10 Tornaram-se célebres as várias frases de efeito as lapidary



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Universidade Federal de Pernambuco

Hamlet


18 de junho de 2010

Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Artes e Comunicação

Departamento de Letras

Disciplina: Teoria da literatura 4

Professor: César Giust

Aluna: Karine Lima

Frases lapidares e o recurso da loucura

Duvida que o sol seja claridade;
Duvida que as estrelas sejam chama;
Suspeita da mentira na verdade;
Mas não duvida deste que te ama!

( William Shakespeare)


Índice
Introdução......................................................................................................04

Análise das frases e trechos em Hamlet.......................................................05



  • Frases relacionadas com o assassinato do pai de Hamlet............... 05

  • Frases relacionadas com o amor de Ofélia....................................... 11

  • Análise do monólogo de Hamlet....................................................... 14

  • Análise da frase: “fragilidade teu nome é mulher”..............................16

A loucura em Hamlet.....................................................................................18

  • Primeiramente uma definição de loucura...........................................18

  • Hamlet: louco ou fingido?.............................................................. ... 20

  • Ofélia: desesperada e confusa....................................................... ...23

  • Rainha Gertrudes e a teoria de Foucault............................................26

Conclusão.....................................................................................................28

Referências bibliográficas.............................................................................29



Introdução:
Shakespeare é um dos maiores autores de todos os tempos, seus textos se mostram atuais e ainda são retratados e adaptados de diversas formas, na televisão, no cinema, e muitas vezes tiveram releituras na própria literatura, como posso exemplificar com o texto nacional “a marca de uma lágrima”, que se baseia na peça Hamlet, do autor infanto-juvenil Pedro Bandeira.

Shakespeare nasceu em 1564, filho de John Shakespeare e Mary Arden, casou-se com Ann Hathaway e teve três filhos. Por volta de 1596, após ter morrido seu único filho homem, Shakespeare escreveu três peças que estão entre seus maiores sucessos: Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de verão e O mercador de Veneza.


Na peça que vou analisar Hamlet, príncipe da Dinamarca ao encontrar com o fantasma de seu pai, o antigo rei, é impulsionado para a vingança da morte deste último, assassinado friamente pelo seu próprio irmão, tio de Hamlet, atual rei. Além de matar o pai de Hamlet, seu tio acaba por casar com a Rainha Gertrudes, que parece cega ao ódio que seu marido sente pelo jovem Hamlet. Assim Hamlet finge loucura a fim de descobrir como destruir seu tio. Mas para consumar sua vingança, Hamlet tem que perder seus amigos, e seu amor: Ofélia.
No presente trabalho, irei analisar a peça Hamlet segundo suas frases lapidares e seus trechos mais famosos e importantes, relacionando esses trechos à psique de Hamlet, e verificando como cada uma dessas passagens vai influenciar o final da peça.
Também pretendo avaliar aqui se a loucura de Hamlet é verdadeira, ou apenas um fingimento esquematizado para terminar sua vingança, afinal, a loucura de Hamlet não parece de todo absurda, mas muito metodológica. Além da loucura do próprio Hamlet, pretendo analisar a loucura de sua amada Ofélia que também perde o juízo no decorrer da encenação, mas que mostra em sua loucura os motivos claros de sua doença. E ainda a Rainha Gertrudes e sua aparente cegueira com relação ao que se passa na corte.
Espero poder analisar esta peça da forma que ela merece ser analisada, já que é uma das peças mais importantes de todos os tempos.

ANÁLISE DE FRASES E TRECHOS EM HAMLET

As frases a seguir têm relação com Hamlet e o assassinato de seu pai.


  1. Creio que uma frase (ou trecho) interessante na obra do dramaturgo

inglês, é uma frase não tão famosa, mas que ainda assim nos deixa impressionado pela sua crueza. Hamlet em certa altura do texto teatral diz a seu tio:
HAMLET: Pode-se pescar com um verme que haja comido de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme.

O REI: Que queres dizer com isso?


HAMLET: Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo.

(HAMLET, L&PM, p.99)
Podemos interpretar esta frase de diversas maneiras diferentes, a primeira que certamente nos vêm a mente é o fato de mesmo aquele que em vida é o maior de todos, pode após a morte se transformar em coisa reles, e de nada adianta a soberba que tem o rei em sua vida se no fim das contas ele passará a ser comido por vermes.
No entanto a crueza com que Hamlet diz isso ao tio, ensaiando sua loucura, nos faz refletir se o príncipe da Dinamarca por acaso não está fazendo alusão ao assassinato de seu pai, o rei, que foi cruelmente assassinado pelas mãos do próprio irmão. Assim sendo, quando utiliza a metáfora do mendigo, Hamlet não se refere realmente a algum ser de qualidade inferior, mas ao ato mais pecaminoso de todos: o assassinato.

Quando diz ao tio que até mesmo um rei pode dar passeios na barriga de um mendigo, Hamlet pode estar querendo dizer: “até mesmo um rei pode cometer os atos mais escusos.”


