2. trabalhos relevantes sobre o comunitarismo



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4.6 Cooperação no trabalho


Outro aspecto que se projecta no modo da vida comunitária é a entreajuda recíproca dos habitantes no desempenho dos trabalhos tradicionais. Estas são práticas pouco ou nada regulamentadas, dependidas, por vezes, de nivelamento socio-económico.

A entreajuda familiar surge da urgência e intensidade das tarefas agrícolas, geralmente nas ceifas e malhadas. Aqui a ajuda dos parentes e amigos vizinhos de aldeia constitui uma solução racional. É pois a obrigação moral de quem foi beneficiado a retribuí-la a cada um dos vizinhos presentes. Entre outros trabalhos é importante referir os seguintes: sementeira, sega do feno, desfolhada do milho, carreto de lenha para o Inverno.



Trabalhos colectivos são tarefas de interesse público. A população é convocada em massa, ou parcialmente por turnos pelo conselho de vizinhos ou pelo presidente da Junta de Freguesia. Os trabalhos a realizar podem ser, por exemplo, a arroteia dum campo, a limpeza de valas ou de uma fonte, a reparação da igreja, etc.

5. Manifestações comunitárias em Fafião


Na aldeia de Fafião sobrevivem, com um dinamismo considerável, várias formas de vida comunitária. Durante a estadia na aldeia teve-se a oportunidade de conhecer algumas delas, referidas neste capítulo do trabalho. Designadamente, serão descritas as seguintes actividades comunitárias que podemos identificar em Fafião:

  • A gestão dos baldios

  • Os acordos de vezeira de Fafião.

  • A gestão do sistema de rega

  • A utilização do lagar de azeite comunitário

  • A organização da Festa de Santiago

5.1 Gestão dos baldios


Como foi referido no subcapítulo sobre baldios, a ignorância e má-vontade do estado em relação ao modo de vida comunitário e ao regime de propriedade tradicional, causou grandes problemas legais, sobretudo no século XIX e, com mais força, a partir dos anos 40 do século XX.

No caso de Fafião, o conflito jurídico com a vizinha povoação de Ermida durou cerca de 20 anos, tendo sido resolvido favoravelmente a Fafião que apresentou documentos com centenas de anos, provando a utilização tradicional de baldios em terrenos no território a que actualmente a freguesia de Ermida pertence (na margem direita do Rio Fafião). Este conflito provocou uma complicada situação jurídica, pois a Ermida pertence a um outro Concelho e Distrito e a uma Comarca distinta. Assim, neste momento, parte dos terrenos Baldios administrados pelo povo de Fafião encontra-se noutra freguesia, concelho e distrito, uma situação assaz curiosa, mas que representa a verdade histórica.

Em Fafião os terrenos baldios representam cerca de 2000 hectares de terreno. Em comparação, os terrenos privados não deverão representar mais do que 20 hectares no total. Os terrenos são utilizados para pastagem, plantação, desbaste de árvores, limpeza de matos (utilizado nas cortes de gado), apicultura, etc. Compreende-se, assim, o grande interesse que toda a população coloca nestes terrenos.

Em Fafião os baldios são administrados por um Conselho Directivo constituído, de acordo com o regime legal em vigor, por 5 moradores mais 4 moradores na mesa da assembleia e 5 na comissão fiscalizadora. O Conselho Directivo é eleito por um período de 2 anos, podendo ser renovado.

O Conselho Directivo tem fundos próprios, obtidos, por exemplo, através da venda de madeira de árvores abatidas. Também recebe apoio de vários projectos governamentais, nomeadamente do IFADAP (Instituto de Financiamento e Apoio ao Desenvolvimento da Agricultura e das Pescas). Em geral estes fundos são aplicados na reflorestação, abertura de caminhos, limpeza, construção de presas de água, etc.

A gestão dos baldios em Fafião tem tido um sucesso considerável e representa um exemplo a seguir em outras regiões rurais do país. Concretamente, os habitantes de Fafião têm orgulho no facto de que, num país devastado por incêndios florestais, a incidência de fogos nos terrenos administrados pelo povo é muito baixa. Por outro lado, existe uma participação de 100% da população na utilização dos baldios, com um mínimo de conflitos.

Os baldios são, em Fafião uma realidade comunitária significativa, activa e geradora de riqueza que, para além das utilizações tradicionais, se apresentam como um potencial pólo de desenvolvimento da aldeia, nomeadamente através do eventual aproveitamento turístico.

