A. J. Hartley a máscara de atreu



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A. J. HARTLEY
A MÁSCARA DE ATREU

Tradução

Rosana Teles

Landscape

2006


Para Sebastian, que nos foi revelado primeiro pelo oráculo cibernético em Delfos...



AGRADECIMENTOS
O autor gostaria de agradecer:
Às pessoas que deram apoio a meu trabalho no passado:

Jane Hill, David Raney, Jaime Cortez, Alan McNee, Douglas Brooks-Davies, Jonathan Mulrooney e — especialmente — Stacey Glick, que nunca desistiu.

Às pessoas que contribuíram diretamente para que este romance se tornasse realidade, fazendo sua leitura e contribuindo com informações valiosas:

Gary Hibbert, Kimily Willingham, Cary Mazer, Ron Tipton, Jonathan Brenton, Natalee Rosenstein e o Museu Nacional de Arqueologia de Atenas.


Às pessoas que fizeram ambas as coisas:

Meu irmão Chris; meus pais, Frank e Annette; e sobretudo minha esposa, cuja paciência com todas as minhas anotações vai além do entendimento.


PRÓLOGO
Alemanha, 1945
Andrew Mulligrew prendeu com mais força os fones de ouvido à cabeça. Devia ter ouvido errado. Considerando o barulho do motor do Sherman, era de espantar que ele ouvisse alguma coisa.

  • Repita, por favor — ele gritou.

  • Coluna alemã dirigindo-se rapidamente para o sul — repetiu o comandante. — Liderada por um veículo blindado seguido de alguma coisa grande, sem torre. Talvez um Jagdpanther.

Mulligrew sentiu um aperto no coração. Fora exatamente o que ouvira. Mesmo com os ruídos e rangidos das rodas do tanque, ele pôde ouvir o silêncio na estática do rádio. Alguém, talvez Williams do outro lado da rodovia à sua esquerda — o pelotão inteiro havia escrito seus nomes na carcaça do tanque —, perguntou o que mais havia no comboio. A sua voz era uma mistura de medo e resignação.

— Alguns caminhões, uma meia-lagarta e pelo menos mais dois tanques, provavelmente um Panzer IV e um Panther.

Quatro Sherman, pensou Mulligrew — um deles se movendo com metade da velocidade — e dois Stuart M5 contra os melhores blindados alemães, inclusive um tanque que não tinham a menor condição de enfrentar, a não ser que se aproximassem o bastante para poder cuspir neles. Todos os tanques alemães tinham armas capazes de obrigar que parassem a 500 metros de distância. O Jagdpanther seria capaz de estraçalhá-los a uma distância três vezes maior.

O que, em nome de Deus, pretendiam os alemães ao mandar um pelotão tão bem equipado como esse para o sul, quando estavam usando todos os seus homens e suas armas para atrasar o ataque dos Aliados ao norte? Berlim estava prestes a cair e talvez já tivesse caído, mas uma unidade de choque fora mandada rápida e diretamente para o sul — que Deus o ajudasse — ao encontro de seu pelotão exausto e arrebentado pela guerra.

O tanque de Mulligrew e o que sobrara do pelotão fora separado da Divisão de Tanques 761 quando, cinco dias antes, se dirigiam para o leste por Regensburgo, às margens do Danúbio. Estavam a mais ou menos 120 quilômetros a nordeste de Munique, a uma distância ainda menor da Áustria e do que fora a Tchecoslováquia antes do ataque alemão e bem próximos da fronteira com a Suíça. Era um local cheio de florestas e montanhas com picos cobertos de neve e castelos longínquos e românticos. Num momento, avançavam com o resto do grupo, finalmente começando a acreditar que o pesadelo vivido entre a Normandia e Ardenes, a caminho da Alemanha, estava prestes a chegar a um final vitorioso e, no próximo, estavam encurralados pela artilharia inimiga. O pelotão de Mulligrew recebera ordens para se separar e cortar as linhas de suprimento inimigas, mas, dois dias depois, encontrava-se completamente sozinho. O resto do batalhão tivera de avançar com a máxima velocidade, adiantando-se com o resto do exército, a caminho de Steyria no rio Enns para encontrar os russos.

