A guisa de prefácio



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Juliano entrou na conversa: - eu observei que o senhor pegou um livro em grego na estante. Desculpe-me, mas do que trata este livro?

Athanasius sorriu: - este livro foi escrito por um colega meu de faculdade em Istambul. Este colega colocou neste livro sessenta casos de desaparecimento de grupos de pessoas pelo mundo afora. Inclusive o caso do meu parente, com sua mulher e os dois empregados está aqui. Eu sempre também questionei certos desaparecimentos. Que acontecem desde que o homem é homem.

Juliano o interrompeu: - bem, professor. Eu sou um pesquisador que também trabalha justamente com desaparecimentos. Não de pessoas, mas do ponto de vista histórico. A nossa história por vezes e são muitas vezes até, comenta respeito de tribos ou pequenos povos que viveram como súditos ou mesmo independentes, mas que conviviam com as grandes civilizações antigas. O meu trabalho é pesquisar e achar as razões que expliquem porque, em dado momento, estes pequenos povos desapareceram. E de forma curiosa, eu já encontrei algumas respostas lendo as lendas e folclores de povos antigos. Vou dar um exemplo: durante o governo de Nabucodonosor, houve um povo, os curdameus, que habitavam mais ao sul da cidade de Babilônia. Este povo, cuja origem é desconhecida, em dado momento do reinado de Nabucodonosor, simplesmente sumiu, tanto da região quanto da história. Nunca mais o nome deste povo foi mencionado em qualquer lugar do Oriente Médio. Quando eu encontrei este filão, passei a pesquisar o que poderia ter acontecido com aquela aglomeração humana. Foi através de um pesquisador sueco que tive a surpresa de conseguir uma pista. Aquele povo havia, talvez até por motivos nunca esclarecidos, mudado para a região da Caxemira, ao norte da Índia. E que haviam adotado o judaísmo como religião, através do contato com estes religiosos durante o aprisionamento das tribos judaicas por Nabucodonosor.

Athanasius o interrompeu: - o seu trabalho é fantástico. E o senhor chegou a ter contato com este povo?

Juliano continuou: - não. Ainda não. Na realidade, quando estive na Índia, há cerca de seis anos, chegando à Nova Delhi, tentei saber como atingir a Caxemira. Foi-me informado que eu não deveria ir para aquela região, devido aos conflitos armados entre paquistaneses e moradores do local. Assim, ainda não pude chegar até lá. Mas a esperança é a última que morre...

O idoso professor voltou ao livro que trouxera: - este colega escritor passou longos anos pesquisando algo semelhante ao que o senhor persegue. Mas com um diferencial: ele se deteve na pesquisa de desaparecimentos de grupos de pessoas e de fenômenos, porém vistos por outros ângulos. Doutor Juliano, o senhor como historiador sabe que há momentos históricos em que não encontramos explicações. Em toda a história há pontos que nos conduzem até a desacreditar no que estamos presenciando. Além disto, há outra faceta mais complexa de ser compreendida. E foi justamente devido a estas particularidades que acabei me dedicando de corpo e alma ao estudo da civilização hitita. Em Istambul eu tive um professor que me desafiou certa vez a buscar as origens de uma grande civilização antiga. E eu, sem saber explicar as razões, achei por bem pesquisar as origens do povo e do império hitita. Bem. Já faz cinquenta e cinco anos que isto aconteceu. E, confesso, até hoje não consegui descobrir exatamente porque o império dos heteus bíblicos nasceu se desenvolveu e conquistou praticamente toda a Ásia Menor. Mas voltando a este colega: ao longo da história, como mencionei, há fatos que são incongruentes com o momento em que aconteceram. Visões, poderes mágicos, demonstrações de forças imensas, comportamentos inexplicáveis e outros fenômenos são uma constante histórica. E ele dedicou a sua vida para catalogar estes acontecimentos e tentar explicá-los. Até por vezes extrapolando conclusões nem sempre, bem, ortodoxas. Além disto, ele somou a isto uma constante indubitável: todos os deuses... Veja bem, doutor Juliano: todos os deuses da antiguidade tinham a sua origem nos céus. De lá vinham, lá moravam e para lá retornavam depois de algum tempo na terra. Ele observou que, a partir do momento em que estes deuses partiam para a sua origem havia um abalo catastrófico nos reinos. Ou os reis eram depostos, ou o reino era esfacelado, ou ocorriam pragas que dizimavam a população e outras desgraças semelhantes. Mas também, através dos escritos descobertos, a descrição daqueles fatos acabava por se tornar lendas daquele povo.

