A guisa de prefácio


A HISTÓRIA HUMANA NADA MAIS É QUE A SUCESSÃO DE FATOS QUE NECESSITAM SER CONTADOS



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A HISTÓRIA HUMANA NADA MAIS É QUE A SUCESSÃO DE FATOS QUE NECESSITAM SER CONTADOS.

NÓS, AQUI, NÃO CONCORDAMOS COM ISSO.

Além disso, cada colaborador escolhido mantinha com ele todos os direitos autorais das pesquisas efetuadas. Mas se obrigava a entregar uma cópia fiel de seus estudos ao arquivo da Fundação.

Outro aspecto interessante era que a Fundação dispunha de um lugar onde se poderia discutir com a comunidade de pesquisadores as suas teses, através de conferências quase sempre bem concorridas.

Com isto o acervo de informações mantido na entidade se transformara em uma grande fonte de análise da arqueologia e da história humana, sem retoques ou maquilagens, e estando este acervo, lamentavelmente, ainda fechado a quem quisesse pesquisar os trabalhos ali depositados e que não fosse ligado ao lugar.

Com a morte de Terence Shelbi, pelos idos dos anos setenta, seu filho, George Shelbi, seguiu os passos do pai. E fez com que, através do mundo fossem abertas subsidiárias da Fundação. Em poucos anos, mais de trinta associadas formavam a Rede Shelbi de Estudos.

No Brasil, Avelar foi o nome indicado para abrir e manter a ONG ligada à Fundação Shelbi. Na realidade era um tentáculo pequeno em relação aos demais. No momento deste romance, apenas uns dez pesquisadores trabalhavam com Avelar. Quatro deles estavam empenhados em estudar e desvendar os mistérios das antigas civilizações americanas, descobertas desde o México até a Patagônia. O único pesquisador que fora além destas fronteiras fora Juliano, agora em conjunto com sua colaboradora, Vilma.

Quando lá chegaram, encontraram um recado do presidente da organização, que convocava Juliano para uma reunião. Ambos seguiram até a sala do diretor e, depois de Juliano lhe apresentar Vilma, sentaram-se e principiaram uma conversa.

Disse o presidente, doutor Avelar: - mas que diabo é isso, Juliano? Como você acabou em uma delegacia? O delegado acabou de me ligar perguntando sobre você, o que fazia e coisas assim...

Juliano, impassível, respondeu:- ora, doutor Avelar. A curiosidade matou o gato. Fui com Vilma até lá, pois na realidade o corpo do motorista do tal ônibus que estava no necrotério não é o motorista real do ônibus que desapareceu. Só isso.

O doutor Avelar continuou: - mas, Juliano. Espere um pouco. Que negócio é este de um corpo que não é do motorista?

Juliano respondeu: - pois é, presidente. Lendo os depoimentos, verifiquei que o motorista que saiu com o ônibus da rodoviária não é o mesmo que foi encontrado morto próximo ao local do mistério. Ora, aquele cadáver sequer foi autopsiado. Sendo que o verdadeiro motorista desapareceu sem deixar vestígios.

O presidente o atalhou: - bom. Juliano, e o que você tem a ver com isso?

E Juliano respondeu de imediato: - veja presidente. O senhor se lembra daquele símbolo que lhe mostrei? Que foi encontrado próximo ao local? Pois bem. Desde aquele dia que eu estou envolvido com a história daquele desaparecimento. E, creia: é uma história bem complicada e incompreensível. Só para que o senhor tenha uma ideia, sabe por que fomos, Vilma e eu, parar em uma delegacia? Só porque estivemos no necrotério tentando falar com o legista que teria realizado a necropsia. Mas acontecera um fato insólito: ontem, tarde da noite, dois homens chegaram ao necrotério, colocaram os porteiros para dormir e roubaram, é: roubaram o corpo do tal falso motorista. Quando chegamos ao local, o diretor de lá chamou a polícia e acabamos na delegacia. Foi o doutor Padilha que ligou para cá? O presidente concordou. E Juliano continuou: - eu deixara meu cartão com ele. Ele mencionou alguma coisa a mais?

O doutor Avelar negou: - não. Apenas queria saber se você realmente trabalhava para a organização, o que fazia e coisas do gênero. E agora, Juliano, o que você pretende fazer?

