A peste Albert Camus



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Os números de Tarrou eram exatos. O Dr. Rieux sabia alguma coisa a respeito. Isolado o corpo do porteiro, telefonara a Richard para interrogá-lo sobre essas febres inguinais.
- Não compreendo nada - respondera Richard. Dois mortos, um no prazo de quarenta e oito horas, o outro, no de três dias. Eu tinha deixado o último, uma manhã, com todos os indícios de convalescença.
- Avise-me se tiver outros casos - disse Rieux. Telefonou ainda para outros médicos. Essa sindicância
mostrou uns vinte casos semelhantes em alguns dias. Quase todos tinham sido fatais. Pediu então a Richard, secretário do Sindicato dos Médicos de Oran, o isolamento dos novos doentes.
- Mas não posso fazer nada - respondeu Richard.

- Essas providências são com a prefeitura. Além disso, quem lhe diz que há risco de contágio?


- Ninguém, mas os sintomas são inquietantes. Richard, entretanto, achava que não tinha ”competência”. Tudo o que podia fazer era falar com o prefeito.
Porém, enquanto se falava, perdia-se tempo. No dia seguinte à morte do porteiro, grandes brumas cobriam o céu. Chuvas diluvianas e curtas abateram-se sobre a cidade, seguindo-se a esses bruscos aguaceiros um calor de tempestade. O próprio mar perdera o azul profundo e, sob o céu brumoso, tinha reflexos de prata ou de ferro, dolorosos à vista. O calor úmido dessa primavera nos fazia desejar os ardores do verão. Na cidade, construída em caracol sobre um planalto, quase fechada para o mar, reinava um morno torpor. No meio dos seus longos muros caiados, entre as ruas de vitrines poeirentas, nos bondes de um amarelo sujo, as pessoas sentiam-se um pouco prisioneiras do céu. Só o velho doente de Rieux dominava a asma para se regozijar com esse tempo.
- Está pegando fogo - dizia ele. - É bom para os brônquios.
Queimava, na verdade, mas nem mais nem menos do que uma febre. Toda a cidade estava com febre. Era essa pelo menos a impressão que perseguia o Dr. Rieux, na manhã em que se dirigia à Rue Faidherbe a fim de assistir ao inquérito sobre a tentativa de suicídio de Cottard. Mas essa impressão parecia-lhe insensata. Atribuía-a ao enervamento e às preocupações que o assaltavam, e admitiu que era urgente colocar um pouco de ordem nas ideias.
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Quando chegou, o comissário ainda não estava. Grand esperava no patamar, e decidiram entrar primeiro na sua casa deixando a porta aberta. O funcionário municipal ocupava duas peças sumariamente mobiliadas. Notava-se apenas uma estante de madeira branca guarnecida com dois ou três dicionários e um quadro-negro, onde se podiam ainda ler meio apagadas, as palavras ”aléias floridas”. Segundo Grand, Cottard tinha passado bem a noite. Mas de manhã tinha acordado com dor de cabeça e incapaz de qualquer reação. Grand parecia cansado e nervoso, passeando de um lado para outro, abrindo e fechando sobre a mesa uma grande pasta, cheia de folhas manuscritas.
Contou ao médico que conhecia mal Cottard, mas que julgava que tivesse alguns bens. Cottard era um homem estranho. Durante muito tempo suas relações tinham-se limitado a alguns cumprimentos nas escadas.
- Só tive duas conversas com ele. Há alguns dias, derrubei no patamar uma caixa de giz que trazia para casa. Havia giz vermelho e giz azul. Nesse momento, Cottard apareceu no patamar e ajudou-me a apanhá-los. Perguntoume para que servia esse giz de diferentes cores.
Grand explicara então que tentava recordar um pouco o seu latim. Desde o ginásio, seus conhecimentos tinham esmaecido.
- Garantiram-me - explicou ao médico - que é útil para conhecer melhor o sentido das palavras francesas.
Escrevia portanto palavras latinas no seu quadro. Copiava com giz azul a parte variável das palavras, segundo as declinações e as conjugações e, com giz vermelho, a invariável.