Voltando à maneira como Hamlet fala, livre de eufemismos, podemos verificar que o que ele realmente deseja é causar impacto, é transtornar o tio, coisa que ele tenta fazer em toda a peça.
Outra interpretação possível é a do ciclo da vida, onde as coisas estão envolvidas de tal maneira que no fim das contas o crime que o rei cometeu vai ser descoberto e vai virar contra ele próprio, pois o rei que governa o povo, após morrer e sua carne ser devorada por um verme, pode ir parar no estômago daquele que mais foi oprimido. Ou seja: a verdade sempre vem à tona. Na sua fingida loucura, Hamlet por diversas vezes fala de maneira simples, mas o teor de suas falas é carregado de significados, e esta conversa dele e do rei, não seria diferente.
Tanto têm fundamento suas proposições, que o próprio Polônio quando trava diálogo com Hamlet chega a afirmar: “Que respostas precisas! Achados felizes da loucura; a razão saudável nem sempre é tão brilhante.” (Hamlet, L&PM, p.53)



  1. No quarto de sua mãe, Hamlet aponta seus crimes que foram cometidos

em união ao atual Rei, e após ver a figura espectral de seu pai entrar no quarto tenta fazê-la reconhecer seu erro, se arrepender e deixar de cometer outros erros. E diz:
O meu pulso, como o seu, marca o tempo calmamente,

E soa música saudável. Não é loucura

O que eu proferi; é só me pôr à prova

Que repito, palavra por palavra,

Aquilo que minha loucura embolaria. Mãe pela graça divina,

Não passa em tua alma esse enganoso ungüento

De que não é teu delito que fala, mas a minha demência.

Isso é apenas uma pele fina cobrindo tua alma gangrenada,

Enquanto a pútrida corrupção, em infecção oculta,

Corrói tudo por dentro. Confessa-te ao céu;

Arrepende-te do que se passou e evita o que há de vir;

Não joga estrume sobre as ervas daninhas

Que elas crescem com mais força.

Perdoa-me por minha virtude:

É! Na velhacaria destes tempos flácidos,

A virtude tem que pedir perda ao vício;

Sim, curvar-se e bajulá-lo pra que ele permita que ela o beneficie.

(Hamlet, L&PM, p.92)


Todo este trecho da fala de Hamlet se mostra muito uno, mas podemos retirar dele algumas frases isoladas e analisá-las:
A primeira delas seria: “isso é apenas uma pele fina cobrindo tua alma gangrenada.” A rainha ao ver o filho falando com um fantasma que para ela era invisível, e recebendo as acusações do filho que a acusa de ser cúmplice de uma morte e ainda por cima, manter um caso amoroso com um assassino, acusa-a de ter tido participação na morte de um homem bom e justo, em favor de outro que não era um décimo do primeiro, afirma que o filho está louco e que a visão deste fantasma é um engano de seu cérebro afetado pela loucura. Hamlet então afirma que sua loucura está servindo de desculpa para a rainha, que ela encobre seu crime, com o fato de o filho estar louco, quando uma coisa não tem nada em relação à outra, o fato de Hamlet estar, ou não, demente, não retira dela as culpas dos crimes que cometeu e dos que foi cúmplice.
Isso nos leva à segunda frase que podemos retirar deste trecho “Não joga estrume sobre ervas daninhas, que elas crescem com mais força.” Como a Rainha Gertrudes desejava cobrir seus crimes com a demência de Hamlet, e assim não iria se arrepender de nada, poria crime sobre crime, e todos os dias em seu leito incestuoso ela estaria colocando mais uma pedra no muro de crimes que já havia sido construído pela própria Gertrudes. Assim, Hamlet utiliza uma metáfora perfeita: quanto mais Gertrudes pusesse pecados (estrume) sobre aqueles que já haviam sido cometidos (as ervas daninhas), mais estes cresceriam, formando um circulo vicioso que só teria fim quando já não fosse mais possível voltar atrás.
Depois de falar toda a verdade que guardava dentro de si Hamlet diz À sua mãe: “Perdoa-me por minha virtude: É! Na velhacaria destes tempos flácidos, A virtude tem que pedir perda ao vício; Sim, curvar-se e bajulá-lo pra que ele permita que ela o beneficie.” Novamente temos em Hamlet uma metáfora: ele seria a virtude, e sua mãe seria o vício, é necessário que ele peça desculpas, para que ela aceite o que ele diz e aceite também ser ajudada por ele. Hamlet está claramente oferecendo seus préstimos à rainha e afirmando que iria ajudá-la caso ela permitisse.



  1. Logo no início da peça quando o Rei e a Rainha estão dando a

permissão para que Laertes regresse para a França o rei aproveita e tem uma conversa com Hamlet, em que pede para que ele abandone a face triste que carrega desde a morte de seu pai. Nesta cena o Rei se refere à Hamlet como primo e filho: “E agora caro Hamlet, meu filho e meu primo...” (Hamlet, L&PM, p. 21) usando o recurso “à parte” Hamlet afirma: “me perfilha como primo, pois não o primo como filho.”
Hamlet deixa claro desde aí a sua repulsa pelo casamento de sua mãe com o seu tio, e parece ter a impressão de que o Rei conhece sua opinião, pois o fato de tratá-lo como primo parece a Hamlet um prenuncio de que eles nunca se completarão enquanto família, a única que durante toda a peça parece querer unir a família é Gertrudes, e o Rei só trata Hamlet por filho, provavelmente em respeito a ela. Mesmo que neste trecho da história ele ainda não conheça o grande segredo, visto que ainda não conversara com o espectro de seu pai.



  1. Em diversas partes do texto Hamlet parece não querer fazer o que está

destinado a fazer: matar seu tio. Às vezes parece se sentir pressionado pela morte do pai, que deve ser vingada, e ao mesmo tempo pelo desejo de se ver livre de tudo aquilo, pelo desejo de voltar a ter sua vida normal de volta.
Também parece ter medo de seus próprios pensamentos, pois seu pai quando veio pedir-lhe a vingança, avisou-o: “mas, seja qual for a tua forma de agir, não contamina tua alma deixando teu espírito engendrar coisa alguma contra tua mãe. Entrega-a ao céu, e aos espinhos que tem dentro do peito: eles ferem e sangram!” (HAMLET, L&PM, p.38).
No entanto Hamlet percebe o pecado de sua mãe como sendo o pior de todos, pior até que o de seu tio, e não consegue controlar seus sentimentos vingativos que também se voltam contra ela. Assim ele fala consigo mesmo, quando vai ter com sua mãe no quarto da Rainha: “Por mais que as minhas palavras transbordem em desacatos não permita, meu coração, que eu as transforme em atos.” (HAMLET, L&PM, p.83) e quando conversa com Ofélia, já em seu estado de loucura, ele se condena por ter tais pensamentos contra a própria mãe, e isso, na verdade está piorando o ódio que sente de seu tio, e já, sem saber o que fazer, ele diz à Ofélia: “Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-lo.” (HAMLET, L&PM, p.69) Claramente, mesmo nem tendo cometido tais crimes, ele já se sente culpado por pensá-los contra a própria mãe.



