A pedagogia moderna no paraná: incursões na revisa “a escola” ( 1906-1910) Claudia Maria Petchak Zanlorenzi1



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A PEDAGOGIA MODERNA NO PARANÁ: INCURSÕES NA REVISA “A ESCOLA” ( 1906-1910)

Claudia Maria Petchak Zanlorenzi1

Universidade Estadual do Centro - Oeste do Paraná (UNICENTRO)

Grupo de Pesquisa HISTEDBR- Campos Gerais

aecmari@gmail.com

Resumo

A modernidade almejada pela ordem republicana desencadeava o desejo de organizar a sociedade e nesse desiderato a educação tornou-se chave mestra para a legitimação dessa modernidade. No início do século XX, a pedagogia moderna seria o exemplo lapidar para modernizar a educação. “A arte de ensinar”, como modelo para a prática docente, seria o subsídio para modernização do ensino republicano, bem como inspiração e guia, na qual a prática da observação modula a relação ensino-aprendizagem (CARVALHO, 2000, p. 112). Para tanto, era necessário que fossem propagados os moldes de ensino, ou melhor, os métodos de ensino e as práticas de organização escolar. No afã para que esse objetivo fosse alcançado, algumas proposições eram feitas na dinâmica educacional. Esses princípios, inicialmente propagados em São Paulo, amplamente seriam disseminados aos outros estados. A imprensa, neste contexto, teve um papel fundamental na formação de opiniões, principalmente a imprensa periódica dirigida aos professores, como por exemplo, a revista “A Escola”, veiculada na Capital do Paraná, Curitiba, entre 1906 e 1910. Uma rica fonte histórica para a análise da realidade da sociedade republicana paranaense, a revista “A Escola” era um periódico do Grêmio de professores públicos do Paraná, em Curitiba, com colaboração de educadores de outras cidades e alunos do Gymnasio Paranaense e Escola Normal. Apesar de sua breve circulação, a amplitude dos temas debatidos nessa revista proporcionam subsídios para inúmeros trabalhos de pesquisa. Ademais esse periódico teve um papel preponderante na disseminação de idéias específicas de professores aos professores paranaenses. Ao analisarmos a revista “A Escola”, verificamos que a pedagogia moderna é a categoria imperante. Com essa análise é possível inferir que no Paraná, seguindo o exemplo de São Paulo, a ideia de modernidade era disseminada como a solução aos problemas na educação, tendo em vista que era por meio da educação que seria possível transformar a sociedade, corroborado, então, pela pedagogia moderna. A partir desse periódico, instaurava-se um material de formação aos professores, cujo sucesso dependia de se apreender os princípios da arte de ensinar e de aplicá-los inteligentemente na prática (WHITE, 1911, p.8). O presente artigo tem por objetivo apontar incursões realizadas na revista “A Escola” e a disseminação da pedagogia moderna no estado. Para tanto, primeiramente será abordado sobre a república e a ideia de modernidade, em seguida será discorrido sobre a pedagogia moderna e após será feita uma breve análise da revista “A Escola”. Destarte, pretende-se com este artigo arrolar sobre a história da educação no Paraná.



Palavras - chave: Imprensa, Educação, Pedagogia Moderna.
INTRODUÇÃO
A modernidade almejada pela ordem republicana desencadeava o desejo de organizar a sociedade e nesse desiderato a educação tornou-se chave mestra para a legitimação dessa modernidade.

No início do século XX, a pedagogia moderna seria o exemplo lapidar para modernizar a educação. Para tanto, era necessário que fossem propagados os moldes de ensino, ou melhor, os métodos de ensino e as práticas de organização escolar. No afã para que esse objetivo fosse alcançado, algumas proposições eram feitas na dinâmica educacional. Esses princípios, inicialmente propagados em São Paulo, amplamente seriam disseminados aos outros estados.

A imprensa, neste contexto, teve um papel fundamental na formação de opiniões, principalmente a imprensa periódica dirigida aos professores, como por exemplo, a revista “A Escola”, veiculada na Capital do Paraná, Curitiba, entre 1906 e 1910.

