A lista de Schindler



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A Lista de Schindler

(Um Herói do Holocausto)

Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto o Reich, acossado pelas sucessivas derrotas, enviava diariamente 60 mil seres humanos aos fornos de Auschwitz, o industrial alemão Oskar Schindler abrigava milhares de judeus em sua fábrica, de onde ele finalmente os transferia em segurança para a Tchecoslováquia. Um lugar na "lista de Schindler" significava, no mínimo, esperança de futuro para um prisioneiro judeu.

No decorrer daqueles anos de guerra, Schindler despendeu imensa fortuna em subornos para a SS e em alimentos e remédios adquiridos no mercado negro para os seus prisioneiros. Levando uma vida cheia de riscos, manejou com incrível habilidade os cordões que o ligavam a autoridades alemãs. Ninguém jamais compreendeu o que o impeliu a arriscar a própria vida para salvar tantos estranhos. E é este mistério — juntamente com o relato de seus inacreditáveis atos e seu imenso valor moral — que marcará indelevelmente o nome de Oskar Schindler nas páginas da História.

Romancista, dramaturgo e produtor, Thomas Keneally passou dois anos entrevistando sobreviventes Schindlerjuden em oito países, inclusive Austrália, Israel, Estados Unidos, Polônia, Alemanha Ocidental e Áustria. Baseado nesses depoimentos e nos testemunhos que se encontram na Seção de Lembrança dos Mártires e Heróis, no Yad Vashem, ele realizou esta espantosa recriação de um episódio histórico, narrado com toda a ênfase de uma ficção. Agraciado com o Prêmio Booker, da Inglaterra, A Lista de Schindler tornou-se um dos maiores sucessos cinematográficos de Steven Spielberg, considerado pela Associação dos Críticos de Nova York e Los Angeles.

À memória de Oskar Schindler,

e a Leopold Pfefferberg,

que, pelo seu zelo e persistência,

fez com que este livro fosse escrito.

NOTA DO AUTOR

Em 1980, entrei numa loja de malas em Beverly Hills, Califórnia, e perguntei os preços de pastas para documentos. A loja pertencia a Leopold Pfefferberg, um sobrevivente Schindler. Foi sob prateleiras de mercadorias de couro italiano importado que ouvi pela primeira vez a história de Oskar Schindler, um alemão bon vivant, especulador, homem sedutor, e — sinal típico de sua personalidade contraditória — como salvou um segmento de uma raça condenada durante aqueles anos agora conhecidos pelo nome genérico de Holocausto.

Este relato da espantosa história de Oskar se baseia, em primeiro lugar, nas entrevistas com cinqüenta sobreviventes Schindler em sete nações — Austrália, Israel, Alemanha Ocidental, Áustria, Estados Uni dos, Argentina e Brasil. É incrementado por uma visita, na companhia de Leopold Pfefferberg, a locais mencionados em destaque no livro: Cracóvia, cidade de adoção de Oskar; Plaszóvia, cenário dos torpes trabalhos forçados de Goeth; a Rua Lipowa, Zablocie, onde ainda se situa a fábrica de Oskar; Auschwitz-Birkenau, de onde Oskar arrancou suas prisioneiras. Mas a narrativa se baseia também em documentos e outras informações fornecidos pelos poucos associados de Oskar na época da guerra, que ainda podem ser encontrados, bem co mo pelos seus muitos amigos do pós-guerra. Numerosos testemunhos relativos a Oskar, depositados pelos Judeus Schindler no Yad Vashem, a Autoridade de Recordação de Mártires e Heróis, amplificam este re lato, assim como os depoimentos por escrito de fontes privadas e um contexto de documentos e cartas de Schindler, alguns fornecidos pelo Yad Vashem, outros por amigos de Oskar.

O estilo e o esquema adotados nos romances têm sido freqüente mente usados por autores modernos para contar uma história verdadeira. Foi o caminho que decidi seguir aqui — não só por ser de romancista a minha única profissão, mas porque a técnica do romance me pareceu adequada a um personagem da ambigüidade e magnitude de Oskar. Contudo, tentei evitar qualquer ficção, pois assim fazendo iria adulterar o relato, e procurei separar a realidade dos mitos que se criam em torno de um homem da envergadura de Oskar. Por vezes se fez necessário uma reconstrução razoável das conversações que Oskar e outros poucos relataram. Mas a maioria dos contatos e entendimentos, e todos os eventos se baseiam nas recordações detalhadas dos Schindlerjuden (Judeus Schindler), do próprio Schindler e de outras testemunhas dos incríveis salvamentos por ele efetuados.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a três sobreviventes Schindler — Leopold Pfefferberg, o juiz Mosh Bejski, da Suprema Corte de Israel, e Mieczyslaw Pemper — que não somente transmitiram suas rememorações de Oskar ao autor e lhe forneceram certos documentos que contribuíram para a exatidão da narrativa, mas também leram o rascunho do livro e sugeriram algumas correções. Muitos outros, quer fossem sobreviventes Schindler ou aqueles que conheceram Oskar no pós-guerra, deixaram-se entrevistar e forneceram generosamente informações através de cartas e documentos. Nessa lista estão incluídos Frau Emilie Schindler, Sra. Ludmila Pfefferberg, Dra. Sophia Stern, Sra. Helen Horowitz, Dr. Jonas Dresner, Sr. e Sra. Henry Rosner, Leopold Rosner, Dr. Alex Rosner, Dr. Idek Schindel, Dra. Danuta Schindel, Sra. Regina Horowitz, Sra. Bronislawa Karakulska, Sr. Richard Horowitz, Sr. Shmuel Springmann, o falecido Sr. Jakob Sternberg, Sr. Jerzy Sternberg, Sr. e Sra. Lewis Fagen, Sr. Henry Kinstlinger, Sra. Rebecca Bau, Sr. Edward Heuberger, Sr. e Sra. M. Hirschfeld, Sr. e Sra. Irving Glovin e muitos outros. O Sr. e Sra. E. Korn não somente relataram suas rememorações de Oskar mas foram para mim um estí mulo constante. No Yad Vashem, Dr. Josef Kermisz, Dr. Shmuel Krakowski, Vera Prausnitz, Chana Abells e Hadassah Mõdlinger proporcionaram amplo acesso aos testemunhos de sobreviventes Schindler e ao material fotográfico e de vídeo.

Finalmente, gostaria de render homenagem aos esforços do falecido Sr. Martin Gosch no sentido de levar ao conhecimento do mundo o nome de Oskar Schindler e transmitir meus agradecimentos à sua viúva, Sra. Lucille Gaynes, pela sua cooperação neste projeto.

