A educomunicaçÃo intermediando diálogos na construçÃo de mapas socioambientais



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A EDUCOMUNICAÇÃO INTERMEDIANDO DIÁLOGOS NA CONSTRUÇÃO DE MAPAS SOCIOAMBIENTAIS

*Maria Liete Alves Silva

PPGE/IE/UFMT

maria_liete@yahoo.com.br

Imara Quadros

PPGE/IE/UFMT

imarapquadros@gmail.com



RESUMO

Este trabalho apresenta os resultados parciais da pesquisa “A educomunicação intermediando diálogos na construção de mapas socioambientais”. Inserido no projeto de mapeamento “Temporalidade e Territorialidade da Comunidade Quilombola de Mata Cavalo”, realizado pelo Grupo Pesquisador em Educação Ambiental (GPEA), ele tem o objetivo de promover, por meio de interferência educomunicativa, a construção de mapas dos problemas sociais e ambientais da comunidade quilombola de Mata Cavalo, revelando suas identidades e territórios, a partir da percepção dos alunos do programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA). O conhecimento dos problemas socioambientais da comunidade redundará em maior domínio sobre as possibilidades a serem usufruídas, pelos habitantes da localidade, de maneira sustentável, justa e digna. O projeto também integra o “Mapeamento social das identidades e territórios de Mato Grosso”, que busca dar visibilidade aos conflitos ambientais, as culturas e expressões de grupos sociais do Estado de Mato Grosso. Para alcançar nossos objetivos, propomos trabalhar com a pesquisa qualitativa associada à fenomenologia. Na abordagem qualitativa, buscaremos o conhecimento do método em autores como Lüdke e André, Crapalbo e outros. Associada à pesquisa qualitativa, procuramos no olhar fenomenológico de Merleau-Ponty fundamentos para entender a percepção do grupo estudado, pois ela propõe uma abordagem do mundo vivido, do cotidiano. Focando nossa atenção nos alunos do projeto EJA, do quilombo, a percepção e posterior produção de sentidos do grupo serão traduzidas como expressão educomunicativa, por meio da produção de material impresso e visual, que deverá ganhar a audiência desejada. Também buscamos respaldo em Gilles Deleuze e Félix Guattari sobre as noções de território, territorialidade e construção de mapa do conhecimento. Nos resultados colhidos até então, constatamos que o campo de intervenção da Educomunicação e da Educação Ambiental é um espaço rico de possibilidades para ser trabalhado com uma comunidade, pois nas nossas intervenções, lançando mão de recursos audiovisuais, está sendo possível traçar o mapa social e ambiental dentro de um contexto histórico e cultural, que compõe o território quilombola, conhecendo melhor os dilemas e potencialidades, os conflitos, os campos de poder e as expressões do grupo.



Introdução

Inserido no projeto “Temporalidade e Territorialidade da Comunidade Quilombola de Mata Cavalo”, realizado pelo Grupo Pesquisador em Educação Ambiental (GPEA), este trabalho apresenta os resultados parciais da pesquisa “A educomunicação intermediando diálogos na construção de mapas socioambientais”**. Seu objetivo é promover, por meio de interferência educomunicativa, a construção de mapas dos problemas sociais e ambientais da comunidade quilombola de Mata Cavalo, revelando suas identidades e territórios, a partir da percepção dos alunos do programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA).

O conhecimento dos problemas socioambientais da comunidade redundará em maior domínio sobre as possibilidades a serem usufruídas pelos habitantes da localidade, de maneira sustentável, justa e digna. O projeto “Temporalidade e Territorialidade da Comunidade Quilombola de Mata Cavalo”, ao qual esta pesquisa está vinculada, por sua vez, integra o “Mapeamento social das identidades e territórios de Mato Grosso”, que busca dar visibilidade aos conflitos ambientais, as culturas e expressões de grupos sociais do Estado. A construção desse mapeamento é fruto do esforço coletivo de um grupo de pesquisadores do GPEA.