Ao analisarmos a revista “A Escola”, verificamos que a pedagogia moderna é a categoria imperante. Com essa análise é possível inferir que no Paraná, seguindo o exemplo de São Paulo, a ideia de modernidade era disseminada como a solução aos problemas na educação, tendo em vista que era por meio dessa que seria possível transformar a sociedade, corroborado, então, pela pedagogia moderna.

A partir desse periódico, instaurava-se um material de formação aos professores, cujo sucesso dependia de se apreender os princípios da arte de ensinar e de aplicá-los inteligentemente na prática (WHITE, 1911, p.8).

O presente artigo tem por objetivo apontar incursões realizadas na revista “A Escola” e a disseminação da pedagogia moderna no estado. Para tanto, primeiramente será abordado sobre a república e a ideia de modernidade, em seguida será discorrido sobre a pedagogia moderna e após será feita uma breve análise da revista “A Escola”. Destarte, pretende-se com este artigo arrolar sobre a história da educação no Paraná.



REPÚBLICA E A MODERNIDADE
Falar sobre a modernidade, antes de tudo é falar sobre a relação entre humanismo católico e humanismo moderno, pois com a ruptura do conceito do homem servil fruto do pecado carnal, e a abolição dos dogmas do cristianismo, imprimi-se uma nova ordem, em resposta ao desenvolvimento da sociedade e do modo de produção agora vigente.

Com as reformas advindas de uma sociedade que passa de agrário-feudal para urbano- industrial, novos ideais vão se instaurando, sobretudo de progresso, para uma sociedade onde os indivíduos são naturalmente iguais e livres política e economicamente, desde que garantida a sua própria individualidade e consequentemente a propriedade privada e assim as relações capitalistas de produção.

Neste contexto que devem ser analisados os preceitos instaurados nessa nova ordem social, sendo um deles a modernidade. Surgem, então, outros padrões de comportamento, expectativas e um novo sistema de valores da civilização urbano-industrial. O final do século XIX e início do século XX foi marcado pela urbanização da sociedade e, ao longo destes anos, inúmeras foram as transformações que ocorreram na produção, na distribuição, na troca, no consumo e nas relações sociais. A dinâmica social e espacial deste período é caracterizada pelo "modo de vida urbano".

No Brasil, no final século XIX, mais precisamente com a proclamação da República e o sufrágio universal, o Estado Burguês vai se estruturando agora no direito contratual, onde todos os indivíduos eram considerados cidadãos livres, com direitos. Nessa quimera, os preceitos liberais de igualdade, liberdade, tolerância imperavam nos discursos, comungando aos ideais da modernidade, ressonância dos grandes centros europeus e norte americanos. Consolida-se a autonomia do estado, no entanto respaldado na dominação de uma elite, não mais evidente como no escravismo, mas circunscrito no princípio de igualdade aos desiguais, enfim, “significando o esmagamento de outrem e de outra classe” (CARONE, 1974, p. 32).

Com as relações e o modo de produção capitalista monopolista e os efeitos ideológicos advindos dessa nova ordem, vislumbra-se a organização de uma nova sociedade brasileira, confluindo para a civilidade, o progresso e a ordem, transformando não só as relações entre os cidadãos, mas também o espaço geográfico.

Era preciso reiterar que o novo regime traria mudanças sociais, principalmente a modernidade ao país, adequando-se aos anseios de acúmulo de capital. Nesse desiderato e no afã de um mercado consumidor, era preciso ver para crer, então a sociedade brasileira que de agrária - comercial passa para urbano industrial - apesar ainda do domínio dos grandes produtores de café- começa a tomar feições geográficas diferentes. Numa análise mais crítica é possível ver as contradições dessa suposta modernidade usufruída por poucos. O progresso, símbolo da nova ordem republicana, todavia não rompia com fracionamento instaurado há tempos entre os indivíduos, ao contrário, dado o modo de produção capitalista, aumentava-se a dominação das relações de produção.

