A peste Albert Camus



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não havia um só de seus sofrimentos que não fosse ao mesmo tempo o dos outros e que, num mundo em que a dor é tantas vezes solitária, isso era uma vantagem. Decididamente, devia falar por todos.
Mas há um de nossos concidadãos, pelo menos, pelo qual o Dr. Rieux não podia falar. Tratava-se, na verdade, daquele de quem Tarrou lhe tinha dito um dia ”Seu único verdadeiro crime foi ter aprovado de coração o que fazia morrer as crianças e os homens. O resto, compreendo-o, mas isso sou obrigado a perdoar-lhe”. É justo que esta crónica termine com aquele que tinha um coração ignorante, quer dizer, solitário.
Quando saiu das grandes ruas barulhentas e da festa, no momento de entrar na rua de Grand e de Cottard, o Dr. Rieux, com efeito, foi detido por uma barreira de policiais. Não esperava por isso. Os rumores longínquos da festa faziam o bairro parecer silencioso, e ele o imaginava tão deserto quanto mudo. Tirou seu cartão de identidade.
- Impossível, doutor - disse-lhe o guarda -, há um louco que está atirando sobre a multidão. Mas fique aí, poderá ser útil.
Nesse momento, o doutor viu Grand, que se dirigia a ele. Grand também nada sabia. Impediam sua passagem e diziam que os tiros saíam de sua casa. De longe, via-se, na verdade, a fachada, dourada pela última luz de um sol sem calor. À sua volta, recortava-se um grande espaço vazio que ia até a calçada em frente. No meio da rua, via-se distintamente um chapéu e um pedaço de pano sujo. Rieux e Grand podiam ver muito longe, do outro lado da rua, um cordão de policiais, paralelo ao que os impedia de avançar e por trás do qual alguns habitantes do bairro passavam e tornavam a passar rapidamente. Olhando bem, viram também policiais de revólver em punho, agachados nas portas dos edifícios em frente da casa. Desta, todas as persianas estavam corridas. No segundo andar, contudo, uma delas parecia meio arrancada. O silêncio era completo na rua. Ouviam-se apenas os restos de música que chegavam do centro da cidade.
Em certo momento, dos edifícios em frente da casa saíram dois tiros de revólver e saltaram estilhaços da persiana desmantelada. Depois, tudo ficou de novo em silêncio. De longe, depois do tumulto do dia, aquilo parecia um pouco irreal a Rieux.
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- É a janela de Cottard - disse de repente Grand, muito agitado. - Mas Cottard desapareceu.
- Por que disparam? - perguntou Rieux a um policial.
- Para distraí-lo. Estamos esperando um carro com o material necessário, pois ele atira sobre os que tentam entrar pela porta do edifício. Já há um policial ferido.
- Por que ele atirou?
- Não se sabe. As pessoas divertiam-se na rua. Ao primeiro tiro de revólver, não compreenderam. No segundo, houve gritos, um ferido e todos fugiram. É um louco, só pode ser!
No silêncio que voltara, os minutos pareciam arrastarse. De repente, do outro lado da rua, viram aparecer um cão, o primeiro que Rieux via há muito tempo, um víra-lata sujo que os donos deviam ter escondido até então, e que trotava beirando o muro. Chegando à porta, hesitou, sentou-se e começou a catar as pulgas. Vários assobios dos policiais chamaram-no. Ele levantou a cabeça, depois decidiu-se a atravessar lentamente a rua para ir farejar o chapéu. No mesmo momento, um tiro partiu do segundo andar, e o cão voltou-se, agitando violentamente as patas, para cair depois de flanco, sacudido por longas convulsões. Em resposta, cinco ou seis disparos vindos das portas em frente despedaçaram mais a persiana. O silêncio caiu de novo. O sol baixava um pouco e a sombra começava a aproximar-se da janela de Cottard. Freios gemeram na rua, por detrás do doutor.
- Estão aí - disse o policial.
Por trás deles, apareceram policiais, trazendo cordas, uma escada e dois embrulhos oblongos, envolvidos em oleado. Dirigiram-se para uma rua que contornava o bloco de casas em frente ao prédio de Grand. Um momento depois, adivinhou-se mais do que se viu uma certa agitação às portas dessas casas. Depois, esperou-se. O cão já não se mexia, mas estava agora caído numa poça escura.