Através da assistência de todas essas pessoas, a espantosa história de Oskar Schindler aparece pela primeira vez detalhadamente.

Tom Keneally



A Lista de Schindler

(Um Herói do Holocausto)

Prólogo

Outono de 1943



Em pleno outono na Polônia, um rapaz alto, envergando um elegante sobretudo por cima de um dinner jacket, em cuja lapela trazia uma vistosa Hakenkreuz (suástica) de ouro e esmalte preto, emergiu de um luxuoso edifício de apartamentos na Rua Straszewskiego, nas circunvizinhanças do antigo centro de Cracóvia. O seu chofer o esperava, com a respiração condensada pelo frio, junto à porta aberta de uma imensa limusine Adler, que reluzia apesar da escuridão da rua.

— Cuidado com a calçada, Herr Schindler — advertiu o chofer. — Está mais gélida do que um coração de viúva.

Ao observar essa pequena cena de inverno, estamos em terreno seguro. O rapaz alto iria usar até o fim de seus dias jaquetões, iria — sendo praticamente um engenheiro — ser sempre agraciado com veículos lustrosos e — embora alemão e, neste ponto da história, alemão de alguma influência — ser, enquanto vivesse, o tipo de homem a quem um chofer polonês podia dirigir uma discreta piada em tom de camaradagem.

Mas não será possível apreender toda a história com a simples descrição desses pormenores característicos. Pois se trata da história do triunfo pragmático do bem sobre o mal, um triunfo em termos rigorosamente mensuráveis, estatísticos e nada sutis. Quando se considera o outro lado da fera — quando se relata o previsível sucesso que o mal geralmente alcança — é fácil ser perspicaz e deturpar, a fim de evitar um anticlímax. É fácil mostrar a inevitabilidade com que o mal adquire o que se poderia chamar de propriedade da história, ainda que o bem possa terminar com uns poucos e imponderáveis triunfos, tais como dignidade e autoconhecimento. A fatal malícia humana é a matéria-prima dos narradores, o pecado original, o fluido materno dos historiadores. Mas é um empreendimento arriscado escrever sobre a virtude.

Com efeito, "virtude" é uma palavra tão perigosa que temos de nos apressar em explicar: Herr Oskar Schindler, arriscando os seus re luzentes sapatos na gélida calçada daquele velho e elegante bairro de Cracóvia, não era um rapaz virtuoso no sentido convencional. Nessa cidade, ele instalara sua amante alemã numa casa e mantinha um prolongado caso com sua secretária polonesa. Sua mulher, Emilie, preferia passar a maior parte do tempo no lar em Morávia, ainda que de vez em quando fosse visitar o marido na Polônia. É preciso que se diga isso em favor de Oskar: com todas as suas mulheres ele se mostrava um amante polido e generoso. Mas na interpretação usual de "virtude", essas qualidades não servem como desculpa.

Além disso, era dado a bebidas. Às vezes bebia por simples prazer, outras vezes com companheiros, burocratas, membros da SS para obter informações mais concretas. Era capaz, como poucos, de se manter alerta enquanto bebia, de não perder a cabeça. Também isso — segundo uma rígida interpretação de moralidade — nunca foi desculpa para farras. E ainda que o mérito de Herr Schindler esteja bem documentado, é um traço da sua ambigüidade o fato de que ele trabalhava dentro ou, pelo menos, na periferia de um esquema corrupto e selvagem, que enchia a Europa de campos de variada e dura desumanidade e criava uma submersa e muda nação de prisioneiros. Portanto, talvez seja melhor começarmos experimentalmente com um caso ilustrativo da estranha virtude de Herr Schindler e dos locais e pessoas que o levaram a agir naquele sentido.

No final da Rua Straszewskiego, o carro passou sob a negra massa do Castelo Wawel, de onde o advogado Hans Frank, o bem-amado do Partido Nacional-socialista, governava a Polônia. Luz alguma brilhava no palácio do gigante mau. Nem Herr Schindler nem o seu chofer lançaram sequer um olhar aos baluartes quando o carro rumou na direção do rio. Na Ponte Podgórze, os guardas, postados acima do Vístula congelado para impedir a passagem de guerrilheiros e infratores do toque de recolher entre Podgórze e Cracóvia, estavam habitua dos ao veículo, ao rosto de Herr Schindler, ao Passierschein apresentado pelo chofer. Herr Schindler atravessava freqüentemente aquela barreira, indo da sua fábrica (onde mantinha também um apartamento) para o centro da cidade; ou então do seu apartamento na Rua Straszewskiego para a sua usina no subúrbio de Zablocie. Estavam também habituados a vê-lo à noite, em trajes formais ou semiformais, a caminho de algum jantar, festa ou encontro amoroso. Talvez, como era o caso nessa noite, rumando uns dez quilômetros para fora da cidade, onde se situava o campo de trabalhos forçados de Plaszóvia para jantar com o SS Hamptsturmführer Amon Goeth, um libertino altamente colocado. Herr Schindler gozava a fama de ser generoso com presentes de bebidas no Natal, portanto o seu carro tinha permissão para entrar sem formalidades no subúrbio de Podgórze.

É verdade que nessa fase de sua história, apesar de uma preferência por boa comida e bons vinhos, Herr Schindler encarava o jantar com o Comandante Goeth com mais desagrado do que satisfação. Com efeito nunca houvera ocasião em que se sentar e beber em companhia de Amon não lhe fosse uma perspectiva repelente. Entretanto, havia na repulsa de Herr Schindler algo de picante, um antigo, excitante senso de abominação — algo como a sensação que causa, numa pintura medieval, a vista dos justos lado a lado com os malditos. Uma emoção que, por assim dizer, mais o aguilhoava do que acovardava.

No interior forrado de couro preto do Adler, que corria ao lado dos trilhos do bonde, no local onde até recentemente fora o gueto judaico, Herr Schindler — como sempre — fumava um cigarro atrás do outro. Mas a sua maneira de fumar era calma. Jamais se via tensão nas suas mãos; sua atitude era elegante; seus modos sugeriam que ele sabia de onde viriam o próximo cigarro e a próxima garrafa de conhaque. Somente ele poderia nos dizer se tinha de se fortalecer com uns goles de seu frasco de bolso, ao passar pela silenciosa e sombria aldeia de Prokocim, onde se via, parada junto ao leito da estrada para Lwów, uma fileira de vagões de gado, que poderiam estar transportando sol dados de infantaria ou prisioneiros, ou até mesmo — embora fosse pouco provável — gado.

