A guisa de prefácio



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Encontro02.07.2019
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John nos contou depois que fora até o salão e conversou muito com os demais passageiros. Agora que conseguira aprender o idioma, foi bem mais fácil. Inicialmente explicou que havia aprendido o idioma através de mim e de Beatriz que o haviam permitido “ler” o que suas mentes tinham do idioma. Depois foi fácil repor em seu cérebro. Não que isto fosse importante. O que interessaria a todos era a mensagem que ele passaria e que ali estava para tirar todas as dúvidas.

As pessoas naquela sala não acreditavam que haviam sido abduzidas. Na realidade, apesar de toda a revolta, não concebiam tal situação. Além disto, a opção oferecida não lhes dava muita chance. E, com certeza, ninguém ali queria se suicidar. Entre a morte e a vida, a opção era fácil. Muito embora a perspectiva de nunca mais retornar à velha terra era-lhes extremamente custosa. Todos naquela sala se batiam contra os fatos mais marcantes: a saudade, o desejo do retorno, a alegria de rever os parentes e amigos. Contra tudo isto, a luta de John era cruel. Seus argumentos, embora pesados e dando esperanças de uma vida mais amena, não davam muita esperança àquelas pessoas. O que os levava a aceitar a situação era, por conseguinte, a opção de aceitar ou se lançar em um espaço desconhecido, onde a morte seria imediata. Mesmo assim relutavam na tardia esperança de retornar à sua vida normal.

Por fim John comunicou-lhes que Beatriz e eu havíamos aceitado o que ele nos havia colocado nas mãos. E que já estaríamos, naquela hora, passando por um processo bastante agradável. A mudança, por assim dizer-se, de estado. Um dos passageiros pediu-lhe que provasse o que estava dizendo. E John, revelando-lhes um painel que não haviam notado na sala, mostrou-lhes a “operação” a que os demais estavam, naquele momento, sendo submetidos. E eles nos viram, a mim e a Beatriz passando por um processo desconhecido de mutação celular e retornando às nossas idades em torno dos vinte anos. Um dos presentes alegou que aquilo não passava de um truque. E John, pacientemente, afirmou que não. Que, além de tudo, a ciência daquela nave e deles era suficiente para realizar, não só mudanças como aquela e muito mais. Como exemplo, focou a visão nos olhos de uma das passageiras. E solicitou-lhe, depois, que apenas o encarasse por instantes. Logo após, começou a falar a respeito da vida pessoal dela. Depois de ter narrado alguns fatos, até sem muita relevância, solicitou a ela que confirmasse ou desmentisse o que lera em sua mente. E a mulher, atônita, confirmou para todos os demais a veracidade do que John falara.