- Não sei se Cottard compreendeu bem, mas pareceu-me interessado e pediu-me um pedaço de giz vermelho. Fiquei um pouco surpreso, mas afinal. . . Não podia adivinhar, evidentemente, que isso iria servir ao seu propósito.
Rieux perguntou qual fora o assunto da segunda conversa. ^Mas, acompanhado do seu secretário, chegou o comissário, que quis ouvir, em primeiro lugar, as declarações de Grand. O médico observou que Grand, ao falar de Cottard, referia-se sempre a ele como o ”desesperado”. Empregou até, em certo momento, a expressão ”resolução fav’ .*scutiram sobre a causa do suicídio, e Grand mostrou-se hesitante na escolha dos termos. Deteve-se por fim nas palavras ”desgostos íntimos”. O comissário perguntou se
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algo na atitude de Cottard deixava prever o que ele chamava ”a sua determinação”.
- Bateu ontem à minha porta - respondeu Grand

- para me pedir fósforos. Dei-lhe a caixa. Pediu desculpas, dizendo que entre vizinhos... Depois, afirmou que me devolveria a caixa. Disse-lhe que ficasse com ela.


O comissário perguntou ao funcionário municipal se Cottard não lhe parecera estranho.
- O que me pareceu estranho foi ele mostrar vontade de conversar. Mas eu estava trabalhando.
Grand voltou-se para Rieux e acrescentou, com ar constrangido:
- Um trabalho pessoal.
Entretanto, o comissário queria ver o doente. Mas Rieux achava que primeiro era melhor preparar Cottard para essa visita. Quando entrou no quarto, ele estava erguido no leito, apenas com uma roupa de flanela acinzentada, e voltado para a porta com uma expressão de ansiedade.
- É a polícia, hem?
- É - disse Rieux. - Não se preocupe. Duas ou três formalidades e deixá-lo-ão em paz.
Mas Cottard respondeu que isso não servia para nada e que não gostava da polícia. Rieux ficou impaciente.
- Eu também não morro de amores por ela. Trata-se de responder depressa t corretamente às perguntas para acabar com isso de uma vez por todas.
Cottard calou-se, e o médico voltou à porta. Mas o sujeitinho chamou-o e agarrou-lhe as mãos quando chegou perto da cama.
- Não se pode tocar num doente, num homem que se enforcou, não é verdade, doutor?
Rieux olhou-o por um momento e, finalmente, garantiu que nunca se cogitara de nada desse género e que enfim ele estava ali para proteger o seu doente. Este pareceu acalmar-se, e Rieux mandou entrar o comissário.
Leram para Cottard o depoimento de Grand e perguntaram-lhe se podia precisar os motivos de seu ato. Ele respondeu apenas, e sem olhar para o comissário, que ”desgostos íntimos” estava muito bem. O comissário forçou-o a dizer se tinha vontade de reincidir. Cottard, animando-se, respondeu que não e que só desejava que o deixassem em paz.
- Convém observar - disse o comissário, num tom
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irritado - que no momento é o senhor que perturba a
paz
dos outros.
Mas, a um sinal de Rieux, calou-se.
- O senhor compreende - suspirou o comissário, ao sair -, temos outros problemas com que nos ocupar desde que se fala dessa febre. . .
Perguntou ao médico se a coisa era séria, e Rieux respondeu que nada sabia.
- É o tempo, mais nada - concluiu o comissário.
Era o tempo, sem dúvida. Tudo ficava pegajoso à medida que o dia avançava, e Rieux sentia crescer sua apreensão a cada visita. Na noite daquele mesmo dia, no subúrbio, um vizinho do velho doente apertava as virilhas e vomitava em meio ao delírio. Os gânglios estavam ainda maiores que os do porteiro. Um deles começava a supurar e logo se abriu como um fruto podre. Chegando a casa, Rieux telefonou para o depósito de produtos farmacêuticos do departamento. Suas notas profissionais mencionam, apenas, nessa data: ”Resposta negativa”. E já o chamavam de outros lugares para casos semelhantes. Era evidente que se tornava necessário abrir os abscessos. Dois golpes de bisturi em cruz, e dos gânglios escorria uma pasta sangrenta. Os doentes sangravam. Mas surgiam manchas no ventre e nas pernas, um gânglio deixava de supurar, depois tornava a inchar. Na maior parte das vezes o doente morria exalando um cheiro terrível.
