A instabilidade da formaçÃo discursiva na crônica jornalística: subjetividade entre a submissão e a subversãO



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A INSTABILIDADE DA FORMAÇÃO DISCURSIVA NA CRÔNICA JORNALÍSTICA: SUBJETIVIDADE ENTRE A SUBMISSÃO E A SUBVERSÃO
Priscila Piquera Azevedo (Universidade Estadual de Londrina)

Luiz Carlos Fernandes (Universidade Estadual de Londrina)


Tratamos, neste trabalho, de descrever as fronteiras e posições limítrofes da(s) formação(ões) discursiva(s) de crônicas jornalísticas da mídia impressa. Partindo da natureza fragmentária do sujeito do discurso e da mobilidade das posições-sujeito, procuramos averiguar o posicionamento assumido pelo sujeito enunciador que revela certa desestabilização com a formação discursiva (F.D.) a partir da qual constrói o seu dizer.

Considera-se que, na construção de uma F.D., existe um conjunto de princípios e de técnicas que a regulam – regras essas que são freqüentemente implícitas – e que, além disso, as F.Ds. apresentam um caráter heterogêneo, pois são sempre perpassadas por discursos outros provenientes de formações diferentes a que, muitas vezes, se justapõem. Dessa forma, as F.Ds. têm a característica de serem instáveis, visto que não possuem propriedades que delimitem suas fronteiras; há combinações dos pontos de estabilização do interdiscurso dominante e dos outros que o ultrapassam.

A partir dessas considerações, objetiva-se analisar a submissão e a transgressão a uma F.D. dominante feita de modo inconsciente pelo sujeito enunciador fragmentado e descentrado. Por meio das crônicas jornalísticas enunciadas por Danuza Leão, pretende-se observar a relação entre enunciador e F.Ds., identificando, por um lado, seu grau de submissão a um sistema de regras e, por outro, a subversão do mesmo com a conseqüente inscrição da subjetividade.

Assim é que nos propomos a analisar as crônicas jornalísticas tendo como subsídio os pressupostos teóricos da Análise do Discurso de linha francesa a fim de demonstrar o modo como a enunciadora constrói o seu discurso.


Análise do Discurso
A Análise do Discurso (AD) teve início na França, na década de 1960, tendo como principal formulador e articulador Michel Pêcheux – um filósofo envolvido com os debates em torno do marxismo, da psicanálise e da epistemologia. É instaurada, a partir de então, uma concepção particular de discurso como objeto de investigação e análise no campo das ciências humanas.

A AD constitui uma conjuntura do estruturalismo concebido a partir das idéias de Saussure, com o fim de compreender a relação da estrutura com a história. Assim, a AD atua, como destaca Orlandi:


“levando em conta o homem na sua história, considera os processos e as condições de produção da linguagem, pela análise da relação estabelecida pela língua com os sujeitos que a falam e as situações em que se produz o dizer. Desse modo, para encontrar as regularidades da linguagem em sua produção, o analista do discurso relaciona a linguagem à sua exterioridade.” (2005, p.16)

A base das formulações teóricas da AD é constituída por conceitos como os de condição de produção e formação ideológica. Dessa forma, o discurso é compreendido como prática conseqüente de formações discursivas (que correspondem, discursivamente, a determinadas formações ideológicas) e condições de produção segundo as restrições de um contexto sócio-histórico. Ou seja, ao analisarmos o modo como a enunciadora Danuza Leão constrói seus discursos e como os mesmos funcionam discursivamente, é necessário considerar-se, juntamente com a superfície lingüística, também as exterioridades e investigar as condições de sua produção, já que o discurso é determinado pelo histórico-social que o constitui.