Juliano o interrompeu:- eu sempre acreditei que as lendas dos povos antigos são a descrição de fatos reais, naturalmente contados de forma alegórica. Talvez por outro fator que é pouco lembrado: os idiomas antigos eram pobres de vocabulário. É comum de se encontrar um fonema de uma língua antiga que pode ser traduzido de diversas formas. Por vezes dependendo do contexto usado.

Athanasius continuou: - isto é verdade. O idioma hitita tem muito destes momentos. Como todos os idiomas antigos. Voltando ao assunto. O que o senhor está me trazendo, para mim já não seria novidade. Isto acontece desde que o mundo é mundo. Mas a pergunta fica sem resposta: para onde seriam levados? Para outro planeta? Para uma nave que ficaria vagando com eles eternamente pelo espaço? Para junto dos deuses? Se eu fosse responder a estas perguntas, com certeza eu diria sim para todas elas. Quanto a este símbolo que o senhor me trouxe e que encontramos correspondente nas representações pictóricas dos hititas, poderá haver um elo. Este símbolo hitita evoca a imagem de deuses que estariam vagando no cosmo. Talvez uma nave, talvez um ideograma que não sabemos o seu significado. Talvez... Talvez... É muito difícil trabalharmos com a palavra “talvez”.

Vilma entrou na conversa: - o doutor Ezechiel concordou com a hipótese levantada por Juliano de que este símbolo poderia significar o nosso sistema solar... E que este ômega estilizado poderia ser o marco divisor entre os planetas internos e externos, representando o Cinturão de Asteroides...

Athanasius sorriu para Vilma: - sim. Sim. É provável. Mas caímos novamente no “talvez.” Esta palavra é uma tortura para um historiador.

Juliano perguntou ao professor: - professor. Este símbolo que recolhi junto ao local de um rapto já foi visto por mim em algum lugar. Não recordo onde, mas eu tenho certeza de que eu já vi em algum monumento, estela, ou o que seja. O que está me preocupando não é somente o fato de já tê-lo visto, mas o fato de que ele poderia ter alguma relação com o que aconteceu com aquele ônibus e seus passageiros. Qual seria a sua opinião a respeito?

Athanasius parou por alguns segundos, antes de responder: - veja doutor Juliano. Eu sou um pesquisador, como o senhor. Exercendo este trabalho, eu tenho de estar aberto a todas as possibilidades. Particularmente eu creio que existe vida fora da terra. Vida inteligente. Também creio que desde tempos remotos estamos constantemente em contato com estes seres inteligentes. Há um escritor suíço que já escreveu muito a respeito deste tema. Não sei se o senhor já leu algo escrito por ele. Como historiador, em que pese alguns exageros, eu sou obrigado a aceitar que ele tem razão. Em parte, mas tem. Em seu lugar eu o procuraria. Eu vou lhe passar o e-mail dele. Tomos de um lápis e de um papel e, consultando uma caderneta, anotou o endereço eletrônico do escritor suíço. – a única coisa que eu não lhe aconselharia é tentar o contato com esta turma que vive falando de discos voadores, extraterrestres e semelhantes. Até hoje não encontrei um que fosse coerente.

Juliano agradeceu pelo favor prestado pelo velho historiógrafo. Dali em diante, eles passaram a conversar a respeito de vários assuntos. Almoçaram juntos e, retornando para a sala, o professor Athanasius mostrou-lhes como desenvolvera o seu trabalho. Na saída, deu a Juliano e à Vilma dois exemplares de um trabalho seu que tentava desmistificar o surgimento do império hitita. Eram dois exemplares fartamente ilustrados, com uma edição luxuosa, patrocinada por uma grande indústria automobilística.

