A guisa de prefácio



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Juliano, recuperando um pouco a calma, perguntou: - pois bem, senhor anônimo. E qual seria o recado para nós dois?

O estranho respondeu: - não se trata de um recado, mas algo que vocês poderiam realizar. Como vocês são pessoas com um nível cultural acima da média, eu darei a vocês alguns informes que irão aclarar para vocês todo o nosso trabalho. Com estes informes nas mãos e comparando-os com o que é concebido pelos homens como origem, vocês poderão desenvolver uma tese que já, inclusive, foi pensada e discutida, antes de ser esquecida e colocada no limbo das ideias estapafúrdias. É um desafio. Note-se que vocês jamais mencionarão o que se passa nas esferas do universo. Mas terão condições de começar a trabalhar uma nova teoria de ocupação da terra. Aliás, esta teoria não deixa de ter similitude com várias teorias que hoje estão firmemente plantadas nas mentes. Na realidade será como dar uma nova roupagem a um processo já estudado e pensado.

Vilma perguntou: - e quando estas ideias chegariam às nossas mãos?

O estranho falou: - logo. Tão logo vocês tenham uma prova do que estou lhes falando. E esta prova será o contato direto com o motorista real do ônibus. Que tal?

Juliano retomou a palavra: - veja senhor. Está sendo dada a nós a oportunidade de desenvolver uma tese que já foi estudada e lançada ao porão do conhecimento. Meu trabalho consiste em aceitar desafios e tudo fazer para superá-los. Inicialmente eu me ocupei do assunto em função do símbolo que conseguira. A partir daí, o encadeamento dos fatos excitou a minha curiosidade. Costumamos dizer que a curiosidade matou o gato. Eu tenho para mim que a abdução de seres humanos é um crime. Mas um crime cometido por quem jamais irá para o banco dos réus. Porque são intangíveis pela justiça humana. Antes de tomar a minha, ou melhor, a nossa posição, eu gostaria de esclarecer definitivamente um ponto: eu sou conhecedor de que nos últimos dois mil anos, mais de um milhão de pessoas desapareceram sem deixar qualquer vestígio, a não ser ultimamente, como automóveis abandonados, aviões desaparecidos, e coisas assim. Não seria eu o juiz que determinaria as penas, mas, na visão de vocês, não estariam cometendo um crime que poderia ser classificado como hediondo?

O estranho ficou sério: - não. Não. Doutor Juliano. Mas em função de seu posicionamento, eu vou revelar-lhes como nós vemos a nossa atividade. E isto eu farei traçando um paralelo terrestre, para depois colocar a nossa posição a respeito. Um país entra em guerra com o outro. Uma parcela da população, em nome do patriotismo, ou vantagens, ou seja quais forem os motivos, é mandada para a linha de frente, de onde uma grande parcela não retornará. E outra parte voltará com mutilações perenes. Quando não retornam enlouquecidos pelo terror. Naquela situação, deixam de suas posições de cidadãos para passarem à propriedade do estado. Este mesmo estado que, finda a guerra, dará aos que conseguirem sobreviver, um pagamento que mal dará para as suas necessidades básicas. Mas o estado não é julgado por isso. Pois ele, além de estado, é também o distribuidor incondicional de justiça. Pois bem. Na nossa visão, tudo pertence ao universo. Tudo. Desde o menor grão de poeira cósmica ao maior dos astros. Assim sendo e havendo necessidade, requisitamos os bens universais que precisamos. Os habitantes da terra, por exemplo. Entretanto, não lhes mandamos para uma guerra mortal. Ao contrário, abrimos para eles uma perspectiva extremamente atraente e sedutora: viver, morar e se desenvolver em novos mundos onde reina uma paz muito maior que na terra. E até como semeadores de outras civilizações. E nisto nós usamos de toda a honestidade. E tanto requisitamos terrestres como pessoas de mundos os mais variados que existem no universo. Nesta ótica, e estabelecidas suas finalidades, não entendemos que estejamos cometendo crimes, mas apenas dispondo de recursos os quais pertencem a um coletivo. Ou, de outra forma, estamos realocando os recursos universais. E em uma base tal que cada realocado se sinta integrado e feliz em sua nova posição. Além disto, esta força que chamaremos de Controle e que assume a integralidade do universo, dele pode dispor como quiser.

Vilma interveio: - e os sentimentos, como saudade, lembranças, família e outros. Como são interpretados por vocês?

O estranho voltou a sorrir: - ora, doutora Vilma. Eu vou lhe fazer uma pergunta, pois conheço seu passado. Quando seu pai faleceu, para a senhora foi um choque. Uma dor extrema. Durante um dado período de tempo a dor foi imensa. Que é factível com a natureza humana. Um ano se passou. Muito embora a lembrança ainda estivesse viva, a dor havia sido aliviada. E, cinco anos depois, desculpe-me, embora houvesse ainda a lembrança, esta se tornou tênue. Tão tênue que a senhora sequer visitava seu túmulo. A senhora não acredita que isto seja, digamos, comum ao gênero terrestre?

Vilma levou alguns segundos para responder: - bem. Sim. Isto é verdade, mas...

E o estranho continuou a frase: - mas a senhora concorda que, com um óbito, a roda da vida não para de girar. Pois bem. Eu vou lhe deixar uma sugestão bastante fácil de ser observada. Daqui a um ano, procure pelos parentes daqueles passageiros desaparecidos. E eu lhe garanto que aqueles desaparecidos, em grande parte, nada mais serão que algumas fotografias entre muitas outras. Haverá a lembrança, mas já tão tênue que quase não aparecerá. Será mais fraca que a alegria de receber uma indenização pecuniária pelo desaparecimento. Tente me contradizer, se conseguir...

Vilma ficou sem resposta, pois o estranho acertara em cheio no alvo. Ao contrário, ficou pensativa e sem qualquer ação.

Foi Juliano quem reabriu o diálogo: - temos, ao menos, a chance de conversar com outras pessoas a respeito deste nosso encontro?

O homem voltou a sorrir: - mas claro doutor Juliano. Muito embora seja inócuo para nós. Imagine-se falando com alguém que o senhor esteve com um dos nossos, que conversamos muito e que eu lhe passei estas informações a respeito de nossas missões. Com certeza ninguém vai lhe dar crédito. Nem os falsos estudiosos do assunto.

Juliano desviou o assunto: - eu tenho um ponto obscuro. Qual teria sido o papel de vocês ao longo da trajetória do homem sobre a terra? Eu falo de geração, colonização e acompanhamento por parte de seu grupo em relação à humanidade terrestre.

O estranho não relutou em responder: - vocês são frutos de uma colonização. Da mesma forma em que são, hoje, colonizadores de outros mundos. Não posso lhe precisar em termos de calendários terrestres quando se deu a primeira leva que adotaram a terra como seu novo lar. Pelos processos terrestres, há muito, muito tempo. Mas ao mesmo tempo em que se desenvolviam, muitos de você foram requisitados para outros lugares. Não esqueça que o universo não é estático. Ao contrário, é extremamente dinâmico. Por outro lado, assim como ele cria e desenvolve, também extirpa suas partes. Aquelas que, por fatores inesperados têm a tendência de tornarem-se perigosos para o equilíbrio daquela região. Normalmente salvamos os povos, pois eles são a massa mais importante no contexto cósmico. E aí adotamos a máxima do dividir para dominar.

Juliano insistiu: - somos a única humanidade que existiu e existe na terra?

O homem respondeu: - sim. Claro que por vezes reduzida a um mínimo por fatores naturais. Mas, na terra, existiu e existe apenas uma humanidade. Esta de vocês. Devo dizer-lhe claramente que estas reduções brutais no número de habitantes não tiveram em nenhum momento a nossa interferência. Muito embora acompanhemos as evoluções e involuções do gênero humano e terrestre. Muitos destes acontecimentos são devidos ao fato de que a terra é um mundo muito jovem. Sua formação ainda não se completou e está muito longe disso. A terra ainda é composta de materiais ainda liquefeitos e que possui apenas uma fina camada que, em contato com o frio exterior se solidificou. Toda a vida na terra se concentrou nesta casca sólida. Que é extremamente frágil. Para que tenha uma ideia mais clara e que deve já ocupar o seu conhecimento, um corpo celeste com um quilômetro de diâmetro, ínfimo em relação ao tamanho da terra, é suficiente para, rompendo esta fina casca, causar uma catástrofe inimaginável. Que poderia resultar no extermínio do povo deste mundo. Sobre isto nós não temos poder, pois faz parte da dinâmica universal.

Vilma havia se recobrado: - como poderíamos conhecer este mundo de vocês?

O estranho respondeu: - não há este hipótese. Vocês não foram escolhidos. Mas eu posso lhes favorecer através de alguns informes. Que ao menos lhes darão alguma prova em definitivo. Eu posso levar-lhes ao motorista do ônibus. Quando vocês poderão conversar com ele. Além disso, viajaremos em uma de nossas naves. Então terão a oportunidade de verificar e atestar a veracidade do que eu estou lhes falando.

Vilma insistiu: - e onde ele se encontra?

O homem respondeu: - em um lugar isolado na terra. Tão isolado que mesmo com todas as forças, jamais conseguiria sair de lá. Mas com certeza, feliz e contente.

Juliano, apesar do temor, falou: - e quando poderíamos ir até lá?

O estranho respondeu: - amanhã, por volta das sete horas da manhã eu passarei aqui para buscá-los. Não temam. Tão logo façamos a visita eu os deixo aqui no hotel. Ainda amanhã mesmo. Bem, amigos, eu tenho de deixá-los. Amanhã pela manhã estejam prontos. E, levantando-se, seguiu em direção à saída, deixando Juliano e Vilma atônitos e sem conseguir sequer conversar a respeito.

