A peste Albert Camus



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II.
e o mar se misturavam numa palpitação indistinta. Para além do que eles sabiam ser as falésias, um clarão cuja origem não distinguiam reaparecia regularmente: o farol do canal, desde a primavera, continuava a girar para os navios que demandavam outros portos. No céu varrido e polido pelo vento, brilhavam estrelas puras, a que o clarão longínquo do farol misturava, de momento a momento, uma cinza passageira. A brisa trazia cheiros de especiarias e de pedra. O silêncio era absoluto.
- O tempo está agradável - disse Rieux, sentando-se.
- É como se a peste nunca tivesse subido até aqui.
Tarrou, de costas para ele, olhava para o mar.
- É verdade - retorquiu ele, um momento depois.
- Está agradável.
Veio sentar-se perto do médico e olhou para ele atentamente. Por três vezes, o clarão reapareceu no céu. Da rua, das profundezas da rua, chegou até eles um ruído de louça. Na casa uma porta bateu.
- Rieux - disse Tarrou, num tom natural -, nunca procurou saber quem eu era? Sente amizade por mim?
- Sim - respondeu Rieux -, agora, o que nos faltou foi tempo.
- Bem, isso me tranqüiliza. Quer que esta hora seja a da amizade?
Como única resposta, Rieux sorriu.
- Está bem. . .
Algumas ruas adiante, um automóvel pareceu deslizar longamente sobre a rua molhada. Afastou-se e, depois dele, exclamações confusas, vindas de longe, romperam ainda o silêncio. Depois, este caiu de novo sobre os dois homens com todo o seu peso de céu e de estrelas. Tarrou levantara-se para se empoleirar no parapeito do terraço, de frente para Rieux, que continuava enterrado na cadeira. Só se via dele uma forma maciça, recortada no céu. Falou longamente, e eis, mais ou menos, seu discurso reconstituído:
- Digamos, para simplificar, Rieux, que eu já sofria da peste muito antes de conhecer esta cidade e esta epidemia. Basta dizer que sou como todos. Mas há pessoas que não o sabem ou que se sentem bem nesse estado e pessoas que o sabem e que gostariam de sair dele. Por mim, quis sempre sair dele.
”Quando era jovem, vivia com a ideia de minha inocência, isto é, sern ideia nenhuma. Não sou do género atormentado, comecei como convinha. Tudo me corria bem,
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sentia-me à vontade com a inteligência, melhor ainda com as mulheres, e, se tinha algumas inquietações, passavam como tinham vindo. Um dia, comecei a refletir. Agora. . .
”Devo dizer-lhe que eu não era pobre como o senhor. Meu pai era procurador-geral, o que é uma bela situação. Contudo, ninguém diria ao vê-lo, pois era bonachão por natureza. Minha mãe era simples e apagada, nunca deixei de amá-la, mas prefiro não falar dela. Ele ocupava-se de mim com afeto, e creio até que se esforçava por me compreender. Tinha suas aventuras por fora, agora tenho certeza disso e estou longe de me indignar. Conduzia-se em tudo isso como era de esperar que se conduzisse: sem chocar ninguém. Para encurtar, não era muito original e, hoje que está morto, compreendo que, se não viveu como um santo, também não era um mau homem. Adaptava-se ao meio, e é esse o género de homem por quem se sente uma afeição razoável, que é duradoura.
”Tinha, entretanto, uma particularidade: o grande Guia Chaix era seu livro de cabeceira. Não que viajasse muito, exceto nas férias, para ir à Bretanha, onde tinha uma pequena propriedade. Mas era capaz de dizer exatamente as horas de partida e de chegada do Paris-Berlim, as combinações de horários que era necessário fazer para ir de Lyon a Varsóvia, a quilometragem exata entre quaisquer capitais à sua escolha. É capaz de dizer como se vai de Briançon a Chamonix? Até um chefe de estação se perderia. Mas meu pai, não. Exercitava-se quase todas as noites a enriquecer seus conhecimentos nesse ponto e sentia nisso um certo orgulho. Isso me divertia muito e eu o interrogava muitas vezes, encantado por verificar suas respostas no Chaix e reconhecer que não se enganara. Esses pequenos exercícios ligaramnos muito um ao outro, pois eu lhe fornecia um auditório cuja boa vontade ele apreciava. Quanto a mim, pensava que essa superioridade em relação às estradas de ferro valia tanto quanto qualquer outra.
