A guisa de prefácio



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Encontro02.07.2019
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Eu estava furioso: - quer dizer que somos raptados, incluídos em um programa de um Controle que não sabemos o que é. Se o aceitarmos, ficaremos bem. Se não, somos assassinados?

John continuou impassível: - eu não falaria em assassinato. Eu falaria em opção individual de cada um. Mas, veja: muito embora venha a ferir alguns conceitos arcaicos da terra, o que deve prevalecer? A vida ou a morte? O renascer ou o definhar de modo imediato? Eu lamento. Mas eu não sou quem deve decidir a respeito. Por outro lado, também não sou eu quem determina estes parâmetros. Você deve entender que eu sou um executor de ordens. Que não as discuto. Apenas as cumpro. Entretanto, como conheço perfeitamente bem as formulações terrestres, compreendo que são um choque para vocês estas colocações. Mesmo assim, vou tentar esclarecer um pouco mais a respeito, falando deste trabalho que podem chamar de Controle.

A moça morena entrou na conversa: - meu nome é Beatriz. Assim, pode me chamar pelo meu nome. Pelo que vejo, somos reféns de um plano completamente sem sentido, criado por um controle, cujos ideais não nos interessa e na condição de que, se não aceitarmos as condições, temos a glória suprema de um suicídio? Foi isto mesmo que eu entendi, ou, como este senhor falou, eu ainda estou sonhando?

John novamente sorriu: - por partes: vocês não são reféns. Vocês foram requisitados. O plano mestre não é sem sentido. Ao contrário, estabelece uma série de vantagens a quem a ele se associar. Inclusive com a mudança de condições vitais. Os ideais deste assim chamado Controle, em que pese o fato de serem alheios aos parâmetros terrestres, estão acima da mediocridade de conceituações localizadas. Quanto ao fato de não aceitarem as condições, antes de qualquer avaliação, se faz necessária a elucidação clara do que se pretende. A partir daí, então, vocês poderão avaliar o que existe de favorável e desfavorável em relação a uma decisão. Ah, bem a propósito: vocês não devem esquecer que, para a Terra e seu povo, vocês simplesmente deixaram de existir. E nisto sou franco: vocês estão como mortos na terra, com o detalhe de que não haverão corpos para serem velados e enterrados. Além disto, conhecendo os sentimentos dos humanos terrestres, vocês serão lamentados por algum tempo. Mas depois, embora ficando a lembrança, a existência de vocês terá passado. Eu creio que vocês, antes de formular qualquer julgamento, deveriam ouvir o que é proposto.

Eu novamente intervi: - vamos lá. Meu nome é Ricardo. Fale-nos então, mister John, deste controle, suas pretensões e deste plano mestre...

Os demais humanos que se achavam presentes não interferiram na conversa. Provavelmente estavam entendendo o que se falava, mas eram incapazes de formular qualquer pensamento em inglês. Assim, se limitavam a assistir e ouvir ao que se desenrolava naquela sala.