Isto fez com que outras pessoas, revoltadas com a situação, ao menos diminuíssem a sua revolta. E John, com toda a paciência, falou-lhes de um aspecto complexo, mas contundente: - suponhamos, disse ele, que vocês, ao invés de estarem aqui, tivessem tido um acidente com o ônibus e que tivessem morrido. O que aconteceria com os parentes e amigos de vocês? Provavelmente eles sentiriam muito a falta, mas este sentimento de perda, com o passar do tempo, iria se desvanecendo. Até um momento em que ficariam apenas as poucas e doces lembranças de vocês. Pois bem. De qualquer forma, com certeza o que pode estar acontecendo na terra é semelhante a isto. Com o fato insólito de que vocês não existem mais. Ou, em outras palavras mais claras: seus corpos não existem. Vocês serão, em pouco tempo, dados como desaparecidos e mortos. Provavelmente alguém fará um velório simbólico em homenagem a vocês. E, finalmente, a imagem de vocês ficará na mente de todos por um dado tempo. Depois esta imagem começará a se desvanecer. E poucas lembranças restarão. Eu sei que é duro aceitar tal condição. Mas, por outro lado, vocês estão tendo a oportunidade de uma nova vida. De uma nova esperança. De novos amigos e amigas. Sim. Eu sei que a opção dada não é a mais correta do ponto de vista da lei terrestre. Entretanto, há um fator de suma importância a ser considerado: o que estamos propondo não é um suicídio coletivo. Não. O que estamos oferecendo é a oportunidade de recomeçar. Como se tivessem morrido para a humanidade terrestre e estivessem, digamos, mudando de dimensão. Em algumas religiões terrestres, a visão que se tem é de que o homem, depois de sua morte, ou vai para o paraíso, ou vai para o tormento. Bem. Nós estamos colocando para vocês que não prometemos um paraíso. Mas jamais a tormenta. Por outro lado, há outra variável importante: suponhamos que vocês voltassem à Terra agora. Depois que chegaram nesta nave vocês entraram noutra dimensão de tempo. Isto é meio complexo de explicar, mas eu diria que já se passaram cerca de dois meses terrestres depois que chegaram aqui. Bem. O que eu quero perguntar a vocês é o seguinte: caso retornassem e contassem a todos o que lhes aconteceu há dois meses. Como será que o povo na terra os veria? Como seres humanos normais, ou como pessoas que contavam uma história fantasiosa e completamente fora de propósito? Seriam encarados como normais ou loucos? Quem acreditaria que foram abduzidos, que estiveram em uma nave de fora da terra, passaram por todas estas emoções e, dois meses depois voltavam a terra, trazidos por esta mesma nave? Bem. Eu deixo que vocês pensem a respeito. De uma coisa, porém, eu quero lhes assegurar. Não queremos o mal de ninguém.

Uma das pessoas presentes disse a John que somente acreditaria no que estava sendo proposto, se nós viéssemos até eles, depois da renovação celular. John, mesmo sabendo que fugiria a uma regra, confirmou-lhes que nos traria para que as dúvidas fossem definitivamente esclarecidas. Mas, com uma condição: não haveria perguntas e respostas. Apenas nós falaríamos com eles. E nós lhes daríamos uma visão clara a respeito de tudo.

Depois disto, John saiu da sala e deixou que as pessoas conversassem entre si e tomassem a sua decisão.

Nós acordamos quase ao mesmo tempo. E ao nos entreolharmos, levamos um susto. Parecia que estávamos frente a outras pessoas. Eu, atônito, perguntei a Beatriz o que acontecera. E ela me fez a mesma pergunta. Como não havia nenhuma superfície reflexiva na sala, não podíamos nos avaliar. Quando John entrou, fomos direto a ele para saber o que acontecera.

John foi conciso e alegre: - ora. Dizem na terra que uma promessa é uma dívida. E nós estamos iniciando o pagamento da nossa. Vocês estão jovens. Novos. De acordo com o que conversamos.

Eu não compreendi: - como assim? Nós estávamos dormindo e... Bem. Quando acordei vi que Beatriz estava uma menina!

E Beatriz também confirmou: - e Ricardo está renovado. Como se o tempo tivesse voltado. O que aconteceu?

John continuava sorrindo: - o que aconteceu foi que o sono de vocês foi induzido. Enquanto dormiam, os levamos para o nosso laboratório e realizamos a renovação celular que estava prometida. Querem ver seus rostos, agora?

E nós respondemos em uníssono: - claro! Claro!

John nos levou pelo corredor até uma sala. Lá, frente a uma superfície espelhada, ambos tomaram o maior susto de suas vidas. Estávamos com a aparência de um casal com cerca de vinte anos de idade. O processo utilizado nos havia transformado quase em dois adolescentes.

E John explicou-nos uma faceta do processo: - vejam. Houve uma mudança geral em suas células, através de um processo complexo de ser explicado. Aliás, eu creio que esta explicação é desnecessária. Mas não interferimos com as memórias. Ou seja: vocês estão mais jovens, mas com as faculdades mentais inalteradas. Que acharam da mudança?

Foi Beatriz que respondeu, sorrindo: - ora, John. Se você me ensinar este processo e me levar de volta a Terra, com certeza ficaremos milionários em pouco tempo. Para isto, na Terra há um mercado de perto de dois bilhões de mulheres...

