A economia brasileira no contexto da economia mundial: cenários e desafios



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Desregulamentação, financeirização e crise

Nilson Araújo de Souza*

Resumo

O objetivo deste artigo é investigar as causas e o desdobramento do colapso financeiro mundial iniciado em 2007. Constata-se que, deflagrado pela implosão da “bolha” hipoteco-imobiliária dos EUA, representou, simultaneamente, o colapso da financeirização da economia mundial e da forma de gestão desse sistema. Na essência, trata-se do desdobramento de uma crise mais geral, iniciada no final dos anos de 1960 nos EUA. Para enfrentar a nova crise, os governos dos países desenvolvidos injetaram trilhões de dólares na economia e passaram a praticar juros básicos reais negativos. No fundamental, esses recursos foram canalizados para o sistema financeiro, gerando novas “bolhas financeiras” e ameaça de novos colapsos. Na verdade, como demonstra o caso da Grécia, a crise não terminou.

    1. Abstract


The purpose of this article is to investigate the causes and evolution of 2007 started world financial break-down. We verify that US mortgage bubble crash revealed, at the same time, the failure of both world economy financialization and system management. Now crisis is a development of a general crisis that begun in the end of 60s at the US. To face the new crisis, the developed countries governments inject trillions of dollars on economy and practice a negative interest rate. In real, these amount were carry out to financial system, producing new financial bubbles and new crash threats. The crisis has not finished, as indicates the Greece case.

Palavras-chave: Crise. Colapso financeiro. Financeirização. Desregulamentação. Estado.

Keywords: Crisis. Financial break-down. Financialization. Unregulation. State   

Introdução


    1. O objetivo deste artigo é investigar as causas e o desdobramento do colapso financeiro mundial iniciado no segundo semestre de 2007 nos EUA. Com essa crise, entrou em colapso o sistema baseado em uma estrutura econômica que descolou da produção massas gigantescas de recursos, que passaram a circular na esfera puramente financeiro-especulativa.


Colapsou também a forma de gestão desse sistema, que, fundada numa ideologia (neoliberalismo) que prega que o Estado deve retirar-se da economia para dar lugar ao mercado, restringiu ou mesmo eliminou as várias formas de regulação estatal da economia, particularmente a financeira.

1. O colapso financeiro e a recessão

A crise foi precedida de um colapso financeiro deflagrado pela elevação da taxa básica de juros nos EUA.

O colapso financeiro se manifestou, inicialmente, no desabamento de suas bolsas de valores, provocando o mesmo efeito nas bolsas de valores no mundo inteiro, pulverizando trilhões de recursos nelas aplicados. Segundo o articulista do The New York Times, David Jolly,


As ações perderam 42% de seu valor em 2008, no cômputo do índice mundial MSCI, o que reduziu em cerca de US$ 29 trilhões o valor de mercado das empresas de capital aberto e reverteu todos os ganhos conquistados desde 2003. Os únicos ativos que prosperaram foram os títulos dos governos de países desenvolvidos e o ouro, cujos preços subiram à medida que os investidores corriam em busca de proteção (JOLLY, 10.01.2009)1.
A queda das bolsas se alastrou por todas as regiões do planeta: “O índice Dow Jones Euro Stoxx 600, que acompanha o mercado europeu como um todo, fechou o ano com queda de 46%. O índice MSCI Ásia-Pacífico caiu em 43%” (Ibid.).

O índice Dow Jones, que mede o comportamento das ações da principal bolsa dos EUA, caiu 34,7% em 2008, perdendo apenas para a queda de 1931 (52,7%) e a de 1907 (37,7%)2. Enquanto isso, o Standard & Poor's 500, que é mais abrangente do que o Dow Jones, caía 38,5%.

A economia real foi também seriamente afetada. Para o órgão responsável pela determinação do começo e do fim das recessões nos EUA, a Agência Nacional de Pesquisas Econômicas3, a economia daquele país entrou em recessão desde dezembro de 2007.

A retração da atividade econômica impactou severamente o mercado de trabalho dos EUA. A taxa de desemprego naquele país subiu de 4,5% em novembro de 2007 para 8,9% em abril de 2009, até então a maior taxa desde a recessão encerrada em 1983, superando posteriormente os 10%.

A partir do segundo trimestre de 2008, o colapso financeiro, que já havia repercutido na economia real dos EUA desde o último trimestre de 2007, começava a promover a recessão na Europa e no Japão:
O Japão se une assim à Eurozona, Alemanha, Itália, Irlanda e Hong Kong na lista de países e territórios que entraram oficialmente em recessão pelo choque provocado pela crise financeira mundial (ECONOMIA, 17.112008).
A discussão concentrou-se, a partir de então, na profundidade e na duração da crise. Começou a formar-se um consenso acerca de que seria a crise mais grave desde a Grande Depressão iniciada em 1929.

A única das grandes economias que não sofreu recessão em 2008-2009 foi a chinesa. A economia da China seguiu crescendo, mas reduziu o ritmo de crescimento. Seu PIB, que vinha crescendo a uma taxa média anual de 10% nos três primeiros trimestres de 2008 (CHINA, 14.01.2009), aumentou “apenas” 6,8% no último trimestre do ano. Mas, ao longo de 2008, o PIB ainda cresceu 9%.