  1. Quando está para apresentar a peça que armou, Hamlet conversa com

Horacio, que tem sido seu único amigo de verdade, pois até mesmo Rosencrantz e Guildenstern estão apoiando as decisões do Rei. Diz ele a Horácio que desde que a loucura se apoderou dele, e seu espírito se viu livre para compreender melhor os homens, Horacio tem sido seu favorito, porque não abandona sua maneira de ser. Mas Hamlet neste momento pensa em outras coisas, pensa naqueles que o circundam, pensa em sua mãe e no que ela fez com seu pai, em seus dois amigos que ajudam o Rei que está contra ele, pensa em Ofélia que faz tudo que o pai quer, e pensa no pai de Ofélia que é bajulador do rei. Em tudo isso ele pensa e comenta com Horácio, que é pobre, afinal, é um dos guardas, mas que tem sido o único verdadeiro com Hamlet, mesmo depois de sua queda, de sua loucura e todo o resto que lhe tem acontecido: “Por que lisonjear o pobre? Não; a língua açucarada deve lamber somente a pompa extrema, e os gonzos ambiciosos dos joelhos dobrar apenas onde haja lucro na bajulação.”



  1. Hamlet não consegue esconder a decepção pela morte de seu pai de

maneira tão vil, e por isso quando encontra o capitão do exercito de Fortimbrás e sabendo que eles pretendiam atacar a Polônia ele afirma mais para consigo mesmo: “Isso é um abscesso causado por muita paz e riqueza: arrebenta por dentro não mostrado por fora, a causa mortis.” (HAMLET, L&PM, p.101)

Neste trecho Hamlet fala do reino da Polônia, mas a metáfora que usa é claramente a da morte do próprio pai, visto que este foi vitima de um veneno implantado por seu irmão, mas que para todos foi considerado veneno de cobra.





  1. Outra frase Célebre da peça Hamlet é: “Há algo de podre no reino da

Dinamarca”, essa frase se tornou tão importantes para a peça que acabou se transformando um resumo da própria peça. Qualquer um hoje, que pense sobre a peça Hamlet, acaba logo por pensar nesta frase. Tão famosa ficou essa expressão que virou ditado popular, e seu significado na maioria das vezes é de que tem algo estranho e ruim acontecendo. No texto essa frase também significa isso. Após ver Hamlet se afastar para conversar com o espírito de seu pai Marcelo, um guarda do castelo comenta com Horacio que “há algo de podre no reino da Dinamarca”.
E ele está certo, como acontece diversas vezes na peça, com diversos outros personagens, Marcelo parece ter uma revelação do que está para acontecer. Quando diz ao companheiro que existe algo estranho no ar, está quase profetizando o fim da corte dinamarquesa que se dá no final do livro, pois assim acaba-se a família de Hamlet. Também parece que Marcelo sente o que se passa com Hamlet e com “reino da Dinamarca” ele quer dizer “corte dinamarquesa” se referindo aos crimes cometidos pelo Rei, e pela devassidão da Rainha, classificando de podres esses atos.


  1. No mesmo ato, Horacio fica desconcertado com tudo o que acontece e

não consegue conter seu espanto, por ter visto ali, o fantasma do próprio Rei. Hamlet diz uma frase neste momento que apesar de ser dirigida a Horacio, parece muito mais ser direcionada a ele mesmo: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia”.

Mesmo neste trecho parece que Hamlet fica impressionado com as coisas que sua mãe e seu tio fizeram a seu pai. Quando diz essa frase, parece querer dizer a si mesmo que existe de tudo no mundo, e que as pessoas têm coragem de fazer todo tipo de coisas.



As frases a seguir têm relação com Hamlet e o amor de Ofélia


  1. Quanto ao amor de Hamlet e Ofélia, e o temor de Polônio de que este se

consume ele afirma à sua filha: “São chispas minha filha, dão mais luz que calor e se extinguem no momento da promessa - não são fogo verdadeiro” (Hamlet, L&PM, p.31)
O maior medo de Polônio é certamente pela castidade de Ofélia, pois ao dizer que esse amor se extingue quando mais promete, está afirmando que após conseguir de Ofélia o que quer Hamlet certamente a abandonaria.

Polônio,no entanto, parece estar sempre de acordo com os desejos do Rei, e não lhe agrada o amor de Ofélia e Hamlet, porque simplesmente o príncipe não o agrada, tal como não agrada ao Rei. Aproveita este fato, que acha ser o responsável pela loucura repentina de Hamlet para cumprir seu papel de bajulador real, e está sempre contra Hamlet e fazendo aquilo que agrada ao Rei.





  1. Na cena III do primeiro ato quando Laertes está se despedindo de

Ofélia, pois regressa para a França, ele dá à irmã conselhos sobre como proceder quando Hamlet insistir no romance. Laertes parece se dar bem com Hamlet e diferentemente do pai não o ataca com palavras, mas de toda forma se põe contra:
Talvez Hamlet te ame, agora, e não haja mácula ou má fé,

Só sinceridade em suas intenções.

