A compilação que ora lhe apresentamos, leitor, é conseqüência de uma reunião de dois textos dispersos do autor mineiro Bernard



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O Elixir do Pajé

BERNADO GUIMARÃES




ASSOCIAÇÃO ACERVOS LITERÁRIOS

BIBLIOTECA VIRTUAL

2005

Notas para a presente edição


Ednaldo Cândido Moreira Gomes
A compilação que ora lhe apresentamos, caro leitor, é resultado de uma reunião de três textos, originalmente dispersos, do autor mineiro, Bernardo Guimarães. Trata-se de três obras com circulação clandestina no século XIX.

A presente edição foi baseada, principalmente, na edição de O Elixir do Pajé e da Origem do mênstruo de 1958, edição rara para bibliófilos. Já a Orgia dos Duendes, foi baseada num texto originário da biblioteca nacional.

Esses textos são reveladores de um Bernardo Guimarães não somente avesso àquele de a Escrava Isaura, mas, também, demonstram um autor com um posicionamento crítico e polêmico, peculiar, dentro da literatura brasileira. Se, comparados com a sua produção crítica, publicada em A Atualidade, periódico que circulou no Rio de Janeiro, esses textos vão ao encontro à sua apresentação, a respeito da sátira. Nesta, Bernardo Guimarães destaca a importância da sátira, na cultura clássica, como artifício para se combater aos vícios e aos modismos.
“censurar os vícios da época, profligar os costumes reprovados (...) castigar o erro e o preconceito, sondar com mão segura (...) ridicularizar praticas desaprovadas pelo bom senso, servir a causa da moral sem matar o interesse da leitura” (Guimarães, Bernardo. Sátiras, epigramas e outras poesias do Sr. Padre José Joaquim Correia de Almeida: segundo volume. IN: A Atualidade. Rio de Janeiro: N. 37.p.2-3.16 jul. 1859.)

Salienta Flora Süssekind (1984:150), num texto intitulado Bernardo Guimarães: romantismo com pé-de-cabra, o fato de Bernardo Guimarães ter produzido, com tais textos, “uma das melhores e mais características obras poéticas do romantismo brasileiro e, talvez por isso mesmo, por sua diferença, de limitada repercussão”.



Enfim, caro leitor, agora os desfrute... Este Elixir nada convencional e paródico de um romantismo idealizado...

A Orgia dos Duendes




Bernardo Guimarães

Digitado por Ednaldo Cândido Moreira Gomes

I



Meia-noite soou na floresta

No relógio de sino de pau;

E a velhinha, rainha da festa,

Se assentou sobre o grande jirau.
Lobisome apanhava os gravetos

E a fogueira no chão acendia,

Revirando os compridos espetos,

Para a ceia da grande folia.
Junto dele um vermelho diabo

Que saíra do antro das focas,

Pendurado num pau pelo rabo,

No borralho torrava pipocas.
Taturana, uma bruxa amarela,

Resmungando com ar carrancudo,

Se ocupava em frigir na panela

Um menino com tripas e tudo.
Getirana com todo o sossego

A caldeira da sopa adubava

Com o sangue de um velho morcego,

Que ali mesmo co’as unhas sangrava.
Mamangava frigia nas banhas

Que tirou do cachaço de um frade,

Adubado com pernas de aranhas,

Fresco lombo de um frei dom abade.
Vento sul sobiou na cumbuca,

Galo-preto na cinza espojou;

Por três vezes zumbiu a matruca,

No cupim o macuco piou.
E a rainha co’as mãos ressequidas

O sinal por três vezes foi dando,

A corte das almas perdidas

Desta sorte ao batuque chamando:
"Vinde, ó filhas do oco do pau,

Lagartixas do rabo vermelho,

Vinde, vinde tocar marimbau,

Que hoje é festa de grande aparelho.
Raparigas do monte das cobras,

Que fazeis lá no fundo da brenha?