Mulligrew e o resto da divisão foram sozinhos para o norte. Ao passarem por estradas congestionadas por refugiados, ele começara a pensar que tinham ficado com o trabalho mais fácil. Desde Regensburgo, não tinham dado um tiro sequer e começavam a acreditar que não precisariam mais atirar. Afinal, tudo levava a crer que a guerra havia terminado.

E agora isso.

Mulligrew virou-se para o circuito interno do tanque e começou a gritar ordens, girando o nariz do Sherman e pedindo munição pesada. Tinham acabado de sair da estrada quando viram o veículo blindado vindo na direção deles. Vinha a pelo menos 80 quilômetros por hora e derrapava bastante na tentativa de encontrar cobertura, as armas de sua torre se aprontando. Eles podiam ouvir as rajadas de metralhadora atingindo a torre do Sherman. Mas o que tirou a cor de seu rosto foi o que viu atrás do carro blindado.

O Jagdpanther era enorme, baixo e ameaçador como um crocodilo ou um tubarão, e sua blindagem frontal tinha boa inclinação e vários centímetros de largura. Mesmo a curta distância, a arma de 76 milímetros do Sherman não teria qualquer chance contra ele. E se o tanque alemão apontasse suas 88 para eles, estariam mortos. Simplesmente mortos.

Mulligrew gritou ordens para que o tanque fosse levado ao campo e para que as torres fossem posicionadas. A única chance que tinham era passar pelo Jagdpanther chocando-se contra ele — várias vezes, e de uma distância bem próxima — do outro lado. Os Sherman que vinham atrás teriam de dar conta dos outros tanques alemães.

Eles estavam saindo da trincheira ao lado da estrada quando o 88 abriu fogo, causando uma enorme nuvem de fumaça e fagulhas flamejantes que cobriram o visor de Mulligrew, fazendo-o encolher-se involunta­riamente. Demorou uns dois segundos para ter certeza de que não tinham sido atingidos. Em seguida, estava aos berros, ordenando que abrissem fogo, consciente de que a torre do tanque de Williams já fora atingida por um tiro certeiro, abrindo um buraco do tamanho de uma lata de lixo na frente, as balas ricocheteando do lado de dentro...
Dezessete longos minutos depois, Mulligrew estava parado na parte traseira do caminhão alemão, olhando para os fragmentos fumegantes que sujavam a estrada e os campos ao redor. Dois dos Sherman e um dos Stuart tinham sido destruídos; um terceiro ficara seriamente avariado. Williams e todos os membros de sua equipe — com exceção de um — estavam mortos, assim como Smith, Jenkins e Pole. Rogers perdera uma perna e Lumpkin ficara cego de um olho. Os dois estavam felizes por ter escapado.

Os alemães mal haviam parado. Em vez de reposicionar-se, avançar e tentar subjugá-los com suas armas mais potentes, tentaram apenas passar por eles como se estivessem desesperados para não interromper a marcha. Quando os Sherman se espalharam para tentar atacá-los pelos flancos, não fizeram nenhum tipo de ajuste, continuando sua jornada para o sul, expondo as laterais e a traseira daquele monstruoso Jagdpanther, um tan­que que provavelmente teria acabado com o pelotão inteiro, se tivesse esperado que o atacassem.

Aquilo não fazia o menor sentido.

E depois, a maneira estranha como, quando a batalha começou a tornar-se favorável para os americanos, os alemães haviam cuidado do caminhão, todos ao seu redor como se estivessem decididos a protegê-lo nem que aquele pequeno Opel fosse o único veículo a sair inteiro daquele confronto.

— Vamos ver a causa disso tudo — disse Mulligrew.