De repente, das janelas das casas ocupadas pelos policiais saiu uma rajada de metralhadora. A persiana visada desfez-se literalmente e deixou a descoberto uma superfície negra, onde Rieux e Grand, do seu lugar, nada podiam distinguir. Quando a rajada parou, uma segunda metralhadora crepitou, de outra esquina, de uma casa mais adiante. As balas entravam, sem dúvida, no quadrado da janela, já que uma delas fez saltar um estilhaço de tijolo. No mesmo segundo,
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três policiais atravessaram a rua correndo e mergulharam pela porta de entrada. Quase imediatamente, precipitaram-se para lá mais três, e o fogo da metralhadora parou. Mais uma espera. Duas detonações longínquas ressoaram no prédio. Depois, ouviu-se um rumor, e viu-se sair da casa, mais carregado do que arrastado, um homenzinho em mangas de camisa, que gritava sem parar. Como por milagre, todas as persianas fechadas da rua se abriram e as janelas guarneceram-se de curiosos, enquanto uma multidão de pessoas saía das casas e se comprimia por detrás das barreiras. Por um momento, viu-se o homenzinho no meio da rua, com os pés finalmente no solo, os braços seguros atrás das costas pelos policiais. Gritava. Um policial aproximou-se dele e deu-lhe dois murros, com toda a força dos seus punhos, lentamente, com uma espécie de calma aplicação.
- É Cottard - balbuciava Grand. - Enlouqueceu. Cottard tinha caído. Viu-se, ainda, o policial chutar corn
toda a força o monte que jazia por terra. Depois, um grupo confuso agitou-se e dirigiu-se para o médico e seu velho amigo.
- Todos andando - disse o policial.
Rieux desviou os olhos quando o grupo passou diante dele.
Grand e o médico partiram no crepúsculo, que terminava. Como se o acontecimento tivesse sacudido o torpor em que o bairro adormecera, essas ruas afastadas enchiam-se de novo com o zumbido de uma multidão em festa. Junto à casa, Grand despediu-se do doutor. Ia trabalhar. Mas no momento de subir disse-lhe que tinha escrito a Jeanne e que, agora, sentia-se feliz. E depois tinha recomeçado sua frase. ”Eliminei todos os adjetivos”, disse.
E, com um sorriso malicioso, tirou o chapéu numa saudação cerimoniosa. Mas Rieux pensava em Cottard e no barulho surdo dos punhos que esmagavam seu rosto, que o perseguia enquanto se dirigia à casa do velho asmático. Talvez fosse mais duro pensar num homem culpado que num homem morto.
Quando Rieux chegou à casa de seu velho doente, a noite já devorava todo o céu. Do quarto, podia-se ouvir o rumor longínquo da liberdade, enquanto o velho continuava imperturbável, a despejar seus grãos-de-bico.
- Eles têm razão em divertir-se. É preciso de tudo nesre mundo. E seu colega, doutor, que houve com ele?
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Chegavam até eles detonações, mas eram pacíficas: crianças que soltavam suas bombas.
- Morreu - disse o doutor, auscultando o peito resfolegante.
- Ah! - exclamou o velho, um pouco perplexo.
- Peste - acrescentou Rieux.
- É verdade - reconheceu o velho, um instante depois -, são os melhores que partem. É a vida. Mas era um homem que sabia o que queria.
- Por que diz isso? - perguntou o médico, arrumando o estetoscópio.
- Por nada. Nunca falava para não dizer nada. Enfim, ele me agradava. Mas é assim. Os outros dizem: ”É a peste, tivemos peste”. Por pouco, pediriam que os condecorassem. Mas que quer dizer isso, a peste? É a vida, nada mais.
- Faça suas inalações regularmente.
- Oh! Não tenha medo. Ainda vou viver muito tempo e vê-los morrer todos. Eu sei viver.
Uivos de alegria responderam-lhe ao longe. O médico parou no meio do quarto.
- Não se importa que eu vá até o terraço?
- Claro que não. Quer vê-los lá de cima, hem? À vontade. Mas são sempre os mesmos.
Rieux dirigiu-se para a escada.
- Diga-me, doutor, é verdade que vão construir um monumento às vítimas da peste?
- O jornal assim o diz. Uma coluna ou uma lápide.
- Tinha certeza. E haverá discursos. O velho ria com um riso estrangulado.
- Parece que consigo ouvi-los daqui: ”Nossos mortos. . .” E depois vão encher a barriga.
Rieux já subia a escada. O grande céu frio cintilava por cima das casas e, perto das colinas, as estrelas endureciam como sílex. Esta noite não era tão diferente daquela em que Tarrou e ele tinham vindo a esse mesmo terraço para esquecer a peste. Mas hoje, o mar estava mais barulhento que então junto às falésias. O ar estava imóvel e leve, aliviado pelos sopros salgados que o vento morno do outono trazia. O rumor da cidade, contudo, continuava a chegar aos terraços com um marulho de vaga. Mas essa noite era a da libertação e não a da revolta. Ao longe, uma mancha vermelha, escura, indicava a localização das avenidas e das praças iluminadas. Na noite agora libertada, o desejo não conhecia barreiras e era seu rumor que chegava até Rieux.