A China não entrou em recessão porque estava mais preparada para se defender do impacto de crises financeiras internacionais. Vários fatores possibilitavam que aquele país pudesse se defender melhor de uma eventual contaminação financeira da crise externa. Possuía:

a) um elevado volume de reservas cambiais e um saldo positivo e elevado na balança comercial4;

b) um elevado volume de poupança interna e um baixo nível de endividamento.

c) um forte peso do Estado na economia, que permitia uma maior capacidade de utilizar os instrumentos capazes de proteger sua economia.

Os bancos chineses, por sua vez, diferentemente dos europeus, jamais entraram nos negócios dos derivativos e das hipotecas dos Estados Unidos.

2. Déficit familiar e “bolha imobiliária” deflagram crise

A crise deflagrou-se nos EUA pela incapacidade de prosseguir o financiamento de um dos tripés do déficit trigêmeo: o déficit das famílias, as quais vinham, desde 1999, consumindo mais do que ganham.

Segundo Peters Goodman, “em 1984, os norte-americanos economizavam mais de um décimo de sua renda, de acordo com o governo. Uma década depois, a metade. Agora, o índice é negativo, sugerindo que gastam mais do que a renda” (GOODMAN, 06.02.2008, p. B4).

Estudo de John Foster sobre o endividamento familiar nos EUA constatou que sua causa básica se encontra na deterioração do poder de compra do salário. Segundo esse autor,
não há dúvidas quanto à crescente compressão dos rendimentos baseados nos salários. Exceto no que se refere a uma pequena subida nos anos 90, há décadas que os salários reais estão a marcar passo. Uma família típica (de rendimento mediano) tenta compensar isso aumentando o número de empregos e trabalhando horas extras. Apesar disso, o rendimento real (com ajustamento da inflação) duma família típica baixou durante cinco anos seguidos até 2004. Em 2003-2004, os 95 por cento de famílias que se encontram no grupo inferior de rendimentos, sofreram uma redução dos rendimentos médios reais por agregado familiar (tendo os 5 por cento do topo, claro, feito lucros maiores). Em 2005 os salários reais caíram em 0,8 por cento (FOSTER, 10.03.2008).

O objetivo dessa contenção salarial, iniciada durante a administração Reagan nos anos de 1980, era recuperar a taxa de lucro e a competitividade externa da economia estadunidense. A queda da taxa de lucro e a perda de competitividade, ocorridas a partir da segunda metade da década de 1960, estavam na origem da crise iniciada naquele país a partir daquela época.

O resultado do déficit familiar foi o aumento crescente do endividamento das famílias estadunidenses. O conjunto da dívida familiar pulou de US$ 6,96 trilhões em 2000 (96,8% da renda disponível) para US$ 11,5 trilhões em 2005 (127,2% da renda). Era de apenas US$ 736,3 bilhões em 1975 (62% da renda) (Fonte original: Banco da Reserva Federal. Extraído de FOSTER, op. cit.). Artigo de Stephen Roach, presidente do Morgan Stanley Ásia, indica que esse endividamento atingiu 133% da renda disponível em 2007 (ROACH, 2008).

Um dos principais caminhos do endividamento familiar adotado no período consistiu na tomada de empréstimos no mercado imobiliário dando como garantia a própria residência, isto é, hipotecando-a5. Enquanto de 1998 a 2001 a dívida hipotecária nos EUA cresceu em média a 3,8% ao ano, de 2001 a 2004 a expansão foi de 27,3% anuais (FOSTER, op. cit.)6.

Os bancos, havendo esgotado o mercado dos que dispunham de renda mais elevada, entraram com força total nesse mercado dos que não tinham renda suficiente, mas contavam com um imóvel para dar em garantia. Por isso, esses empréstimos passaram a ser designados de “subprime”.

Como base nas hipotecas, os bancos emitiam derivativos que vendiam para outros bancos, os quais, por sua vez, emitiam novos derivativos e assim sucessivamente, montando uma verdadeira pirâmide financeira. Foi a desregulamentação financeira que permitiu a montagem dessa pirâmide.

O resultado foi um intenso processo de especulação imobiliária nos EUA, repetindo o que ocorrera no Japão entre fins da década de 1980 e começo da de 19907.

Quando os juros estavam baixos8, foi possível disfarçar a incapacidade estrutural de honrar essas dívidas (isto é, a ausência de poupança para pagar as prestações), mas, quando voltaram a subir até atingirem a taxa de 5,25% em 2006 e 2007, já não foi possível manter esse disfarce, e a bolha estourou em inadimplência, tomada dos imóveis pelos bancos9, queda do valor dos imóveis10, desvalorização das hipotecas e dos respectivos derivativos, crise do sistema bancário11 e encurtamento do crédito12.

Assim, a elevação da taxa básica de juros furou a “bolha” especulativa do mercado imobiliário.

A raiz mais remota da crise está na perda de competitividade da economia dos EUA e na queda da sua taxa de lucro a partir do final dos anos de 1960, o que redundou no déficit trigêmeo e na insuficiência da produção em relação à demanda agregada. Para garantir uma demanda efetiva superior à própria produção, os Estados Unidos vêm se endividando de forma crescente.

Com isso, adiava-se a crise, mas, ao mesmo tempo, quando o endividamento atinge o limite, engendra crises periódicas. Esse fato se manifesta no déficit trigêmeo: o déficit externo, o déficit público e o déficit familiar.

E os três déficits estão intimamente relacionados. O déficit externo significa que o país está consumindo mais do que produz, mas quem consome são as famílias e o governo (consumo final) e as empresas e o governo (consumo intermediário - matérias primas, máquinas, equipamentos, etc.). Isso significa que parte do problema de o país consumir mais do que produz se manifesta no déficit familiar e outra parte no déficit público (em nível empresarial, não costuma haver déficit, a não ser nos momentos de forte recessão).

