencioso, com um jeito de javali. O seu quarto, um restaurante modesto e saídas bastante misteriosas eram toda a vida de Cottard. Oficialmente, era representante de vinhos e de licores. Uma vez ou outra recebia a visita de dois ou três homens, que deviam ser clientes. Às vezes, à noite, ia ao cinema que ficava em frente à casa. O empregado municipal chegara a notar que Cottard preferia os filmes de gângsteres. Em todas as ocasiões o representante de vinhos mantinha-se solitário e desconfiado.
Tudo isso, segundo Grand, mudara muito:
- Não sei como dizê-lo, mas tenho a impressão de que procura reconciliar-se com as pessoas, que quer todos do seu lado. Fala sempre comigo, convida-me para sair com ele e nem sempre consigo recusar. Aliás, ele me interessa e, enfim, salvei-lhe a vida.
Desde a tentativa de suicídio, Cottard nunca mais recebera
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visitas. Nas ruas, nas casas dos fornecedores, procurava conquistar todas as simpatias. Nunca empregara tanta suavidade ao falar com os merceeiros, tanto interesse em escutar a vendedora de tabaco.
- Essa vendedora de tabaco - observava Grand é uma verdadeira víbora. Disse isso a Cottard, mas ele respondeu-me que eu estava enganado e que ela possuía o seu lado born; era preciso saber descobri-lo.
Por duas ou três vezes, finalmente, Cottard tinha levado Grand aos restaurantes e bares luxuosos da cidade. Tinha, com efeito, começado a frequentá-los.
- A gente sente-se bem nesses lugares - dizia ele -, e, depois, a companhia é boa.
Grand tinha observado as atenções especiais que os empregados dispensavam ao representante de vinhos e compreendeu a razão quando viu as gorjetas excessivas que ele deixava. Cottard parecia muito sensível às amabilidades que recebia em troca. Num dia em que um maítre d’hôtel o acompanhara e ajudara a vestir o sobretudo, Cottard dissera a Grand:
- É Jom sujeito, pode perguntar a ele.
- Perguntar o quê? Cottard hesitara.
- Bem, perguntar se eu sou má pessoa.
Aliás, tinha um humor variável. Num dia em que o merceeiro se mostrara menos amável, voltara para casa em estado de furor desmedido.
- Passou para o lado dos outros, esse crápula repetia.
- Que outros?
- Todos os outros.
Grand chegara a assistir a uma cena curiosa com a vendedora de tabaco. No meio de uma conversa animada, ela falara de uma prisão recente que alvoroçava Argel. Tratavase de um jovem que matara um árabe numa praia.
- Se metessem toda essa corja na prisão - dissera a vendedora -, as pessoas honestas poderiam respirar.
Mas fora forçada a interromper-se, diante da agitação de Cottard, que se precipitara para fora da tabacaria sem uma palavra de desculpa. Grand e a empregada, boquiabertos, viram-no fugir.
Mais tarde, Grand devia também apontar a Rieux outras modificações no caráter de Cottard. Este sempre tivera opiniões muito liberais. Sua frase favorita, ”Os grandes
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sempre comem os pequenos”, provava-o bem. No entanto, há algum tempo comprava apenas o jornal conservador de Oran, e era impossível não acreditar que ele até se dava ao trabalho de ostentar, de certa forma, sua leitura nos lugares públicos.
Da mesma forma, alguns dias depois de ter-se levantado, pedira a Grand, que ia ao correio, para lhe fazer o favor de expedir um vale postal de cem francos que enviava mensalmente a uma irmã. Porém, no momento em que Grand saía, pedira-lhe:
- Mande-lhe duzentos. Será uma boa surpresa. Minha irmã acha que nunca penso nela. Mas a verdade é que a estimo muito.
Finalmente, tivera com Grand uma curiosa conversa. Este fora obrigado a responder às perguntas de Cottard, intrigado pelo trabalho a que Grand se entregava todas as noites.
- bom - dissera Cottard -, você está escrevendo um livro.
- Como queira, mas é mais complicado do que isso!
- Ah! - exclamara Cottard. - Gostaria de fazer o mesmo.
Grand mostrara-se surpreso e Cottard balbuciara que ser artista devia resolver muitas coisas.
- Por quê? - perguntara Grand.
- Ora, porque um artista tem mais direitos que os outros, todos sabem disso. Perdoam-lhe mais coisas.
- Ora, simplesmente - disse Rieux a Grand na manhã dos cartazes -, a história dos ratos virou-lhe a cabeça, como a de muitos outros. Ou, então, ele tem medo da febre.
- Não acho, doutor - respondeu Grand. - Se quer minha opinião. . .
O carro da desratização passou por baixo da janela com um grande ruído do cano de escapamento. Rieux calou-se até que fosse possível fazer-se ouvir e pediu distraidamente a opinião do funcionário municipal. Este olhava-o com gravidade.
- É um homem - disse - que tem qualquer coisa na consciência.
O médico deu de ombros. Como dizia o comissário, tinha mais o que fazer.
À tarde, Rieux teve uma reunião com Gastei. O soro ainda não tinha chegado.