Do sepulcro trazei-me as abobras,

E do inferno os meus feixes de lenha.
Ide já procurar-me a bandurra,

Que me deu minha tia Marselha,

E que aos ventos da noite sussurra,

Pendurada no arco-da-velha.
Onde estás, que inda aqui não te vejo,

Esqueleto gamenho e gentil?

Eu quisera acordar-te c’um beijo

Lá no teu tenebroso covil.
Galo-preto da torre da morte,

Que te aninhas em leito de brasas,

Vem agora esquecer tua sorte,

Vem-me em torno arrastar tuas asas.
Sapo-inchado, que moras na cova

Onde a mão do defunto enterrei,

Tu não sabes que hoje é lua nova,

Que é o dia das danças da lei?
Tu também, ó gentil Crocodilo,

Não deplores o suco das uvas;

Vem beber excelente restilo

Que eu do pranto extraí das viúvas.
Lobisome, que fazes, meu bem,

Que não vens ao sagrado batuque?

Como tratas com tanto desdém,

Quem a c’roa te deu de grão-duque?”

II



Mil duendes dos antros saíram

Batucando e batendo matracas,

E mil bruxas uivando surgiram,

Cavalgando em compridas estacas.
Três diabos vestidos de roxo

Se assentaram aos pés da rainha,

E um deles, que tinha o pé coxo,

Começou a tocar campainha.
Campainha, que toca, é caveira

Com badalo de casco de burro,

Que no meio da selva agoureira

Vai fazendo medonho sussurro.
Capetinhas trepados nos galhos

Com o rabo enrolado no pau,

Uns agitam sonoros chocalhos,

Outros põem-se a tocar marimbau.
Crocodilo roncava no papo

Com ruído de grande fragor;

E na inchada barriga de um sapo

Esqueleto tocava tambor.
Da carcaça de um seco defunto

E das tripas de um velho barão,

De uma bruxa engenhosa o bestunto

Armou logo feroz rabecão.
Assentado nos pés da rainha

Lobisome batia a batuta

Co’a canela de um frade, que tinha

Inda um pouco de carne corruta.
Já ressoam timbales e rufos,

Ferve a dança do cateretê;

Taturana, batendo os adufos,

Sapateia cantando — o le rê!
Getirana, bruxinha tarasca,

Arranhando fanhosa bandurra,

Com tremenda embigada descasca

A barriga do velho Caturra.
O Caturra era um sapo papudo

Com dois chifres vermelhos na testa,

E era ele, a despeito de tudo,

O rapaz mais patusco da festa.
Já no meio da roda zurrando

Aparece a mula-sem-cabeça,

Bate palmas a súcia berrando

  • Viva, viva a Sra. condessa!...



E dançando em redor da fogueira

Vão girando, girando sem fim;

Cada qual uma estrofe agoureira

Vão cantando alternados assim:

III



TATURANA
Dos prazeres de amor as primícias,

De meu pai entre os braços gozei;

E de amor as extremas delícias

Deu-me um filho, que dele gerei.
Mas se minha fraqueza foi tanta,

De um convento fui freira professa;

Onde morte morri de uma santa;

Vejam lá, que tal foi esta peça.
GETIRANA
Por conselhos de um cônego abade

Dois maridos na cova soquei;

E depois por amores de um frade

Ao suplício o abade arrastei.
Os amantes, a quem despojei,

Conduzi das desgraças ao cúmulo,

E alguns filhos, por artes que sei,

Me caíram do ventre no túmulo.
GALO-PRETO
Como frade de um santo convento

Este gordo toutiço criei;

E de lindas donzelas um cento

No altar da luxúria imolei.
Mas na vida beata de ascético

Mui contrito rezei, jejuei,

Té que um dia de ataque apoplético

Nos abismos do inferno estourei.
ESQUELETO

Por fazer aos mortais crua guerra

Mil fogueiras no mundo ateei;

Quantos vivos queimei sobre a terra,

Já eu mesmo contá-los não sei.