3. Déficit, dívida e especulação

O déficit externo, medido pelo saldo em transações correntes do balanço de pagamentos (soma da balança comercial com a de serviços), surgiu nos EUA em 1982 e vem crescendo desde então, à exceção do período 1987-1991. Sua evolução recente consta da tabela 1.


Tabela 1

EUA: déficit em conta corrente do balanço de pagamentos (% do PIB)




1997

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

1,75

4,2

4,8

4,5

4,8

5,7

6,4

6,5

7,0

Fonte: Bureau of Economic Analysis (BEA), U.S. Department of Commerce, 20.01.2008.
O resultado foi o surgimento e o crescimento acelerado da dívida externa estadunidense, já que se tomava dinheiro emprestado no exterior para cobrir o déficit externo. Já em meados dos anos de 1980, os EUA haviam se tornado nos maiores devedores líquidos do mundo. E essa dívida tem crescido de maneira explosiva na presente década. Veja a tabela a seguir:
Tabela 2

EUA: evolução da dívida externa




1995

(US$ bilhões)



2001

(US$ trilhões)



2005 – junho

(US$ trilhões)



2006 - junho

(US$ trilhões)



2007

(US$ trilhões)*



862

1,4

8,84

10,04

12,50

Fonte: FMI, BIRD, BIS.

A origem mais remota do déficit externo foi a perda de competitividade da economia estadunidense em relação às economias japonesa e alemã, que se manifestou no surgimento de déficits comerciais a partir da segunda metade da década de 1960. Este fato está na raiz do longo declínio da economia dos EUA iniciado naquela época.

A Reagonomics adotada ao longo dos anos de 1980 para combater a crise teve como resultado a deterioração das finanças públicas. Entre suas medidas, destacam-se a redução de impostos (principalmente sobre os mais ricos e as grandes empresas) e o aumento de gastos públicos (sobretudo militares).

A administração Clinton conseguiu equilibrar as contas públicas em seu segundo mandato, a partir de 1997, inclusive chegando a gerar superávit. Legou a George W. Bush um superávit de US$ 236 bilhões (2000). Mas Bush já o transformou em déficit em seu primeiro ano de governo. Em seu primeiro mandato, o déficit das contas públicas teve a evolução exibida na tabela 3.


Tabela 3

EUA: déficit público (% do PIB)




2001

2002

2003

2004

0,2

3,3

4,0

4,9

Fonte: Bureau of Economic Analysis (BEA), U.S. Department of Commerce.
A partir de 2005, o montante desse déficit começou a cair, reduzindo de US$ 413 bilhões em 2004 para US$ 161 bilhões no ano fiscal de 2007, mas voltou a crescer em 2008, inclusive superando o “pico” de 2004: atingiu US$ 455 bilhões.

A conseqüência do ressurgimento e manutenção do déficit público foi o crescimento da já elevada dívida pública, que teve o comportamento indicado na tabela a seguir:


Tabela 4

EUA: evolução da dívida pública (em US$ trilhões)




1989

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2,7

5,8

6,3

6,8

7,4

7,9

8,5

8,9

9,6

10,4*

Fonte: Casa Branca

* estimativa.


Foi, sobretudo, a dívida dos EUA que alavancou a especulação em nível mundial.

O Banco Internacional de Compensações (BIS, na sigla inglês) estimava um montante de derivativos da ordem de US$ 596 trilhões, antes de começar a ser pulverizado pela débâcle das bolsas13.

4. Estado chamado de volta para salvar mercado

A administração Bush voltou a adotar na conjuntura recessiva de 2007-08 o mesmo remédio que utilizara em 2001. Já em 2007, a Reserva Federal começou a baixar a taxa básica de juros14.

Além disso, ao lado do Banco Central Europeu e do Banco do Japão, o Fed passou a injetar (a taxas de redesconto inferiores às taxas básicas de juros) grandes montantes de dinheiro no sistema bancário a fim de cobrir os prejuízos com a queda do valor das hipotecas e dos títulos por elas alavancados.

Há estimativas de que, desde o começo de 2008 até setembro daquele ano, o governo já havia gastado ou aprovado o gasto de uma cifra entre US$ 1 trilhão e US$ 1,5 trilhão – cerca de 10% do PIB -, dos quais US$ 300 bilhões para a Federal Housing Administration, US$ 200 bilhões para a Federal National Mortgage Associaton (conhecida como Fannie Mãe) e para a Federal Home Loan Mortgage Corporation (batizada de Freddie Mac), US$ 316 bilhões para empréstimos privilegiados a bancos e US$ 85 bilhões para a intervenção no American International Group (AIG) (DÁVILA, 21.09.2008, p. B5).

Na área fiscal, a administração estadunidense baixou um conjunto de medidas no começo de 2008. Desta vez, abdicou do aumento de despesas e concentrou-se em restituições de dinheiro para pessoas físicas e isenções tributárias para pessoas jurídicas na compra de bens de capital. O valor da renúncia fiscal aprovado na Câmara de Representantes, em janeiro de 2008, atingiu US$ 146 bilhões, pouco mais de 1% do PIB (compare com os US$ 700 bilhões dos dois primeiros anos do pacote fiscal de 2001). Em decisão posterior, em fevereiro, o Senado acrescentou mais US$ 22 bilhões a esse montante (FOLHA DE S.PAULO, 08.02.2008, p. B5).