Objetivos

O objetivo principal é construir, por meio de interferência educomunicativa e da Educação Ambiental, um mapa socioambiental, revelando as identidades e territórios da comunidade quilombola de Mata Cavalo, a partir do olhar dos alunos do EJA. Assim, o resultado desse trabalho poderá contribuir de maneira significativa com o processo de reconhecimento do grupo social de seu papel de protagonistas e da identificação com seus territórios e espaços sociais. Integram nossos objetivos, ainda, o conhecimento dos conflitos ambientais locais e a maneira como o grupo se integra com o meio que o cerca.



A Educomunicação e a Educação Ambiental

Na construção desse mapeamento apostamos na Educomunicação e na Educação Ambiental, numa perspectiva de construção crítica e criativa. Contrapondo-se às relações de injustiças ambientais, desigualdades sociais e mercantilização da natureza, a Educação Ambiental (EA) traz o aporte necessário para a construção de sociedades sustentáveis, em consonância com uma ética planetária de respeito à diversidade e à dignidade. Nascida no calor das lutas ambientais é na práxis que a EA se encontra e estabelece suas parcerias, revelando na transversalidade e na interdisciplinaridade a sua essência.

A educomunicação surge como aliada dos processos pedagógicos, criando condições para evidenciar e dar visibilidade aos problemas, conflitos e dificuldades enfrentadas, incentivando a expressão, autonomia e auto-gestão. Fruto do hibridismo da educação com a comunicação, a educomunicação surge nos anos 80 e ganha essa nomenclatura do argentino Mário Kaplún. Torna-se forte e se enriquece na intervenção social, tornado-se educomunicação socioambiental. Hoje, ela incorpora, além da necessidade de uma leitura crítica da mídia, o direito à comunicação, produção de material como expressão de populações locais e gestão participativa dos meios. A Educomunicação é um campo de planejamento, de criação e de “...desenvolvimento de ecossistemas educativos mediados por processos de comunicação e pelo uso das tecnologias da informação”, segundo Oliveira (1996).

A educomunicação também pode apostar na interação dos saberes, promovendo o diálogo entre a ciência e a sociedade. É indiscutível a necessidade de democratização da ciência (SATO, 2008). Nesse esforço dialógico, a maior conquista será a compreensão da maneira como o conhecimento científico modifica o mundo e a cultura humana e como essa traduz esse saber, referenciado pelo seu conhecimento tradicional. A promoção dessa nova configuração do conhecimento deve ser o resultado da inversão da ruptura epistemológica da ciência moderna, simbolizada pelo salto qualitativo do conhecimento do senso comum para o conhecimento científico, “(...) na ciência pós-moderna o salto mais importante é o que é dado do conhecimento científico para o conhecimento do senso comum (SANTOS, 2008, p. 90).



Mata Cavalo

O quilombo Mata Cavalo, com uma área de, aproximadamente, 14 mil hectares, é formado por seis comunidades: Ourinhos, Estiva, Aguassú, Mata Cavalo de Cima, Mutuca e Capim Verde. Com sua origem remontando ao século XVIII, a comunidade quilombola passa por inúmeras situações de conflito, pois apenas no ano de 1988 é que foi reconhecido o direito à propriedade das comunidades quilombolas. Na prática, porém, são poucas as comunidades que têm suas terras em situação regularizada. Mato Grosso ilustra bem esta situação, pois, segundo a Fundação Cultural Palmares (FCP), no Estado, existem 60 comunidades reconhecidas, mas, no entanto, nenhuma delas possui o título definitivo de suas terras.

Localizado no município de Nossa Senhora do Livramento, no Estado de Mato Grosso, Mata Cavalo fica a cerca de 50 quilômetros de Cuiabá, reunindo, aproximadamente, 420 famílias. Sobre o solo quilombola, composto de Cerrado baixo e matas de galerias, as histórias de posse e ocupação se misturam com as de despejo, em meio a muita luta e resistência de um povo que tem na terra sua maior referência de identidade.