Discurso e formações discursivas
Em função da exterioridade lingüístico-discursiva que afeta o discurso, as condições de produção, segundo Mussalim (2001, p.116), referem-se a determinadas circunstâncias do contexto histórico e das representações que o sujeito faz de seu interlocutor, de si mesmo e do próprio discurso. O sujeito do discurso é considerado como pertencente a um lugar social a partir do qual está autorizado a enunciar. Orlandi afirma que o conceito de condições de produção é básico para a AD, pois elas “caracterizam o discurso, o constituem e como tal são objeto de análise”, além de permitir a compreensão do processo de produção de sentidos.

As condições de produção implicam mecanismos de antecipação, uma vez que enunciador e enunciatário constroem imagens um do outro, de si próprios e do referente. Pêcheux (1997, p.84) saliente que todo processo discursivo supõe, por parte daquele que fala, “uma antecipação das representações do receptor, sobre o qual se funda a estratégia do discurso”.

Considerando-se que, na relação discursiva, são as imagens projetadas que constituem as diferentes posições (ORLANDI, 2005, p.40), pois o sujeito é capaz de se colocar no lugar de seu interlocutor, antecipar-se quanto ao sentido que suas palavras podem produzir e ajustar sua argumentação conforme o efeito que pensa produzir em seu leitor, pode-se atribuir ao imaginário a responsabilidade pela eficácia de um discurso.

Consequentemente à condição de produção, retomaremos o conceito de F.D. O primeiro a fixar essa expressão foi Foucault em Arqueologia do Saber e designava-a como:


“um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiriam em uma época dada, e, para uma área social, econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições de exercício da função enunciativa”(1997, p.136)
Nessa mesma obra, Foucault explica que são as regras de formação que regem a formação dos discursos. Para ele, os discursos são uma dispersão, ou seja, elementos que não estão ligados a priori formam um discurso e tem-se uma formação discursiva:
“sempre que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhantes sistema de dispersão, e se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições, funcionamentos, transformações) entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas (...)” (1997, p.43)
É dessa forma, por meio das formações discursivas, que os discursos deixam de ser dispersos e passam a ter uma regularidade. No entanto, destaca Orlandi:
“é preciso não pensar as formações discursivas como blocos homogêneos funcionando automaticamente. Elas são constituídas pela contradição, são heterogêneas nelas mesmas e suas fronteiras são fluidas, configurando-se e reconfigurando-se continuamente em suas relações” (2005, p.44)
Essa contradição a que Orlandi se refere, deve-se à característica das F.Ds. de serem instáveis, visto que não possuem propriedades que delimitem suas fronteiras. Já a noção de heterogeneidade aparece diretamente relacionada à de interdiscurso, pois uma formação discursiva é constitutivamente perpassada por outros discursos (provenientes de F.Ds. diferentes) que nela se repetem e podem produzir o novo. Considerando-se que todo discurso é atravessado pela interdiscursividade, Charaudeau e Maingueneau (2004, p.286) chamam de interdiscurso “o conjunto das unidades discursivas (que pertencem a discursos anteriores do mesmo gênero, de discursos contemporâneos de outros gêneros, etc.) com os quais um discurso particular entra em relação implícita ou explícita”. Dessa forma é que o interdiscurso pode ser definido como um processo de “reconfiguração incessante no qual uma formação discursiva é levada” (MAINGUENEAU, 1993, p.111). No momento em que uma F.D. incorpora discursos produzidos fora dela, há uma redefinição dos elementos que a constituem.

Pêcheux (1997, p.166) sintetiza o conceito de F.D. como representando o que pode e deve ser dito a partir de um determinado lugar social. Assim, seguindo o raciocínio proposto por esse teórico, os sentidos de um discurso são constituídos de uma determinada forma porque aquilo que o sujeito diz se inscreve em uma formação discursiva e não em outra, para ter um sentido e não outro. Além disso, ele considera que os discursos produzidos no interior de uma F.D. estão em constantes diálogos com discursos produzidos em outras F.Ds, por isso podemos afirmar que uma F.D. será sempre atravessada por outras, por discursos outros que são incorporados por ela em relações de confronto ou de aliança.