Juliano respondeu-lhe: - bem. A minha viagem será feita. Eu vou conversar com o tal pesquisador e pretendo revirar todos os museus de New York na tentativa de encontrar algo que seja, ao menos, parecido com o símbolo que colhi. Bem a propósito, Vilma viajará comigo. É uma boa companheira. Até de necrotério e delegacia.

Os três riram da colocação de Juliano.

O doutor Avelar continuou: - eu vou lhe dar alguns nomes e endereços em New York e New Jersey. São de estudiosos de história e arqueólogos com os quais eu mantenho contato. Quem sabe? De repente você encontra através deles o que está procurando. E a senhora, dona Vilma? Como vê tudo isso?

Vilma mexeu-se na poltrona: - bem, doutor Avelar. Vamos usar somente Vilma. Eu estou entrando nesta história agora. Conheço Juliano desde a universidade e sei de sua seriedade e do trabalho que vem realizando. Como sou também formada em história e, atualmente, estou de férias, aceitei o convite dele para conhecer esta história misteriosa. E gostei do que vi. Assim, me associei a ele para tentar desvendar este imbróglio.

O presidente continuou: - e qual a sua visão a respeito da possibilidade, digamos, de algo alienígena, como Juliano está supondo?

Vilma foi firme: - veja doutor Avelar. Desde que a humanidade existe que nos legou fatos que são simplesmente inexplicáveis. Eu fiz um trabalho a respeito das pirâmides egípcias. E estou preparando minha tese de doutorado em cima deste assunto. Foquei parte do trabalho na direção de tentar desvendar, ou ao menos fazer uma colocação sobre o processo de construção das mesmas. Porque acreditar na historieta fantástica deixada por Heródoto é muito simplista. Em contato com geólogos, arquitetos e engenheiros, nenhum deles também aceita a possibilidade de que, com toda a nossa tecnologia, pudéssemos construir algo parecido. Mesmo que todas as inteligências mundiais se reunissem com esta finalidade. Vai daí que eu acredito em duas hipóteses: ou foram construídas por gente de fora da terra ou a humanidade já teve um momento em que havia uma imensa tecnologia e que, através dela, construíram os monumentos do Egito. Entretanto, a considerarmos a segunda hipótese, fica uma pergunta no ar: havendo tanta tecnologia, qual a razão para usarem pedras como granito e arenitos naquelas construções? Será que, com todo o poder da ciência, não haveria materiais mais maleáveis e seguros? Bem. Eu opto pela primeira hipótese. Por uma razão muito simples: quem as construiu, o fez de tal forma que sua utilização não fosse efêmera, ou seja: deveriam estar necessitando daquele tipo de construção por um longo período de tempo. E que, depois, simplesmente os abandonariam. O que não poderiam imaginar é que, depois de um longo período de tempo, ainda estivessem eretas as suas obras, dando o que pensar a esta humanidade posterior. Desculpe. Acho que me excedi e não respondi à sua pergunta. Eu abro a possibilidade de que, primeiro, há esta possibilidade. Segundo, não se sabe quais as motivações para que aquilo acontecesse e, terceiro, por que não? Minha curiosidade, como disse Juliano, pode matar o gato. E eu acredito em Juliano. Mesmo com o risco do gato, se não morrer, ficar um pouco arranhado.

O doutor Avelar riu da colocação de Vilma: - sabem de uma coisa? Eu acho que estou ficando velho. E ao longo da minha vida, eu já vi, creio que todo o tipo de loucura. E acabei por concordar com uma coisa: a loucura é uma necessidade biológica. Há pouco tempo me flagrei pensando nisto. E lembrei que se não fossem os loucos, a nossa vida seria um marasmo. Se eu fosse enumerar os loucos famosos, a lista daria uma enciclopédia. Ao menos na minha forma de visão. E se vocês são loucos o suficiente para levar em frente esta história, eu dou o meu apoio. Mas, saibam: usem da loucura. Mas da loucura mansa e produtiva. Porque de loucura agressiva e mortal, o mundo já está cheio. E riu de sua própria colocação.