”Mas estou divagando e arrisco-me a atribuir demasiada importância a esse bom homem. Porque, para terminar, ele só teve uma influência indireta na minha determinação. Quando muito, forneceu-me uma oportunidade. Na verdade, quando fiz dezessete anos, meu pai convidou-me a ir ouvilo. Tratava-se de um caso importante, no Tribunal do Júri, e certamente ele tinha pensado poder mostrar-se na sua melhor forma. Acho, também, que ele contava com essa cerimonia, própria para impressionar as imaginações jovens,
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para me levar a entrar para a carreira que ele próprio escolhera. Eu tinha aceitado, pois isso dava prazer ao meu pai e porque, da mesma forma, tinha curiosidade de vê-lo e ouvi-lo em um papel diferente do que representava entre nós. Não pensava em mais nada. O que se passava num tribunal sempre me parecera tão natural e inevitável quanto um desfile de 14 de Julho ou uma distribuição de prémios. Fazia disso uma ideia abstraía e que não me incomodava.
”Contudo, não conservei desse dia senão uma única imagem: a do réu. Creio que ele era realmente culpado, mas não importa de quê. Mas o homenzinho de cabelo ruivo e ralo, de uns trinta anos, parecia tão decidido a admitir tudo, tão sinceramente aterrorizado pelo que tinha feito e pelo que iam fazer-lhe, que ao fim de alguns minutos eu não tinha olhos senão para ele. Parecia uma coruja assustada por uma luz demasiado forte. O nó da sua gravata não se ajustava exatamente ao ângulo do colarinho. Roía as unhas de uma única mão, a direita. . . Em resumo, não vale a pena insistir mais, já compreendeu que ele estava vivo.
”Eu, porém, só agora me dava conta disso, bruscamente, pois até então só tinha pensado nele através da categoria de ’acusado’. Não posso dizer que esquecia então meu pai, mas qualquer coisa me apertava o estômago e me tirava toda a atenção além daquela que prestava ao acusado. Não ouvia quase nada, sentia que queriam matar aquele homem vivo, e um instinto formidável como uma vaga me levava para seu lado com uma espécie de cega obstinação. Só despertei, realmente, com o requisitório de meu pai.
”Transformado pela toga vermelha, nem bonachão nem afetuoso, sua boca fervilhava de frases imensas que, sem parar, saíam dela como serpentes. E compreendi que ele pedia a morte daquele homem, em nome da sociedade, e que pedia até que lhe cortassem a cabeça. É verdade que ele dizia apenas: ’Aquela cabeça deve cair’. Mas, no fim, a diferença não era grande. E deu no mesmo, na verdade, já que obteve a cabeça. Simplesmente, não foi ele que fez então o trabalho. E eu, que acompanhei, em seguida, o caso até sua conclusão, exclusivamente, tive com esse infeliz uma intimidade bem mais vertiginosa do que meu pai jamais teve. Este devia, contudo, segundo o costume, assistir àquilo que se chamava delicadamente ’os últimos momentos’ e que é preciso classificar como ’o mais abjeto dos assassinatos’.
”A partir desse dia, não consegui olhar para o Guia Chaix sem uma repugnância abominável, A partir desse dia,
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passei a interessar-me com horror pela justiça, pelas condenações à morte, pelas execuções, verificando, com uma vertigem, que meu pai devia ter assistido várias vezes a assassinatos, e que era justamente nesses dias que ele se levantava muito cedo. Na realidade, nesses casos, ele dava corda no despertador. Não me atrevi a falar disso a minha mãe, mas observei-a melhor, então, e compreendi que já não havia nada entre eles e que ela levava uma vida de renúncia. Isso me ajudou a perdoar-lhe, como eu dizia então. Mais tarde, soube que não havia nada a perdoar-lhe, pois ela havia sido pobre toda a sua vida até no casamento, e a pobreza ensinara-lhe a resignação.


”Espera, sem dúvida, que eu lhe diga que parti logo. Não, fiquei vários meses, quase um ano. Mas meu coração estava doente. Uma noite, meu pai pediu o despertador, pois tinha de levantar-se cedo. Não dormi a noite toda. No dia seguinte, quando voltou, eu tinha partido. Digamos logo que meu pai me mandou procurar, que fui vê-lo e que, sem lhe explicar nada, disse-lhe que me mataria se ele me forçasse a voltar. Acabou aceitando, pois era cordato por temperamento, fez-me um discurso sobre a estupidez que havia em eu querer viver minha vida - era assim que ele explicava o meu gesto, e eu não o dissuadi -, deu-me mil conselhos e reprimiu as lágrimas sinceras que lhe vinham aos olhos. Mais tarde, embora bastante tempo depois, fui regularmente ver minha mãe e encontrei-o então. Creio que essas relações lhe bastaram. Quanto a mim, não tinha animosidade contra ele, apenas um pouco de tristeza no coração. Quando morreu, minha mãe veio viver comigo, onde ainda estaria, se, por sua vez, não tivesse morrido também.