Um exemplo típico são as mudanças acarretadas pela ânsia da modernidade na capital da República, o Rio de Janeiro. “ Pouco a pouco vai tomando corpo a idéia de transformar a cidade do Rio de Janeiro num cenário que mostrasse aos olhos do país inteiro e aos olhos do mundo que a República trouxera, efetivamente, novos tempos” (NEVES; HEIZER, 1997, p. 96).

Com o projeto de modernização da Capital do país, principalmente a revitalização da Avenida Central, é visível observar o contraste entre o moderno e o ultrapassado, e as relações de subordinação. Para que a cidade se igualasse ao modelo europeu era preciso que em outro lugar se instalasse com mínimo de condições àqueles que iriam envergonhar os planos de modernização, assim os antigos moradores dos cortiços subiram as encostas, formando as favelas. De um lado adoção de novidades intelectuais e civilizatórias fundamentadas na matriz europeia, de outro o fracionamento e uma terrível situação social de desigualdade, pois apenas a minoria poderia desfrutar do estimado progresso.

Todavia, mesmo com tal incômodo, era preciso que tal mudança tivesse ressonância em outros espaços do país, fato que se confirma, no Paraná, pela modernização vista em Curitiba, em 1913 e o aprimoramento dos serviços básicos como irrigação, limpeza pública, água e esgoto. “Por todo o plano urbano, ruas se abrem e se pavimentam; edificações se elevam, ostentando uma arquitetura inovadora, [...] por toda urbem, até fora do seu quadro, valorizam-se os terrenos e surgem novas construções”(TRINDADE, 1996, p. 19).

Ecos de uma estratégia civilizatória e de manutenção do modo de produção, com essas mudanças, consequentemente, são introduzidas práticas sociais e culturais. É nesse contexto que a educação ganha espaço central na discussão sobre a modernidade. A instrução pública significava a abertura para o progresso e um dos principais traços que marcavam a modernidade, fator de transformação e de conformação social, pois “ignorancia e República são idéas que se repellem”( A ESCOLA, 1906, nº 1, p. 1).2 Nos ideais republicanos, a educação tornou-se fundamental, dado que por ela modelos de modernização poderiam ser reproduzidos, como por exemplo, os grupos escolares.

Ademais era necessário que a universalização dos conhecimentos científicos - esse advindos do pensamento iluminista, fundamentado em pensadores como Locke, Comênius, Descartes, Rosseau, Comte, sem deixar de citar Lutero, ou seja, que se tornam públicos e laicos. Um novo homem era necessário, e a educação escolar foi colocada como uma medida de profilaxia social, na formação do “homem novo” (NORONHA, 2009, p. 167).

Neste sentido, a educação tradicional fundamentada no humanismo católico, tornara-se obsoleta, ganhando espaço o pensamento estruturado nas concepções de uma pedagogia moderna, principalmente com o intuito de igualdade de condições, com a inclusão de todos no modelo educacional da nova sociedade republicana, sem é claro se esquecer dos moldes capitalistas de produção e nesse, principalmente, a dominação de uma classe que já possuía em seus currículos um conhecimento clássico.

A Pedagogia Moderna, ou a arte de ensinar, primeiramente pensada e estruturada em São Paulo, a partir da reforma promovida por Caetano de Campos, foi o modelo a ser seguido pelos outros estados, principalmente o Paraná, que mesmo discorridos algumas décadas de sua emancipação política, continuava na dependência e na busca de sua identidade própria.

PEDAGOGIA MODERNA NA REVISTA “A ESCOLA”
Conhecida mais precisamente como a “arte de ensinar” a Pedagogia Moderna, foi instaurada com modelo escolar e tinha por finalidade “oferecer de modo claro, prático e útil” (WITHE, 1911, p. 8) o que é essencial nessa arte. “A arte de ensinar”, como modelo para a prática docente, seria o subsídio para modernização do ensino republicano, bem como inspiração e guia, na qual a prática da observação modula a relação ensino-aprendizagem (CARVALHO, 2000, p. 112).