Mas você deve temer, dada a grandeza dele,

O fato de não ter vontade própria:

É um vassalo do próprio nascimento.

Não pode, como as pessoas sem importância,

Escolher a quem deseja, pois disso depende

A segurança e o bem estar do estado.

(Hamlet, L&PM p.28)
Como se pode observar a opinião de Laertes difere da opinião de Polônio, pois Laertes não acusa Hamlet de ser falso em seus sentimentos, mas sim, de não ter direito à escolha, visto sua posição como príncipe, interessante notar que Laertes parece neste trecho prenunciar o que vai ocorrer, pois Hamlet acaba por não se deixar levar pelo amor que sente por Ofélia, não devido à questões de Estado como previu Laertes, mas sim ao seu juramento de vingança.



  1. No momento em que Hamlet se encontra com Ofélia rezando o seu

diálogo parece sempre tomar o rumo de se voltar para a sua mãe. Hamlet parece sempre extremamente decepcionado com a conduta inapropriada da Rainha. Na cena em que conversa com Ofélia eles travam o seguinte diálogo:
HAMLET: Ah, ah! Você é honesta?

OFÉLIA: Meu senhor?!

HAMLET: você é bonita?

OFÉLIA: O que quer dizer Vossa Senhoria?

HAMLET: Que se você é honesta e bonita, sua honestidade não deveria admitir qualquer intimidade com a beleza.

OFÉLIA: Senhor, com quem a beleza poderia ter melhor comércio do que com a virtude?

HAMLET: O poder da beleza transforma a honestidade em meretriz mais depressa do que a força da honestidade faz a beleza se assemelhar a ela.

(HAMLET, L&PM, p.68)


Apesar de estar dialogando com Ofélia, Hamlet parece falar de sua mãe, pois a beleza da rainha Gertrudes a tornou cúmplice de um crime terrível cometido contra seu próprio marido. Marido este a quem sempre deu mostras de carinho, como afirma o fantasma: (sobre o tio)
Essa besta incestuosa e adultera, com seu engenho maligno e dádivas de traição – Maldito engenho e dádivas malditas. Por seu poder de sedução! – descobriu, pra sua lascívia incontrolável, a volúpia da minha rainha tão virtuosa – em aparência. (HAMLET, L&PM, p.36)
Para Kelly Lima Hamlet passa a condenar e pôr à prova a fidelidade feminina após perceber esta fraqueza de sua mãe: trair seu pai com seu tio.



  1. Hamlet se vê desamparado pelas duas mulheres que ama, e percebe

que o mor delas nunca foi real. O amor de sua mãe pelo seu pai nunca foi real, e o amor de Ofélia por ele, também nunca foi real, dada a maneira como ela o trata, sempre indo de acordo com o pai. Ofélia devolve a Hamlet, por insistência de seu pai, os presentes e cartas que ele lhe dera, e o príncipe compreende este ato como um sinal de que o amor que Ofélia sentia acabou, e se acabou, na verdade nunca existiu.
Quando estão assistindo à peça teatral, o prólogo se dá em apenas uma frase, assim Hamlet fala:

“HAMLET: isso é um prólogo ou uma inscrição de anel?

OFÉLIA: pelo menos foi curto.

HAMLET: como o amor da mulher.”



Análise do solilóquio de Hamlet
A cena mais famosa de Hamlet certamente é a do monólogo que se dá quando ele encontra com Ofélia. Hamlet vem pensando em sua vida, refletindo tudo que tem acontecido e traz para a peça um dos grandes dilemas humanos: é preferível morrer e dar fim ao nosso sofrimento, ou viver e enfrentá-los?
Ser ou não ser- eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angustias

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer, dormir,

Só isso. E com o sono – dizem- extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável. Morrer – dormir-

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos hão de vir no sono da morte

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotência do mando, e o achincalhe

Que o mérito paciente recebe dos inúteis,

Podendo ele próprio, encontrar seu repouso

Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –

O país não descoberto de cujos confins

Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,

Nos faz preferir suportar os males que já temos,

A fugirmos pra outros que desconhecemos?

E assim a reflexão faz todos nós covardes.

E assim o matiz natural da decisão

Se transforma no doentio pálido do pensamento.

E empreitadas de vigor e coragem

Refletidas demais, saem de seu caminho,

Perdem o nome de ação.

(HAMLET, L&PM, p.67-68)


Esse trecho de Hamlet nos faz refletir sobre a vida humana, e a preferência da vida perante a morte. Logo de início Hamlet se pergunta se é mais nobre suportar as dores da vida ou dar um fim nela, morrer e dizem que a morte é como um sono profundo e morrer é também dar fim às tristezas da vida. Mas Hamlet recorda que se morrer é dormir, convém que se sonhe, e essa é a grande dúvida pois não se sabe qual é o sonho que temos quando morremos e por isso agüentamos tudo o que acontece em nossa vida, por isso o servo aceita passar a sua vida a servir, por isso as pessoas aceitam os desmandos de um ditador, porque não querem trocar o sofrimento em vida, por uma dúvida em morte. Não sabemos o que nos espera depois que morremos. E assim Hamlet finaliza com um pensamento que resume todo o pensamento: a dúvida de morrer e ir para alguém lugar de onde ninguém nunca voltou nos faz preferir as dores que já temos, a trocá-las pelas que desconhecemos, e pensar assim nos faz covardes, nos faz aceitar tudo de mal que nos possa acontecer.
Podemos ainda entender esse medo do que vêm com a morte como um pensamento muito religioso, pois esta peça foi escrita na época em que surgia a Reforma na Inglaterra, e podemos verificar muitos dogmas católicos inseridos nela, como no caso da morte de Ofélia que não deveria ser sepultada como cristã, visto que ela praticamente se suicidou, etc. O medo que Hamlet parece ter de dar fim na própria vida, pode ser entendido como esse medo de não ter direito ao reino dos céus por se tratar de um suicídio. Mas Hamlet também parece não ter a certeza de que a pessoa se dirija ao céu ou ao inferno, denotando um pensamento vindo da religião protestante que vai contra a opinião católica.