Das severas virtudes monásticas

Dei no entanto piedosos exemplos;

E por isso cabeças fantásticas

Inda me erguem altares e templos.
MULA-SEM-CABEÇA
Por um bispo eu morria de amores,

Que afinal meus extremos pagou;

Meu marido, fervendo em furores

De ciúmes, o bispo matou.
Do consórcio enjoei-me dos laços,

E ansiosa quis vê-los quebrados,

Meu marido piquei em pedaços,

E depois o comi aos bocados.
Entre galas, veludo e damasco

Eu vivi, bela e nobre condessa;

E por fim entre as mãos do carrasco

Sobre um cepo perdi a cabeça.
CROCODILO
Eu fui papa; e aos meus inimigos

Para o inferno mandei c’um aceno;

E também por servir aos amigos

Té nas hóstias botava veneno.
De princesas cruéis e devassas

Fui na terra constante patrono;

Por gozar de seus mimos e graças

Opiei aos maridos sem sono.
Eu na terra vigário de Cristo,

Que nas mãos tinha a chave do céu,

Eis que um dia de um golpe imprevisto

Nos infernos caí de boléu.

LOBISOME
Eu fui rei, e aos vassalos fiéis

Por chalaça mandava enforcar;

E sabia por modos cruéis

As esposas e filhas roubar.
Do meu reino e de minhas cidades

O talento e a virtude enxotei;

De michelas, carrascos e frades,

Do meu trono os degraus rodeei.
Com o sangue e suor de meus povos

Diverti-me e criei esta pança,

Para enfim, urros dando e corcovos,

Vir ao demo servir de pitança.
RAINHA
Já no ventre materno fui boa;

Minha mãe, ao nascer, eu matei;

E a meu pai por herdar-lhe a coroa

Eu seu leito co’as mãos esganei.
Um irmão mais idoso que eu,

C’uma pedra amarrada ao pescoço,

Atirado às ocultas morreu

Afogado no fundo de um poço.
Em marido nenhum achei jeito;

Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,

Uma noite co’as colchas do leito

Abafei para sempre os queixumes.
Ao segundo, da torre do paço

Despenhei por me ser desleal;

Ao terceiro por fim num abraço

Pelas costas cravei-lhe um punhal.
Entre a turba de meus servidores

Recrutei meus amantes de um dia;

Quem gozava meus régios favores

Nos abismos do mar se sumia.
No banquete infernal da luxúria

Quantos vasos aos lábios chegava,

Satisfeita aos desejos a fúria,

Sem piedade depois os quebrava.
Quem pratica proezas tamanhas

Cá não veio por fraca e mesquinha,

E merece por suas façanhas

Inda mesmo entre vós ser rainha.

IV



Do batuque infernal, que não finda,

Turbilhona o fatal rodopio;

Mais veloz, mais veloz, mais ainda

Ferve a dança como um corrupio.
Mas eis que no mais quente da festa

Um rebenque estalando se ouviu

Galopando através da floresta

Magro espectro sinistro surgiu.

Hediondo esqueleto aos arrancos


Chocalhava nas abas da sela;

Era a Morte, que vinha de tranco

Amontada numa égua amarela.
O terrível rebenque zunindo

A nojenta canalha enxotava;

E à esquerda e à direita zurzindo

Com voz rouca desta arte bradava:
"Fora, fora! esqueletos poentos,

Lobisomes, e bruxas mirradas!

Para a cova esses ossos nojentos!

Para o inferno essas almas danadas!”
Um estouro rebenta nas selvas,

Que recendem com cheiro de enxofre;

E na terra por baixo das relvas

Toda a súcia sumiu-se de chofre.

V



E aos primeiros albores do dia

Nem ao menos se viam vestígios

Da nefanda, asquerosa folia,

Dessa noite de horrendos prodígios.

E nos ramos saltavam as aves

Gorjeando canoros queixumes,

E brincavam as auras suaves

Entre as flores colhendo perfumes.
E na sombra daquele arvoredo,

Que inda há pouco viu tantos horrores,

Passeando sozinha e sem medo

Linda virgem cismava de amores.