Eu também não sabia exatamente o que dizer. Apenas balbuciei: - ainda bem que não preferi a porta do juízo final...

John, agora sério, dirigiu-se a nós: - a nossa norma nos dita que, após esta mudança, as pessoas mudadas são levadas daqui para um processo de treinamento em suas novas habilidades. Mas, após consultar o Controle e obter permissão, preciso que vocês me façam um favor. E narrou-lhes o que acontecera com sua reunião com os demais passageiros. – eles me pediram que, tão logo vocês passassem por esta renovação, que eu os levasse para que eles pudessem avaliar a nossa proposição. Vocês iriam comigo até eles? Antes, quero dizer que vocês não são obrigados. Irão se quiserem...

Tanto eu quanto Beatriz concordamos de imediato. Eu, no entanto, voltei-me para John com uma pergunta: - John. Na sala onde estávamos há um símbolo na parede. Uma espécie de gravação. Não me lembro bem, mas se assemelha a uma letra ômega, de um idioma da terra. O que aquilo significaria?

John me respondeu: - antes de chegarmos ao demais, vamos passar por lá e eu lhe darei as explicações que quiser.

Os três seguiram pelos corredores até a sala onde eu e Beatriz tínhamos estado. E eu mostrei-lhe o baixo relevo na parede. John, de imediato deu-lhe a explicação: - cada equipe tem sob sua responsabilidade um determinado setor do universo. Esta nossa equipe se ocupa de uma parte da galáxia de vocês. Dentro de cada galáxia há vários corpos celestes que possuem vida. Não só como a terra, que tem vida inteligente, mas também vida nos mais diversos estágios. Existe até vida em estado potencializado. Ou seja: embora a vida exista, ainda não atingiu um estágio de maturação suficiente para procurar a própria manutenção. Os símbolos são nossa forma de identificar cada missão. Como em nossa área, somente há vida inteligente na Terra, achamos por bem adotar este símbolo que representa os nove corpos celestes do sistema, corpos estes separados por uma faixa de resíduos de um planeta que se desintegrou em um dado momento da formação daquele conjunto. Para que você possa melhor entender, vou lhe mostrar outro símbolo. E John foi até o painel na parede. - Aqui vemos um quadrante da galáxia de vocês, digamos, no lado oposto ao que se localiza a terra. Este sistema tem treze corpos. E são separados por duas faixas de resíduos de planetas que se desintegraram. Neste sistema, apenas o segundo corpo celeste que fica entre as faixas de resíduos tem vida inteligente. Claro que este quadrante não é de nossa responsabilidade. Mas é um dos símbolos que usamos. Não são importantes, pois nosso Controle nos leva até onde necessitamos. Mas os criamos apenas por diversão. E você pode estar certo de uma coisa: também temos bom humor.

Depois daquela explicação, saímos da sala em direção ao compartimento onde estavam os demais passageiros do ônibus. Quando entramos, não fomos reconhecidos pelos demais. Somente após nós termos conversado muito com eles, foi que eles se convenceram que éramos as mesmas pessoas que estavam com eles no ônibus raptado. Mesmo assim as dúvidas ainda permaneceram em suas cabeças, pois eles ainda acreditavam que nós dois fazíamos parte do grupo dos nossos raptores.

Depois disto, Beatriz e eu fomos para outra sala, onde ficamos sozinhos. Nos sentamos a uma mesa que mostrava diversas vistas de lugares que jamais poderíamos ter pensado que existissem. Eram “terras” distantes, com aparências as mais variadas, que conhecíamos de forma insólita. Nós vestíamos um macacão justo e tínhamos uma espécie de capacete em nossas cabeças. A cada mundo observado recebíamos, mentalmente, as informações a respeito de cada um deles. Como era composto, que tipo de fauna e flora, condições meteorológicas e mais uma infinidade de dados. Nós tínhamos a certeza de que estávamos sendo monitorados de alguma forma. E enquanto nós víamos aquele espetáculo do universo, com certeza outras mentes estavam em alerta.