Análise da frase: “Fragilidade teu nome é mulher”.
Optei por analisar esta frase independentemente das outras, porque ela tem diversas implicações na obra de Shakespeare. Primeiramente nos perguntamos: por que Hamlet diz esta frase?
É importante conhecer a impressão que Hamlet tem de sua mãe. Mesmo quando conversa com Ofélia, Hamlet fala nas entrelinhas das atitudes de sua mãe, que ele vê como frágil, fútil e luxuriosa. Quando conversa com ela em seu quarto, ele afirma não compreender porque a Rainha Gertrudes se deixou levar pela paixão que sentiu pelo rei Cláudio, seu tio, e que a fez cometer tão terríveis crimes contra seu pai.
Na verdade a Rainha se mostra mesmo fraca de espírito quando depois de ser acusada de seus crimes por Hamlet ela vai dizer ao marido que ele estava louco, quando ela mesma verificou que ele na verdade fingia sua loucura. Em conversa com a rainha, Hamlet a acusa de usar a loucura do filho para se redimir, e na verdade ele até a aconselha a não se deitar mais com o rei, para que assim (deixando de cometer este pecado) ela se redima de todos os outros que ela já cometeu.
No entanto alguns estudiosos, principalmente os que seguem a linha feminista defendem a rainha afirmando que ela nunca soube do envenenamento do marido que morreu. Realmente, Gertrudes não parece conhecer a verdadeira face do atual marido, o rei Cláudio muitas vezes é dissimulado com a rainha. Existe um trecho de conversa entre Laertes e o Rei, no qual eles planejam assassinar Hamlet, Cláudio insuflando Laertes com mentiras sobre uma suposta inveja que Hamlet sentiria do rapaz, mas quando Gertrudes chega com a noticia da morte de Ofélia e Laertes sai de cena ele diz à esposa que teme pela vida de Hamlet, já que ele tentou de todas as formas demover Laertes da idéia de vingança, mas Laertes não pareceu escutá-lo. O amor de Gertrudes por Hamlet não é falso como o que sentia pelo marido, mas mesmo assim ela jamais se põe contra o marido e à favor de Hamlet.

Sua culpa a consome por dentro tanto que ela afirma a Hamlet quando ele a acusa de ser cúmplice da morte de seu pai: “Oh, Hamlet, não fala mais. Você vira meus olhos pra minha própria alma; e vejo aí manchas tão negras e indeléveis que jamais poderão ser extirpadas.” (HAMLET, L&PM, p. 90).


Ofélia por sua vez, atende ao seu pai que não aprova o seu namoro com Hamlet e não se permite mais vê-lo, até por causa de sua loucura. É acusada por Hamlet de ser prostituta. Além do pai, Ofélia tem medo de se tornar mais uma nas mãos de Hamlet.
A loucura de Ofélia, ao contrário da loucura de Hamlet se mostra verdadeira, pois ela se vê só, e como ela poderia sobreviver? Se sempre se viu cercada dos conselhos do pai e do irmão? E agora o pai morreu e assassinado pelo amor de sua vida. Estranhamente alguns críticos discordam e afirmam que Ofélia enlouqueceu porque se sentiu feliz pela morte do pai, já que dessa forma ela ficou livre para Hamlet, e não compreendendo essa alegria, ela enlouquece.
Kelly Lima, afirma que em determinadas falas de Ofélia percebe-se a vontade dela de se deixar levar, de deixar de lado as recomendações de seu pai. Pois ela tinha com Hamlet um romance, escondida de seu pai. E Ofélia não seria tão ingênua, pois Hamlet quando a manda seguir para o convento, em uma de suas cenas de loucura a acusa da seguinte maneira: “Já ouvi falar também, e muito, de como você se pinta. Deus te deu uma cara e você faz outra. E você ondula, você meneia, você cicia, põe apelidos nas criaturas de Deus, e procura fazer passar por inocência sua volúpia.”
Porém não se deve julgar Ofélia e Gertrudes por sua maneira de agir, visto que assim agiam as mulheres de sua época. Estavam sempre sob os mandamentos de algum homem: ou seu pai, ou seu marido, e ainda mais essas duas senhoras da corte. O que seria de Gertrudes caso realmente não se casasse com Cláudio? Deixaria de ser rainha, e ela não se acostumaria, para se manter próxima do trono da Dinamarca, ela teve que se casar.
E Ofélia atende ao seu pai e seu irmão, mesmo contra a sua vontade, pois assim agiam as moças. Ela também sabe que deve se conter caso deseje algo realmente sério com o príncipe, e não se conforma quando este vai embora.

A LOUCURA EM HAMLET


  • Primeiramente uma definição de loucura.

O recurso da loucura é amplamente abordado em Hamlet, sendo evidenciado na loucura do próprio príncipe, e na loucura que aflige sua amada Ofélia quando ele assassina seu pai. A questão é compreender como se dá este fenômeno na obra Shakespeariana e entender se essa loucura vai ter alguma influencia na peça, ou se são cenas que nada têm a ver com a temática da morte e da vida que permeia o texto.