ELIXIR DO PAJÉ

Digitado por Ednaldo Candido Moreira Gomes

No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem dúvida, pode salvar do naufrágio do esquecimento poesias tão excelentes em seu gênero, e cuja perpetuidade alguns manuscritos, por aí dispersos e raros, não podem garantir das injúrias do tempo.

A lira do poeta mineiro tem todas as cordas; ele sabe ferir em todos os tons e ritmos diferentes com mão de mestre.

Estas poesias podem se chamar erótico-cômicas. Quando B. G. escrevia estes versos inimitáveis, sua musa estava de veia para fazer rir, e é sabido que para fazer rir são precisos talentos mais elevados do que para fazer chorar.

Estes versos não são dedicados às moças e aos meninos. Eles podem ser lidos e apreciados pelas pessoas sérias, que os encarem pelo lado poético, sem ofensa da moralidade e nem tampouco das consciências pudicas e delicadas.

Repugnam-nos os contos obscenos e imundos, quando não tem o perfume da poesia; esta, porém, encontrará acesso e acolhimento na classe dos leitores de um gosto delicado e no juízo destes será um florão de mais juntado à coroa que B.G. tem sabido conquistar pela força do seu gênio.


Ouro Preto, 7 de maio de 1875.

Que tens, caralho, que pesar te oprime

Que assim te vejo murcho e cabisbaixo,

sumido entre essa basta pentelheira,

mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste

para trás tanto vergas o focinho,

que cuido vais beijar, lá no traseiro,

teu sórdido vizinho!
Que é feito desses tempos gloriosos

em que erguias as guelras inflamadas,

na barriga me dando de contínuo

tremendas cabeçadas?
Qual hidra furiosa, o colo alçando,

co'a sanguinosa crista açoita os mares,

e sustos derramando

por terras e por mares,

aqui e além atira mortais botes,

dando co'a cauda horríveis piparotes,

assim tu, ó caralho,

erguendo o teu vermelho cabeçalho,

faminto e arquejante,

dando em vão rabanadas pelo espaço,

pedias um cabaço!
Um cabaço! Que era este o único esforço,

única empresa digna de teus brios;

porque surradas conas e punhetas

são ilusões, são petas,

só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?

Quem sepultou-te nesse vil marasmo?

Acaso pra teu tormento,

indefluxou-te algum esquentamento?

Ou em pívias estéreis te cansaste,

ficando reduzido a inútil traste?

Porventura do tempo a destra irada

quebrou-te as forças, envergou-te o colo,

e assim deixou-te pálido e pendente,

olhando para o solo,

bem como inútil lâmpada apagada

entre duas colunas pendurada?
Caralho sem tensão é fruta chocha,

sem gosto nem cheirume,

lingüiça com bolor, banana podre,

é lampião sem lume

teta que não dá leite,

balão sem gás, candeia sem azeite.
Porém não é tempo ainda

de esmorecer,

pois que teu mal ainda pode

alívio ter.
Sus, ó caralho meu, não desanimes,

que ainda novos combates e vitórias

e mil brilhantes glórias

a ti reserva o fornicante Marte,

que tudo vencer pode co'engenho e arte.
Eis um santo elixir miraculoso

que vem de longes terras,

transpondo montes, serras,

e a mim chegou por modo misterioso.
Um pajé sem tesão, um nigromante

das matas de Goiás,

sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,

foi ter com o demônio,

a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,

que já de encarquilhado,

de velho e de cansado,

quase se lhe sumia entre o pentelho.


À meia-noite, à luz da lua nova,

co'os manitós falando em uma cova,

compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,

por sua próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole,

com uma gota desse feitiço,

sentiu de novo renascer os brios

de seu velho chouriço!


E ao som das inúbias,

ao som do boré,

na taba ou na brenha,

deitado ou de pé,

no macho ou na fêmea

de noite ou de dia,

fodendo se via

o velho pajé!