”Insisti longamente nesse princípio, porque foi realmente o princípio de tudo. Agora, irei mais depressa. Conheci a pobreza aos dezoito anos, ao cair da abastança. Exerci mil profissões para ganhar a vida. E não me dei muito mal. Mas o que me interessava era a condenação à morte. Queria ajustar umas contas com a coruja ruiva. Por isso, meti-me na política, como se diz. Não queria ser atacado pela peste. Eis tudo. Acreditei que a sociedade em que eu vivia repousava na condenação à morte e que, ao combatê-la, cornbateria o assassinato. Acreditei nisso, outros me disseram e, para terminar, em grande parte era verdade. Coloquei-me, pois, com aqueles que amava e que não deixei de amar. Fiquei com eles durante muito tempo, e não há país da
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Europa de cujas lutas eu não tenha compartilhado. Passemos adiante.
”É claro, eu sabia que também nós pronunciávamos, ocasionalmente, condenações. Mas diziam-me que essas poucas mortes eram necessárias para construir um mundo em que não se mataria ninguém. Era verdade, de certo modo, e, afinal, talvez eu não seja capaz de me manter nesse género de verdades. O certo é que eu hesitava. Mas pensava na coruja, e a coisa continuava. Até o dia em que vi uma execução (foi na Hungria), e a mesma vertigem que atacara a criança que eu era obscureceu meus olhos de homem.
”Nunca viu um homem ser fuzilado? Não, com certeza, isso se faz, em geral, a convite, e o público é escolhido antecipadamente. O resultado é o que o senhor conhece apenas pelas gravuras e pelos livros. Uma venda, um barrote e, longe, alguns soldados. Pois bem, não é nada disso. Sabe que o pelotão se coloca a um metro e meio do condenado? Sabe que, se o condenado desse dois passos à frente, bateria com o peito nas espingardas? Sabe que, a essa curta distância, os executores concentram todos os tiros na região do coração e que, entre todos, com suas grandes balas, fazem um buraco onde se poderia meter o punho? Não, não sabe, pois são pormenores de que não se fala. O sono dos homens é mais sagrado que a vida dos empestados. Não se deve impedir as pessoas decentes de dormir. Seria mau gosto, e o gosto consiste em não insistir, todos sabem disso. Mas eu, por mim, não dormi bem desde aquela época. O gosto ruim me ficou na boca e desde então não deixei de insistir, quer dizer, de pensar.
”Compreendi assim que eu, pelos menos, não tinha deixado de ser um empestado durante todos esses longos anos em que, no entanto, com toda a minha alma, eu julgava lutar contra a peste. Descobri que tinha contribuído indiretamente para a morte de milhares de homens, que tinha até provocado essa morte, achando bons os princípios e as ações que a tinham fatalmente acarretado. Os outros não pareciam perturbados por isso, ou, pelo menos, nunca falavam disso espontaneamente. Mas eu tinha um nó na garganta. Estava com eles e, contudo, estava só. Quando me acontecia exprimir meus escrúpulos, diziam-me que era preciso refletir no que estava em jogo e davam-me razões muitas vezes impressionantes para me fazer engolir o que eu não conseguia deglutir. Mas eu respondia que os grandes empestados, os que vestem togas vermelhas, dispõem também de excelentes razões
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nesses casos e que, se eu admitisse as razões de força maior e as necessidades invocadas pelos pequenos empestados, não poderia rejeitar as dos grandes. Eles faziam-me notar que a maneira correta de dar razão às togas vermelhas era deixar-lhes a exclusividade da condenação. Mas eu me dizia, então, que, se cedesse uma vez, não havia razão para parar. Parece-me que a história me deu razão: hoje cada qual mata o mais que pode. Estão todos no furor do crime e não podem proceder de outra maneira.