Os analistas econômicos de todos os matizes foram unânimes na avaliação de que o volume de recursos aprovados seria insuficiente para evitar o processo recessivo nos EUA. Não passava de um grão de areia no deserto. Essa análise se confirmou quando, a partir de setembro de 2008, deflagrou-se a quebradeira de bancos, seguradoras e casas hipotecárias, sendo seguido do estado semi-falimentar de grandes empresas industriais.

O sinal de alerta foi a falência em meados de setembro de um dos principais bancos de investimento do país, o Lehman Brothers15; logo depois, ruiriam as duas principais casas hipotecárias do país: a Fannie Mae e a Freddie Mac; em seguida, a seguradora das seguradoras, considerada a maior do mundo: o AIG16. O primeiro foi abandonado pelo governo. As outras instituições foram salvas pela injeção de maciços recursos pelo governo e sua estatização temporária.

Mas a crise persistiu, ameaçando as instituições financeiras de uma quebradeira generalizada, não apenas nos EUA, mas também na Europa.

No final de 2008, a crise começaria a engolfar também os gigantes da economia real. As três principais companhias automobilísticas do país, General Motors, Ford e Chrysler, pediram ao governo um socorro de US$ 34 bilhões17. No começo de 2009, a Chrysler pediu concordata e seu controle foi parcialmente assumido pela Fiat italiana. Em junho de 2009, depois de pedir concordata, a GM foi estatizada18.

O Financial Times sintetizou essa situação na seguinte frase: “Mas, embora a frase ‘o fim de uma era’ tenha ficado gasta ultimamente, ela certamente se aplica neste caso” (FINANCIAL TIMES, 01.06.2009, p. B1).

Deixadas à solta após o processo de desregulamentação financeira pregado pela ideologia neoliberal, que propugnava a morte do Estado e o triunfo do mercado, as instituições financeiras dos EUA e da Europa haviam usado as dívidas para alavancar uma montanha de derivativos, formando verdadeiras pirâmides da especulação (SOUZA, 2009).

Mas a economia real, cuja rentabilidade não podia sustentar indefinidamente a incomensurável valorização artificial desses títulos portadores de riqueza fictícia, terminou cobrando seu preço.

No entanto, na hora da ruína financeira que afetou a todo o sistema, o Estado, do demônio em que o haviam transformado, ressuscitou como o messias para tentar salvar os donos das finanças de si mesmos.

E o governo Bush, de pregoeiro da total liberdade de mercado, negociou com o Congresso, em setembro de 2008, um novo pacote financeiro-fiscal, desta vez de US$ 850 bilhões, sendo que US$ 700 bilhões para adquirir “títulos tóxicos”19 e ações preferenciais dos bancos (sem direito a voto) e US$ 150 bilhões sob a forma de várias isenções fiscais20. O novo pacote recebeu o nome de Troubled Asset Relief Program (TARP).

Posteriormente, o presidente do Fed anunciou que não iria mais comprar títulos desvalorizados dos bancos, mas apenas ações preferenciais. Ao mesmo tempo, o Fed acelerou a queda da taxa básica de juros. Chegou a 1% em novembro de 2008 e logo depois foi estabelecida uma “banda” de 0% a 0,25%.

Os governos da Europa e do Japão seguiram o exemplo dos EUA. Os países integrantes da União Européia adotaram programas que envolviam a cifra de US$ 2 trilhões. A Alemanha, sozinha, decidiu aplicar 500 bilhões de euros, equivalentes a US$ 677 bilhões, seguida pela França com US$ 490 bilhões, a Holanda com US$ 272 bilhões, a Espanha e a Áustria com US$ 136 bilhões cada (LEITE, P. D, 14.11.2008, p. B8).

A Comissão Européia aprovou um plano de mais 200 bilhões de euros - US$ 270 bilhões (entre 1,2% e 1,5% do PIB de cada país-membro). Além disso, decidiu flexibilizar a aplicação da norma que exige déficit fiscal máximo de 3% do PIB, como forma de poder aumentar o gasto público. Estimava-se que, após os pacotes fiscais do final de 2008, o déficit ultrapassaria 4% do PIB, mas, como veremos adiante, desbordo, e muito, essa cifra.

Fora da UE, a Inglaterra, em outubro de 2008, editou um pacote de 500 bilhões de euros, equivalentes a US$ 867 bilhões (em fevereiro de 2009, o governo inglês baixaria um novo pacote envolvendo mais 560 bilhões de euros), basicamente destinados a adquirir ações dos bancos em dificuldades, mas sem direito a voto.

Paul Krugman, em apoio ao plano inglês, declarou que “a coisa natural a fazer, portanto, e a solução adotada em muitas crises do passado, seria lidar com o problema da capitalização inadequada do setor financeiro por meio de injeções de capital realizadas pelo governo, em troca de participações acionárias nas empresas beneficiadas” (KRUGMAN, 14.10.2008: B11).

O problema era que essa imensa injeção de recursos públicos nos bancos não permitia ao governo adquirir qualquer controle sobre eles, à medida que se limitava a comprar ações preferenciais, sem direito a voto. Além disso, mantinha-se o marco (des) regulatório que havia provocado a crise.

No final do ano, o primeiro-ministro japonês anunciou um programa de US$ 830 bilhões para ser implementado durante dois anos na expansão de crédito para pequenas empresas e restituições fiscais às famílias japonesas.

Assim, os EUA, a Europa e o Japão comprometeram, ao longo de 2008, recursos da ordem de US$ 7 trilhões em seus programas de “recuperação econômica” – cerca de 25% das perdas nas bolsas de valores do mundo.