Já no subúrbio, talvez a uns dez quilômetros do centro da cidade, o Adler dobrou à direita e entrou numa rua chamada — por ironia — Jerozolimska. Nessa noite de marcantes contornos congelados, Herr Schindler notou à primeira vista, abaixo da colina, uma sinagoga em ruínas, e depois as formas nuas do que naqueles dias equivalia à cidade de Jerusalém, o Campo de Trabalhos Forçados de Plaszóvia, a cidade de casernas de 20.000 judeus inquietos. Os SS ucranianos e Waffen cumprimentaram cortesmente Herr Schindler, pois ele era tão conhecido ali como na Ponte Podgórze.

Quando se achou no mesmo nível que o Prédio da Administração, o Adler avançou por um caminho margeado por sepulturas judaicas. Até dois anos atrás, o acampamento fora um cemitério judaico. O Comandante Goeth, que se dizia poeta, usara na construção daquele campo todas as metáforas que lhe ocorreram. Essa metáfora de tumbas arrebentadas percorria a extensão do campo, dividindo-o em dois, mas não se estendia a leste para a villa, ocupada pelo próprio Comandante Goeth.

À direita, depois da caserna dos guardas, erguia-se uma antiga construção mortuária dos judeus. Parecia proclamar que ali toda a mor te era natural, causada pelo desgaste, que todos os mortos estavam devidamente enterrados. Na realidade, o local era agora usado como a estrebaria do comandante. Embora estivesse habituado ao cenário, é possível que este ainda provocasse em Herr Schindler a reação de uma ligeira tosse irônica. Admissivelmente, se alguém fosse reagir a cada aspecto irônico da nova Europa, essa reação passaria a fazer parte de sua bagagem. Mas Herr Schindler possuía uma imensa capacidade de carregar consigo tal bagagem.

Nessa noite, um prisioneiro chamado Poldek Pfefferberg encaminhava-se também para a residência do comandante. Lisiek, a ordenança de dezenove anos, fora à caserna de Pfefferberg munido de passes assinados por um oficial graduado da SS. O problema do rapaz era o fato de que a banheira do comandante estava com um anel encardido em seu interior, e Lisiek tinha medo de ser espancado, quando o Co mandante Goeth fosse tomar o seu banho matinal. Pfefferberg, que fora professor no curso secundário de Lisiek em Podgórze, trabalhava na garagem do campo e tinha acesso a solventes. Assim, acompanha do por Lisiek, ele foi até a garagem e apanhou um esfregão e uma lata de detergente. Aproximar-se da residência do comandante era sempre uma aventura duvidosa, mas significava a chance de receber comida de Helen Hirsch, a maltratada empregada judia de Goeth, moça gene rosa que também fora discípula de Pfefferberg.

Quando o Adler de Herr Schindler se encontrava ainda a cem metros da villa, os cães começaram a latir — o dinamarquês, o fila e to dos os animais mantidos em canis atrás da casa. A construção era de forma quadrada, com um sótão. As janelas do sobrado davam para uma varanda. Contornando todas as paredes havia um terraço com balaustrada. Amon Goeth gostava de sentar-se ao ar livre no verão. Desde que chegara a Plaszóvia aumentara de peso. No próximo verão seria um rotundo adorador do sol. Mas naquela versão particular de Jerusalém, ele estaria a salvo de pilhérias.

Um Unterscharführer SS (sargento), exibindo luvas brancas, estava nessa noite postado junto à porta da entrada. Bateu continência e introduziu Herr Schindler na casa. No saguão, Ivan, a ordenança ucraniana, apanhou o sobretudo e o chapéu-coco de Herr Schindler. Este apalpou o bolso de cima do paletó para se certificar de que estava com o presente para o seu anfitrião: uma cigarreira folheada a ouro adquirida no mercado negro. Amon estava tão bem de finanças, especial mente negociando com jóias confiscadas, que se ofenderia se recebesse algo menos que um folheado a ouro.

Ao pé das portas duplas, que abriam para a sala de jantar, os ir mãos Rosner estavam extraindo melodias, Henry de um violino, Leo de um acordeão. Por ordem de Goeth, eles tinham posto de lado as roupas esfarrapadas, que usavam durante o dia na oficina de pintura do campo, e envergado os trajes de noite, mantidos em sua caserna para eventos como aquele. Oskar Schindler sabia que, embora o co mandante admirasse a música dos Rosner, estes nunca se sentiam tranqüilos, quando tocavam na villa. Já conheciam bem Amon. Sabiam que ele era imprevisível e dado a execuções ex tempore. Assim, tocavam com cautela, no receio de que sua música, de repente, inexplicavelmente, se tornasse ofensiva.

A mesa de Goeth essa noite iriam sentar-se sete homens. Além do próprio Schindler e do anfitrião, os convidados incluíam Julian Scherner, chefe da SS para a região de Cracóvia, e Rolf Czurda, chefe da divisão em Cracóvia da SD, o Serviço de Segurança do falecido Heydrich. Scherner era um Oberführer — um posto entre coronel e general-de-brigada, para o qual não existe equivalente no Exército; Czurda, um Obersturmbannführer, equivalente a tenente-coronel. Goeth era um Hauptsturmführer, ou seja, capitão. Scherner e Czurda eram os convidados de mais alta categoria, pois aquele campo estava sob a sua autoridade. Eram ambos alguns anos mais velhos do que o Comandante Goeth, e o chefe de polícia SS Scherner parecia positivamente um homem já maduro, com seus óculos, cabeça calva e leve obesidade. Ainda assim, em virtude dos hábitos extravagantes do seu protegido, a diferença de idade entre ele e Amon não parecia ser significativa.

O mais velho do grupo era Herr Franz Bosch, um veterano da Primeira Guerra, gerente de várias oficinas, legais e ilegais, dentro de Plaszóvia. Era também "conselheiro econômico" de Julian Scherner e tinha interesses comerciais na cidade.

Oskar sentia desprezo por Bosch e pelos dois chefes de polícia, Scherner e Czurda. Contudo, a cooperação deles era essencial à existência de sua peculiar fábrica em Zablocie, e assim constantemente mandava-lhes presentes. Os únicos convidados por quem ele sentia alguma simpatia eram Julius Madritsch, proprietário da fábrica de uni formes Madritsch, dentro do campo de Plaszóvia, e Raimund Titsch, seu gerente. Madritsch era cerca de um ano mais moço do que Oskar e o Comandante Goeth. Homem empreendedor, porém humano; se lhe pedissem para justificar a existência de sua rendosa fábrica dentro do campo, argumentaria que mantinha quase quatro mil prisioneiros empregados e portanto a salvo das usinas de matança. Raimund Titsch, de quarenta e poucos anos, retraído e de físico franzino (que provavelmente deixaria cedo a reunião), contrabandeava para dentro do campo caminhões de alimentos para os seus prisioneiros (empreendimento que poderia custar-lhe uma permanência fatal na prisão de Montelupich, a cadeia da SS, ou então Auschwitz) e tinha o mesmo ponto de vista de seu patrão.