A imprensa, tão indiscreta no caso dos ratos, já não mencionava nada. É que os ratos morrem na rua e os homens, em casa. E os jornais só se ocupam da rua. Mas a prefeitura e a municipalidade começavam a se questionar. Enquanto cada médico não tinha tido conhecimento de mais de dois ou três casos, ninguém pensara em se mexer. Mas, em resumo, bastou que alguém pensasse em fazer a soma, e a soma era alarmante. Em apenas alguns dias, os casos mortais multiplicaram-se e tornou-se evidente, para aqueles que se preocupavam com a curiosa moléstia, que se tratava de uma verdadeira epidemia. Foi o momento que Gastei, colega de Rieux, muito mais velho que ele, escolheu para ir visitá-lo.
- Naturalmente - perguntou -, sabe do que se trata, Rieux?
- Estou esperando o resultado das análises.
- Pois eu sei. E não preciso de análises. Fiz uma parte da minha carreira na China e vi alguns casos em Paris, há
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uns vinte anos. Simplesmente, não se teve a coragem de lhe dar um nome. A opinião pública é sagrada: nada de pânico. Sobretudo, nada de pânico. E depois, como dizia um colega: ”É impossível, tojo mundo sabe que ela desapareceu do Ocidente”. Sim, todos sabiam, exceto os mortos. Vamos, Rieux, você sabe tão bem quanto eu o que é.
Rieux refletia. Pela janela do escritório olhava a falésia rochosa que se fechava, ao longe, sobre a baía. O céu, embora azul, tinha um brilho pálido que se esbatia à medida que a tarde avançava.
- É verdade, Gastei - respondeu. - É incrível, mas parece peste.
Gastei levantou-se e dirigiu-se para a porta.
- Você sabe o que vão nos responder - disse o velho médico: - ”Ela desapareceu dos países temperados há muitos anos”.
- Que quer dizer isso. . . desapareceu? - perguntou Rieux, encolhendo os ombros.
- Sim, não se esqueça: em Paris ainda, há quase vinte anos.
- Bem, esperemos que não seja mais grave hoje que naquela época. Mas é realmente incrível.
A palavra ”peste” acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste momento da narrativa, com Bernard Rieux atrás da janela, permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, já que, com algumas variações, sua reação foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como nossos concidadãos, é necessário compreender assim as duas hesitações. E por isso é preciso compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: ”Não vai durar muito, seria idiota”. E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Nossos concidadãos, a esse respeito, eram como todo mundo: pensavam em si próprios. Em outras palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não
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está à altura do homem; diz-se então que o flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam, e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram suas precauções. Nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos.
Mesmo depois de o Dr. Rieux ter reconhecido, diante do amigo, que um punhado de doentes dispersos acabavam de morrer da peste, sem aviso, o perigo continuava irreal para ele. Simplesmente, quando se é médico, faz-se uma ideia da dor e tem-se um pouco mais de imaginação. Ao olhar pela janela sua cidade que não mudara, era com dificuldade que Rieux sentia nascer dentro de si esse ligeiro temor diante do futuro, que se chama inquietação. Ele procurava reunir no seu espírito o que sabia sobre a doença. Flutuavam números na sua memória, e dizia a si próprio que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E já que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação. O médico lembrava-se da peste de Constantinopla, que, segundo Procópio, tinha feito dez mil vítimas em um só dia. Dez mil mortos são cinco vezes o público de um grande cinema. Aí está o que se deveria fazer. Juntam-se as pessoas à saída de cinco cinemas para conduzi-las a uma praça da cidade e fazê-las morrer aos montes para se compreender alguma coisa. Ao menos, poder-se-iam colocar alguns rostos conhecidos nesse amontoado anónimo. Mas, naturalmente, isso é impossível de realizar, e depois, quem conhece dez mil rostos? Além disso, sabe-se que as pessoas como Procópio não sabiam contar. Em Cantão, há setenta anos, quarenta mil ratos tinham morrido da peste, antes que o flagelo se interessasse pelos habitantes. Mas, em 1871, não havia um meio de contar os ratos. Fazia-se o cálculo aproximado, por alto, com evidentes probabilidades de erro. Contudo, se um
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rato tem trinta centímetros de comprimento, quarenta mil ratos em fila dariam. . .