O Grande Dicionário Larousse Cultural, do ano de 1999 traz para o verbete “loucura” a seguinte definição:
LOUCURA s.f.: 1. qualidade ou caráter do que é louco. – 2. Doença mental, demência, insanidade. – 3. ato próprio de louco. – 4 falta de discernimento; absurdo, insensatez; doidice, louquice. – 5. ato de extravagância, de imprudência; temeridade. – 6. tudo que é fora do comum, que foge às regras estabelecidas... (Grande Dicionário Lrousse Cultural, 1999, p 577)
Se prestarmos atenção principalmente à quarta definição “falta de discernimento; absurdo, insensatez; doidice, louquice” percebemos que as características daquele afligido pela loucura devem ser eminentemente anormais e desconexas. A atitude do louco, e sua fala, devem ser carregadas de insensatez.
Foucault afirma que: “toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão sua loucura na qual ela encontra sua verdade irrisória” (FOUCAULT, 1997[1961], p. 30, apud SILVEIRA, F.A.; SIMANKE, R.T). Ou seja: a loucura apresenta sempre uma maneira diferente de olhar o mundo que vai justificar a maneira de olhar o mundo daquele acometido pela doença. Ao mesmo tempo em que a razão procura sempre no imaginário a desculpa para justificar a vida que leva aquele que é aparentemente normal.

Já Freud vai ver o impulso e os desejos reprimidos como causa da loucura. Quando a pessoa reprime seus desejos por causa da sociedade ou de conflitos psicológicos acaba por torná-la recalcada, e esses desejos reprimidos em certa altura, quando já o conflito psicológico é muito grande, podem surgir como impulso e a pessoa pode não suportar essa idéia, desenvolvendo uma psicose.


A tensão entre as exigências da consciência e os sentimentos concretos do eu é experimentada como sentimento de culpa. Os sentimentos sociais repousam em identificações com outras pessoas, na base de possuírem o mesmo ideal do eu. A religião, a moralidade e senso social foram originalmente uma só e mesma coisa. [...] Mesmo hoje os sentimentos sociais surgem no indivíduo como uma superestrutura construída sobre impulsos de rivalidade ciumenta contra seus irmãos e irmãs. Visto que a hostilidade não pode ser satisfeita, desenvolveu-se uma identificação com o rival anterior." (FREUD, 1923/ 1969, p. 52, apud FERNANDES, A. H.)
Tendo por base essas três concepções de loucura (a definição do dicionário, a definição de Foucault e a definição de Freud) passarei agora a analisar a loucura na peça Hamlet.

Hamlet: Loucura ou fingimento?
Ao ler a peça percebemos que Hamlet enlouquece de maneira súbita e que sua loucura é diferente da loucura que acomete Ofélia, pois a loucura de Ofélia faz com que ela pare de refletir seus atos, e apesar de ter fundamento em suas cantorias loucas, ela não parece ter o domínio do que a cerca, ao contrário de Hamlet que demonstra muita reflexão em sua loucura. Até mesmo Polônio percebe este fato quando trava diálogo com ele: “loucura embora, tem lá o seu método.” (HAMLET. L&PM, p.53) E o método é de fazer as pessoas olharem para dentro de si, visto que Hamlet chama Polônio de Rufião, vulgarmente conhecido como proxeneta, (um homem que se aproveita de uma prostituta e ganha dinheiro com o trabalho dela) certamente Hamlet se refere a Ofélia e quer dizer que Polônio não permite que eles se vejam porque se aproveita de Ofélia.
Diversas outras passagens mostram que a loucura de Hamlet é muito mais uma arma que ele vira contra todos que o cercam e que mostra a eles quem essas personagens verdadeiramente são. Podemos verificar um bom exemplo quando ele chama aos antigos amigos Guildenstern e Rosencrantz de esponjas:
HAMLET: me diz aí: ao ser interrogado por uma esponja,

Que resposta deve dar o filho de um rei?

ROSENCRANTZ: o senhor acha que sou uma esponja, meu senhor?

HAMLET: isso mesmo, meu caro, encharcada pelos favores do Rei, suas recompensas, seus cargos. São tais seguidores que prestam os melhores serviços ao Rei. Ele os guarda no canto da boca como o macaco faz com a noz; primeiro mastiga, depois engole. Quando precisa do que vocês chuparam, basta espremê-los. Espremidos, vocês esponjas, estão secos de novo.

ROSENCRANTZ: me recuso a compreendê-lo senhor.

HAMLET: fico contente em saber. O discurso patife dorme no ouvido idiota.

(HAMLET,LPM,p.97)
Neste trecho podemos ver que Hamlet acusa os amigos de serem bajuladores do rei e não perceberem que este os usa como bem quer, contra aquele que sempre foi seu amigo.

Outros exemplos podem ser dados de passagens em que Hamlet usa a loucura para fazer os outros refletirem seus atos. Utiliza este recurso até mesmo com a mãe, quando afirma que ela usa sua demência para disfarçar seus erros.


Mas a loucura de Hamlet é verdadeira? Portella Nunes em seu estudo que compara as obras de Shakeapeare com as teorias Freudianas aponta a loucura de Hamlet como sendo falsa:
Sendo a loucura fingida uma loucura com uma finalidade, ela é, necessariamente também, uma loucura com método. No Hamlet, é Polônio quem vai perceber esta característica no interrogatório a que submete o príncipe para descobrir as “causas” de seu estado. (Portella Nunes, 1989)

É possível verificar que a loucura de Hamlet é fingimento porque ele deixa de ser louco no fim da peça, e age normalmente ao falar com Laertes. Etambém revela à sua mãe que a loucura é falsa, apesar de depois disso ainda se comportar como louco. Mas a prova definitiva é quando ele vê o fantasma de seu pai e diz ao amigo Horácio:


Por mais estranha e singular que seja a minha conduta – Talvez, de agora em diante, eu tenha que adotar atitudes absurdas - vocês não devem jamais, me vendo em tais momentos, cruzar os braços, mexer a cabeça assim, ou pronunciar frases suspeitas, como “ora, ora eu já sabia.”