KLONIX – CAPÍTULO 12

Em pouco tempo de viagem o casal chegou à entrada da cidade de La Oroya e estacionaram o furgão no lugar determinado. Desceram e andaram cerca de cem metros, onde um sedan preto os aguardava com as chaves no contato. Embarcaram e, dando a partida, retomaram a estrada em direção a Lima.

Quase que imediatamente, dois homens assumiram o furgão que rumou em direção ao centro da cidade. Ninguém na cidade viu ou ouviu qualquer movimento estranho.

Ao chegarem a Lima, o casal se dirigiu ao aeroporto. Um jato executivo os esperava com as turbinas ligadas. O aparelho, quase que imediatamente correu na pista e decolou na noite escura.

Segundo a imprensa divulgou, as autoridades aéreas peruanas informaram que aquele jato executivo, tendo rumado na direção do Oceano Pacífico, depois de seguido no espaço aéreo peruano pelos radares, deve ter sofrido algum acidente. Contatos destas autoridades com outros centros de controle que cobrem aquela extensa região de água resultaram infrutíferos. Ninguém pôde dizer o que aconteceu e a aeronave jamais foi encontrada. O acidente, segundo os relatos oficiais, deve ter ocorrido em meio a alguma tempestade, criando uma situação incontrolável para a dirigibilidade do avião.

KLONIX – CAPÍTULO 13

Quando Juliano e Vilma desembarcaram em New York, o tempo estava de mau humor. Chovia bastante, com nuvens cor de chumbo no céu, informando que aquele tempo não iria dar uma trégua. Um conhecido do doutor Avelar, Robert, os recebeu na saída e os conduziu a um automóvel no estacionamento. Depois dos cumprimentos de praxe, informou que reservara um apartamento em um pequeno, mas confortável hotel na Rua 42. Para lá rumaram. Este amigo do presidente deu a entender que não sabia as razões que o casal tinha para virem à cidade. Ou se soubesse, não revelou a eles. Durante o trajeto, conversaram trivialidades. Ele havia morado um tempo no Brasil e aproveitou para usar o seu português macarrônico. Que, diga-se de passagem, não era tão mau assim.

Robert dirigiu-se a Juliano: - o Avelar me falou a seu respeito. Disse-me que você é um grande pesquisador histórico.

Juliano, ao lado dele que dirigia, limitou-se a sorrir: - nem tanto. É claro que a pesquisa histórica sempre me fascinou. Aliás, a história humana jamais será contada como deveria ser.

Robert interessou-se: - como assim, Juliano?

Juliano continuou: - não sei quem disse isto, mas eu creio que o axioma da Fundação está coberto de razão quando diz que a história é apenas uma sucessão dos fatos que necessitam ser contados. Quando estávamos na escola, olhar para os grandes impérios da antiguidade era uma aventura maravilhosa. Imaginávamos reis e rainhas, aquele séquito enorme e toda a pompa e a ostentação. Aqueles fatos eram exatamente os que deveriam ser contados. Mas quando pesquisamos, analisamos e comparamos não se encontra exatamente a grandeza, a pompa e a ostentação. Realmente encontramos um conjunto de perversidades, sucessões escabrosas, pois os príncipes herdeiros nada mais eram que filhos nascidos de métodos incestuosos e que todo aquele luxo nada mais era que a usurpação de tributos com peso de chumbo nos ombros do populacho. E assim, a sucessão de mentiras contadas permanece.

Robert insistiu: - é uma visão bastante realista, Juliano. Mas, por que há esta tendência para que a história assim chamada tradicional seja este como você diz amontoado de inverdades?

Juliano deu a resposta sem pestanejar: - porque interessa a grupos fortíssimos. Vou dar um exemplo. Eu não sei se você é religioso. Se for, desculpe-me. A história religiosa que nos é contada serve como exemplo. Dentro dela, eu destaco uma das maiores mentiras que são impostas ao mundo cristão. A igreja diz que Pedro foi o primeiro Papa. Isto é uma mentira deslavada. Pedro era contemporâneo de Cristo – este mesmo, de existência historicamente duvidosa – e teria sido o primeiro chefe de uma igreja que começou realmente a existir depois do Concílio de Nicéia, realizado por ordem de Constantino, quase trezentos anos depois. Mas a mentira histórica a respeito de Pedro permanece como pedra angular do Vaticano. Pronto. Desta forma explica-se porque a história nada mais é que uma sucessão de acontecimentos que se tornam fundamentais para que a humanidade continue imbecilizada.