Tal era o grupo de convidados para o jantar na villa do Comandante Amon Goeth.

As quatro convidadas, muito bem penteadas e usando roupas caras, eram mais jovens do que qualquer dos homens, e todas prostitutas de alta categoria. Alemãs e polonesas, de Cracóvia. Algumas delas compareciam regularmente àqueles jantares. O seu número permitia certa opção de escolha para os dois oficiais superiores. Majola, a amante alemã de Goeth, em geral ficava em seu apartamento na cidade durante aqueles festejos de Amon. Considerava tais jantares como orgias masculinas e, portanto, ofensivas à sua sensibilidade.

Não havia dúvida de que, à maneira deles, os chefes de polícia e o comandante gostavam de Oskar. Achavam, contudo, haver algo de estranho nele. Talvez estivessem dispostos a considerar essa impressão como motivada pela origem de Oskar, um alemão da região Sudeste, entre a Boêmia e a Silésia — a mesma diferença de Arkansas para Manhattan ou de Liverpool para Cambridge. Havia dúvidas a respeito de sua mentalidade, embora ele fosse bom pagador, sempre pronto a fornecer mercadorias escassas, soubesse beber sem se embriagar e tivesse às vezes um senso de humor um tanto ousado. Era a espécie de homem para quem se sorria e cumprimentava do outro lado da sala, mas não era necessário tratá-lo efusivamente.

É bem provável que os membros da SS tivessem se dado conta da chegada de Schindler ao notar um frisson entre as quatro moças. Os que conheceram Oskar naquela época falam do charme magnético que ele exercia especialmente sobre as mulheres, com as quais seus sucessos eram escandalosamente constantes. Os dois chefes de polícia, Czurda e Scherner, voltaram-se para Schindler, talvez procurando um meio de atrair também a atenção das moças. Goeth adiantou-se para estender Ihe a mão. Era tão alto quanto Schindler, e sua obesidade, anormal para um homem de trinta e poucos anos, era ainda mais acentuada pela altura e físico atlético. O rosto não tinha marcas especiais, a não ser pelos olhos avinhados. O fato era que o comandante costumava ingerir uma quantidade imoderada do conhaque local.

Contudo, os sinais de excesso de bebida não eram tão marcantes nele como em Herr Bosch, o gênio da economia da SS em Plaszóvia. O nariz de Herr Bosch era de um vermelho arroxeado; o oxigênio que deveria correr-lhe nas veias do rosto havia muito passara a alimentar a intensa chama azul de todo aquele álcool. Cumprimentando-o, Schindler teve a certeza de que nessa noite, como de costume, Bosch iria fazer-lhe um pedido de mercadorias.

— Que seja bem-vindo o nosso industrial! — exclamou Goeth, e então apresentou-o formalmente às moças. No decorrer da cena, os irmãos Rosner tocaram melodias de Strauss, os olhos de Henry fixando através das cordas de seu violino o canto mais vazio da sala e Leo sorrindo de olhos baixos para as teclas de seu acordeão.

Enquanto beijava a mão das moças, Herr Schindler sentiu certa piedade delas, pois sabia que mais tarde — quando começassem as brincadeiras de palmadinhas e cócegas — as palmadas podiam deixar vergões e as cócegas arranharem a pele. Mas, por enquanto, o Hauptstumführer Amon Goeth, um sádico quando embriagado, portava-se como um exemplar cavalheiro vienense.

As conversas antes do jantar foram banais. Falou-se na guerra e, enquanto o Chefe da Segurança Czurda se empenhava em garantir a uma alemãzinha alta que a Criméia estava totalmente dominada, o chefe da SS Scherner contava a outra moça que um jovem, que ele conhecera em Hamburgo, bom sujeito, Oberscharführer na SS, tinha perdido as duas pernas na explosão de uma bomba lançada pelos guerrilheiros dentro de um restaurante em Czestochowa. Schindler conversou sobre assuntos industriais com Madritsch e seu gerente Titsch. Havia entre os três empresários uma amizade genuína. Herr Schindler sabia que o franzino Titsch adquiria ilegalmente, no mercado negro, grandes quantidades de pão, que destinava aos prisioneiros da fábrica de uni formes Madritsch. Tal gesto era de mera humanidade, pois na opinião de Schindler os lucros na Polônia eram bastante altos para satisfazer o mais inveterado capitalista e justificar gastos ilegais na aquisição de um pouco mais de pão. No caso de Schindler, os contratos com a Rustungsinspektion, a Inspetoria de Armamentos — organismo que pro punha lances e concedia contratos para a manufatura de todos os artigos necessários ao Exército alemão — tinham sido tão numerosos que ele ultrapassara seu desejo de ser bem-sucedido aos olhos do pai. Infeliz mente, Madritsch, Titsch e ele próprio éramos únicos que compravam regularmente pão no mercado negro.

Pouco antes de Goeth avisar que o jantar estava servido, Herr Bosch aproximou-se de Schindler, tomou-o pelo cotovelo, como ele previra, e o conduziu para junto à porta, onde se achavam os músicos, como se esperasse que as impecáveis melodias dos Rosner abafassem a conversa.



  • Os negócios vão bem, pelo que vejo — disse Bosch. Schindler sorriu para o SS.

  • Ah, então está dando para perceber, Herr Bosch?

  • É claro — replicou Bosch. Era evidente que Bosch andara consultando os boletins oficiais da Junta de Armamentos, onde eram mencionados os contratos concedidos à fábrica de Schindler.

  • Eu estava pensando — disse Bosch, inclinando a cabeça — que, em vista do seu atual surto de prosperidade, graças, afinal de contas, aos nossos muitos êxitos nas frentes de combate... Eu estava pensando se o senhor não gostaria de fazer um gesto generoso. Nada de maior. Apenas um gesto.

  • É claro — respondeu Schindler. Sentia a náusea de estar sendo usado e, ao mesmo tempo, uma sensação próxima do regozijo. O departamento do chefe de polícia Scherner por duas vezes usara a sua influência para tirar Oskar Schindler da prisão. Os auxiliares do chefe iriam sentir-se ainda mais na obrigação de repetir a providência.