KLONIX – CAPÍTULO 45

Depois que o estranho saiu de sua casa, Padilha foi até o quarto e sentiu o mesmo cheiro de amônia que sentira na casa de Cardoso. O delegado voltou a sentar-se no sofá. Seu pensamento estava em um turbilhão. Não podia acreditar no que ouvira daquele estranho. Mas o que ouvira retratava todos os temores que podia sentir. E vira que era uma força supraterrestre. Conta a qual jamais poderia lutar, nem como homem nem como autoridade. Do ponto de vista profissional tinha o caso resolvido. Mas não se sentia corajoso o suficiente para colocar tudo aquilo em um relatório final de um inquérito. Se assim o fizesse, se tornaria a piada do ano, não só no meio policial, mas na imprensa e na Internet, onde sua figura seria estraçalhada. Tudo aquilo se transformara em um nada do ponto de vista policial e jurídico. Imaginou um promotor recebendo tal relatório. Chegou a sorrir com a ideia. No mínimo o inquérito seria devolvido com a observação de que o delegado que o assinara deveria ser encaminhado à psiquiatria. Seu único caminho a seguir seria o de dar os casos como insolúveis, trataria de acelerar a sua aposentadoria e deixaria que o mundo continuasse a rodar. Era o melhor caminho a seguir. Padilha cansara daquela vida. Era um policial respeitado e honesto. O fato de deixar como insolúvel um ou outro caso em nada mancharia a sua reputação. Outros casos já haviam ocorrido e os inquéritos lá estavam recolhendo poeira em alguma prateleira e esquecidos. Aliás, raros eram os casos em que algum inquérito daqueles voltava devolvido ao trabalho. E isto em casos ponderáveis. Mas aqueles casos mencionados pelo estranho se situavam na esfera do imponderável. Pois não havia meios e modos de se incriminar quem os cometera. Teriam sido pessoas, elementos ou indivíduos que estavam acima da justiça e livres de qualquer condenação. Sem nomes, identidades e residências...

Lembrou-se de um caso de uma mulher que aparecera morta e sem documentos. Por mais que investigasse, sua equipe não conseguia um indício sequer daquele assassinato. Durante dois anos o inquérito ficara parado, sem solução. Depois, um indício pequeno reabriu o assunto. E foram atrás do indiciado. Quando localizaram seu suposto paradeiro, constataram que já estava morto, sepultado e já nem fedia mais. Caso encerrado. Também houve o caso de um travesti que fora esfaqueado até a morte. Cinco suspeitos. Todos com álibis indiscutíveis. Nunca acharam o verdadeiro criminoso. Caso encerrado. Um legista é morto e seu corpo é levado para uma cidade dos Andes peruanos. Quem o matou? Não há indícios. Não há suspeitos. Não há razões. Ora! Arquive-se até que fatos relativos provoquem a sua reabertura. Um defunto é roubado de um necrotério. Não há provas. Nem os filmes das câmeras de segurança existem mais. Dois seguranças dizem que foram postos para dormir e que jamais teriam condições de fazer um retrato falado exato dos homens que entraram na portaria na noite do roubo. Sem indícios e sem indiciados: arquive-se. E o mundo que continue a rodar. A estas alturas, a aposentadoria é o melhor caminho. Já chega de lidar com a escória do povo. Ladrões, assassinos, estupradores, traficantes, assaltantes, estelionatários, prostitutas, veados... O lixo da humanidade. Chega! A aposentadoria! Esta é a minha meta. E o mundo que rode até ficar tonto. Não tem correção. Ninguém conserta esta terra... E ainda mais quando os indiciados nem são daqui! “É, Padilha. Chegou a hora do pijama e da rede!”

O delegado assustou-se com a campainha do telefone. Deixou que tocasse cinco vezes antes de se dispor a atender. Quando o levou ao ouvido, ouviu a voz do doutor Demóstenes, diretor do necrotério: - é o Padilha? Pô, rapaz! Eu preciso conversar e muito com você. Como? Não. Não dá para falar pelo telefone. Sei... Sei... Mas, Padilha, é importante. Muito. É. É sim. Tem como você vir aqui e agora? É. Eu sei que já é noite alta. Mas, pô, Padilha... Tá. Tá bem. Eu vou te aguardar.

Padilha repôs o fone no gancho e ficou pensativo. O que seria que o Demóstenes queria àquela hora da noite? O que teria de tão urgente e por que estava tão nervoso? Bem. Só há um jeito de saber. “É isto aí, Padilha. É isto aí. Amanhã, trate de trabalhar a aposentadoria...”

KLONIX – CAPÍTULO 46

Às sete horas da manhã. Juliano e Vilma aguardavam na entrada do hotel pela chegada daquele desconhecido. Durante a noite quase não conseguiram dormir. Conversaram muito a respeito daquilo tudo que haviam ouvido do elegante e sorridente homem. A credibilidade de ambos em relação ao que haviam conhecido era o ponto de discussão entre eles. E era inacreditável demais para que pudessem dar algum crédito. Muito embora não existissem provas, a simples menção de fatos passados cimentava ao menos que o desconhecido sabia do que ocorrera. Mas daí a aceitarem totalmente que havia aquela monstruosa ação junto à humanidade, para eles era algo meio que descabido. Mesmo com a cabeça repleta de dúvidas, aguardavam o desconhecido e sua promessa de levá-los até o verdadeiro motorista do ônibus.

Pontualmente o homem apareceu. Vestia um traje esportivo e os saudou à sua chegada. Entraram em seu carro e se dirigiram para o oeste, saindo da cidade pela estrada que os levaria a Corfu. Rodaram cerca de sessenta quilômetros e bem antes da entrada da cidade, eles saíram à esquerda em uma estrada secundária rumo ao litoral turco. Depois de algumas curvas, o desconhecido dirigiu o veículo para a entrada de uma propriedade que, pela sua aparência, estaria abandonada. Durante o percurso até ali, pouco ou nada conversaram.

Quando entraram naquele local, o desconhecido falou-lhes: - por previdência, estabelecemos neste local abandonado as nossas bases de operação. Aqui vocês vão trocar de roupa e em seguida sairemos em um de nossos veículos. Nada precisam temer. Creio que em menos de meia hora estaremos juntos ao ex-motorista do ônibus. Hoje transformado em aldeão na Sibéria Central.

Vilma se assustou: - Sibéria Central? Como assim?

E o desconhecido, voltando-se para Vilma com um sorriso, disse-lhe: - sim. Sibéria Central. É lá que está morando o nosso personagem.

Juliano comentou: - é realmente é um lugar onde qualquer pessoa pode ser escondida ou esconder-se por milhares de anos...

Saltaram do carro frente à casa abandonada e entraram nela por uma porta lateral que dava acesso a uma escada que demandava o subsolo. Já no fim da escada, na obscuridade, o desconhecido abriu uma porta e a luz forte que veio de lá de dentro quase cegou o casal. O ambiente era como de uma estação de televisão. Cabos, aparelhos, mesas... Mas tudo em alinhamento perfeito. Atravessaram o salão e rumaram em direção à outra porta. Ao adentrarem, o desconhecido pegou de uma prateleira três pacotes. Passou dois a Juliano com a recomendação de que vestissem aqueles trajes.

Ambos foram para trás de um biombo e trocaram as roupas por aqueles macacões vermelhos e justos. Vestiram também uma espécie de touca e calçaram botas finas e leves. Depois disso o desconhecido, já também vestido como eles, os levou para os fundos da casa, onde um helicóptero de formato pouco conhecido os aguardava com o motor ligado.

O estranho falou: - nós iremos com este helicóptero até o centro do Mar Negro, ao largo de Sebastopol. Lá haverá uma mudança. Este helicóptero se transformará em uma nave mais rápida, com a qual atingiremos o nosso objetivo. Ah, bem a propósito, esta roupa lhes garantirá o calor necessário para que não sintam a rudeza gelada da região.

Juliano e Vilma estavam estáticos. No banco traseiro do helicóptero viram à sua esquerda a passagem por Istambul e, por fim, o azul do Mar Negro. Em poucos minutos notaram que todas as imagens exteriores desapareceram e sentiram no organismo as sensações de uma forte aceleração. Nada podiam ver ou escutar, a não ser um leve chiado.

Algum tempo depois sentiram como que uma aterrissagem. Uma portinhola se abriu e puderam contemplar um oceano de neve. Mais adiante a chaminé de uma casa totalmente revestida de pedras denunciava que ali havia movimento e vida. Seguiram com o desconhecido naquela direção sem, realmente, sentirem o gélido ar siberiano.

Olhando para trás, Vilma observou que o helicóptero se transformara em uma nave de forma cilíndrica e totalmente fora de qualquer similar terrestre. Vilma fez um esboço rápido da aparência da nave que usaram naquela viagem insólita.

KLONIX – CAPÍTULO 47

Quando Padilha adentrou o gabinete do diretor do necrotério, encontrou um doutor Demóstenes nervoso e agitado. Mesmo assim o diretor sentou-se em sua poltrona de trabalho enquanto o delegado se acomodava em uma cadeira frontal.

Foi Padilha quem falou: - pô. Demóstenes. O que houve de tão assustador e importante para me tirar de casa a esta hora da noite?

O diretor, tentando se acalmar, contou para o delegado: - Padilha. O que eu vou te contar é uma loucura. Por causa disso eu te chamei. A cerca de umas três horas atrás eu recebi um telefonema. A pessoa não quis se identificar, mas apenas me disse que o cadáver do legista jamais voltaria. E que eu não saísse, pois alguém viria até aqui explicar porque isto aconteceria. Bom. Eu aguardei e, cerca de uma hora depois, um homem que deu na portaria o nome de João da Silva, veio à minha procura. Eu o recebi e ele conversou bastante comigo. Foi esta conversa com o sujeito que me deixou apavorado. E a primeira pessoa que me passou pela cabeça para conversar foi você. Desculpe; mas somos amigos a mais de vinte anos e eu não sabia com quem falar a respeito.

Padilha notou que o amigo estava deveras nervoso: - e o que ele lhe disse, Demóstenes?

O diretor do necrotério, em que pese o seu nervosismo, começou a contar: - bom. Padilha. No início falou-me que o corpo do legista não chegaria aqui. Que havia sido desviado para que não fizéssemos nova autópsia. Além disso, falou-me que eu não deveria me preocupar com isso, pois eles estavam resolvendo o problema. Falou-me inclusive a respeito do tal defunto que sumiu, quando os guardas haviam sido postos para dormir. E que agora o suposto defunto estava bem e tranquilo. Que na realidade, o tal defunto não havia morrido, mas que apenas estava com a vida em suspenso. E que havia sido levado por eles para que não passasse por uma necropsia. A qual poderia revelar algumas coisas que não seriam interessantes para o nosso conhecimento. Depois tentou me acalmar dizendo que eu relaxasse e que não me assustasse. Tudo seria resolvido sem problemas para ninguém. Ainda disse outras coisas relacionadas com outros mundos e coisas semelhantes. Depois de ter falado comigo, se despediu e saiu. Aí é que eu levei um susto.

Padilha perguntou: - e que susto foi esse?