5.2 A vezeira


A zona do Barroso é rica em pastagens devido à abundância de água que cria excelentes condições para a alimentação do gado nos chamados “lameiros”. A raça mais comum em Fafião é a Barrosã. Esta raça pura e original tem origem no tronco Mauritano e deverá ter chegado à península através dos contactos com povos do norte de África em tempos anteriores à nacionalidade. Fruto destes pastos naturais, a qualidade da carne Barrosã é uma referência da pecuária portuguesa, inigualável e reconhecida internacionalmente. No segundo quartel do século XIX, a raça atingiu o seu apogeu, sendo exportada para Inglaterra a partir do Porto.

A vezeira de Fafião é um excelente exemplo de acordo de vezeira pela sua eficácia e dinamismo.

Pelo facto de não existir nenhum documento antigo interno relacionado com os acordos de vezeira de Fafião, o único modo de adquirir conhecimento sobre este sistema é este através da observação participante e da informação fornecida pelos habitantes locais.

É importante referir o facto de que antigamente haver nesta aldeia cinco vezeiras diferentes: vezeira de bois, de vacas, de cabras, de cabritos e de ovelhas.

Actualmente, nesta aldeia, por surgirem outras ocupações económicas e pela alteração do estilo de vida tradicional, apenas se realizam uma vezeira de gado caprino e uma de gado bovino. A organização desta forma eficaz de cuidar dos rebanhos é realizada por duas associações de vezeira.

5.2.1 A vezeira da rês


Como foi referido na secção anterior, cada proprietário deverá pastorear o gado um número de dias proporcional aos seus efectivos. No caso da vezeira da rês, em Fafião, vinte cabeças implicarão a obrigação de guardar um dia durante o período total. Se um proprietário possuir apenas 10 cabeças de gado, irá uma vez numa circulação, ficando dispensado para o período seguinte.

O pastor, normalmente acompanhado por um cão volta, ao fim do dia, com o rebanho para a aldeia. Nos meses de Verão, a partir do primeiro dia do Junho, os animais, após o dia de pastagem, pernoitam na serra num curral bem acercado. Quanto ao pastor, volta para passar a noite na aldeia.


5.2.2 A vezeira das vacas

A associação da vezeira de Fafião é constituída pelos representantes das famílias envolvidas (tem actualmente dezanove membros) que todos os anos se juntam no primeiro Domingo do mês de Maio para resolverem os assuntos ligados quer ao ano anterior, quer à época que começa. Este acontecimento é chamado ajuntamento.5

No tratamento deste assunto, optou-se pelo exemplo concreto do Verão de 2004, aproveitando a oportunidade de assistir ao ajuntamento de Fafião, tal como ao Dia das Cabanas.

• O ajuntamento de 2004


De acordo com a tradição e as regras estabelecidas, no dia 2 de Maio foi realizado um ajuntamento na aldeia de Fafião, em frente à escola.

Uma buzina anunciou o ajuntamento. Depois de ter sido formado um semicírculo pelas pessoas convocadas, os dois dirigentes6 - conhecidos pelo povo como “os do acordo” - iniciaram o ajuntamento no dia 2 de Maio, às oito horas da manhã.

Em primeiro lugar foi feito o balanço financeiro relativo ao ano anterior, sendo mencionada a situação actual. Foi ainda referida a questão do contencioso com a aldeia vizinha da Ermida que foi resolvida em tribunal e que se revelou muito dispendiosa para a vezeira de Fafião7.

A seguir, passou-se a discutir os problemas da vezeira anterior, destacando-se os casos (não permitidos) de uso “ao feirio”, ou seja, a pastagem de outro gado nos baldios destinados exclusivamente aos fins da vezeira, efectuada tanto pelos próprios membros como por outras pessoas.

Foi também referida a importância do aviso da cobrição de uma vaca, tendo em conta a possibilidade de esta situação passar despercebida.

O momento mais importante da sessão costuma ser a marcação do primeiro dia da vezeira. Para este ano foi combinado iniciar a vezeira no Sábado seguinte caso as condições meteorológicas o permitissem.

Naturalmente, é sempre necessário falar acerca da época vindoura, preocupar-se com as questões técnicas, com vários arranjos, reparações (por exemplo assegurar o acesso dos pastores a água etc.).