  • A minha tia em Bremen, pobrezinha, teve a sua casa bombardeada — explicou Bosch. — Tudo foi arrasado. A cama nupcial. Os aparadores. Todas as louças e panelas. Pensei que talvez pudesse lhe arranjar uns utensílios de cozinha. E talvez uma ou duas terrinas — aquelas sopeiras grandes fabricadas na sua DEF.

Deutsche Emailwaren Fabrik (Fábrica Alemã de Utensílios Esmaltados) era o nome do próspero negócio de Herr Schindler. DEF era a sigla usada pelos alemães, mas poloneses e judeus abreviavam o no me da fábrica para Emalia.

— Acho que posso dar um jeito — concordou Herr Schindler.

— Quer que a mercadoria seja consignada diretamente para sua tia ou
para o senhor?

— Para mim, Oskar — respondeu Bosch, sem sequer um sorriso.

— Quero mandar-lhe junto um cartão.


  • É claro.

  • Então está combinado. Digamos meia grosa de tudo... pratos de sopa e de servir, cafeteiras. E uma meia dúzia daquelas terrinas.

Inclinando a cabeça para trás, Herr Schindler riu abertamente, embora com certo enfado. Mas, quando falava, o seu tom era afável. E realmente isso fazia parte da sua natureza. Sempre estava disposto a presentear. Mas o fato era que os parentes de Bosch pareciam ter uma grande tendência para serem bombardeados.

— Sua tia dirige um orfanato? — perguntou Oskar.

Bosch tornou a fitá-lo nos olhos; não havia nada de furtivo naquele bêbado.


  • Ela é uma mulher idosa e sem recursos. Poderá negociar os artigos que sobrarem.

  • Direi à minha secretária que providencie a remessa.

  • Aquela garota polonesa? A bonita?

— Sim, a bonita — concordou Schindler.

Bosch tentou soltar um assobio mas os nervos de seus lábios ha viam afrouxado com o excesso de conhaque, e apenas conseguiram emitir um estranho sopro.



  • Sua mulher — disse ele de homem para homem — deve ser uma santa.

  • Sim, uma santa — admitiu Herr Schindler secamente. Não se importava de fornecer mercadorias a Bosch, mas lhe desagradava ouvi-lo falar sobre sua mulher.

  • Diga-me — disse Bosch — como consegue que sua mulher não interfira? Ela deve saber... e, no entanto, você parece capaz de controlá-la muito bem.

A afabilidade desapareceu do semblante de Schindler. O seu de sagrado era óbvio. Contudo, o tom rosnado de irritação não diferiu muito de sua voz normal.

  • Nunca discuto assuntos particulares — declarou.

  • Oh, perdoe-me — desculpou-se apressadamente Bosch. — Não tive a intenção... — E continuou pedindo desculpas incoerentes.

Herr Schindler não prezava Herr Bosch o suficiente para lhe explicar que, naquela altura de sua vida, não se tratava de controlar ninguém, que o desastre matrimonial do casal era antes de tudo decorrente do temperamento ascético de Frau Emilie Schindler e do temperamento hedonista de Herr Oskar Schindler. Haviam-se casado de livre e espontânea vontade, apesar de essa união ter sido desaconselhada. Mas a irritação de Oskar contra Bosch era mais profunda do que ele próprio estava disposto a admitir. Emilie era muito semelhante a Frau Louisa Schindler, a falecida mãe de Oskar. Herr Schindler pai abandonara Louisa em 1935. Assim, Oskar tinha a sensação visceral de que, ao falar com descaso do casamento Emilie-Oskar, Bosch estava também aviltando o casamento dos pais.

Bosch continuava desdobrando-se em desculpas. Bosch, que tinha a mão enfiada na gaveta de todas as máquinas registradoras de Cracóvia, estava agora suando frio de medo de perder a sua meia grosa de utensílios de cozinha.

Os convidados sentaram-se à mesa. Uma sopa de cebolas foi ser vida por uma criada. Enquanto todos comiam e conversavam, os ir mãos Rosner continuavam a tocar, aproximando-se mais da mesa, mas não tão perto que pudessem atrapalhar os movimentos da criada ou de Ivan e Petr, as duas ordenanças ucranianas de Goeth. Schindler, sentado entre a moça alta, de quem Scherner se apropriara, e uma polonesa de rosto meigo e físico delicado que falava alemão, reparou que as duas olhavam para a criada. Esta usava o tradicional uniforme doméstico, vestido preto e avental branco, mas em seu braço não havia nenhuma estrela judaica, ou risco de tinta amarela nas costas. Entre tanto, era judia. O que atraíra a atenção das outras moças era o estado de seu rosto. Em seu queixo via-se uma equimose, e seria de se imaginar que Goeth tivesse vergonha de exibir para os seus convidados uma criada em tais condições. Ambas as moças e Schindler notaram também, além da pisadura no rosto, um alarmante vergão arroxeado, que a gola do vestido nem sempre escondia, na junção do pescoço fino com o ombro.

Não somente Amon Goeth não procurou desviar a atenção geral da pessoa da criada, como virou sua cadeira para ela, ordenando-lhe, com um gesto de mão, que se aproximasse, exibindo-a para os presentes. Fazia seis semanas que Schindler não vinha àquela casa, mas sabia pelos seus informantes que a relação entre Goeth e a criada era de uma estranha crueldade. Quando se achava com amigos, ele se referia a ela como assunto de conversa. Só a escondia quando era visitado por oficiais graduados de fora da região de Cracóvia.



  • Senhoras e cavalheiros — anunciou ele, imitando o tom de um embriagado mestre-de-cerimônias num cabaré — quero apresentar-lhes Lena. Após cinco meses em minha casa, ela agora está se saindo bem na cozinha e comportando-se adequadamente.

  • Posso ver pelo seu rosto — disse a moça alta — que ela deve ter sofrido uma colisão com a mobília da cozinha.

  • E logo a cadela poderá sofrer outra colisão — retorquiu Goeth, com uma risada jovial. — Sim, outra colisão, não é mesmo, Lena?

  • Ele não é mole com mulheres — comentou o chefe SS, piscando para a sua parceira. A intenção de Scherner talvez não fosse racista, pois ele não se referira a mulheres judias, mas sim às mulheres em geral. Mas sempre que Goeth se lembrava da origem de Lena é que ela era mais severamente punida, quer em público, diante dos convidados, quer mais tarde, depois de todos se terem retirado. Scherner, sendo mais graduado do que Goeth, poderia ordenar ao comandante que parasse de espancar a criada. Mas isso não seria polido para com o seu anfitrião e poderia vir a perturbar as amistosas reuniões na villa. Scherner vinha ali não como oficial superior, mas como amigo, companheiro de orgias, apreciador de mulheres. Amon era um sujeito esquisito, mas ninguém como ele para organizar festinhas.