John levantou-se e iniciou a sua explicação: - eu gostaria que ouvissem o que tenho a dizer, sem que me interrompam. Depois vocês poderão perguntar o que quiserem e eu lhes darei todas as respostas. Na terra há a ideia de que somente a raça humana é existente no universo. Esta concepção vem de longo tempo. Criaram-se paradigmas, religiões, credos e visões que concretizaram no ideário do homem este conjunto de dados. Por outro lado, e tentando explicar através da ciência, estabeleceram uma série de teorias. Evolucionismo, criacionismo e geração espontânea são alguns destes paradigmas. É claro que são todos falsos. Não que o homem seja falso. Não. Não é isso. Mas somos obrigados a concordar que uma mentira dita milhões de vezes, pode vir a se tornar uma verdade. Na realidade, o homem foi trazido para a terra da mesma forma que vocês foram trazidos para cá. Após termos determinado o conjunto de qualificações necessárias e adaptáveis ao clima terrestre, selecionamos, em outros locais do universo, aqueles povos que poderiam povoar aquele planeta – a Terra de vocês. Assim, de forma contínua e ininterrupta, povoamos as mais distantes regiões universais. Este trabalho é realizado por muitos de nós. Mas sempre sob a supervisão de um Controle Universal, que determina cada operação e como se viabilizar as propostas surgidas. Este Controle se compõe não de seres ou pessoas. Ele é um sistema complexo, nascido da aglutinação de muitas formas de pensamento, todas voltadas para a manutenção e desenvolvimento do universo como um todo. E, da mesma forma que procura desenvolver determinadas regiões, também decreta a morte de outras paragens. Não me perguntem como tais decisões são tomadas e com base em que situações. Isto eu não saberia responder com exatidão. Ora, o universo é um ser vivente. Ele é gerador de luz, de calor, de radiações, de todo o tipo de energia, inclusive a vida. Da mesma forma, como ser vivente, há determinados momentos em que sente a necessidade de cortar determinadas situações que se apresentam como nocivas à sua continuidade. Mal comparando, seria como um ser humano cortar suas unhas ou seu cabelo. Muito embora seja um pedaço vivo de seu organismo, necessita ser extirpado. Ou por necessidade fisiológica, médica ou até mesmo cosmética. O universo não difere muito. É desta forma, bem terrestre, aliás, que eu vejo esta atividade constante e ininterrupta. Esta atividade universal é que nos leva a buscar, por vezes nos mais distantes pontos, pessoas que se engajam neste processo de desenvolvimento. Esta é a nossa situação atual. Necessitamos de desenvolver novos lugares. E, sem alternativas, buscamos vocês. Sei que de forma, do ponto de vista terrestre, errônea. Mas eu perguntaria: se fôssemos até lá e tentássemos convencer alguém deste desígnio, teríamos sucesso? Com certeza, não. Pois o homem está muito ligado à sua vida telúrica. Assim, embora de modo brusco, contingenciamos a forma que utilizamos. Se nós agimos de forma certa ou errada do ponto de vista humano, seria outra questão. Uma vez esclarecido, ao menos em parte o assunto, poderíamos passar a falar de nossa proposição a vocês.

Eu me manifestei: - do ponto de vista de vocês, exclusivamente, até concordo que agiram com certeza. Mas o problema ressurge a partir do momento em que vocês não levam em consideração os sentimentos arraigados de cada ser que foi raptado, se este for o termo certo.

E John continuou me dando uma resposta: - Ricardo, você tem razão. O sentimento desenvolvido pelos humanos terrestres é muito forte. Entretanto, nossa observação há milhares e milhares de anos terrestres nos mostra outra faceta disto. Há o sentimento? Sem sombra de dúvidas. Mas, por outro lado, este sentimento é passageiro e tênue. Eu vou dar-lhe um exemplo claro, mostrando que eu conheço um pouco das atitudes humanas. Enquanto o homem está vivo, ele é amado e odiado. Entretanto a hora de sua morte se aproxima. E morre. Os que o amavam sentem a perda. Mas, por quanto tempo? Um mês? Um ano? E, depois? A vida deles continua. Embora ainda sintam um pouco da falta do ente querido, criam novos relacionamentos, parem outros filhos e renovam a sua vida. Raros são aqueles que efetivamente preservam os seus sentimentos. E estes, na voz humana, acabam sendo admoestados pelos outros de que estaria perdendo a sua vida por alguém que já não retornará. E os sentimentos passam velozes, frente à continuidade da vida. E assim se sucede com pais, esposas, esposos, amigos, filhos e todos mais. Estou certo ou errado? Como agora. Vocês, em tese, morreram na terra. Embora não haja corpos, vocês desapareceram em condições misteriosas. Será que este sentimento perdurará? E por quanto tempo, já que vocês ainda têm este conceito de tempo? Talvez por um mês terrestre, dois ou três, talvez. Depois passarão a ser apenas uma lembrança. E, dentro de alguns anos, talvez nem lembrados sejam.

Foi Beatriz quem interferiu: - eu estou sentindo falta das pessoas que me rodeavam. Mas sou obrigada a dar razão a John. Este sentimento perdurará por quanto tempo? O que virá pela frente, caso não aceite a hipótese de suicidar-me? Por quanto tempo carregarei comigo esta saudade, já que a hipótese de retorno se afigura como impossível? E se for em frente? O que acontecerá? Surgirão, em minha vida, outras razões para compensar estas perdas? Nisto sou concorde com John. Nossos sentimentos são efêmeros. E você, Ricardo, o que pensa a respeito?