Além disso, o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão reduziram fortemente a taxa básica de juros. O Banco da Inglaterra, que estava com a taxa básica de juros em 5% ao ano, realizou várias reduções até atingir 0,5% em março de 2009 – o menor nível em quase quatro séculos -, enquanto o Banco Central Europeu, de setembro de 2008 a março de 2009, baixou sua taxa, em várias etapas, de 4,25% para 1,5%. Até o Japão, que vinha mantendo uma taxa insignificante de juros, a reduziu mais ainda: de 0,50% para 0,10%.

Os bancos europeus estavam ameaçados de ir à falência porque haviam adquirido dos bancos estadunidenses os derivativos emitidos com base nas hipotecas.

A China adotou um pacote fiscal-financeiro de 4 trilhões de yuans, equivalentes a cerca de US$ 580 bilhões, destinado a fortalecer a infra-estrutura (principalmente o setor ferroviário), o setor habitacional e o mercado interno, por meio, sobretudo, de investimento na ampliação e modernização de ferrovias. Além disso, o Banco do Povo, banco central chinês, baixou a taxa anual de juros. Foi reduzida, em quatro etapas, entre setembro e novembro de 2008, de 7,47% para 5,31%.

É possível, com base nos dados aqui analisados, diagnosticar que a conjuntura econômica que se inaugurou em 2007 constitui o agravamento de uma crise iniciada desde o final dos anos de 1960, quando se revelou o início do declínio da economia dos EUA. Trata-se de mais uma crise estrutural da economia capitalista mundial, como foi a de 1914 a 1945, quando ocorreram duas guerras mundiais e a Grande Depressão.

5. Ressurge o fantasma da nacionalização

Foi nesse quadro de crise que o povo estadunidense elegeu Barack Hussein Obama, do Partido Democrata, para presidente dos Estados Unidos. Foi uma reação tanto à crise econômica quanto à política belicista e expansionista da administração Bush, política que vinha isolando os EUA até de seus aliados tradicionais21.

A situação da economia do país era tão grave que, mesmo antes de assumir, no dia 20 de janeiro de 2009, a presidência da República, Obama divulgou os aspectos gerais do programa econômico que pretendia seguir e começou a negociar sua aprovação pelo Congresso. Foi designado de Plano Americano de Recuperação e Reinvestimento. Depois de tensas negociações no Congresso, aprovou-se, ao final, um montante de US$ 787 bilhões22 (65% para investimentos e programas sociais e 35% para isenções fiscais).

Houve então uma mudança de eixo na utilização dos recursos fiscais: enquanto a administração Bush concentrava a utilização desses recursos no socorro aos bancos, o governo de Obama retornou, pelo menos parcialmene, à política keynesiana clássica: investimentos em infra-estrutura e na área social.

Mas o novo presidente teria pela frente um grande desafio. Os pacotes deixados por Bush provocaram um vertiginoso crescimento do déficit público: subiria de US$ 455 bilhões em 2008 para US$ 1,l86 trilhão em 2009, aumentando de 3,2% do PIB para 8,3% (antes do uso dos recursos programados pela nova administração), sendo o maior déficit, na relação com o PIB, no período de pós-guerra.

Depois do pacote fiscal de Obama aprovado no Congresso, o novo presidente apresentou a essa casa legislativa uma proposta orçamentária para o ano fiscal de 2009 que previa um déficit público de US$ 1,84 trilhão, correspondente a 12,9% do PIB, o maior déficit desde a II Guerra Mundial. Registre-se que o orçamento total proposto era de US$ 3,6 trilhões.

Além do pacote fiscal editado por Obama, dos US$ 700 bilhões aprovados durante a administração Bush para ajudar os bancos, já haviam sido gastos US$ 378,4 bilhões, restando US$ 321,6 bilhões para serem utilizados durante a nova administração (ANDREWS, 17.01.2009: B3).

O grande desafio seria a forma como esses recursos seriam utilizados: seria mantida a forma anterior, isto é, o uso dos recursos públicos para adquirir os “títulos tóxicos” dos bancos, ou o governo passaria a adquirir ações desses bancos, podendo, inclusive, chegar a seu controle acionário?

Segundo o editorialista do New York Times, Edmund Andrews: “Especialmente no caso do Citigroup, as perdas são tão grandes que tornam quase matematicamente impossível uma injeção de capital grande o suficiente sem assumir uma participação majoritária – ou seja, uma nacionalização” (Ibid).

Essa avaliação foi igualmente manifestada pelo editorialista do Financial Times, John Gapper: “Os governos do Reino Unido e dos Estados Unidos estão sendo pressionados a não ajudar simplesmente esses bancos, que eles já tentaram, e sim nacionalizá-los” (GAPPER, 23-25.01.2009: C10).

6. A nova onda especulativa e a guerra cambial dos EUA

A ação estatal conseguiu bloquear, momentaneamente, as tendências depressivas imediatas, mas não garantiu as condições para uma retomada sustentada do crescimento. No entanto, como a partir do segundo trimestre de 2009 começaram a aparecer sintomas de reanimação econômica na Europa, que se estenderam pelos EUA no terceiro trimestre, muitos analistas, secundados pela mídia, anunciaram o fim da crise.

No caso dos EUA, do ponto de vista da atividade econômica, o comportamento era contraditório: a partir do terceiro trimestre de 2009, o PIB deixou de cair em relação ao trimestre imediatamente anterior, mas seguia caindo em relação a igual trimestre do ano anterior; ao mesmo tempo, a taxa de desemprego seguia se expandindo23.