Tratada como subsídio para a prática docente, “essa pedagogia estrutura-se sob primado da visibilidade, propondo-se como arte cujo segredo é a boa imitação de modelos” (CARVALHO, 2000, p. 111). Disseminada via estado de São Paulo, tanto técnicos da inspetoria de ensino como a própria imprensa se empenharam em veicular o tal modelo de ensino.

A imprensa de um modo geral, neste contexto, teve um papel fundamental na formação de opiniões, sobremaneira na causa educacional principalmente a imprensa periódica, em particular dirigida aos professores. Nesse sentido, destacamos a revista “A Escola”, veiculada na Capital do Paraná, Curitiba, entre 1906 e 1910, como arauto do binômio educação e modernidade.

Uma rica fonte histórica para a análise da realidade da sociedade republicana paranaense, a revista “A Escola” era um periódico do Grêmio de Professores Públicos do Paraná, em Curitiba, com colaboração de educadores de outras cidades e alunos do Gymnasio Paranaense e Escola Normal.

Apesar de sua breve circulação, a amplitude dos temas debatidos nessa revista proporciona subsídios para inúmeros trabalhos de pesquisa. Ademais, esse periódico teve um papel preponderante na disseminação de ideias específicas de professores aos professores paranaenses por intelectuais da época, fato que pode proporcionar uma visão ao mesmo tempo estreita do ensino estadual e ampla, em relação aos ideais republicanos, principalmente sobre a escola moderna que se fazia evidente nos discursos sobre a educação, à qual depositavam grande expectativa pois preencheria “tão grande lacuna, a um tempo ministrando o ensino theorico prático” (A ESCOLA, 1909, p. 04).

Diante de algumas incursões nesse periódico pode-se verificar uma visão ao mesmo tempo, como já foi mencionado acima, ampla da totalidade brasileira e estreita, em virtude as especificidades do contexto regional. Sendo assim, algumas questões se fazem pertinentes, entre elas: quais eram os interesses em propagar a pedagogia moderna? A uniformização do ensino e a homogeneidade modelar que estavam sendo disseminadas via pedagogia moderna tinham como finalidade mais ampla a hegemonia do pensamento liberal? Até que ponto foram consideradas as especificidades, ou seja, as reais condições do contexto educacional paranaense?

Nas categorias que se inserem esse estudo é possível priorizar algumas reflexões sobre a relação entre universalidade e particularidade, pois “geral não existe a não ser no particular; sem particular não há geral” (TSE-TUNG, 1999, p. 69). Diante disso, a seguir serão feitas algumas incursões em temas debatidos na revista, e que devido a brevidade do texto e a própria complexidade do tema, serão feitos apenas alguns recortes.

Primeiramente, análises podem ser feitas sobre a função da escola nesse período. Da passagem do modelo agrário-comercial para urbano-industrial e a expansão do capitalismo, a educação tomou outras feições. Enquanto dimensão da vida e que “se transforma historicamente, acompanhando e articulando-se às transformações do modo como os homens produzem sua existência” (LOMBARDI, 2010, p. 20) houve uma expectativa em relação à educação que passou a ser considerada elemento preponderante ao progresso, à ordem e à civilidade. Ademais, necessário era maior qualificação ao trabalho, para uma sociedade que se inseria nos moldes do capitalismo. Portanto, a implantação da escola para todos era a finalidade do Estado, mas para quem?


O projeto político republicano visava a implantar a educação escolarizada, oferecendo o ensino para todos. É em verdade que se tratava ainda de uma escola dualista, em que para a elite era reservada a continuidade dos estudos, sobretudo científicos- já que os republicanos recusavam a educação tradicional humanista -, enquanto o ensino para o povo ficava restrito ao elemento profissional (ARANHA, 2007, p. 298).