Em seguida foi servido arenque com molho e mocotó de porco admiravelmente preparados e apresentados por Lena. Com a carne foi servido um pesado vinho tinto húngaro; os irmãos Rosner puseram-se a tocar ardentes czardas, e o ar na sala de jantar esquentou, fazendo com que todos os oficiais despissem as jaquetas. Falou-se de novo em contratos de guerra. Perguntaram a Madritsch, o fabricante de fardas, como ia a sua fábrica em Tarnow. Estava conseguindo tantos contra tos na Inspetoria de Armamentos quanto a sua fábrica em Plaszóvia? Madritsch passou a pergunta a Titsch, o seu magro e ascético gerente. De repente, Goeth pareceu preocupado, como um homem que se lembrou no meio do jantar de algum detalhe urgente de negócio, que de veria ter sido acertado durante o dia.

As moças de Cracóvia pareciam entediadas. A jovem polonesa de lábios lustrosos, que não poderia ter mais do que 18 ou 20 anos, pousou a mão na manga de Schindler.

— Você não é militar? — perguntou ela. — Deve lhe assentar mui
to bem uma farda.

Todos se puseram a rir — inclusive Madritsch, que em 1940 passara algum tempo fardado, até ser dispensado porque seus talentos de empresário eram mais importantes para o esforço de guerra. Mas Herr Schindler era tão influente que nunca fora ameaçado pela Wehrmacht:

Ouviram isso? — perguntou o Oberführer Scherner aos presentes. — A mocinha está imaginando o nosso industrial como um soldado. O soldado Schindler em Kharkov, comendo sua marmita, com um cobertor sobre os ombros!

À vista da elegância impecável de Schindler, realmente o quadro era discrepante, e o próprio Schindler pôs-se a rir.



  • Aconteceu com... — disse Bosch, tentando estalar os dedos — aconteceu com... qual era mesmo o nome dele lá em Varsóvia?

  • Toebbens — informou Goeth, saindo inesperadamente de sua alienação. — Aconteceu com Toebbens. Quase.

  • Oh, sim — disse o chefe da SD Czurda — Toebbens escapou por pouco. — Toebbens era um industrial de Varsóvia, mais importante do que Schindler ou Madritsch. — Heini (o apelido de Heinrich Himmler) foi a Varsóvia e ordenou ao chefe dos armamentos da zona: "Tire aqueles judeus fodidos da fábrica de Toebbens e convoque Toebbens para o Exército e... mande-o para a Frente. Quero dizer a Frente de Combate!" Depois recomendou ao meu colega de Varsóvia que examinasse os livros de Toebbens ao microscópio!

Toebbens era muito querido na Inspetoria de Armamentos, que sempre o favorecera com contratos de fornecimento para o Exército; por sua vez, ele retribuía esse privilégio com uma profusão de presentes. Os protestos do pessoal da Inspetoria de Armamentos tinham conseguido salvar Toebbens, contou solenemente Scherner, e depois voltou-se com uma piscadela para Schindler.

— Isso nunca aconteceria em Cracóvia, Oskar. Nós todos gostamos demais de você.

Imediatamente, talvez para demonstrar a afeição calorosa que a mesa inteira dedicava ao industrial Herr Schindler, Goeth pôs-se de pé e entoou sem palavras um trecho da melodia de Madame Butterfly, que os irmãos Rosner estavam executando tão caprichosamente quanto qualquer artesão em qualquer fábrica ameaçada, em qualquer gueto ameaçado.

A essa hora, Pfefferberg e Lisiek, a ordenança, se achavam no andar acima esfregando o anel de sujeira na banheira de Goeth. Podiam ou vir a música dos Rosner e o ruído das risadas e conversas. À hora do café, a infeliz Lena trouxe a bandeja para os convidados e se retirou às pressas para a cozinha.

Madritsch e Titsch beberam rapidamente o seu café e desculparam-se por terem de se retirar. Schindler preparou-se para fazer o mesmo. A garota polonesa esboçou um gesto de protesto mas aquela casa não tinha atrativos para ele. Na Goethhaus tudo era permitido, mas para Oskar, que sabia dos extremos do comportamento da SS na Polônia, cada palavra que ali se dizia, cada copo que ali se bebia, era repugnante, sem falar em qualquer entretenimento sexual. Mesmo que ele levas se uma das moças para cima, não poderia se esquecer de que Bosch e Scherner e Goeth estavam desfrutando os mesmos prazeres — nas escadas ou num banheiro ou quarto — executando os mesmos movi mentos. Schindler, que não era nenhum monge, preferia ser um monge a ter que dormir com uma mulher chez Goeth.

Conversou por cima da cabeça da moça com Scherner, comentando as notícias da guerra, os bandidos poloneses, a probabilidade de um mau inverno, dando a entender à pequena que Scherner era para ele como um irmão, e que nunca roubaria a mulher de um irmão. Mas, ao dizer-lhe boa-noite, ele lhe beijou a mão. Viu que Goeth, em mangas de camisa, esgueirava-se para fora da sala de jantar, encaminhando-se para as escadas, apoiado a uma das moças, que se sentara ao seu lado durante o jantar. Oskar pediu licença e foi atrás do co mandante. Pousou a mão no ombro de Goeth. Os olhos de Goeth esforçaram-se para focalizar Schindler.



  • Oh — balbuciou ele — já vai, Oskar?

  • Tenho de voltar para casa — disse Oskar. Em casa, esperava-o Ingrid, sua amante alemã.

  • Você é um tremendo garanhão — observou Goeth.

  • Não da sua classe — replicou Schindler.

  • Tem razão, sou imbatível. Nós vamos... aonde vamos nós? — E virou a cabeça para a moça, mas respondeu à sua própria pergunta. — Vamos à cozinha para ver se Lena está limpando tudo direito.

— Não — disse a moça, rindo. — Não é isso que vamos fazer.

— E encaminhou-o para as escadas. Era um gesto de solidariedade da


parte dela, a fim de proteger a jovem brutalizada, na cozinha.

Schindler observou-os — o oficial volumoso, a jovem esguia sustentando-o — subirem cambaleando as escadas. Goeth dava a impressão de que a melhor coisa que teria a fazer era dormir até a hora do almoço do dia seguinte, mas Oskar conhecia a espantosa constituição do comandante e o relógio que funcionava dentro dele. Às 3:00 horas da madrugada, Goeth seria bem capaz de decidir levantar-se e escrever uma carta ao seu pai em Viena. Às 7:00 da manhã, depois de ter dormido apenas uma hora, ele estaria na varanda, de rifle em punho, pronto a atirar em qualquer prisioneiro retardatário.