Tom Morris, o motorista de Mulligrew, soltou o trinco da carrocería. Seu rosto estava pálido e os olhos estavam arregalados por causa do choque e da estranheza causados pela batalha.

Mulligrew subiu na carrocería, passando pelo jovem alemão que tentou impedi-lo com uma pistola, até que eles perfuraram o caminhão com tiros de calibre .30. Lá dentro havia um enorme caixote, marcado com a águia alemã e a suástica. Ele pegou um pé-de-cabra da lateral de seu tanque, golpeou a tampa e colocou seu peso sobre ela, até que rachasse. Depois, abriu-a e ficou imóvel, olhando em silêncio.

Que diabos?

— O que tem aí, Andrew? — perguntou Morris. — O que está vendo?

— Não sei — respondeu Mulligrew, com a voz entrecortada de espanto e medo. — Não sei. Uma coisa muito estranha.

— O que é?

— É melhor chamar os PMs — disse Mulligrew. — Agora mesmo.

Mesmo fazendo isso, e apesar de toda a carnificina que tinham acabado de enfrentar e da dor que se seguiu ao horror inicial, Mulligrew nunca se afastou da carroceria do caminhão. Ele ainda estava lá, olhando como que enfeitiçado, quando as ambulâncias chegaram para levar os corpos.
PARTE I
Velhos Ossos


  • Ademais, os ferimentos dele, sim, cada um daqueles ferimentos (e muitos foram os homens que, com suas armas de bronze, o feriram) cicatrizou, mostrando o quanto os deuses bem-aventurados ainda amam seu filho apesar de, agora, ter ficado reduzido a um cadáver...

  • Respeite os deuses — respondeu o velho — e, em nome do seu próprio pai, tenha pena de mim... apesar de merecer mais do que pena, pois beijei a mão do homem que assassinou meu filho.

— Homero, A Ilíada, Livro 24.
CAPÍTULO 1

O Dia de Hoje
O homem alto e corpulento estava encostado à parede, seu peso considerável apoiado sobre o pé que ele, displicentemente, encostara contra o batente da porta.

  • Você é uma garota extraordinária, sabe, srta. Miller? — disse, de maneira arrastada, os olhos coleando em seu rosto suíno e a língua mostrando-se, úmida, por entre os lábios grossos e entreabertos.

  • Eu sei — disse Deborah. Ela tinha um metro e oitenta e quatro e parecia um esqueleto coberto de pele. Raramente era elogiada por sua aparência. Nunca fora considerada bonita. Extraordinária, já ouvira muitas vezes. Tempos atrás, talvez tivesse se sentido lisonjeada. Muito tempo atrás. Esta noite, depois de várias semanas de planejamento e muitas horas extras de sorrisos forçados e conversa tolerante, ela se sentia muito cansada para ser educada, mesmo com Harvey Webster, membro proeminente da Liga Cristã dos Executivos de Atlanta e diretor do conselho financeiro do museu. Passava da meia-noite e ela queria ir para casa.

  • Verdadeiramente extraordinária — ele repetiu, estendendo as mãos espalmadas em direção aos quadris dela. Ele tinha o formato de um sapo, sua pele parecia estufar e encolher ao mesmo tempo, como um balão com água pela metade, escorregando de um lado para o outro.

— Sr. Webster — ela disse, olhando para a mão cheia de manchas escuras que escorregava na direção dela. — Não acho que isso seria aconselhável.

Além disso, pensou ela, se você puser as mãos em mim, é bem provável que eu vomite.

As mãos dele hesitaram. Em seguida, como se ele tivesse decidido entender a recusa dela simplesmente como timidez, retomou seu intento. Ela recuou.

— Sr. Webster — ela disse, com um sorriso um pouco mais aborrecido. — Por favor. — Ele mudou de tática, o olhar de soslaio transformando-se em um sorriso; mãos levadas acima, em sinal de rendição.