Mas o médico impacientava-se. Deixava-se entregar, e isso era perigoso. Alguns casos não constituem uma epidemia, e tJsta tomar precauções. Era preciso limitar-se àquilo que se sabia: o torpor e a prostração, os olhos vermelhos, a boca suja, a dor de cabeça, os tumores, a sede terrível, o delírio, as manchas no corpo, o dilaceramento interior e, no fim de tudo... No fim de tudo, uma frase surgia no espírito do Dr. Rieux, uma frase que no seu manual terminava justamente a enumeração dos sintomas: ”O pulso torna-se filiforme e a morte sobrevêm por ocasião de um movimento insignificante”. Sim, no fim de tudo ficávamos presos por um fio, e três quartos da população - era o número exato

- estavam impacientes para fazer o movimento imperceptível que as precipitaria,


O médico continuava a olhar pela janela. De um lado da vidraça, o céu fresco da primavera; do outro, a palavra que ressoava ainda na sala: peste. A palavra não continha apenas o que a ciência queria efetivamente atribuir-lhe, mas uma longa série de imagens extraordinárias que não combinavam com essa cidade amarela e cinzenta, moderadamente animada a essa hora, mais zumbidora que ruidosa, feliz em suma, se é possível ser ao mesmo tempo feliz e taciturno. E uma tranqüilidade tão pacífica e tão indiferente negava quase sem esforço as velhas imagens do flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos; os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos, os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o carnaval dos médicos mascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda parte e sempre cheios de gritos intermináveis dos homens. Não, tudo isso não era ainda bastante forte para matar a paz desse dia. Do outro lado da vidraça, a campainha de um bonde invisível tilintava de repente e refutava num segundo a crueldade e a dor. Só o mar, ao fundo do tabuleiro baço das casas, comprovava o que há de inquietação e de eterna falta de tranqüilidade neste mundo. E o Dr. Rieux, que olhava para o golfo, pensava nas fogueiras
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citadas por Lucrécio e que os atenienses atacados pela doença acendiam à beira do mar. Levavam os mortos para lá durante a noite, mas o lugar era pequeno e os vivos batiam-se a golpes de archote para colocarem os que lhes tinham sido queridos, sustentando lutas sangrentas para não abandonarem os cadáveres. Podia-se imaginar as fogueiras rubras diante da água tranqüila e escura, os combates de archotes na noite crepitante de fagulhas e densos vapores envenenados subindo para o céu atento. Podia-se recear. . .
Mas essa vertigem não se mantinha diante da razão. É verdade que a palavra ”peste” fora pronunciada, é verdade que, nesse mesmo instante, o flagelo abalava e derrubava uma ou duas vítimas. Mas, que diabo, aquilo podia parar, O necessário era reconhecer claramente o que devia ser reconhecido, expulsar enfim as sombras inúteis, tomar as providências adequadas. Em seguida, a peste pararia, porque ou não se podia imaginar a peste, ou então a imaginávamos de modo falso. Se ela parasse - o que era o mais provável -, tudo correria bem. Caso contrário, saber-se-ia o que ela era para, não havendo meio de se defender dela primeiro, vencê-la em seguida.
O médico abriu a janela, e o ruído da cidade cresceu de repente. De uma oficina vizinha chegava o silvo breve e repetido de uma serra mecânica. Rieux despertou. Aí estava a certeza, no trabalho de todos os dias. O resto, prendia-se a fios, a movimentos insignificantes, não se podia perder tempo com isso. O essencial era cumprir o seu dever.