Robert, então, perguntou: - e você, como você se movimenta neste mar de mentiras?

E Juliano deu a resposta: - eu aprendi que sempre se deve buscar a verdade. Mesmo que seja uma verdade odiosa e dolorida. No meu trabalho com o Avelar, desenvolvo uma missão quase impossível. Eu trabalho com hipóteses. Minha tarefa é complexa, mas eu vou tentar lhe mostrar. Através dos séculos as grandes civilizações apareceram e desapareceram. Junto delas existia uma infinidade de povos que, muito embora convivendo com aqueles reinos e sendo seus súditos, tinham sua cultura própria. Tinham, também, a sua religião peculiar, religião esta que, por muitas vezes, confrontavam a religião oficial do povo que os asilava. Eram povos que, não tendo obtido grande poder, marcavam por vezes até, a cultura e a religiosidade dos grandes reinos. Por motivos não esclarecidos, em dado momento estes povos simplesmente desapareciam do cenário. E sequer deixavam qualquer pista de seu paradeiro. Era como se esvanecessem no ar. Bem. O meu trabalho é justamente procurar saber o que aconteceu com estes povos. E de forma surpreendente, encontramos algumas situações que nos levam a crer até que haviam sido levados da terra.

Robert, dirigindo, interessou-se: - como assim, Juliano?

E o pesquisador continuou: - um exemplo para você. Na margem da atual península arábica, ao norte, onde encontramos o vértice que divide o Mar Vermelho nos golfos de Suez e de Acaba, havia um povo que, apesar de nômade, mantinha sua base, por assim dizer-se, naquela região. E, de um momento para outro, simplesmente desapareceram. Sumiram. O nome deste povo, em egípcio, seria qualquer coisa como Halwarish. Por um golpe de sorte, certa vez eu estava no Museu do Cairo e um dos seus arqueólogos mencionou esta tribo. E mostrou-me um antigo escrito egípcio da segunda dinastia que contava o que aconteceu com aquela tribo: um clarão surgiu no espaço, vindo do norte. Como o vento correu em direção ao deserto, clareando as dunas e revolvendo a areia. Ao chegar ao acampamento daquele povo, o clarão estacou a sua marcha. E, depois de se concentrar em um ponto, fez uma subida e sumiu no espaço. Alguns mercadores, no dia seguinte foram ao local. Encontraram as tendas armadas, a comida ainda nos recipientes, os animais ainda amarrados aos postes, mas nenhum ser humano fora encontrado. Como se aquele clarão os tivesse destruído ou levado aquele povo. Bem, Robert, a narrativa é textual. E tem uma profusão maravilhosa de detalhes. Quando comecei a pesquisar a respeito de outras tribos e povos, comecei também a encontrar várias situações que fogem ao nosso entendimento. Além disto, a arqueologia, vez por outra, encontra vestígios que são totalmente inexplicáveis. Como baterias antediluvianas, monólitos que, mesmo com toda a nossa tecnologia jamais poderiam ser movidos e coisas semelhantes.

Robert estava vivamente interessado: - e esta sua vinda a New York? Tem alguma coisa a ver com suas pesquisas?

Juliano se pôs em defesa: - não, propriamente. Eu vim em busca de informações. E Vilma e eu pretendemos visitar e conhecer alguns museus e tentar buscar maiores informes. Também, se for possível, entrevistar alguns arqueólogos. Os Estados Unidos são o maior celeiro deles.

Robert concordou: - é verdade. Eu não sou ligado em história. Mas se conseguir localizar algum, com certeza eu entro em contato com vocês.

Em pouco, mergulhavam no tráfego infernal de Manhattan. E o hotel na Rua 42, em princípio, encerrou a conversa entre os dois. Vilma, durante todo o tempo da viagem apenas limitou-se a ouvir. Para depois comentar com Juliano o que pressentira.