Educação para Jovens e Adultos

Em função de alguns fatores como experiência vicária compatível com o interesse da pesquisa e outros, de ordem prática, escolhemos o Grupo EJA (Educação para Jovens e Adultos) como nossos interlocutores no processo de construção do mapa. O EJA é uma modalidade de ensino da rede pública no Brasil, que objetiva a inclusão das pessoas que não possuem idade escolar e não tiveram acesso ao ensino fundamental e médio. Em Mata Cavalo, o EJA tem 13 alunos matriculados, todos moradores dos arredores da escola. Para realizar as atividades educomunicativas, obedecemos ao calendário escolar do EJA e a disponibilidade do grupo.



Metodologia

Visando alcançar os objetivos propostos, trabalhamos com a pesquisa qualitativa associada à fenomenologia. Na abordagem qualitativa, buscamos o conhecimento do método em autores como Lüdke e André, Crapalbo e outros. A seguir, destacamos algumas características que consideramos importantes com relação à escolha feita: na pesquisa qualitativa o ambiente natural é sua principal fonte de dados e o pesquisador é considerado o seu principal instrumento; não procuramos por evidências que comprovem hipóteses definidas; as abstrações são formadas, basicamente, a partir dos dados; a preocupação com o processo é maior do que com o produto; existe uma atenção especial aos aspectos, ao significado que as pessoas dão às coisas e às suas vidas; e, principalmente, na análise de dados a tendência é para o processo indutivo. (LÜDKE; ANDRÉ; 1986).

Associado à pesquisa qualitativa, buscamos no olhar fenomenológico de Merleau-Ponty os fundamentos para entender a percepção do grupo estudado, uma vez que ela propõe uma abordagem do mundo vivido, do cotidiano. A pesquisa fenomenológica, sendo uma atitude, parte da compreensão do nosso viver para alcançar a essência do fenômeno (FAZENDA; 1997). A escolha por uma determinada metodologia está diretamente vinculada à determinada concepção da relação sujeito/objeto.

A experiência da percepção permite que sejamos “dados” ao mundo, quando o corpo possibilita, então, a visibilidade do objeto e ao mesmo tempo a reflexibilidade da consciência. O corpo é feito do mesmo tecido que o mundo e é dessa relação que emergem as significações. Significações, que se expressam, constituindo o mundo da cultura via a linguagem. Passos (1998, p. 276).

Na teoria fenomenológica, a percepção está na base do conhecimento, entendendo que “a percepção não é causada pelos objetos sobre nós, nem é causada pelo nosso corpo sobre as coisas: é a relação entre elas e nós e nós e elas; uma relação possível porque elas são corpos e nós também somos corpos” (CHAUÍ, 1997, p. 125).

A noção de cultura como texto, que ao ser lido passa por uma recriação interpretativa e que, portanto, precisa ter compreensão dos códigos utilizados, leva a pensar que melhor será compreendido quanto maior for a familiaridade com o autor ou o tema, configurando-se no que Geertz (1989) chama de território semântico compartilhado. Compartilhamento semântico entendido como compartilhamento cultural. Aquele que é elaborado na cotidianidade de uma comunidade, onde elementos particulares de uma cultura são as peças de um variado mosaico que constituirão o substrato sobre o qual repousa a sua percepção de mundo. É este compartilhamento que procuramos nos sujeitos de nossa pesquisa na relação dialógica da educomunicâo socioambiental.



A construção dos mapas

Surge a indagação, agora, de que forma a metodologia será aplicada na pesquisa. A proposta tem sido promover uma interferência educomunicativa, focando nossa atenção na percepção e posterior produção de sentidos dos moradores de Mata Cavalo. A construção do conhecimento é promovida via a educomunicação, com a utilização de fotografia, recortes de jornais, vídeo e produção de arte como a pintura e a confecção de objetos. A partir daí, a percepção do grupo está sendo traduzida como expressão educomunicativa, por meio da produção de material impresso e visual, que deverá ganhar audiência.