Considerações sobre ethos e incorporação
O termo ethos teve início na tradição antiga, proveniente da Grécia, com a teoria de Aristóteles, responsável pela arte da persuasão – a Retórica. Segundo a teoria aristotélica, há três espécies de provas empregadas para persuadir o auditório: o ethos (responsável por demonstrar o caráter do locutor), o pathos (responsável por despertar a paixão nos ouvintes) e o logos (o próprio discurso). Essa três provas garantiriam o sucesso do empreendimento oratório. Ainda segundo Aristóteles, o ethos que o orador cria no momento do seu discurso não equivale, necessariamente, ao caráter real do orador. A Análise do Discurso utiliza-se desses estudos elaborados pela Retórica e vai além, pois aprofunda as considerações em torno da construção da imagem do enunciador não somente em enunciados orais, mas em qualquer discurso, principalmente no escrito.

Em vista disso, todo ato de linguagem é visto como implicando na construção de uma imagem que recebe o nome de ethos e compreende as representações coletivas designadas ao sujeito do discurso. A imagem do enunciador é projetada por meio de sua fala e confere a si próprio uma identidade compatível com o mundo que ele procura construir em seu enunciado. Essa noção de ethos, tal como é proposta por Maingueneau, possibilita-nos compreender melhor o modo como ocorre a adesão dos sujeitos às formações discursivas. Com o ethos, o co-enunciador forma, por meio de variados índices fornecidos pelo discurso, uma representação do sujeito-enunciador. A construção dessa representação não ocorre por meio do que o enunciador fala sobre si, mas emerge simultaneamente no momento em que produz seu discurso, segundo seu estilo, sua visão de mundo e seu conhecimento sobre determinados assuntos.

Ainda acerca da forma como o ethos é construído, Maingueneau (2004, p. 98) afirma, em termos mais pragmáticos, que o mesmo não se desdobra no registro do mostrado e nem no do dito; sua eficácia “se deve ao fato de que envolve de alguma forma a enunciação sem ser explicitado no enunciado” e cita:
Não se trata das afirmações elogiosas que o orador pode fazer sobre sua própria pessoa no conteúdo de seu discurso, afirmações que, contrariamente, podem chocar o ouvinte, mas da aparência que lhe conferem o ritmo, a entonação, calorosa ou severa, a escolha das palavras, dos argumentos... [...] É na qualidade de fonte da enunciação que ele se vê revestido de determinadas características que, por ação reflexa, tornam essa enunciação aceitável ou não. (DUCROT, 1984, apud MAINGUENEAU, 2004, p. 98)

Com base nesse mesmo raciocínio, mas de um ponto de vista um pouco diferente, Barthes (apud MAINGUENEAU, 2005, p.70) define ethos da seguinte maneira:


“São os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar boa impressão. [...] O orador enuncia uma informação e, ao mesmo tempo, ele diz: eu sou isso, eu não sou aquilo.”

Essa imagem construída pelo co-enunciador com base nos indícios textuais de diversas ordens faz emergir a figura do fiador, entendida aqui como aquela que se constrói no âmbito do discurso e que deriva do enunciador real. A esse fiador, são atribuídos um caráter e uma corporalidade, conceitos esses que interagem no campo discursivo. O caráter diz respeito aos traços psicológicos, enquanto que a corporalidade corresponde “a uma compleição corporal, mas também a uma maneira de se vestir e de se movimentar no espaço social” (MAINGUENEAU, 2004, p.98). Ambos decorrem de representações sociais coletivas (estereótipos criados historicamente) mobilizadas pelo co-enunciador e advindas do modo de construção do ethos.