— Longe de mim querer ofender — ele disse, o sorriso tornando-se mais largo que a passagem da porta que ainda bloqueava. — Eu queria apenas que você me levasse para um tour, porque, como sabe, todos já foram embora.

O sorriso ficou paralisado por um segundo, e Deborah percebeu a maquinação por trás dele. Agora, ele deixara de ser astuto e, para um homem de 65 anos, transpirava a presunção de um estudante trapaceiro. Presunção e, pensou ela, um toque de ameaça.

— Um tour particular — acrescentou ele, com um sorriso afetado para não deixar dúvidas sobre suas intenções.

Ele se comportara assim a noite toda; na verdade, ele sempre agia assim, especialmente depois de alguns drinques. Ela se considerava uma pessoa razoavelmente tolerante, mas sua paciência estava chegando ao fim.

— Um outro dia, sr. Webster — ela disse. — Durante o dia e quando eu tiver tido a chance de comprar um bom cassetete de choque.

Ela sorriu para mostrar que estava brincando, mas não conseguiu evitar mostrar um pouco dos dentes.



  • A senhorita é muito bocuda, srta. Miller — ele disse.

  • Obrigada — ela disse, aceitando o fato de que, naquela noite, não poderia sair vencedora —, apesar de eu não ser bocuda.

Ele suspirou e levantou as mãos pastosas, em rendição jocosa.

  • Tudo bem — ele disse, voltando a sorrir. — Estou indo embora.

  • Dirija com cuidado — ela disse, encolhendo-se um pouco enquanto ele fazia uma última tentativa de abraçá-la.

  • Devo voltar no final da semana para falar com Richard. Então... até lá.

Ele saiu pela porta de vidro, ainda olhando para ela como se estivesse esperando que ela mudasse de idéia e o convidasse a voltar.

— Boa noite, sr. Webster — ela disse, pensando consigo mesma: Seu velho bêbado e nojento.


Apesar de achar que ter forçado o velho a se retirar poderia ter um preço talvez maior do que pudesse imaginar, ela sentiu uma onda de alívio enquanto caminhava pela escuridão. Webster controlava a parte financeira do museu e tinha muita influência sobre os negociantes locais. Pelo menos sobre a geração mais velha que atuava na área. A Liga Cristã dos Executivos de Atlanta não impedia abertamente o ingresso de membros negros, mas era bastante sugestivo que uma organização daquele tipo não tivesse nenhum negro em seus quadros — especialmente em uma cidade como Atlanta. Deborah havia tentado comparar a presença da Liga no museu com organizações do gênero com sócios mais diversificados, o que não evitou que se sentisse desconfortável toda vez que recebia seu pagamento. Talvez ela pudesse incorporar um grupo judeu de negócios, pensou, sentindo-se também desconfortável, como se estivesse dilapidando sua herança, uma herança que fazia o melhor possível para desprezar de todas as maneiras. Por que arriscar expor a si mesma e o museu ao anti-semitismo quando grande parte de seu lado judeu não passava de história antiga?

Ah, por favor, ela ouviu seu pensamento. É provável que Webster nem saiba que você é judia.

Deborah verificou se as portas do museu estavam trancadas e caminhou rapidamente pelo saguão, por entre o esqueleto do T. Rex e a feia proa do galeão que Richard apresentara ao público no mês anterior, como se anunciasse que o Natal chegaria mais cedo. Era uma mulher semidespida fundida ao pescoço de um dragão. Dava a impressão que ela se sentiria muito mais à vontade se estivesse pintada com pistola de ar comprimido no tanque de gasolina de uma Harley do que adornando a proa de um valioso galeão renascentista espanhol, mas Richard considerava aquilo uma mistura maravilhosamente engraçada de história e arte kitsch. Deborah olhou para o rosto inexpressivo e as curvas excessivas da mulher e, depois, para a parte em que se transformava em um réptil cheio de escamas, a postura sensual se transformando — sem muita surpresa — em uma serpente do Éden.