O alívio foi mais evidente nas finanças dos bancos. Deixaram de ter prejuízo e de ir à falência e voltaram a apresentar balanços positivos. Isso não ocorreu à toa. Como vimos nas seções anteriores, foi em função deles que foram adotadas as principais medidas para combater a crise. Examinemos o significado e o impacto dessas medidas.

A forma declarada de ajudar os bancos foi a disponibilização de recursos no redesconto e a compra dos chamados títulos tóxicos pelo governo. Certamente, ao retirar dos balanços esses títulos, substituídos por dinheiro vivo ou títulos do governo, isso contribuiu para tirar do vermelho esses balanços.

No entanto, foi a combinação entre a forte monetização da dívida mediante a emissão monetária com a prática de juro nominal quase zero que cumpriu o papel principal no salvamento e nova alavancagem do sistema bancário dos EUA. Segundo Nakano, “essa emissão de dólares, sem nenhum lastro, nos EUA chegou a triplicar seu estoque logo depois da crise financeira e, neste ano, está em média mais de 100% maior do que no período pré-crise” (NAKANO, 02.11.2009). Por sua vez, a taxa de redesconto praticada pelo Fed tem estado entre 0% e 0,25% ao ano, sendo, portanto, negativa em termos reais.

Nessas circunstâncias, de um lado, os bancos refinanciam suas dúvidas a custo real negativo, mas, principalmente, tomam emprestadas, também a custo real negativo, essas toneladas de dólares emitidos sem lastro. E o que fazem com esse dinheiro todo? Segundo Nakano, esses recursos não estão sendo reemprestados dentro do país. Isso porque,

Como a crise é de endividamento excessivo e de grande redução da riqueza financeira dos bancos e das famílias norte-americanas, que agora têm que reconstituir seu capital e aumentar a taxa de poupança, respectivamente, sabemos que redução de juros não tem o efeito convencional de retomada do crédito e, portanto, da demanda agregada como numa recessão típica (NAKANO, 15.12.2009)..

Para o economista Nouriel Roubini, os bancos estão usando esse dinheiro para adquirir ativos de alto risco, principalmente fora dos EUA:

Desde março vem ocorrendo um aumento maciço em ativos de alto risco de todo tipo - participações, preços do petróleo, energia e commodities -, um estreitamento dos "spreads" de alta rentabilidade e alta classificação e um aumento maior ainda nas classes de ativos de mercados emergentes (suas ações, obrigações e moedas). (ROUBINI, 04.11.2009).

As emissões de dólar sem lastro, tomados pelos bancos a juros reais negativos, e sua aplicação na compra maciça de ativos de alto risco, sobretudo dos países emergentes, provocam um duplo efeito: a) a intensa valorização desses ativos e o surgimento de uma nova onda especulativa; b) uma forte desvalorização do dólar, promovendo o que Nakano designou de “guerra cambial”.

Os bancos dos EUA ganham nessa corrida especulativa pela valorização dos ativos e, ao realizarem essa corrida, promovem a desvalorização do dólar. Isso porque tomam dinheiro nos EUA a juro real negativo e com ele adquirem ações e títulos nos países emergentes com elevada lucratividade. A enorme oferta de dólar em nível mundial promove sua desvalorização. Para Roubini,



negociantes estão contraindo empréstimos a juros negativos de 20% para investir em base altamente alavancada em uma massa de ativos globais de alto risco que estão subindo devido ao excesso de liquidez e a um "carry trade" maciço. Cada investidor que joga esse jogo de alto risco fica parecendo um gênio - mesmo que só navegue numa bolha imensa-, já que os retornos totais têm estado na faixa entre 50% e 70% desde março (ROUBANI, 04.11.2009).

E os bancos também ganham com a desvalorização do dólar. Por exemplo, se, ao internalizarem seu dinheiro no Brasil, fizerem o câmbio a R$ 1,80 por dólar para aplicar no mercado financeiro interno e se, na hora do retorno, o dólar houver se desvalorizado para R$ 1,70, vão precisar de menos reais para adquirir cada dólar. Então, ganham no diferencial de juros entre os EUA e o Brasil (a chamada arbitragem) e na variação cambial.

Os dois mecanismos significam a drenagem de gigantescas quantidades de recursos dos demais países, sobretudo dos chamados emergentes, para o sistema financeiro dos EUA. Algo semelhante ao que ocorreu depois da crise da dívida na década de 1980. Contraditoriamente, naquela época, para atingir esse resultado, aumentaram-se as taxas de juros nos EUA, enquanto, agora, essas taxas foram derrubadas para o rés do chão. A diferença é que, enquanto naquela época a movimentação internacional do capital se dava prioritariamente sob a forma de empréstimo, agora ocorre sob a forma de aplicações financeiras. Naquela época, sua remuneração era fixada na origem; agora, no destino.

Esses mecanismos estão promovendo a salvação dos bancos, mas estão gestando as condições para nova débâcle. Isso porque, como não se aproveitou a crise para se voltar a regulamentar o sistema financeiro, os bancos aproveitaram-se das fortes emissões de dólar, que tomam a custo real negativo, para promover nova e febril onda especulativa, que pode implodir novamente a qualquer momento.