Para proceder à construção do mapa socioambiental, procuramos respaldo, também, na concepção de Gilles Deleuze e Félix Guattari sobre território, territorialidade e construção de um mapa do conhecimento. O conceito de territorialização e reterritorialização na obra desses autores é um importante meio para o entendimento das questões filosóficas e também das práticas sociais. É um conjunto onde iremos encontrar os comportamentos, os tempos e os espaços sociais, culturais, estéticos e cognitivos. (HAESBAERT, 1994).

Na construção coletiva do mapa, as interferências educomunicativas ocorreram por meio de oficinas realizadas no galpão onde acontecem as aulas do EJA e no espaço externo, nas incursões por áreas do quilombo que remetem ao tempo e ao espaço de suas vidas. As primeiras oficinas deram suporte para o desenvolvimento do trabalho ao buscar o entendimento necessário de alguns conceitos como território e identidade, utilizando associações práticas do cotidiano, para uma melhor subjetivação.

A partir de uma dinâmica de diálogos e trabalho de comunicação e arte (fascículos do GPEA, recortes de jornais, desenho, pintura, fotografias), as oficinas conduziram para o entendimento do conceito de território e identidade, revelando que para eles, território remete a terra, casa, fogão, lenha, rio, peixe, plantas. Enquanto identidade, fundamentalmente, está ligada a luta pela terra, e a mão espalmada sobre a placa da associação “Sesmaria Boa-Vida” com os dizeres “Mata Cavalo - Força da terra”, revela quanto o território está, intrinsecamente, associado à identidade de um povo.

O processo de conflito pelas terras do quilombo remonta ao século XVIII, quando Mata Cavalo teve suas terras valorizadas e cobiçadas pela presença do ouro, iniciando o processo de expulsão dos quilombolas (BANDEIRA; SODRÉ, 1993). A luta pelo direito à terra passou a ser uma constante e está presente nas inúmeras narrativas e expressões colhidas durante as oficinas, com descrição de conflitos armados, marchas, invasões, ocupação ou fuga do território, num movimento tático de sobrevivência e também de reterritorialização.

Na percepção do grupo, o território é sinônimo de apropriação, de subjetivação e de que tanto pode dizer respeito a um espaço vivido quanto a um sistema percebido, no meio do qual um sujeito se localiza. A territorialização é o movimento de construção do território e a desterritorialização é a operação de linha de fuga. Esses movimentos são indissociáveis, pois um implica no outro (DELEUZE; GUATTARI, 2007).

No material construído até este momento, já contamos com elementos suficientes para a elaboração dos materiais pedagógicos desejados, mas como trabalhamos com uma perspectiva deleuze-guattariana de construção de mapa, este trabalho estará sempre inconcluso, sempre sujeito a modificações, a novas abordagens e desenhos.

Na construção do entendimento da palavra território, alguns elementos com maior freqüência surgiram em fotos e desenhos. Exemplo claro foram as palmeiras bacuri e babaçu, espécies que crescem nas margens de rios e córregos e são utilizadas na confecção de paredes e tetos para suas casas ou em artesanatos. Nos relatos de moradores como Dona Branca, nos rios de Mata Cavalo - Mata Cavalo, Mutum, Aguaçu, Estiva, Mutuca, Xibungo -, eles pescam lambaris, peraputangas, piavas, lobó e bagres. Outros animais como capivaras, pacas, cotias, tatus, macacos-prego e sucuris também podem ser encontrados naquelas terras.

O amor pela terra e a necessidade de preservação do território como referência de identidade tornam a vida no quilombo motivo de alegria, mas as dificuldades enfrentadas deixam as marcas de sofrimento naquele povo. Entre os maiores problemas relatados, depois da questão de garantia e legalização de suas terras, que é o principal desejo deles, o acesso à água e à energia elétrica são os maiores problemas que atingem o cotidiano, pois nem todos têm acesso a estes serviços de primeira necessidade no quilombo. Muitos ainda transportam sua água em carriolas, na cabeça ou em charrete.