”Meu negócio, em todo caso, não era o raciocínio. Era a coruja ruiva, essa suja aventura em que bocas sujas e empestadas anunciavam a um homem acorrentado que ia morrer e preparavam tudo para que ele morresse, na verdade, após noites e noites de agonia, durante as quais ele esperava de olhos abertos ser assassinado. Meu negócio era o buraco no peito. E dizia a mim mesmo, entretanto, que, pelo menos de minha parte, recusaria sempre dar uma razão, uma única - compreende? - para essa repugnante carnificina. Sim, escolhi essa cegueira obstinada, enquanto esperava poder ver mais claro.
”Desde então, não mudei. Há muito tempo que tenho vergonha, uma vergonha mortal, de ter sido, ainda que de longe, ainda que na boa vontade, por minha vez, um assassino. com o tempo, compreendi apenas que até os que eram melhores que outros não conseguiam impedir-se, hoje, de matar ou de deixar matar, porque estava na lógica em que viviam e que não se podia fazer um gesto neste mundo sem se correr o risco de fazer morrer. Sim, continuei a ter vergonha, aprendi isso - que estávamos todos na peste -, e perdi a paz. Ainda hoje a procuro, tentando compreendê-los a todos e não ser o inimigo mortal de ninguém. Sei apenas que é preciso fazer o necessário para deixar de ser um empestado e que só isso nos permite esperar a paz, ou, na sua falta, uma boa morte. É isso que pode aliviar os homens e, se não os salvar, pelo menos, fazer-lhes o menos mal possível e até, às vezes, um pouco de bem. E foi por isso que decidi recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, faz morrer ou justifica que se faça morrer.
”É ainda por isso que esta epidemia não me ensina nada, senão que é preciso combatê-la ao seu lado. Sei, de ciência certa (sim, Rieux, sei tudo da vida, como vê), que cada um traz em si a peste, porque ninguém, não, ninguém no mundo está isento dela. Sei ainda que é preciso vigiar-se sem descanso para não ser levado, num minuto de distração,
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a respirar na cara de outro e transmitir-lhe a infecção. O que é natural é o micróbio. O resto - a saúde, a integridade, a pureza, se quiser - é um efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamais se deter. O homem direií | to, aquele que não infecta quase ninguém, é aquele que tem
i o menor número de distrações possível. E como é preciso
l ter vontade e tensão para nunca se ficar distraído! Sim,
J; Rieux, é bem cansativo ser um empestado. Mas é ainda mais
5 cansativo não querer sê-lo. É por isso que todos parecem
cansados, já que todos, hoje em dia, se acham um pouco empestados. Mas é por isso que alguns que querem deixar de sê-lo conhecem um extremo de cansaço de que já nada os libertará, a não ser a morte.
”Até lá, sei que já não valho mais nada para este mundo e que, a partir do momento em que renunciei a matar, me i condenei a um exílio definitivo. São os outros que farão a
í história. Sei, também, que não posso, aparentemente, julgar
í esses outros. Falta-me uma qualidade para ser um assassino
»Í razoável. Não é, pois, uma superioridade. Agora, porém,
consinto em ser o que sou - aprendi a ser modesto. Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário, tanto quanto possível, recusarmo-nos a estar com o flagelo. Isso lhe parecerá talvez um pouco simples. Não sei se é simples, mas sei que é verdadeiro. Ouvi tantos raciocínios que por pouco não me fizeram perder a cabeça, mas que viraram bastante outras cabeças para fazê-las consentir no assassinato, que compreendi que toda a desgraça dos homens provinha de eles não terem uma linguagem clara. Decidi então falar e agir claramente, para me colocar no bom caminho. Por isso, digo que há flagelos e vítimas, e nada mais. Se, ao dizer isso, me torno eu próprio um flagelo, não é por minha vontade. Procuro ser um assassino inocente. Como vê, não é uma grande ambição.
”Seria necessário, sem dúvida, que houvesse uma terceira categoria, a dos verdadeiros médicos, mas é um fato que não se encontram muitos e que isso deve ser difícil. Foi assim que decidi pôr-me do lado das vítimas, em todas as ocasiões, para limitar os prejuízos. No meio delas, posso, ao menos, procurar como se chega à terceira categoria, isto
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e, a paz.
Ao terminar, Tarrou balançava a perna e batia levemente com o pé no terraço. Depois de um silêncio, o médico
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soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar à paz.
- Tenho. A simpatia.