Ela analisou a enorme figura serpenteante do século XVII, com seios em forma de faróis, e deu um sorriso cansado e cheio de autocensura.

— Richard — ela disse, em voz alta. — Eu amo você, mas seu senso de humor é simplesmente nojento.

Ela encolheu os ombros, soltou um suspiro e fez uma pausa para absorver o estrago feito no saguão do museu pelos funcionários do bufê. Eles haviam deixado quatro latas de lixo com pratos de papel que deveriam ter levado embora. No nicho semicircular onde, três horas antes, fizera a apresentação, ela encontrou copos para Martini de plástico, guardanapos sujos de restos de canapés e várias manchas pegajosas no chão encerado. Decidiu que pegaria no pé de Richard por ter contratado o bufê Elegância e Sabor, e não apenas por causa do gosto suspeito do foie gras, que mais parecia presuntada.

Richard Dixon era o fundador do museu, seu principal colecionador, maior fonte de investimento e conselheiro. Ele era seu patrão, mentor e amigo. Nos raros momentos em que era honesta o bastante consigo mesma para admitir, ele se tornava o mais próximo do que tivera como pai, desde que o seu falecera em função de problemas cardíacos quando ela tinha 13 anos.

Vinte anos atrás, quase na mesma data de hoje.

Algumas vezes, enquanto tentava arrastar o pequeno museu para o século XXI, negociando, no processo, com pessoas como Harvey Webster, Richard Dixon era a única coisa que lhe dava forças para continuar. De repente, ali sozinha, em pé no saguão do museu, diminuída pelo tamanho do T. Rex e iluminada apenas pela luz suave dos expositores dos novos índios Creek, ela perguntou-se por quanto tempo mais ele, Richard, teria forças para continuar.

E o que você faria se ele fosse embora?, pensou. Já faz 20 anos e você ainda não conseguiu superar a morte de seu pai. Talvez tenha passado, mas não superado. Não de verdade.

Ela repreendeu-se.

— Você não devia beber em ocasiões como esta — disse, em voz alta. — Sempre fica muito melodramática.

Olhou ao redor, tentando ver se havia mais alguma coisa a ser feita. Seu passaporte ainda estava no cofre do escritório, onde estivera desde que enviara, por fax, as informações para os organizadores da exposição de antiguidades celtas (para o caso, imaginou ela, de estar planejando deixar o país com algumas peças de valor por baixo da blusa). Mas isso poderia esperar até amanhã. Até lá, não pretendia ir a lugar algum.

Deu uma olhada na correspondência, separando as contas dos catálo­gos de propaganda, os envelopes pessoais dos endereçados a Richard. Um terço foi para o lixo. Os envelopes com o nome dela poderiam esperar; os que tinham o nome de Richard também não pareciam ser tão urgentes. Um deles tinha, no canto, uma pequena máscara triangular: sem dúvida, uma carta de alguma companhia teatral local implorando alguma coisa. Richard recebia dúzias delas todas as semanas. A não ser pelas mais genéricas ou grosseiras, ele respondia a todas, freqüentemente incluindo doações insignificantes. Com seu costumeiro sorriso tolerante, Deborah colocou as cartas na bolsa e começou a trancar tudo. Cuidaria da corres­pondência na manhã seguinte.

Ligou o alarme, deu uma olhada rápida no estacionamento circundado por antigas magnólias do sul e preparou-se para enfrentar o calor da noite. Estavam em junho, em pleno verão de Atlanta, quando as noites podiam ser bem sufocantes. Ela encontrava-se na porta. Um mendigo estivera andando por ali nos últimos dias. Apesar de velho, tinha olhos vivazes e intensos e resmungava em uma língua que ela não entendia. No dia anterior, ele se esgueirara pelo estacionamento, deslizando entre os carros como um caranguejo enrolado, apesar do calor, em um sobretudo pesado. Com olhos fixos, ele a seguira de modo enervante.