KLONIX – CAPÍTULO 26

Depois que a perícia saiu, Padilha foi à delegacia do bairro e conversou com o delegado: - pois é, Julião. O Cardoso desapareceu. Ninguém sabe dele. Eu estive na sua casa e, extraoficialmente, pedi que alguns peritos dessem uma olhada. E eu sei que ele não deixaria de trabalhar nem de faltar ao encontro que havíamos marcado. Vamos fazer um BO e tentar localizá-lo. O que você acha?

Julião aceitou o encargo: - claro, Padilha, claro! Mas você não acha que ainda é cedo para isto?

Padilha respondeu de imediato: - não. Eu acho que não. Porque existem motivos para a minha suspeição. Motivos complexos e incríveis. Mas eles realmente existem...

Julião se interessou: - que motivos são estes, Padilha?

O delegado recuou: - Motivos, Julião. Motivos. Por enquanto não dá para falar nisto. Mas há motivos de sobra para se acreditar que Cardoso tenha sido sequestrado. É muito complexo e está relacionado com uma série de acontecimentos. Posso apenas te dizer que existe uma conexão entre aquele desaparecimento dos passageiros do ônibus em Piraí, com o roubo do cadáver do motorista, o sumiço de legista, e outros prováveis acontecimentos que ainda não sabemos...

Julião inclinou-se para o colega: - espere um pouco Padilha. Eu estou sabendo por alto disso tudo, mas o que tem a ver tudo isso com Cardoso?

Padilha não sabia o que dizer: - bem, Julião. Assim de pronto ainda não dá para falar muito. Mas eu vou te segredar uma coisa...

E Padilha narrou para Julião o que havia visto na noite anterior na casa de Cardoso.

Julião ouviu e deu uma risada: - pô, Padilha! Não vai me dizer que você acreditou nisto tudo?

Padilha estava sério: - pois olhe Julião. Tudo começou quando conheci um casal de professores. Quando eles falaram comigo, achei que estavam até me gozando. Mas com a sucessão de fatos e com o que o Cardoso me mostrou, pode crer que tem muita coisa de estranho nisto tudo. E que, pelo jeito, não vai parar por aí. Assim, vamos registrar este sumiço do Cardoso. Depois, se eu estiver errado, eu pago uma semana de almoços...

Julião pegou um formulário e principiou a preenchê-lo, enquanto Padilha rememorava o que vira nas filmagens desaparecidas...

KLONIX – CAPÍTULO 27

Depois de uns dez dias de visitas a museus e de conversar com vários pesquisadores, Juliano e Vilma retornavam.

A vida os havia unido, tanto do lado afetivo e pessoal quanto do lado profissional, já que Vilma mergulhara de cabeça nas tentativas frustradas de Juliano para desvendar o mistério do ônibus e de seus passageiros.

O que mais os incomodava havia sido o roubo ou desaparecimento do cadáver do falso motorista. Além disso, o motorista verdadeiro também sumira. E eles não encontravam elos entre aqueles acontecimentos.

De outro lado, a pesquisa a respeito daquele símbolo os apenas levara ao que o professor Athanasius havia mostrado. Resolveram pesquisar mais profundamente a religião e as lendas hititas de modo a encontrar algum nexo ou liame entre o símbolo que Juliano possuía e o seu similar que lhes fora mostrado pelo velho professor.

Depois das formalidades alfandegárias, tomaram um táxi e foram para o apartamento de Juliano. Onde, sem que soubessem, uma surpresa os aguardava.

Quando Juliano e Vilma entraram no apartamento, em princípio nada notaram de estranho. Juliano largou as malas na sala e foi até seu escritório, seguido por Vilma. Ao entrar, se depararam com uma surpresa que os deixou atônitos.

O lugar de trabalho se assemelhava a um cômodo que sofrera um furacão. Estava completamente revirado. Como se alguém procurasse por algo que não foi encontrado. O susto de ambos foi imenso. Juliano pegou um livro. E outro. Ainda em choque pelo que presenciava, queria por em ordem o caos, mas não se sentia com forças para tanto. Lembrou-se de Padilha. O delegado poderia lhe ajudar naquela hora. Por acaso havia anotado o telefone dele na agenda do celular. Padilha atendeu, mas antes que Juliano começasse a falar Vilma o interrompeu: - veja Juliano. Naquele canto da parede, ali... Ali. O símbolo... O símbolo está ali... Está ali!