Se acaso ecoando

na mata sombria,

medonho se ouvia

o som do boré

dizendo: "Guerreiros,

ó vinde ligeiros,

que à guerra vos chama

feroz aimoré",

- assim respondia

o velho pajé,

brandindo o caralho,

batendo co'o pé:

- Mas neste trabalho,

dizei, minha gente,

quem é mais valente,

mais forte quem é?

Quem vibra o marzapo

com mais valentia?

Quem conas enfia

com tanta destreza?

Quem fura cabaços

com mais gentileza?"

E ao som das inúbias,

ao som do boré,

na taba ou na brenha,

deitado ou de pé,

no macho ou na fêmea,

fodia o pajé.

Se a inúbia soando

por vales e outeiros,

à deusa sagrada

chamava os guerreiros,

de noite ou de dia,

ninguém jamais via

o velho pajé,

que sempre fodia

na taba na brenha,

no macho ou na fêmea,

deitando ou de pé.

E o duro marzapo,

que sempre fodia,

qual rijo tacape

a nada cedia!

Vassoura terrível

dos cus indianos,

por anos e anos,

fodendo passou,

levando de rojo

donzelas e putas,

no seio das grutas

fodendo acabou!

E com sua morte
milhares de gretas

fazendo punhetas

saudosas deixou...


Feliz caralho meu, exulta, exulta!

Tu que aos conos fizeste guerra viva,

e nas guerras de amor criaste calos,

eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;

alimpa esse bolor, lava essa cara,

que a Deusa dos amores,

já pródiga em favores

hoje novos triunfos te prepara.

Graças ao santo elixir

Do glorioso pajé,

vai hoje ficar em pé

o meu cansado caralho!
Vinde, ó putas e donzelas,

vinde abrir as vossas pernas

ao meu tremendo marzapo,

que a todas, feias ou belas,

com caralhadas eternas

porei as cricas em trapo...

Graças ao santo elixir

que herdei do pajé bandalho,

vai hoje ficar em pé

o meu cansado caralho!


Sus, caralho! Este elixir

ao combate hoje tem chama

e de novo ardor te inflama

para as campanhas do amor!

Não mais ficará à-toa,

nesta indolência tamanha,

criando teias de aranha,

cobrindo-te de bolor...

Este elixir milagroso,

o maior mimo na terra,

em uma só gota encerra

quinze dias de tesão...

Do macróbio centenário

ao esquecido mazarpo,

que já mole como um trapo,

nas pernas balança em vão,

dá tal força e valentia

que só com uma estocada

põe a porta escancarada

do mais rebelde cabaço,

e pode em cento de fêmeas

foder de fio a pavio,

sem nunca sentir cansaço...

Eu te adoro, água divina,

santo elixir da tesão,

eu te dou meu coração,

eu te entrego a minha porra!

Faze que ela, sempre tesa,

e em tesão sempre crescendo,

sem cessar viva fodendo,

até que fodendo morra!

Sim, faze que este caralho,

por tua santa influência,

a todos vença em potência,

e, com gloriosos abonos,

seja logo proclamado,

vencedor de cem mil conos...

E seja em todas as rodas,

d'hoje em diante respeitado

como herói de cem mil fodas,

por seus heróicos trabalhos,

eleito rei dos caralhos!
FIM

A Origem do Mênstruo

Digitado por Ednaldo Candido Moreira Gomes



De uma fábula inédita de Ovídio, achada

nas escavações de Pompéia e vertida

em latim vulgar por Simão de Nuntua.
Stava Vênus gentil junto da fonte

fazendo o seu pentelho,

com todo o jeito, pra que não ferisse

das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite

ao grande pai Anquises,

o qual, com ela, se não mente a fama,

passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois resolvia

na mente altas idéias:

- ia gerar naquela heróica foda

o grande e pio Enéias.
Mas a navalha tinha o fio rombo,

e a deusa, que gemia,

arrancava os pentelhos e, peidando,

caretas mil fazia!
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,

acaso ali passava,

e vendo a deusa assim tão agachada,

julgou que ela cagava...
Essa ninfeta travessa e petulante

era de gênio mau,

e por pregar um susto à mãe do Amor

atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A Branca mão mimosa

se agita alvoroçada,

e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)

tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,

corre pupúrea veia,

e nobre sangue do divino cono

as águas purpurcia...
(É fama que quem bebe dessas águas

jamais perde a tensão

e é capaz de foder noites e dias,

até no cu de um cão!)