Mas agora não havia sinal dele ou do Jaguar cuidadosamente polido de Webster, o que fez que ela saísse para a noite mormacenta soltando um enorme bocejo. Apesar da canseira e da irritação, até que fora uma boa noite.

Mas a sensação do envelhecimento de Richard permaneceu com ela enquanto dirigia para o sul, pela rodovia interestadual que passava pelo centro da cidade com suas torres de escritórios de vidro pós-modernas ainda iluminadas, vibrantes e novas — como tudo em Atlanta que não estava em seu museu.

Quantos anos ele tinha? Uns 75, 76? Por aí. E estava ficando mais lento. Essa lentidão, aliás, fora uma das razões pelas quais a trouxera para trabalhar com ele, para ajudá-la com a responsabilidade de colocar o museu nos trilhos enquanto ele, lentamente, se retirava para a residência anexa, tornando-se apenas um generoso benfeitor. Três anos antes, a idéia parecia estar bem distante, mas não havia como evitar a velocidade com que esse dia se aproximava. Nunca haviam falado abertamente sobre o assunto, mas ele se interpunha entre ambos como uma sombra. Talvez o problema fosse que ele estivesse perdendo o brilho. Sim, era isso. E depois...?

Seu museu.

Isso logo se tornaria realidade. De certo modo, já era. Mas a idéia a deprimia.

Uma irritante salva de notas eletrônicas afastou Deborah de seus pensamentos desagradáveis. Seu celular. Richard achara divertido progra­mar secretamente o celular dela para tocar ao som de "La Cucaracha". Ela precisava reprogramá-lo, ou pedir que ele o fizesse. O pensamento atenuou sua irritação e fez que se lembrasse que ele costumava ligar em noites como esta, quando achava que estaria livre. Ele se retirara havia mais de uma hora, fazendo comentários vagos sobre o cansaço de um velho senhor, seguido de uma piscada furtiva para Deborah enquanto a abandonava com Webster e seus capangas. Ela precisaria dele para cuidar daquilo também.


  • Sim? — atendeu rapidamente, pronta a despejar seu penetrante sarcasmo sobre o velho.

  • Deborah?

Não era Richard. De jeito nenhum.

  • Olá, mãe — disse Deborah, sentindo seu coração encolher um pouco. Ela amava a mãe, mas havia ocasiões...

  • Saímos com os Lowenstein — disse sua mãe, como se Deborah tivesse perguntado. — Fazia mais de duas semanas que eles não apareciam. Você se lembra dos Lowenstein? — ela perguntou, enfatizando as palavras de modo áspero, como se Deborah fosse um pouco surda. — De Cambridge? Enfim, agora eles estão morando em Long Island, mas vieram a Atlanta, em visita. Saímos para jantar e quase tive um ataque do coração quando cheguei em casa e ouvi o recado da minha filha mais velha. O primeiro em... quanto tempo... um mês?

  • Não faz tanto tempo assim.

  • Quase.

  • É verdade, sinto muito, mãe — disse Deborah, sentindo uma pontada de dor de cabeça. Ela se sentia impotente para estancar a dor, assim como se sentia impotente para evitar tantas coisas relacionadas à sua mãe. Ela nunca deveria ter ligado.

Deborah fora tomada por um impulso incontrolável de dividir o sucesso de sua noite com alguém — qualquer um —, mas agora, apenas uma hora depois, parecia ter sido uma péssima idéia.

A mãe de Deborah fora uma enfermeira de meio período, cuja maior realização na vida, ela se orgulhava em dizer, fora casar-se com o pai de Deborah, médico especialista em doenças internas. Assim que soube que estava grávida de Deborah, abandonara o trabalho, para retomá-lo apenas depois que a morte do marido a tornara responsável pelo pagamento de suas próprias contas. Enquanto Deborah era adolescente, sua mãe passara quase dois anos entrando e saindo do hospital numa espécie de atordoa­mento indignado, como se fosse uma rainha da beleza da qual tiraram a coroa por ter burlado o regulamento. Deborah idolatrara o pai apesar de — e talvez por causa de — suas freqüentes ausências e, por ser dada aos livros, ressentia-se das tentativas da mãe de embelezá-la. E lembrava-se com verdadeiro horror do que sentira quando, magricela, sem graça e infantil, chegou aos 15 anos com um metro e oitenta e com perspectiva de crescer ainda mais.