Eu pigarreei, limpando a garganta: - ainda não sei. Eu ainda me encontro sob forte emoção. Realmente eu me sinto roubado e usado. O que me assusta é o fato de que, mesmo estando vivo, não há a menor possibilidade de retorno. Aliás, tudo é assustador. Apavorante. Quanto ao que John mencionou e se observado à luz clara da razão, realmente os nossos sentimentos vêm e vão. Se forem bons sentimentos, teremos apenas lembranças. Se eram maus relacionamentos, esquecemos com rapidez.

John mostrou-se interessado em continuar: - eu vou dar-lhes uma visão da nossa proposta. Ouçam com cuidado, pois serão vocês que deverão passá-la aos outros humanos. Como mencionei, o universo se desenvolve continuamente. E estamos imbuídos deste desenvolvimento. Assim, como configuramos esta continuidade? Através de pessoas com capacitações vitais que sejam compatíveis com os lugares a serem explorados. E temos um infinito de planetas a serem povoados. Todos eles com características e ecologias as mais diversas. Neste vácuo que vocês chamam de cosmos existem milhões e milhões de “terras”. Como também existem milhares e milhares de formas de vida. Algumas até sem qualquer relação com o que vocês conceituariam como forma de vida. Nós temos planetas cuja ecologia é igual à da terra de vocês. E são vocês quem estão sendo buscados para iniciar este desenvolvimento. Para tanto, o que propomos é que, uma vez aceita esta missão, vocês passarão por um processo bastante peculiar, quando terão uma renovação celular antes de serem levados ao local onde irão morar.

Novamente eu perguntei: - que tipo de renovação celular? Na terra isto ainda pertence ao campo da ficção científica...

John não deixou de sorrir: - ora. Não esqueça que nossa ciência está um universo à frente das teorias confusas e defasadas de vocês. Isto, para nós, é um procedimento simples e rápido. E totalmente indolor para vocês. Não se preocupem com isto. Uma vez passada esta fase, vocês farão um estágio onde irão reaprender determinadas características locais. É claro que, ao chegarem ao local definitivo, terão todas as condições para terem uma vida longa e tranquila. Os corpos celestes escolhidos são totalmente virgens em termos de vidas inteligentes. Vocês serão pioneiros nesta tarefa. E, podem estar certos, encontrarão outro tipo de felicidade. Provavelmente muito maior do que podem imaginar.

Minha reação foi instantânea: - e se não quisermos participar? Iremos para a tal saleta do juízo final? É isto?

John ficou sério: - sim. Lamento, mas sim. Mas eu tenho certeza de que vocês irão pensar a respeito. Ah, bem a proposto; caso aceitem esta missão, após o contato com os demais e passarem a eles as nossas pretensões, este será o último contato com eles. Depois disto eu me ocuparei apenas de vocês, caso não se decidam pela “saleta do juízo final, como falou Beatriz. Os demais que aceitarem a nossa ideia seguirão em outros grupos. Além disto, cada grupo será tratado em separado. Não manterão contatos.

Beatriz perguntou: - como assim? Até agora eu estava imaginando que todo o grupo ficaria junto. Não é isto?

O homem respondeu: - não. Não é assim que funciona. Formaremos pares. Casais. E creio que você e Ricardo formarão um belo par. E depois disto, grupos pequenos que serão reunidos.

Eu finalmente consegui sorrir: - espere um pouco. Até nesta formação vocês interferem? Com base em que dados? Como podem saber se Beatriz e eu poderemos formar um par compatível.

John novamente sorriu: - com certeza nós já verificamos isto. Vocês são compatíveis em todos os sentidos. As energias que captamos em vocês nos deram uma indicação segura. Talvez esta seja o lado incompreensível da nossa tecnologia. Como disse antes, estamos um universo científico diante de vocês. Além disto, há outro componente importante: vocês serão, digamos, rejuvenescidos. Ou seja: vocês retornarão ao estágio terrestre dos vinte anos de idade.