A maneira pela qual o co-enunciador se relaciona com o ethos de um discurso é chamada de incorporação e atua em “três registros indissociáveis” (MAINGUENEAU, 2004, p.99). O primeiro se dá na enunciação em que o co-enunciador é levado a criar um ethos do fiador, ou seja, a atribuir um corpo ao fiador. Em seguida, o fiador incorpora (assimila) esquemas que definem a forma de um sujeito inscrever-se no mundo. Essas duas incorporações é que possibilitam a “constituição de um corpo, o da comunidade imaginária dos que comungam na adesão a um mesmo discurso” (idem). Dessa forma, a noção de incorporação é relevante, pois recusa a concepção de que o enunciatário é somente um consumidor de informação.

Utilizaremos as considerações acima a fim de demonstrar, nas análises das crônicas, que o ethos e a incorporação são partes constitutivas da enunciação, bem como dos efeitos de sentido mobilizados pelo discurso.



Corpus de análise e condição de produção das crônicas
Uma das necessidades constantes do ser humano é a busca pela realização amorosa em sentido amplo. As maneiras de vivenciar o amor sofrem alterações, mas, de variadas formas estão sempre presentes na vida das pessoas. É a partir desse sentimento humano que o corpus dessa pesquisa é composto: trata-se de três crônicas jornalísticas sobre relacionamentos afetivos na contemporaneidade. No entanto, é preciso frisar que nossa pesquisa não é em torno da temática das formas de amor, mas sim como esse tema é apresentado e trabalhado num veículo de informação de grande circulação. Além disso, esclarecemos também que não são crônicas de amor, mas discursos que, ao retratar e avaliar a vida a dois, deixam entrever valores materializados em torno dessa temática pelo sujeito cronista.

A matéria jornalística das crônicas aqui estudadas é assinada por Danuza Leão e publicada dominicalmente no Jornal Folha de São Paulo. A enunciadora possui uma história de vida que não pode ser ignorada na análise de seus textos: é considerada, pela média dos leitores do jornal, uma espécie de “rainha da etiqueta”, pois no passado se destacou como modelo, já foi relações públicas na alta sociedade carioca e trabalhou como consultora de estilos da rede Globo, além de ter sido casada com o influente jornalista Samuel Wainer, quem, inclusive, possibilitou o início de sua carreira como articulista da imprensa.

As crônicas vêm estampadas no caderno “Cotidiano” do jornal Folha de São Paulo. Trata-se de um periódico de abrangência nacional que circula com maior freqüência nas grandes capitais brasileiras entre pessoas interessadas em cultura, economia, política etc, ou seja, em manter-se atualizadas, em geral pertencentes às classes média e alta .Esse é o perfil da maioria dos leitores das crônicas a ser aqui analisadas.

É necessário salientar-se, ainda, as especificidades do gênero crônica. Etimologicamente, provém do latim chronos, termo que significa tempo. Para fazer um retrato comentado do cotidiano, privilegia assuntos variados do dia-a-dia, tendo como objetivo registrar e comentar o que acontece em um determinado período de tempo. Assim, considerada enquanto fenômeno cultural relevante, tem a propriedade de provocar impacto social. O fato dos textos aqui trabalhados pertencerem a essa modalidade explica o tratamento de temas como o que foi referido e sua presença na parte do jornal que trata de temas gerais como o do comportamento e das questões corriqueiras do cotidiano.

Na crônica em geral, costuma-se valorizar a simplicidade e permite-se a inserção da opinião do eu enunciador. A respeito dessa subjetividade, Medeiros (2004) apresenta algumas considerações acerca da crônica jornalística:
A crônica é produto do discurso jornalístico, como já se afirmou; no entanto, aí não são trabalhadas as ilusões do discurso jornalístico; ao contrário. Se o discurso jornalístico se supõe objetivo, neutro, transparente; da crônica se aponta a subjetividade, a parcialidade e a polissemia.
Portanto, apesar do suporte desse corpus ser o jornal, as crônicas não respondem à especificidade de buscar aparentar neutralidade, própria do discurso jornalístico, especialmente das matérias que não vêm assinadas. As três crônicas aqui analisadas têm, bem marcada, a subjetividade da enunciadora Danuza Leão.
Análise das crônicas
A primeira das crônicas aqui analisadas, como as demais, foi publicada no ano de 2003 e intitula-se “Coisas de mulher”: saiu no dia seis de julho. A segunda, “O prazer de reclamar”, é de nove de novembro; e a terceira, “A felicidade conjugal”, data de vinte e um de dezembro. Elas têm o fato de trazerem reflexões sobre questões relativas à convivência de casais.