(HAMLET, L&PM, p.41)


Ou seja, não devem mostrar nunca que sabem que Hamlet está fingindo, não devem mostrar ter conhecimento da causa de sua maneira estranha de agira e devem fingir que a loucura é verdadeira. Antes de ser loucura, a estratégia de Hamlet é fingir-se louco para cada vez mais se aproximar do Rei e descobrir-lhe as fraquezas. A única passagem em que parece realmente atormentado pela loucura, é a cena em que vê o corpo de Ofélia para ser sepultado e ele se atira contra ela, e declara todo o seu amor, mas este gesto pode ser reconhecido como dor e sofrimento e não apenas como Loucura.

Apesar de ser provadamente fingida, a loucura que Hamlet finge, parece diversas vezes querer confundi-lo, pois Hamlet pensa muito sobre a morte, como se desejasse acabar com a própria vida, no intuito de acabar com a promessa que fez ao pai. Também se vê a loucura dominá-lo na cena da morte de Ofélia, em que louco por ter perdido sua amada ele grita palavras aparentemente desconexas que declaram seu amor, e se joga em sua sepultura.



Ofélia: desesperada e confusa
Para começar a falar de Ofélia é necessário mais um conceito, que vai mostrar porque Ofélia enlouqueceu: o significado de “recalque”. O dicionário online de português traz o seguinte significado:
Significado de Recalque s.m. O mesmo que recalcamento.
Psicanálise Processo inconsciente pelo qual uma idéia, sentimento ou desejo que o indivíduo tem por repugnante é por este excluído de admissão consciente mas persiste na vida psíquica, causando distúrbios mais ou menos graves. (Deve-se a Freud a teoria do recalque.) (Sin.: censura.)
A loucura de Ofélia não parece ser fingimento como a de Hamlet. Ofélia todo o tempo obedece às ordens dadas pelo pai de não ver mais Hamlet, e acata os conselhos do irmão que se embasam na mesma idéia, mas Ofélia se vê desencantada quando percebe que seu amor está ficando louco, e mais ainda quando sabe que o seu amado matou seu pai. Assim, ficando sem seu pai, que era a pessoa que a guiava Ofélia passa a não mais raciocinar e ter delírios loucos, que acabam por matá-la.
Em sua loucura Ofélia demonstra o carinho que sente, e o desejo de casar-se com Hamlet, e sua tristeza ao saber-lhe assassino de seu pai. Canta Ofélia, quando louca: “O pranto do amor fiel, fez as flores perfumadas descerem à tumbas molhadas” (p. 104)
Quando louca Ofélia também entrega o temor que tinha e porque obedecia às ordens do pai:

OFÉLIA: Amanhã é são Valentino

E bem cedo eu, donzela,

Pra ser tua Valentina

Estarei em tua janela.

E ela acorda e se veste

E abre o quarto pra ela.

Se vê a donzela entrando

Não se vê sair donzela.

RAINHA: Gentil Ofélia!

OFÉLIA: está bem, Ó!, sem praguejar, eu termino;

Por Jesus e Santa Caridade

Vão pro diabo os pecados

Os rapazes fazem o que podem

Mas como eles são malhados!

Disse ela: “antes de me atracar,

Você prometeu casar”.

Ele responde:

“pelo sol, eu o tinha feito

Se não fosses ao meu leito.”

(p. 104)
Como se torna perceptível neste trecho Ofélia demonstra através de suas cantorias porque não se encontrava com Hamlet, como seu pai lhe ordenava, temia ela, que ele se aproveitasse de sua inocência e depois nada mais quisesse. Ofélia não o fazia, apesar de parecer esse o seu desejo, e aí ela mostra que era uma pessoa recalcada, que reprimia o desejo de ficar com Hamlet unicamente porque seu pai proibia. Suas músicas, afetadas pelo seu distúrbio emocional são cruas ao falar de moças que se entregam aos seus amantes, demonstrando ser este o verdadeiro desejo de Ofélia. E o problema de Ofélia é ainda pior: Ofélia se vê de repente só, sem a companhia de seu pai e seu irmão que sempre lhe indicaram o caminho certo a seguir, visto que não tinha mãe, Ofélia se apóia firmemente na presença paterna, fazendo de tudo para obedecê-lo o melhor que pode. Ela fica confusa a partir do momento em que se apaixona por Hamlet e começa a desejar se libertar dos mandamentos do pai, quando finalmente se vê livre (o pai morre) e se alegra pois agora pode ficar com Hamlet, percebe forçosamente que de forma nenhuma pode ficar com o homem que matou seu pai, e para piorar Hamlet é mandado para a Inglaterra com Rosencratz e Guildentersn para se curar de sua loucura, e para o Rei se ver livre da presença inoportuna dele.

Voltando à frase de Foucault: “toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão sua loucura na qual ela encontra sua verdade irrisória”



A loucura de Ofélia, visto que é uma loucura verdadeira se mostra prova dessa teoria: a razão da loucura de Ofélia se demonstra através de suas músicas, o motivo de ter enlouquecido ficam evidentes quando ela canta cantigas antigas em que ora relembra Hamlet e seu desejo de ficar com ele, e ora recorda seu pai morto, no caixão.
Em um enxerto da obra “Freud e Shakespeare” de autoria de Portella Nunes, organizado por Bernardo Jablonski, verifica-se que Ofélia de certa forma se sente culpada por tudo o que aconteceu, visto que seu pai não a permitia aceitar Hamlet para namorado, e o próprio Polônio acaba por dizer que Hamlet está louco de amor por Ofélia, ou seja: Hamlet louco de amor por ela, mata seu pai. Atordoada por tudo isso Ofélia enlouquece, e ainda: quando Hamlet se passa por louco, passa a acusá-la de prostituta, e lhe repele. Tudo isso confunde tanto Ofélia, que ela acaba por se suicidar.