Tivemos esta certeza quando, cerca de meia hora depois, vimos que as vistas expostas naquela mesa semelhante a uma tela se esvaneceram e John entrou no local: - e então? Gostaram do que viram?

Beatriz foi a primeira a falar: - sim. Muito. Tivemos a oportunidade única de observar como o universo é extenso e como há vida nele.

Eu estava como que extasiado: - jamais poderia pensar ou sequer imaginar que pudesse saber que o universo é tão grande e majestoso.

John sentou-se junto a nós e deu as explicações: - não vou negar que vocês estavam sendo monitorados. Não me perguntem por quem, já que esta resposta nem eu nem ninguém saberia dar. Mas este monitoramento tem uma função essencial. Que é a de encontrar em vocês uma unanimidade a respeito dos mundos que viram. E vocês, sem que tenham percebido, enviaram uma mensagem. Que um determinado lugar havia excitado as mentes de vocês mais que os outros. E com a mesma intensidade. Para que foi feito este monitoramento? Para que pudéssemos avaliar de forma mais segura onde alocar vocês dois. E esta reposta será dada por vocês.

Eu o interrompi: - quer dizer, John, que um destes mundos prendeu mais a nossa atenção que outros?

John sorria: - sim. Isto mesmo. Mas vamos ver novamente este lugar. Apenas tocou na superfície e uma “terra” apareceu na imagem. Como se fosse uma tomada cinematográfica, aquele globo foi sendo aproximado. Até que era visto em todo o seu esplendor, como um gigantesco globo de tons esverdeados, com um halo avermelhado em seu redor. Logo a seguir, foi como se uma câmera fosse se aproximando da superfície daquele mundo. E logo foram vistos: mares, rios, montanhas e lagos. Continuando a aproximação, esta se findou quando uma visão do ambiente ocupou a tela inteira.

E John retomou a palavra: - este foi o mundo que mais os excitou. Ele fica situado, pelas medidas terrestres, a cerca de cem anos luz da velha Terra. Não se assustem com o que eu vou lhes falar, mas creio que em pouco tempo estaremos em suas proximidades.

Eu estava estarrecido: - como assim, John? Cem anos luz de distância e dentro em pouco estaremos em suas proximidades?

John manteve o sorriso nos lábios: - sim, Ricardo. Ou você já esqueceu que a nossa ciência é levemente mais avançada do que a da Terra?

Eu já não sabia o que dizer. Foi Beatriz quem levantou uma questão: - John. Apenas para matar a minha curiosidade. Suponhamos que voltássemos à Terra a partir de agora. O que encontraríamos? O mesmo tempo com as mesmas pessoas ou já teria havido uma mudança no tempo terrestre? Eu pergunto, pois um dos nossos cientistas, e dos mais brilhantes, desenvolveu uma teoria de que, caso fizéssemos uma viagem como a que estamos fazendo, quando chegássemos a Terra, milhares de anos teriam se passado.

John confirmou: - sim, porém em parte. Eu sei do que você está falando. A única variável que não foi incluída nesta hipótese trata de dimensões. Jamais este seu cientista poderia incluir estas dimensões em sua proposição. Porque simplesmente não as conhecia, como ainda não são conhecidas na Terra.

Beatriz insistiu: - e o que elas significam ou são?

John, pacientemente, tentou explicar: - há alguns estudiosos na Terra que já pensam em termos de dimensões espaciais. Talvez até induzidos por nós. Estas dimensões são como bolsões no universo. Onde todos os valores de tempo e espaço perdem o seu sentido. Seriam como vazios universais. Se você estiver em uma nave preparada para ultrapassar estes bolsões, e é o caso desta, sua concepção de tempo e espaço não serão sentidas. Muito embora a nave continue em sua trajetória. Quando nos aproximamos destas dimensões, nosso curso é ajustado de modo que as atravessemos em uma parábola, já que no universo não existem linhas retas. Todas são circulares. Uma vez determinadas as coordenadas, atravessamos estes bolsões e, ao findar a travessia, chegamos ao ponto que havia sido demarcado. Quanto tempo nós levamos para atravessá-las? Não sei. Além disto, não esqueçam que pertenço a uma geração que já de muito perdeu o sentido terrestre de tempo e espaço.