A principal preocupação dos participantes dizia respeito à maneira de agir em caso de lesão de um dos animais no meio da serra, e as consequências que isso acarretaria. Aqui surge uma contradição entre a nova lei e as práticas seculares, inegavelmente lógicas.

Segundo a lei, em caso de um ferimento grave num animal (por exemplo a fractura de uma perna), o veterinário deve ser chamado para analisar o caso e decidir a medida a tomar. No entanto, isto poderia provocar sofrimento desnecessário no animal. Segundo o hábito, o animal seria abatido o mais rapidamente possível e, aplicando as práticas solidárias, a sua carne recolhida e distribuída pelos participantes da vezeira, que compensariam monetariamente o seu proprietário, no sentido de diminuir o seu prejuízo. A recolha da carne é feita na própria serra, por se tornar impraticável o transporte do animal ferido por longas distâncias. Esta prática não é, hoje em dia, permitida por lei, o que provoca algum desagrado por parte dos participantes da vezeira.

Como a associação de vezeira é uma estrutura aberta, foi possível assistir ao ingresso de um novo “vizinho” (não havendo objeções por parte dos outros associados) que, ao pagar a soma de entrada de 50 euros, ficou afiliado ao conjunto, com todos os direitos e deveres instituídos.

A propósito da entrada deste novo vizinho, foi decidido que, na época seguinte a quantia de adesão na associação seria aumentada para 100 euros.

O ajuntamento durou aproximadamente uma hora. Foi possível observar alterações na formação do semicírculo, bem assim como algumas reacções emocionais por parte de alguns dos participantes, dependendo da relevância dos assuntos tratados. As intervenções estavam, na sua maioria ligadas à necessidade de resolver determinados problemas e de antecipar eventuais complicações.

Ao longo da sessão era notória a palavra moderadora por parte dos dois dirigentes. É importante destacar a possibilidade de intervenção de qualquer dos associados na tomada de decisões comuns.

• O Dia das Cabanas

Assim é designado, pelos locais, o dia inicial da vezeira das vacas em que o gado pela primeira vez aproveitará os pastos dos terrenos comuns. Neste dia participam todos os associados que sobem à serra com o fim de criar condições adequadas para a época em causa.8


Tal como tinha sido decidido no ajuntamento, no sábado seguinte às seis horas da madrugada começou o processo do Dia das Cabanas. Algumas pessoas, por opção própria, levaram os seus bovinos neste dia. Foi levado também o boi do povo pelo responsável da sua guarda.

Carregados de ferramentas e outros utensílios necessários aos arranjos, incluindo equipamento de cozinha, e não esquecendo comida e bebida, todos os participantes subiram separadamente até ao lugar de encontro – a primeira área de pastagem. Neste local, ocorreu a contagem de cabeças dos bovinos trazidos, da qual resultou aproximadamente um terço da quantidade total presumível (cerca de 100 bovinos, incluindo os que nascerão na serra). É neste local que ficará o rebanho por algum tempo e onde os pastores dormirão na sua cabana. Esta área, tal como outras áreas de pastagem, inclui uma zona de pastos, um curral, uma cabana e uma fonte ou outro acesso a água.

Hoje em dia, nos baldios da vezeira de Fafião, encontra-se ainda em utilização cerca de uma dezena de currais e respectivas cabanas.

Quanto à construção das cabanas – pequenos abrigos espalhados pelos montes, servindo de pernoita aos pastores nos meses de vezeira - estas são construídas, maioritariamente, em pedra, possuindo diversas variantes, conforme a época em que foram construídas. Muitas vezes, na sua construção, é aproveitada a natureza do terreno (elevação, pedras grandes ou rochas para uma parede).

A cabana tradicional, é constituída por uma estrutura em forma de “colmeia” (aproximadamente cónica, com cerca de 2 ou 3 metros de diâmetro), em que as pedras são empilhadas em círculos irregulares sucessivamente mais fechados até ser atingida uma determinada altura (cerca de 1.5 m). A partir desta altura são colocados terrões9, da mesma forma, até se atingir o ponto mais alto. Os terrões proporcionam algum isolamento e protecção da chuva. No interior há um espaço destinado a uma pequena fogueira.

Existia apenas um exemplo da cabana tradicional na zona de Fafião10, mas no Dia das Cabanas, estava a ser recuperada mais uma destas. Recentemente, tem-se substituído a cobertura de terrões (pouco duradoura) por coberturas de cimento ou chapa.