O diretor continuou: - ele não saiu pela portaria, onde seria obrigatória a sua passagem. Só tem este caminho. Quando liguei na portaria, me disseram que o tal de João da Silva não passara por lá, pois não devolvera o crachá de visitante. Na mesma hora ordenei uma busca detalhada no prédio. Nada. O homem se evaporou... Sumiu... Desapareceu. Demos uma olhada nas gravações. E, durante a sua entrada, a câmera da portaria parou de gravar por uns dez minutos. E depois voltou a gravar normalmente. Vimos gravações das outras câmeras e nada. Elas não tinham qualquer gravação deste homem. Nem esta que controla a porta do meu gabinete. Ah, com um detalhe: as demais câmeras não tiveram interrupção nas suas gravações. Depois disto, desculpe, mas não tive escolha: liguei para você porque eu estou sem saber o que fazer com tudo isso.

Padilha a tudo ouviu silencioso. Quando Demóstenes parou de falar, teve chance de expor os seus pensamentos: - bom. Demóstenes. Bom... Eu sei que está havendo um monte de fatos estranhos acontecendo. Sumiço de passageiros de ônibus, de defunto, do Cardoso. Da morte do legista, sei eu o que mais. E agora mais esta de dizerem que o corpo do legista não vai mais vir para cá e este negócio de dizerem que o tal presunto não era presunto. Junto com isso, há esta história de câmeras que não gravam e sabe Deus o que mais virá. Bom. Eu vou te dar uma sugestão: aceite se quiser. No seu lugar, eu não levantaria nenhuma lebre. Sabe como é. Deixe o mundo rolar. É o que eu estou fazendo. Até mesmo porque amanhã é meu último dia de trabalho. Depois de pensar muito, acabei tomando talvez a decisão mais certa a esta altura...

O9 diretor do necrotério perguntou: - e que decisão é esta, Padilha?

O delegado falou calmamente: - ah, Demóstenes. Eu já estou de saco cheio de estar atendendo toda esta bandidagem. A gente prende e vem um advogadozinho de merda com um habeas corpus e solta o vagabundo. Todo o dia eu aturo um monte de lixo na delegacia. Aí começou esta história toda. E eu pensei muito. Mas amanhã vou tratar é da minha aposentadoria. E que se dane o resto. Quem vir para o meu lugar que se vire com tudo isso. Assim, amigo, eu vim aqui como amigo e não como autoridade policial. Mas continuo com a minha opinião: deixe tudo para lá. No final tudo se acerta. Pelo menos é o que eu acho. Pô, Demóstenes. Não é a primeira vez que você tem problemas. Você já teve até funcionário necrófilo neste lugar! Depois de ver isto, você acha que alguém pode consertar o mundo?

Demóstenes arrefeceu o nervosismo e continuou: - é, Padilha! Eu acho que você está certo. Mas este negócio de desaparecerem com o corpo do legista vai dar furdunço! A imprensa vai cair de pau! Vai ser difícil explicar como o corpo que foi identificado e trasladado para cá sumiu no caminho! Eu só quero ver...

Padilha o acalmou: - aí é que está o negócio. Você não tem nada com isso, ninguém lhe disse nada. Na realidade você receberia o corpo para entregar para os parentes. Acontece que o corpo, segundo este tal de João falou, não vai chegar. E aí? O que você tem a ver com isso? Nada. Absolutamente nada! A imprensa vai cair de pau em cima de quem perdeu o corpo. Nestes casos eu é que não meteria o bedelho. A Federal é quem vai cuidar do caso. Se vierem falar com você, dê uma de boi morto. Você não sabe de nada, ninguém falou com você e você não recebeu o cadáver...

Demóstenes o interrompeu: - o diabo, Padilha, é que eu conheço a família inteira dele. Ele trabalhava aqui a mais de dez anos. Além disto, era meu amigo...

Padilha entendeu o que lhe foi dito: - eu sei. É duro e complicado. Mas não tem outro jeito. Você jamais pode falar que o tal de João da Silva falou com você e sumiu. Se você falar nisso, aí sim, vai dar furdunço. Mas se você não tocar no assunto, vai ser melhor. Pode crer... E como o pessoal encarou a história do tal cara ter sumido sem passar na portaria?

Demóstenes deu de ombros: - o pessoal acabou sacaneando os seguranças da portaria. Eu acho que o assunto já morreu...

Padilha então deu como encerrada a história: - vai por mim, Demóstenes. Você não sabe de nada. Pronto. Ah, e outra coisa: depois de tirar o meu sossego, você me deve uma. Vamos até o bar comer um pastel com caldo de cana. E é você quem paga...

Saíram com o diretor mais calmo e pensativo depois da conversa com o delegado.

KLONIX – CAPÍTULO 48

Diferentemente de Juliano, Vilma estava curiosa. Enquanto andavam os cerca de oitocentos metros que os separavam da casa e do galpão próximo, ela perguntou ao estranho que nave era aquela e se não correriam o risco de serem detectados pelo controle russo.

O estranho lhe respondeu: - bem, doutora Vilma. Este veículo que usamos é já ultrapassado para nós. Mas nos serve ainda a vários propósitos. Quanto ao controle russo, não é tão severo assim. Além disso, não saberiam explicar como teriam visto um sinal nas telas a mais de oito mil quilômetros por hora. E mesmo que nos tenham localizado, a estas horas já sumimos do controle. Mas vamos ver o nosso motorista.

Quando se aproximaram da casa, Tati estava abrindo a porta e se deparou com eles. Fez um aceno de cabeça e entrou, deixando a porta aberta, por onde o trio também entrou.

Miguel ensinava às crianças uma música brasileira. Ao vê-los, levantou-se e mandou as crianças para o quarto. Tati as acompanhou.

O estranho lhe falou: - então, meu amigo. Como vamos indo? Já parou de pensar em sair daqui e voltar?

Miguel sorriu: - sair daqui para quê? Voltar para casa? Que casa? A minha casa é esta aqui. No início bem que queria fugir. Voltar a ser um motorista e reunir meus cacos. Mas depois eu entendi que jamais poderia fazer isto... Eu... Eu acabei adotando Tati e as crianças como família.

O estranho voltou a falar-lhe: - bem, Miguel. Estes são dois amigos que gostariam de conversar com você.

Miguel os olhou de cima a baixo: - vocês não parecem ser de fora. Estou certo?

Vilma se antecipou: - não. Nós somos daqui da terra mesmo. E estamos aqui para confirmarmos que você está vivo. Mas pelo que tudo indica você está bem. Apesar do frio cortante da região.

Miguel respondeu: - veja senhora. De tudo isto eu aprendi uma lição. A vida sempre nos prepara determinadas surpresas que, por vezes, vêm de encontro aos nossos interesses. Não nego que pensei muito quando cheguei aqui. Mas veja: minha vida anterior não era de todo ruim. Mas eu sentia sempre que faltava alguma coisa entre eu e minha mulher. E eu somente vim a descobrir o que era depois de estar aqui por algum tempo. Faltava em nossas vidas crianças, faltava afeto verdadeiro, faltava carinho. Minha mulher e eu éramos como duas pessoas que dividiam o mesmo teto e as mesmas contas. Mas que apenas viviam juntos. Não nego que este inferno gelado é difícil de suportar. Também não nego que a mudança de minha vida foi brutal e inesperada. Até porque, se a senhora não sabe, eu não vim para cá porque quis. Eu fui posto para dormir e acordei em uma casa próxima daqui. Entretanto, mesmo com o curto tempo em que aqui estou eu sinto que consegui algo que muitos buscam a vida inteira e não conseguem obter. Um lugar onde possa ser ao mesmo tempo, rei e súdito. E isto eu somente vim a compreender aqui, quando conheci Tati e as crianças. Que são filhos dela. E que eu os adotei como meus. Ah, sim. A vida é dura. Nossa existência é isolada de tudo e de todos. Mas nós estamos lutando para construir laços que sejam indestrutíveis. Quando eu cheguei aqui, minha única vontade era fugir. Mas um dia eu me perguntei: sim. Vou fugir. Mas, para onde? Eu entendo que eu estou desaparecido para os meus. E não consigo imaginar como seria recebido caso voltasse. Aqui eu fui bem recebido. E me sinto amado. Vou sair daqui para quê? Não vejo mais esta necessidade nem tampouco pretendo fazê-lo. E somente sairia daqui se Tati e as crianças fossem comigo.

Juliano estava totalmente atônito: - se eu dissesse que moramos na mesma cidade onde você morou. Você acreditaria nisso?

Miguel sorriu: - talvez. Não sei. Mas, o que mudaria? Para mim, nada! Eu vejo que você fala o meu idioma sem sotaques...

Vilma estava mais calma que Juliano: - eu posso avaliar o que você está nos dizendo. E concordo que foi uma mudança brusca em sua vida. Você voltaria conosco, se pudesse?

Miguel deu um sorriso: - somente se minha mulher e as crianças voltassem comigo. Não. Não quero voltar. E lhe digo por que: porque nada teria o que fazer lá. Eu aqui ainda não me acostumei totalmente com o frio. Mas aprendi uma lição grandiosa: o que vale para nós não é o que temos ou acreditamos ter em termos de conforto ou de riqueza. O que vale realmente é sermos felizes. Não importa onde nem com quem. Aqui eu vivo em paz. Trabalha-se muito. Mas, mesmo com este trabalho diário, consegui ter paz. Tenho uma mulher que me aceita com meus erros e duas crianças que já estão cansadas de dizer que gostam de mim. E eu gosto deles. Isto é o que vale. Não. Não voltaria de modo algum...

Juliano perguntou: - aquele galpão é seu?

E Miguel sorriu novamente: - não. Não é meu. É de minha família. Quer conhecê-lo?

Juliano concordou e Miguel chamou a mulher e as crianças para irem até lá.

Vilma ficou encantada com Veruscha e Serguei. Principalmente depois de saber que tinham aprendido um pouco de português. Arrevesado, mas compreensível. E Tati se mostrava alegre e contente.

Foram até o galpão para conhecê-lo. E ficaram impressionados com o asseio e a organização do mesmo.

Juliano observava apenas. Em dado momento, perguntou a Miguel: - diga-me. Como tudo sucedeu naquele ônibus?

Miguel foi claro: - eu havia saído da rodoviária no Rio. Quando passei do primeiro pedágio, um colega de empresa pediu uma carona. Deixei-o embarcar e segui a viagem. Na altura de Piraí encontrei um desvio, como se a Dutra tivesse sido fechada. Quando entrei naquela pequena estrada, este colega se levantou do degrau onde sentara e, vindo até mim, lembro que ele colocou a sua mão na minha cabeça. Depois disto, apenas lembro que acordei em uma cama numa casa próxima daqui.

Juliano lhe falou: - bem, Miguel. Por tudo o que eu soube você também foi dado como desaparecido, pois todos os passageiros também desapareceram sem deixar pistas. Quando o ônibus foi encontrado, estava totalmente deserto.

Miguel sorriu novamente: - ou seja: eu morri para todos. É isto?