Eu o interrompi: - isto significa que este mundo que vimos agora está a uma distância quase que infinita em relação à nossa velha Terra? É isto?

John respondeu: - dentro dos parâmetros terrestres, é isto, sim...

Beatriz insistiu: - e na Terra, o que estaria acontecendo neste exato momento?

John mantinha o sorriso: - eu não saberia. Por uma razão muito simples: dependendo da direção em que fizéssemos esta parábola, completando o círculo que nos levaria de volta à Terra, poderíamos avançar ou recuar no tempo de vocês. Ou seja e como exemplo: poderíamos chegar mil anos antes ou mil anos depois do tempo de vocês. Ou poderíamos chegar ao exato momento em que vocês foram retirados de lá.

Eu novamente intervi: - quer dizer que Einstein, ao menos em parte, tinha razão?

Foi Beatriz quem respondeu; - pelo que eu vejo, creio que sim. Mas, como?

John deu a resposta de forma clara: - nosso Controle domina o universo. E por vezes, vai longe para criar situações que tentem, ao menos, aclarar as mentes. É pena que na Terra haja tantas correntes que nublam o conhecimento. Este seu cientista era um homem iluminado. Cuja luz poderia até ter sido fornecida pelo Controle. Não posso afirmar, mas creio que isto seria factível com o que desenvolveu considerando a época em que publicou as suas teorias.

Eu estava ansioso: - e a partir de agora, John, o que acontecerá?

John passou alguns segundos como que pensativo antes de responder: - depois de um intenso treinamento, vocês serão colocados naquele mundo que gostaram...

Fomos levados para outro ponto da nave. Pelo que observamos, ela era imensa. Seus corredores eram completamente lisos e densamente iluminados. Esta luz se filtrava de tal forma que não nos permitia entender a sua origem. O piso metálico era fosco e cirurgicamente limpo. Aliás, e foi Beatriz quem chamou a atenção, vimos pouquíssimos indivíduos em nossa caminhada pelos extensos corredores. Era como se a tripulação não existisse e ela se movesse pelo espaço por controle remoto. Cheguei a falar com John a respeito. Mas ele se limitou a sorrir e não deu resposta.

Depois de uma boa caminhada, entramos em outra sala. Ela se assemelhava a um grande apartamento. Seu salão era muito bem preparado, muito embora em um formato para nós estranho. Além da sala haviam outros compartimentos e, segundo John, cada um deles teria uma finalidade específica em nosso treinamento. Ele também nos disse que outros membros da equipe nos contatariam e nos passariam diversos informes.

- vocês entrarão em um mundo novo. Assim se faz imprescindível que tenham um vasto conhecimento de diversas modalidades de atividade. Desde, como exemplo, como cuidar do processo sanitário até como se construir um abrigo ou até mesmo uma casa. Este será o treinamento que terão.

Eu olhei para John e perguntei-lhe: - sinceramente, John, e os outros membros do pessoal que veio conosco? Eles ainda estão aqui ou houve alguém que tivesse desistido?

John não me respondeu. Apenas sorriu e continuou a nos orientar com proceder dali para adiante. Demos com ele uma volta pelo local onde nos mostrou nosso quarto, as dependências sanitárias e disse que a nossa alimentação seria servida em intervalos normais terrestres, mas que aos poucos nossos organismos se readaptariam a outro processo alimentar. Eu sorri ao ficar sabendo que as refeições chegariam até nós por uma fresta em uma das paredes. E que na mesma fresta deveriam ser depositados todos os nossos resíduos. Brinquei com Beatriz e John: - bem isto é quase um serviço de hotel de luxo. E qual será o nosso cardápio? John não entendeu a palavra de imediato, mas Beatriz veio em socorro e John nos disse que até isto haviam buscado em nossas mentes.