Os problemas relacionados à água não são apenas de acesso a ela, mas também dizem respeito aos impactos ambientais, com a destruição de nascentes e o desmatando de matas ciliares de rios e córregos, em função da pecuária e do garimpo. Outros dizem respeito ao represamento de água e a presença de lixo, além da cada vez mais sentida falta de chuva, como relatou Sr. Israel: “a falta de chuva prejudicou as plantações de melão, melancia e abóbora”.

Além da energia que não alcança todos os lares, eles relatam dificuldades com relação ao combustível utilizado para uso doméstico. Como a renda da maioria é pequena - aposentadoria, agricultura de subsistência, prestação de serviço braçal e criação de alguns animais domésticos -, o uso do fogão à lenha é preferencial, uma vez que o gás de cozinha é caro, ficando para ser utilizado nos períodos de chuvas, quando existe dificuldade para encontrar lenha seca. O problema, segundo os quilombolas, é que o acesso a esta fonte de combustível está comprometida pelo desmatamento promovido pelos fazendeiros que derrubaram o mato para fazerem suas pastagens. Outros conflitos ambientais presentes no quilombo, que foram relatados, fotografados ou representados nas oficinas, teriam surgido em função do processo de invasão das terras por grileiros ou fazendeiros, em suas atividades de garimpo ou de pecuária. Entre eles, estão o desmatamento, as queimadas, as erosões, a introdução de capim exótico e a perda da biodiversidade.

Em Mata Cavalo a fé é grande aliada, seja manifestada nas festas dos santos da igreja católica, seja nas religiões de origem afro. Animando as suas festas, podem ser tocadas e dançadas, desde o cururu, siriri, dança do congo e rasqueado, até o lambadão, o sertanejo e o axé. Assim, mesclado ao tradicional, o “novo” vai entrando em suas casas via rádio e TV, sugerindo outras maneiras e modos, trazendo novas bricolagens. É comum encontrarmos nessas comunidades objetos adaptados para novos usos. Lâmpadas incandescentes que queimaram viram lamparinas, e fogão a gás transforma-se em fogão a lenha.

Segundo Stuart Hall (2003), o espaço, a diferença e a etnicidade, assim como as práticas culturais e os discursos teórico e políticos, são elementos constituintes da identidade. Sendo que a hibridação seria um fator a mais de complexidade, ao entrelaçar outras categorias que são socialmente construídas, além das de raça, classe, gênero e nação.

No trançado entre o passado de lutas e o futuro de sonhos e desejos, submerge as condições fronteiriças de um hibridismo cultural de resistência. Revelado no presente do fazer, traduzir e reinscrever, as tradições culturais se mesclam a novas tecnologias da informação e do viver, como um “entre - lugar” contingente. Esta condição de existência insurgente forja um povo que, não deixando de ser quilombola, apresenta as marcas de uma identidade híbrida contemporânea, alimentando a polêmica tensão entre o local e o global. Esta condição, contudo, não esconde, nem elimina as chamadas relações neocoloniais que são remanescentes no interior da “nova’ ordem mundial (BHABHA, 2007; STUART, 2004).

Considerações

As oficinas de educomunicação, trabalhando com texto e imagens visuais possibilitaram uma reflexão sobre o tempo e o espaço, os conflitos existentes e os sonhos e desejos do grupo. Estes momentos de reflexão levaram a um redimensionamento de suas vidas e de seus significados. Este olhar revelador também repousou sobre os fascículos produzidos pelo GPEA sobre a Comunidade de Mata Cavalo, uma vez que fazia referência ao grupo e estava sendo utilizado em sala de aula como material pedagógico.

Os momentos de narrativa e expressão do território e da identidade da comunidade são ricos de detalhes e dão um toque de encanto e alegria, misturados às lembranças de dor e tristeza presentes nas lutas e humilhações sofridas. Mas o orgulho pela fé e força na resistência é a marca mais forte do povo quilombola que ali firma sua existência.