Duas sirenes de ambulância ressoaram ao longe. As exclamações, ainda agora confusas, juntaram-se nos confins da cidade, perto da colina pedregosa. Ouviu-se, ao mesmo tempo, qualquer coisa que se assemelhava a uma detonação. Depois o silêncio voltou. Rieux contou duas piscadelas do farol. A brisa pareceu ganhar mais força e, ao mesmo tempo, um sopro do mar trouxe cheiro de sal. Ouvia-se agora, nitidamente, a surda respiração das vagas contra a falésia.
- Em resumo - disse Tarrou com simplicidade -, o que me interessa é saber como alguém pode tornar-se santo.
- Mas você não acredita em Deus.
- Justamente. Poder ser santo sem Deus é o único problema concreto que tenho hoje.
Bruscamente, um grande clarão irrompeu do lado dos gritos e, subindo a corrente do vento, um clamor obscuro chegou até os dois homens. O clarão apagou-se imediatamente e, longe, à beira dos terraços, ficou apenas uma mancha vermelha. Numa pausa do vento, ouviram-se claramente gritos de homens, depois o barulho de uma descarga e o clamor de uma multidão. Tarrou levantara-se e escutava. Não se ouvia mais nada.
- Houve briga de novo nas portas.
- Agora acabou - disse Rieux.
Tarrou murmurou que nunca acabava, e que haveria mais vítimas, pois essa era a ordem natural.
- Talvez - respondeu o médico -, mas, sabe, sinto-me mais solidário com os vencidos do que com os santos. Creio que não sinto atração pelo heroísmo e pela santidade. O que me interessa é ser um homem.
- Sim, buscamos a mesma coisa, mas eu sou menos ambicioso.
Rieux pensou que Tarrou gracejava e olhou para ele. Mas, na vaga claridade que vinha do céu, viu um rosto triste e sério. O vento levantara-se de novo, e Rieux sentia-o morno sobre a pele. Tarrou agitou-se.
- Sabe o que devíamos fazer em prol da amizade?
- O que quiser - respondeu Rieux.
- Tomar um banho de mar. Mesmo para um futuro santo, é um prazer digno.
Rieux sorria.
- com nossos salvo-condutos, podemos ir até o cais.
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Afinal, é bobagem viver só na peste. Na realidade, um homem deve lutar pelas vítimas. Mas, se deixa de gostar de todo o resto, de que serve lutar?
- Tem razão - disse Rieux. - Vamos.
Momentos depois, o automóvel parava junto às grades do porto. A lua nascera. Um céu leitoso projetava sombras pálidas. Por trás deles, estendia-se a cidade, e dela vinha um sopro quente e mórbido, que os impelia para o mar. Mostraram os papéis a um guarda, que os examinou durante bastante tempo. Passaram e, através dos terraplenos cobertos de tonéis, entre os cheiros de vinho e de peixe, tomarain. a direção do cais. Pouco antes de chegarem, o cheiro de iodo e de algas anunciou-lhes o mar. Depois ouviram-no.
Assobiava suavemente aos pés dos grandes blocos do cais e, quando os transpuseram, ele apareceu-lhes, espesso como veludo, flexível e macio como um animal. Instalaram-se nos rochedos voltados para o largo. Lentas, as águas inchavam e desciam. Essa respiração calma do mar fazia nascer e desaparecer reflexos oleosos na superfície das águas. Diante deles, a noite que não tinha limites. Rieux, que sentia sob os dedos o rosto gasto dos rochedos, experimentava uma estranha felicidade. Voltado para Tarrou, adivinhou, sob o rosto calmo e grave do amigo, essa mesma felicidade que nada esquecia, nem mesmo o assassinato.
Despiram-se. Rieux mergulhou primeiro. Frias no começo, as águas pareceram-lhe mornas quando voltou à tona. Ao fim de algumas braçadas, sabia que o mar, nessa noite, estava morno: eram os mares do outono que retomavam da terra o calor armazenado durante longos meses. Nadava regularmente. As batidas dos pés deixavam atrás dele uma efervescência de espuma, a água fugia ao longo de seus braços para colar-se às pernas. Um baque surdo indicou-lhe que Tarrou mergulhara. Rieux, de costas, ficou imóvel diante do céu cheio de luar e de estrelas. Respirou longamente. Depois, ouviu com uma nitidez cada vez maior um barulho de água batida, estranhamente claro no silêncio e na solidão da noite. Tarrou aproximava-se, em breve ouvia-se a sua respiração. Rieux voltou-se, colocou-se ao lado do amigo e nadou no mesmo ritmo. Tarrou avançava com mais força e ele teve de acelerar os movimentos. Durante alguns minutos, avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor, solitários, longe do mundo, libertados, enfim, da cidade e da peste. Rieux foi o primeiro a parar e voltaram lentamente, a não ser num momento em que entraram numa corrente
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gelada. Sem nada dizer, ambos aceleraram os movimentos, fustigados por essa surpresa do mar.