Juliano concordou e Miguel continuou: - melhor ainda. Mais uma razão para nunca mais voltar. Pois se eu estou morto ou desaparecido, o que eu iria fazer lá? Deixar um lugar onde tenho tranquilidade para voltar a ser infeliz? Mas não mesmo!

Tati a tudo escutava. Até então não havia dito uma palavra sequer. Entretanto via-se em seu semblante que compreendia cada palavra dita. E sorria interiormente, feliz por aquela visita inesperada.

Finalmente voltaram para casa. E o estranho falou a Miguel: - bem. Creio eu que esta será a última visita que vocês receberão. E eu só posso dizer que sejam felizes.

E tendo dito isto, os três se voltaram em direção ao veículo, enquanto aquela família entrava na casa, fechando a porta.

Juliano e Vilma tinham muito o conversar com o estranho. Mas deixaram para mais tarde. Embarcaram na nave e em pouco a escuridão a cercou. Quando sobrevoavam o Mar Negro, o veículo se transformou no helicóptero que os levou até a casa supostamente abandonada. Dela, depois de se trocar, tomaram o carro e retornaram a Istambul e ao hotel. Foi neste percurso que Juliano e Vilma conversaram, e bastante, com o estranho.

KLONIX – CAPÍTULO 49

Quando Padilha retornou, encontrou a mulher desperta e bem disposta, a despeito do avançado das horas.

Ambos sentaram no sofá da sala e Padilha anunciou: - sabe? Eu acho que é chegada a hora de me dedicar mais à minha casa. Na verdade, eu estou é cansado de lidar com este lixo. Assim, amanhã eu vou cuidar da aposentadoria.

Sua mulher o aplaudiu: - puxa! Até que enfim uma ideia sensata sai desta cabeça oca. É isto mesmo. Já está mais do que na hora de você parar de se estressar com o problema dos outros.

Padilha continuou: - e sabe o que eu estou pretendendo, se você quiser? Lembra-se daquela casa em Barra de São João, no quarteirão da praia? Pois é. O que você acha de irmos morar lá e levar uma vida mais tranquila?

A mulher respondeu: - não deixa de ser uma boa pedida. Mas, primeiro, vamos ver a aposentadoria. Ah, o que aquele homem queria? Eu acabei indo para o quarto e dormi. Nem vi você sair...

Pestana parou uma fração de segundo antes de responder: - ah, ele queria algumas informações. Parece que é detetive ou coisa que o valha. Era a respeito de um inquérito que já está há dois anos na gaveta. Veio com uma história de que poderia descobrir uma pista. Coisas do gênero. Mas o que importa agora é a aposentadoria. E é isto que eu vou fazer amanhã.

A mulher observou: - engraçado. Quando eu acordei, senti um cheiro forte no quarto. Eu já senti aquele cheiro, mas não lembro onde...

Padilha se retesou: - que cheiro? Deixe-me dar uma olhada. E foi até o quarto onde ainda sentiu o leve cheiro de amônia.

Voltou para a sala e falou: - eu heim! Parece cheiro de amônia. Vai ver que algum vizinho está usando amônia para desinfetar alguma coisa. E isto são horas para isto? Só aqui no edifício, mesmo...

Ficaram conversando mais algum tempo, fazendo planos para depois da aposentadoria e acabaram por deitar. O cheiro da amônia praticamente desaparecera...

KLONIX – CAPÍTULO 50

Vilma estava muito curiosa com o que vira: - quer dizer que o motorista desaparecido foi mandado para a Sibéria?

O estranho, dirigindo, respondeu: - sim. E pelo que vocês viram tudo indica que está feliz por lá...

Vilma novamente falou: - tudo isto é muito louco. Eu jamais poderia sequer pensar em tudo o que aconteceu hoje. Ou foi tudo uma ilusão que você provocou em nossas mentes?

Juliano a interrompeu: - não, Vilma. Não foi ilusão. Se tivesse sido uma ilusão, eu não estaria com esta pedra na minha mão. Que a peguei quando saímos em direção ao galpão. Foi tudo verdade. Uma incrível verdade. E eu estou sem saber ainda o que dizer. Mas eu observei uma coisa: que pode até ser uma impressão errada, mas o motorista está realmente agindo por ele mesmo ou vocês estão de alguma forma, o induzindo a ficar por lá?

O estranho respondeu a Juliano: - deixe-me aclarar uma coisa: o nosso propósito não é fazer mal. Ao contrário, o que fazemos sempre é dar melhores opções de vida a cada um que vem a se relacionar conosco. Miguel foi levado por nós para lá. Haveria algum motivo real? Sim. Ele poderia lembrar que um dos nossos homens o botara para dormir de forma completamente desconhecida na terra. O que seria bastante complexo para ser aceito. Ou seja: ninguém acreditaria nele e ele poderia ser tachado de louco. Dando-lhe esta oportunidade de uma nova vida, matamos o problema.

Vilma interveio: - mas não teria sido mais prático levá-lo com os demais passageiros?

O estranho respondeu: - para esta pergunta eu não teria uma resposta. Não saberia dizer por que razão Miguel não seguiu com os outros. Mas, de qualquer forma, ele criou uma nova vida. E está feliz. Isto é o que realmente importa!

Juliano concordou: - pelo que pude observar realmente Miguel encontrou um novo caminho em sua vida, embora diametralmente oposto de tudo o que fazia e conhecia. Mas permanece a pergunta: e se ele tentasse fugir: o que aconteceria com ele?

O estranho foi rápido na resposta: - em princípio nós não o permitiríamos. Tomaríamos alguma atitude para que, antes de tudo, ele não sucumbisse no frio terrível do lugar. Aí, talvez o induzíssemos a voltar. E ele voltaria, pedindo desculpas e agradecendo aos céus por tê-lo permitido voltar sem danos. Mas jamais cometeríamos alguma agressão contra ele.

Vilma colocou uma questão: - quando voltarmos para casa nós poderemos estabelecer contato com a família dele e dizer que ele está bem e onde ele está?

O estranho sorriu: - sim. Podem. Mas vocês sabem onde ele está? Ah, sim. Está na Sibéria. Mas, em que local daquele deserto de gelo? Perto de que cidade? Como fazer contato com ele? Assim, se quiserem, podem falar e conversar com a família dele. Mas com certeza se falarem que estiveram com ele não saberão como localizá-lo. E pouco ou nada vai adiantar. Além disso, imaginem vocês dizendo que foram até ele em uma nave totalmente desconhecida na terra? No mínimo vão taxá-los de loucos...

Vilma pensou uns segundos e concordou: - ei! Isto é verdade. Nós estivemos com ele, mas não sabemos onde ele está. E você, Juliano, o que acha?

Juliano deu um sorriso: - nosso estranho amigo tem razão. A única referência daquele local é esta pedra. Que para nada serve mais. E a jogou pela janela do carro na margem da rodovia. – Sibéria! Mas, onde? O que me impressionou, na realidade, foi o insólito de nossa viagem. E que Miguel seja feliz como aldeão perdido nas geladas estepes siberianas!

Vilma ainda perguntou: - e Tati? É uma de vocês ou já morava naquele lugar?

O estranho ficou sério: - Tati é daquele local. Mas recebeu um tratamento leve, inclusive aprendendo português para melhor se comunicar com Miguel. Este tratamento foi no sentido de ser, digamos, mais afável com quem iria chegar. E sou sincero quando digo que agora já a “desligamos”. Pelo que acompanhamos, os dois estão se entendendo bem e formam, com as crianças, uma família de verdade. Isto é o que importa para nós...

Juliano teceu um comentário: - eu ainda estou, digamos, sem ter absorvido todos estes acontecimentos. Para mim tudo isto excede um limite de credibilidade. Eu vou precisar de um tempo para deglutir tudo isto. É como se meus parâmetros tivessem sofrido um terremoto. Eu não quero mais pensar no assunto. E você, Vilma?

Vilma respondeu: - realmente tudo isto é muito louco. Creio eu que da mesma forma ainda estou com a cabeça rodando. Nós passamos por experiências completamente fora de quaisquer cogitações. Eu creio que vou ficar muito tempo sem entender corretamente tudo isso!

O estranho concordou com eles e sorriu: - sim. Eu entendo que vocês ainda estão, como toda a humanidade, imaturos para entender tudo isto. Nós compreendemos estas limitações. Mas eu acredito que todos estes acontecimentos serviram para o entendimento de que nenhuma civilização ou conglomerado seja de que tipo for, pode viver sozinho no universo. Por mais que criem credos, mistificações, probabilidades e o que seja, acima disto tudo está uma força universal. Que jamais pediu ou obrigou que as pessoas lhes dessem nomes de deuses. Nós somos viventes como vocês. E também morremos. Nosso único diferencial é que estamos acima dos parâmetros científicos terrestres. Somente isto. Nossa visão é esta. O que nos preocupa não são os limites simbólicos e voláteis de nações e países. Nossa preocupação vai bem mais além. Eu sou grato a vocês pelo crédito que me foi dado quando aceitaram esta curta viagem. É provável que não nos encontraremos novamente. E tenham a certeza de que cada humano terrestre que é levado por nós cumpre uma missão muito maior e, portanto, incompreensível para vocês.

Vilma tentou manifestar a sua opinião: - embora eu esteja pasma com tudo isto e até quase duvidando de tudo, sou obrigada a aceitar algo que sempre tive para mim como uma verdade: que o universo não é só terrestre. Sempre tive a convicção de que o cosmos é habitado. O que ainda me é difícil de aceitar é o fato de que tudo o que já li e observei ao longo da história humana em relação ao contato de homens com divindades esteja se revelando de forma tão brusca. E é justamente isto que me fará rever tudo o que já tive a oportunidade de ler e pesquisar. E ao que tudo indica, terei muito trabalho pela frente...

O estranho teceu um comentário: - estejam certos de que, algum dia, vocês dois receberão algo por tudo isto. Será apenas um relato. Mas um relato feito por quem que, tendo saído da terra, se encontra bem distante. Fora inclusive deste sistema solar. Isto eu prometo. E quando vocês receberem esta história, com certeza muito do que já leram e observaram passará por um processo de revisão.

Conversando de forma mais amena, entraram em Istambul e, cortando como qualquer terrestre o trânsito caótico, em pouco se despediram em frente ao hotel.

KLONIX – CAPÍTULO 51

Um grande barco de recreio saíra do porto de Miami em direção às Bermudas, em pleno Atlântico. Levava ele em um cruzeiro cerca de cento e cinquenta passageiros e quarenta tripulantes. Sua largada se dera com festas a bordo. E o planejamento da viagem previa que a alegria seria reinante durante todo o percurso.

