A concepçÃo funcional da educaçÃO



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Encontro22.10.2018
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A CONCEPÇÃO FUNCIONAL DA EDUCAÇÃO
“1. Nos países “civilizados” a escola, pública ou particular (com algumas felizes exceções), consagra um modelo de heresias fisiológicas, psicológicas e biológicas, contra as quais as Ligas de Higiene Mental devem lutar sem tréguas. Heresias morais, também, porque quantas vezes a escola não terá matado na criança o gosto pelo trabalho e quantas não terá projeto sobre os anos da infância uma sobra que a memória não apaga?

2. Para desempenhar sua missão da maneira mais adequada, a escola deve inspirar-se sem uma concepção funcional da educação e do ensino. Essa concepção consiste em tomar a criança como centro dos programas e dos métodos escolares e considerar a própria educação como adaptação progressiva dos processos mentais a certas ações determinadas por certos desejos.

3. A mola da educação deve ser não o temor do castigo, nem mesmo o desejo da recompensa, mas o interesse, o interesse profundo pela coisa que se trata de assimilar ou de executar. A criança não deve trabalhar e portar-se bem para obedecer, e sim porque sinta que essa maneira de agir é desejável. Numa palavra, a disciplina interior deve substituir a disciplina exterior.

4. A escola deve preservar o período da infância, que ela muita vez encurta, não observando fases que deveriam ser respeitadas.

5. A educação deve visar o desenvolvimento das funções intelectuais e morais, e não encher a cabeça de um mundo de conhecimentos que, quando não logo esquecidos, são quase sempre conhecimentos mortos, parados na memória como corpos estranhos, sem relação com a vida.

6. A escola deve ser ativa, isto é, mobilizar a atividade da criança. Deve ser mais um laboratório que um auditório. Para isso, poderá tirar útil partido do jogo, que estimula ao máximo a atividade da criança.

7. A escola deve fazer amar o trabalho. Muita vez ensina a detestá-lo criando, em torno das obrigações que impõe, associações afetivas desagradáveis. É, pois, indispensável que a escola seja um ambiente de alegria, onde a criança trabalhe com entusiasmo.

8. Como a vida que espera a criança ao sair da escola é vivida num meio social, apresentar o trabalho e as matérias escolares sob aspecto vital é apresentá-los também sob seu aspecto social, como instrumentos de ação social (o que realmente são). A escola tem esquecido demasiado esse aspecto social e, arrancando o trabalho de seu contexto natural, tem feito dele algo de vazio e artificial.

9. Nessa nova concepção da educação, a função do mestre é inteiramente outra. O mestre já não deve ser um onisciente encarregado de formar a inteligência e encher o espírito de conhecimentos. Deve ser um estimulador de interesses, despertando necessidades intelectuais e morais. Deve ser para os seus alunos muito mais um colaborador do que um professor ex-cathedra.

10. Essa nova concepção da escola e do educador implica uma transformação completa na formação dos professores, do ensino de todos os graus. Essa preparação deve ser, antes de tudo, psicológica.

11. A observação mostra que um indivíduo só rende na medida em que se apela para suas capacidades naturais, e que é perder tempo forçar o desenvolvimento de capacidades que ele não possua. É, pois, necessário que a escola leve mais em conta as aptidões individuais e se aproxime do ideal da “escola sob medida”. Poder-se-ia alcançar esse ideal estabelecendo, nos programas, ao lado de um mínimo comum e obrigatório, relativo às disciplinas indispensáveis, certo número de matérias a escolher, que os interessados poderiam aprofundar a seu gosto, movidos do interesse e não da obrigação de fazer exame.

12. Uma democracia, mais do que qualquer outro regime, tem necessidade de uma escola intelectual e moral. É, pois, do interesse da sociedade, como dos indivíduos, selecionar as crianças bem-dotadas e colocá-las nas condições mais adequadas ao desenvolvimento de suas aptidões.



13. As reformas preconizadas acima só se tornarão possíveis se for profundamente transformado o sistema de exames. A necessidade do exame leva os mestres, mesmo a contragosto, a tratar mais da sobrecarga da memória que do desenvolvimento da inteligência. Salvo, talvez, para o mínimo de conhecimentos indispensáveis, os exames deveriam ser suprimidos e substituídos por uma apreciação de trabalhos individuais realizados durante o ano, ou por testes adequados.”
CLAPARÈDE, Édouard. A educação funcional. São Paulo, Nacional, 1958.

in GADOTTI, Moacir. História Das Idéias Pedagógicas. São Paulo, Ática, 1993.




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