Rainha Gertrudes e a teoria de Foucault
Regressando à teoria de Foucault: “toda loucura tenha sua razão que a julga e controla, e toda razão sua loucura na qual ela encontra sua verdade irrisória” A rainha Gertrudes tenta fazer-se de cega durante toda a peça, fingindo não ver as armações de seu marido, e não perceber que ele na verdade não tem Hamlet como filho, como diz a ela, mas na verdade o odeia e quer sua morte.
Quando Hamlet fala com ela em seu quarto e ele o acusa de morte ela diz o tempo todo para que Hamlet se cale e pare de falar aquelas coisas porque machucam seu coração. Quando fala com ela, Hamlet está em um dos momentos nos quais mostram sua sanidade e fala dela e de seus atos de maneira clara. A única loucura neste momento é a morte de Polônio, mas que é justificada por Hamlet achar que se tratava do Rei Cláudio. Mas quando sai do quarto a Rainha corre para seu marido e diz-lhe que Hamlet está cada vez mais louco e que matou Polônio imaginando ser um rato.
Apesar de não querer mal a seu filho, e de parecer uma mãe amorosa com Hamlet, Gertrudes mostra que não está disposta a assumir seus erros e deixar-se levar pelas acusações que Hamlet faz ao Rei.
É ela exatamente o contrário de Ofélia,enquanto aquela se deixa abalar pelas coisas que vê acontecerem ao seu redor, a rainha Gertrudes mostra não se importar e viver alheia a tudo isso, pedindo para que Guildenstern e Rosencrantz ajudem Hamlet a se distrair, como se não soubesse o que realmente o afligia. Ela procura, para não se deixar enlouquecer também, fingir uma piedade falsa de Hamlet e de Ofélia. Note-se que na cena em que Ofélia aparece louca no castelo ela diz que não quer falar com Ofélia e só pede que ela entre quando Horácio diz que a loucura de Ofélia pode, em ouvidos maliciosos destruir a honra da família real, e apesar de não querer falar com a moça finge piedade e demonstra desejar que Ofélia e Hamlet se casassem:
Ela também busca, como diz a teoria, uma verdade que acaba por torná-la ridícula, pois para ela tudo está resolvido. Mas para dentro de si mesma ela sabe a culpa que tem. Diz ela quando Horácio vai buscar Ofélia: “Pra minha alma doente – a natureza do pecado é assim – cada migalha é um desastre, é o fim; a culpa é cheia de medo escondido que se trai, com medo de ser traído”. (HAMLET, L&PM, p.103). Encontra-se neste discurso da Rainha Gertrudes praticamente uma confissão de culpa.

Mas a Rainha não se arrepende de maneira nenhuma daquilo que fez em relação ao pai de Hamlet, pois quando Hamlet termina de falar com ela no quarto, ela pergunta o que deve fazer, ao que Hamlet responde: “De forma alguma nada que eu lhe diga: Deixe que o Rei balofo a atraia outra vez ao leito, que belisque suas bochechas de maneira Lasciva; Que a chame de minha ratinha.” (HAMLET, L&PM, p.93) apesar de afirmar todo o tempo que as palavras de Hamlet são como navalha em sua alma, ela depois diz que não entendeu nada do que ele disse, como se optasse por apagar toda a culpa que Hamlet lhe pôs nas costas. E depois quando o rei pergunta como está Hamlet ela afirma: “Louco como o mar e o vento lutando pra decidir qual o mais forte. Num acesso de Fúria, ouvindo alguma coisa se mexer atrás da tapeçaria, arrancou o florete e gritou: ‘um rato, um rato!’ e, exaltado, pela imaginação, matou, sem ver, o excelente velho.” Assim o Rei procura exilar Hamlet, e ela nada faz para detê-lo.


Gertrudes todo o tempo se finge cega, e nem parece reconhecer a verdade quando é envenenada, visto que não diz em nenhum momento que o Rei a envenenou, e ainda na hora da morte finge não saber como morreu.

Conclusão
Hamlet é uma obra sempre atual, pois as questões que ficam entre a vida e a morte sempre fizeram e sempre vão fazer parte da cultura Humana, devido ao fato de ser a morte, mesmo hoje em dia, com todos os avanços da ciência, um mistério. Além da questão da morte, também estão embutidas na peça as questões de caráter e de apego aos integrantes da família, e até onde se pode ir para obedecer às ordens paternas, Hamlet e sua vingança e Ofélia e sua promessa de jamais se aproximar do príncipe, mostram que o amor filial muitas vezes acaba por confundir.

Também são abordados nesta peça sempre atual, os conceitos de amizade verdadeira que se mostra na personagem de Horácio e de como é fácil se corromper por míseros favores, como acontece com Guildestern e Rosencrantz.


Cada personagem posto na peça traz uma reflexão diferente, Polônio traz o fiel servo que se prejudica em nome de seu Rei e faz tudo por ele. E a Rainha Gertrudes é a imagem da mulher fraca de espírito que se deixa levar pela luxúria e pelo medo.
Tipos sempre atuais, que são abordados ainda hoje em diversas obras da dramaturgia: peças teatrais, livros, novelas e que refletem realmente o comportamento humano.

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SHAKESPEARE, William. Hamlet. Porto Alegre: L&PM pocket, 2010.


Grande dicionário Larousse Cultural. São Paulo: Nova Cultural, 1999.






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