Era um barco sólido, pertencente a um grupo empresarial turístico que descobrira aquele filão de cruzeiros com barcos menores, enfrentando com eles os grandes e custosos transatlânticos. Na realidade, estes barcos menores se direcionavam mais para o público jovem e rico. Aquele público que não mede despesas, desde que tenha exatamente o que procura: diversão, bom gosto e, principalmente, a liberdade de voar com asas próprias, com luxo, conforto e mais privacidade. Os cruzeiros mais direcionados para esta faixa de público tinham aberto um filão interessante. Entretanto, o tamanho gigantesco dos grandes transatlânticos fazia com que os passageiros tidos como alvos não se sentissem enquadrados, pois a imagem dos cruzeiros marítimos estava mais direcionada para um público de faixa etária mais avançada. Quando surgiu a ideia de se colocar barcos menores, com lotações menores e mais direcionadas, de imediato foi totalmente aprovada pela população mais jovem. Na realidade, estes cruzeiros tinham um preço bem mais elevado que os cruzeiros normais. Mas a maior liberdade a bordo era o fator preponderante para o sucesso. E os empresários contabilizavam seus lucros. Todo o conjunto acenava para custos menores, com passagens mais caras. E as viagens começaram a despertar a nova moda entre a juventude mais abastada.

Para a tripulação era uma viagem já rotineira. A maior parte da equipe era formada por veteranos. Tanto em grandes navios quanto naquela nova forma de viagens. E a seleção dos tripulantes era realizada não só pela vivência, mas e muito mais também pela desenvoltura dos pretendentes ao cargo de embarcado naqueles barcos. Aparência, familiaridade com os modismos e um alto astral por vezes eram fatores mais importantes que o conhecimento dos detalhes que deveriam ser cumpridos no contato com os passageiros. Além disto, um amplo treinamento era oferecido aos escolhidos. E isto fez com que as viagens se tornassem concorridas e normalmente lotadas.

A tarde da largada do barco estava ensolarada e o mar calmo. Todas as estações climáticas confirmavam o bom tempo naquela rota, sem sequer o acúmulo de nuvens nem chuvas ocasionais.

O valente barco, capitaneado pelo experiente Comandante Wolsley vencia o oceano com a proa virada para leste/nordeste e recebendo a leve aragem que vinha de nordeste. Um ajudante de ordens trouxe um café para o comandante que se sentou em um banco na cabine de comando. Ele deixou algumas instruções com seu imediato e com a xícara na mão, observou o horizonte. Céu limpo e mar calmo.

Na pequena piscina do barco, uma turma se divertia enquanto outros passageiros, em trajes de banho, aproveitavam o sol e a temperatura agradável, tanto nos conveses quanto no bar exterior. Uma balada saía dos alto falantes sobre a cobertura do bar enquanto os olhares eram trocados, sorrisos eram abertos e convites eram feitos para o baile que aconteceria à noite, após o jantar.

O dia transcorreu na viagem sem grandes novidades que já não fossem comuns naquele tipo de passeio. Com o cair da tarde, os passageiros começaram a rumar para as cabines no sentido de se arrumarem para o jantar e o baile festivo que se sucederia.

O Comandante Wolsley, deixando o comando da embarcação com um oficial de bordo, rumou para o seu camarote, e onde sairia impecavelmente de branco para comandar o jantar festivo com os passageiros.

O jantar correu como o programado. O comandante fez a sua saudação decorada e já rotineira e depois os passageiros foram servidos pelos garçons e auxiliares. O baile estava previsto para se iniciar às vinte e duas horas, hora local. No intervalo entre o jantar e o baile, os passageiros se espalharam pela embarcação, principalmente nos conveses, já que o céu estrelado se tornava um atrativo a mais.

Por volta da meia noite o baile fervilhava. Praticamente todos os passageiros estavam presentes e o jogo de luzes do salão, acompanhando o ritmo musical do conjunto servia de pano e fundo para a descontração de todos.

Em dado momento, o Comandante Wolsley foi chamado com urgência à cabine de comando. Seu oficial, a despeito de todas as previsões climáticas, observara que á frente se formara uma fileira de nuvens que chegavam ao nível da água. De imediato entrou em contato com as estações navais e estas lhe asseguraram que não havia qualquer previsão de tempestades ou chuvas em toda a região. O comandante chegou à cabine e o oficial apontou-lhe a densa camada de neblina a cerca de cinco milhas adiante da proa.

O Comandante Wolsley, tomando do rádio, passou uma mensagem para as estações de rádio que responderam que poderia ser um nevoeiro ocasional, provocado pelo calor reinante na região. Que não se preocupasse, pois havia a certeza da inexistência de tempestades ao longo da rota. Mesmo assim o comandante insistiu que, pela sua experiência, aquele nevoeiro não era comum. Que a sua aparência tinha algo de estranho e insólito e que ele, nos vinte e cinco anos de marinha nunca tinha visto algo semelhante.

Entretanto as estações de rádio não deram muita importância ás palavras do experiente comandante. Este, em contato com a Guarda Costeira, sugeriu que esta rastreasse pelo radar a embarcação. Apenas como segurança adicional, já que se aproximavam do momento em que mergulhariam no denso nevoeiro.

Deixando a Guarda Costeira de sobreaviso, assumiu o comando do barco e, em poucos minutos, entrou naquele misterioso fenômeno. Notou que não possuía a fria umidade normal dos nevoeiros que já enfrentara. E que, aparentemente, algumas luzes tenuamente faiscavam à sua frente.

Na base da Guarda Costeira em Norfolk, na Virginia, o sargento Gibbs observava as embarcações próximas ao barco que emitira o pedido de rastreamento. E em determinado momento viu que o sinal emitido pela embarcação piscou várias vezes e desapareceu da tela. Imediatamente tentou um contato pelo rádio com o barco, mas recebeu apenas estática em seus ouvidos, pegou do telefone interno e comunicou ao comando o que observara na tela.

Quase que de imediato o centro de controle de Norfolk da Guarda costeira enviou um alerta a todas as embarcações que se situavam na região, principalmente perguntando por mudanças do clima e/ou nevoeiros. O comandante de um cargueiro panamenho que largara de New York confirmou que avistara um nevoeiro espesso a leste de sua rota, mas que o mesmo já havia se dissolvido. Foram várias as tentativas de contato pelo rádio com a embarcação de cruzeiro, mas a resposta se resumia a uma estática monótona.

Ao mesmo tempo a Força Aérea foi acionada e dois aviões de patrulha decolaram na direção do suposto desaparecimento do barco. Devido à escuridão reinante, depois de sobrevoarem a região por algumas vezes, retornaram à base sem resultados positivos.

Ainda na madrugada, quatro barcos da Guarda Costeira e cinco aviões já iniciavam as buscas pelo pequeno navio.

O navegador de um dos aviões de patrulha acabou por localizar a embarcação e passou à Guarda Costeira as coordenadas exatas do local. Tão logo receberam a informação, as quatro embarcações ajustaram suas rotas para o local indicado, mantendo o máximo de velocidade que os motores poderiam dar.

Avistaram o barco e se aproximaram. Com um binóculo um oficial fez a primeira constatação: aparentemente não havia pessoas a bordo.

A abordagem realizada pelo primeiro barco confirmou o que havia sido notado. Muito embora as luzes permanecessem acesas, com os motores auxiliares em funcionamento e sem qualquer sinal de luta ou estragos em seu interior, o barco de cruzeiro estava totalmente deserto. Os copos sobre as mesas ainda tinham bebidas e nada havia sido tocado. Os homens da Guarda Costeira fizeram uma inspeção detalhada em todos os compartimentos da embarcação e não encontraram nenhuma anormalidade a não ser a ausência completa dos passageiros e dos tripulantes. Repassaram por canal especial um relatório sucinto à base de Norfolk a respeito da verificação e receberam a ordem de trazer o barco até aquela base onde seria periciado em profundidade.

A Capitania dos Portos nas Bermudas também foi informada do sucedido e, enquanto foi possível, o fato ficou fora das manchetes. O que não tardaria a acontecer, pois logo os noticiários começaram a dar informes ainda desencontrados.

KLONIX – CAPÍTULO 52

Quando Vilma e Juliano adentraram o gabinete do professor Emre, este folheava um jornal de Istambul. E chamou-lhes a atenção para uma notícia em primeira página que traduziu, onde era mencionado o desaparecimento de todos os passageiros e tripulantes de um navio de recreio americano que fazia a rota Miami/Bermudas. E que o navio havia sido encontrado sem nenhum sobrevivente.

Quando Juliano e Vilma tomaram conhecimento do ocorrido, ficaram pálidos e sem poder tecer qualquer comentário. O que foi percebido pelo velho professor.

Este lhes perguntou: - ei. O que está havendo com vocês? Vocês tinham algum parente a bordo?

Foi Juliano quem respondeu: - não, professor, não! Mas nós temos a certeza de quem fez isso e por quê. Mas se fôssemos lhe dizer, com certeza o senhor não acreditaria.

O professor insistiu: - ora, doutor Juliano. Na minha idade, depois de ver tudo o que já vi nada mais me assusta. Vamos. Conte-me o que vocês supõem saber. E não tenham medo de serem desacreditados. Porque eu também suspeito do que possa ter acontecido. Mas antes vamos tomar um chá para aquietar os corações. E, levantando-se, buscou três xícaras de chá com ervas capadócias e roseira silvestre da Armênia, o seu preferido.

Juliano tomou a xícara nas mãos e ficou pensativo, tentando encontrar palavras para explicar ao velho mestre as suas deduções e o que acontecera no dia anterior.

Mas foi Vilma quem quebrou o curto silêncio: - desculpe-nos, professor. Porém o encadeamento de fatos é tão fantástico que eu nem sei como começar. E ao contar-lhe, tenho medo de que o senhor não acredite. E nós caiamos no seu desprezo como dois alienados. Mas tudo é uma verdade. Louca e insensata na aparência. Mas verdade cristalina.

E Vilma narrou-lhe todos os acontecimentos desde que haviam deixado a Universidade de Istambul, dois dias atrás. Não omitiu nenhum pormenor. Nem mesmo da incrível viagem realizada à Sibéria em um veículo inimaginável.

Juliano ouviu o relato de Vilma em silêncio. A notícia do desaparecimento daquelas pessoas o havia abatido. Embora fosse sabedor de todas as razões para aquilo, não conseguia chegar à compreensão das ações daqueles seres.

O professor Emre a tudo ouviu, também calado. Deixou que Vilma acabasse a sua narrativa para se exprimir a respeito. Também ele estava atônito. Era inacreditável demais o que ouvira.