Em “Coisas de mulher” (C.M.) e “A felicidade conjugal” (F.C.), a enunciadora discorre sobre problemas corriqueiros da convivência a dois – a rotina e as manias de cada um – e a intolerância quanto aos hábitos do parceiro. Já “O prazer de reclamar” (P.R.) discute a questão do ciúme na vida a dois. Cabe frisar que o ponto de vista da enunciadora constrói-se a partir do olhar muito próprio de mulher que já foi casada e desfrutou o status de emergente1. Dessa forma, desenvolve seus argumentos coerentemente com esse lugar social que ocupa e destina-os, exclusivamente, a mulheres que possam compartilhar interesses similares.

Numa primeira leitura das crônicas, nos chama a atenção o uso do pensamento comum como estratégia de enunciação. A utilização desse mecanismo é uma forma de buscar maior identificação com o interlocutor e uma conseqüente relação de confiança para suscitar a adesão ao seu discurso. Além desse recurso para garantir a proximidade, explicita um diálogo com o interlocutor, recorrendo a muitas interjeições para dar ênfase a seu próprio modo de expressão persuasivo, como nos exemplos abaixo:
“(...) por que será que os homens são tão imprestáveis e não podem nem levar dois pratos para a cozinha, não é nem para lavar, só para a sala não ficar aquela zona?” (C.M.)

“Não há nada pior do que um namorado ciumento, (...). Para eles não existe a realidade nem os fatos, e nem precisa: afinal, para que serve a imaginação?” (P.R.)

“Ainda está para nascer o homem que suporte ver a mulher pendurada no telefone de conversa fiada, e sabe por quê? Eles são seres simples, que só querem uma coisa: que toda a atenção de todos os segundos da vida de quem estiver por perto seja dedicada a eles e a mais ninguém. Não é muito, é?” (F.C.)
Esses fragmentos são somente alguns exemplos para que se observe a recorrência a idéias do senso comum, nesses casos as de que os homens não fazem nada para ajudar nos serviços de casa, de que os homens são ciumentos sem razão e a de que eles não gostam que as mulheres dividam a atenção com outra pessoa. Assim, são projetadas no enunciado das crônicas asserções generalizadas e consensuais a respeito do relacionamento conjugal, característica constante no fazer argumentativo da enunciadora.

Por meio das generalizações e do uso das interjeições, há a incorporação do interlocutor, o qual atribui um caráter e uma corporalidade à enunciadora da crônica. As interjeições são formas da enunciação buscar a confirmação de seu argumento no interlocutor. Nota-se que, após afirmar algo enfaticamente, lança uma pergunta ao enunciatário que, automaticamente, devido à argumentação anterior, é levado a concordar com a idéia previamente exposta. Além disso, dá o tom de conversa a suas crônicas estabelecendo um diálogo entre pessoas que aderem a um mesmo discurso.

Tudo isso propicia a construção do ethos de uma pessoa experiente e amiga. Esse ethos favorece o estabelecimento de uma identificação e um conseqüente contrato com o enunciatário, o que garante que seu discurso adquira maior poder de persuasão e seja bem aceito, pois “o poder de persuasão de um discurso consiste em parte em levar o leitor a se identificar com a movimentação de um corpo investido de valores socialmente especificados.” (MAINGUENEAU, 2004, p.99).