Ao lado das cabanas são geralmente colocadas pedras de modo a proporcionar mesas e bancos para as refeições.

Relativamente a este tema, ainda é necessário apontar para o facto de estar prevista a adaptação de uma das cabanas com o objectivo de servir do lugar de pernoita para os turistas.

O curral é o lugar de pasto, de recolha e de contagem do gado ao fim do dia.

A zona de pastagem é limitada por portelos, muros toscos e relativamente baixos, construídos em pedra, com a função de impedir os animais de passar para além da área delimitada.


• Actividades de manutenção


No Dia das Cabanas, dividiram-se os participantes em grupos cuja função é a de tratar da manutenção e conservação dos vários componentes relacionados com a vezeira – cabanas, currais, portelos, etc.

Uma destas actividades é a limpeza das cabanas.11

Assim, foram retiradas plantas velhas e secas(que têm a função de cama) do interior da cabana, que seguidamente foram queimadas e substituídas por novas plantas colhidas no exterior.

Outra actividade importante está relacionada com a utilização da água. Nos anos anteriores foram colocados tubos de modo a desviar água de nascentes para locais perto das cabanas. Uma das funções consiste na verificação e manutenção destes sistemas.

Também é efectuado a revisão e manutenção dos caminhos, de modo a facilitar o acesso, bem assim como a reparação dos portelos, e das mariolas - pedras amontoadas em forma de pirâmide, assentadas quer em sítios mais baixos, quer mais elevados, com o objectivo de indicar os trilhos dos pastores em situação de nevoeiro ou em trechos menos reconhecíveis.

Os membros da vezeira têm um meio particular de comunicação através de sinais sonoros vocais combinados previamente, para verificar a presença de um outro elemento da vezeira na serra. O sinal de resposta e confirmação de um elemento da vezeira deverá ser diferente do sinal de chamada.

Por outro lado, os elementos da vezeira comunicam através de setas no chão de modo a indicar que já passou por determinado local no caminho de volta.

• O funcionamento da vezeira


O gado barrosão é muito valioso e exige um cuidado particular por parte dos seus proprietários. Assim, a função de levar o gado à serra constitui uma enorme responsabilidade, devido ao valor global de todo o gado envolvido, cujo número poderá atingir uma centena de cabeças.

A vezeira é regida por regras específicas. Um participante deverá guardar o rebanho um número de vezes aproximadamente proporcional ao número de cabeças que possui. No caso de Fafião, dois bovinos correspondem a um dia a guardar o rebanho num sistema rotativo. No caso de possuir, por exemplo, 3 cabeças de gado, deverá num ciclo guardar uma vez e no ciclo seguinte duas vezes. O número de rodas numa época dependerá do número total de participantes e de cabeças de gado.

Cada família deverá indicar os seus representantes para guardarem o gado num determinado ciclo deste sistema rotativo. Em cada subida com o gado deverão estar presentes duas pessoas, sendo um obrigatoriamente maior de idade e o outro deverá ter idade mínima de 12 anos, independentemente do sexo.

Os participantes que vão iniciar a guarda do gado deverão subir de tarde, de modo a que seja possível às pessoas que se encontram na serra descer à aldeia antes de anoitecer.

As áreas dos pastos e das respectivas cabanas serão mudadas consoante a decisão dos dirigentes, dependentemente da possibilidade do seu aproveitamento.

Á medida que vai terminando a época da vezeira, o gado começa a ser trazido por alguns proprietários para as suas casas. Todavia, este facto não implica a omissão da obrigação de continuarem a guardar o rebanho. O fim da vezeira é estabelecido para o dia de 29 de Setembro, sendo esse hábito anual.

É comum os pastores levarem armadilhas para lobos, pois é sempre possível a aparição de uma alcateia. Tradicionalmente era costume fazer batidas ao lobo, de modo a eliminar este animal. Nesta actividade participava um grande número de pessoas e o objectivo era encurralar o lobo numa estrutura em pedra conhecida como “fojo do lobo”. Esta estrutura é constituída por dois grandes muros convergentes em ângulo agudo, em geral numa encosta descendente, podendo ter várias centenas de metros, terminando num buraco profundo coberto por ramagens onde o lobo cairia e seria finalmente abatido. O Fojo do lobo de Fafião, recentemente recuperado, representa um dos mais extraordinários exemplares destas estruturas tradicionais. 12



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