Mesmo assim, falou: - doutora Vilma. O que a senhora me conta é algo que poderia ser colocado no nível do fantasioso. Mas isto por alguém que não tem a verdadeira dimensão das possibilidades existentes no universo. Não é este o meu caso. Tudo o que a senhora me narrou já foi lido por mim como acontecido em uma série de passagens históricas. O que me causa espanto é saber que ainda somos presas fáceis. E que somos tão imberbes em nossa visão, pois não queremos aceitar a nossa realidade. Além disto, saber que a história antiga ainda se repete em nossos dias me assusta de fato.

Juliano se recuperara: - professor Emre. Eu também sempre notei que, na história, desaparecimentos são comuns. Mas jamais poderia pressupor que isto ainda acontecesse em nossos dias. Como o caso dos passageiros deste navio. Eu já li algumas obras a respeito deste Triângulo das Bermudas e o desaparecimento sistemático de pessoas, aviões, barcos e tudo o mais. Sempre me posicionei um tanto cético, mas agora, depois desta experiência, eu já não duvido de mais nada. O que a Vilma lhe narrou é o retrato fiel e verdadeiro. E eu jamais poderia pensar que um dia eu fosse protagonista de uma viagem deste tipo e que recebesse as informações que nós recebemos.

O velho mestre concordou: - sim, doutor Juliano. Há tudo isso e talvez muito mais entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia. Mas agora fica uma pergunta: o que fazer com tudo isso?

Vilma respondeu: - a melhor opção é deixar na memória e procurar não pensar mais nisso...

Juliano a atalhou: - sim. Isto seria o melhor, se fosse possível...

O professor sugeriu: - o que você precisam é de catarse. Que eu lhes poderia indicar um método: escrevam um livro como se fosse do gênero de ficção científica, onde vocês narram todos estes acontecimentos. E o publiquem. E deixem que os críticos, os cegos críticos, façam a sua parte. Com certeza, depois disto, vocês irão se sentir melhor...

Vilma concordou: - sim. É possível que esta forma de catarse possa dar uma mãozinha na formatação e nossas cabeças... Juliano levantou-se: - bem, professor. Sinceramente hoje eu não conseguiria mais continuar. Creio que o melhor a fazer, agora, é um passeio por Istambul e tentar relaxar.

O velho professor concordou: - eu acho correta esta sua decisão. Mas antes, tome. São cópias de vários textos que podem cooperar em sua pesquisa sobre os curdameus e sua saga.

Agradeceram muito ao professor que os levou até a saída da universidade. De lá, Juliano e Vilma passaram em uma locadora e alugaram um carro para conhecer outros locais em Istambul e seguirem para Ancara.

KLONIX – CAPÍTULO 53

A imprensa mundial registrou com certo espalhafato o desaparecimento das quase duas centenas de pessoas. Foram muitas as especulações. O rapto alienígena entrou na questão, tendo-se em vista que aquela região era vista como um sumidouro de pessoas e, por vezes, embarcações e aviões. Mas tudo não passava de especulações. Nada havia de concreto nas divagações.

A empresa, dona do navio, emitiu uma nota à imprensa, onde dizia que aguardaria a investigação de Norfolk antes de qualquer pronunciamento a respeito. Por sua vez, a Guarda Costeira publicou um comunicado onde dizia que as investigações seriam realizadas e que, tão logo fossem concluídas, seriam divulgadas.

O fato em si, aos poucos, foi caindo no esquecimento do grande público. Os órgãos de comunicação passaram a se dedicar a outras matérias, com guerras e inundações.

Até que finalmente, sequer uma nota de pé de página era dada a respeito do ocorrido com os passageiros do navio.

Várias ações indenizatórias corriam na justiça americana, com vistas muito mais à obtenção de polpudas indenizações. Nada mais que a troca de um parente por um grande recebimento de dinheiro. É o nosso mundo...

KLONIX – CAPÍTULO 54

Juliano e Vilma fizeram uma longa viagem pelo território turco antes de se hospedarem em Ancara. Saindo de Istambul, atravessaram a ponte sobre o Estreito de Bósforo e seguiram depois pela costa até Canakkale, já no estreito de Dardanelos. Depois fizeram uma parada em Esmirna, onde um barco os levou para uma excursão até a Ilha de Khios. Seguindo para o sul, chegaram a Éfeso, onde contemplaram o que havia do Templo de Diana. Retornando a Esmirna, tomaram a estrada em direção a Ancara, passando por vários vilarejos simpáticos e pela cidade de Afyon, onde, por um desvão do destino, encontraram um restaurante com a bandeira brasileira. Acabaram encontrando uma família de patrícios que havia mudado para aquela cidade e onde abriram o seu comércio.

Seguindo adiante o seu passeio e chegaram a Ancara já na noite do quinto dia de excursão pela costa turca. Depois de se registrarem no hotel, fizeram um contato com o professor Andres Nathaniarus, que os convidou para um encontro na manhã seguinte na universidade.

Durante todo o percurso, o casal decidiu não conversar a respeito de tudo o que havia vivenciado e sabido. Muito embora fosse uma decisão difícil, raras foram as vezes em que tocaram no assunto. Ao mesmo tempo, resolveram iniciar um resumo para o livro sugerido pelo professor Emre. Trabalho que ocupava o casal nas suas paradas nas cidades da costa turca. A verdade era que aquela viagem estava proporcionando a Juliano e Vilma uma forma de relaxamento depois dos fatos passados por eles e de tudo o que acabaram por conhecer. Agora, já no hotel em Ancara eles ficaram até o inicio da madrugada envolvidos com o enredo do que seria o primeiro livro assinado por eles. E discutiam se deveriam colocar os próprios nomes como autores ou usar de pseudônimos.

KLONIX – CAPÍTULO 55

Em Istambul a polícia local foi chamada para averiguar uma determinada casa abandonada, situada em uma estrada secundária próxima ao litoral, na direção de Corfu. O denunciante informara que a casa estava vazia já a mais de quatro anos e que de um tempo para cá havia um movimento estranho no local, inclusive com a aterrissagem e decolagem de helicópteros e movimento de automóveis.

O inspetor Niksar, um experiente policial com mais de vinte anos de trabalho, foi destacado para, com mais cinco policiais, dar uma batida no tal endereço.

Entraram no local tomando todas as cautelas. No quintal amplo dos fundos do casarão, os policiais observaram que ali poderia descer com folga um helicóptero. Entretanto não encontraram qualquer vestígio que denunciasse qualquer aterragem recente. Nem rastros de grama amassada, marcas de óleo ou combustível, nada... Realizaram nova vistoria cuidadosa em todo o terreno e nada encontraram de suspeito. Por fim, resolveram entrar na casa por uma janela que providencialmente fora encontrada aberta.

O interior da mansão se apresentava como qualquer interior de uma casa abandonada: poeira, papéis de parede soltos pela umidade, tábuas já apodrecidas. No interior também não encontraram qualquer vestígio que pudesse ser considerado como suspeito.

Um dos policiais descobriu uma porta lateral que dava acesso ao subsolo da casa. Acendeu a sua lanterna e desceu as escadas. No fim desta se deparou com uma sólida porta fechada. Comunicou o fato ao inspetor Niksar para que o mesmo decidisse o que fazer. Depois de algum esforço, os policiais conseguiram abrir aquela porta. E se depararam com um salão coberto de poeira e trastes antigos, como se há muito tempo ninguém estivesse entrado ali. Apenas um fato chamou a atenção do experiente inspetor. Com sua lanterna encontrou, em um dos cantos, um cilindro aparentemente de borracha. Tinha cerca de vinte centímetros de comprimento e um diâmetro de cerca de dois centímetros de diâmetro. Possuía uma espécie de tampa em uma das extremidades, que tentou abrir, mas não conseguiu, e dava a impressão de que havia sido deixado ali há pouco tempo, pois não se apresentava coberto de poeira como os demais móveis e trastes do local. Disfarçadamente o colocou no bolso de seu paletó para observá-lo melhor mais tarde.

Do outro lado do salão inferior havia outra porta, esta aberta e com as dobradiças enferrujadas pela umidade. Atravessando-a, Niksar entrou em outro cômodo menor que o salão. Este estava vazio e coberto de poeira. E nada apresentava de suspeito. Encerraram a batida e o experiente inspetor Niksar completou seu relatório com a conclusão de que teria sido uma denúncia falsa.

Ao chegar à sua casa onde morava sozinho, tirou do bolso do paletó o objeto coletado na casa abandonada e, sentando-se a uma mesa, passou a observá-lo. Na medida em que inspecionava aquele cilindro preto e sem sentido, levemente uma luz esverdeada começava a se formar em um dos cantos de seu quarto, onde estava. E um cheiro tênue de amônia foi sentido pelo inspetor.

Cinco dias depois, uma equipe de peritos e da polícia de Istambul realizou uma perícia completa na casa de Niksar, bem próxima ao hotel onde Juliano e Vilma haviam se hospedado. O apartamento de Niksar ficava em uma espécie de vila com mais outros dois prédios de quatro andares. E nada constataram de anormal. Em contato com os vizinhos, estes declararam que nada haviam reparado de anormal. Nem em relação ao inspetor e muito menos em relação a visitas. Disseram também que o policial era simpático e mantinha um bom relacionamento com todos que ali moravam. O inspetor, simplesmente, desaparecera sem deixar qualquer pista.

KLONIX – CAPÍTULO 56

Quando Juliano e Vilma chegaram à recepção da Universidade de Ancara à procura do professor Andres Nathaniarus, a recepcionista em um inglês carregado os informou que eram esperados. Tilintou uma campainha em sua mesa e um rapaz com a camiseta da universidade foi instruído em turco para levar o casal até o gabinete do professor. Seguiram o rapaz e finalmente entraram em um prédio de dois andares. Subiram dois lances de escada e, por fim, chegaram a uma larga porta encimada por uma tabuleta em turco e inglês que informava ser ali o Departamento de História.

Entraram e um homem com cerca de quarenta e cinco anos os recebeu efusivamente. Vestia um jeans surrado, camiseta e sandálias. Seu cabelo e suas barbas estavam em completo desalinho.

O homem estendeu as mãos ao casal e cumprimentou-o em um inglês britânico: - doutor Juliano! Doutora Vilma! Sejam bem vindos ao meu ninho. Meu amigo Avelar avisou-me da vinda de vocês.

Juliano e Vilma haviam levado um choque com a aparência do professor. Ao mesmo tempo, com o sorriso estampado na face dele, também sorriram e acabando sentando os três em poltronas no canto da sala.