KLONIX – CAPÍTULO 14

Depois da entrevista com Juliano, o doutor Padilha tivera a curiosidade de melhor se informar a respeito do caso do desaparecimento do ônibus. Lendo a diversificada documentação anexa ao inquérito e conversando com o delegado que presidia o caso, acabou por entender o que Juliano lhe havia dito a respeito. Aquele historiador havia acertado em cheio. Realmente o inquérito parecia um queijo suíço. Uma multidão de perguntas ficara sem resposta. E, pelo que observara ninguém se dispôs a tentar buscar alguma informação que, ao menos, abrisse alguma fresta por onde a investigação pudesse ter seguimento. Ele sabia que o marasmo era uma tônica no aparato policial. Se algum caso começasse a se tornar dificultoso em sua conclusão era normal colocá-lo em uma prateleira até que alguém, normalmente do escalão superior, procurasse pelo andamento do inquérito. Ou até algum fato novo que surgisse e pudesse ser seguido.

Relembrando a sua conversa com o pesquisador, o doutor Padilha concordou que o caminho que Juliano havia aberto, muito embora fosse improvável, fazia muito sentido. Por outro lado, tinha a certeza absoluta que aquele pesquisador sabia muito mais do que demonstrara em sua entrevista e depoimento. E que, até por defesa, não lhe revelara tudo. Quando ele voltasse, iria procurá-lo. E tentar obter mais informações. Isto se Juliano estivesse disposto a passá-las.

Quanto ao desaparecimento do cadáver do motorista, o doutor Padilha pouco ou nada pôde fazer. Os porteiros fizeram o retrato falado dos homens, que foi confrontado com o registrado nas câmeras do necrotério. Eram homens comuns, sem nenhum traço que os pudesse identificar. Mas um fato novo chamou a sua atenção.

Um dos peritos da criminalística havia visto as gravações. Como era profundo conhecedor de informática e filmagens, obteve uma cópia da gravação e, em casa, com bastante calma, observou detidamente quadro a quadro do filme. Nesta sua pesquisa levantou uma possibilidade bastante insólita. Depois de se certificar que não estava tendo uma ilusão de ótica, o perito entrou em contato com o doutor Padilha, dizendo que encontrara algo nas gravações que seria surpreendente. E o doutor Padilha concordou em ir até a casa do perito para ver o que ele descobrira.

Quando o delegado chegou, o perito o levou para uma espécie de gabinete no interior do apartamento, onde trabalhava nas suas horas de folga. Sentaram-se e o delegado imediatamente perguntou: - Então, Cardoso, o que você encontrou de tão importante nestas gravações?

O perito respondeu-lhe: - doutor. O senhor sabe que eu milito em perícia há mais de vinte e cinco anos. Durante este tempo, sempre procurei desenvolver o meu conhecimento e o direcionei ao campo da informática, por uma razão muito simples: através dela hoje nós conseguimos chegar muito mais rapidamente ao cerne das questões que nos são apresentadas diariamente. Quando estes processos de gravações de imagens surgiram, tratei de aprender como a coisa funciona, o que pode ser visto e o que normalmente não é visto nestes filmes. E é neste aspecto que eu me fixo. Quando vemos uma gravação deste tipo, como policiais, temos o impulso de olhar apenas as cenas principais. Estas que nos dão, de modo mais rápido, o que queremos. Normalmente o que se procura é identificar os personagens. Pois bem. É claro que eu enfoco este lado: a identificação dos indivíduos que aparecem nas cenas e suas atitudes. Mas também, e isto até por lazer, procuro ver detalhes que passam despercebidos para a maioria daqueles que usam estas gravações, principalmente os aspectos periféricos da ação que se desenrola. E nestas gravações, em que pese a sua má qualidade, em função de luminosidade e qualidade das câmeras, eu observei algumas coisas que poderiam até ser defeito do equipamento. Muito embora eu nunca tenha visto defeito deste tipo, como eu encontrei.

O doutor Padilha estava impaciente: - ok, Cardoso. Mas, o que você notou nestes filmes?

Cardoso continuou impassível: - vamos novamente dar uma olhada nestas cenas. Levantou-se e, fechando a janela para que o ambiente ficasse na penumbra, ligou o aparelho de DVD. Logo as imagens começaram a rodar na tela do televisor de 29 polegadas. O que estava sendo visto mostrava que os dois homens entravam na portaria do necrotério, chegavam aos dois porteiros e um deles, levantando a mão, em tese narcotizava os funcionários. Logo após, viam-se os dois porteiros dormindo no balcão da recepção. Com uma particularidade: eles não haviam se sentado ou caído em sua sonolência. Simplesmente estavam de pé, como que dormindo. Finalmente a cena se transformou em um quadro preto, no fim das cenas.