Claro que a origem quilombola e o passado do grupo são elementos intrínsecos ao quilombo, mas o processo de marginalização da negritude que o quilombo encerra é uma problemática não afeita ao domínio do particular ou do patológico, mas sim “do domínio da construção de uma subjetividade que se conecta e se entrelaça com problemáticas que se encontram em outros campos (GUATTARI, ROLNIK, 1986, p. 74,75).

Nos resultados colhidos, até o momento, também constatamos que o campo de intervenção da Educomunicação e da Educação Ambiental é um espaço rico de possibilidades para ser trabalhado com uma comunidade, pois nas nossas intervenções, lançando mão de recursos textuais e audiovisuais, está sendo possível traçar o mapa social e ambiental dentro de um contexto histórico e cultural, que compõe o território quilombola de Mata Cavalo, conhecendo melhor os dilemas e potencialidades, os conflitos, os campos de poder e as expressões do grupo. O percurso percorrido é rico de detalhes e apresenta dados e elementos significativos que foram sendo elaborados, confeccionados e estão sendo organizados em formato de mapas temáticos e cadernos pedagógicos. A grande riqueza, contudo, está no processo de construção, momento em que são traduzidos e ressignificados, de forma expressiva, elementos de suas vidas, do cotidiano. Contudo, dada a complexidade das questões afeitas aos significados e compreensões de conceitos como identidade quilombola, ainda tem muitas perguntas a serem respondidas, mas este é um caminho que ainda está sendo percorrido e novas reflexões serão sempre possíveis.

*Este artigo tem a co-autoria da Drª Michèle Sato

** A pesquisa “A educomunicação intermediando diálogos na construção de mapas socioambientais” está inserida no curso de Doutorado em Educação, na linha dos Movimentos Sociais, Política e Educação Popular, da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGE/IE/UFMT), sob a orientação da Drª Michèle Sato. São seus financiadores a Fundação de Amparo a Pesquisa de Mato Grosso (FAPEMAT) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Bibliografia

BANDEIRA, M. ; SODRÉ, T.V. O Estado Novo, a reorganização espacial de Mato Grosso e a expropriação de terras de negros (o caso de Mata Cavalos). In: Cadernos do NERU, nº 2, dez. 1993. Escravidão: ponto e contraponto. Cuiabá: ICHS, UFMT, 1993.

BHABHA, H. k. O local da Cultura. Belo Horizonte: Ed.UFMG, 1998.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo, 1997, p.125.

DELEUZE, G; GUATTARI F. Mil Platôs, vol I, II, III. Rio de Janeiro, Ed 34, 2007.

FAZENDA, I. Metodologia da pesquisa educacional, 4 ed. São Paulo: Cortez, 1997.

GUATTARI, F.; ROLNIK, S. 1996 Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes. P. 74-75.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC ed., 1989. 363 p.

HAESBAERT, R.; BRUCE G. A Desterritorialização na Obra de Deleuze e Guattari. Departamento de Geografia, UFF (artigo em PDF). 1992.

HALL, S. Da Diáspora - Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG: Representações da UNESCO no Brasil. 2003.

_______ A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

LUDKE, M; ANDRÉ M. E.D.A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: Pedagógica e Universitária, 1986, p.41- 42.

OLIVEIRA. S. I. Sociedade da informação ou da comunicação? São Paulo: Cidade Nova, 1996, 80 p.

PASSOS, L. A. Aguaçu na dança do(s) tempo(s) e a educação da escola: o tempora, o mares! Tese de doutorado, UFMT, Instituto de Educação, Cuiabá: 1998. Fotocópia.

SANTOS, B. S. Um discurso sobre as ciências. 5 ed. São Paulo:Cortez, 2008

SATO, M. Projeto Ciência e Cultura na Reinvenção Educomunicativa. Cuiabá: cópia de projeto encaminhado para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 2008.



SEVERINO, A. J. (Org.); Consolidação dos cursos de pós-graduação em educação: condições epistemológicas, políticas e institucionais; In: ____. Conhecimento, Pesquisa e Educação. Campinas. Papirus, 2001
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