- "Ora porra" - gritou a deusa irada,

e nisso o rosto volta...

E a ninfa, que conter-se não podia,

uma risada solta.
A travessa menina mal pensava

que, com tal brincadeira,

ia ferir a mais mimosa parte

da deusa regateira...
- "Estou perdida!" - trêmula murmura

a pobre Galatéia,

vendo o sangue correr do rósco cono

da poderosa déia...
Mas era tarde! A Cípria, furibunda,

por um momento a encara,

e, após instantes, com severo acento,

nesse clamor dispara:
"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,

que crime cometeste!

Que castigo há no céu, que punir possa

um crime como este?!
Assim, por mais de um mês inutilizas

o vaso das delícias...

E em que hei de gastar das longas noites

as horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...

Em mísero abandono,

que é que há de fazer, por tanto tempo,

este faminto cono?...
Ó Adonis! Ó Júpiter potentes!

E tu, mavorte invito!

E tu, Aquiles! Acudi de pronto

da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava

tornar bem fresco e limpo

para recreio e divinal regalo

dos deuses do Alto Olimpo.


Vede seu triste estado, ó! Que esta vida

em sangue já se esvai-me!

Ó Deus, se desejais ter foda certa

vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o teu cono sempre atormente

perpétuas comichões,

e não aches quem jamais nele queira

vazar os seus colhões...
Em negra podridão imundos vermes

roam-te sempre a crica

e à vista dela sinta-se banzeira

a mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,

verta fétidos jorros,

que causem tédio e nojo a todo mundo,

até mesmo aos cachorros!"
Ouviu-lhe estas palavras piedosas

do Olimpo o Grão-Tonante,

que em pívia ao sacana do Cupido

comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,

das lástimas que ouviu,

manda ao menino que, de pronto, acuda

à puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro

de concha alabastrina,

que quatro aladas porras vão tirando

na esfera cristalina
Cupido que as conhece e as rédeas bate

da rápida quadriga,

co'a voz ora as alenta, ora co'a ponta

das setas as fustiga.
Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,

em mísera agonia,

com seu sangue divino o verde musgo

de púrpura tingia...


No carro a toma e num momento chega

à olímpica morada,

onde a turba dos deuses, reunida,

a espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se a aparelha

para a venérea chaga,

feliz porque naquele curativo

espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,

mil pragas vomitou...

Marte arranca um suspiro que as abóbadas

celestes abalou...
Sorriu o furto a ciumenta Juno,

lembrando o antigo pleito,

e Palas, orgulhosa lá consigo,

resmungou: - "Bem-feito!"
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios

o sangue que escorria,

e de tesão terrível assaltado,

conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,

em seus divinos braços,

Jove sustém a filha, acalentando-a

com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,

com carrancudo aspeto,

e erguendo a voz troante, fundamenta

e lavra este DECRETO:
-"Suspende, ó filha, os lamentos justos

por tão atroz delito,

que no tremendo Livro do Destino

de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado

o teu divino cono,

e as imprecações que fulminaste

agora sanciono.
Mas, inda é pouco: - a todas as mulheres

estenda-se o castigo

para expiar o crime que esta infame

ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,

toda humana crica,

de hoje em diante, lá de tempo em tempo,

escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre

o cono da mulher,

com lágrimas de sangue, o caso infando,

enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! com voz atroadora

os deuses todos urram!

E os ecos das olímpicas abóbadas,

Amém! Amém! Sussurram...


ASSOCIAÇÃO ACERVOS LITERÁRIOS
Em colaboração com o CELLB/UFOP


Edição e Informática: Ednaldo Cândido Moreira Gomes




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