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- De resto - perguntava Rieux -, será útil? Este bacilo é estranho.
- Oh! - respondeu Gastei. - Não concordo. Estes animais têm sempre um ar de originalidade. Mas, no fundo, é a mesma coisa.
- Você, pelo menos, assim o supõe. Na realidade, nada sabemos.
- Claro que suponho. Mas não só eu, a suposição é geral
Durante todo o dia, o médico sentiu aumentar a pequena vertigem que o atacava a cada vez que pensava na peste. Finalmente, reconheceu que tinha medo. Entrou por duas vezes em bares cheios de gente. Também ele, como Cottard, sentia necessidade de calor humano. Rieux achava aquilo idiota, mas isso o ajudou a lembrar-se de que prometera uma visita ao representante de vinhos.
À noite, o médico encontrou Cottard diante da mesa da sala de jantar. Quando entrou, via-se em cima da mesa um romance policial aberto. Mas a tarde já estava adiantada e devia ser difícil ler na obscuridade nascente. Era mais provável que Cottard, um minuto antes, estivesse sentado na penumbra, pensando. Rieux perguntou-lhe como ia. Cottard, sentando-se, resmungou que ia bem, e que iria ainda melhor se pudesse ter certeza de que ninguém se preocupava com ele. Rieux observou que não se podia ficar sempre só.
- Oh, não é isso, mas falo das pessoas que se ocupam em nos trazer problemas.
Rieux continuou calado.
- Não é o meu caso, note bem. Mas estava lendo este romance. Aí está um desgraçado que é preso de repente, numa certa manhã. Ocupavam-se dele e ele nada sabia. Falavam dele nas repartições, escreviam-lhe o nome em fichas. Acha que é justo? Acha que se tem direito de fazer isso a um homem?
- Depende - disse Rieux. - Em certo sentido, nunca se tem esse direito, na verdade. Mas tudo isso é secundário. Não se deve ficar muito tempo fechado em casa. O senhor precisa sair.
Cottard pareceu irritar-se e respondeu que não fazia outra coisa, que todo o bairro podia testemunhá-lo, se fosse necessário. Mesmo fora do bairro, não lhe faltavam conhecidos.
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- Conhece Rigaud, o arquiteto? É um dos meus amigos.
A penumbra aumentava na sala. A rua animava-se, e uma exclamação surda e de alívio saudou lá fora o instante em que as luzes se acenderam. Ríeux foi até a varanda e Cottard o seguiu. De todos os bairros em redor, como em todas as noites na nossa cidade, uma brisa ligeira trazia murmúrios, cheiros de carne grelhada, o zumbido alegre e perfumado da liberdade que enchia pouco a pouco a rua, invadida por uma mocidade ruidosa. À noite, os grandes gritos dos barcos invisíveis, o rumor que subia do mar e da multidão que passava, esta hora que Rieux conhecia tão bem e de que gostara outrora, parecia-lhe hoje opressiva por causa de tudo o que sabia.
- Podemos acender a luz? - perguntou a Cottard. Acesa a luz, o homenzinho olhou-o piscando os olhos.
- Diga-me, doutor: se eu adoecesse, aceitar-me-ia no seu serviço do hospital?
- Por que não?
Cottard perguntou, então, se já ocorrera de prenderem alguém que se encontrasse numa clínica ou num hospital. Rieux respondeu que sim, mas que tudo dependia do estado do enfermo.
- Eu - disse Cottard - tenho confiança no senhor. Depois perguntou ao médico se podia levá-lo para a
cidade no seu automóvel.
No centro da cidade, as ruas já estavam menos povoadas e as luzes, mais raras. Crianças brincavam ainda diante das portas. Quando Cottard pediu, o médico parou o carro diante de um grupo de crianças. Aos gritos, jogavam amarelinha. Mas um garoto, de cabelos pretos e lisos, traços perfeitos e rosto sujo, fixava Rieux com os olhos claros e ameaçadores. O médico desviou o olhar. Cottard, de pé na calçada, apertava-lhe a mão. O representante de vinhos falava numa voz rouca e difícil. Duas ou três vezes olhou para trás.
- Fala-se em epidemia, doutor. É verdade?
- As pessoas falam sempre, é natural - respondeu Rieux.
- Tem razão. E depois, quando tivermos uma dezena de mortos, vai ser o fim do mundo. Não era disso que precisávamos.
O motor já roncava. Rieux tinha o pé no acelerador, mas olhava de novo para a criança que não deixara de fitá-lo
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com o olhar grave e tranqüilo. E de repente, sem transição, a criança lhe sorriu, mostrando todos os dentes.


- Então, de que estamos precisando? - perguntou o médico, sorrindo para a criança.
Cottard agarrou o portão e, antes de se afastar, gritou, com uma voz cheia de lágrimas e de furor:
- De um terremoto. Um verdadeiro!