Juliano pediu que o delegado aguardasse um momento. E indo onde Vilma lhe indicara, viu o sinal como que pintado na parede. Quando se aproximou, o emblema foi se esvanecendo até que somente o creme da pintura permaneceu no lugar. Depois disso, falou com Padilha e lhe pediu que viesse à sua casa, dando-lhe o endereço.

KLONIX – CAPÍTULO 28

As autoridades brasileiras sediadas no Peru foram rápidas. Uma vez que o jaleco usado identificava o local de trabalho onde aquele homem atuava, através de um simples contato telefônico conseguiram receber por e-mail todos os dados que necessitavam para que pudessem assumir o problema e tratar do traslado do cadáver. O morto foi identificado como o legista que havia desaparecido. Agora cabia à polícia local desvendar como acontecera o seu sequestro e morte. Era mais um inquérito na já assoberbada delegacia onde Padilha era o delegado.

Quando recebeu oficialmente a notícia, Padilha sentiu vontade de pedir licença e viajar. Algo lhe dizia que aquela morte estava relacionada com o desaparecimento de Cardoso, o perito. Muito embora a história toda se afigurasse como incrível, o experiente policial nada tinha incriminar quem quer que fosse.

E aquele chamado urgente do professor de história o havia alertado. Pelo pouco que falou com Juliano, o que ele sabia era de que ele havia chegado de uma viagem ao exterior e encontrara o seu apartamento revirado, como se alguém lá estivesse estado à procura de alguma coisa. Colocou a pistola no coldre e, saindo para o pátio, entrou no carro e seguiu ao endereço dado. Sentia dentro de si mesmo que estaria lutando contra uma força desconhecida e extremamente poderosa. Eram os ossos do ofício.

KLONIX – CAPÍTULO 29

Quando Padilha chegou e foi recebido pelo casal, estava curioso em saber o porquê da urgência no chamado. Notou que Juliano e Vilma estavam muito excitados.

Foi Vilma quem falou: - bem, doutor. Nós acabamos de chegar dos Estados Unidos e, quando entramos, Juliano seguiu para seu escritório. Venha e veja. Alguém esteve aqui e revirou todo o gabinete.

Padilha levantou-se e foi com Vilma até o escritório, seguidos por Juliano. E pôde constatar o estrago.

O delegado exclamou: - pô... Mas que bagunça! Garanto que foram mais de duas pessoas. Professor Juliano, o que poderiam estar procurando?

Juliano retornou com os outros dois para a sala e sentou-se em um sofá: - ora, doutor Padilha. Para que o senhor possa entender, vou contar-lhe o que aconteceu logo que comecei a pesquisar a respeito do sumiço dos passageiros daquele ônibus.

E Juliano contou a Padilha o que o colono lhe passara, a ida ao local e a respeito do símbolo que tirara da árvore. Vilma abriu uma das malas e retirou de lá as fotos que Juliano fizera.

Juliano continuou: - uma das grandes razões para nossa ida aos Estados Unidos se prende à nossa tentativa de descobrir alguma coisa a respeito. Nós estivemos com vários pesquisadores. Dois deles nos mostraram, em inscrições sumérias e hititas, símbolos semelhantes. Pesquisamos em museus, falamos com arqueólogos, enfim, tentamos por todos os meios e modos, decifrar esta charada. E pouco ou nada conseguimos...

Vilma atalhou Juliano: - pois bem, doutor. Sei que o senhor vai achar meio louco, mas logo que entramos havia um símbolo idêntico a este na parede do escritório. Tão logo Juliano o viu, depois de mim, a imagem se esvaneceu. Foi quando achamos que seria importante a sua vinda até aqui.

Padilha estava sem palavras. Mesmo assim balbuciou a respeito do que Cardoso lhe mostrara em relação ao roubo do cadáver e comentou que o corpo do legista havia sido encontrado em uma cidade nos Andes peruanos. Lembrou-se de comentar que o escritório de Cardoso não fora propriamente revirado, mas todo o trabalho gravado havia desaparecido junto com o perito.

Juliano fez um comentário: - doutor. Eu nunca acreditei em bruxarias, ETs, discos voadores, nada disso. Mas eu estou começando a acreditar que há qualquer coisa de verdadeiro nesta história toda. No meu modo de entender, a lotação de um ônibus não some assim, sem vestígios, sinais ou o que seja. E ainda há algo de misterioso ao menos para mim: o verdadeiro motorista já apareceu?