Novamente vestidos, partiram, sem ter pronunciado uma palavra. Mas entendiam-se, era suave a lembrança dessa noite. Quando viram de longe a sentinela da peste, Rieux sabia que Tarrou dizia para si próprio, como ele, que a doença acabava de esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar.
Sim, era preciso recomeçar, e a peste não esquecia ninguém por muito tempo. Durante o mês de dezembro, ela ardeu nos peitos de nossos concidadãos, iluminou o forno, povoou os campos de sombras com as mãos vazias, não deixou, enfim, de progredir, paciente e sincopada. As autoridades tinham contado com os dias frios para deter esse avanço e, contudo, ele passava através dos primeiros rigores da estação sem desanimar. Era preciso esperar ainda. Mas de tanto esperar, ninguém mais espera - e nossa cidade inteira vivia sem futuro.
Quanto a Rieux, o instante fugidio de paz e de amizade que lhe haviam dado não teve continuidade. Tinham aberto mais um hospital, e o médico só conversava com os doentes. Notou entretanto que, nessa fase da epidemia, enquanto a peste assumia, cada vez mais, a forma pulmonar, os doentes pareciam, de certo modo, ajudar o médico. Em lugar de se abandonarem à prostração e às loucuras do início, pareciam ter uma ideia mais correta de seus interesses e reclamavam por si mesmos o que lhes podia ser mais favorável. Pediam incessantemente para beber e todos queriam calor. Embora o cansaço fosse o mesmo para o médico, ele se sentia, no entanto, menos só nessas ocasiões.
Por volta do fim de dezembro, Rieux recebeu do Sr. Othon, o juiz de instrução, que se encontrava ainda no campo de isolamento, uma carta dizendo que seu tempo de quarentena tinha passado, que a administração não encontrava a data de sua entrada e que, certamente, o mantinham ainda isolado por engano. Sua mulher, que já saíra há algum tempo, protestara na prefeitura, onde tinha sido mal recebida e onde lhe tinham dito que nunca havia enganos. Rieux fez Rambert intervir e, alguns dias depois, viu chegar o Sr. Othon. Houvera, com efeito, um engano, e Rieux indignou-se um pouco por isso. Mas o Sr. Othon, que tinha emagrecido, levantou a mão mole e disse, medindo as palavras,
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que todos podiam enganar-se. O médico pensou apenas que alguma coisa mudara.
- Que vai fazer, senhor juiz? Seus processos o esperam - disse Rieux.
- Não - respondeu ele -, queria tirar uma licença.
- Na verdade, precisa de repouso.
- Não é isso, queria voltar para o campo de isolamento.
Rieux admirou-se.
- Mas acaba de sair de lá!
- Não me expliquei bem. Disseram-me que havia voluntários da administração no campo. - O juiz rolava um pouco os olhos redondos e tentava abaixar um tufo de cabelos. - Sabe, teria uma ocupação. E, depois, parece bobagem dizê-lo, mas eu me sentiria menos afastado de meu garoto.
Rieux olhava para ele. Não era possível que naqueles olhos duros e vazios se instalasse subitamente uma suavidade. Mas eles tinham se tornado mais brumosos, tinham perdido a pureza de metal.
- Certamente - disse. - vou tratar disso, já que assim o deseja.
De fato, o médico tratou do caso, e a vida da cidade empestada retomou seu ritmo até o Natal. Tarrou continuava a passear por toda parte sua tranqüilidade eficiente. Rambert confiava ao médico que tinha estabelecido, graças aos dois guardas seus conhecidos, uma espécie de correspondência clandestina com a mulher. Recebia uma carta de tempos em tempos. Ofereceu a Rieux o benefício do seu sistema e ele o aceitou. Escreveu, pela primeira vez desde há longos meses, mas com enorme dificuldade. Havia uma linguagem que ele perdera. A carta partiu. A resposta demorava a vir. Por seu lado, Cottard prosperava e suas pequenas especulações o enriqueciam. Quanto a Grand, o período das festas não lhe devia ser favorável.