Danuza Leão, como “fiadora” de seu discurso, remete a uma identidade coerente com o que criou no seu enunciado. Assim, atribui-se a ela a imagem de uma mulher que já foi casada e que, por isso, é adversa a essa prática. Seus enunciados retratam somente problemas da vida a dois e procuram colocar o homem como vilão do casamento:

“Tem uma hora que, na vida a dois, tudo começa a incomodar. (...) Cada um tem suas manias, que no início são toleradas com a maior boa vontade (menos ir ao banheiro deixando a porta aberta), tudo em nome do amor. A tragédia é que elas se repetem, absolutamente iguais, (...). É apenas a coabitação que é sempre difícil.” (C.M.)

“Como todo mundo sabe, as necessidades básicas femininas são bem diferentes das masculinas: homem ocupa muito espaço (...). É difícil ler um jornal quando se mora com um homem; um livro, praticamente impossível.(...) Homens não precisam ser amados o tempo todo, basta que toda a atenção do universo seja dedicada exclusivamente a eles e a mais ninguém.” (F.C.)


Percebe-se, ainda, a mobilização de sentidos negativos em relação ao casamento, o que é reforçado pela escolha das palavras (em itálico no excerto acima). A isotopia lexical, com o uso de termos como “coabitação” (que tem conotação pejorativa, ao vir substituindo ‘convivência’) e “tragédia” (substantivo que enfatiza a designação de algo muito ruim), confirma a repugnância à convivência conjugal. Não obstante, para reafirmar ainda claramente a repulsão, utiliza os pronomes indefinidos e os advérbios de modo e intensidade que marcam a idéia de distanciamento. Ao se deparar com tais pronomes e com os enunciados assertivos, o leitor é levado a se incluir nesse discurso e a aceitar ser isso o que realmente acontece, sem nem perceber que, ao mesmo tempo em que apresenta um estado de coisas já estabelecido, a enunciadora emite o seu juízo de valor sobre o mesmo assunto.

Ainda ilustrado nesse trecho, temos o uso de duas figuras de linguagem: a hipérbole e a ironia. A primeira ocorre quando há exagero numa idéia expressa, é o exagero com propósito expressivo. Assim, expressões como “todo mundo sabe” e “toda a atenção do mundo” acentuam, de forma dramática, aquilo que a enunciadora quer dizer. A utilização de tal recurso explica-se pelo contexto de produção, o qual busca chamar a atenção para seu próprio dizer a fim de suscitar a aceitação de seu discurso de modo inquestionável. Já a segunda, a ironia, consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que se diz e aquilo que se pensa. Está exemplificado na última frase do trecho citado: “Homens não precisam ser amados o tempo todo, basta que toda a atenção do universo seja dedicada exclusivamente a eles e a mais ninguém.”. Por meio da ironia, a enunciadora produz um enunciado que é invalidado ao mesmo tempo em que fala, pois há uma ruptura da sua própria enunciação. Nesse caso, o efeito de sentido indica um posicionamento valorativo da enunciadora em relação ao tema; por meio desse enunciado irônico, faz-se uma retomada da situação anterior da mulher, a qual dedicava sua vida inteiramente ao marido e à família. Assim, seu discurso tem maior validade na medida em que se refere a essa mulher do passado em contraposição à mulher contemporânea que se permite trabalhar e ter sua vida independente do marido.

A hipérbole e a ironia marcam a subjetividade e apresentam um viés retórico. Ambas valorizam o próprio enunciado: a idéia hiperbólica porque pretende destacar o seu dizer aos olhos do leitor e a irônica porque possui uma força subversiva - simula aderir a seu anti-discurso, de modo que ele se autodestrua.

Considerando-se que o sujeito é capaz de se colocar no lugar de seu interlocutor e antecipar-se quanto ao sentido que suas palavras Possam produzir, ajustando sua argumentação conforme o efeito que pensa produzir em seu leitor/ouvinte (ORLANDI, 2005, p.41), notamos que Leão organiza seu discurso de modo que este adquira um tom de conversa entre mulheres (da qual homens não podem participar), crie uma intimidade com a enunciatária e tenha a cumplicidade alimentada:“Entre um homem ciumento e aquele a quem nada abala? O ciumento, é claro.” (O prazer de reclamar). Após criticar o namorado ciumento, a opção feita responde aos anseios de qualquer mulher que mantém um relacionamento amoroso, visto que há a idéia consensual de que se o parceiro não sente ciúmes é porque não se gosta um do outro.