O professor Andres falou-lhes: - e então, como estão indo nesta visita a esta terra quase esquecida pelo mundo?

Juliano disse-lhe: - nem tão esquecida assim! Na realidade, o seu país, ao menos na aparência, tem uma semelhança muito grande com o nosso...

O professor deu uma risada:- eu ainda não conheço o Brasil. Mas não creio que algum país seja tão confuso e largado como a Turquia. Aqui nada funciona. E temos uns governantes que, bem... Eu não o colocaria como os melhores do mundo!

Vilma simpatizou com o professor: - bem. Já começamos a concordar em alguma coisa. Afinal, isto é um ponto em comum. Nós resolvemos, quando saímos de Istambul, dar um passeio pela costa antes de chegarmos. Fomos até Éfeso. E o país de vocês é lindo e, pelo que vi, é bastante organizado...

O professor continuou rindo: - e não foram roubados nem explorados? Eu acho que vocês têm sorte! A Turquia é o reino do crime! E este nosso povo é corrupto desde que nasce. É pena, mas é verdade. Se descuidarem, um nenê rouba o leite da mãe para vender...

Juliano interveio: - mas isto acontece pelo mundo afora...

O mestre comentou: - eu sou turco. Nasci em uma pequena cidade do leste. Um buraco chamado Gevas, à margem do Lago Van. Minha mãe é turca e meu pai é grego do Peloponeso. Daí meu sobrenome que pertence a uma família de agricultores. Somos quatro irmãos. E eu sou a ovelha negra da família, pois não quis ficar naquele lugarejo. Fui estudar e depois consegui uma bolsa de estudos na Inglaterra. Morei uns dez anos em Londres. Quando a saudade da terra bateu e eu vim para cá, onde consegui este emprego de professor. Na Inglaterra me interessei pela cultura hitita. Que é parte integrante da história desta parte do mundo. Bem. Eu sou um rebelde. Talvez por nunca aceitar a história como tentam fazer o mundo engolir. Eu quero e vou mais além. E luto para mostrar que nossa história é muito maior do que isto que empurram nas cabeças dos estudantes. E tenho encontrado muitos momentos que confirmam as minhas teses e ideias. Além disso, sou refratário a este conceito de “stablishment”. Podem imaginar o que passei na fria e insossa Londres, onde até para ir ao banheiro os ingleses colocam seu terno e seu chapéu de coco...

Juliano riu da colocação: - Avelar havia me falado a seu respeito. Mas lhe considera um dos maiores conhecedores da história antiga e em particular da civilização hitita...

Andres não se abalou com o elogio: - Avelar é um bom homem. Mas nada disso. Eu não sou isto que ele falou. Apenas conheci um pouco mais deste povo. Que é meio misterioso no contexto da história. E que ocupa uma posição que eu chamaria de secundária em relação às outras grandes civilizações. Mas não deixam de ter valor.

Vilma o atalhou: - eu já li várias vezes que a origem real do povo hitita é muito controversa. E que, na realidade, ainda não se sabe exatamente como se formou...

Andres respondeu: - olhe. A formação de um povo sempre foi e será controversa. Na minha visão, esta formação começa a partir do momento em que um déspota assume o controle de uma região. A partir daí, em pouco tempo, os habitantes começam a se aglutinar e virar povo. Mas eu desenvolvi uma tese que já provocou um tsunami de críticas. Ainda bem! Pelo menos consegui chutar as canelas da comunidade quadrada e fechada, que diz se os “grandes conhecedores” de algo que nem eles sabem realmente o que é.

Juliano comentou: - Avelar me deu a cópia de alguns trabalhos seus. E, sinceramente, eu creio que há muita coerência em tudo o que li. Mas que também tem algo de inusitado e de difícil compreensão, pois envolve parâmetros e posturas, digamos, heterodoxas e altamente explosivas em termos de fixação de ideias.

Andres estava á vontade: - olhe doutor Juliano. Eu vou lhe dar algumas cópias de mais alguns textos que expõem as minhas ideias. E depois o senhor formará a sua opinião. Mas creia-me: embora pareçam sem nexo, as origens hititas têm um similar na formação do povo turco. Que nada mais é que uma fusão das mais diferentes e complexas culturas. Venham. Vamos dar uma volta e conhecer um pouco este hospício que tem na porta uma tabuleta que diz que isto é uma escola...

Vilma e Juliano saíram com Andres e conheceram os vários departamentos da universidade. Andres tinha deixado o mais interessante para o final.

Entraram em um prédio em estilo moderno e o professor anunciou: - eu creio que este é o lugar onde encontraremos a maior coleção a respeito dos hititas. Quando ingressei neste hospício, tudo o que se referia à civilização mãe da Turquia estava encaixotada e guardada em porões, salas fechadas e em garagens que não eram mais usadas. Sugeri ao psiquiatra reitor que eu poderia inventariar aquilo tudo e formar um museu com aquelas peças. E ele concordou. Então eu montei uma equipe com alguns estudantes e começamos um trabalho minucioso. Nosso psiquiatra reitor permitiu e deu apoio à minha loucura. Finalmente, consegui com a administração da cidade que é a dona desta casa de loucos, que ela construísse este prédio. Que, finalmente, virou este museu. Vamos entrar...

O lugar estava dividido em três salões que de imediato transmitiu a sensação de sua climatização. Perfeitamente distribuída, via-se uma coleção de peças raramente encontradas em até grandes museus.

Andres explicou: - dividimos esta exposição nos três momentos distintos da civilização hitita. Nesta primeira sala são expostas as peças do início da civilização. No segundo espaço, as peças do apogeu e, finalmente, as peças que pertenceram ao declínio do povo. É de se notar nos três espaços que havia quase que uma cultuação sexual. Este foi um dos grandes choques que provoquei na velharada que ainda teima em dizer que a religião dominava as civilizações antigas. Tanto estes hititas como todos os outros povos praticavam realmente a cultuação do sexo. E o mais curioso: o homossexualismo era considerado como uma elevação do corpo e do espírito no meio hitita. E de ambos os sexos...

Vilma e Juliano observavam atentamente cada peça, em busca de algum similar ao símbolo que havia sido encontrado. No segundo salão, uma surpresa os aguardava...

Foi Vilma quem o descobriu: - veja Juliano! Veja! O símbolo!

Andres ficou curioso: - de que símbolo a senhora fala?

E Vilma mostrou aos dois o seu achado: - este aqui. Professor, o que representaria na cultura hitita este sinal?

Andres observou o símbolo e falou: - pelo que conheço, esta inscrição tem uma interpretação bastante complexa e também cativante. Quando voltarmos à minha toca, vou lhes mostrar o que significam estes escritos que se relacionam diretamente com esta alegoria.

Depois de visitarem o museu, retornaram para a confusa sala de Andres, não sem antes passarem em um bar da universidade e comido um dos melhores sanduíches de linguiça defumada e testarem a profusão de molhos e temperos disponíveis.

Depois de sentarem, Andres foi a um gaveteiro e retirou de lá um tubo que continha a reprodução do que tinham visto. Foi a uma mesa e calçando a folha com alguns livros, deu uma explanação a Juliano e Vilma do que significariam aqueles confusos caracteres cuneiformes que rodeavam o símbolo.

Andres explicou com bastante ênfase: - vou tentar traduzir o que aqui está escrito: “viemos de longe. Nosso barco paira na imensidão do lago azul, cujo fundo jamais será encontrado, pois seu negrume não permite que o toquemos. Lá há fogo e metal fervente. Há a dor, o sofrimento, a desilusão e a morte. Mas também há a renovação, a alegria e o prazer. Nosso barco veio buscar aqueles que irão renascer. E que jamais rangerão os dentes. Viemos buscar aqueles que irão ser o renovo. Que formarão o renascer, cujos filhos não conhecerão a chuva o vento e o gelo. Venham todos aqueles que sofrem, envelhecem e que choram. Porque jamais sofrerão, envelhecerão e chorarão”.

Depois que Andres traduziu aquele escrito, Juliano e Vilma estavam em um silêncio estático, que foi notado pelo professor. Este respeitou e aguardou que ambos saíssem daquele estupor momentâneo.

Vilma conseguiu balbuciar: - professor. O que significaria isto? Uma promessa dos deuses? Um convite ou uma admoestação ao povo?

Andres, pela primeira vez, ficou sério: - não, doutora. Não. Neste texto nada há de religioso ou de doutrinário. Há, sim, um chamado aberto. Um chamado franco. Não é um convite místico, mas a convocação para a criação de um novo mundo. O que eu traduzi como barco está certo. Mas este radical hitita pode ter outros significados, pois nos traz traduções como veículo, transporte, carro e outros. Mas, desculpem, eu notei que o que eu traduzi causou uma profunda impressão em vocês.

Foi Juliano que, semirrefeito, comentou: - professor Andres. Nós atravessamos a metade do mundo tentando achar um significado para este dístico. Mas foi aqui na Turquia que conseguimos compreender claramente o seu significado. Mas eu não conseguiria lhe explicar os por quês. Pois é tão incrível que ninguém acreditaria na origem deste símbolo para nós. E a tradução que nos foi apresentada está perfeitamente alinhada com o que pressentimos e acabamos de confirmar. É uma loucura. Uma doce, dura e impressionante loucura.

Andres respondeu: - então vocês estão no lugar certo. Aqui é um hospício travestido de universidade. Ninguém aqui é são. Porque os sãos do mundo não frequentam faculdades nem estudam história. Não vou lhes forçar a falar, mas por mais absurda que seja eu gostaria de ouvir a sua relação com este símbolo. E, a menos que eu me engane, talvez até sua história bata com o que já pude desvendar no decorrer da história da humanidade.

Juliano e Vilma estavam tensos. Mesmo assim, Juliano principiou a contar para o professor todos os acontecimentos desde o desaparecimento dos passageiros do ônibus. Sem omitir um fato sequer, até a viagem insólita deles até a Sibéria, onde encontraram o motorista desaparecido.

O professor universitário a tudo ouviu. Depois Juliano pegou as fotos em uma pasta e as expôs a Andres.

Vilma tentou desanuviar um pouco o ambiente: - bem, professor. Depois desta narrativa, eu creio que o senhor vai nos achar pelo nosso nível de sandice, que somos indignos de ficar aqui no seu hospício...

Andres recuperou o sorriso: - ao contrário! Sejam os dois bem vindos ao sanatório. Eu já tinha lido e ouvido a respeito disto tudo. Mas jamais poderia imaginar que iria me defrontar com quem teve este tipo de experiência. Eu vou lhe mostrar uma coisa. Levantou-se e foi até um armário. De lá retornou com algumas reproduções de lápides hititas.