O Natal daquele ano foi mais a festa do Inferno que a do Evangelho. As lojas desertas e privadas de luz, os chocolates falsos ou as caixas vazias nas vitrines, os bondes carregados de rostos sombrios, nada lembrava os Natais passados. Nessa festa, em que toda gente, rica ou pobre, se juntava outrora, já não havia lugar senão para alguns prazeres solitários e vergonhosos que os privilegiados se ofereciam a preço de ouro, no fundo de uma loja sórdida. Mais que de ações de graças, as igrejas estavam cheias de lamentos.
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Na cidade, lúgubre e gelada, algumas crianças corriam, ignorantes ainda do que as ameaçava. Mas ninguém ousava anunciar-lhes o Deus de outrora, carregado de oferendas, velho como o sofrimento humano, mas novo como a jovem esperança. Só havia lugar no coração de todos para uma esperança muito velha e muito taciturna, a mesma que impede os homens de se entregarem à morte e que não é mais que simples obstinação em viver.
Na véspera, Grand tinha faltado ao encontro. Rieux, inquieto, passara em sua casa de manhã cedo, sem encontrá-lo. Todos haviam sido alertados. Por volta de onze horas, Rambert foi ao hospital dizer ao médico que tinha avistado Grand de longe, vagando pelas ruas, com o rosto desfigurado. Depois, perdera-o de vista. O médico e Tarrou partiram de automóvel à sua procura.
Ao meio-dia, hora gelada, o médico, que saíra do carro, olhava de longe Grand, quase colado a uma vitrine cheia de brinquedos grosseiramente esculpidos em madeira. Pelo rosto do velho funcionário as lágrimas corriam sem interrupção. E essas lágrimas perturbaram Rieux, porque as compreendia e as sentia também na garganta apertada. Ele se lembrava do noivado de um infeliz diante de uma loja de Natal, e de Jeanne voltada para ele para lhe dizer que estava contente. Do fundo desses anos longínquos, no próprio coração dessa loucura, a voz fresca de Jeanne voltava até Grand, disso tinha certeza. Rieux sabia o que pensava nesse minuto aquele velho que chorava e achava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ser e o coração maravilhoso da ternura.
Mas o outro viu-o pelo vidro. Sem deixar de chorar, voltou-se e encostou-se à vitrine, para vê-lo chegar.
- Ah, doutor! Ah, doutor! - dizia.
Rieux balançava a cabeça para mostrar aprovação, incapaz de pronunciar uma palavra. Essa tristeza era também sua, e o aperto que sentia no coração nesse momento era a imensa cólera que surge no homem diante da dor que todos os homens compartilham.
- Sim, Grand - disse.
- Gostaria de ter tempo para lhe escrever uma carta. Para que ela saiba. . . e para que possa ser feliz sem remorsos. . .
com uma espécie de violência, Rieux fez Grand avançar.
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O outro, quase se deixando arrastar, continuava a balbuciar pedaços de frases.
- Isso está durando demais. A gente tem vontade de se entregar. Ah, doutor! Eu tenho assim este ar calmo. Mas sempre precisei fazer um grande esforço para ser apenas normal. Mas agora até isso é demais.
Parou, com as pernas e os braços tremendo e com os olhos desvairados. Rieux pegou-lhe a mão. Estava ardendo.
- É preciso voltar para casa.
Mas Grand fugiu dele e correu alguns passos, depois parou, abriu os braços e pôs-se a oscilar para a frente e para trás. Deu uma volta sobre si mesmo e caiu na calçada gélida, com o rosto molhado das lágrimas, que continuavam a correr. Os transeuntes olhavam de longe, paravam bruscamente, sem ousar prosseguir. Foi necessário que Rieux carregasse o velho nos braços.
Agora, na cama, Grand sufocava: tinha os pulmões tomados. Rieux refletia. O funcionário municipal não tinha família. Para que serviria levá-lo? Ficaria só, com Tarrou, que trataria dele.. .
Grand estava enterrado no fundo de seu travesseiro, com a pele esverdeada e o olhar apagado. Olhava fixamente para um fogo medíocre que Rieux acendia na lareira com os restos de um caixote. Isso vai mal, dizia ele. E, do fundo de seus pulmões em chamas, saía um crepitar estranho que acompanhava tudo o que dizia. Rieux recomendou-lhe que se calasse e disse que ia voltar. O doente esboçou um sorriso estranho e, com ele, veio-lhe ao rosto uma espécie de ternura. Piscou o olho com esforço. ”Se escapar dessa, vai ser de tirar o chapéu, doutor!” Mas logo a seguir caiu na prostração.