Era imprescindível que se disseminasse a confiança numa educação moderna em detrimento à tradição e a autoridade, alicerçada pelo incentivo à liberdade de pensamento e igualdade de condições - preceitos do liberalismo - todavia que não ferisse a liberdade natural de cada um, conforme o seus méritos e seus desejos.



Reflexo desse pensamento que se instaurava no país, principalmente entre os ilustrados, “que começaram a interferir maciçamente nos assuntos educacionais” (SCHELBAUER; ARAÚJO, 2007, p. 8), os articulistas da revista consideravam a relação íntima entre república e educação, inclusive demonstrando a necessidade de mudança, conforme podemos verificar no enxerto da revista “A Escola”:
No regimem republicano o problema da instrucção se impõe e reclama prompta solução. Mas que seja diffundida uma instrucção sólida, ministrada de acordo com as sãs prescrições da pedagogia moderna (A ESCOLA, 1906, nº 1, p. 1).
É possível observar, ao partir da análise do periódico, que um esforço hercúleo foi realizado pelos intelectuais frente ao periódico, com o intuito de corroborar e auxiliar na manutenção da ideologia da modernidade e progresso.
Extraordinários são os serviços que presta a escola á civilização dos povos. Mais do que isso: a escola é o plintho inabalável e eviterno sobre que se alteia, majestoso e bello, o monumento altaneiro e deslubrantíssimo da civilização. São exalçaveis os predicamentos da escola como factor poderoso do progredimento e felicidades sociaes(A ESCOLA, 1906, nº 1, p. 03).
Todavia, para que realmente se efetivasse esse “progredimento”, sobretudo se instaurasse a ordem, algumas medidas foram realizadas como, por exemplo, a construção dos grupos escolares, monumentos para serem visualizados, local “inabalável” que não terá fim.
Os relatórios dos inspetores gerais solicitavam, com freqüência, a construção de prédios destinados especificamente às praticas escolares[...]. E defendiam a organização do ensino primário em grupos escolares, uma medida (...) mais metódica, racional e consentânea com os modernos plano pedagógicos (...), do que as pequenas escolas isoladas, derivadas das antigas “cadeiras de instrução primária. (AZAMUJA, L. Relatório do Delegado Fiscal da primeira circunscrição escolar. Curitiba:s.ed.,1908.p.62) (TRINDADE; ANDREAZZA, 2001, p. 81).
Entretanto, sem haver uma reflexão mais crítica, considerava-se a educação como algo abstrato. Sendo assim, estamos diante de um paradoxo: se essa era símbolo da modernidade e assim colocaria o país nos trilhos do progresso, tendo como exemplo lapidar a visibilidade dos imponentes grupos escolares, como a educação poderia ser considerada inabalável? Sem a observância das desigualdades próprias de uma concepção liberal e a escola como instrumento para a manutenção dessa desigualdade, a educação não era concebida como fruto desse próprio contexto histórico capitalista. Esse entusiasmo pela instrução, de certa forma desenfreado, pode também ser visto abaixo:
Vejo associados e organizados os esforços do magistério nesse sentido, para que os ensinamentos pedagógicos se diffundam pela collectividade, orientando os velhos mestres e provocando as vocações latentes de mestres novos que hão de vir. Vejo, ao mesmo tempo, o governo do Estado, pelos melhoramentos da Escola Normal, pelas garantias que oferece aos professores normalistas, por uma melhor distribuição das escolas primárias, pelo rigor na observância do Regulamento do Ensino, pela equiparação de nosso Gymnasio ao Nacional pela creação do Jardim da Infância, manifestar o mais patriótico empenho em prol do progresso da instrução e da educação (A ESCOLA, 1906, nº 1, p. 11).