Padilha sacudiu a cabeça: - não. Ninguém sabe dele. Nem a empresa, nem a família e nem a polícia. O homem sumiu. Professor. O homem sumiu...

Juliano estava perplexo: - e no computador do perito? Alguém fez uma perícia nele?

Padilha assentiu: - o computador estava com todos os circuitos queimados. Levamos o HD para a técnica. Também os circuitos estavam queimados e totalmente sem arquivos. Limpo. Completamente limpo. Como se tivesse saído da linha de produção. Nem os arquivos básicos de sistema existiam nele. Levamos o equipamento para uma empresa especializada que trabalha para a polícia e nem eles conseguiram encontrar um bit sequer no HD.

Vilma entrou na conversa: - doutor. Em sua opinião, o que poderia ser isso tudo?

Padilha pigarreou como se buscasse as palavras: - veja doutora Vilma. Em toda a minha vida de policial, que é longa, nunca vi ou pelo menos não me lembro de algum caso deste tipo. Passageiros que desaparecem; cadáver roubado de um necrotério; legista morto e levado para outro país; um perito desaparecido com seu trabalho e, agora, esta invasão na casa de vocês, com um sinal que some depois de avistado. Bem... Eu vejo que tudo isto é uma muito bem orquestrada ação, cuja finalidade é desconhecida, ou... Estamos lidando com algo extremamente imponderável e, pior, inacreditável. Que, aliás, começa a ser o caso do momento em toda a polícia. Mas ninguém quer arriscar um palpite.

Juliano perguntou: - e a imprensa? Está acompanhando estes casos?

Padilha concordou: - sim. No caso do corpo do legista. Quanto ao desaparecimento de Cardoso, ainda não. Também quanto ao roubo do cadáver. O senhor sabe. Foi ocultado da imprensa em função da repercussão que este caso traria. Além do que, seria extremamente difícil explicar como dois homens, com um aceno de mão, colocariam dois vigilantes para dormir... Bem, e agora, o que vocês pretendem fazer?

Juliano, pela primeira vez, esboçou um sorriso: - nós? Bem. Eu não sei se conseguiria dormir aqui. Provavelmente iremos passar a noite em um hotel. E amanhã decidiremos o que fazer.

Padilha então comentou: - desculpe-me, professor. Mas há algo muito estranho nisto tudo. Se eu lhe sugerisse um hotel, o senhor aceitaria?

Juliano prontamente respondeu: - sim, sem problema. Desde que seja um hotel razoavelmente confortável, por que não?

E Padilha recomendou um hotel próximo do centro, ficando o casal compromissado para passar lá aquela noite.

Pouco mais tarde, Padilha se despediu e saiu. Chegando ao carro, pegou o celular e incumbiu dois investigadores para, discretamente, vigiar o casal de historiadores.

KLONIX – CAPÍTULO 30

Quando Miguel acordou, sentiu frio. Muito frio. Acordara sobre uma pequena cama com lençóis um tanto encardidos, e estava coberto com uma manta que cheirava a mofo. Viu que em uma das paredes uma lareira estava acesa, embora apenas em brasas. Viu ao dela várias achas de lenha. Levantou-se e resolveu colocar aquela madeira no braseiro, na tentativa de avivar a chamas e atenuar o frio que sentia. No armário ao lado da cama encontrou algumas roupas de frio e uma bota revestida de pelos. Pegou algumas roupas e experimentou as botas. Estas eram um ou dois números maiores que o seu, mas iriam aquecer seus pés. Atravessou o pequeno quarto e abriu a porta. Viu que esta dava para outro cômodo, um misto de sala e cozinha. Um fogão a lenha, em um dos cantos, estava aceso. Foi a uma das janelas e olhou pela vidraça. Assustou-se quando viu que um campo de neve se estendia da casa até uma elevação próxima. Foi à outra janela, na parede oposta e a visão se repetiu. Pelo que pode pressentir, aquela casa era isolada e no centro de um inferno gelado.