Não houve terremoto, e para Rieux o dia seguinte passou-se simplesmente em longas corridas aos quatro cantos da cidade, em conversas com as famílias dos doentes e em discussões com os próprios doentes. Nunca Rieux achara sua profissão tão pesada. Até então os doentes facilitavam-lhe o trabalho, entregando-se a ele. Pela primeira vez, o médico sentia-os reticentes, refugiados no fundo da sua doença, com uma espécie de espanto desconfiado. Era uma luta a que ainda não estava habituado. E por volta das dez da noite, com o carro parado diante da casa do velho asmático, que ele visitava por último, Rieux sentia dificuldade em se levantar do assento. Demorava-se a contemplar a rua escura e as estrelas que apareciam e desapareciam no céu negro. O velho asmático estava sentado na cama. Parecia respirar melhor e contava os grãos-de-bico, de uma panela para a outra. Recebeu o médico com um ar Fitisfeito.
- Então, doutor, é cólera?
- Que história é essa?
- Li no jornal. E o rádio disse também.
- Não, não é cólera.
- De qualquer maneira - disse o velho, muito excitado -, como falam, hem!
- Não acredite nisso - respondeu o médico. Examinara o velho e agora estava sentado no meio
daquela sala de jantar miserável. Sim, tinha medo. Sabia que no próprio subúrbio uma dezena de doentes o esperariam no dia seguinte, curvados sobre seus furúnculos. Apenas em dois ou três casos a incisão provocara uma melhora. Para a maioria, porém, seria o hospital e ele sabia o que isso significava para os pobres. ”Não quero que ele sirva para as experiências deles”, dissera-lhe a mulher de um dos seus doentes. Não serviria para as experiências deles. Morreria, nada mais. Era evidente que as medidas decretadas eram insuficientes. Quanto às salas ”especialmente equipadas”, sabia bem do que se tratava: dois pavilhões apressadamente evacuados dos seus outros doentes, com as janelas calafetadas, um cordão sanitário ao redor. Se a epidemia
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não parasse por si própria, não seria vencida pelas medidas que a administração tinha imaginado.
Entretanto, à noite, os comunicados oficiais continuavam otimistas.
No dia seguinte, a Agência Ransdoc anunciava que as medidas da prefeitura haviam sido acolhidas com serenidade e que já uns trinta doentes se tinham notificado. Gastei telefonara a Rieux:
- Quantos leitos tem o pavilhão?
- Oitenta.
- Certamente, há mais de trinta doentes na cidade.
- Há os que têm medo e os outros, mais numerosos, os que não tiveram tempo.
- Os funerais não são fiscalizados?
- Não. Telefonei a Richard para lhe dizer que eram necessárias medidas completas, não frases, e que ou era preciso erguer contra a epidemia uma verdadeira barreira, ou absolutamente nada.
- E então?
- Respondeu-me que não tinha poderes. Em minha opinião, a coisa vai aumentar.
Em três dias, na verdade, os dois pavilhões ficaram cheios. Richard julgava que iam desativar uma escola e um hospital auxiliar. Rieux aguardava as vacinas e abria os tumores. Gastei voltava aos seus velhos livros e fazia longos estágios na biblioteca.
- Os ratos morreram da peste ou de qualquer coisa muito parecida - concluía ele. - Puseram em circulação dezenas de milhares de pulgas que irão transmitir a infecção segundo uma progressão geométrica, se não conseguirmos detê-la a tempo.
Rieux calava-se.
Por essa época, o tempo pareceu estabilizar-se. O sol enxugava as poças dos últimos temporais. Um céu azul, transbordante de luz amarela, roncos de aviões no calor nascente, tudo na estação convidava à serenidade. Em quatro dias, no entanto, a febre deu quatro saltos surpreendentes: dezesseis mortos, vinte e quatro, vinte e oito, trinta e dois. No quarto dia, anunciou-se a abertura do hospital auxiliar numa escola maternal. Nossos concidadãos, que até então tinham continuado a disfarçar sua inquietação com gracejos, pareciam, nas ruas, mais abatidos e mais silenciosos. Rieux decidiu telefonar para o prefeito.
- As medidas são insuficientes.
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- Estou com os números - respondeu -, na verdade, são ínquietantes.
- São mais que Ínquietantes. São claros.
- vou pedir ordens ao governo-geral. Rieux desligou, diante de Gastei.
- Ordens! O que falta é imaginação.
- E o soro?
- Chega esta semana.
A prefeitura, por intermédio de Richard, pediu a Rieux um relatório destinado à capital da colónia, para solicitar ordens. Rieux fez uma descrição clínica e colocou números. No mesmo dia, contaram-se cerca de quarenta mortos. O prefeito assumiu a responsabilidade, como ele dizia, de intensificar a partir do dia seguinte as medidas prescritas. A notificação compulsória e o isolamento foram mantidos. As casas dos doentes deviam ser fechadas e desínfetadas, os que os rodeavam, submetidos a uma quarentena de segurança, os enterros, organizados pela cidade nas condições que veremos a seguir. Um dia depois, o soro chegava por avião. Era suficiente para os casos em tratamento. Era insuficiente se a epidemia viesse a se alastrar. Responderam ao telegrama de Rieux que o estoque de reserva estava esgotado e que estava sen^-b iniciada nova produção.



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