Ainda em relação ao mecanismo de antecipação, o veículo Jornal Folha de São Paulo, bem como o Caderno Cotidiano (parte do jornal em que as crônicas são publicadas) permitem que a enunciadora crie uma imagem específica de seu interlocutor e apresente seu discurso em conformidade com essa representação. Sendo assim, há uma submissão de seu dizer à expectativa gerada pelo veículo e pelo gênero crônica. Uma vez que o público-alvo do jornal são pessoas de classe média e classe média alta, os valores ideológicos predominantes nesse discurso cronístico são os das classes mais favorecidas.

A predominância de tais valores não se dá somente pelo perfil dos leitores desse jornal, mas também por fazer parte dos que são privilegiados pela própria enunciadora. Em vista disso, o processo de identificação entre enunciador/enunciatário é facilitado. Enunciados como:

“(...) outros que botam açúcar no café, mexem e provam com a colherzinha (e sempre caem umas duas gotas na gravata), (...). (...) até decidirem pedir um japonês ou uma pizza” (C.M.)

“Quer um drinque? O gelo já deve estar tirado, claro, e você já deve saber de cor de quantas pedras de gelo ele gosta no uísque. Quer um canapezinho?” (F.C.)

“(...) e se encontrar o cartão de crédito, não há Cristo que os impeça de examinar conta por conta, sobretudo as de restaurante” (P.R.)
demonstram a presença do interdiscurso elitista, pois, por exemplo, se se trata de um homem que derruba cafezinho na gravata, infere-se que use terno para trabalhar e, logo, tenha uma profissão de algum status comparado com as da maioria e, assim, delimita seu discurso aos pertencentes a esse meio. No enunciado seguinte, a familiaridade com que se refere ao pedir um “japonês”, querendo dizer “pedir uma comida japonesa”, revela a intimidade com essa prática e, assim, repete o recurso de restringir seu discurso, considerando que o restaurante japonês não tem um preço acessível para que seja hábito da maioria pedir em casa suas comidas. Quanto à bebida, é mais explícito o interdiscurso das formações discursivas das classes mais favorecidas, uma vez que o uísque possui um preço bastante elevado em comparação ao das demais bebidas e é comportamento próprio desse grupo social beber em casa após o trabalho para “relaxar” (além do uísque, um canapé para acompanhar). Ponderando que, no ano de 2003, o cartão de crédito ainda era de acesso restrito a pessoas que possuíam uma renda alta, o enunciado referente a esse tipo de produto é mais uma maneira de limitar o grupo de leitores com o qual a enunciadora busca identificação.

Porquanto, por meio das análises desses enunciados, constatamos que o discurso de Leão é marcado pela adesão a valores das classes média e alta. Essa vinculação se dá devido, primeiramente, ao fato de que a própria enunciadora pertence à elite, como também condiz com as condições de produção do discurso: pelo mecanismo de antecipação, constrói uma imagem das mulheres que lêem o Caderno Cotidiano do Jornal Folha de São Paulo, então, pela materialidade de seu discurso, nota-se que a imagem construída das destinatárias de suas crônicas é a de um grupo que se assemelha aos privilegiados como ela. Disso decorrem as relações de aliança que suas leitoras estabelecem com a visão de mundo da cronista.

Outro aspecto relevante a ser considerado no discurso de Leão é a forma pela qual concebe o relacionamento conjugal. Nas três crônicas selecionadas, a enunciadora apresenta uma visão preconceituosa da união a dois. A criticidade e o negativismo com os quais discorre acerca dessa temática acabam por revelar a rejeição dessa prática social. Isso pode ser observado em enunciados como os anteriormente analisados, e também nos que se seguem:
“Tem uma hora que, na vida a dois, tudo começa a incomodar. Por nada de muito importante, só as pequenas coisas. (...) No princípio tudo é lindo, mas um dia começa a pesar.” (C.M.)