É mister salientar que algo na contramão movimentava esse processo e a disseminação via revista traria mais credibilidade para que as novas ideias alcançassem todos professores, principalmente aos velhos mestres, como forma de universalização, sem a observância das particularidades dos professores paranaenses, como podemos constar nessa denúncia: E’nos dorido reiterar a afirmativa de que, infelizmente, nas terras do Paraná, ainda há muitos professores, por indolência, rotineiros seguidores intransigentes de velharias inconcebíveis [...] (A ESCOLA, 1909, p. 24). Porém, não podemos deixar de mencionar que a revista mantinha-se por assinaturas, quem eram os docentes que tinham acesso a esse periódico?

É no bojo dessas discussões que desencadeavam uma metodologia ideal de trabalho ao professor: a pedagogia moderna. Esse modelo a ser imitado, “a arte de ensinar, tal como a concebida essa pedagogia moderna, é, assim, pedagogia da prática”(CARVALHO, 2000, p. 113).

Contra a filosofia contemplativa, os princípios da pedagogia moderna eram derivados da psicologia, pois “a philosophia procura as causas finaes, os princípios universais, estes são demais remotos e transcendentes para servirem de guia prático ás artes”(WHITE, 1911, p. 16).

A pedagogia moderna centrada não mais no professor e sim aluno, tinha como base a experiência e a prática, como podemos observar na afirmação abaixo:
A theoria, o casuismo pedagógico é quase inútil ao povo; a theoria preciza encontrar applicações prática e imediatas ministradas na escola. O professor não mais pode amparar-se no magister dixil; persuade, demonstra, apresenta provas. A consciência do aluno deve formar-se á custa de experiências (A ESCOLA, 1909, p. 51).
Para tanto, era imprescindível que fossem veiculadas na revista formas concretas de ensinar e que desse credibilidade ao que estava sendo defendido, como por exemplo, a defesa ao método de ensino intuitivo, em foco nos Estados Unidos. Para esses educadores “a criança não deve se tornar um receptáculo da ideas de outrem, devendo interessadamente o professor habituá-la a agir por si mesma, a envidar esforços no intuito de descobrir o como e o por que das cousas[...](ESCOLA, 1906, nº 1, p 09).

No afã de que essa uniformização fosse propagada, procedimentos outros foram feitos, no qual podemos destacar a veiculação dos relatórios dos professores da capital e que se destacam nesse meio. Como estratégia de formação, podemos destacar nestes termos o relatório de 22 de dezembro de 1905, da professora Julia Vanderley Petrich, da 1ª cadeira para o sexo feminino da Capital.



Applicando umas vezes o methodo inductivo ou analytico e outras o deductivo ou synthetico, procuro sempre tornar intuitiva e claras as explicações dadas para que as alunas possam assim comprehender, assimilar e reter a lição ministrada. Para as classes mais atrazadas o methodo intuitivo é sempre de grandes vantagens[...] manifesto-me ostensivamente contra o ensino ministrado excluvamente pela memória em prejuízo das outras faculdades da intelligencia que assim sem exercício ficarão inevitavelmente atrophiadas (A ESCOLA, 1906, n. 1, p. 23).
Observa-se, então, quão a Revista “A Escola”, foi primordial para a instauração da ideologia da modernidade no estado do Paraná que se pretendia assegurar como propulsora do progresso do país, colocando assim o Brasil no “nível do século” (SCHELBAUER; ARAÚJO, 2007, p. 8).

Todavia, as particularidades do ensino no estado, não foram consideradas, dado que o modelo proposto foi importado do modelo paulista o que nos leva a refletir sobre uma uniformização nacional, um “proselitismo ilustrado”. Desta feita - no qual há o convencimento de um modelo como ideal a partir da sedutora confirmação de práticas que deram certo - comprava- se que os ideais liberais presentes, mesmo de forma sutil, impunham a importância de uma homogeneidade, uma igualdade, a fim de que se houvesse a ordem.