Ao mesmo tempo, girou nos calcanhares e se despediu, prometendo voltar mais tarde.

Passamos um bom tempo sendo treinados por vários membros deles. Um ou outro era mais afável, mas todos mantinham uma seriedade e uma determinação fora do comum para nossos parâmetros. Finalmente, depois de longas horas de treinamento, John veio até nós e nos disse que estávamos prontos para seguir o nosso curso. Depois disto nunca mais o vimos.

Fomos embarcados em uma nave pequena. E ela nos deixou em um vale em um mundo novo e desconhecido. Outra nave, bem maior, descarregou uma imensa bagagem. Dali em diante éramos eu e Beatriz, frente a um destino desconhecido em que pese termos encontrado outras pessoas na região.

O NOSSO MUNDO NOVO

Batizamos este lugar com o nome de Klonix. O nome escolhido não foi por acaso, pois nos lembramos de clone. Uma palavra usada para definir algo semelhante a uma cópia.

Quando Beatriz e eu aqui chegamos, encontramos um local intocado. Nada havia de humano. Apenas vegetação e um ou outro animal. Nenhum deles, felizmente, agressivo. Apenas curiosos conosco que chegávamos. Seus tamanhos variavam desde um rato até o de um porco adulto. Com a particularidade de serem totalmente vegetarianos.

Aqui foram colocados mais nove casais. Nem todos estavam no ônibus. Ao que tudo indica, vieram de outros lugares. Formamos uma colônia em um recanto bastante bucólico e interessante.

A vegetação é bastante semelhante à que já conhecíamos. São árvores, arbustos, campinas e árvores de porte médio e frutíferas. Muitas delas. De forma totalmente incompreensível, para Beatriz e para mim, tínhamos a impressão, ao chegarmos, de que já sabíamos quais nos seriam úteis, inclusive para a alimentação, e quais as que deveríamos evitar. Por outro lado, não encontramos nenhum tipo de inseto. Simplesmente não existia neste lugar. Ficamos sabendo que os demais moradores, como nós, haviam passado pelas mesmas experiências. E, curiosamente, todos vinham de nosso país de origem.

A atmosfera locar é extremamente agradável. Seu ar enche nossos pulmões, há poucos ventos e a temperatura é amena, pois oscila entre os vinte e trinta graus centígrados. Não chove. Apenas o orvalho se faz presente, como para apenas manter a umidade local e do ar. De modo geral, não temos variações extremas de frio e calor. As variações de temperatura estão mais para cada lugar e momento.

Nas áreas mais arborizadas a umidade conservada pela vegetação faz com que a temperatura ambiente caia alguns graus, enquanto nas áreas abertas podemos nos beneficiar com um calor que, longe de abrasador, nos propicia um imenso bem estar.

Explorando este local, vimos que é entrecortado de riachos de água cristalina que formam com suas afluências, rios majestosos. Não encontramos vida aquática. Mesmo em rios maiores, onde a água é pura, transparente e que nos permite vislumbrar o seu fundo.

Em determinados baixios, o acúmulo da umidade acrescido de fontes subterrâneas, geram lagos calmos e tranquilos, onde aves semelhantes aos nossos patos e gansos nadam e espadanam a água límpida. Estas aves embora grandes voadoras, são destituídas de penas. Beatriz e eu descobrimos que sua reprodução se dá por cruzamento normal, macho e fêmea, e que os filhotes são gerados no ventre da fêmea, em um processo de gravidez. Notamos isto, pois vimos várias delas com o ventre intumescido. E que, depois de alguns dias, voltavam à sua forma original, agora acompanhada de dois ou três filhotes.

Entretanto o que mais nos confunde e afeta é a visão que temos da abóboda celeste. Neste particular, creio que seremos obrigados a readaptar o nosso relógio biológico.

O céu em Klonix é sempre rosado, com nuanças de amarelado próximo ao zênite e avermelhado nas proximidades da linha do horizonte. Nesta faixa mais escura, podemos enxergar corpos celestes. Não sob a forma de estrelas, propriamente, mas como pequenas esferas com cores que variam desde o prateado até o lilás, com uma variação acentuada de tons e matizes.