Beatriz, pela primeira vez sorriu: - na terra, retornar quinze anos de vida vale uma vida. Muito embora não esteja muito confiante nesta tal compatibilidade. Pois existem muitos fatores que interferem no relacionamento de duas pessoas. E um dos principais fatores é justamente a falta de conhecimento de um para o outro. E eu não conheço Ricardo, nem ele me conhece...

O sorriso de John não saiu de sua face: - não se preocupem. Estejam certos de que se darão muito bem. Isto eu garanto. Quanto a você, Ricardo. Como vê esta proposição?

Eu estava atônito: - eu já não sei o que pensar mais. Ou melhor, de uma coisa eu sei: suicídio, jamais. Já que não há alternativa... Mas quanto a Beatriz, bem. É deixar acontecer. Veremos o que o futuro nos propicia.

John voltou-se para os outros quatro participantes do encontro: - e quanto a vocês? O que acharam do que estamos propondo?

Os dois casais se entreolharam, surpresos. Até aquele momento eles eram apenas assistentes de tudo aquilo. Além disto, tinham certa dificuldade em se expressar em inglês. E esta dificuldade fez com que eles não respondessem com presteza. Eu corri em socorro deles, falando em português: - vocês, ao menos, entenderam o que nos foi proposto?

Nenhum deles confirmou o entendimento. E eu vi que teria de começar tudo com eles. Comentei com John a respeito e este compreendeu o problema. Ressaltou que eu e Beatriz seríamos porta-vozes dele junto aos demais. E, tendo dito isto, disse que precisava deixar-nos. Solicitou a mim e a Beatriz que fôssemos ter com os outros e tentassem explicar a eles o que haviam conhecido.

Eu estava em estado de choque. Não conseguia mais atinar a minha realidade. De um momento para outro me vi envolvido em algo que julgava pertencer ao mundo da ficção científica. Hoje, já com mais clareza, acredito que estaria naquele momento dopado de alguma forma. Minha aceitação fora rápida demais para meu modo de ser e agir. Entretanto e sem alternativas a não ser mergulhar no espaço e viver mais alguns segundos, concordei em seguir em frente.

Saímos da sala e fomos em direção ao grupo que se alojara em outra sala extremamente confortável. Tentamos por todos os modos e meios, explicar-lhes o sucedido. O que não foi compreendido pelos demais passageiros. Todos estavam atônitos e revoltados. Cheguei a temer por mim e por Beatriz, a partir do momento em que fomos chamados até de agentes dos raptores, sendo que alguns chegaram a se levantar e nos ameaçar de forma bastante contundente, e com o uso de palavrões de toda a espécie. Não houve a menor condição de um diálogo.

Depois do encontro com os demais, eu e Beatriz saímos da sala e encontramos John no corredor. Fomos para outro compartimento onde relatamos o acontecido com as demais pessoas. John a tudo ouviu sem interromper-nos. Depois, com toda a calma, pediu-nos que fôssemos novamente interlocutores entre ele e aquelas pessoas. O que não foi negado, mas que fez com que eu, sem pestanejar, detonasse a pergunta armada: - John, a partir do momento em que a tecnologia de vocês é tão avançada, por que não conseguem falar o nosso idioma? Afinal, eu creio que para vocês uma tarefa deste nível é relativamente simples.

John sorriu ante a minha colocação: - realmente é verdade o que você diz. Você se habilitaria a ser a ponte entre nós e este idioma de vocês? Eu explico: para que isto possa ser realizado, se faz necessário que façamos uma leitura de sua mente. Não se preocupe. Não há riscos quanto a isto.

Eu concordei: - não vejo problemas. Até porque não me sinto bem como interlocutor. Você há de convir que a primeira observação feita, foi justamente a acusação de que Beatriz e eu pertencíamos ao grupo de vocês, a partir do momento em que nos dispusemos a dar a eles a visão real do acontecido.

Beatriz interferiu: - bem, John, se Ricardo concorda e se realmente não acontece nenhum dano, por que não? Como isto pode ser feito?