A análise aqui apresentada é apenas uma parcela de um estudo que está sendo realizado sobre a imprensa e a educação no Paraná. Entretanto, algumas reflexões já vislumbram temáticas que são dignas de aprofundamento, entre elas a ideologia liberal vigente nos aspectos políticos, sociais e econômicos, nos idos da sociedade republicana no início do século XX.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação no estado do Paraná, no início do século XX, foi marcada pela influência da ideologia da modernidade, fato que pode ser observado nas folhas da Revista “A Escola” que frequentemente abordava sobre a pedagogia moderna.

Seguindo os novos padrões propostos à sociedade da época, os valores tomaram feições outras, tendo como parâmetros os preceitos liberais de igualdade e liberdade de condições. Para tanto, a educação foi peça importante para a reprodução desses valores. Era necessário que a escola, nos moldes republicanos, fosse para todos, com métodos modernos, material adequado e professores bem formados na “arte de ensinar”, com a finalidade de universalização e homogeneidade. Sobretudo, que o primado da ordem fosse primordialmente considerado e que todos seguissem a mesma, desde os alunos até os professores, o que demonstra o paradoxo entre liberdade igualdade de condições e ordem estabelecida.

Assim, os modelos foram sendo propagados como, por exemplo, os grupos escolares, os métodos adequados - entre eles o método intuitivo- via relatórios de inspetores e principalmente pela imprensa. Essa se coloca como excelente fonte para vislumbrar os acontecimentos, permitindo uma investigação que ultrapasse os muros escolares.

Neste sentido, as reflexões que suscitam do estudo na revista “A Escola”, apontam os discursos, os anseios, as conveniências, os interesses da sociedade paranaense em relação à educação, fornecendo pistas sobre as repercussões e polêmicas instauradas, e mais, contribuindo sobremaneira para a compreensão das situações da contemporaneidade.


REFERÊNCIAS
A ESCOLA: Revista do Grêmio dos Professores Públicos do Estado, 1906-1910. Acervo Biblioteca Pública do Paraná: divisão estadual.

CARVALHO, M.M.C. Modernidade Pedagógica e Modelos de Formação Docente. São Paulo em Perspectiva, 14(1) 2000.

CARONE, E. A Primeira República. 2ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1974.

LOMBARDI, J.C. Educação e ensino em Marx e Engels. Germinal: Marxismo e Educação em Debate. V.2, nº2, 2010.

NEVES, M.S; HEIZER, A. A ordem é o progresso: o Brasil de 1870 a 1910. 9 ed. São Paulo: Ed. Atual, 1997.

NORONHA, O. M. Educação e trabalho no contexto histórico da formação da Primeira República no Brasil (1889-1930). In: Navegando na História da Educação Brasileira: 20 anos do HISTEDBR. José Claudinei Lombardi; Dermeval Saviani (orgs.) Campinas, SP: Autores Associados: HISTEDBR, 2009.

TRINDADE, E. M. C.; ANDREAZZA, M. L. Cultura e Educação no Paraná. Curitiba: SEED, 2001.

TRINDADE, E. M. C. Clotildes e Marias: mulheres de Curitiba na primeira República. Curitiba: Fundação Cultural, 1996.

TSE, TUNG, MAO. Sobre a prática e sobre a contradição. São Paulo: Expressão Popular, 1999.

SCHELBAUER, A. L. Entre anúncios e artigos: registros do método de ensino intuitivo do jornal A Província de São Paulo ( 1875-1889). In: História da educação pela imprensa/ Analete Regina Schelbauer, José Carlos Souza Araújo( orgs.).- Campinas- SP: Editora Alínea, 2007.



WHITE, E. E. A arte de ensinar: um manual. Trad. Carlos de Escobar. São Paulo: Siqueira, Nagel & Comp., 1911.


1 Professora colaboradora do Departamento de Pedagogia UNICENTRO- Campus Irati. Mestre em História da Educação, membro do grupo de Pesquisa HISTEDBR – Campos Gerais e Grupo PROFORMAR- UNICENTRO. Funcionária pública do Museu Municipal de Irati.


2 Será utilizado “itálico” para as fontes primárias. As citações de fontes primárias mantiveram a redação original, sem qualquer atualização ortográfica.



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