Enquanto isso, como vimos, a economia real da principal economia não apresenta sinais sustentados de melhora. Isso porque, segundo Nakano (20.10.2009), a demanda interna dos EUA não responde positivamente, à medida que (sob a pressão do aumento do desemprego) estão caindo os salários médios, e as famílias para se proteger na crise voltam a poupar (em lugar de consumir).

A única saída para a economia real dos EUA atualmente seria o aumento das exportações. A guerra cambial e a conseqüente desvalorização do dólar, além de enriquecer os bancos, também podem favorecer suas exportações. No entanto, nada garante que essa situação se mantenha por muito tempo. Os demais países podem reagir, desvalorizando também suas moedas. A China foi a primeira a reagir, atrelando o movimento do yuan ao do dólar. Se este se desvaloriza em relação às demais moedas, ocorre fenômeno igual com aquele. O mesmo fizeram os países do Oriente Médio exportadores de petróleo.

O euro também seguiu a trajetória de queda: caiu de pouco acima de US$ 1,50 no começo da crise para cerca de US$ 1,20 em maio de 2010. Mas, neste caso, não se tratou de uma decisão formal dos governos europeus. A forte desvalorização da moeda europeia decorre do rebatimento da crise na região. Como assinalamos anteriormente, a crise deflagrada dos EUA espraiou-se pela Europa não apenas devido à situação estrutural de interdependência econômica entre as duas áreas, mas, também, em função de a banca europeia haver se empanturrado de títulos derivados nas hipotecas estadunidenses.

A reação dos governos europeus individualmente ou da União Europeia, diante da crise, foi semelhante à dos EUA: injetaram recursos fiscais e monetários no sistema financeiro em estado falimentar; a diferença, em alguns casos, consistiu em adquirir ações dos bancos, em lugar de comprar os títulos tóxicos, como fez-se nos EUA. O resultado foi o violento incremento dos déficits fiscais, superando, em muitos casos, os 10% do PIB, quando a norma europeia para a integração na união monetária exigia que o país postulante atingisse, no máximo, 3%. O crescimento do déficit engendrou, como filho dileto, o crescente endividamento público.

A promoção do gasto público à moda keynesiana - isto é, a injeção de recursos públicos na economia real -, ao acarretar a dinamização do mercado interno e, portanto, da atividade econômica, pode traduzir-se em melhoria da arrecadação fiscal e, por conseguinte, na melhoria das contas públicas a longo prazo. No entanto, a drenagem de recursos públicos para o sistema financeiro, como foi feito, não garante a reativação da economia real; em decorrência, não enseja a redução sustentada do déficit público.

Assim, a tendência seria a manutenção do quadro de fragilidade financeira do setor público, sobretudo nos países que foram mais longe na implementação de “pacotes fiscais” de salvamento dos bancos a partir de 2008 ou naqueles que padecem de maior debilidade econômica. É o caso, por exemplo, dos países menos desenvolvidos da União Européia ou daqueles que, antes da crise, já amargavam um forte déficit fiscal ou uma grande dívida pública, como Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Esses países poderiam ser alvos de ataques especulativos por parte dos grandes bancos ou fundos de aplicação financeira.

O teste inicial dos especuladores foi feito com a Grécia no começo de 2010, que se encontrava fortemente endividada, sobretudo perante bancos franceses e alemães, e havia atingido um déficit público de 13,6% do PIB. A Grécia, engessada pela moeda única, não tem como desvalorizar a moeda a fim de melhorar a balança comercial e obter os recursos necessários ao pagamento dos encargos financeiros da dívida. Sobraram duas alternativas: ou realizar a moratória da dívida ou submeter-se a um pacote de resgate financeiro.

O governo grego optou pelo segundo caminho. Patrocinado pelo BCE, o FMI e os principais governos europeus, foi anunciado um pacote de 110 bilhões de euros (mais de 40% do PIB) para “socorrer” a Grécia – na verdade, socorrer aos bancos credores do governo grego, sobretudo aos bancos franceses e alemães. O governo, que havia “resgatado” os bancos, agora, em benefício dos próprios bancos, estava sendo “resgatado”. Em contrapartida, comprometeu-se a implementar um severo programa de corte dos gastos públicos (em torno de 30 bilhões de euros em três anos), sobretudo nas aposentadorias e nos salários dos servidores, como forma de aliviar o déficit público e criar as condições para honrar os novos empréstimos.

A banca internacional não se deu por satisfeita com o “pacote grego” e ameaçava promover igual ataque especulativo sobre os demais países mais frágeis da Europa. Era por isso que se dizia que a crise grega tendia a se espalhar para o resto da Europa e daí para o resto do mundo. Os governos europeus sucumbiram a essa chantagem e se apressaram a aprovar, em maio de 2010, um resgate financeiro de 1 trilhão de euros para o conjunto da Europa.

A culminação da unificação europeia por meio da moeda única e do banco central único, numa época em que preponderava a financeirização e a desregulamentação da economia mundial, revelou, assim, seus limites. Ou a União Européia repensa seriamente os fundamentos de seu processo de unificação ou corre o risco de vê-lo desabar. Como disse a chanceler alemã, Ângela Merkel, diante de seu parlamento, no dia 19 de maio de 2010: “O euro está em perigo”.