Algumas horas depois Rieux e Tarrou foram encontrar o doente meio erguido no leito, e Rieux ficou aterrado ao ler no seu rosto os progressos do mal que o queimava. Mas parecia mais lúcido, e de repente, com uma voz estranhamente cavernosa, pediu que lhe trouxessem o manuscrito, que guardara numa gaveta. Tarrou deu-lhe as folhas, que ele estreitou contra o peito, sem olhá-las, para, em seguida, estendê-las ao médico, convidando-o com um gesto a ler. Era um manuscrito curto de umas cinquenta páginas. O médico folheou-o e compreendeu que todas as páginas traziam apenas a mesma frase, indefinidamente copiada, retocada, enriquecida ou empobrecida. Incessantemente, o mês de maio, a amazona e as aléias do bosque confrontavam-se e dispunham-se
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- de maneiras diversas. A obra continha também explicações, por vezes demasiado longas, e variantes. Mas no fim da última página, uma mão aplicada tinha apenas escrito com uma tinta ainda fresca: ”Minha querida Jeanne, hoje é Natal...” Por cima, numa caligrafia cuidada, figurava a última versão da frase.
- Leia - disse Grand. E Rieux leu:
- ”Numa bela manhã de maio, uma esbelta amazona, montada numa suntuosa égua alazã, percorria, no meio das flores, as aléias do Bois...”
- É isso? - perguntou o velho numa voz febril. Rieux não levantou os olhos para ele.
- Ah! - disse o outro, agitando-se. - Bem sei. Bela, bela não é o termo certo.
Rieux pegou-lhe a mão por cima do cobertor.
- Deixe, doutor. Não terei tempo. . .
O peito levantava penosamente, e ele gritou de repente:
- Queime-o!
O médico hesitou, mas Grand repetiu a ordem com um tom tão terrível e com tal sofrimento na voz, que Rieux atirou as folhas para o fogo quase apagado. O quarto iluminou-se rapidamente, e um calor breve o aqueceu. Quando o médico voltou para junto do doente, este tinha as costas voltadas e quase tocava a parede com o rosto. Tarrou olhava pela janela, como estranho à cena. Depois de ter injetado o soro, Rieux disse ao amigo que Grand não passaria daquela noite, e Tarrou ofereceu-se para ficar. O médico aceitou.
Toda a noite, a ideia de que Grand ia morrer o perseguiu. Mas, no dia seguinte de manhã, Rieux encontrou Grand sentado na cama, falando com Tarrou. A febre desaparecera. Restavam apenas os sinais de um esgotamento geral.
- Ah, doutor - dizia Grand. - Fiz mal. Mas vou recomeçar. Lembro-me de tudo, vai ver.
- Esperemos - disse Rieux a Tarrou.
Mas ao meio-dia, nada mudara. À noite, Grand podia considerar-se salvo. Rieux não compreendia nada daquela ressurreição.
Mais ou menos pela mesma época, contudo, levaram a Rieux uma doente, cujo estado julgou desesperador e que mandou isolar logo que chegou ao hospital. A moça estava em pleno delírio e apresentava todos os sintomas da forma pulmonar da peste. Mas, no dia seguinte de manhã, a febre baixara. O médico achou que se tratava ainda, como no caso
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de Grand, da remissão matinal, que a experiência o habituara a considerar como um mau sinal. Ao meio-dia, contudo, a febre não tinha subido. À noite, aumentou alguns décimos apenas, e, no dia seguinte pela manhã, tinha desaparecido. A moça, embora fraca, respirava livremente no leito. Rieux disse a Tarrou que ela se salvara, contra todas as regras. Mas, durante a semana, quatro casos semelhantes se apresentaram no serviço do médico.
No fim da mesma semana, o velho asmático acolheu o médico e Tarrou com todos os sinais de uma grande agitação.
- Pronto - dizia ele -, continuam a sair.
- Quem?
- Ora, os ratos!
Desde o mês de abril não se tinha descoberto nenhum rato morto.
- Será que vai recomeçar? - perguntou Tarrou a Rieux.
O velho esfregava as mãos.
- Precisa vê-los correr! É um prazer.
Tinha visto dois ratos vivos entrarem em sua casa pela porta da rua. Alguns vizinhos tinham relatado que, também em casa deles, os ratos haviam feito sua reaparição. Nas madeiras dos forros, ouvia-se de novo o rebuliço esquecido há meses. Rieux esperou a publicação da estatística geral que ocorria no princípio de cada semana. Revelava um recuo da doença.


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