John levantou-se e solicitou que o seguissem. Passamos por um longo corredor até que entramos em uma sala que se assemelhava a um centro cirúrgico. Em um dos cantos havia uma poltrona sobre uma plataforma circular. John me pediu que me sentasse na poltrona e, colocando um pequeno capacete transparente e sem fios em minha cabeça, disse: - isto será rápido. Você sentirá um mal estar. Como um enjoo. Que passará rapidamente. Vamos, então.

Eu sentei-me na poltrona enquanto John foi até a parede e, abrindo um painel, começou a acionar alguns comandos. Em pouco tempo eu comecei a sentir uma espécie de formigamento na base do crânio, próximo à nuca. O processo durou cerca de um minuto. Realmente eu saí da experiência um tanto zonzo. Sentira durante o processo a impressão de que meus pensamentos se desconcatenavam. Mas logo depois voltavam ao normal. E John, depois disto, chamou-me e me deu instruções de como agir no painel de controle, acionando apenas dois dos controles. Sentou-se na poltrona, colocou o capacete e deu um sinal para mim. Eu operei os controles como John me havia ensinado. E, segundos após, um novo John levantou-se da poltrona, agora começando a falar em português: - parece que funcionou. Como estar a minha conhecimento da língua de vocês?

Rimos um pouco do sotaque de John e foi Beatriz quem falou: - bem, para quem nunca falou português até que está bom. Mas eu aconselharia praticar um pouco mais. Nossa língua é um pouco complexa.

John concordou: - é verdade. Não é fácil que um pessoa aprenda de uma vez. Mas eu acho que dá para que os outras pessoas me entendam. Ou será que não?

Eu ainda ria, mas concordei: - é, John. Eu creio que você será compreendido. Bem. Agora, qual será o nosso próximo passo?

John, fechando o painel, respondeu: - vocês vão agora para uma área de repouso. Depois que eu falar com os demais eu irei até lá e então começaremos o processo de vocês. Vamos, então?

Eu me dirigi a John: - John. Eu notei que há uma pessoa que, apesar de estar conosco no ônibus, não o vi entre as demais pessoas. Falo de motorista do ônibus. Ele não veio conosco...

John, pela primeira vez, mostrou-se desconfortável: - Ah, sim. O motorista. Ele não veio conosco. Ele era um dos nossos e incumbido de trazê-los até nós. Depois, bem, depois, digamos que foi descartado de sua missão. Deixou de ser importante.

Eu insisti:- descartado como, John?

John respondeu: - não se preocupe. Ele está bem. Apenas não veio conosco. Sua missão, provavelmente será outra. Senão na terra, mas em algum outro lugar.

Saímos da sala e, seguindo pelo corredor, entramos em um ambiente bastante acolhedor. Uma sala clara com um enorme divã. Na parede havia uma espécie de visor ou tela. John disse que iria programar aquela tela para nos mostrar algumas cenas de locais distantes que já haviam iniciado o processo de colonização. Deixando-nos a sós, após a porta se fechar, rumou pelo corredor extenso.

Beatriz e eu, agora, estávamos sós. A tela se iluminou e começou a mostrar lugares que nenhum de nós dois conseguia reconhecer. Vendo aquelas imagens, estávamos como que embevecidos.

E foi Beatriz quem primeiro quebrou o silêncio: - isto tudo se afigura totalmente louco. De um momento para outro somos abduzidos e afastados da terra. Sabe-se lá onde estaremos e para onde vamos. Se quisermos escapar, a única saída seria pularmos no espaço. O que sabemos é que estamos em uma nave que viaja com velocidade próxima à da luz. Pelo que nos foi dito, deveremos em pouco sair de nosso sistema solar, nos foi proposta a continuidade da vida com a renovação celular que nos fará retornar aos vinte anos, e, finalmente, ao que tudo nos indica, estamos casando. Eu e você. Depois seremos levados a algum lugar onde moraremos para sempre, teremos filhos, netos, colonizaremos o local e depois morreremos. Eu creio que vou pirar.