O Dr. Rieux estava nessa altura de suas reflexões quando lhe anunciaram Joseph Grand. Como era funcionário da municipalidade, embora suas ocupações fossem muito diversas, utilizavam-no periodicamente no serviço da estatística do registro civil. Assim é que ele tinha de fazer a contagem dos óbitos. E, prestativo por natureza, concordara em levar pessoalmente à casa de Rieux uma cópia dos seus resultados.
O médico viu entrar Grand na companhia do seu vizinho Cottard. O funcionário municipal brandia uma folha de papel.
- Os números sobem, doutor - anunciou. - Onze mortos em quarenta e oito horas.
Rieux cumprimentou Cottard e perguntou-lhe como se sentia. Grand explicou que Cottard fizera questão de agradecer
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ao médico e pedir-lhe desculpas pelos transtornos que lhe causara. Mas o médico olhava para a folha de estatística.
- Vamos - disse Rieux -, talvez seja preciso decidirmo-nos a chamar essa doença pelo seu nome verdadeiro. Até &ÉJora, estamos tateando. Mas venha comigo, preciso ir ao laboratório.
-• Sim, sim -• dizia Grand, ao descer as escadas atrás do médico. - É preciso chamar as coisas pelo nome verdadeiro. Mas que nome é esse?
- Não posso lhe dizer e, além disso, de nada lhe serviria.
- Está vendo? - disse o funcionário municipal, com um sorriso. - Não é fácil.
Digiriram-se para a Place d’Armes. Cottard continuava calado. As ruas começavam a encher-se de gente. O crepúsculo fugidio da nossa região já começava a recuar diante da noite, e as primeiras estrelas apareciam no horizonte ainda nítido. Um instante depois, as lâmpadas, acendendo-se por cima das ruas, obscureceram todo o céu, e o ruído das conversas pareceu subir de tom.
- Desculpem-me - disse Grand, na esquina da Place d’Armes -, mas preciso tomar o bonde. Minhas noites são sagradas. Como dizem na minha terra: ”Não se deve deixar para amanhã.
Rieux já notara essa mania de Grand, nascido em Montélimar, de evocar provérbios regionais e de acrescentar, em seguida, fórmulas banais que não eram de lugar algum, como: ”um tempo de sonho” ou ”uma iluminação feérica”.
- Ah - disse Cottard -, é verdade. É impossível arrancá-lo de casa depois do jantar.
Rieux perguntou a Grand se trabalhava para a prefeitura. Grand respondeu que não, que trabalhava por conta própria.
- Ah - disse Rieux, para ter o que dizer -, e está dando certo?
- Há anos que trabalho nisto, forçosamente. Embora, em outro sentido, não haja muitos progressos.
- Mas, afinal, de que se trata? - perguntou o médico, detendo-se.
Grand gaguejou, enterrando o chapéu sobre as orelhas. E Rieux compreendeu muito vagamente que se tratava de qualquer coisa sobre o desenvolvimento de uma personalidade. Mas o funcionário já os deixava e subia o Boulevard de La Mame, sob os f í cus, com um passo apressado. À
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entrada do laboratório, Cottard disse ao médico que gostaria muito de consultá-lo para pedir-lhe orientação. Rieux, que remexia nos bolsos a folha de estatística, convidou-o a ir ao consultório, mas depois, mudando de opinião, disse-lhe que iria no dia seguinte ao seu bairro e que passaria pela sua casa no fim da tarde.
Ao deixar Cottard, o médico se deu conta de que pensava em Grand. Imaginava-o no meio de uma peste, e não daquela, que sem dúvida não seria séria, mas de uma das grandes pestes da história. ”É o tipo de homem que é poupado nesses casos.” Lembrava-se de ter lido que a peste poupava as constituições fracas e destruía sobretudo as compleições vigorosas. E, continuando a pensar nisso, o médico descobria no empregado municipal um arzinho de mistério.