Tornando a sentar-se, deu uma risada: - todos que entram neste meu ninho não acreditam que eu consiga achar alguma coisa nesta babel. Mas eu consigo. E quando o pessoal da limpeza passa por aqui eu fico vigilante. Não deixo sequer que tirem o pó das estantes e da minha mesa sem a minha supervisão.

Vilma observou, rindo: - parece que é comum a todos que lidam com a história. Ainda não encontrei na minha vida algum historiador organizado. Nem eu mesma...

Andres deu outra risada: - tem razão. Deve ser um dos efeitos causados pela insanidade de se estudar história. Não esqueça que todo o conjunto formado pelas ações da humanidade repousa na ideia do grande hospício chamado Terra. Mas a grande vantagem de se estudar tudo isso é que nos conduz a uma loucura mansa.

Juliano concordou: - principalmente quando nos deparamos com fatos completamente sem sentido para o nosso já estropiado cérebro. Que mal funciona com um quinto de sua capacidade.

Andres continuou rindo: - eu acredito que todo o pesquisador, seja de que ramo for só consegue resultados se apelar um pouco para a demência. Nada de genialidade ou inteligência. E o maior exemplo disso se chama Einstein. Que desenvolveu as suas teorias escrevendo em papéis, em quadros negros e sem o auxílio de um computador. E cuja rapidez mental por vezes nem por ele era entendida. Mas, vejam: todas estas reproduções foram feitas com base em lápides reais. Algumas delas espalhadas em vários museus do mundo. Vejamos... E procurou algumas delas entre as várias reproduções que trouxera.

Juliano e Vilma estavam como que hipnotizados com aquelas gravuras.

Andres achou o que procurava: - comecemos por esta. Deixem-me ver... Ah, sim... Nesta aqui há uma divagação aparentemente sem sentido, mas totalmente reveladora. Diz mais ou menos o seguinte: “sei que estou indo e não volto mais. O barco está me esperando para me levar. Eu levo a lembrança, mas sigo alegre. Eu vou para muito além do azul no barco que me levará ao outro mundo. Sou pequeno e serei grande. Mas o mundo não mais me ouvirá. Terei a força do leão, o medo do coelho e alegria do besouro. Levem-me logo, pois não sei mais viver aqui”. Qualquer velhote estudioso vai entender que quem escreveu isso deveria estar doente, próximo de sua morte e falava com os deuses. Mas não é nada disso. Não sabemos dizer quem foi o escritor deste texto. Mas faz uma referência direta a tudo o que estamos conversando.

Juliano interveio: - há uma particularidade que eu não mencionei. Nós estivemos em New York com o professor Ezechiel. Em que pese as suas teorias um tanto incríveis, ele nos mostrou um selo sumério onde se via Enlil, Enki e este mesmo símbolo. Também o professor Athanasius Deodorakis, da Universidade de New York, reconheceu o símbolo. Aqui em Istambul, estivemos com o professor Emre, na universidade. Ele também falou a respeito. Só que disse que esta efígie seria uma porta de comunicação entre eleitos e alguma entidade. Ele concordou em parte que somos, digamos, governados ou induzidos por forças exteriores, mas não nos passou a impressão que acredita que estas forças estariam levando pessoas da terra para outros lugares e mundos.

Andres comentou: - o professor Emre é uma sumidade. Mas seu problema se prende ao fato de ser sunita. Muito embora os sunitas componham uma divisão do islamismo mais aberto, mesmo assim têm no Corão a sua força motriz. Mas há um componente importante entre eles. É o fato de que, por vezes, suscitam dúvidas em relação aos escritos de Maomé. Eu os classificaria na ordem de islamitas livres. Apesar disto, o professor Emre ainda assim pode ser considerado como conservador.

Juliano perguntou a Andres: - você já leu a respeito das teorias do professor Ezechiel?

Andres sorriu: - já. Eu devo ter lido, creio eu, dois livros dele. Embora seja uma teoria bem assentada, pois ele se baseou em muitos indícios sumérios, há um ponto em que eu encontrei uma falha um tanto gritante: se um planeta do porte de Nibiru, como ele o descreve, entrasse no sistema solar, suas forças de atração e repulsão causariam o fim do sistema. Segundo ele, a cada três mil e seiscentos anos o tal planeta faz seu perigeu em relação ao sol no nível do Cinturão de Asteroides. E se torna quase infantil acreditar que não causasse uma revolução no equilíbrio do sistema como um todo. Mas, enfim, é uma teoria interessante.

Juliano interpôs uma questão: - hoje eu associaria este povo de Nibiru com os que trouxeram para a terra os primeiros homens. E que a visitam em intervalos de tempos, tanto como observadores quanto para selecionar alguns espécimes.

Andres continuou: - não deixa de ser interessante, inclusive, associá-lo ao tal Planeta X, que a NASA acabou descobrindo. Que também é outro misterioso corpo celeste sem grandes explicações.

Vilma entrou na questão: - eu entendo, e mais firmemente agora com o que foi dito pelo Carl Sagan: que se o universo tivesse sido construído apenas para a nossa humanidade teria sido um desperdício infinito.

Juliano concordou e mencionou outro mistério: - há algum tempo atrás tomei conhecimento de uma tribo que vive na África ocidental. Os dogons. Completamente incultos e analfabetos, vivendo cem quilômetros abaixo da linha mais baixa da pobreza. Este povo tinha como objeto de culto a imagem de duas elipses Uma grande e outra bem menor. Que era a sua única razão de sobrevivência. Durante o contato com exploradores, quando perguntados acerca de suas origens, sempre apontavam diretamente para Sírius. A astronomia sempre considerara aquela estrela como uma só. Com o advento dos telescópios mais potentes, radiotelescópios e o Hubble, constataram que Sírius, na verdade, é uma estrela dupla. Ficou a pergunta que ninguém se atreve a responder: como aquela tribo era conhecedora daquela duplicidade? Sem contar o seu conhecimento astronômico que, embora algo falho, fala-nos até de satélites de Júpiter! E eu estou decidido a explorar este mistério encontrado nos confins da África e tentar estabelecer seus nexos. Se houverem... Principalmente depois de esbarrar com tudo o que aconteceu conosco.

Andres aplaudiu Juliano: - nós ainda temos muitas perguntas sem respostas. Mas mesmo em civilizações ditas como conhecidas, nós esbarramos com um problema de ordem léxica. Os idiomas antigos eram pobres em vocábulos. Eu vou dar um exemplo que clarifica a matéria. As línguas antigas eram representativas, ou seja, um determinado desenho ou mesmo um grupo de traços cuneiformes estabeleciam não algo específico, mas a globalidade de um assunto. Citei ainda a pouco o exemplo da palavra “barco”. O problema encontrado pelos estudantes de linguística antiga se resume no fato de que os idiomas eram escassos na sua forma interpretativa. O caracterizador em hitita de “água”, também pode significar: mar, oceano, lago, rio, poço, chuva e vai por aí. Em alguns casos o contexto do que está sendo observado pode definir o tipo de “água” referido pelo cronista. Eu diria que o povo hitita teria usado não mais de vinte e cinco mil vocábulos. A pergunta que fica é: para seu tempo e uso corrente eles necessitariam de mais palavras? Não. Como a língua inglesa. Presume-se que encontremos mais de quatrocentos mil verbetes em um dicionário bem elaborado. Mas para o coloquial, qualquer pessoa que domine por volta de, digamos, dez mil verbetes, está apta a conversar sem grandes problemas em qualquer lugar do mundo. A diferença é que os verbetes existem, definindo situações específicas. O que não acontecia nas línguas antigas. Para elas, lago, mar, poço ou rio, a partir do momento em que usassem a palavra água e apontassem para o lugar, o problema estava resolvido. E os escribas tinham este colossal problema nas mãos. Não tendo recursos linguísticos maiores, por vezes deixaram escritos que ainda são um enigma para nós, já acostumados com a fartura de termos.

Juliano comentou: - certa ocasião tive a oportunidade de conversar a este respeito com um linguista especializado em hebraico antigo. E ele mencionou justamente este problema. Inclusive na tradução do livro mais sacro do judaísmo, a Torah. Este conjunto de cinco livros, por exemplo, em português, tem distorções absurdas. Primeiro pela carência de seu suposto autor, Moisés. Segundo vários estudiosos, Moisés seria a mesma pessoa que o faraó Akhenaton. Depois que foi deposto, ele teria escrito em hierático apenas uma parte daqueles textos e depois um escriba chamado Ezra teria vertido o texto com modificações que se transformou na Torah. E considerando a imensidade de vocábulos em nossa língua, um termo hebraico antigo também poderia significar até quinze ou vinte palavras diferentes. Além disso, os cronistas hebraicos tinham outro particular: eles eram fiéis às suas raízes das quais destacamos os eloístas e os javeítas. A dúvida que existe, inclusive, a respeito da autoria de Moisés se prende a isto, pois a Torah é parte eloísta e parte javeísta. E isto também é motivo das dificuldades na tradução. Sem contar que poderiam ser vários autores, dado que lemos a respeito da morte e sepultamento de Moises.

Andres concordou e colocando outra reprodução na mesa, comentou: - este texto reproduzido pertence à época do apogeu do império hitita. Aqui temos outro enigma que ninguém ainda conseguiu compreender o seu sentido em definitivo: assim está escrito, de forma literal: “eu tive um sonho. O grande animal de metal vai até a água. A água é quente e não se vê o seu fim. Não há pessoas no grande animal de metal. Nem dentro e nem fora. Seus olhos que brilham me veem e eu vejo a lua na água com olhos de Baal. Depois o grande animal está na minha casa e busca o sol na luz do fogo. E morre”. Como está escrito, não se consegue extrapolar uma significação para este texto.

Vilma comentou: - você já tentou fazer a mudança dos termos, de acordo com as possibilidades?

Andres se animou: - não só fiz isso, mas fui além. Levantou-se e foi ao computador. – eu montei uma planilha colocando cada termo na primeira coluna. Vejam: depois, nas colunas seguintes eu listei todas as possibilidades de interpretação. Tentei, através deste estratagema, encontrar um sentido. Nada! Absolutamente nada! A cada tentativa a dificuldade aumentava deixando o texto até sem qualquer sentido.

Vilma perguntou: - posso tentar? E Andres concordou com o seu “fique á vontade!”.

Vilma tentou diversas combinações sem qualquer efeito. Ao contrário, a cada tentativa fracassada mais se confundia. Chegou a usar aquelas palavras como um jogo de sorte. E nesta digressão encontrou um caminho através da associação de sentidos que fossem mais lógicos. Depois, através de sinônimos, foi depurando o texto até chegar ao um ponto:




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