— Então, Debbie, qual é sua grande notícia? Liguei assim que ouvi sua mensagem. Parecia que você tinha boas novas.

Ninguém no mundo, além da mãe, a chamava de Debbie. Aquela era uma das maneiras que ela insistia em ignorar a personalidade da filha.



  • Ah, você sabe — disse Deborah, fechando os olhos, e dando um passo para trás. — Coisas de trabalho. Eu tive um bom dia.

  • Isso é ótimo, querida — disse a mãe, mal fazendo uma pausa para respirar. — Conte alguma coisa mais. Hoje de manhã falei com a Rachel, mas ela também não tem falado com você.

Rachel, a boa filha, que tem o corpo de uma ginasta e que — como eterno presente para a mãe — mora com o marido e a cria a menos de três quarteirões da casa da rua Brookline, onde nasceu...

  • Não, não tenho falado com ela ultimamente. Mas está tudo bem no trabalho.

  • Trabalho? Você trabalha muito. Igual a seu pai. Mesmo assim, eu costumava vê-lo.

  • Você é sempre bem-vinda — disse Deborah.

  • Aí?

  • Não estou em Calcutá — disse Deborah. — São apenas duas horas de avião.

  • Como você ainda se lembra? — ela perguntou, em tom de superiori­dade, como sempre.

— Muito engraçado, mãe.

— Então, quais são as novidades, além do trabalho? Você se casou em segredo, ou algo assim?

Ali estava: o escárnio amigável capaz de matar bandos de pássaros com uma pedra altamente polida. Esse era o maior talento de sua mãe. Ela podia espetar uma dúzia de feridas doloridas com um comentário, como se estivesse enfiando pedaços de carneiro em um espeto de kebab. Nesse caso, o comentário, tão ágil e fugaz que chegou a parecer casual, queria dizer:
1. Você trabalha demais e seu trabalho, convenhamos, não vale a pena ou o esforço.

2. Você não tem um homem em sua vida. Como sempre.

3. O que você faz melhor é esconder as coisas de sua família.

4. É claro que, tratando-se de você, casar-se sem avisar a família seria normal. Afinal de contas, você deu as costas à sua família, à sua cidade, à sua herança cultural e a tudo o que valorizamos quando resolveu ir, pela primeira vez, a essa Sodoma cheia de gentis...


Seria bom lembrar, mãe, ela pensou, que papai já está morto há 20 anos.

— Não, mãe — ela disse, tentando, apesar de tudo, sorrir. — No momento, não tem nada de novo acontecendo na minha vida.


Ela ainda estava pensando em algumas espetadelas de sua autoria que deveria ter usado quando o celular tocou seu tom esquisito.

  • Mãe — ela começou. — Estou dirigindo. Posso ligar quando...

  • Ela ainda está aí?

Ela já tinha aberto a boca para responder quando percebeu que aquela voz não lhe era familiar.

  • O quê? — perguntou ela. — Quem está falando?

  • Onde você está?

  • Eu perguntei quem está falando — ela repetiu.

  • Eles o pegaram? Onde você está?

Ele estava gritando. E havia alguma coisa estranha na entonação daquela voz. Um sotaque? Britânico? Australiano? Alguma coisa do tipo.

— Sinto muito — disse Deborah, com polidez fria. — Acho que você ligou para o número errado. Tente ligar novamente. E comece a conversa perguntando pela pessoa com a qual deseja gritar.

— Ouça bem, sua mulher idiota! Você precisa voltar... Deborah desligou o celular.




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