Eu sorri ante as palavras de Beatriz: - eu já pirei. Eu morava em Nova Friburgo, desempregado, dívidas se acumulando, ou seja: não seria um bom partido para um casamento. Aí acontece tudo que aconteceu. Sou raptado, enfiado em uma nave estranha, por ordem de alguém que não sei quem é, me vejo noivo de uma bela mulher, nos asseguram a vantagem de que estaremos dentro em pouco, eu e ela, voltando aos vinte anos. Depois disto, vamos morar juntos em algum lugar sabe-se lá onde, para coloniza-lo. É tudo muito louco, mas li em certa ocasião que não existe momento mais feliz que a chegada da loucura. Meus filhos estão criados. Pouco ou nada tenho de verdadeiramente meu na terra. E, se John não mentiu, dentro em pouco recomeçarei uma vida. É. Eu não estou pirando, como você. Eu já estou completamente pirado.

Beatriz também sorriu: - eu tinha meu emprego em um banco que, se não me deixava rica, ao menos dava para as despesas básicas e ainda sobrava alguma coisa que eu escondia em uma poupança. Morava em São Paulo e estava separada. Não sei se foi bom ou ruim, mas não tive filhos. Depois da separação, fui morar com minha mãe. Mas estava também sem muitas perspectivas. Era do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Nem namorados eu quis. Estava como que desinteressada a respeito de namorados e amizades. Eu sinto falta da minha mãe, de minha irmã e dos meus sobrinhos. Eles moram no Rio, na Ilha de Paquetá. Minha irmã é casada com um oficial da FAB. Mas, quer saber? Com sinceridade, embora sentindo a falta, eu acredito que, se John estiver falando a verdade, na minha piração, creio que é uma nova perspectiva de vida. Eu tenho a impressão de que se apresenta como um novo nascimento. Com o detalhe de que estou noiva de um homem que não conheço direito, desempregado e endividado. É. Eu estou ficando pirada...

E ambos rimos de sua colocação.

Eu me levantei e fui até uma das paredes. Observei que a mesma apresentava um baixo relevo com uma imagem nunca vista por ele. Era uma imagem que se assemelhava a um ômega grego, encimado por um arco e com nove esferas distribuídas pelo desenho. Chamei Beatriz para observar aquele emblema. Ambos olhamos detidamente para aquilo, tentando achar uma razão para aquele símbolo. Por mais que nos esforçássemos e falássemos, não encontrávamos uma explicação. Talvez, caso perguntássemos a John, teríamos uma reposta satisfatória. Talvez até fosse irrelevante, mas a curiosidade fazia com que eu e Beatriz nos interessássemos a respeito daquele sinal.

Voltamos para o sofá e, vendo o painel mostrando diversos pontos do cosmos, continuamos conversando a respeito de todo o acontecido. Sem razões aparentes, não falávamos sobre o futuro. Era como se, caso mencionássemos o que viria, iríamos quebrar algo de importante. Que não merecia ser quebrado. Conversamos, também, a respeito de nossas vidas, quais eram as nossas perspectivas na terra. Lembramos também que as viagens, semelhantemente, foram decididas sem muitos pensares. Simplesmente viajamos. Eu comentei que, na viagem entre Nova Friburgo e o Rio, chegara a pensar em algo como se tivesse sido induzido àquela viagem. Mas não parei para pensar. Tudo, para mim, aconteceu como um impulso. E o pior; não avisara ninguém a respeito de minha ida para Santos. Provavelmente, para os conhecidos em Nova Friburgo, eu teria viajado e que, em alguns dias, estaria retornando. Quanto aos meus filhos, pais e irmãos, somente dariam por minha falta dali a algumas semanas. Claro que acabariam sabendo que eu estaria naquele ônibus, indo para o estado de São Paulo. E que talvez não tivessem mais nenhuma notícia a respeito. Raciocinei que, uma vez que não estava mais entre eles, claro que sentiriam a minha falta, mas como não voltaria mais, a lembrança ficaria. A verdade é que nunca se sabe exatamente o que iriam pensar a meu respeito. Poderiam até imaginar que tivesse enlouquecido, saído da minha casa e perambulasse pelas estradas e ruas.

O tempo passou sem que percebêssemos. As imagens haviam cessado na tela e um forte sono se apoderou de nós. Deitamos lado a lado no sofá e, de mãos dadas, adormecemos quase que instantaneamente.




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