Quando a moça e Goeth chegaram ao primeiro patamar, Schindler atravessou o saguão e dirigiu-se para os fundos da casa.

Pfefferberg e Lisiek ouviram o comandante chegar muito mais cedo do que esperavam, entrando no quarto e falando com a moça que o acompanhava. Em silêncio, eles apanharam o seu equipamento de limpeza, esgueiraram-se pelo quarto e tentaram escapulir por uma porta lateral. Ainda de pé e capaz de vê-los, Goeth recuou à vista do esfregão, suspeitando que os dois homens fossem assassinos. Entretanto, quando Lisiek adiantou-se e começou uma trêmula explicação, o co mandante compreendeu que se tratava de meros prisioneiros.



  • Herr Commandant — disse Lisiek — quero informá-lo de que na sua banheira havia um colarinho...

  • Ah — disse Amon —, então você recorreu a um especialista em limpeza? — E fez um sinal para o rapaz se aproximar. — Venha, meu querido.

Hesitante, Lisiek adiantou-se e levou uma bofetada tão violenta que caiu esparramado no chão. Amon repetiu o convite, como se pudesse ser divertido para a moça ouvi-lo falar em termos carinhosos com os prisioneiros. O jovem Lisiek levantou-se e tornou a aproximar-se do comandante para uma nova bofetada. Quando ele se ergueu pela segunda vez, Pfefferberg, um prisioneiro experiente, sabia que podia esperar que qualquer coisa acontecesse — os dois serem levados para o jardim e sumariamente fuzilados por Ivan. Ao invés, o comandante simplesmente esbravejou contra eles e lhes ordenou que saíssem; os dois prontamente sumiram.

Quando Pfefferberg soube alguns dias depois que Amon matara Lisiek com um tiro, presumiu que fosse por causa do incidente do banheiro. Na verdade, tinha sido por uma questão totalmente diferente — a ofensa de Lisiek fora atrelar um cavalo numa charrete para Bosch, sem primeiro pedir permissão ao comandante.

Na cozinha da casa, a criada, cujo nome verdadeiro era Helen Hirsch (Goeth chamava-a de Lena por preguiça), ergueu os olhos e deparou com um dos convidados do jantar. Soltou na mesa o prato com restos de carne que tinha nas mãos e perfilou-se com trêmula rapidez.


  • Herr... — Olhou para o dinner jacket de Schindler e buscou um título para ele. — Herr Direktor, eu estava apenas pondo de lado os ossos para os cães de Herr Comandante.

  • Por favor — disse Schindler — não tem que me dar satisfações, Fräulein Hirsch.

E deu a volta na mesa. Não parecia querer agarrá-la mas ela te mia as suas intenções. Se bem que Amon se comprazesse em espancá-la, o fato de Helen ser judia a salvara de um franco ataque sexual. Mas havia alemães que não eram tão discriminadores quanto Amon em questões sexuais. Todavia, o tom de voz desse homem não era o mesmo a que ela estava acostumada, nem mesmo ao de oficiais da SS e NCO que vinham à cozinha queixar-se de Amon.

  • Não me conhece? — perguntou ele, como se fosse um jogador de futebol, astro do cinema ou um virtuose do violino, cuja consciência de sua própria celebridade se ofendia com o fato de alguém não o reconhecer. — Sou Schindler.

  • Herr Direktor — balbuciou ela, curvando a cabeça. — É claro que já ouvi falar... e o senhor já esteve antes aqui. Lembro-me...

Ele passou o braço pela cintura dela. Podia sentir a tensão do corpo da moça, quando lhe tocou o rosto com os lábios.

— Não é a espécie de beijo que você está receando — murmurou ele. — Se quer saber, estou beijando-a por piedade.

Ela não pôde conter as lágrimas. Herr Direktor beijou-a agora com força na testa, à maneira de despedidas polonesas em estações de estrada de ferro, um ruidoso beijo típico da Europa Oriental. Helen viu que também ele tinha lágrimas nos olhos.

— Este beijo é algo que lhe estou transmitindo de. . . — E, comum gesto da mão indicou a turba de honestas criaturas lá fora no escuro, dormindo em catres amontoados ou escondidas nas florestas para quem, ao absorver os espancamentos de Hauptsturmführer Goeth, ela de certa forma atuava com pára-choque.

Schindler soltou-a e tirou de dentro do bolso uma grande barra de chocolate. Em sua substância, parecia também algo de antes da guerra.


  • Esconda isso — advertiu ele.

  • Aqui tenho mais comida — respondeu ela, como se fosse uma questão de amor-próprio informá-lo de que não estava passando fome. E, com efeito, a comida era a menor de suas preocupações. Ela sabia que não sobreviveria ao trato na casa de Amon, mas não seria por falta de alimentação.

  • Se não quiser comer o chocolate, troque-o por outra coisa. Por que não procura se fortalecer? — Ele recuou um passo e examinou-a. — Itzhak Stern falou-me a seu respeito.

  • Herr Schindler — murmurou a jovem, baixando a cabeça e chorando discretamente por alguns segundos. — Herr Schindler, ele gosta de me bater diante daquelas mulheres. No meu primeiro dia aqui, espancou-me porque joguei fora os ossos do jantar. Desceu ao porão durante a noite e perguntou-me onde estavam os ossos para os seus cachorros. Foi a minha primeira sova. Eu disse a ele... não sei por que falei; agora eu não abriria mais a boca... "Por que está me batendo?" E ele respondeu: "Estou batendo em você porque me perguntou por que estou batendo."

Helen abanou a cabeça e encolheu os ombros, como se estivesse reprovando a si mesma por falar demais. Não queria dizer mais nada; não podia relatar todos os espancamentos de que fora vítima, suas múltiplas experiências com os punhos do Hauptsturmführer.

  • As circunstâncias em que está vivendo são horríveis, Helen — disse Schindler em tom confidencial, curvando-se para ela.

  • Não importa — respondeu ela. — Já aceitei o meu destino.

  • Aceitou?

  • Um dia ele vai me matar com um tiro.

Schindler fez que não com a cabeça, e ela julgou que era um encorajamento bem precário para lhe dar esperanças. Subitamente, o traje elegante de Schindler e seu ar saudável pareceram-lhe uma provocação.

— Pelo amor de Deus, Herr Direktor, eu vejo as coisas. Na segunda-feira estávamos em cima do telhado, o jovem Lisiek e eu, arrancando o gelo. E vimos o Herr Commandant sair pela porta da frente e descer os degraus do pátio, bem abaixo de onde nos achávamos.