Em Klonix não temos alternância de dia e noite. O local é iluminado por dois sóis que, aparentemente, giram em torno de nós. Pelo que pudemos avaliar, este sistema possui uma característica ímpar em relação a tudo o que já conhecíamos. Na realidade, o movimento de rotação de Klonix faz com que tenhamos a sensação de que os dois sóis giram em seu entorno. Por outro lado, observamos suas posições antípodas. Em breves intervalos, dependendo de nosso ponto de observação, há uma leve penumbra no céu de Klonix. Logo depois substituída pelo clarão do astro que “nasce” no horizonte, enquanto o outro entra em seu ocaso.

Batizamos a ambos: ao maior demos o nome de Sol e ao menor o nome de Lua. Sol traz mais claridade e calor, enquanto Lua, embora menos luminoso, também aquece o ambiente.

Beatriz e eu descobrimos um local para estabelecermos a nossa “casa” inicial. Encontramos uma caverna no sopé de uma pequena elevação, aonde iremos “morar” até que tenhamos construído algo melhor.

Quando nós chegamos eles nos deixaram uma enorme bagagem. De roupas, utensílios, ferramentas e todo o básico necessário para uma longa estada.

Em princípio escolhemos um local junto a um regato para construir o que será a nossa casa definitiva. Missão esta que aceitei de bom grado. E conversei bastante com Beatriz a respeito de como desenvolver este projeto.

Abrimos toda a nossa bagagem e a inventariamos, listando tudo o que foi encontrado. Pelo que percebemos, estamos supridos de todo o básico necessário para que possamos sobreviver por um longo tempo.

Encontramos entre os pertences uma espécie de livro fartamente ilustrado, com informações claras a respeito das plantas e animais existentes, quais seriam os apropriados para o consumo e sua forma de preparo.

Além disto, este “manual” nos alertava para determinados vegetais, plantas rasteiras na maioria, que poderiam ser utilizados como medicamentos, seu uso e dosagem.

Comparando as gravuras detalhadas com as espécies locais, não nos foi difícil encontrá-las.

Quanto aos animais, o texto mencionava que apenas algumas espécies seriam comestíveis. Dentre elas, um pequeno roedor ou coisa que o valha, com cerca de quarenta centímetros, que batizamos com o pomposo nome de “galinha klônica”.

Ficamos surpresos quando encontramos no texto a forma de como fazer e controlar o fogo. Segundo o que lemos, uma determinada pedra amarela untada com um tipo específico de lodo permaneceria em chamas por muito tempo. De forma extremamente inteligente, ambos os produtos naturais eram encontrados bem distantes um do outro. O que para nós foi um grande alívio, ao pensar em uma combustão natural que se transformasse em um incêndio.

Construí para a nossa casa-caverna um mobiliário básico: duas camas, uma mesa tosca e dois bancos (no dizer de Beatriz, suficientes, já que não esperávamos visitas). Também fiz algumas prateleiras para melhor organizarmos nossa casa simples. E iniciei a construção de nossa casa definitiva.

Depois desta chegada intempestiva e toda a preparação inicial, tivemos tempo, Beatriz e eu, de rememorar tudo o que nos aconteceu. E, em que pesem a circunstâncias, acabamos por concluir que havíamos tomado uma decisão acertada, observando-se todo o desenrolar dos acontecimentos. Pois, para nós, não restou alguma escolha. Foram momentos brutais, onde nos sentimos roubados e vilipendiados. Mas que não nos ofereceu outra opção. E mesmo com a profunda saudade de tudo, nos resolvemos a aceitar esta única opção. Mesmo sem perspectivas quanto ao futuro. Apenas por uma questão de sobrevivência. Pois somos sobreviventes de algo inimaginável. E que envolve não só a nós dois, mas a muito mais pessoas que podemos imaginar. Esta é a nossa história.



Ricardo e Beatriz

Klonix, em nosso nono mês de vida neste lugar.


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