À primeira vista, com efeito, Joseph Grand nada era além do pequeno funcionário municipal que aparentava ser. Alto e magro, flutuava dentro das roupas, largas demais, e assim escolhidas por ele na ilusão de que durariam mais. Se conservava ainda a maior parte dos dentes do maxilar inferior, em contrapartida perdera a maior parte dos superiores. O sorriso, que lhe erguia o lábio superior, tornava-lhe a boca escura. Se se acrescentar a esse retrato um andar de seminarista, a arte de resvalar pelas paredes e de deslizar por entre as portas, um perfume de adega e de fumaça, todos os sinais da insignificância, reconhecer-se-á que só era possível imaginá-lo diante de uma mesa, revendo as tarifas dos banhos de ducha da cidade ou reunindo, para um jovem redator, os elementos de um relatório sobre a nova taxa de lixo. Mesmo para um espírito desavisado, ele parecia ter vindo ao mundo para exercer as funções, discretas mas indispensáveis, de auxiliar municipal temporário, a sessenta e dois francos e trinta centavos por dia.
Era, na verdade, a menção que ele dizia constar das folhas de emprego, em seguida à palavra ”qualificação”. Quando, há vinte e dois anos, ao fim de uma licenciatura além da qual, por falta de dinheiro, ele não pudera ir, aceitara esse emprego, haviam lhe dado a esperança, segundo ele, de uma ”efetivação rápida”. Tratava-se apenas de dar, durante algum tempo, provas de competência nas questões delicadas que a administração da nossa cidade apresentava. Depois, tinham-lhe garantido, não poderia deixar de chegar ao lugar de redator que lhe permitiria viver comodamente. Certamente não era a ambição que fazia Joseph Grand agir, segundo ele assegurava com um sorriso melancólico, e sim
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a perspectiva de uma vida material assegurada por meios honestos. Conseqúentemente, sorria-lhe a perspectiva de entregar-se sem remorsos às suas ocupações favoritas. Se aceitara a oferta que lhe faziam, fora por motivos dignos e, se assim se pode dizer, por fidelidade a um ideal.
Havia muitos anos que esse estado de coisas provisório durava, o custo de vida tinha aumentado em proporções desmedidas, e o ordenado de Grand, apesar de alguns aumentos gerais, era ainda irrisório. Tinha-se queixado a Rieux, mas ninguém parecia dar importância ao fato. É aqui que se mostra a originalidade de Grand ou, pelo menos, um dos seus sinais. Ele teria podido, com efeito, fazer valer, se não os direitos, de que não estava muito seguro, pelo menos as garantias que lhe tinham dado. Mas, em primeiro lugar, o chefe de rep irtição que o tinha contratado morrera há muito tempo e o empregado municipal não se lembrava tampouco dos termos exatos da promessa que lhe fora feita. Enfim, Joseph Grand não achava as palavras.
Era essa particularidade que melhor retratava o nosso concidadão, como Rieux pôde observar. Era ela, na verdade, que o impedia sempre de escrever a carta de reclamação em que meditava ou de tomar as medidas que as circunstâncias exigiam. A acreditar nele, sentia-se particularmente impedido de empregar a palavra ”direito” sobre a qual não estava seguro ou ”promessas”, que teria implicado exigências do que lhe era devido, e teria, por consequência, se revestido de um caráter de ousadia pouco compatível com a modéstia das funções que desempenhava. Por outro lado, recusava-se a empregar os termos ”benevolência”, ”solicitar”, ”gratidão” que, no seu entender, não se coadunavam com sua dignidade pessoal. Assim, por falta da palavra certa, nosso concidadão continuou a exercer suas obscuras funções até uma idade bastante avançada. Aliás, e sempre segundo o que ele dizia a Rieux, deu-se conta, com o hábito, de que, de qualquer maneira, sua vida material estava assegurada, já que lhe bastava afinal adaptar suas necessidades aos seus recursos. Reconheceu, assim, o acerto de uma das frases prediletas do prefeito, grande industrial de nossa cidade, que afirmava enfaticamente que afinal - e acentuava bem essa palavra que continha todo o peso do raciocínio - afinal, portanto, nunca se tinha visto ninguém morrer de fome. De qualquer forma, a vida quase ascética que Joseph Grand levava, na verdade, finalmente o liberava de qualquer preocupação dessa ordem. Continuava a procurar as palavras.



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