Sua consciência despertou e lembrou-se do que acontecera. Havia saído da rodoviária do Rio com o ônibus que fazia a linha para Santos. Lembrou-se que logo após o pedágio, um colega da empresa lhe pedira carona. Seguiu e, ao chegar a Piraí, um desvio o fez entrar em uma estrada secundária. Foi quando o ônibus parou sem qualquer intervenção sua e o colega se levantou da escada e colocou a mão em sua cabeça. Depois não se lembrou de mais nada. Foi como se tivesse adormecido no ônibus e acordado naquela casa no meio da neve. Achava estranho já não vestir o uniforme da empresa. Estava vestido com outras roupas que nunca haviam sido suas. Olhou em seu relógio que marcava as dez e meia. Se havia saído da rodoviária por volta de dez horas da noite, deveria ter dormido um bocado ou sequer dormira. Mas, onde estava? Não deveria estar no Brasil, pois não há tanta neve assim. Decidido, abriu a porta e saiu. O ar gelado, acompanhado de um vento cortante o fez entrar novamente.

Onde estaria? E, que lugar ele sabia que tinha tanta neve? Como chegara até lá? Quem o trouxera enquanto dormia? Pelo passar do tempo, não deveria estar tão longe assim. É. É isso. Tinha ouvido falar que no sul da Argentina havia lugares onde a neve tomava conta de tudo. É. É possível... Mas, por quê?

Encontrou um pequeno espelho em uma prateleira. E a imagem vista quase que o fez cair. Seu rosto era o mesmo, mas estava como que renovado. Como se tivesse passado por uma cirurgia plástica de renovação. Via um homem novo. Um Miguel novo. Fez alguns movimentos faciais e notou que a imagem correspondia. Não conseguia entender o que se passara desde que o seu colega colocara a mão em sua cabeça. Vasculhou os bolsos de sua roupa sob o casacão que vestira, mas nada encontrou. Nada havia lá.

Foi até o fogão e o inspecionou. As brasas se mantinham acesas, transmitindo um pouco de calor. Pegou alguma lenha em um caixote ao lado do fogão e avivou o fogo. O frio havia cedido um pouco. A lareira e o fogão, estando acesos, compensariam um pouco o frio reinante. Sentou-se em uma cadeira tentando achar algum caminho a seguir. E ali ficou sentado, sem compreender o que se sucedera com ele. Estava vivo e desperto. Levantou-se e tentou achar alguma coisa para comer. Encontrou um pedaço de linguiça defumada, o que não era de todo mau. Deu uma mordida e viu que o sabor não era dos piores.

Sentou-se novamente. Estava atônito. Não conseguia compreender o que acontecera com ele. No turbilhão de seus pensamentos sequer notou o tempo passar.

Ouviu um ruído no lado de fora da casa, como se fossem passos arrastados. Aguçou a sua atenção e ficou em alerta. Foi até o fogão e pegou uma velha faca no sentido de se proteger. Pouco depois a porta se abriu.

Uma mulher gorda e loura, vestindo um casacão e botas, entrou na sala. Deveria estar com uns sessenta anos. Sua pele enrugada e sua boca de lábios finos denunciavam a idade. Seus olhos embaçados, que mostravam uma distante bondade fitaram Miguel. Dirigiu-se ao motorista e falou-lhe algo que não foi compreendido por ele. Novamente falou, mas o homem não se moveu. Este tentou falar algo, saber onde estava. Também não obteve resposta. Notou que aquele confronto de idiomas jamais seria superado. Ficaram se fitando um tempo. Depois a mulher tirou o casacão e foi na direção do fogão, onde pegou uma panela. Com ela nas mãos, abriu uma pequena janela, quebrou duas estalactites de gelo que pendiam da borda do telhado e, pondo-as na panela, colocou-a sobre o fogão.

Enquanto isto, Miguel a tudo assistia atônito. A mulher foi até uma prateleira e tirou de uma lata algumas folhas que depositou na panela. Retornou à prateleira e pegou duas canecas de porcelana, encarquilhadas pelo uso. Aguardou que o chá fervesse e, enchendo as duas canecas, veio até Miguel e lhe ofereceu uma das chávenas. O gosto forte do chá fez o homem sorrir. Que recebeu em troca o sorriso da mulher com sua boca desdentada, tão logo ela sentou-se.




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