E ali mesmo, ele puxou o revólver e atirou numa mulher que estava passando. Uma mulher carregando uma trouxa. Ela não parecia mais magra ou mais gorda ou mais rápida ou mais lenta do que qualquer outra pessoa. Não pude entender a razão. O tiro atravessou-lhe a garganta. Apenas uma mulher que passava. Quanto mais se conhece Herr Commandant, mais a gente se convence de que o comportamento dele não obedece a regras de espécie alguma. Não posso dizer para mim mesma: "Se eu seguir essas regras, estarei a salvo..."

Schindler tomou-lhe a mão e apertou-a com força.

— Escute, minha cara Fräulein Helen Hirsch, apesar de tudo, isto aqui ainda é melhor do que Majdanek ou Auschwitz. Se conseguir se manter com saúde...

— Pensei isso, que não haveria esse problema na cozinha do comandante. Quando me tiraram da cozinha do campo e me destacaram para cá, as outras mulheres ficaram com inveja — respondeu ela, com um sorriso.

Schindler passou a falar mais alto. Parecia um professor enunciando um princípio de física.

— Ele não vai matá-la, porque você lhe oferece muitos divertimentos, minha cara Helen. Tantos divertimentos que nem permite que


você use a estrela de judia. Não quer que saibam que ele está se divertindo com uma judia. Atirou naquela mulher porque ela não significava nada para ele, era apenas uma a menos de uma série, que nem o ofendia nem o agradava. Está compreendendo? Mas você... Isso não é decente, Helen. Mas é a vida.

Alguém mais, Leo John, o adjunto do comandante, lhe dissera o mesmo. John era um Untersturmführer SS — equivalente a segundo-tenente. "Ele não a matará", dissera John, "até o final, Lena, porque você representa muito divertimento para ele." Dito por John, o comentário não produzira o mesmo efeito. Herr Schindler estava condenando-a a uma dolorosa sobrevivência.

Ele pareceu compreender que a deixara perturbada. Murmurou palavras de encorajamento. Tornaria a procurá-la. Tentaria livrá-la.


  • Livrar? — perguntou ela.

  • Sim. Livrá-la do comandante — explicou ele — levando-a para a minha fábrica. Certamente já ouviu falar na minha fábrica. Tenho uma fábrica de artefatos esmaltados.

  • Oh, sim! — respondeu ela como uma criança de cortiço, falando na Riviera. — A Emalia de Schindler. Já ouvi falar.

  • Mantenha-se com saúde — repetiu ele. Parecia ter certeza, quando falava, de que aquela seria a solução, baseando-se no conheci mento das futuras intenções de Himmler, de Frank.

  • Está bem — concordou ela.

Dando-lhe as costas, Helen se dirigiu para o guarda-louça e o arrastou para a frente, numa demonstração de força que espantou Schindler, tratando-se de uma jovem tão frágil. Removendo um tijolo da parede que ficava atrás do guarda-louça, ela retirou um punhado de dinheiro — zloty de ocupação.

  • Tenho uma irmã na cozinha do campo — explicou ela. — É mais moça do que eu. Quero que o senhor a resgate com este dinheiro, para que ela jamais seja colocada num vagão de gado. Creio que o senhor costuma saber de antemão dessas coisas.

  • Tratarei pessoalmente do caso — falou Schindler, porém com displicência, não como uma promessa solene. — Quanto dinheiro tem você?

— Quatro mil zlotys.

Ele apanhou as economias da moça e enfiou-as no bolso. Esta riam mais seguras com ele do que num nicho atrás do guarda-louça de Amon Goeth.

Assim começa perigosamente a história de Oskar Schindler, envolvido com nazistas góticos, com hedonistas SS, com uma frágil e brutaliza da jovem e com uma figura de certa forma fictícia, tão popular como a da prostituta de coração de ouro: o bom alemão.

Por um lado, Oskar tratou de conhecer a verdadeira face do sistema, a face hidrófoba por detrás do véu de decência burocrática. Sabe mais cedo do que a maioria das pessoas ousaria reconhecer o que Sonderbehandlung significa; que embora a palavra queira dizer "Trata mento Especial", significa pirâmides de cadáveres cianóticos em Belzec, Sobibor, Treblinka e no complexo a oeste de Cracóvia, conhecido pelos poloneses como Oswiecim-Brzezinka, mas que será denominado no Ocidente pelo seu nome alemão, Auschwitz-Birkenau.

Por outro lado, ele é um comerciante, um homem de negócios por temperamento, e não cospe abertamente no olho do sistema. Já conseguiu reduzir as pirâmides de cadáveres, e, embora não saiba o quanto nesse ano ou no próximo elas irão crescer em número e tamanho, ultrapassando o Matterhorn, sabe que o Holocausto virá. Embora não possa prever que mudanças burocráticas irão ocorrer em sua construção, ainda assim presume que sempre haverá espaço e necessidade de mão-de-obra judaica. Portanto, durante sua visita a Helen Hirsch, ele insiste: "Conserve sua saúde." E lá fora, no sombrio Arbeilslager (campo de trabalho) de Plaszóvia, judeus vigilantes dizem a si mesmos que regime algum — com a sua maré em vazante — pode se dar ao luxo de desperdiçar uma abundante fonte de mão-de-obra gratuita. São os que não conseguem se agüentar, que cospem sangue, que são acometi dos de disenteria que são transportados para Auschwitz. O próprio Herr Schindler ouviu prisioneiros, na Appellplatz do campo de trabalho de Plaszóvia, respondendo à chamada matinal, murmurarem: "Pelo me nos ainda estou com saúde", num tom que na vida normal só os velhos usam.

Assim, naquela noite de inverno já se havia iniciado o engajamento prático de Herr Schindler no salvamento de certas vidas humanas. Ele já estava tremendamente comprometido; já burlara leis do Reich, o que lhe poderia ter valido numerosas vezes o enforcamento, a decapitação, o confinamento nas frias cabanas de Auschwitz ou Gröss-Rosen. Mas não sabe ainda o quanto aquilo tudo vai lhe custar. Embora já tenha gasto uma fortuna, não sabe a extensão do custo futuro.

Para não forçar de início a credibilidade, a história começa com um ato cotidiano de bondade — um beijo, uma voz branda, uma barra de chocolate. Helen Hirsch nunca tornaria a ver os seus 4.000 zlotys — não numa forma em que pudessem ser contados e colocados em sua mão. Mas até hoje ela considera uma questão de somenos importância que Oskar fosse tão negligente em prestação de contas.




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