Cardoso, parando o equipamento, voltou-se para o delegado: - então doutor, conseguiu ver algo de diferente ou de curioso nestas cenas?

O doutor Padilha acenou negativamente com a cabeça: - não. Eu não vi nada que chamasse a minha atenção. Para mim, são dois homens que entram e hipnotizam os porteiros. Estes ficam estáticos por um tempo. Depois acordam e não se recordam o que aconteceu.

Cardoso exultou com a resposta do delegado: - bingo! Era exatamente isto que eu queria ouvir. Há determinados momentos em que eu não entendo como as pessoas não veem as coisas de um modo claro e transparente. Nem mesmo quando estão debaixo do nariz. O senhor tem certeza de que nada viu de especial? Certeza mesmo?

O delegado concordou:- não, Cardoso. Eu não vi nada que me chamasse atenção. Eu também já vi estas gravações uma porção de vezes. E nada vi de especial. O que você viu que ninguém viu até agora?

Cardoso levantou-se da cadeira: - bem, delegado. O que eu vou lhe mostrar é tão claro como a água. Vamos por partes: primeiro: depois que os porteiros são anestesiados, hipnotizados, seja o que for. A câmera parou de gravar. Pela lógica destes equipamentos, eles nunca param de gravar. A menos que sejam desligados. O que eu já verifiquei. Pelo relógio interno do equipamento de gravação, não houve parada ou interrupção na filmagem. Mas não é só isso. Aguarde um momento que vou avançar o filme. Veja: a câmera recomeça a filmar normalmente após duas horas e pouco. Ou seja: ela ficou duas horas e um pitico sem qualquer imagem. Considerando os horários, a gravação foi interrompida às 01h14minutos. Momento em que os guardas foram, bem, hipnotizados. Às 03h26minutos, ela voltou a gravar as cenas. Quando vemos os porteiros como que acordando. Desta forma, ela ficou duas horas e doze minutos sem gravar qualquer movimento. Segundo: eu fui conferir o que aconteceu com as outras seis câmeras do necrotério. Todas gravaram normalmente. Não tiveram interrupções. O que vale dizer: ou a câmera da portaria teve duas horas e pouco de mau funcionamento. Ou...

E o delegado concluiu: - foi desligada. Mas, por quem? Segundo se sabe durante a noite ninguém entra na sala de gravação.

Cardoso continuou: - eu tomei a iniciativa de periciar a câmera da portaria. Com um amigo meu que é especialista neste tipo de equipamento, fiz uma análise do que poderia ter ocorrido. E constatamos que uma pane deste tipo é praticamente impossível de acontecer. Somente aconteceria caso o sistema, por alguma falha, interrompesse o contato com ela. Novamente, fomos até a central de gravação e verificamos o back-up das filmagens. Não encontramos nenhum dado que nos dissesse que o sistema teve uma pane e desligou a gravação da portaria. Além disto, há outro fato que chama a atenção. Em nenhum momento foram gravadas as cenas que deveriam mostrar como o corpo foi levado do necrotério. O que eu presumo é que o mesmo tenha sido levado enquanto a câmera da portaria estava inerte. Com outro detalhe: nenhuma outra câmera do circuito gravou qualquer cena que nos indicasse como e por onde o corpo foi carregado, levado, o que seja...

O doutor Padilha estava embasbacado: - mas, então, o que pode ter acontecido?

Cardoso deu uma risada: - ora, doutor, o que pode ter acontecido? O que pode ter acontecido? Simplesmente a máquina não gravou... Como pode acontecer? Aí eu não saberia responder. Mas há uma terceira observação neste filme...

O delegado, em que pese o ar condicionado ligado, principiava a suar: - mais, ainda?

Cardoso exultou: - sim, doutor. Mais ainda!

Novamente o delegado mostrou a sua excitação: - e o que foi que você observou, além do fato da câmera não ter captado nenhuma imagem por mais de duas horas?

Cardoso foi ao equipamento e novamente o acionou: - eu vou pausar no momento certo. Aqui! Veja doutor. Olhe para a cena. O que o senhor vê?




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