* O autor é doutor em Economia pela Universidad Nacional Autônoma de México, com pós-Doutoramento em Economia pela Universidade de São Paulo; é professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e professor visitante da Universidade Federal da Integração Latino-Americana; é autor de vários livros sobre economia mundial e economia brasileira, destacando-se Economia brasileira contemporânea – de Getúlio a Lula e Economia internacional contemporânea – da depressão de 1929 ao colapso financeiro de 2008, ambos editados pela Atlas; endereço: Rua Coronel Gomes Pimentel, 51, Vila Mariana, CEP 04111-040, São Paulo, SP; tel.: (11) 5549 6155; endereço eletrônico: araujonilson@terra.com.br.
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1 Nos primeiros 15 meses de recessão, iniciada em dezembro de 2007, as famílias dos EUA já haviam perdido US$ 16,5 trilhões – mais do que o PIB anual do país – de riqueza financeira, considerando a depreciação do valor aplicado nas bolsas de valores e do valor dos imóveis, conforme cálculo do Instituto de Finanças Internacionais, órgão que reúne 380 grandes bancos.

2 O índice caiu de 13.043,96 pontos em 2 de janeiro de 2008 para 8.688,39 em 30 de dezembro do mesmo ano.

3 Em inglês, National Bureau of Economic Research (NBER); a agência é formada por um grupo de respeitáveis acadêmicos dos EUA.

4 As reservas cambiais chinesas montavam, ao final de 2008, em US$ 1,95 trilhão.


5 Neste caso, refinanciava-se um imóvel já quitado ou um imóvel parcialmente quitado que havia se valorizado no bojo da especulação imobiliária.

6 Como conseqüência, a dívida hipotecária em dezembro de 2005 já era de US$ 8,66 trilhões (69,4% do PIB) (FINANCIAL MARKETS CENTER, 19.03.2006).

7 Segundo Yoshiaki Nakano, “desde o início do boom imobiliário em 2000, os preços reais dos imóveis dobraram até seu pico em 2006” (NAKANO, 24.02.2008, p. B4).

8 Em 2003, a taxa básica praticada pelo Banco da Reserva Federal, o banco central dos EUA, chegou ao patamar de 1% ao ano.

9 O ritmo de despejos passou de 1,2 milhão de imóveis em 2006 para 2,2 milhões em 2007 e 2,4 milhões nos dez primeiros meses de 2008 (CANZIAN, 26.11.2008, p. B3). Foi uma das maiores transferências patrimoniais da história.

10 De acordo com o índice S&P-Case\Shiller, em 2007, esse valor caiu cerca de 7% e em 2008 mais 19%; a queda foi de 27% desde o “pico” em meados de 2006, levando o preço das residências em 20 grandes áreas metropolitanas dos EUA ao menor patamar desde abril de 2004 .

11 Estimava-se no começo da crise que seus prejuízos dentro dos EUA podiam variar de US$ 400 bilhões a US$ 700 bilhões, mas, no início de 2009, o economista Paul Krugman (23-25.01.2009, p. 5) apresentou estimativa de US$ 1 trilhão, enquanto o economista Nouriel Roubini, que inicialmente estimara prejuízos de US$ 1,15 trilhão, reestimou-os depois para cerca de US$ 3 trilhões.

12 Se o prejuízo fosse de apenas US$ 400 bilhões, “esses bancos [contrairiam] a oferta de crédito em US$ 2 trilhões” (Cf. NAKANO, 24.02.2008, p. B4).


13 Segundo o Escritório Federal de Controle da Moeda dos EUA, US$ 200,4 trilhões estão em mãos de bancos estadunidenses, sendo que US$ 193 trilhões em apenas cinco bancos: JP Morgan, Citibank, Bank of América, Goldman Sachs e Wells Fargo. Registre-se que o total de ativos desses bancos não passa de US 4,6 trilhões. Isso é o que chama de “alavancagem”.

14 Reduziu-a, em três etapas, de 5,25% ao ano para 4,25%; derrubou-a novamente no começo de 2008 para 3%.

15 Na mesma época, o terceiro maior banco de investimento do país, ameaçado de insolvência, foi adquirido por US$ 44 bilhões pelo Bank of America, tornando este o maior banco estadunidense.

16 Mesmo depois de o governo haver injetado, a partir de setembro de 2008, US$ 150 bilhões nessa instituição, ela anunciou um prejuízo de US$ 61,7 bilhões no último trimestre do ano, completando um prejuízo anual de US$ 99,3 bilhões (COM PREJUÍZO, 03.03.2009).

17 Já havia sido aprovado antes um pacote de ajuda de US$ 25 bilhões.

18 O governo dos EUA assumiu 60% de seu controle acionário, dividindo o resto das ações da seguinte forma: 17,5% para os trabalhadores da empresa, 12,5% para o governo do Canadá e 10% para os credores (os quais converteram créditos em ações (GM FECHA, 02.06.2009, p. B1).

19 Títulos que haviam perdido parte de seu valor, no bojo do colapso financeiro, também conhecidos como “títulos podres”.

20 Esses US$ 150 bilhões foram incluídos no pacote pelo Congresso. Até a saída de Bush, em janeiro de 2009, os US$ 378,4 bilhões utilizados haviam beneficiado 257 bancos, sendo que 61% dos recursos foram destinados a sete grandes bancos.

21 Obama, além de afro-descendente e de haver estudado em escola muçulmana na Indonésia, era considerado um dos senadores mais à esquerda no espectro político dos EUA, havendo se posicionado contra a política exterior de Bush, sobretudo contra a guerra no Iraque desde o início.


22 Cabe registrar que, na Câmara, o programa não contou com um só voto dos republicanos, e no Senado contou com apenas dois. Lembre-se de que eles voltaram a favor do programa de Bush, que entregava dinheiro ao sistema financeiro.

23 A taxa de desemprego já havia superado os 10% da força de trabalho.




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