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Do morro escuro, subiram os primeiros foguetes dos festejos oficiais. A cidade saudou-os com uma longa e surda exclamação. Cottard, Tarrou, aqueles e aquela que Rieux tinha amado e perdido, todos, mortos ou culpados, estavam esquecidos. O velho tinha razão, os homens eram sempre os mesmos. Mas essa era sua força e sua inocência, e era aqui que Rieux, acima de toda dor, sentia que se juntava a eles. Em meio aos gritos que redobravam de força e de duração, que repercutiam longamente junto do terraço, à medida que as chuvas multicores se elevavam mais numerosas no céu, o Dr. Rieux decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor dessas vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.
Mas, no entanto, sabia que esta crónica não podia ser a da vitória definitiva. Podia, apenas, ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que, sem dúvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e sua arma infatigável, a despeito das feridas pessoais, todos os homens que, não podendo ser santos e recusando-se a admitir os flagelos, se esforçam no entanto por ser médicos.
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.
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O AUTOR E SUA OBRA
Quando o prémio Nobel de Literatura de 1957 foi concedido ao escritor francês Albert Camus, ele já era considerado um dos autores mais significativos e representativos de seu tempo. Isso apesar da pouca idade. Camus recebeu o prémio aos quarenta e quatro anos, e, depois do poeta inglês Rudyard Kipling - que o conquistou aos quarenta e dois anos -, era o mais jovem detentor do Nobel de literatura.
Mas a idade pouco tinha a ver com a importância que Camus assumira gradativamente no panorama da cultura francesa. Como já acontecera outras vezes, o prémio não foi concedido exclusivamente ao romancista, mas também ao pensador, ao homem preocupado com as angústias do século, o absurdo e o desespero que determinam o ato de existir, e decididamente envolvido na luta diária que tornava possível a esperança.
Esperança que ele exerceu, com maior ou menor intensidade, por quarenta e sete anos, quando a morte o surpreendeu, a cem quilómetros de Paris. Uma câmara de ar estourada e o choque contra uma árvore. Muitos se lembraram do que Camus pensava sobre a existência do homem e seu destino no universo, sem um sentido, tendo apenas o absurdo para explicá-la. A frança ficou de luto pelo desaparecimento de uma de suas consciências mais honestas, como destacou André Malraux, também escritor e então ministro da Cultura: ”Há mais de vinte anos a obra de Albert Camus era inseparável da obsessão da justiça”.
Há mais de vinte anos. . . Nascido em 1913, em Mondovi, departamento de Constantine, na Argélia, território francês que lutava por sua independência, filho de um operário, Camus teve uma infância difícil, entre duas culturas que seriam sempre cada vez mais antagónicas. Sua formação é francesa, seu compromisso é com os homens: ”Sou, antes de tudo, solidário do homem comum. Amanhã o mundo
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poderá romper-se em pedaços. Há uma lição de verdade nessa ameaça que paira sobre nossas cabeças”.
Mecânico, professor primário, empregado no comércio, Camus publicaria seu primeiro livro em 1937, e no ano seguinte ingressaria no jornalismo, duas grandes paixões. Atuando em Paris, abandonou o jornal em que trabalhava por uma cama maior, a resistência à barbárie que ocupava parte da França. Participante ativo da luta contra os alemães, não desdenhava de sua obra literária. A ”Envers et endroit”, ”Núpcias” e ”O verão” - os dois últimos publicados pelo Círculo do Livro - seguiam-se ”O estrangeiro” também publicado pelo Círculo - e ”O mito de Sísifo”, além das peças ”Lê malentendu” e ”Calígula”. O jovem escritor expunha com uma lucidez dolorosa a precariedade da condição humana, ainda que em ”O mito de Sísifo” propusesse: ”É preciso imaginar Sísifo feliz”.
Depois da libertação, com apenas trinta anos, ele se tornou o jornalista mais lido da França. Nas páginas do jornal ”Combat”, lutava para que não fossem esquecidas as lições da guerra, a indiferença. As lições foram esquecidas, Camus abandonou o jornalismo. ”A peste” data dessa época,

1947, e reporta-se à experiência que ele desejava presente na consciência dos franceses. Uma epidemia assola uma cidade, como a ocupação nazista assolara a França. A epidemia cessa - a ocupação termina -, e a apatia que cercava a vontade humana diante do elemento estranho volta a imperar. O livro foi um grande sucesso de livraria e se tornou uma obra clássica.
Porém, ”A peste” seria também um passo decisivo no rompimento com o existencialista Jean-Paul Sartre, de quem Camus se aproximara. Como seria ”O homem revoltado”. Ele preconizava a revolta individual e libertária, enquanto Sartre colocava o existencialismo a serviço do marxismo, Camus estava só e preparava as últimas obras: ”Lê Minotaure ou La malte d’Oran” (1954), ”O exílio e o reino” e ”A queda” (1956), esta última também publicada pelo Círculo. A lição para o futuro permanece aquela que proferiu no Brasil, em 1949, numa frase:
Não poderemos ficar alheios e distraídos. Nem o momento comporta atitudes de indiferença. Não durmamos, pois, que a paz será uma realidade, ela que, agora, não passa de uma promessa”.
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