“Quem não leu Guerra e Paz enquanto era solteira pode desistir e deixar para depois do divórcio porque com homem por perto não dá.” (F.C.)

“Ele telefona o dia inteiro para saber o que ela anda fazendo e, mesmo tendo consciência de que com o celular qualquer pessoa pode dizer que está na igreja rezando e estar num motel, ele não a deixa em paz.(...) A vida moderna não dá chance nem a uma traiçãozinha leve”. (P.R.)
Aqui, verifica-se a repulsão por parte da enunciadora quanto ao comportamento masculino e à união conjugal. No primeiro exemplo, esclarece que, no começo de um relacionamento, não há problemas, porém eles aparecem e, pelo modo como escreve, se tornam “pesados” ou, em outras palavras, intoleráveis. Já no segundo caso, revela sua concepção de casamento: trata-se de uma união que, inevitavelmente, um dia acaba. Deixa implícita a idéia de um ciclo natural: namorar, casar e divorciar. No terceiro, exemplifica uma situação cotidiana de um parceiro ciumento, remetendo à prática da traição como algo aceitável. Por outro lado, a referência a uma obra clássica da literatura, o livro de Tolstói, reafirma o apreço por um bem cultural de acesso restrito e seleto.

A partir dessas constatações, podemos afirmar que Leão adere a um anti-discurso religioso ao apresentar argumentos contrários aos da formação discursiva religiosa a que aparentemente está associada. Não parece defender o casamento com a finalidade de constituir uma família e, para com ela, fortalecer a fidelidade e tolerância quanto aos problemas e às diferenças entre os cônjuges.



Considerações finais
Neste trabalho, descrevendo o modo como a enunciadora constrói o seu dizer e os conseqüentes efeitos de sentido daí decorrentes, procuramos destacar a importância das relações imaginárias e do lugar social a partir do qual a cronista enuncia. Danuza Leão deixa entrever valores ideológicos da classe dominante, pois ela e a maioria de suas leitoras interagem como se pertencessem a essa classe social. Dessa forma é que a idiossincrasia pessoal da enunciadora corresponde à das enunciatárias e contribui para a aceitação de seu discurso.

Além disso, Leão constrói o seu dizer a partir da posição de cronista do Caderno Cotidiano do jornal Folha de São Paulo. Para isso, se submete a esse gênero ao escolher o tema, utilizando uma linguagem adequada que cria uma imagem da destinatária de seu discurso que é coerente com o perfil do leitor desse periódico. Ainda como estratégia de enunciação e mais uma forma de garantir a força persuasiva de seu discurso, a enunciadora subordina seus argumentos a formações discursivas do senso-comum. Portanto, ao refutar a imagem banalizada da identidade do casamento e da felicidade conjugal, a enunciadora subverte a formação discursiva do cotidiano, bem como certos valores religiosos, e contribui para desestabilizar o que é imposto como padrão à sociedade contemporânea.

Há combinações dos pontos de estabilização do interdiscurso hegemônico (senso-comum) e dos outros que o ultrapassam (anti-discurso religioso). O resultado disso é a inscrição de uma subjetividade da enunciadora bem marcada, pois os valores ideológicos expressos no discurso remetem à sua história de vida. O modo pelo qual escreve e se posiciona perante o tema em questão indicam que, provavelmente, em seu casamento, passou por esses problemas e, por isso, transmite uma visão bastante peculiar quanto a essa prática social.

Referências
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1 Quando utilizamos o termo ‘emergente’ nos referimos à idéia de estratificação social. Sabe-se que após seu sucesso como modelo e seu casamento a colunista ‘emergiu’ para um estrato social no qual as informações e o estilo de vida são permeados por luxo e riquezas.





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